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carta para o futuro

por   /  17/10/2010  /  20:54

Carta para o futuro, por Rodrigo Levino

Alguém falou “cara, a gente vai virar nome de praça!” e todo mundo riu. Há dois dias o sofá novo havia chegado e reuni uns amigos sem explicar direito o motivo, embora o sofá, todo mundo no meio da sala ouvindo Baiano e os Novos Caetanos, comendo polvo e bebendo Heineken, me dissesse que a raiz estava fincada. Era isso que eu comemorava. Dois anos antes, viajando pelo interior do Paraguai, desejei voltar para casa e pela primeira vez desde que havia chegado a São Paulo, “casa” era São Paulo; refiz mentalmente o caminho do aeroporto até a ruela sem saída, em Pinheiros, e ri sozinho. Esse foi o primeiro estalo. O sofá, o segundo. Porque Dani dizia que quando a gente chega aqui, compra logo uma cama box e uma porta que vira mesa sobre dois cavaletes. Agora eu tinha sofá, Bia, Dani, Fê, Quel, Gui, Bebel, Flávia e um monte de gente que foi chegando, sorrindo, perguntando “esse é o sofá novo?”, fazendo intuir que eu nunca mais iria sair daqui. “Junta pro ‘like’ na vida real!”. Não saí mesmo.


A foto é de Irene Suchocki

pontuação

por   /  17/10/2010  /  13:35

Donde se sabe que homem é vírgula; mulher é ponto final, por Xico Sá

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências…

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato…nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar… e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo de Paulo Coelho. Vade retro.

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A foto é de Ashil Hunt

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cafofo sessions #5: nina becker

por   /  14/10/2010  /  8:12

Antes de mais nada, gostaria de dizer que eu não tenho o menor talento para editar vídeos! Foi o que eu tentei fazer com esse Cafofo itinerante, gravado em agosto na Vila Madalena… E o resultado é apenas uma colagem dos melhores trechos, sem firula alguma…

Mas eis aqui Nina Becker, a maravilhosa cantora que lançou dois discos lindíssimos neste segundo semestre, o “Vermelho” e o “Azul”. Ela faz shows hoje e amanhã no Sesc Pompéia. Vi a estréia no Rio e, se fosse você, não perderia por nada!

Animem-se aí com a entrevistinha e com “Ela adora” tocada especialmente pro Cafofo!  =)

Lançamento dos álbuns “Azul” e “Vermelho” – estreia da carreira solo de Nina Becker

Teatro SESC Pompéia (Rua  Clélia, 93, Pompéia; Tel. 11 3871-7700)

Horários: dias 14 e 15 de outubro, às 21h

Ingressos: R$ 16 – inteira, R$ 8 – meia-entrada (estudantes e idosos), R$ 4 – comerciários

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mixtape pra crianças

por   /  13/10/2010  /  16:39

O Dia das Crianças já passou, mas que tal ouvir uma mixtape só com músicas infantis? A pedido de Bruna Monteiro, dona do blog Mãetamorfose e companheira de Colégio Damas há muitos e muitos anos, fiz uma seleção com clássicos da Arca de Noé, dos Saltimbancos, do Balão Mágico, do Trem da Alegria… Para lembrar dos tempos em que nossa grande preocupação era comer biscoito enquanto assistíamos à Sessão da Tarde  =)

Ouçam! > http://bit.ly/bamlpJ

A foto é de Leigh Ellexson

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pé na bunda

por   /  13/10/2010  /  8:45

Levar pé na bunda pode ser uma forma de egoísmo, por Eduardo Fernandes

Por volta de 2004, publiquei uma música chamada “Vulgar”. A letra dizia algo assim:

Tentei um dia imaginar o tempo que passamos, mas não dá
Ficou quase tudo nublado, num almoxarifado da memória
Quem é que iria imaginar que a ferida incurável fosse cicatrizar
Depois que tudo se dissolve, aquilo que nos move parece vulgar
Como uma espera sem sentido, parece vulgar

Dois anos antes disso, eu tinha levado um belo pé na bunda. Na época, fiquei mal. Cético, seco… e prolixo. Escrevia, tocava, criava teorias. Essas coisas.

Mas, em 2004, o sentimento era bem outro. Estava atônito ao perceber que, afinal, a ferida havia se curado. E eu mal conseguia me lembrar dela. Precisava fazer um considerável esforço mental para evocar o sofrimento que, antes, parecia automático.

Eu queria criar uma narrativa, encaixar aquela história naquilo que pensava que eu era em 2004. Mas, no fundo, não conseguia evitar a sensação de que bancava um charlatão, extremamente vulgar. Em vez de matar o assunto, eu queria mantê-lo zumbi, criar sentidos, histórias, de tão viciado que eu era em tentar manipular a vida.

Foi aí que percebi algo.

Dar pé na bunda geralmente é mais facilmente associado ao egoísmo: “Não te amo, de alguma forma, quero me livrar de você”. E então as revistas e sites tentam ensinar como ser polido, adequado e evitar conflitos na hora do rompimento.

Mas levar pé na bunda também pode ser algo extremamente egoísta. Porque na maior parte dos casos que eu vivi ou de que ouvi falar, tanto o dispensado quanto o dispensador tentam defender-se um tanto desesperadamente. No fundo, ambos querem garantias de que são pessoas interessantes, resolvidas e que “a rejeição” foi apenas um acidente de percurso.

Mais que isso, queremos saber porquê, como, onde, quando. Onde é que eu errei? Como posso acertar nas próximas vezes? Quais técnicas são infalíveis para evitar o próximo desamor?

