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Rebu, um seriado sapatão no Instagram

por   /  30/08/2019  /  21:21

Sextou! Que tal maratonar um seriado sapatão? No Instagram? Segue a dica: “Rebu: egolombra de uma sapatão quase arrependida”, um seriado feito por Mayara Santana (@tretasan) e disponível no formato IGTV no perfil @rebu.doc. A jovem pernambucana de 27 anos resolveu mergulhar na história de seus relacionamentos amorosos quando percebeu que, mesmo sendo uma mulher negra, lésbica e ativista, ela tinha muito do seu pai, um homem hétero, branco, um tanto machista. “Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas”, conta ela em entrevista ao blog.

Na série de seis episódios, Mayara relembra suas histórias, seus amores, conversa com o pai com uma sinceridade cortante – a mãe prefere não aparecer tanto, mas dá pra ouvir suas considerações. Tudo editado com fotos de infância e adolescência, da vida atual e da que já passou, um tanto de cultura pop, de “Chiquititas” a novela de Manoel Carlos, passando por Los Hermanos. A trilha sonora, aliás, é tão boa! Eu como nordestina chega sorrio ao entender tanto aquela mistura. 

Leia a seguir a entrevista que fiz com ela.

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– Como surgiu a ideia pro Rebu.doc? E como foi o processo entre ter a ideia e publicar a série? Os altos e baixos, as dúvidas… 

Faz um tempo que eu venho questionando e sendo questionada pelo modo que eu me relaciono nos meus namoros. Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas. Esse entendimento da minha condição veio em conjunto com uma análise pesada do tanto que eu parecia com meu pai, e na minha cabeça eu não parava de perguntar: Como uma mulher de 27 e anos cheia de consciência de classe, cor e gênero pode muitas vezes se comportar como o homem, boleiro, hétero dos anos 70. A partir daí nasce a vontade de investigar essa história. A princípio eu tinha vontade de fazer um curta simples onde eu gravaria uma conversa com meu pai, mas durante uma cadeira na faculdade de dispositivos móveis veio a ideia dessa série, e em uma tarde eu rabisquei todos os episódios. Cerca de um mês depois comecei a gravar, fiz todo o processo técnico sozinha, mas o processo de concepção foi divido com muita gente, especialmente minha mãe, minhas duas maravilhosas últimas ex namoradas e minha atual namorada incrível, paciente e generosa, que me deixou embarcar tranquilamente nessa viagem que é se olhar no espelho e se expor. E, rapaz, eu juro que no começo eu não achava que fosse ter tantos altos e baixos, hehe, mas aconteceram uns BOs sim. Minha mãe depois que soube de toda repercussão ficou um tanto tensa com a minha exposição,  e do meu pai e por consequência dela, e me preocupa muito que qualquer ação minha traga qualquer questão pra essa maravilhosa. Também tive algumas questões quando pensei e fui “conduzida” a pensar se o que eu tava fazendo não era uma romantização dos meus atos. Isso fez com o que eu tivesse que refazer um dos episódios. Enfim, muitos altos e baixos, mas também muita satisfação com as trocas que ter puxado esse assunto trouxe.

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– E, principalmente, como foi ver a repercussão? Como foi encontrar tanta identificação ao postar sua série no Instagram?

Então, confesso que fiquei um pouco surpresa com a repercussão, até por que fiz a série bem sem pretensão, inclusive sem tanta elaboração técnica. Mas agora olhando o tanto de mensagem e compartilhamento que recebi é um pouco compreensível, a gente não tem tanto conteúdo sapatão sendo difundido. Acho que outro fator é o tema, que é o centro da série, que é debater o fato que eu me identifiquei com uma sapatão abusiva. Muitas das mensagens recebidas é sobre ter passado como vítima ou agente dessa violência em uma relacionamento com mulher. Além disso a linguagem que eu usei subverte um pouco a ideia do documentário clássico, o fato de ser curtinho e estar na palma da mão trás um respiro pra esse modo de consumir material audiovisual. Além da repercussão na internet, tem rolado umas interações bem engraçadas na rua, nos rolês que eu frequento. Fiquei de cara com uma amiga que disse que assistiu com a mãe evangélica e a mãe disse: nunca pensei que ia me emocionar com uma sapatão. Isso é muito massa hehe.

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– O público adorou, né? E quer mais. Quais são os próximos passos que você pretende dar?

Então, para o Rebu eu tenho duas ideias até agora. Eu estudo cinema e a gente costuma pensar muito em filme no formato pra festival. E eu acho massa. Então essa primeira temporada de Rebu provavelmente vai ganhar um corte de curta metragem, mas confesso que me atrai mais a ideia de chegar direto nas pessoas sem o filtro de um festival, fechado em sala debatendo o material. Depois de receber um monte de mensagens acredito que seria massa continuar esse debate, então meu outro plano pra o Rebu é uma segunda temporada, em que eu debata temas que me atravessam mas botando outras sapatões na roda.

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– Conta um pouco de você? Quem é, qual idade tem, o que estudou, como começou no cinema?

Tenho 27 anos, sou designer e videasta, atualmente trabalho como assessora parlamentar e comunicadora em um mandato de esquerda aqui no Recife, mas sigo trabalhando em projetos paralelos tanto em cinema quanto em design. Comecei a estudar cinema depois de um tempo de trabalho com design, onde eu vinha achando a linguagem estática do design meio frustrante para o que eu queria expressar e viver. Agora depois de um tempo em cinema fiz as pazes com o design e tenho tentando unir os dois, construir narrativas visuais e principalmente me divertir contanto e escutando histórias. 🙂

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– Como é ser uma mulher negra e lésbica vivendo no Recife?

