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carta sobre a felicidade

por   /  31/08/2009  /  0:51

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

Epicuro, em “Carta Sobre a Felicidade”

entrevista: lucas santtana

por   /  30/08/2009  /  23:27

Lucas Santtana foto 1
demorei quatro discos pra ouvir lucas santtana. culpa do tempo _ou melhor, da falta dele. na hora certa, “sem nostalgia” chegou por aqui. e foi uma daquelas surpresas boas que só acontecem de vez em quando. lucas tem pegada, suingue, malemolência. e fala de amor. elementos suficientes pra que eu recomende o disco pra vocês _dá para baixar esse e os outros álbuns no site dele, o diginóis.
lucas faz show no próximo dia 4/setembro, no sesc pompéia. se eu fosse você, iria dançar por lá, viu? =) pra saber mais sobre lucas e seu novo disco, fiz uma entrevista com ele. confiram!
* O que te inspira a fazer música?

Tudo, um filme, uma conversa, uma caminhada  a noite na rua, um livro, a batida de uma música a noite numa boate, enfim, os estímulos vem de toda parte e os esados lisérgicos ajudam bastante ; ))).

* Tudo pode virar uma canção ou você fica mais naquela base de 10% de inspiração e 90% de transpiração?

Tudo, os processos é que variam muito. As vezes a música e a letra vem toda, já pronta, como se fosse psicografada. Noutros casos o que vem é só uma idéia e ai precisa realmente de muita transpiração para chegar numa coisa legal.

* Como funciona a tecla SAP do teu cérebro?

hahahaha, adorei a pergunta, os jornalistas deviam fazer mais esse tipo de pergunta, hahahaha. A minha funciona mal, hahahaha, mas as vezes os defeitos dela provocam licenças poéticas muito bem vindas, hahahaha. Será que ela funcionou agora para entender a pergunta, HAHAHAHAHA.

* E de onde vem esse suingue?

Vem do fato de ser baiano, nordestino, brasileiro, latino americano e de vários mestres como Jorge Ben, Fela Kuti e Novos Baianos, só para citar alguns.

* Quem são suas divas e seus mestres?

Pô, tem muita gente que eu gosto muito, mas muita mesmo! De todos os estilos musicais imagináveis. Das Divas gosto da Gal nos anos 70, da Bethânia, da Betty Davis, Aretha, Madonna, Billy Holiday, Bjork, Clementina, Feist, Santogold, são muitas também.

* E quais são aquelas músicas que você ouve obsessivamente?

Baixo muitas músicas na rede e o meu foco de interesse são coisas que estão sendo produzidas agora, coisas que muitas vezes não tem nem cd ainda. É um trabalho de pesquisa mesmo. Dai quando encontro coisas legais fico ouvindo direto. Nos últimos tempos chapei com South Rakkas, Ghislian Poirier, Uproot Andy, Santogold, Metronomy, Mc Roger, El Remolon, Magic System, K’naan e alguns tecnobregas. Adoro remixes e mashups também.

* Você tem um pé na Jamaica e outro em Recife?

Eu sou tri-octopus, tenho o pé em todo lugar que dá fruto.

* E o Rio te dá o que no meio disso tudo?

O Rio me deu o funk carioca, os bailes, o dub, o dance hall, que só vim a conhecer quando me mudei para cá. E agora tem me dado o ghettotech, cujo interesse tenho dividido com amigos como o Chico Dub, o João Brasil e o Pedro Seiler.

* Como foi o processo de criação do “Sem Nostalgia”?

Foi bem divertido, gravei em Salvador, no Rio e em São Paulo. Em vários estúdios diferentes e com vários produtores e músicos participando. A idéia era fazer um disco de voz e violão a várias mãos, com todos os suportes tecnológicos que temos hoje na criação de música. Usei muito a questão do ambiente também, sou fissurado em música ambiente, essa trilha sonora que está todo dia e o tempo todo a nossa volta, mas como vivemos a cultura do olhar não escutamos muito.

* O disco é você e o violão, inicialmente. Como você escolheu os parceiros depois? E como vocês transformaram as músicas?

Como fiz com vários produtores, fui escolhendo quais músicas poderia crescer com o jeito e o estilo que cada produtor e músico trabalha. Quando comecei o disco já tinha esse mapa todo na cabeça, caso contrário o disco correria o risco de ficar um samba do criolo doido. Fora os mashups, que foram feitos só com sampler, as outras canções já estavam prontas. Então fui em busca que elas soassem ora como uma banda como é o caso de “who can say which way” e “cira regina e nana”, ora  mais acústicas mesmo, com a voz, o violão e muito ambiente ao redor como “night time in the backyard”, “ripple of the water” e “hold me in”.

* Você coloca seus discos na internet. Me dá uma daquelas respostas sobre como você vê o futuro da música num tempo em que as pessoas baixam muito e compram pouco? O que isso te traz de bom?