O dispensado tende a ser ainda mais calculista. Muitas vezes, quer extrair o máximo de informação possível do dispensador — sem que este perceba, claro. Quer traçar uma teoria para poder olhar no espelho e dizer: “Foi isso. Faz sentido. Agora posso traçar um mapa de como seguir em frente”.

Se você tiver o hábito de escrever, pode ir para a web, fazer textos espertos / ressentidos, tentar utilizar a situação ao seu favor. Juntar uma platéia.

Ainda assim, perde a comunicação com o parceiro. Ele é somente um agente confirmador de narrativas (“tenho autoestima, não tenho, estou velho, preciso mudar, ele me sacaneou etc.”).

O mais espantoso é olhar para trás e ver que as coisas passam e perdem completamente o sentido. Secam.

Se você deixá-las como são, se não tentar fazer de relacionamentos uma espécie de plano de carreira, de estratégia de batalha, tudo se dissolve com uma rapidez incrível. Mesmo que o caminho tenha inúmeras dores e bifurcações. Alucinatórias, oníricas.

O que me leva a reafirmar: tomar pé na bunda pode ser tão egoísta quanto dar pé na bunda. Uma paradoxal tentativa de tentar fechar-se para as incertezas da realidade. Um jeito de ficar congelado nos ismos do ego.

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A foto é de Crimson Apple

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tomando decisões

por   /  13/10/2010  /  8:22

Why so many people can’t make decisions, texto bem legal publicado no Wall Street Journal

Some people meet, fall in love and get married right away. Others can spend hours in the sock aisle at the department store, weighing the pros and cons of buying a pair of wool argyles instead of cotton striped.

Seeing the world as black and white, in which choices seem clear, or shades of gray can affect people’s path in life, from jobs and relationships to which political candidate they vote for, researchers say. People who often have conflicting feelings about situations—the shades-of-gray thinkers—have more of what psychologists call ambivalence, while those who tend toward unequivocal views have less ambivalence. (…)

If there isn’t an easy answer, ambivalent people, more than black-and-white thinkers, are likely to procrastinate and avoid making a choice, for instance about whether to take a new job, says Dr. Harreveld. But if after careful consideration an individual still can’t decide, one’s gut reaction may be the way to go. Dr. van Harreveld says in these situations he flips a coin, and if his immediate reaction when the coin lands on heads is negative, then he knows what he should do. (…)

Black-and-white thinkers similarly may recognize that there are positive and negative aspects to a significant relationship. But they generally choose to focus only on some qualities that are particularly important to them.

By contrast, people who are truly ambivalent in a relationship can’t put the negative out of their mind. They may worry about being hurt or abandoned even in moments when their partner is doing something nice, says Mario Mikulincer, dean of the New School of Psychology at the Interdisciplinary Center Herzliya in Israel.

Such shades-of-gray people tend to have trouble in relationships. They stay in relationships longer, even abusive ones, and experience more fighting. They are also more likely to get divorced, says Dr. Mikulincer.

Recognizing that a partner has strengths and weaknesses is normal, says Dr. Mikulincer. “A certain degree of ambivalence is a sign of maturity,” he says.

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A foto é de Seth Rader

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a gente se acostuma

por   /  12/10/2010  /  15:08

Eu sei, mas não devia, por Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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A foto é de Samuel Bradley

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projeto incubadora

por   /  12/10/2010  /  13:50

Sou muito, muito, muito fã do trabalho do gUi Mohallem e tô super feliz porque vou ver seus trabalhos esta semana! Ele e os fotógrafos Breno Rotatori e Felipe Russo estão no Projeto Incubadora, na Galeria Olido > www.projetoincubadora.com

O Projeto Incubadora confronta o trabalho dos fotógrafos Breno Rotatori, Felipe Russo e gUi Mohallem com discussões trazidas por pensadores convidados. Para isso, juntaram-se ao grupo o artista plástico Lucas Simões, a crítica Lua Cruz, o fotógrafo Pio Figueiroa, e o pesquisador Ronaldo Entler. O objetivo é tornar o processo de criação sensível à crítica, e expor ao público algumas etapas de transformação dos trabalhos. O desenvolvimento dos trabalhos pode ser visto no blog do projeto (www.projetoincubadora.com) e na exposição que será realizada na Galeria Olido, a partir de 14 de outubro.

Ao longo dos últimos 7 meses, o grupo vem trabalhando em conjunto no desenvolvimento das séries dos três fotógrafos, com encontros periódicos para discussão. As reflexões, registros das atividades e alguns resultados foram compartilhados no blog do Projeto Incubadora.

Agora, o processo de discussão e criação será levado para dentro do espaço expositivo. A cenografia de George Rotatori pretende estimular e tornar visível a transformação dos trabalhos, a partir da ação do grupo convidado e do público, que no projeto são denominados como “metacriadores” (literalmente, aqueles que atravessam a criação).

A ocupação do espaço da Galeria Olido ocorrerá em duas etapas. A exposição começa com a apresentação dos trabalhos em desenvolvimento e com um debate aberto ao público no dia 14/10/2010. Além de apresentar o projeto, a ideia é alimentar o processo de criação com a percepção dos visitantes da galeria. A segunda etapa é a remodelação da exposição a partir da reflexão desencadeada pelo debate. Os novos resultados serão apresentados no dia 28/10/2010.

Durante o período da exposição, os envolvidos no projeto poderão realizar mudanças na estrutura dos trabalhos apresentados inicialmente, acrescentando ou subtraindo imagens, textos e outros elementos.

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