Ao mesmo tempo que essas vivências se alinham elas tem suas divergências, dependendo do contexto. Confesso que no meu contexto ser uma mulher negra tem sido um caminho mais tortuoso, é preciso correr 5 vezes mais que toda e qualquer pessoa branca, é preciso viver um processo constante de fortalecimento da auto-estima, é preciso lidar com infinitos BOs dessa sociedade racista que fode nossa cabeça. É bem cansativo, imagino que aqui como em todo lugar. No meu contexto ser uma mulher lésbica, mesmo que com todas suas problemáticas, tem sido um processo mais fácil, já que minha família é bem incrível e me enche de amor, e os demais ambientes que convivo são de puro acolhimento. Mas claro que eu não posso marcar bobeira, ser essas duas mulheres é se resistir diariamente quando saímos dessa rede de proteção. Mas é isso, mesmo com suas infinitas tretas é compensado pelo orgulho.

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– Conta um pouco do que te inspira? Eu amei muito as músicas, que playlist! Onde você busca referências, identificação, quem são suas musas?

Muito engraçado tu falar da playlist, muita gente mandou mensagem falando dela, e eu sem entender por que hehe. A escolha das músicas foi a partir do que tava presente na série, que é uma mistura bem aleatória das coisas que eu gosto de escutar e que de alguma forma marcaram minha vida, mas também entendo que mais gente tenha curtido. Impossível não dar certo Alcione, Mastruz com Leite, Mr. Catra e Maria Bethânia no mesmo lugar, haha.

É sempre difícil a gente definir referências quando a gente tá o tempo inteiro consumindo e recebendo estímulos visuais por todo canto, mas eu cato muita referência nas ruas, adoro escutar toda e qualquer história da vida dos outros, na época do meu pai talvez fosse chamada fofoqueira, hehe. Tenho buscado muita referência e passado por um processo de formação bem pesado nos últimos anos através do rap, tanto de referência visual quanto de conteúdo. Além das coisas palpáveis têm as referências que mobilizam a gente pelo sentir. Acho que os momentos caóticos que o país vem vivendo nos últimos anos deixou a gente mais ligado na política, e ter achado certas inspirações nesse meio é de certa forma achar referências. Já que é pra falar de “musas”, hehe, quando eu escuto uma fala de Áurea Carolina (Dep. Federal MG), de Talíria Petrone (Dep. Federal RJ), de Mônica Francisco (Dep. Estadual RJ) me inspiram na hora a querer escrever e contar a minha própria história, ser dona da minha narrativa. É muita mulher maravilhosa, eu ainda botava aí nessa minha lista Ana Maria Gonçalves (leiam “Um defeito de cor”), minha mãe Zefa, Débora Britto, minha namorada (já era musa inspiradora jornalista antes disso, haha), e por favor incluir Alcione, haha.

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“Meu ano de descanso e relaxamento”, de Otessa Moshfegh

por   /  06/07/2019  /  13:13

Otessa

Quando o livro é bem escrito a gente lê mesmo que não se identifique tanto com a história. “Meu ano de descanso e relaxamento”, de Otessa Moshfegh (@todavialivros, com tradução de @julianacunha), é um romance que descreve um experimento de hibernação de uma mulher jovem, bonita, que trabalha em uma galeria de arte e nunca mais vai precisar se preocupar com dinheiro na vida. Em uma Nova York do começo dos anos 2000, pré-11 de Setembro, ela sente um vazio gigante, apesar de todo o privilégio. E resolve lidar com isso dormindo. Por um ano. Com remédios prescritos por uma psiquiatra sem a menor condição de exercer a profissão, ela começa o experimento. Mistura de tudo e mais um pouco, se dá uns sossega-leão, enquanto o máximo que consegue fazer é caminhar até a loja de uns egípcios para se reabastecer de café e biscoito de bichinho e receber visitas de uma amiga dedicada que ela despreza. Sabe aqueles momentos na vida em que dá uma vontade de fugir do mundo, das pressões e cobranças, das pessoas? A protagonista faz isso de um jeito radical. Cansada, ela se aliena, dorme, fica grogue, tem apagões. Fiquei imaginando ela fazendo a Lana Del Rey e dizendo “preferia estar morta” (aliás, em vários momentos ela me lembrou exatamente a @estarmorta!). Li como se estivesse assistindo a um seriado, curiosa pra saber o que vinha depois, intrigada com aquele tanto de letargia e falta de enfrentamento – e com vontade de dar uns sacodes nela, haha.

#bibliotecadonttouch

“O pior dia de todos”, de Daniela Kopsch

por   /  25/06/2019  /  13:13

O pior dia de todos

Tem livro que me arrebata. Não consigo largar até terminar. Viro as páginas com aquele entusiasmo de quem deu a sorte de encontrar uma história muito bem contada. “O pior dia de todos” (@tordesilhaslivros), de Daniela Kopsch (@danikopsch), é um desses. Como jornalista, a autora estreante cobriu, em 2011, a tragédia de Realengo, quando um atirador inaugurou no Brasil a modalidade massacre em escola, matando 12 crianças, a maioria meninas. A autora estreante entrevistou sobreviventes, famílias, ficou marcada pelo que viu e ouviu – e talvez foi ali que o livro começou a ser tecido. O que “sobra” depois da tragédia? Quem são as pessoas além de números estampados na manchete do jornal? O que elas faziam, com o que sonhavam?

A história mostra a amizade de Natália e Malu, que são primas e estudam na mesma escola. A rotina, suas famílias, a interação com outras pessoas do bairro, uma que gosta mais de redação, outra de ciências, as descobertas e as paixões. Duas meninas tão diferentes e tão necessárias uma para a outra – e que também disputam espaços e afetos. Em vários momentos elas me lembraram a dupla Lila e Lenu, de “A amiga genial”, da Elena Ferrante. Só que vivendo em um subúrbio do Rio permeado por alcoolismo, abandono, violência, limitações, falta de silêncio. E também por uma noção ampliada de família, por desejos de mudar o curso da vida, em um Brasil que ainda vivia um boom econômico.

