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queremos mais thiago pethit no sesc!, por mariana rezende

por   /  03/02/2011  /  13:49

Continuamos na campanha “Queremos mais Thiago Pethit no Sesc, cantando Lou Reed!”

Leiam a entrevista que a Mariana Rezende, nossa querida @marildinha, fez com o cantor, aproveitando que hoje tem show dele no Sesc Pompéia, junto com os maravilhoso do Letuce!

Queremos mais Thiago Pethit no Sesc, cantando Lou Reed, por Mariana Rezende

Aproveitando que hoje tem show do Pethit no Sesc, segue o apelo “Thiago Pethit cantando Lou Reed”. Dessa vez o pedido é meu (marildinha etc). Minha contribuição pra campanha foi fazer uma mini-entrevista com o Thiago e saber um pouco sobre sua preparação para encarnar o ídolo de uma geração, Lou Reed.

Já vi Pethit no palco tantas vezes e em todas elas me emociono muito. Tietagens de amiga à parte, dessa vez ele me impressionou ainda mais, desde a leveza com que representou o papel de Reed até a força da sua identidade como cantor que cresce à cada apresentação. A paixão de Thiago pelo que faz é transparente e sempre estimulante, dá pra notar isso nas suas respostas:

Como começou essa história de cantar Lou Reed no Sesc?

O convite veio através do Sesc. Primeiro mandaram um email perguntando minhas influências e sempre que me perguntam isso, eu faço uma lista nova. Por sorte, naquele dia, eu decidi incluir o Velvet Underground e o Lou Reed.

Logo chegou o convite e a sugestão de que eu fizesse o show com as músicas do Lou.

E a escolha do repertório?

Já havia me passado pela cabeça, diversas vezes fazer algum cover de uma música do Lou. Mas são clássicos já tão revisitados que não me pareceu uma boa idéia. Ter a chance de tocar todas essas músicas em um só show e com a desculpa de ter sido convidado para fazê-lo, me deu 70% da segurança necessária para encarar essas canções.

Então escolhi essas 10 canções do Lou com o coração. Seriam todas as canções que eu gostaria de fazer mas não sentia que podia tocar sem uma “permissão” alheia. Revisitar os clássicos mais difíceis.

Conta um pouco sobre os ensaios e sobre encontrar o tom grave da voz do Lou Reed.

Decidimos nos ensaios manter todas as músicas em seus tons originais (embora fossem bastante graves pra mim, em geral) e com os arranjos mais próximos possíveis das gravações. Queria as semelhanças se dessem sem imposição de uma linguagem minha sobre a obra dele, mas sim o contrário. Estudei cada intenção e busquei “cantar” menos o possível. Estudei seus personagens e queria apenas recontar as histórias com as intenções que ele havia dado ou com as que eu havia entendido. E percebi durante os ensaios, que embora o tom das músicas fossem bem dificeis pra mim, nossas vozes timbravam muito parecidas!

Me dei liberdade apenas de mexer em uma canção. “I´ll be your mirror” – o tom era grave e adequado para a Nico. Mas a intenção leve, suave e doce teve que ser em notas mais altas para mim e com um arranjo quase crú nas oitavas mais altas do piano. Como uma caixinha de música.

E sobre interpretar Lou Reed?

Permitir que as nossas semelhanças e diferenças falassem por si só foi o mais divertido e o maior desafio pra mim.

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irmãos evento

por   /  03/02/2011  /  10:33

Samarone Lima foi atrás de um dos Irmãos Evento, que formava uma dupla folclórica de Recife. Lembro demais da minha mãe apontando pra eles quando a gente tava em alguma exposição, algum lançamento de livro. Nostalgia boa…  =)

Sem homens assim, não há vida noturna (pequeno perfil sentimental dos Irmãos Evento), por Samarone Lima

Quando recebi a pauta, achei que seria mais fácil que tocar Asa Branca em flauta doce. Fazer o perfil psicológico e sentimental dos “Irmãos Evento”, figuras que se tornaram famosas em todos os principais eventos sociais do Recife, a partir do final da década de 1970.

Os dois judeus, Joel e Abrahão Datz, ficaram tão famosos, eram tão ativos, abnegados e devotos na missão de comparecer a eventos, que se transformaram em uma espécie de ISSO-9000 de festas, exposições, lançamento de livros e tertúlias mais movimentadas. “Até os Irmãos Evento estavam lá!”, era a garantia de que realmente a coisa tinha dado certo.

O problema é que não sou muito de festas, e desde a morte de um deles,em 1995, o outro perdeu naturalmente a vitalidade orgânica de quem tem um irmão envolvido na mesma aventura. Fui a dois lançamentos e uma exposição, e nada. No Jornalismo, dizemos que a pauta “furou”. Para quem está nessa peleja profissional há mais de 20 anos, não seria nada agradável ligar para o Schneider Carpeggiani e confessar o fracasso.

