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O pós-crise

por   /  29/08/2014  /  21:21

Irina Munteanu |

A melhor coisa que fiz por mim e por este blog nos últimos tempos foi escrever o post da crise dos 7 anos. Dividir a angústia foi um alívio – e já me fez pensar em várias coisas, algumas novas, outras nem tanto. Escrever me tirou da inércia. Ler os comentários de vocês aqui, no e-mail e no Twitter foi a mesma coisa que receber uma injeção de adrenalina, motivação e amor.

A gente vive um tempo maravilhoso. E muito louco. Exigimos demais de nós mesmos – e o mundo ao nosso redor parece exigir mais ainda. Temos que fazer muito, ter uma vontade incessante, nos dedicar a tudo com muita determinação.

Gostei de falhar. De ficar em dúvida. De pensar “pra quê?”. De quase desistir, ao menos por um tempo. Me senti mais gente de verdade, menos personagem nesta internet que a gente se acostumou a viver como palco.

Ver que muitos de vocês sentem as mesmas coisas aumentou meu nível de empatia em 100%. Empatia, essa palavra de que eu tanto gosto!

Entre o post da crise e este, comecei um daqueles trabalhos que nos fazem lembrar porque escolhemos uma profissão. Fui convidada para escrever os perfis dos homenageados do Prêmio Trip Transformadores.

[Vocês conhecem o prêmio? Vai para a sua oitava edição e é muito legal! Seleciona pessoas do Brasil todo que estão fazendo mudanças na vida de muita gente. Obrigada pelo convite e pela parceria, Pedrinho, Ju, Carol, Vinícius e Regina]

O que eu mais gosto no jornalismo é de fazer entrevistas. Com o prêmio, tenho experimentado conversar com um senhor de 75 anos que inventou um aquecedor solar de baixo custo, com uma juíza que mudou a história do casamento no Brasil ao proferir a primeira sentença que reconhecia uma união homoafetiva, com uma doula que fez o imperdível filme “O renascimento do parto” e mais um monte de gente.

Gente que dedica a vida inteira a uma ideia, a uma causa. Que fala com paixão sobre o que faz, sobre o que ainda quer fazer – e a força incessante de cada um deles é impressionante!

Não poderia haver momento melhor para uma crise do que esse de entrar em contato com gente admirável, inspiradora, que todos vocês vão adorar conhecer (os perfis começaram a sair na edição de agosto da Trip).

Ao longo dessas conversas, que podem durar uma hora, mas geralmente duram 5, 6, 7 horas, um dia inteiro, voltei a perceber que uma das melhores coisas do mundo é conversar ouvindo com toda atenção o que o outro tem a dizer. Ando tão fascinada por isso! Você conversa 5, 10 minutos, ok, pode saber algumas coisas sobre alguém. Passou da meia hora, não tenha dúvida: vai descobrir, ao menos um pouquinho, as nuances, o que faz aquela pessoa ser quem é.

Voltar a fazer jornalismo me lembrou do que une tudo que fiz e faço, tanto na profissão que escolhi quanto na outra que descobri ao criar a Contente com a Lu: vontade de compartilhar as coisas do mundo que me interessam e me emocionam. É quando mostro, faço um convite, converso sobre as coisas que elas ficam mais legais de verdade.

Tem momentos em que tudo que a gente precisa é olhar pra dentro, né? E depois ver o tanto de mundo que existe lá fora.

Este post é para agradecer pelas palavras de vocês, que me lembraram da essência deste blog. É muito natural para mim dividir o que me emociona. Pode ser uma foto, uma música, uma história transformadora. O mundo é tão interessante, e eu me empolgo tanto com tanta coisa, que é impossível não voltar a postar por aqui com todo o amor do mundo.

Vocês são foda! Muito obrigada.

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A foto é de Irina Munteanu.

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A crise dos 7 anos

por   /  30/07/2014  /  8:08

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A crise do sete anos chegou. Ela vinha se anunciando há alguns meses, mas eu não queria admitir. O desinteresse foi ficando cada vez mais forte. A falta de assunto também. Quando eu tentava dar uma animada na relação, tudo parecia meio burocrático.

Hoje a gente tinha um date. Horário nobre, vamos sair pra jantar? A hora foi chegando… Desmarquei. Sabe quando você se arruma toda, faz reserva em um restaurante delicioso e, de última hora, desiste, porque na real o que você mais quer é vestir sua moda casa e ver novela?