“O pior dia de todos” é um romance sobre ser menina no Brasil, como é crescer menina e também como se faz para viver depois de uma brutalidade que não tem explicação. Fala de perda e luto, de quem a gente é e em quem a gente se espelha para ser e para não ser também. Honra a memória e também é feito em memória de meninas que antes de se tornarem mulheres já foram silenciadas simplesmente porque o mundo ainda insiste em nos ver com ameaça e nos colocar em perigo todos os dias. Forte e bonito demais, recomendo.

#bibliotecadonttouch

Papo de Música com Fabiane Pereira

por   /  19/12/2018  /  13:13

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Sou apaixonada por música, ouço o dia inteiro, faço playlists para cada momento. Adoro descobrir uma banda ou artista novo, entrevistá-los, imaginar o que fez alguém conseguir traduzir tão perfeitamente tanto do que sinto mas ainda não tinha elaborado. Adoro acompanhar o trabalho de quem tem essa paixão também!

E Fabiane Pereira é uma dessas mulheres. Jornalista, escritora, faz o programa de rádio Faro há dez anos – e agora em 2018 estreou seu canal no YouTube, o Papo de Música. Conversei um pouco com ela, espero que gostem!

#trilhadonttouch

– Em 10 anos trabalhando com música, o que mais te encanta nesse meio? E o que te repele?

Eu sou jornalista. Desde pequena sou observadora, faladeira e uma boa ouvinte. Ainda na faculdade, comecei a me aventurar no chamado “jornalismo musical/cultural” mas meu ofício é, essencialmente, o jornalismo. Eu escrevo, entrevisto e ouço muitas histórias sobre gente. Por acaso, há mais de dez anos, essa gente que me atravessa profissionalmente trabalha com música, mas eu continuo fazendo jornalismo. Gosto de deixar isso claro porque minha profissão tem sido muito desvalorizada nos últimos anos graças ao “descuido” de muitas instituições privadas e públicas, políticos, juristas e boa parte da sociedade civil – esta parcela considerável da população brasileira não compreendeu ainda que um país democrático só se faz com uma imprensa livre.

Sou apaixonada por jornalismo e uma privilegiada por ser bem sucedida na escolha que fiz: direcionar meu ofício pra fomentar a música brasileira de diversas maneiras. Num país onde a imensa maioria trabalha exclusivamente para ter um teto onde dormir e comida na mesa, eu trabalho por livre escolha com uma das coisas que mais me dá prazer: conversar com artistas. Essa gente sensível, vanguardista e, às vezes, mal interpretada. Certamente isso é o que mais me estimula a continuar.

Como mulher, meu desafio diário é enfrentar o machismo no dia a dia que vem disfarçado – às vezes, pasme, escancarado – de elogio, piada, desconfiança, esnobismo e autoritarismo.

– Qual é o seu top 10 músicas brasileiras da vida?

Por incrível que pareça… Meu top five não muda há, pelo menos, dez anos. rsrs! Já da sexta a décima posição, acho que, varia ano a ano. A música “Quem te viu, quem te vê” do Chico Buarque é minha top one. Eu gosto de todas as palavras escolhidas por Chico nesta canção. Lembro de perguntar à minha mãe, ainda criança, o que era “cabrocha”.

Já as quatro músicas sequenciais desta playlist não estão por ordem de preferência – gosto igualmente delas: “Tocando em frente”, Almir Sater; “O quereres”, Caetano Veloso; “Folhetim”, Chico Buarque (na voz da Gal Costa) e “Cama e Mesa”, Roberto Carlos.

Pra completar a lista: “Grilos”, Erasmo Carlos; “Sinônimos”, Zé Ramalho; “Pra você dar o nome”, To Brandileone; “Feliz e Ponto”, Silva; “Deusa do Amor”, não sei os compositores mas amo a versão do Moreno Veloso.

– E qual é o top 10 músicas brasileiras atuais?

Vou tentar ser bem eclética porque eu realmente escuto de tudo e adoro os gêneros mais populares. Começaria com “Pitada de Amor” (Fióti) e seguiria com “Banho de Folhas” (Luedji Luna), “Várias Queixas” (Gilson’s), “Mesmo sem estar” (Luan Santana e Sandy), “Partilhar” (Rubel), “Lucro” (Baiana System), “Acanalhado” (Luca Argel), “Canção de Engate” (Filipe Catto), “Bixinho” (Duda Beat) e “Boca de Lobo” (Criolo).

– Como é trabalhar com música no Brasil?

Difícil, cansativo mas na maioria das vezes muito prazeroso. Quando a gente lida com a sensibilidade das pessoas, até uma ariana com ascendente em capricórnio se torna mais sensível.

– Você também escreve, né? Conta mais desse seu lado?

Simmm! Acho que escrevo crônicas porque ela é a mais gentil dos gêneros literários. Ela é coloquial, me ajuda a rir de mim mesma e a prestar atenção aos detalhes que as mazelas das grandes cidades insistem em esconder. Acho que escrevo crônicas porque, de certa forma, ela não me impõe o crédito de escritora. Penso que seria presunçoso demais ter a mesma profissão de Saramago, Clarice e Lygia. Tenho um livro de crônicas lançado chamado “amadorA” e pretendo lançar outro – já batizado de “Cais” – em 2019, com os textos que escrevi durante o período que fiquei na ponte aérea Rio-Lisboa por causa de um mestrado.

– E quais teus planos pro futuro?

Casar, ter três filhos e lançar meu segundo livro de crônicas.

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#asmúsicasdeamor de Fernando Luna

por   /  18/12/2018  /  21:21

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Com saudade de ouvir playlist de amor? Convidei o super @fluna pra fazer uma!