Fui salvo por um telefonema, no final de uma tarde de novembro.

“O Irmão Evento está aqui na Sinagoga!”.

Era muita sorte. Um evento em uma Sinagoga, para quem tentava escrever o perfil de um judeu.

Cheguei à Sinagoga Kahal Zur Israel, na Rua do Bom Jesus, Bairro do Recife, à procura do meu personagem. Das últimas vezes que o tinha visto, estava sempre só, tinha engordado bastante, caminhava para algum lugar improvável, e me parecia triste ou cansado.

Ele estava na abertura da exposição “Quadros distantes de uma identidade”,recuperação de um acervo referente à imigração judaica em Pernambuco. Era bem provável que ao final, houvesse aquele momento mágico que os Irmãos Eventos ficavam saltitantes – o ataque efusivo e nada discreto aos salgadinhos.

Na sala pequena, onde acontecia a exposição, estavam umas trinta pessoas. De longe, por um vidro, vi Joel ou Abrahão, nunca consegui distinguir quem era quem. Como a maior parte da minha geração, jurava que eram gêmeos.

Vestia uma camisa pólo azul, com aquele risquinho pra cima da Nike, calça marrom, sapato social e a indefectível sacolinha da Livraria Cultura. O efeito de ser apenas um remanescente da marca Irmãos Evento”, resultou em uma barriga de bebedor de chopp. Está calvo na parte de cima da cabeça e tem aqueles cabelos branco-amarelados, que descem até a nuca, lembrando um pouco aqueles hippies sem pátria, que seguem pela tangente.

A abertura formal da exposição estava terminando. O sujeito da Petrobrás, negro, muito simpático, contava que “negros e judeus vieram no mesmo barco” ao Brasil, o que me pareceu um fenômeno bem complexo, e com uma salva de palmas, a exposição foi declarada aberta.

Então me aproximei da minha pauta. Só não sabia por onde começar, porque os Irmãos Evento nunca foram muito chegados a jornalistas. Se dissesse “olha, preciso de uma entrevista para um perfil”, a conversa acabaria no primeiro salgadinho.

O gelo só quebrou quando o garçom se aproximou, com os quitutes judaicos. Joel (ou Abraão) conversava com um homem, que pegou a carteira e disse que iria lhe dar um cartão.

“Olha, vou pegar um quitute para você”, disse Jacob, estendendo as duas mãos como guindastes, por cima dos ombros de alguém.

Peguei um para mim e perguntei o nome da comida.

“É um Fluden”, respondeu Joel (ou Abraão), extremamente gentil, como se me conhecesse de algum lugar.

“É um doce que é servido em todas as principais cerimônias. É característico. Em todo casamento tem”.

O amigo dele começou a circular pela exposição, e Jacob emendou a conversa. Me mostrou um documento oficial do casamento judaico, uma espécie de contrato.

“Tem a parte religiosa, que acontece debaixo de um Quipá, uma espécie de cabana”.

Enquanto falava, mandava ver nos salgadinhos. Lá pelas tantas, perguntei pelo falecido irmão.

“Ele morreu em 1995. Saímos de um evento ali perto da Praça de Casa Forte, ele se sentiu mal, caiu na praça mesmo. Foi coração. Tinha 52 anos”.

Para Bione, fundador do clássico “Papafigo”, em 1984, a morte de Abraão jogou de vez por terra a tese de que “caminhar faz bem para a saúde”.

“Eles só andavam a pé. Saíam do Bairro do Recife, iam ao Centro de Convenções, viviam caminhando, e o cara morreu de infarto!”

Depois de alguns quitutes, eu precisava ir ao ponto essencial de qualquer reportagem, perfil, crônica – o óbvio.

Perguntei a quantos eventos eles iam por dia.

“Na época áurea, a gente chegava a ir a oito eventos por dia”.

“Eu sempre consultava eles. Os caras eram duas agendas ambulantes”, lembra Bione.

Joel mastigou um bolinho que esqueci de anotar o nome e completou:

“A gente ia a pé mesmo. Andávamos a cidade inteira. Uma vez perdida, a gente pegava um ônibus. As pessoas paravam, ofereciam carona, mas a gente preferia seguir a pé mesmo”.

A tática para mapear os eventos era simples. Olhavam os jornais, tomavam notas, e se organizavam, para fazer o circuito estabelecido no dia. Quando insistiam muito num convite, eles acabavam dando uma passadinha.

