Favoritos

faq magazine, issue 07

por   /  14/01/2011  /  14:05

A FAQ Magazine é uma das coisas mais bonitas da internet. Quem faz é a Ju Mundim, que me convidou pra escrever um texto pra edição 07, deste mês de janeiro.

Muito orgulho de participar de uma revista tão linda, tão cheia de fotos maravilhosas e de textos que enchem o coração da gente! ♥

Apreciem > http://faqmagazine.net/

amor  ·  arte  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet

o alívio do fim das férias

por   /  13/01/2011  /  8:40

O alívio do fim das férias, por Daniel Martins de Barros

Um slogan muito divertido, da Continental Airlines se não me engano, afirma de forma acertada que ninguém diz “Ah, eu tiro férias demais”. De fato, sempre achamos que poderíamos ter mais férias, trabalhar menos, “viver mais”.

O que eu percebo em todas as vezes que tiro férias é que “vida” e “férias” não são palavras que facilmente se associem. Isso porque as férias são uma exceção, uma pausa; são os parênteses da vida real. (E os parênteses, como estes aqui, interrompem o fluxo natural do texto. Eles fazem parte do que se está dizendo, mas ficam meio de lado. São importantes para o todo, mas dispensáveis para a leitura corrente). A vida para valer ocorre mesmo é na rotina. Na repetição cotidiana das mesmas atividades, nos mesmos horários, com as mesmas pessoas, pelos mesmos caminhos. E embora nós adoremos reclamar disso, a verdade é que se não fosse a rotina nós viveríamos extenuados.

Quando estamos inseridos na rotina, fazendo coisas que estamos mais do que acostumados, gastamos muito menos energia. É como quando se aprende a dirigir, tocar um instrumento ou até amarrar os sapatos: no início temos que prestar muita atenção, o córtex cerebral nos leva a atentar a cada detalhe, gastando um bocado de energia. Quando a tarefa se torna automática passa a ser tocada por regiões mais profundas do cérebro, sem exigir tanto esforço e poupando esforço mental. É por isso que aprender cansa mais do que praticar.

E é por isso que as férias também cansam: sobretudo em viagens, a ausência de rotina faz com que tenhamos que decidir a cada dia, a cada hora, o que fazer, para onde ir, onde comer, tendo que descobrir novos caminhos e tomar novas decisões constantemente. É o que faz do viajar uma experiência tão rica, mas não se pode negar que cansa. O fim das férias, então, trazendo de volta a rotina, paradoxalmente acaba sendo um descanso.

E para não se entediar no dia-a-dia, lembro da receita do filme “O feitiço do tempo” (“O dia da marmota”, no título original). O protagonista fica preso no tempo, condenado a reviver um mesmo dia numa repetição ad infinitum. Ele entra em desespero tentando de todas as formas quebrar a maldição, mas é só quando começa a usar a previsibilidade de sua condição em favor de uma vida melhor, aprendendo piano, ajudando as pessoas e conquistando um verdadeiro amor, que ele se liberta. E não é o mesmo que ocorre conosco? Acordamos à mesma hora, vemos as mesmas pessoas, falamos dos mesmos assuntos, voltamos para mesma casa e nos desesperamos com tanta monotonia. Mas se conseguirmos extrair o melhor dessa rotina, em vez de nos entediarmos estaremos apenas poupando energia para gastar nas próximas férias.

_________________________________________________________________________________________

A foto é da Emily Chard

amor  ·  etc  ·  fotografia