O relacionamento aí acima é o meu com esse espaço que já me trouxe tanto na vida. Faz semanas que tento tirar a poeira do blog – até fiz ontem uma mixtape com esse nome.

Agora confesso: não sei mais o que postar. Quando posto, acho que pouca gente vê (valeu, Facebook). Até hoje devo resposta de emails que recebi em 2012. O livro Fratura Exposta não sai – eu travei de um jeito que nunca aconteceu antes (já que a metáfora é relacionamento, nada melhor que essa frase, haha).

Tenho a impressão de que a internet está gigante, que todo mundo produz muito conteúdo, que muita gente consome quase tudo. Como fazer de um blog que existe há quase sete anos um lugar interessante, relevante, gostoso, que as pessoas têm vontade de visitar quase todo dia?

Continuo vendo um monte de fotografia linda, ouvindo umas músicas no repeat, lendo menos que eu gostaria, é verdade, mas sempre tem uma coisinha. Sempre tem assunto. E aí vem outro pensamento: será que a gente precisa dividir tudo, tanto? Tem dias que acho que não.

Alguém aí já passou pela crise dos sete anos? Me aconselha uma terapia de casal? Sugestões são super bem-vindas, viu? Afinal, adoro saber que aí do outro lado tem gente de verdade, e não só um monte de número, como é tão praxe nessa internet de hoje.

Este post é apenas um post. Não é o fim do blog, nem o anúncio de um hiato, muito menos uma vontade de receber confetes. É só uma tentativa de me reconectar com ele, com vocês, de pensar sobre o assunto e, quem sabe, fazer uma mudança ou outra. Tenho pensado sobre, comecei a conversar com os amigos, vamos vendo, né? Às vezes dá vontade de me colocar mais por aqui, não só as coisas que eu vejo, ouço, leio, curto, mas um pouquinho também do que tenho pensado.

Obrigada por ficarem por aqui há tanto tempo!

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A foto é do Lukasz Wierzbowski.

Tirando a poeira

por   /  28/07/2014  /  20:20

Isa Hoffman Hansen

Deu saudade de fazer mixtape. Daí abri o Rdio, resolvi ouvir o Chet Faker, gostei. Misturei com Blood Orange, Mount Kimbie. Resgatei um “Real Love” no remix do Paradise Garage. Depois fui para uma vibe completamente oposta: Chris Isaak e Del Shannon.

Ficou gostosa, viu? Pra dançar na pista, depois no bailinho.

A foto é da Isa Hoffman Hansen.

Ouçam!

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1 dor profunda de amor

por   /  11/07/2014  /  9:09

hony

O Humans of New York me emociona a cada post.

O de ontem foi de cortar o coração:

“We were twenty-five and twenty-eight, but we acted like fifteen year olds. Fighting over little things, storming off, breaking up for a week and then getting back together. But developmentally, we were fifteen year olds. We’d been in the closet our whole lives, so we didn’t have any practice with relationships. He still hadn’t come out to his family and a lot of his friends. We were on one of our ‘little breaks’ when he died suddenly from a seizure. And nobody in his family or circle knew I existed. It took me four months to find out that he died. I thought he’d just decided never to talk to me again. His family never found out about me. Or him, for that matter.”

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1 clipe novo do Christopher Owens, ex-Girls

por   /  10/07/2014  /  15:15

chrisowens

Gosto tanto do Christopher Owens, o cara que tocava na banda Girls, que fiquei bem feliz de saber que ele vai lançar um disco novo!

“Nothing more than everything to me” é o primeiro clipe do disco “A New Testament” e junta pré-adolescentes muito fofos em um bailinho da escola, com toda a expectativa que antecede esse grande dia.

Pra completar, vale ver as fotos de bastidores do clipe na Rolling Stone > http://www.rollingstone.com/music/pictures/behind-christopher-owens-nothing-more-than-everything-to-me-video-20140709/0769712

E ler a entrevista que o cantor deu ao Pitchfork, falando de se reunir novamente com os companheiros de banda, largar as drogas, encontrar um amor e seguir em frente > http://pitchfork.com/features/update/9451-christopher-owens/

Yeah, it’s a relationship I can’t place a value on. We’re very different people: in upbringing, in habits, in the way we both cook, the books we read, the music we like. Maybe I see something in her that I think is wonderful and wish I could’ve been like that myself. At the same time, I don’t. I’m not a person with regrets. But I can definitely see the benefit of having somebody like that in my life. I mean, I could’ve had somebody more like myself in my life for this period of time and been pushed along down my own paths, my own devices—if that was the case, Father, Son, Holy Ghost might not have even come out. From the beginning, she has kept me aware without judging, without ever saying, “This is an ultimatum,” or, “You have by this date…” She’s never even been rude to me about it when my priorities were completely out of whack. From the beginning, we liked each other for who we were, and it’s always been that way. As time goes by, we’ll remain different people, but we’ll remain essential to one another.