“Dividi as canções em 3 categorias: antes (do amor chegar), durante (o amor), depois (do amor)”, diz. Começa com Caetano, passa por Björk e Céu, chega em Johnny Hooker e Ludmilla, volta pra Chet Baker e Beatles, mistura Luiz Caldas com Leonard Cohen, Letrux com Roxy Music.

Aliás, vale dizer: o antes vai de Caetano até Ludmilla. O durante, de Chet Baker a Chico Buarque em “Tô voltando”, que não tem no Spotify, então vocês podem ouvir aqui na voz de Simone. O depois,  de Marisa Monte a Tiê.

Já deu pra sentir que tá incrível, né? Link nos stories!
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Escolhi essa foto solar do @rafabarion pra combinar!
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#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

#asmúsicasdeamor  ·  #trilhadonttouch  ·  amor  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música

Especial autocuidado, parte 2

por   /  01/12/2018  /  13:13

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Autocuidado vai além de um cabelo bem arrumado, as unhas feitas, terapia toda semana. “É algo rotineiro, que se materializa em um olhar com atenção para o que eu sinto, para a forma como eu vivo, o cuidado em me comunicar com o meu filho, com o externo. Como é que eu falo comigo? Como é que eu olho para mim?”, questiona Manoela Gonçalves (@soul.crioula), ativista e dona do Bistrô Manô, espaço de culinária no Butantã, em SP.
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Para chegar a essa definição, muita coisa aconteceu. Por cinco anos, Manoela manteve o projeto Casa das Crioulas, um espaço de acolhimento para mulheres periféricas. “Virou a chave da minha vida ter acolhido tantas mulheres. Cada dor e cada cura me transformaram na mulher que eu sou hoje”, diz, emocionada. “Entender o que leva uma mulher a agir da forma que age, mulheres que têm discurso machismo, preconceito, a abusada, a que abandonou o filho, a que matou. Mudou completamente o sentido da minha vida trabalhar com as dores das mulheres.”
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Ela achava que lidar diariamente com a dor a deixaria calejada. Estar na linha de frente, no entanto, doeu. “Tinha uma parte minha que tava completamente machucada, se identificava com as dores alheias e não saia desse ciclo de ficar curando ferida. Eu só queria cuidar. Demorou pra eu conseguir espaço pra mim mesma no meio de tanta pressão, carência, dor.” Demorou para ela criar uma linha imaginária em que só entra quem ela permite. “Aí começou um olhar mais amoroso. Sinto que estar em coletivo é muito bom, fortalecedor, mas é muito importante também o resgate da nossa força individual.”
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Hoje ela tem tomado cuidado ao ouvir histórias. “O que me motiva a não desistir é meu filho, é uma força absurda que tenho. Continuo lutando porque eu odeio injustiça, desigualdade, machismo. Mas também acolho e compreendo. O que me motiva é saber que eu tenho força pra inspirar, pra não desistir.”

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@comum.vc é uma plataforma de florescimento para mulheres. Em parceria com o @instamission, estamos fazendo a #jornadadeautocuidado. Já viu?
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Criadora da Comum, @annahaddad vive uma prática constante de #autocuidado. “Consigo às vezes, e às vezes não. Mas sinto que quando compreendemos essa noção mais ampla e profunda de autocuidado, que está estritamente relacionada à autocompaixão, aprendemos que nem sempre vamos conseguir de fato fazer o que entendemos que seria melhor para nós. Às vezes vamos ficar sem tempo, ser engolidas pelo caos, nos deixar sem cuidados básicos, seguir em relações que nos destroem, e precisamos nos acolher nisso também. O que não tem a ver com sermos condescendentes, autoindulgentes, e sim com nos acolhermos nos erros, nas dificuldades, nos nossos limites, ao invés de seguirmos nos culpando e chibatando.”
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O coletivo é fundamental nesse processo. “Faz muito mais sentido quando a gente se desenvolver sem perder a perspectiva do todo: somos mulheres, e nossas questões são muito individuais sim, mas são coletivas, fazem parte de um contexto de opressão sistêmica, que só vai mudar se tivermos consciência dele e nos movimentarmos.”
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Anna ouve histórias de abusos, abortos, relações abusivas, traumas, vícios e compulsões. “O que fica marcado é a resiliência dessas mulheres. A capacidade incrível que nós temos de viver as narrativas mais complicadas e tristes que alguém poderia viver, e conseguir buscar suporte, se abrir e se expor, encontrar caminhos em meio ao caos e atravessar aquela história. É quase heróico.”
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Empatia e compaixão são ingredientes fundamentais para que essas histórias não pesem. “Caroline Bertolino, psicóloga e especialista no tema da autocompaixão, diz muito isso: a medida de compaixão que temos conosco mesmas é a que vamos ter com os outros ao nosso redor. Se cuidamos da gente, provavelmente vamos ter mais energia e equilíbrio interno para cuidar dos outros. Está tudo interligado.”

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Passar a noite em casa lendo um livro, fazer terapia, se exercitar, comer bem, estar rodeada de pessoas que fazem bem, eliminar relações tóxicas e comportamentos nocivos de uma forma racional, por mais difícil que seja, e conseguir sinceridade em todas as relações. São esses os exercícios que @dandarademorais tenta praticar todos os dias. Essa pernambucana é atriz, diretora de cinema e ativista. Na correria, ela busca equilíbrio, pois sabe que, estando bem, consegue ajudar outras mulheres também.