Já nesse primeiro encontro, resolvi um problema existencial que me persegue desde o final dos anos 80, quando cheguei ao Recife. Eu tinha certeza que eles eram gêmeos. Abrahão, o que morreu, tinha cinco anos a mais que Joel. Eram apenas irmãos idênticos.

“O que morreu era o mais alto”, é tudo o que me informaram minhas fontes, antes de começar minha procura pelo irmão que está vivo.

Fama e patrocínio – Tarcísio Pereira, ex-dono da lendária Livro 7, lembra que o batismo oficial da dupla aconteceu num dos carnavais do “Nóis Sofre Mas Nóis Goza”, na rua Sete de Setembro.

“Mandei fazer uma faixa grande, escrito “Irmãos Evento”, botei eles em cima do caminhão e coloquei a faixa. Então colou”.

A dupla ganhou tanta fama na cidade, que uma loja grande do Recife, de malhas, ofereceu um inusitado patrocínio.

“Eles só tinham que ir aos eventos usando a camisa, fornecida pela malharia. Do lado esquerdo, tinha o anúncio. Era uma camisa azul escura, Polo. Dizem que eles recebiam uma ajuda para se locomover”.

Como eram freqüentadores habituais de sua livraria, Tarcisio fez amizade com a dupla, chegou a cogitar um anúncio da Livro 7, no mesmo molde, mas desistiu. Meses depois, não se sabe exatamente o motivo, a empresa desistiu do negócio e encerrou o contrato, que era de boca mesmo. Durante um tempo, os Irmãos Evento usaram a camisa ao avesso.

Perguntei a Joel sobre o patrocínio da Casa das Rendas. Ele não só confirmou, como acrescentou que foram garotos-propaganda de outras empresas, como a cervejaria Brahma.

“A gente tinha só que usar a camisa”, disse, com um bom sorriso e o olhar de lince a qualquer movimento em falso dos garçons.

Saímos da sala pequena, fomos para um espaço mais amplo. Jacob contou então a gênese da marca “Irmãos Evento”.

“Meu irmão tocava violino, eu acordeom. A gente tocava, depois as pessoas chamavam a gente para ir a outros eventos, começamos a ir”.

Eles pegaram gosto pela brincadeira. Ao que tudo indica, a brincadeira também pegou gosto por eles. Como iam sempre, se tornaram parte da paisagem cultural de um Recife instigado e vigoroso, no período pós-ditadura.

“Com o tempo, passaram a convidar a gente para tudo, até para casamento. A gente dizia: Mas não temos paletó! As pessoas respondiam: Ariano Suassuna também não tem e vai aos casamentos!”.

Eles tinham lá suas táticas. Escolhiam sempre lugares mais “abertos” para ir, que não exigiam convite ou pulseiras das cada vez mais espaçosas e disputadas “Sala VIP” de hoje.

“Para evento fechado, só quando convidavam. E eram muitos os convites”, diz, com uma certa satisfação.

A fama espalhou-se de tal forma, que a partir de certo momento, os eventos da cidade precisavam de uma chancela física: A presença daqueles dois irmãos judeus, barba de eremitas, um mais alto que o outro, sujeitos que não eram muito de beber, de falar alto, não gostavam de confusão, que não perdoavam uma bandeja, criaturas que ficavam pouco tempo num lugar, o suficiente para marcar presença, que depois seguiam em uma obsessiva peregrinação para outro evento, a pé.

“Chegou a tal ponto, que em um evento fraco, as pessoas diziam: Foi tão ruim, que nem os Irmãos Evento apareceram”, diz Tarcísio.

O cineasta Rafael Luna Filho convidou Joel para ser ator do seu curta “Eisenstein”, em 2005. Ele aceitou, participou das gravações, fez o papel de um professor mas a cena acabou não entrando.

“O peso do personagem é porque ele era um Irmão Evento. A graça era essa”, diz.

Ele recorda que em 1993, abriu o livro “Sociedade Pernambucana”, do colunista social João Alberto, e encontrou o nome dos dois: Joel e Abrahão Datz. De figurantes na cena da cidade, os Irmãos Evento tinham e tornado “colunáveis”.

Antes de sair da Sinagoga, peguei as últimas informações com meu personagem. Joel disse que dava aula particular de Matemática. É engenheiro de formação.

“Ainda faço uns projetos”, diz.

Época áurea – Depois da conversa inicial, senti que a matéria começava a existir. Na semana seguinte, atravessando o Paço Alfândega rumo a um café com um amigo, vi de longe um braço levantado. Um sujeito com barriga de bebedor de chopp, camisa azul da Nike etc. Era Joel, na abertura da exposição de arte sacra da Arquidiocese de Olinda e Recife, intitulada “100 anos de missão a serviço da vida”.