Mais em > https://www.facebook.com/christopherowensonline

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7 pecados capitais na fotografia: a preguiça

por   /  10/07/2014  /  14:14

Cienojetes

A foto de Marco A. Portela ilustra um bom texto do blog Cienojetes sobre a preguiça na fotografia.

Mis amigos los fotógrafos modernos también sufren de esto. Hacen pocas fotos y les meten mucho concepto. Salir de casa da mucha pereza, hay tantos fotolibros que ver a través de la Web, tantas redes sociales que atender, tanto concurso al que presentar las mismas 15 fotos. Además, hay que hacer tiempo para que se vayan caducando los carretes con los que hacer las fotos, y para eso nada mejor que tumbarse en el sofá con el iPad en el regazo.

¡Ojo! Que esta apatía, este abandono, esta poltronería que estoy reflejando aquí también les afecta a los fotógrafos consagrados. Todos ellos, sin excepción, plantean que su obra culmen es el producto de revisitar su archivo. Vamos, que se acabó eso de salir a hacer fotos. Mejor se quedan en casa, rebuscan por las carpetas esas de nombre inservible, y a esas fotos que en su momento descartaron, porque no sabían qué leches significaban, ahora les dan una interpretación a posteriori que sea trascendental. Es un plan perfecto, hay que reconocerlo. Además se las dan de profundos, que hoy en día es lo que se lleva. Y claro, acaban en PHE.

Leiam > http://cienojetes.com/2014/07/08/7-pecados-capitales-fotografia-pereza/

31 links sobre a derrota do Brasil na Copa

por   /  10/07/2014  /  13:13

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The story behind the sweetest moment of Brazil-Germany World Cup match > http://mashable.com/2014/07/09/brazil-germany-world-cup-sweet-moment/

An open letter to the brazilian team > http://www.buzzfeed.com/javiermoreno/forca-brasil

As capas dos jornais sobre a maior humilhação do futebol brasileiro > http://kempao.com.br/as-capas-dos-jornais-sobre-a-maior-humilhacao-da-historia-do-futebol-brasileiro/

Brazil Soccer WCup Netherlands Argentina

Um vexame para a eternidade. No Correio Braziliense, por João Valadares > https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201482396096865&set=a.1364111637900.45458.1684891905&type=1

Tristeza agora tem fim: 2014 está longe de ser 1950. Por Xico Sá > http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2014/07/09/tristeza-agora-tem-fim-2014-esta-longe-de-ser-1950/

Brasil após a Copa: aprender com Picasso e galinhas estranguladas. Por Leandro Beguoci > http://trivela.uol.com.br/brasil-apos-copa-aprender-com-picasso-e-galinhas-estranguladas/

Palavras de mudança. Por Janio de Freitas > http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2014/07/1483655-palavras-de-mudanca.shtml

O fim do sonho do hexa. Ótimo infográfico da ESPN > http://espn.uol.com.br/infografico/o-fim-do-sonho-do-hexa/

Desmarcar a Fifa, o maior legado da Copa no Brasil > http://blogdojuca.uol.com.br/2014/07/desmascarar-a-fifa-o-maior-legado-da-copa-no-brasil/

Eles tratam o 7 a 1 como se fosse um resultado normal, mas a história da seleção nos mundiais foi manchada > http://espn.uol.com.br/post/424443_eles-tratam-o-7-a-1-como-se-fosse-um-resultado-normal-mas-a-historia-da-selecao-nos-mundiais-foi-manchada

Brazil World Cup humiliation by Germany should serve as a call to arms > http://www.theguardian.com/football/blog/2014/jul/09/brazil-world-cup-humiliation-germany-should-serve-call-arms

Why Germany crushed Brazil > http://www.bloombergview.com/articles/2014-07-09/why-germany-crushed-brazil

