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como ficar sozinho

por   /  06/08/2010  /  14:31

Cause if you’re happy in your head  then solitude is blessed and alone is OK.

Trecho do vídeo mais bonito que você verá na internet hoje! “How To Be Alone” é um trabalho da filmaker Andrea Dorfman e da poeta, cantora e compositora Tanya Davis

Via @mariagranola

amor  ·  arte

fratura exposta, por júlia de carvalho hansen

por   /  06/08/2010  /  14:14

Celeste, por Júlia de Carvalho Hansen

We can be heroes
Just for one day

David Bowie

São poucos os que atravessam até o Verdadeiro Amor. Lá estão sentados Carlos e Vicente. As vozes assaltam o silêncio. A garota se levanta do caixa de ferro, abre a porta balcão da cozinha. Quando entra, os mosquitos já têm medo dela. Voam pela janela. Não voltam com ela para o salão, tão pouco rondam o café dos clientes. Traz no pratinho branco, circulado de vinho, com o logotipo de coração, a torta de maçã que pediram. Conversam:

— Faz tempo que não ouço falar de uma boa desgraça.
— É verdade, Vincente, eu também.
— Teve aquela da prostituta assassinada porque sabia demais.
— Não disseram que ela sabia demais, só que ela tinha um anel de escaravelho, como o do Jonas Jr tatuado nas costas.
— Ah é, aquele que deu pra ver quando ele comemorou o gol.

Olham pra televisão. Viram-se pra garota do caixa:

— Ô Celeste, não dá pra trocar desse canal?
— Não. Só pega esse. E vai começar o jogo. Não há mais ninguém atravessando os portões.

Confirmam sem olhar pra fora. O Verdadeiro Amor fica ao lado do estádio. Daria pra acompanhar o jogo sem nada além dos ouvidos. Ainda mais em grande dia, é a semi-final do campeonato. Jogam ali o Pertinentes x Arroubo. Quem ganhar vai jogar contra o Couraçados, classificado por pontos já na rodada anterior.

Os jogadores já terminaram de se aquecer. Riem, abatendo a responsabilidade. Pulam um em cima do outro. Cumprimentam a outra equipe. A torcida assobia. Festa só. O mundo é de espelho, vai pro telão. Filmam o dente de ouro do Lázaro, brilhante.

–Esse aí não sei não,… vende a mãe e entrega em casa. – diz a Celeste. Vicente confirma um tanto surpreso, já que ela nunca fala, a não ser quando sorri de olhos baixos depois de espantar as moscas:
–Pipoqueiro, nervosinho.

Lança-se a moeda pra cima, a bola vai rolar. Tocam as trombetas, o juiz apita os astros. No pé do Pertinentes, Lázaro passa pro Camarada. Um pro outro de novo. Está dado o início. É uma verdadeira tentação impossível saber o que vai acontecer. Cheio de furor na primeira tentativa, cara a cara com Garoto, Lázaro chuta pra fora, gargalha e bate palma.

Celeste atravessa o Verdadeiro Amor com um pote de canela nas mãos. Chega na mesa dos rapazes e derrama por cima da torta de maçã que já foi comida. O prato vazio fica todo avermelhado. Vicente e Carlos nem olham, mas dizem:

— Não sei se foi pra Líbia ou pro Tibet que despacharam o Jonas Jr.
— Foi pra Líbia. Depois de perder os milhões em Milão ele ficou ilegal por lá. Ainda tentou argumentar que os italianos ficariam sozinhos com eles próprios. Mas não teve jeito.
— Fazem isso, né? Pegam os imigrantes, botam num barco e mandam pra África.
— É, foi por isso que eu pensei que tivessem mandado ele pro Tibet.

A Celeste olha a televisão, limpando as mãos no avental. Garoto lança a bola num chutão pro meio-campo. Fecha os olhos ainda atiçando a pontaria, vendo se cai com alguém do Arroubo. Os meninos gritam na arquibancada um refrão de décadas.

Foi. Dadá, numa disputa tête-à-tête, fica com a bola. É o homem certo, na hora certa. Dribla um, dribla dois, entra na área e Camarada chuta a canela do craque. É PENAAAAAAAALTY. Dadá fica num estado intransponível. Caiu de cara, pobre Dadá, o nariz sangrando. Levam-no numa maca. Garoto corre até o treinador. Trinta coisas indizíveis. O coração de Celeste dispara, grita!

–Vai, Arroubo!

Os dois rapazes se entreolham e continuam:

— Cinquenta mil chineses mortos na via férrea, irreparável.
— Tudo isso por conta de meia dúzia de carros-fortes. Vamos pedir uma outra torta?
— Vamos. Pelo menos é como dizem, vivemos num mundo sem nazismo.

