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maria rita kehl também é amor

por   /  07/10/2010  /  15:07

As fantasias e necessidades de uma criança recém-nascida estão sob o pleno domínio das paixões em “estado bruto”, e, ao contrário da valorização romântica que costumamos fazer a respeito das paixões desenfreadas, a irrupção dessas excitações sem nenhum mecanismo psíquico mediador, controlador de intensidade, é sentida como extremamente desprazerosa. Daí que uma certa dose de repressão, de contenção das paixões é uma necessidade interna da psique, e o papel ideal dos adultos seria simplesmente o de ajudar a criança a lidar, a dar continente e ter um certo controle sobre suas emoções. Como a repressão que a sociedade nos obriga a fazer em geral é bem maior do que aquela necessária para lidarmos com nossas paixões, mantemos uma espécie de mistificação nostálgica do “estado natural” em que desejos, terrores e ódios são intensos. Em função da nossa pequena capacidade de sentir prazer, vivemos saudosos de um estado primitivo em que a satisfação dos desejos também era intensa, e ignoramos que fomos nós os primeiros agentes da contenção de nossas paixões: uma necessidade própria do ser humano, necessidade de sobrevivência psíquica do pequeno ser que teme naufragar no mar furioso de suas demandas furiosas.

Maria Rita Kehl é o assunto mais comentado do dia. Foi demitida pelo Estadão depois de escrever o excelente texto “Dois pesos” . O clima no Twitter e na vida real é de revolta, e eu acho mais é que ela tem que abrir um blog pra falar tudo o que pensa; vai ser sucesso instantâneo. Nesse meio tempo, aproveitem pra ler a entrevista que ela deu ao Terra Magazine > “Fui demitida por um ‘delito’ de opinião”

Aí falando nela lembrei do livro que tô lendo, “Os sentidos da paixão”, que conta com um texto maravilhoso intitulado “A psicanálise e o domínio das paixões”. É dele o trecho acima  =)

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As fotos são de Sara Berntsen e Ali Bosworth, respectivamente


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o amor é um sentimento muito recente

por   /  06/10/2010  /  8:30

Aí viria a questão de perguntar se pode existir um amor sem sadismo nem masoquismo. Eu não sei. Não sei porque, inclusive, o amor é um sentimento muito recente. Não sei se vocês já se deram conta, mas o amor é uma coisa que nasceu, era um esporte muito praticado pela aristocracia provençal no século XII, o amor tal qual nós entendemos, o amor idílico, esse amor, por exemplo, que sustenta as novelas de Janete Clair, no horário das oito, o amor da fotonovela, esse amor presente na nossa vida hoje de um modo quase obsessivo, a tal ponto que chega assim: bem, você será feliz no trabalho e no amor. O amor e tal, isso pareceria uma coisa assim absolutamente anômala pra um romano, pra um grego ou pra um xeque árabe. A gente tende de repente a achar que as nossas coisas são universais. O amor não é uma coisa que nasceu com a espécie humana, quando o homem deixou de ser macaco e desceu da árvore. O amor nasceu, tal qual nós o concebemos hoje, com seus rituais, o amor idílico, o amor entre um homem e uma mulher, um homem e um homem, uma mulher e uma mulher, no sentido idílico, romântico, erótico e sexual. Foi uma coisa que foi cultivada pelos poetas provençais, na aristocracia da nobreza provençal no Sul da França no século XII, o amor cortês. Daí, sai toda a poesia portuguesa com as cantigas de amigo, D. Dinis, ele era o conteúdo, a substância da poesia dita provençal na origem de toda a poesia européia e, portanto, da nossa moderna, dos séculos XI, XII, XIII, pra cá. Era um esporte, amar era um esporte aristocrático que depois se popularizou.

Paulo Leminski, em Poesia: a paixão da linguagem, no livro “Os sentidos da paixão”
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A foto é de Sylvain-Emmanuel P.
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o que é o amor pra você hoje? por soko

por   /  05/10/2010  /  16:22

Ontem rolou um showzinho da Soko na casa da Tiê e foi a coisa mais fofa do mundo! Quer assistir? Então aproveita que foi tudo transmitido ao vivo e gravado pela Twitcam > http://twitcam.livestream.com/29prc

E Soko é das nossas, viu? Fala de amor o tempo todo! Aproveitei, então, para perguntar pra ela a famosa questão desse blog…  =)

coração amargurado

por   /  05/10/2010  /  15:33

Coração amargurado, por Drauzio Varella

Entrei no táxi falando no celular. Quando desliguei, percebi que o motorista me olhava de soslaio:

– O senhor não é aquele médico que dá conselho na televisão?