Brazil is going to be just fine > http://online.wsj.com/articles/world-cup-brazil-is-going-to-be-just-fine-1404917404

The most shocking result in World Cup History > http://fivethirtyeight.com/datalab/the-most-shocking-result-in-world-cup-history/

marina

Marina Abramovic made Brazil cry > http://marinaabramovicmadebrazilcry.tumblr.com/

Brasil e Alemanha eterno > http://brasilalemanhaeterno.com/

Sad brazilians > http://sadbrazilians.tumblr.com/

When the world expected Brazil to burn brazilians turned to laughter > https://sports.vice.com/article/when-the-world-expected-brazil-to-burn-brazilians-turned-to-laughter

O melhor do Twitter na Copa. No Popload > http://www.popload.com.br/o-melhor-do-twitter-na-copa-edicao-imagina-na-russia/

27 World Cup memes to help Brazil laugh the pain away > http://mashable.com/2014/07/08/brazil-world-cup-memes/?utm_cid=mash-com-fb-main-link

Brazil’s historic loss against Germany in memes > http://www.huffingtonpost.com/2014/07/09/brazil-germany-memes_n_5570381.html?utm_hp_ref=tw

Pornhub pleads users to stopo uploading videos of Brazil getting fucked by Germany  in the World Cup > http://www.independent.co.uk/sport/football/worldcup/pornhub-pleads-users-to-stop-uploading-videos-of-brazil-getting-fked-by-germany-in-the-world-cup-9594287.html

Colombianos fazem vídeo para tirar sarro do Brasil > http://trivela.uol.com.br/colombianos-fazem-video-para-tirar-sarro-brasil-depois-da-goleada-para-alemanha/

25 momentos em que a Alemanha foi Brasil na Copa > http://trivela.uol.com.br/fugimos-da-rivalidade-para-dar-25-motivos-carisma-de-que-alemanha-e-o-brasil-na-copa/

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Eles sabem como é perder uma Copa em casa. Na Época > http://epoca.globo.com/vida/copa-do-mundo-2014/noticia/2014/07/eles-sabem-como-e-bperder-uma-copab-em-casa.html

Alemanha, o país do futebol > http://super.abril.com.br/esporte/alemanha-pais-futebol-752840.shtml?

“Reagir à derrota é a marca de uma grande nação”, diz Dilma > http://www.cartacapital.com.br/sociedade/reagir-a-derrota-e-a-marca-de-uma-grande-nacao-diz-dilma-8872.html

A contusão de Neymar revela o que temos de pior > http://blogdamilly.com/2014/07/07/a-contusao-de-neymar-revela-o-que-temos-de-pior/

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#OcupeEstelita, 17/06/2014

por   /  18/06/2014  /  11:11

Não tenho palavras pra expressar o que sinto diante do que está acontecendo no Recife. Ultraje, impotência, revolta, incredulidade são algumas coisas que passam na minha cabeça. As cenas vividas ontem pelos integrantes do movimento #OcupeEstelita são inacreditáveis. Reuni aqui textos, fotos e vídeos que tentam nos dar uma dimensão do caos que tomou conta da cidade. Obrigada a todos que lutam bravamente nessa terra que a gente tanto ama e que tanto nos decepciona. Força e muita resistência!

Do Mídia Capoeira: No dia do segundo jogo do Brasil na Copa do Mundo, o Governo do Estado tentou se utilizar da atenção das pessoas para o futebol e realizou a retirada das pessoas que ocupavam a área do Cais José Estelita. Mais de 20 dias depois da ocupação, os desrespeitos à legislação urbanística do Projeto Novo Recife já são de conhecimento público. O Ministério Público Federal já se posicionou contra a operação (http://www.prpe.mpf.mp.br/internet/Ascom/Noticias/2014/Nota-de-repudio-Reintegracao-de-posse-Cais-Jose-Estelita), assim como a imprensa nacional começa a denunciar (http://blogdojuca.uol.com.br/2014/06/o-novo-recife-e-o-movimento-ocupeestelita/). Assistam às cenas chocantes do vídeo gravado, editado e divulgado pelo movimento #OcupeEstelita

Anistia Internacional: Poucas horas antes do Brasil entrar em campo, a Polícia Militar de Pernambuco desocupou o Cais José Estelita, em Recife. A Anistia Internacional Brasil condena uso excessivo da força pela PM na desocupação do local. “Lamentável a desocupação violenta hoje, no Cais José Estelita, em Recife (PE), rompendo todos os acordos feitos com o poder público. O que está em jogo nisso é o projeto de cidade que a população quer e a participação da sociedade na escolha da ocupação de áreas nobres nas cidades”, afirma Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil. Leia a nota pública > http://bit.ly/1lvW5Ig

