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o amor comeu

por   /  03/07/2010  /  9:29

Trecho de Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

A foto é do Apharanatley

amor  ·  fotografia  ·  literatura

fratura exposta, por ivana arruda leite

por   /  02/07/2010  /  16:35

Gente, e a honra e a felicidade que é ter um texto da maravilhosa escritora Ivana Arruda Leite nesta seção?

A fratura do rabino, por Ivana Arruda Leite

Desde menina sempre tive paixão por fraturas. O menor indício de trincamento numa parede ou onde quer que fosse, era suficiente para distrair-me horas a fio tentando o conserto. Como acredito que a vida segue o rumo que o coração ordena, cedo me decidi pela ortopedia.

Já na residência, nada me dava mais prazer do que chegar ao PS e ver dezenas de braços, pernas, rótulas e clavículas esperando por reparação.

Osso é algo que quebra mas se recompõe. A menos que se engesse errado. Daí fica torto para sempre.

Meus colegas diziam que eu tinha olhos de raio X. Descobria fraturas onde ninguém supunha haver. Aliás, fraturas há de toda espécie e a maneira de repará-las nem sempre é a que aprendemos nos livros.

Por isso quando o jovem rabino chegou logo vi que, por trás da úlcera que ele dizia ser o motivo que o levara ao PS àquela hora da madrugada, havia uma fratura não exposta. Ele não entendeu nada quando encaminhei-o à ortopedia e não à gastro como seria de se esperar.

Eu ainda tentei explicar ao rabininho que as fraturas da alma são as piores, mas ele não quis saber de me ouvir e ao me ver tirando o avental e pulando na cama em cima dele, pôs-se a gritar feito um maluco.

Só me lembro das enfermeiras entrando correndo e me arrancando à força de cima dele.

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* O conto é o primeiro do livro “Histórias da Mulher do Fim do Século”, que será relançado no segundo semestre

A foto é de Jolie Ma

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

fratura exposta, por cáren nakashima

por   /  02/07/2010  /  9:58

Semana 0, por Cáren Nakashima

Ele me abraçou (muito forte) na garagem reservada do prédio estilo anos 50 – uma preciosidade nos dias atuais – e após uma breve pausa deixou sair um choro engasgado, sentido, como há tempos não o via expressar. O abraço aconteceu depois de duas viagens de elevador com quatro malas estilo sacola compradas às pressas no Wal Mart, cheias de todas as roupas que eu tinha. Cada uma que fora usada em uma ocasião especial e duas ou três peças que ele havia me dado de presente nos últimos tempos, e acertado.

Na tarde anterior à despedida – pra mim a última de todas as outras que poderiam existir – fui atrás de coisas que guardassem a vida que havia construído ao lado dele no apartamento 91 do número 408 da Minas Gerais “No último quarteirão antes de virar a Doutor Arnaldo”, como a gente costumava explicar para quem vinha nos visitar, enquanto éramos felizes. Guardei também aquilo que acumulei em outros endereços que moramos separados, porém sempre juntos, inseparáveis. Fui atrás de malas ou sacolas que fossem iguais, porque o fato de ficar sem um armário para guardar as minhas roupas me aterrorizava; fui atrás de caixas de papelão desmontáveis, fita lacre para que nada se perdesse no caminho, embora o que me era mais precioso já havia escorrido para o nada… Comprei também uma caneta piloto para anotar o que estaria contido nas caixas fechadas e, para minha surpresa, o meu presente e a promessa de uma vida feliz pra sempre (enquanto durasse), foi parar em um pacote nomeado “passado”.

Foi uma tarde dura. Ao mesmo tempo que acontecera cheia de sofrimento, foi extremamente libertadora. Cada pedaço de papel que colocava nos sacos de lixo tornou-se prova da capacidade humana (que eu até então não sabia que tinha) de se desvencilhar de algo que não serve mais, e dar espaço para o novo, mesmo que seja um novo que você não exatamente deseja. Mas ainda assim as lágrimas caiam pesadas, manchando o craft. Aquela tarde de quarta-feira se seguiu de três dias de tentativa de dividir o teto – a tentativa de permanecer na “nossa casa” para então partir para a “minha casa”, que ainda não existia ao certo, apenas em planos apressados de quem procura um apartamento às cegas porque quem dividia o lar e a vida com você acordou e disse: “acabou”. Com a propriedade de quem é dono do apartamento. Com a propriedade de quem realmente esgotou todas as possibilidades e com um vácuo no olhar e no espaço que nos divide, que me fez ter a certeza de que ali não havia mais nada. Nem resquício de cada risada partilhada no mesmo ambiente. Nem uma memória de um tempo no qual éramos amigos e nem imaginávamos que viraria (um curto) amor. Não tinha mais nada ali. E ele vinha sinalizando que havia muito pouco alguns meses antes…

O primeiro dia dos três que se seguiram a quarta-feira na qual parti completou uma semana desde o anúncio do fim. Em um domingo voltei para a “nossa casa” – numa tentativa estúpida de morar juntos mesmo separados – depois de uma semana de total pânico. Sete dias antes ele acordou depois de uma festa de casamento em que fomos um dos casais de padrinhos e me esperou no sofá da sala. O sofá que fora dado metade pelos meus pais e metade pelos pais dele quando a gente se mudou, há cerca de 10 meses antes daquele dia fatídico. Sentado ali, ele falou muito pouco. Primeiro se justificou. “Estou sentindo coisas que não gostaria de estar sentindo”. E então não precisou falar muita coisa. Eu me adiantei, e já sabendo a resposta perguntei se havia acabado. E havia.

Foi então que acabou a minha vida como eu conhecia. Não adiantava eu argumentar, questionar, pedir uma chance. O olhar dele era muito claro. A expressão de quem realmente não queria mais algo, não deixava dúvidas. Ali, naquele domingo de manhã, eu comecei a morrer. E era uma morte lenta e dolorosa.

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A foto é de Steven Beckly

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