Pensei em explicar que não eram conselhos, mas concordar simplificava.

Assim que comecei a digitar os números do telefonema seguinte, ele interrompeu com delicadeza:

– O senhor teria paciência para ouvir um coração amargurado?

Em meu lugar, leitor, você diria não?

– Doutor, vivi com duas mulheres. A primeira era garota de programa; a segunda, uma evangélica fervorosa que nem nua na minha frente ficava. Advinha qual das duas me deu problema?

– A santa.

– Como o senhor sabe?

A garota de programa era vizinha de quarto na pensão da Alameda Glete, em que ele foi morar quando chegou em São Paulo aos dezenove anos, sem ter um gato para puxar pelo rabo, segundo ressaltou.

A moça havia fugido de Pernambuco com dezesseis anos para escapar das investidas do padrasto, que a mãe insistia em considerar simples manifestações de carinho. Aqui, conseguiu emprego numa fábrica de roupas na rua Oriente, para trabalhar doze horas por dia na máquina de costura. Três meses depois que a fábrica foi à falência, estava ameaçada de despejo do quartinho alugado no Brás, quando surgiu a inevitável amiga bem vestida que a apresentou ao dono de um inferninho na zona norte.

A solidão aproximou os dois na pensão da Alameda Glete. Nos fins de semana, passavam horas conversando; às vezes saíam para passear, mas não se tocavam.

Depois de meses de convivência, ele a beijou. Ela disse que nunca havia sido tratada com tanto respeito; por um homem como ele abandonaria a vida na noite, seria uma companheira dedicada e sincera.

Sem casar no papel, viveram em harmonia durante oito anos, num sobradinho do Jaçanã:

– Minha casa era um brinco. Se disser que ela me deu motivo para desconfiar que estivesse interessada em outro homem, estou mentindo.

Quando foi promovido a encarregado do almoxarifado da firma em que trabalhava, ele conheceu a outra, mocinha, evangélica recatada que corava na presença do chefe. A esposa ideal para constituir família, concluiu.

A separação foi dolorosa. A primeira mulher chorou muito, mas não entrou em desespero, pressentia o desenlace: ele nunca esqueceria o passado.

– Eu também sofri feito cachorro. Gostava mais dela do que da outra.

Mesmo assim, casou com a evangélica no civil e no religioso, tiveram duas filhas criadas em obediência aos princípios religiosos da mãe e um neto que havia acabado de nascer.

Com a segunda mulher não havia clima para os arroubos de paixão carnal que povoaram as noites do primeiro casamento, ausência compensada pela tranquilidade da vida familiar e de uma relação afetiva tépida, sem sobressaltos:

– Nunca usou um decote, uma saia curta. Se íamos a um aniversário, ficava entre as mulheres, nem perto dos homens chegava.

Entregue de corpo e alma à família, a esposa experimentou a sensação de vazio que se instala em mulheres como ela, quando os filhos saem de casa. Passava os dias entristecida, sem ânimo até para pentear o cabelo, à espera que o marido voltasse do trabalho.

Por sugestão de um amigo que enfrentara problema semelhante, ele comprou um computador para distraí-la durante o dia.

A transformação impressionou a família inteira. Em poucos dias, ela parou de reclamar da vida, virou uma mulher alegre e extrovertida; até roupas coloridas saiu para comprar.

Cinco dias antes de nosso encontro no táxi, aconteceu o inesperado: pela primeira vez ela não estava em casa quando ele chegou. Nem na casa das filhas. No espelho do banheiro havia um bilhete: “Conheci um rapaz pela internet. Fugi com ele. Não me procure, tenho direito de buscar a felicidade”.

– Veja quanta ingratidão. Com o computador, que ainda faltam duas prestações para pagar.

– Você foi atrás dela?

– Feito louco. Com o revólver.