Ivan Moraes Filho, jornalista: “O que querem fazer no terreno é o que estão fazendo com a gente aqui” Eu não lembro quem foi que disse isso enquanto driblávamos (muitas vezes sem sucesso) balas de borracha e bombas de efeito moral, ontem, durante os protestos do #ocupeestelita. Nada mais perfeito. A violência de quem reprime reuniões pacíficas, prende e fere pessoas que querem discutir uma cidade mais humana e justa. É a mesmíssima violência de quem utiliza o poder pra empurrar goela abaixo de uma cidade inteira projetos que ferem a nossa mobilidade, conforto, o direito à moradia. De quem descumpre acordos. A mesma de quem acha natural “cumprir ordens” que machucam a pele e a cidadania das pessoas. De quem acha que empresas e dinheiro valem mais do que pessoas. A violência e  covardia de quem escolhe sempre os mesmos alvos para serem atacados e pagarem as contas do “progresso” e do “desenvolvimento”. De quem passa por cima os processos legais sem constrangimento. A mesma violência inconsciente da jovem jornalista que pergunta a um ativista armado com um telefone celular se ele levou três tiros durante um “confronto” com policiais protegidos por armaduras e escudos. E tantas outras violências cotidianas que não ganham manchetes de jornais ou mesmo posts raivosos no feicebuque. Violências tantas vistas e sofridas por um bocado de gente que se acordou assustado numa manhã de terça-feira, num simbólico dia de jogo da seleção na Copa do Mundo. Que experimentou as formas mais óbvias de violência. Tiros, bombas, espadas, gás de pimenta, chicotes, escudos e cacetetes. Mas que não se deixou ferir. Um dia depois de tantas atrocidades não resta dúvida que o povo, desta vez, venceu a batalha.

Liana Cirne Lins, advogada, militante do Direitos Urbanos e professora da Faculdade de Direito do Recife – UFPE: Últimos minutos do dia que entrou para a história de Pernambuco como a ruína do estado democrático de direito e o fim da credibilidade das instituições estatais. O estado de exceção é o estado de Pernambuco. Desde a manhã está evidente para todos que o objetivo da ação policial nunca foi a desocupação do imóvel, tanto assim que não apenas não houve tentativa de desocupação amigável, como minha presença na qualidade de advogada para promover a desocupação voluntária foi impedida. O objetivo sempre foi a repressão violenta do Movimento Ocupe Estelita. Eu gostaria de não ter vivido o dia de hoje. Eu gostaria de não ter visto o que vi. Eu gostaria de não ter ouvido os gritos que ouvi e os barulhos de bombas e balas sendo disparadas. Eu gostaria de não ter perdido minha crença nas instituições jurídicas. Eu gostaria de não ter chorado, completamente impotente, na frente dos ativistas que eu desejava proteger e de costas para a polícia de choque que nos acuava. Eu gostaria de não ter visto Milton Petruczok sendo arrastado pelo pescoço, Cristina Lino Gouvêa sendo levada nua e imóvel com pontapés nas costas. Eu gostaria de não ter visto o sangue nas dezenas de feridos. Eu gostaria de eu mesma não ter sido agredida com um cacetete por um policial do GATI enquanto desempenhava meu papel de advogada. Eu gostaria de viver numa democracia. Mas hoje eu não tive nada do que eu gostaria de ter. E também hoje Ocupar Estelita ganhou um significado radicalmente maior. É mais do que uma luta pelo direito à cidade e contra uma prefeitura corrupta e um consórcio de empresas sem limites morais como a Moura Dubeux e a Queiroz Galvão. É agora também uma luta contra um governo do estado mentiroso e traidor, contra um judiciário que colocou em xeque sua imparcialidade. É uma luta contra um estado que faz as vezes de milícia do poder econômico. Estou indo dormir muito mais pobre do que acordei. Perdi sonhos e estou embrutecida pela brutalidade que testemunhei. Vou dormir com as dores físicas que senti na pele e com as dores morais que senti na alma. Mas vou dormir certa de que acordarei curada, porque nossa luta é um caminho sem volta. E nesse caminho os sonhos serão refeitos. E serão cada vez mais belos.