Gargalham. Camarada recebe o cartão vermelho e voa pra cima do Garoto. Se encaram fundo. Garoto diz alguma coisa e vira as costas. Na arquibancada ARROUBO ARROUBO. Dentro do Verdadeiro Amor, Vicente chama Celeste:

— Traz uma outra de maçã pra gente?
— Acabou. Não tem mais. Acabou. — diz, horrorizada.
— Assim fica difícil, Celeste. Sempre no futebol porque o botão quebrou e o controle remoto sumiu, agora vai me dizer que não tem torta de maçã porque não fabricam mais maçã? — Celeste avoando, volta:
— Hein? … ah, torta! tem sim. Espera o penalty que vou lá pegar.

Não há dúvida. Sem Dadá, Garoto é o melhor pra isso. É goleiro, conhece o erro alheio. E é dele a bola, é dele o penalty, é dele a torcida.

— Agora ele vai dar a distância numa curva curta, pra bater com a perna esquerda. — repara Celeste baixinho, cheia de dedos frios. — Acabou, acabou. — geme, ternura — Arroubo, Arroubo!

Garoto toma a distância de lado, estoura o pé esquerdo na bola, goleiro prum lado, bola pro outro é GOL! Gooooool! Celeste balbucia em um rodopio: –Arroubo 1, Pertinentes zero!– Vira as costas de alívio, sorriso pra ir pegar a torta dos rapazes, mas fica ainda um segundo, olho na televisão, comovida.

Na comemoração Garoto arranca a camisa, aponta pro peito e diz pra câmera de televisão algo ininteligível. Garoto corre uma vez prum lado, corre outra vez pro outro. A torcida grita GAROTÔÔÔ. Ele retribui, sobe na grade, manda beijos estatelados com a palma da mão. E ainda diz: –Pôôôôrrra!!! — Quando todos começam a acalmar, Garoto dependurado salta a grade pro outro lado, afasta o segurança e abre o portão.

Garoto sai do estádio. Já não podem mais contê-lo, sorrindo, atravessa. Está na porta do Verdadeiro Amor, quando é atingido pelo controle remoto que Celeste lança do balcão. Na cabeça, ele desmaia. Tão feliz que não aguenta.

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Foi a Giuliana Xavier quem mandou o texto e a foto dessa fratura. Ela explica: Júlia de Carvalho Hansen é escritora e tem um livro publicado em edição independente, o Cantos de Estima. Também desenvolveu o projeto 12 exemplares. A foto é de Ilana Lichtenstein

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

amor  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  fratura exposta  ·  literatura

fratura exposta, por carol nazatto

por   /  06/08/2010  /  13:38

Eu te amo, por Carol Nazatto

Ele olhou para ela e disse, com a voz macia, que a amava. Ficou olhando para ele, com cara de boba, meio processando a informação, meio achando que era um sonho. Sem que ele percebesse, ela beliscou o braço. E, não, não era um sonho. Suas mãos apertavam as mãos dela. Seus olhos a vigiavam e ela, nervosa, olhava para os pés.

Quando se deu conta, um silêncio constrangedor reinava na sala. Ela olhou rapidamente para cima. Seus olhos encontraram-se com os olhos dele. Sorriu, um sorriso sincero, beijou-lhe os lábios, como nunca havia feito antes. Encostou seu rosto no dele e, num sussurro, declarou-se, também.

– Eu te amo, meu amor. Eu te amo desde que você disse, naquele bar, que nunca havia sentido perfume melhor que o meu. Eu te amo desde que você me pediu um cigarro, naquela noite fria, e disse que fumava o mesmo cigarro que eu. Eu te amo desde quando, na primeira vez que andei no seu carro, tocou aquela música. A música que a gente ouve, até hoje. Eu te amo desde que soube que você gosta de carne mal passada, que você canta no banho. Eu te amo desde que eu vi você dormindo, aqui, aconchegado em meu corpo. Eu te amo desde que ouvi sua voz. Olhei em seus olhos. Passei as mãos em seus cabelos. Encostei minha cabeça em seus ombros. Apertei sua mão. Acordei com você ao meu lado. Eu te amo, meu amor, meio que assim, amor a primeira vista.

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A foto é de Björn-Eric

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fratura exposta, por vinícius moreira

por   /  06/08/2010  /  13:33

Enfiando o nariz, por Vinícius Moreira

Quando afundava a cara no travesseiro  podia sentir, bem lá no fundo, um cheirinho de fumo. Mas tinha de enfiar mesmo o nariz, para que as poucas moléculas de odor pudessem permear suas parcas células olfativas. Dali, puxava para as entranhas o sumo de uma alma, numa fungada desesperada, como um asmático suga da atmosfera seu sopro de vida em um momento de surto.

Era a mais efetiva maneira que possuía de reviver os tempos idos. Repetia liturgicamente seu ritual, cada vez metendo o nariz mais fundo, puxando os últimos indícios da vida que levara. Sentia a pressão sangüínea como uma corrente marítima, deitava esguio percebendo-se frio. Literalmente frio. Tremia em transe, apesar da alta pressão em suas veias. Seu sangue era mesmo uma corrente, sabia disso. Sentia seu coração gélido como a Antártica, levando sangue aos membros e órgãos, como faz a Corrente de Humboldt, banhando a costa do Chile e do Peru com as águas mais frias do planeta.