– Não faça uma besteira dessas. Vai acabar na cadeia, cheio de remorsos. Suas filhas jamais o perdoarão. Mulheres não faltam, encontre outra, é a melhor maneira de esquecer.

– Agora, vou lhe dizer do fundo do coração, doutor, se um dia eu arrumar outra vai ser uma mulher de programa.

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A foto é de Anna Szczekutowicz

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paixão, artigo em falta

por   /  05/10/2010  /  14:39

Trago pra vocês uma porção de raciocínios que fiz lá no meu silêncio, na Cruz do Pilarzinho, em Curitiba, um silêncio tão denso que dá pra cortar com a faca. De noite, quando um cachorro late, os outros cachorros fazem psiu. A Funarte e o Adauto me convidaram para dizer alguma coisa dentro desse Ciclo, e eu fiquei pensando, por que essa mania pela palavra paixão hoje? Os livros têm paixão no nome, os filmes têm paixão no nome: o Domingos Pelegrini editou um livro chamado Paixões; a Alice Ruiz, um livro de poemas chamado Paixão chama paixão; o Affonso Romano de Sant’ Anna, um livro chamado Paixão e política; um filme do Bruno Barreto se chama Além da paixão. Por que a palavra paixão está na moda? Acho que não é a paixão que está na moda, é a palavra paixão que está na moda. Como detetive, cheguei à conclusão, às avessas, de que não é que a nossa época seja muito apaixonada. Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando. Hoje, você fala em boi de um jeito que não se falava há três meses atrás, porque o boi está faltando, não porque esteja sobrando, de um modo geral, dentro do quadro brasileiro. Se vocês olharem, bem assim numa leitura contextual da civilização, o momento em que a gente está vivendo, a gente está vivendo uma época da sensação, não da paixão. A paixão me parece incompatível com o tempo urbano-industrial. A nível de performance profissional, imaginem, por exemplo, um programador de computadores apaixonado. Isso só pode conduzir a erros incríveis. Já se o sujeito trabalhar na construção civil e estiver apaixonado, arrisca-se a cair do oitavo andar. É bem mais grave do que um erro contábil. Enfim, erros contábeis e cair do oitavo andar são coisas que podem acontecer a um trabalhador apaixonado dentro da sociedade urbano-industrial. Acho que isso aqui que a Funarte está fazendo é de alta importância, exatamente porque chama a atenção sobre uma espécie em desaparição, que é a paixão, que é que nem tucano, peixe-boi, aquele peixe-boi rosado que o Cousteau andou entrevistando lá na Amazônia. É o boto. O boto rosado, o mico-rei. A paixão é que nem o mico-rei, o tucano, o tamanduá-bandeira, é a jaguatirica, o jacaré brasileiro, essas coisas estão todas em extinção. É por isso que a gente hoje as está recuperando sob forma sígnica de seminários, e ela comparece com tamanha freqüência no nome de obras como quem diz assim: por favor, paixão, venha.

Paulo Leminski, em Poesia: a paixão da linguagem, no livro “Os sentidos da paixão”

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A foto é de Nikolinelr

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fratura exposta, por clarah averbuck

por   /  01/10/2010  /  21:29

Morte do abutre, por Clarah Averbuck

Amei. Amei muito. Enlouquecemos. Enlouqueci. Falhei. Perdoei. Ele também. Não fiz mais merda. Ele continuou. Engravidei. Desengravidei. Enfraqueci. Quase quebrei. Virei não-eu. Não conheço aquela moça. Fracassei. Não desisti. Casei. Decaí. Fracassei de novo. Não desisti. O coração pensava: não parte enquanto eu não mandar. Fiquei. Acreditei. Esperei. Lutei. Me esforcei. Aprendi. Continuei. Esperei. Esperei. Esperei. Descobri. Nem chorei. Desisti. Chega de carniça. Chega de migalha. Eu quero amor. Amor vivido, não mentido e nem palavras, palavras, palavras. Cansei. Desisti. Sem mais ser refém da presença da ausência. Nada nunca foi tão triste. O silêncio do fim covarde. Sem nem as tais palavras. Só a covardia do sumiço e da fuga. Cansei. Desisti. Esfarelei. Morri.

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Pedi uma fratura pra Clarah depois de ler seu “Estrago a pessoa amada em 03 dias (ou 03 anos, no caso)”

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com