Kleber Mendonça Filho, cineasta, diretor de “O Som ao Redor”: Blitz de publicidade paga em jornal, TV de horário nobre, YouTube e Facebook, ação agressiva em dia de jogo do Brasil, sócio fala-mansa fazendo turnê em debates na imprensa sem revelar nada, escavadeiras a postos. É uma estratégia de guerra, toda desenhada. E o Movimento para o Recife só ganha força.

Chico Barros, juiz: Como juiz, não costumo exercer juízo de valor sobre a atuação de outros tribunais, mas como professor de Direito Processual desta vez usarei o permissivo da LOMAN: em pleno processo de negociação entre as partes, não há espaço para medidas adjudicatórias desse impacto. O Tribunal de Pernambuco foi precipitado, infeliz e contrário a tudo que hoje se estuda sobre a Justiça restaurativa. Contrário às recomendações internacionais sobre o tema, contrário aos programas do CNJ e assim por diante. No mais, como juiz, como professor, como cidadão, como pessoa humana, abomino a violência (tanto à direita quanto à esquerda).

Juka Kfouri, jornalista: O projeto “Novo Recife” é um projeto imobiliário que está destruindo uma área histórica da capital pernambucana para erguer as torres mais altas da cidade, num processo cheio de ilegalidades, já denunciado pelo Ministério Público Federal. Durante o processo o prefeito Geraldo Júlio (PSB) suspendeu o alvará de demolição e a reintegração de posse da área – ocupada pelos manifestantes. Hoje, se aproveitando do jogo do Brasil, a tropa de choque esteve no local às 5h. Muita bomba de efeito moral, muita bala de borracha, muita gente machucada e hospitalizada. Toda a ocupação foi feita de maneira pacífica e festeira. Xico Sá escreveu um texto lindo sobre o episódio. Como se pode ver numa das fotos abaixo, há um quadro com a programação que estava sendo feita no local: produção de malabares e brinquedos de papelão. Foi para remover esse pessoal perigosíssimo que o governador mandou a tropa de choque, com gás de pimenta, bala de borracha e bomba de efeito moral. O obra está embargada – segue uma foto de um post da prefeitura nas redes sociais, afirmando que o alvará continua suspenso. Não obstante as empreiteiras já enviaram para o local tratores, escavadeiras e funcionários para derrubar os galpões históricos.

João Valadares, jornalista: Hoje, dia 17 de junho de 2014, eu, João Lyra Neto, governador de Pernambuco, no gozo de minhas atribuições legais, autorizo todo e qualquer pernambucano a não cumprir os acordos firmados com o meu governo. Hoje, eu autorizo todo e qualquer pernambucano a não me respeitar e não confiar na palavra empenhada pelos meus secretários. No meu governo, acordos públicos são fechados e não cumpridos. Hoje, em Pernambuco, fica instituído o dia da desmoralização pública da minha gestão. As comemorações, por minha ordem, já foram iniciadas.
Revoguem-se todas as disposições em contrário.

Outra de João Valadares: A ação do Batalhão de Choque hoje, no Recife, foi autorizada por uma caneta magoada, preterida e cheia de tinta. O governador João Lyra, escanteado pelo presidenciável Eduardo Campos do processo eleitoral no quintal socialista, mostrou o que é capaz de fazer. Bastaram dois meses para virar o inimigo íntimo número 1 do ex-governador. Ironia que, na semana passada, ao avaliar a vaia tomada por Dilma na abertura da Copa, Eduardo Campos soltou um “a gente colhe o que a gente planta”. A ação desastrosa do Choque hoje ocorreu justamente no momento em que o prefeito do Recife, Geraldo Julio, autorizado por Campos, se movimentava para tentar negociar uma saída. No momento em que manobrava nos bastidores para transformar o limão numa limonada. O recurso seria julgado esta semana. Burrice política crônica do governador em antecipar a ação truculenta do Choque? Não acredito. O Choque fez o que sempre fez: desceu a porrada. Foi preparado para isso. Agora, o PSB no Recife é o PT do ano passado. A discussão e divergência são públicas. A roupa suja também. O prefeito declarou publicamente que foi surpreendido, a secretária Cida Pedrosa alegou no facebook que os acordos não foram respeitados. Comparou a ação da polícia de Lyra aos tempos da ditadura. No dia em que a Justiça concedeu a reintegração de posse, um dos secretários mais fortes de Geraldo Julio chegou a ligar para o secretário de Defesa Social de Pernambuco pedindo para que segurasse a execução da ordem. De nada adiantou. A caneta cheia de mágoa do governador é bem mais forte.