Olha, não gosto de ser profeta de nada, até porque o tempo que vivemos é de profundas mudanças comportamentais, o que posso falar é da minha experiência particular até aqui. Desde que disponibilizei meu disco anterior, o “3 sessions in a greenhouse”, o acesso de pessoas ao meu trabalho cresceu muito, tanto é que várias pessoas pensam que esse é meu primeiro disco e o “Sem Nostalgia” o segundo. Não conhecem os 2 primeiros pois em 2000 e 2003, quando foram lançados, eu  ainda não tinha me ligado nesse lance da rede. Hoje chego para tocar em cidades que nunca havia tocado e as pessoas cantam as músicas, enchem os shows. Acabei de voltar de Salvador, tinham 1.400 pessoas no museu do MAM.
Conheci uma turma de Cruz das Almas, uma cidade do interior da Bahia, que foi lá para me ver porque baixaram o cd e curtiram. Se fosse depender de cd e loja de disco eles não iram conhecer minha música. No dia seguinte fiz uma noite de autógrafos e vendeu todos os cds do Sem Nostalgia que levei. Existe uma nova lógica de se relacionar com a música, de consumi-la.  Os exemplos estão acontecendo o tempo todo, a gente só precisa fazer a leitura.

* O que você acha da alcunha “o cara que reiventou o violão” [ao menos nos anos 2000]?

Deus me livre, hahahaha. Eu quero a alcunha do cara que se divertiu para caralho com a voz e o violão nos anos 2000. E que venha uma gurizada ai depois barbarizando ainda mais. A música brasileira produzida nos anos 2000 não deve nada ao que foi produzido nos anos 70, chega de nostalgia.

* E dessa coisa de figurar na lista do NYT mas demorar a ser mais ouvido e criticado por aqui?

Desde o primeiro disco saiu muita matéria aqui, muitas críticas e tal em vários jornais e revistas do país, mas lá fora eles sacaram melhor o que eu faço desde o primeiro disco, que é o lance das texturas musicais, dos crossovers. Acho que porque lá a diversidade é maior, chega tudo do mundo todo e não existe só o independente e o maistream, tem vários esquemas no meio disso. Eu sempre achei a cultura brasileira conservadora, tão qual o nosso país. Nos E.U.A eles vibram quando aparece um Prince, porque aquilo é uma evolução do James Brown, aqui até hoje o samba, o Axé e a MPB não mudaram quase nada em termos de sonoridade para o grande público. Aqui a música é como a política, as estruturas tentam se manter até onde for possível.

* Aproveitando meu próprio ensejo, o que é o amor pra você hoje?

As coisas que estão bem próximas.

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uma fotografia que te inspira

por   /  25/08/2009  /  14:35

philippe_ramette

e hoje é dia de dar o resultado da promoção do dia mundial da foto. foi bem difícil escolher, porque vocês têm um bom gosto impressionante!

fiquei com a resposta de pablo pamplona: “uma que adoro, do philippe ramette. me leva a pensar em – basicamente – tudo. de como deve ser boa uma vida à parte do caos urbano, vida livre, descompromissada, tendo o oceano inteiro como lar e o céu como paisagem da varanda. da leveza do mar, o vento no rosto, enquanto ao lado outras tantas pessoas se matam pelo maior pedaço do bolo… eu gosto da vida numa metrópole, mas essa fotografia me faz morrer de satisfação, sempre e um pouco mais.”

pablo, escreve para sac@fotonaparede.com.br, que o pessoal do foto na parede vai entrar em contato pra te mandar a foto!

obrigada a todos que participaram!  =)

felicidade surpresa

por   /  25/08/2009  /  2:56

faff

faff2

se hoje eu tivesse que escolher imagens para traduzir o que é bliss, escolheria essas duas aí acima, feita por felicia labor. bliss é aquela felicidade que vem quando a gente menos espera. chega assim, de repente, e invade a gente de uma alegria que não depende de motivos, de circunstâncias, muito menos de recompensas. é um momento mágico, no sentido mais hippie da palavra. e é, no fundo, tudo o que a gente passa a vida procurando, pra poder escrever no epitáfio: “foi feliz e soube muito bem disso”.

incorporei essa à palavra à minha vida depois de ler “bliss”, de katherine mansfield. vocês têm que ler esse conto:

Altough Bertha Young was thirty she still had moments like this when she wanted to run instead of walk, to take dancing steps on and off the pavement, to bowl a hoop, to throw something up in the air and catch it again, or to stand still and laugh at–nothing–at nothing, simply.

What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss–absolute bliss!–as though you’d suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe? . . .

Oh, is there no way you can express it without being “drunk and disorderly” ? How idiotic civilisation is! Why be given a body if you have to keep it shut up in a case like a rare, rare fiddle?

“No, that about the fiddle is not quite what I mean,” she thought, running up the steps and feeling in her bag for the key–she’d forgotten it, as usual–and rattling the letter-box. “It’s not what I mean, because–Thank you, Mary”–she went into the hall. “Is nurse back?”

“Yes, M’m.”

“And has the fruit come?”