E essas mulheres ela encontra, principalmente, na internet. “Acho que a internet tem um papel muito forte nessa era que estamos vivendo, porque deu voz a muitas pessoas. Essa conexão que a gente faz, todos os dias, por mais rápida que seja, é o que me move. São esses encontros que me estimulam e confirmam que estou defendendo pelos ideais certos. Poder contar com o coletivo é essencial. Tem momentos que realmente preciso de ajuda, digo de alguém pra me dar a mão, conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que está ao meu lado. Na maioria das vezes quando falo sobre saúde mental, as pessoas não sabem o que dizer, mas eu digo e repito que só de estar lá, oferecer o ombro, uma companhia, já é uma forma de cuidado muito boa.”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Encontrar pessoas que a fazem refletir sobre seu lugar privilegiado ajuda na empatia. “Tem uma canção que a gente canta em protestos que é assim: ‘companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sozinha ando bem, mas com você ando melhor’. Se a gente se preocupa e ajuda uma pessoa que está na nossa frente em alguma situação de risco, então eu sinto que estou fazendo minha parte. Acho ótimo que está se pensando mais em #autocuidado, mas acho uma pena ser comercializado, porque a tendência de se mercantilizar é encarecer algo que é tão essencial.”

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Para @indominus.rita#autocuidado é uma tentativa diária, feita em baby steps. Ela ainda derrapa na questão trabalho/dinheiro, se pega trocando o dia pela noite, trabalhando 3 dias sem dormir, se alimentando mal, se envolvendo em assuntos que são gatilhos mentais horríveis. “Mas em compensação me permito ter um final de semana sem trabalho, me permito assistir um filme ou uma série no final de um dia de trabalho, se adoeço me permito o descanso, algo que a uns meses atrás eu jamais faria.”
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Rindo, ela conta que desiste o tempo todo, mas sempre acaba retomando as lutas porque acredita e quer mudança, igualdade, justiça. “Não vou deixar de ser negra, mulher, gorda, bissexual, é inaceitável que me tratem como um ser de segunda categoria, é inaceitável que eu me veja como um ser de segunda categoria. Vou brigar até o fim dos meus dias com as ferramentas que eu tiver para que nem eu nem ninguém seja tratado, visto ou se veja como alguém de segunda categoria.”
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Programadora e desenvolvedora, ela tem blog desde o começo da internet. Também já fez gestão de blogs coletivos, nos quais questões como sexualidade e racismo vinham à tona. Era forte e importante e, ao mesmo tempo, pesado. “O coletivo me fragilizou, precisei passar um tempo só pra poder me entender, me curar. Falamos muito sobre cuidarmos umas das outras, mas se não colocamos isso no foco dos nossos debates, a luta acaba passando por cima da gente, é complicado conseguir olhar pra alguém com gentileza quando a gente precisa embrutecer todo dia.”
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Ela traz uma questão importante, sobre o autocuidado como mercadoria. “Nem sempre é possível pagar pelo autocuidado, pra muitas de nós não é o nem sempre, é não podemos pagar mesmo. Mas a gente não precisa pagar pra tirar um tempo pra gente, pra um olhar mais gentil sobre as nossas necessidades.”
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Pra encerrar, cita Audre Lorde. “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é autopreservação, e isso é um ato político.” #jornadadeautocuidado

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Autocuidado é um termo muito amplo e a noção dele é muito subjetiva, aponta a psicóloga @luizacravo. “Não é porque ela é ampla que é superficial ou deixa de ser importante. É algo que tem que tá permeando a nossa vida sempre. Você tem que se escutar pra entender o que é autocuidado pra você.”
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Um entrave para entender como o #autocuidado pode entrar na vida é que compramos essa ideia de que temos que produzir o tempo inteiro. “Acho super útil você ter um dia no qual desacelera, faz o que gosta, olha pra dentro, pro corpo. Mas para o cidadão médio isso não entra no conceito do que é válido. A maior parte das pessoas que se queixam de cansaço, exaustão, falta de energia e motivação são pessoas que de fato acabam desprendendo muita energia seja no trabalho, no cuidado da família, na pós-graduação, nesses lugares que a sociedade vai apontando onde devemos investir. Você sente que está sugado, e está mesmo. Você tá dando tudo o que você tem. Mas não são as únicas coisas a serem olhadas. Há toda a outra parte da vida, toda a potência que fica esquecida.”
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Talvez por isso tanta gente tenha resistência contra terapia e análise, como se fosse algo que só pessoas malucas ou muito problemáticas precisassem. “É difícil entrar em contato com certos conteúdos, às vezes vai por essa via mesmo, de não acreditar que necessidades afetivas e emocionais, ou até sinais que o próprio corpo dá, são importantes o suficiente para serem cuidados.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terapia e análise são indispensáveis para lidar com caos emocional. “Essa coisa de não tenho grana/não posso fazer terapia não existe. Existem lugares que oferecem de graça, preço simbólico, baseado no que você ganha. Quem quer fazer pode fazer. Um profissional não resolve sua vida por você, ele te ajuda a traduzir coisas que talvez seja difícil você por si só dar nome e compreender.”

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Quando a gente fala de mulheres e #autocuidado, precisamos lembrar do óbvio: somos todas muito diferentes. “Depende de você mora no campo ou na cidade, da sua classe social, da sua idade, da sua escolaridade. Você tem uma série de especificidades que vão dar uma perspectiva do que é autocuidado para você. Eu não diria que tem uma diferença entre mulheres brancas e negras. Acho que as diferenças são muitas, a depender de que lugar específico você ocupa nessa sociedade”, diz Bianca Santana (@biancasantanadelua), socióloga.
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Em comum, talvez, esteja essa percepção de exaustão que parece nos acometer. “Isso é uma cama, mas acho que a principal é a desconexão profunda com quem nós somos”, aponta Bianca. “As nossas dores, feridas, histórias são silenciadas. Parece que é uma vida nas aparências, como se a gente não conseguisse se conectar profundamente nem com a gente nem com as outras pessoas.”
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Falando especialmente sobre o Brasil, ela cita uma violência estruturante de um passado colonial e escravista. “A gente não conseguiu transformar, rever, curar. Isso nos leva para lugares de muita superficialidade. Como se abaixo tivesse um lodo, uma lama profunda, difícil. Então a gente fica ali na superfície, mas gasta muita energia manter aquela lama embaixo.” O momento do Brasil reflete negativamente. “Há uma sensação de insegurança e impotência. Pra mim, especialmente, o assassinato da Marielle Franco foi devastador. Tem uma mensagem muito explícita, de que não é para mulheres negras ocuparem determinados lugares.”
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Uma solução? Cuidar de si antes de tentar cuidar do outro. Lembrando sempre que autocuidado não precisa ser mercadoria. “Lembro da minha avó, uma mulher negra, empregada doméstica, pobre, que todo dia aguava as próprias plantas, conversava, tinha uma relação linda com as ervas, fazia ‘lichás’ pra si, pras pessoas ao redor. Não tinha a ver com mercadoria, dinheiro, e sim com saber ancestral. Acessar nossa memória, compartilhar nossos saberes, acessar algo que pertença a todas as pessoas pode ser anticapitalista.”