Juliana Cesar, advogada feminista e ativista de direitos humanos: O Consórcio Novo Recife concordou em suspender a reintegração enquanto está sendo conduzida a negociação na Prefeitura do Recife. Além disto, um acordo – noticiado na imprensa – estabeleceu que a reintegração, quando viesse a ocorrer, seria anteriormente discutida com todas as partes envolvidas, inclusive representantes da ocupação, para que ela fosse feita da maneira menos conflituosa possível. SECRETÁRIOS ESTADUAIS E OFICIAIS DA PM estavam presentes nesta reunião. Ontem à noite FALEI COM UM UM SECRETÁRIO ESTADUAL sobre um boato de reintegração e, após contato com a SDS, isto me foi TERMINANTEMENTE NEGADO. Este é o grau de confiabilidade deste Governo e a prova do desrespeito que ele possui com os direitos humanos, bem como do valor que dão às suas próprias palavras. GOVERNO VIOLENTO, COVARDE E SEM PALAVRA!

Leonardo Cisneiros, integrante do Direitos Urbanos e professor da UFRPE: João Lyra, cabra safado, sem vergonha! No interior, homem sem palavra não é homem! Choque perseguindo e encurralando manifestantes até no Pina! Fiquei encurralado entre um segurança armado de um restaurante e uns 20 caras do Choque. Paguei de transeunte, ia conseguir sair, mas um cachorro fardado me reconheceu e levei umas porradas de cassetete só por isso…

Nação Zumbi: Recife desfigurado e desmoralizado. Perdendo identidade e resgatando o coronelismo com força total. Resgate cultural do coronelismo. É o único resgate cultural que interessa ao governo do estado de Pernambuco neste momento. A Nação Zumbi não tem medo de governo ou prefeitura de Recife. Já discordamos anteriormente sobre a política empregada nas áreas culturais nas redes. Agora recente também discordamos da maneira com que foram feitas as ações relacionadas á ‪#‎ocupaestelita‬. Entendemos que temos o direito de discordar e o exerceremos se acharmos necessário. A distribuição inteligente de espaços da nossa cidade nos interessa e queremos um Recife/Olinda para todos. Cidades com boa infra-estrutura. Sabemos que temos um importante posicionamento político e gostamos de deixar isso bem claro apesar de não sermos chatos com isso. Sem medo de retaliações pelas partes envolvidas é isso que pensamos. Mais uma vez viemos dizer que discordamos de instituições e não pessoas.

Pierre Lucena: Como confiar em alguém que em um dia senta em uma mesa para negociar e no outro manda a PM para bater? Infelizmente a reação do Estado às manifestações do ano passado foi o reforço da repressão policial, quando deveria ser na melhoria da prestação de serviços e no aumento da transparência. Quem pensa que este tipo de atitude autoritária de empresas que mandam na cidade não estava na pauta da revolta popular, é porque realmente não entendeu nada da crise urbana que vivemos. #‎OcupeEstelita‬

Ana Paula Portella: Foi uma armadilha. Das mais perversas e nojentas, digna dos governos mais autoritários. Espalharam o boato sobre a reintegração, o que nos levou a checar a informação com o governo do estado, quando fomos tranquilizados e informados de que o acordo estava mantido. Os professores desse tipo de técnica ainda estão vivos na memória desse país. Liana Cirne Lins explica tudo aqui, direto do ‪#‎resisteestelita‬

Marcelo Pedroso, cineasta: A bravura da resistencia contra a covardia do Estado encontra foco no acampamento. A estrutura ja estava armada na noite de ontem, mesmo depois de horas de bombardeio e tiros! Quem puder ajudar, leve mantimentos, agua potaval, comida, produtos de higiene, extensao, fios eletricos, ferramentas e vinagre.

Chico Ludemir: O que vivemos hoje assim que o sol raiou no Cais José Estelita foram atos de terrorismo. A policia, a partir das 5h da manhã acordou a ocupação com seu cavalos e batalhão de choque. Em menos de uma hora tudo que havia no Cais já encontrava-se destruído. Para isso, usaram de força extrema, desmedida e, diante da resposta pacífica dos manifestantes, foram covardes e desumanos.