“Yes, M’m. Everything’s come.”

“Bring the fruit up to the dining-room, will you? I’ll arrange it before I go upstairs.”

It was dusky in the dining-room and quite chilly. But all the same Bertha threw off her coat; she could not bear the tight clasp of it another moment, and the cold air fell on her arms.

But in her bosom there was still that bright glowing place–that shower of little sparks coming from it. It was almost unbearable. She hardly dared to breathe for fear of fanning it higher, and yet she breathed deeply, deeply. She hardly dared to look into the cold mirror–but she did look, and it gave her back a woman, radiant, with smiling, trembling lips, with big, dark eyes and an air of listening, waiting for something . . . divine to happen . . . that she knew must happen . . . infallibly.

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amor  ·  fotografia

para não dizer adeus

por   /  23/08/2009  /  18:56

bolas

algumas músicas contêm toda a verdade do mundo. “do you realize?”, do flaming lips, é uma delas. é a música que pergunta se você tem noção de que todo mundo ao seu redor vai morrer algum dia. a gente tem, mas nunca está preparado pra lidar com o que deixa de existir _neste plano real, de abraços, olhos nos olhos, conversas e confissões.

toda morte é dolorosa, porque vem cheia de “se”, de “ah…”. quando ela não é natural, você pensa: onde eu estava que não pude impedir? se é trágica, você esbraveja: por que, meu deus, o que essa pessoa fez pra merecer isso? quando é de morte morrida, de velhice, ainda não sei dizer. só sei que é automático pensar em tudo o que a gente não disse, em tudo que poderia ter sido feito, em tudo o que a gente ainda queria fazer na companhia daquela pessoa tão querida.

e é isso que wayne coyne ensina em “do you realize?”. que a gente, em vez de dizer adeus, deve fazer com que todas as pessoas importantes saibam o quanto elas são importantes enquanto elas estão aqui. and instead of saying all of your goodbyes / let them know you realize that life goes fast / it’s hard to make the good things last / you realize the sun doesn’t go down / it’s just and illusion caused by the world spinning round.

falta de tempo é a grande desculpa do século 21. todo mundo tem tempo pra fazer mil coisas ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue encontrar um amigo pra tomar um café ou uma cerveja. você deixa pra depois, se justifica, remarca. e um dia, pluft, aquele seu amigo ou aquele parente querido que você deixou de ver no último natal pode não estar mais ali. e você vai viver um longo período pensando em verbos no tempo condicional.

então, meu amigo, evite dizer adeus. e insista em olhar para os olhos de quem você ama, mostrando, falando, abraçando, dizendo de qualquer forma que o seu coração só é seu coração porque tem um pedaço de cada um ali.

* a foto é de joliealtshuler

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meu coração é uma rádio am que toca de madrugada #1

por   /  21/08/2009  /  4:26

crying

é o seguinte: 87% de todas as músicas que a gente ama são de sofrimento de amor. patsy cline fall to pieces cada vez que vê o ex-amor novamente, ou quando alguém simplesmente fala no nome dele. muita mágoa acumulada. isso sem falar que ela se acha crazy for feeling so blue… é não, amiga, todo mundo já se sentiu assim em algum momento de sua trajetória amorosa.

dá para fazer um tratado sobre o amor através dos tempos via youtube. mais ou menos o que decidi fazer nesta noite de dda.

tammy wynette, por exemplo, faz drink and dial desde os anos 1960: i hope i won’t disturb you with this call/ i’m just in town for such a little while/and i thought perhaps you’d like to hear the news/ jeannie’s grades were the highest in the school. quando se tem um filho, imagino que deva ser até mais fácil manter o contato. quando não…

você liga só pra dizer uma besteira. força a barra bonito. quem está do outro lado tem duas opções: atender ou ignorar. às vezes a pessoa te atende, te encontra e depois volta a te ignorar. às vezes, silêncio, no hay banda. e aí você quer pular naquele pescoço que você já beijou, mordeu e onde tantas vezes se aconchegou.

daí você tenta sair com alguém. a vida ta aí, né? mas, por um tempo, o fantasma ainda ocupa muito espaço. e sabe que até pra isso existe música correspondente?

sylvia canta your nobody called today: sittin’ in a restaraunt and she walked by/ i seem to recall that certain look in your eye/ i said, “who is that?”/ you said with a smile/ “oh it’s nobody, oh nobody”/maybe that explains the last two weeks/ you called me up dead on your feet/ working late again I ask, “who with?”/ you said “nobody, oh nobody”.

no meio tempo, você faz que nem barbara mandrell: sleeping single in a double bed, thinking over things i wish i’d said /i should have held you but i let you go/ now i’m the one sleeping all alo-oh-one.

e ainda dá um bom conselho para os onipresentes momentos heleninha roitman: i’d pour me a drink, but i’d only be sorry/ ’cause drinking doubles alone, don’t make it a par-arty

* mais uma seção a ser atualizada quando eu tiver vontade. o quadro “crying girl” é de roy lichtenstein

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