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Especial autocuidado, parte 1

por   /  30/11/2018  /  13:13

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Há mais de 6 meses comecei a escrever um especial sobre autocuidado. Estava cansada, insatisfeita com várias coisas. Escrevi um desabafo, comecei a conversar com várias mulheres que admiro e que gostam de pensar sobre o tema. Até hoje não publiquei, apesar de estar quase todo pronto e de várias coisas terem mudado, inclusive a falta de energia, que passou a dividir espaço com alegrias. Não rolou porque teve correria, eleições – e também porque quando uma coisa depende só de mim às vezes ela é a última da lista de tarefas (quem se identifica?). Hoje lançamos a #jornadadeautocuidado no @instamission, em parceria com a @comum.vc. E pensei: agora vai!
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A ideia de falar do tema surgiu depois que li um texto que falava de #autocuidado como estratégia política (vou deixar o link nos stories). O artigo publicado pela revista Sur apontava que várias ativistas que trabalham com direitos humanos enfrentam doenças e não se sentem satisfeitas com o tempo que passam com seus companheiros/companheiras e filhos. E aponta um caminho: “Acreditamos que o autocuidado é uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que não é uma ‘moda’, mas uma estratégia política, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.”
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Gostei desse texto porque ele me deu uma noção expandida sobre o tema. Autocuidado é fazer uma massagem ou tomar um banho à luz de velas? Também. Mas é uma estratégia muito particular de cada um, que deve ser descoberta e aprimorada a partir de necessidades individuais. Cuidando da gente, a gente consegue cuidar do outro. E nos fortalecendo assim, quem sabe a gente não consegue passar melhor por esses tempos turbulentos, né? Afinal é sempre bom lembrar: o pessoal é político. Ao longo dos dias vou publicando aqui as entrevistas que fiz, espero que gostem! Vamos juntos falar desse assunto?
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[A foto ganhei da @divanassar]

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@baldin.debora entendeu que, para se comunicar na internet, é preciso aprender a falar de um outro jeito, para que que cada vez mais pessoas entendam a mensagem. O entendimento vem dos vídeos que ela posta em seu canal no YouTube – e dos outros que publicou quando fazia parte de um canal LGBT. Foi a experiência no canal, aliás, que a levou quase a um esgotamento e a rever suas escolhas e rotina.

“Escutar relatos de mulheres que viveram suas vidas no armário e tiveram que enterrar sua afetividade, podendo ou muitas vezes não, só sair desse lugar muito à frente na vida, foi especialmente difícil. A nossa sexualidade e afetividade são pilares centrais na formação das nossas identidades. Ser uma mulher que ama mulheres é perigoso sim nesse mundo e não vai deixar de ser tão cedo, mas voltar atrás não é uma opção.”

Enquanto dava um tempo do YouTube, Debora continuou se comunicando pelo Instagram. Começou a fazer exercício regularmente, terapia também, buscou apoio no candomblé, que se tornou um pilar em sua vida. Entendeu que só com equilíbrio na própria vida consegue ajudar outras pessoas. “É difícil ser referência quando tá todo mundo perdido, confuso, sem grana, sem seguridade, sem estrutura. Não tô fora desse grupo. É uma sensação de perda de energia mesmo. Mas com o tempo, entendendo que a prioridade tem que ser ajudar essas mulheres a encontrarem instrumentos que as fortaleçam, sejam ideias ou ferramentas, ficou um pouco mais leve.”

Essa conexão com ela mesma a fez voltar para o YouTube com força total durante as eleições – seus vídeos viralizaram. O papel do coletivo ficou ainda mais forte. “Boa parte das demandas que nos afetam, mulheres, não partem de dentro. As angústias que nos afligem, em grande parte, têm origem externa, com o capitalismo sendo um sistema cuja base é a exploração e sendo estruturado pelo patriarcado, racismo e outros pilares. Lidar com elas coletivamente além de tirar um peso dos nossos ombros e ser elemento de identificação, é uma forma de encontrar novas saídas e acolhimento. Mais cabeças pensando sobre as mesmas coisas.”

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A psicóloga da @gabimoura87 perguntou o que a agrada. “Eu travei. Simplesmente não sabia a resposta”, diz a publicitária. “Eu gosto de várias coisas no universo, mas… O que me agrada? O que me faz feliz? Percebi que passo tanto tempo tentando agradar a todo mundo à minha volta, que não sobra tempo pra única pessoa que está comigo 24h por dia: eu mesma.”

No processo de descobrir o que funciona pra ela, Gabi já se deu conta de que #autocuidado não tem a ver com uma recompensa que a gente se dá de vez em quando. Tem mais a ver com o relacionamento que aprendemos a ter conosco, com nosso corpo, nosso espírito, nossa essência. “Aprender limites, novidades e nos compreender enquanto indivíduos em um mundo maluco e massificado.”