Carolina Leão, jornalista: O direito à cidade é o direito não à cidade arcaica e nostálgica de um passado, ou à da ideologia burguesa enquanto organismo econômico e social gerido por um aparato político-institucional, mas à vida urbana, à centralidade renovada, aos locais de encontro e de trocas, à informação, aos ritmos da vida e empregos do tempo (Manoel Rodrigues Alves).

Moacir dos Anjos, curador: As construtoras passam por cima de leis, embargos e acordos, com a participação ativa do Governo do Estado (PSB), via PM, e a Prefeitura (também PSB) ainda quer sair de bom-moço, como se não tivesse nada a ver com isso. Entendi mal ou é isso mesmo? Se é assim, é uma total desmoralização da autoridade do prefeito.

Leo Falcão, cineasta: It’s a clear undemocratic act against the law and the population, in a combined action of private economic power, an accessary Government and a negligent major media. For that, we ask the International community of media, social and political activists to share this violence practiced against the Brazilian people, who so far has fought only with arguments, art, joy and courage.

Pedro Caldas Ramos, 15 anos: Na maioria dos dias acordo as quatro da manhã, me arrumo, saio de casa, falo com o vigia. Na maioria dos dias ando pela Rua João Lira, onde vejo o céu quase claro, ando pela Rua da Aurora. Na maioria dos dias vejo o nascer do sol de dentro do Capibaribe, na maioria dos dias vejo um céu de Michelangelo. Vejo também o Recife Antigo, com seus prédios com mais histórias que um livro sagrado. Vejo o Recife acordar, vejo o mais belo. Não sou contra as causas dignas mesmo com seus problemas, NÃO GOSTO DOS PRÉDIOS, não queria morar em um apartamento, mesmo sendo ele antigo, NÃO GOSTO DOS PRÉDIOS, grande e acolhedor como uma casa, NÃO GOSTO DOS PRÉDIOS. Não imagino o nascer do sol atrás dos prédios, não imagino um Recife sem as quatro pontes que passo, não imagino o Recife cinza, imagino e verei sempre o Recife mais belo. O Recife que sempre me surpreende. O céu nunca igual, a água nunca igual, os prédios nunca iguais. Lutemos então pela nossa paisagem! Pois quero viver e dizer a sessenta anos “A CIDADE” é igual, a sessenta anos ela me surpreende, quero passar o resto dos meus dias me impressionando com a beleza do nascer do sol atrás da Prefeitura! ‪#‎OcupeEstelita‬ ‪#‎ResisteEstelita‬

A batalha pelo Cais José Estelita, por Renan Truffi > http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-batalha-pelo-cais-jose-estelita-8652.html

Conflito no centro histórico do Recife deixa 10 feridos, por Daniel Carvalho > http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/171675-conflito-no-centro-historico-do-recife-deixa-dez-feridos.shtml

MPPE recebe denúncias de violência policial em reintegração de posse no Recife > http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2014/06/mppe-recebe-denuncias-de-violencia-policial-em-reintegracao-no-recife.html

Nota de repúdio do Ministério Público Federal > http://www.prpe.mpf.mp.br/internet/Ascom/Noticias/2014/Nota-de-repudio-Reintegracao-de-posse-Cais-Jose-Estelita

PM retira à força ocupantes do Cais José Estelita > http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-06/urgente-pm-retira-forca-ocupantes-do-cais-jose-estelita#.U6BNDHutBjI.twitter

Reintegração de posse no Recife termina com 4 detidos e 3 feridos > http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/06/1471756-reintegracao-de-posse-no-recife-termina-com-4-detidos-e-3-feridos.shtml

Repressão em “reintegração de posse” no Ocupe Estelita > https://www.facebook.com/media/set/?set=a.401288810009457.1073741866.285490214922651&type=1

#OcupeEstelita vai recorrer ao CNJ e reivindica soltura de jovem preso em reintegração > http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/grande-recife/noticia/2014/06/18/ocupeestelita-vai-recorrer-ao-cnj-e-reivindica-soltura-de-jovem-preso-em-reintegracao-494254.php

Pra acompanhar:

Direitos Urbanos > https://www.facebook.com/groups/direitosurbanos/

Movimento #OcupeEstelita > https://www.facebook.com/pages/MovimentoOcupeEstelita/320033178143669?fref=photo

O outro compilado de links que fiz aqui > http://donttouchmymoleskine.com/ocupeestelita/

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