Buscava se aquecer, afundava a cabeça no travesseiro mais uma vez. Tentou chorar. Respirou o mais fundo que podia, sorvendo as últimas moléculas de fumo em direção às terminações nervosas de suas narinas. Lembrava-se dos abraços, do sexo, das risadas encancaradas. O cheiro que dali vinha, guardado por semanas em uma gaveta carcomida, penetrava sua alma, ativava suas memórias mais latentes, provocava sua fisiologia, aquecia seu coração de maneira ímpar, causava turbilhões em cada uma de suas células enquanto revivia detalhadamente todo momento bom. Sentia seu sangue enquanto esfregava os pés: era outro sangue. Era quente, como fica a Corrente de Humboldt quando dá lugar ao El Niño. Como se a placidez de tão frias águas fosse objetivamente castigada pela natureza infalível das reações do amor.

Esquecia sempre, em verdade, preferia não lembrar, que essas memórias aconteciam como um estalo, um estampido luzindo num dia chuvoso, e logo estiavam, dando lugar à frieza da realidade sem mentiras, sem dissimulações, dando prosseguimento ao ciclo natural das correntes de seu corpo. Seu coração batia mais devagar. Sentia frio. Voltava à realidade: um homem em seus 35 anos, cabelo e barba displicentemente ignorados pela completa negação de sua vaidade, despido de sensações verdadeiras, perenes, vivendo entre orgasmos de memórias e sofrimentos amnéticos da vida que viveu. Nu, às 21:30 de um domingo, deitado sobre a cama de solteiro que há semanas comportava Irene, seu travesseiro, e suas tragadas pós-orgásmicas de Camel.

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A foto é de Julia Agafonova

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fratura exposta, por isabel araújo

por   /  06/08/2010  /  13:23

Peripécia, por Isabel Araújo

Eu lembro de um trecho de infância lá em Natal. Para precisar ainda mais: Pirangi do Sul. Numa tarde com cheiro de cenário de filme infernal. Num dia que a gente mais uma vez desafiou toda astúcia de uma mente pré-adolescente: subiu numa mangueira mais alta do que nossa própria ânsia de viver. E lá pelas tantas, depois que os galhos mais baixos ficaram para trás e a gente alcançou altura suficiente pra perscrutar a sombra alaranjada do sol por entre os vãos da árvore sobre o nosso rosto jovem, ouviu-se um PLOFT.  Nem precisamos recorrer ao nosso arquivo de história em quadrinhos para entender a onomatopéia: alguém caiu. E não foi um PLOFT solitário. Veio acompanhado de vários CRÉQUITIS. Inclusive um mais longo e seco, depois do próprio PLOFT. Pronto. Um corpo estatelado no chão. Sem vontade nenhuma de nadica de nada. Sem desejo de nem sequer se levantar. Era o corpo do meu primo.

Quandos descemos pra verificar o que um PLOFT teria feito do corpo dele, vimos: um pedaço imenso dele pra fora, pra um lugar que a nossa mente que tão pouco percorreu não estava acostumada a enxergar. Um osso. Pra fora da pele. Desajeitado. Imenso. Monstruoso. Quem conseguiu olhar constatou de maneira singular: algo de errado há com nosso primo. Quem não conseguiu se virou pela incapacidade de fitar a realidade crua: osso pra fora da pele. E se eu pudesse dizer que senti algo vindo daquele osso chutaria uma felicidade da independência que ele crê possuir. Quase a mesma que senti quando saí a primeira vez a noite, aos 14 anos, com hora marcada pra voltar. Minha irmã, mais nova que eu, sentiu o estômago embrulhar. Juntou as mãos doces e pequeninas pra frente do seu rosto, pra não enxergar o osso independente. Ela se remexeu na cadeira que nem estava sentada. Talvez fosse realidade demais para seus olhos inocentes.

Eu nao saí do lugar. Me mantive de frente pro meu primo. E mal pude entender o que via: um misto de mim queria extinguir-se um outro queria consumir toda aquela ferida. Antes aquele osso estivesse quebrado dentro do corpo. Fora do alcance dos nossos olhos. Só o meu primo poderia falar da dor que sente, de um troço fora do lugar que deve estar. Nós no máximo tentaríamos traduzir. No final nos restaria assistir, não o osso, mas o olhar sofredor dele. Da ponta que quase saiu pra fora, mas se manteve calada. Quieta. Morna dentro do corpo. Foi só porque a pele rasgou pra deixar o que dói em evidência que pudemos sentir com ele essa dor. E ele também. Seja pelo próprio olhar incrédulo dele enxergando a si mesmo, seja pelo olhar de horror de quem assiste ou do que os dois puderam perceber: a clara atestação de nossa impotência, de nossa fragilidade. Foi o corte que rasgou a pele, que mostrou o osso, independente do corpo, que fez a minha irmã botar a mão no rosto e eu enxergar a dor (e a alegria) do que somos. Fosse ele não exposto, eu ainda estaria tentando interpretar.

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A foto é de Amalia Sieber

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