Colocar tudo isso em prática é difícil, ela admite. “Você tem que se policiar pra não se sabotar. Eu ainda estou na tentativa. Às vezes, tenho períodos longos de negligência contra mim mesma, e preciso retomar tudo de novo, do zero. Mais uma vez, é um processo, que precisa ser o mais natural possível, e não uma autoimposição. Senão, vira mais uma pressão na vida, e não é o que precisamos.”

Ela fala no plural porque acredita que a abordagem coletiva em relação ao assunto é fundamental. “Além de sermos seres vivendo em sociedade, nossos problemas nascem de questões coletivas: sociais, familiares, de trabalho, de relacionamentos. São as dinâmicas da nossa vida que moldam nosso jeito de viver, e ignorar isso é um erro. Inclusive porque a sociedade anda bem doente, e a cura não virá individualmente. São coisas diferentes, mas que convergem entre si: você enquanto indivíduo, com necessidades, particularidades, medos, fúrias, desejos, alegrias e excitações muito únicas, e você enquanto parte de um todo, um grupo de pessoas, cada uma com seu universo, mas que juntas formam a sociedade.”

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Na rotina de mãe de duas crianças, publicitária e ativista, @carolpatrocinio se desdobra para encontrar tempo para si. “A gente coloca outras coisas ou pessoas como prioridade. Sendo mãe, então, muitas vezes preciso abrir mão de mim pra cuidar deles. Por outro lado aprendi que se eu não tô bem não tem como eles estarem bem, então é uma equação bem simples. Se eu não cuidar de mim eu não cuido de ninguém.”
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Ao arranjar tempo para se cuidar, ela acaba dividindo suas experiências na internet – e vê na partilha coletiva mais um passo para superarmos fragilidades e obstáculos que colocamos pra nós mesmas. “Olhar pra outras mulheres, aprender com elas, ver como elas lidam com as coisas, tudo isso influencia bastante na maneira como a gente é e como enxergamos as coisas. Estar cercada de outras mulheres, dividir as coisas, compartilhar o que a gente sente faz toda diferença. O primeiro passo do #autocuidado é lembrar que você não tá louca.” Em seu trabalho de militância o acolhimento fica ainda mais palpável. Ele ganha corpo com o Clube do Livro que ela toca na @casa1, centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa. “É um lugar que a gente vai pra ler, discutir e se basear em feminismo, mas a gente tem esse momento de troca, de contar uma pra outra como o livro bateu pra gente, o que fez sentir, lembrar, ali a gente vai compartilhando vivências.”
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“O que me faz não desistir é saber que todos esses esforços, cada texto, conversa, encontro tá realmente transformando a vida de outras mulheres. Cada vez que uma mulher me conta que saiu de um relacionamento ruim, começou a olhar pra ela de outro jeito, que resolveu se cuidar mais, entendeu que não é emagrecer, entrar num padrão de beleza, tudo isso me faz continuar, tomar fôlego, apesar de saber que sempre vai ter gente criticando, falando que não é suficiente. E tudo bem. A gente segue em frente, ignora essas pessoas e ouve as vozes que valem a pena.”

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Sendo mulher e negra, @joanagmendes não descansa. “Como o racismo é um luto que nunca cicatriza, a consequência é que eu nunca estou tranquila emocionalmente, pois cada história pode ser um gatilho para algo que eu achei ter esquecido”, diz a publicitária. “A consequência pode vir em ansiedade, dificuldade para me concentrar, afastamento emocional das pessoas ao meu redor e cansaço constantes, além de levar para casa problemas que não são particularmente meus.”

Joana criou com mais três amigos a @idanimoconsultoria, uma consultoria negra, feminista e LGBT que atende o público em geral e as agências. Agências onde, inclusive, é difícil encontrar pessoas negras. Reflexo do racismo estrutural que o Brasil vive e nem sempre admite. “Em uma palestra na Campus Party, uma menina falou que ela não alisava o cabelo neste trabalho, mas talvez não pudesse deixar de alisar em um próximo trabalho, e eu vi que essa é uma realidade que não me aflige, mas aflige muitas mulheres negras que são submetidas a padrões de beleza que machucam física e psicologicamente para estar inseridas de dentro de um mercado de trabalho opressor e racista.”

O que não a faz desistir? “Eu sou uma mulher negra, nortista e LGBT, se eu parar de lutar, penso que estou desistindo de estar ao lado do meu povo e de pessoas parecidas comigo. Além disso, estou em lugar de privilégio, por ser classe média, então, eu enxergo esse privilégio uma chance para falar e dar voz a mulheres que não falariam.” E ainda acrescenta que acolher nossas fragilidades individual e coletivamente é fundamental na construção de uma sociedade acolhedora e mais justa.

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Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Homem é tudo babaca

por   /  19/11/2018  /  19:19

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São duas da madrugada, estou do outro lado do oceano, e que belo momento para ter uma crise de ansiedade. Gosto de pensar que a criação e a escrita são a minha válvula de escape. Com os pensamentos a milhões por hora, entre fisioterapias, ônibus e caminhos, um grande de um boylixo me vem à cabeça. Chico Bento, essa é a sua fita.

Nesse ano amadureci bastante, mas ainda não o suficiente para não deixar minhas experiências negativas em relacionamentos me afetarem mesmo em momentos bons da minha vida. Ele poderia ter ficado calado, poderia ter sido um caso rápido e gostoso, mas ele preferiu proferir palavras, fazer planos e juras. Eu inocentemente baixei a guarda e me deixei acreditar por achar que ele estava falando a verdade.

Ele não é branco, e isso já foi um ponto a mais no balanço. Mas não é por ser um cara indígena que ele estava imune a ser um boylixo, pelo contrário, isso só mostra que macho é tudo macho mesmo. Nesse momento, eu me encontro num misto de frio, raiva e angústia, e minhas palavras soam mais agressivas, como uma criança que planeja uma vingança boba contra um coleguinha. Mas, como já disse antes, eu não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Quando nos conhecemos, eu não estava nem um pouco a fim de me envolver romanticamente com ninguém. Mas o desejo não tardou muito a aparecer, a atração era mútua e visível para todo e qualquer olho ao nosso redor. Uma atmosfera tímida de paquera foi surgindo, entre olhares distantes, toques e aproximações. Sem nenhum motivo especial, houve uma conexão.

Nesse exato momento, minha vontade é de mandar ele arder no inferno. E estou fazendo isso mentalmente, porque é madrugada e eu não posso gritar ou externar o que sinto. Talvez esse não seja o melhor momento para escrever essa história, mas eu sinto que se não fizer isso agora – entre pausas pra fechar os olhos e me aquecer – eu não vou conseguir dormir.

Eu tomei a iniciativa, como sempre. Sinto que em algum lugar da minha existência eu intimido os caras. Sinto não, tenho certeza, e já ouvi isso de algumas pessoas.

Ao primeiro primeiro passo dado por mim, ele deu um passo adiante. E assim começou uma história que poderia ter existido sem qualquer peso ou traço de lixão se para os homens, não fosse tão tentador colocar a gente num lugar vulnerável.

“Assim eu me apaixono”. Li isso e me contorci até o chão algumas horas antes de rolar o primeiro encontro depois que a paquera já estava encaminhada, quando passamos o fim de semana inteiro trocando mensagens vestidas de vontades e afetos. Tudo falso. Tinha uma falsiane bem na ponta do meu nariz e não fui capaz de reconhecer.

A gente carrega essa culpa, esse sentimento de achar que poderia ter evitado desgaste, que devia ter sido mais esperta que boy que não tem um pingo de responsabilidade pelo que faz, mesmo com quase 40 anos na cara e pai. Novamente, parece que nada, raça, idade, localização espacial, gosto musical, cueca boxer ou samba canção, faz a mínima diferença quando se trata de destratar alguém que teve coragem de se abrir num mundo onde enganar se tornou hábito comum.

Eu me via blindada, queria estar blindada depois de ter passado por uma relação fracassada. Mas com tantas, inúmeras, várias, muitas mesmo, atitudes românticas eu pensei: “né possível que ele tá falando isso tudo da boca pra fora”. Apois te ilude.

Diversas vezes caras ficavam comigo num cantinho, ele não. Isso também adicionou pontos no balanço total. Assumir uma mulher preta é coisa rara, e isso, se somando a outros acontecimentos, me fez criar uma expectativa que ele não teve culhão pra bancar. Filhos? Não sei vocês, mas eu falo de filhos com todos os boys que eu fico (por favor entenda a ironia). “Imagina um filho nosso, meio indígena, meio tu. Mas só se você quiser.” Me abraçou apertado como quem diz “é verdade esse bilete”.

Não se cansava de falar sobre paixão, ou de dizer que viajaria pra me ver onde eu estivesse. E que mesmo distantes, sempre iria ter um lugar nosso. Assim como aquela velha frase que eu não acredito nunca mais “We’ll always have Paris”, a gente teria a casa na roça pra fugir do mundo, tomar blend de café em caneca livre de poliuretano e ter um lifesytle Chico Bento feat. “Minha Rosinha”. Palavras dele. Juras, promessas e planos não partiram de mim, eu apenas acreditei, e acho que muitas pessoas em meu lugar também acreditariam.

Como de praxe, ele sumiu. “Magicamente”, reapareceu mandando essa mensagem da foto. Mas eu me tornei sagaz, e não deixo mais barato. Eu tava na casa de uma amiga e cheguei a uma conclusão. Enquanto ela gritava lá de dentro do quarto “é isso, amiga. Macho é tudo igual mesmo”, eu gritei da rede onde me balançava “só muda de nuance!”, e a gente riu. É que nem paleta de cores. Não deixe que eles tornem tudo cinza.

Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Método para identificar boylixo

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Hoje eu não sou força nem resistência

por   /  29/10/2018  /  13:13

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Hoje eu não sou força nem resistência. Sou dor, tristeza e incredulidade. Amanhã também, talvez. Quando tragédias acontecem a gente precisa de tempo. E eu acho que a gente fica tão agoniado que esquece disso. De repente recebemos as mesmas mensagens e imagens e textões nos inúmeros grupos de Whatsapp dos quais participamos. Vemos o Instagram e o Facebook inundados de análises e mais imagens de “vamos lá, precisamos resistir”.

Quero ter espaço para sentir raiva também. De quem anulou voto ou se absteve em um momento tão crítico para a nossa democracia. De grande parte da imprensa que tratou o presidente eleito como folclórico por tanto tempo, quando deveria ter denunciado suas aberrações – e que ontem, ao transmitir uma oração em rede nacional, esqueceu de dizer que não é normal um cena dessa em um Estado laico.

Sinto raiva porque essa eleição foi conduzida com desinformação e mentira em grandes proporções. Com a tecnologia sendo usada para o mal. Que desespero que dá.

Hoje não tenho forças. Nem quero ter. Depois de um baque a gente precisa pensar, sentir, chorar, buscar no cotidiano algum refúgio, entender o turbilhão dentro da gente. E parece que a internet não nos deixa ficar em posição fetal lamentando que tempos sombrios vem por aí.

Sinto medo, tô destruída. E tá tudo bem também. Acho que a gente precisa abrir espaço para múltiplas subjetividades, para formas plurais de encarar as coisas.

Sei, também, que essa dor passa. E que juntos a gente vai inventar maneiras de viver nesses novos tempos. Mas só se a a gente deixar tudo assentar. Com o tempo. Bom dia.

A foto é da @floravnegri.