“Tem uns salgadinhos ali”, antecipou, enquanto mastigava algo.

Descobri imediatamente o caráter ecumênico do Irmão Evento. Um dia está numa exposição na Sinagoga, no outro, metido entre os católicos, cascavilhando uma coxinha de buffet.

Conversamos mais um pouco. Com algumas pessoas que eu tinha falado, levantando informações sobre a pauta, havia sempre uma referência à casa deles, na Praça Chora Menino. Na verdade, um casarão abandonado, que “mais parecia o cenário de Clube da Luta”, como disse Rafael Luna.

Joel disse que depois da morte do irmão, vai muito pouco lá.

“Tem também uma Brasília velha, que está se acabando”, contou meu bom personagem.

A morte do irmão, como era de se esperar, teve uma grande repercussão na vida de Joel. Era novo (52 anos), caminhava muito, tinha saúde.

“A gente caminhava muito mesmo. Na época áurea, eu pesava 60 quilos. Agora estou com 90”.

“Senti que ele estava muito reticente em falar das coisas do passado”, conta Rafael Luna. “Entendi que essa coisa folclórica dos Irmãos Evento não era muito agradável, não queria se restringir a isso. Eu conversava outras coisas com ele”.

A fama dos Irmãos tem também a ver com uma época áurea do centro do Recife, uma vida intelectual que passava por lugares emblemáticos, varridos da arquitetura da cidade e transformados em recordações – quando muito, reflexões.

O trecho que recentemente foi palco de rusgas entre a Prefeitura e a legião de camelôs de produtos piratas – espinafrados para outros lugares -, nos anos 1970 e 1980 era conhecido como “Quartier Latin”.

A rua Sete de Setembro abrigava as livrarias Livro 7, Síntese e Saraiva. No Beco da Fome, os poetas independentes entornavam quartinhos de Pitú e declamavam suas novidades, ao lado das livrarias Dom Quixote e Quilombo. Ali perto, funcionava a Disco 7.

Era uma época de muitos bares, sem essa de “bar da moda”, onde todos vão, para verem e serem vistos. Bar Calabouço (hoje Recanto do Poeta). Na frente, o “Trailler”. Ao lado, “O balcão” (hoje loja de ferragens), onde cantava Ana Lúcia Leão.

“A própria rua já chamava. Eu botava um box na calçada. Era a “Academia da Calçada”, lembra Tarcísio Pereira.

Ali perto, atrás do Cinema São Luís, bares pequenos e inventivos: Verde que te quero verde, Sócratesw e “Ora Bolas”. Na hoje arruinada Avenida Conde da Boa Vista, tinha o bar “Olho Nu”, onde surgiu a Banda de Pau e Corda, fora o Mustang. Atrás dele, funcionava um bar onde as garçonetes atendiam vestidas de índias, com os peitos de fora, arrancando suspiros de muitos marmanjos. Onde hoje há uma agência do Bradesco, funcionava a Funny´s, uma elogiadíssima batata frita.

As redações do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco funcionavam no centro. As sucursais tinham uma presença forte em Pernambuco, como o Jornal do Brasil, na rua do Riachuelo, O Globo, no Cículo Católico, além do Estado de São Paulo.

Jornalistas, artistas plásticos, escritores, artistas, se encontravam com rara freqüência em diversos lançamento de livros, vernissages, festas, edições do Papa-Figo. Tudo parecia conspirar para que a presença ostensiva daquela dupla ficasse impregnada na memória da cidade.

“A gente começou a botar umas fotos, dizia que eram eles, os irmãos ficavam orgulhosos. Eram fãs do Papa-Figo. Não perdiam um lançamento”, diz Bione.

Muitas histórias – As muitas especulações envolvendo os Irmãos Evento esbarram do caráter reservado dos dois, na morte súbita morte de Abrahão, na solidão que restou a Joel. Há quem diga que eles não comiam em casa, aproveitando as aparições noturnas para atacar as bandejas. Que teriam uma loja de parafusos na Rua da Praia, que vive fechada. Para quem é engenheiro, e ainda faz uns “projetinho”, isso parece mais lenda que realidade. Muita gente comedida na alimentação se transforma no comedor compulsivo de salgadinhos, até em batizado.

A casa onde moravam está mesmo abandonada, mas Joel tem um apartamento. Não, ele não vive entre as ruínas de um casarão prestes a cair. Vai lá, dá uma olhadinha, depois segue.

“Ele não vende por questões sentimentais. Entra, fica pouco tempo. Acho que os dois eram um time. Depois que o irmão morreu, não é mais a mesma coisa”, diz Luna.

Joel diz que já tentaram por três vezes fazer documentários com eles, mas a resposta sempre foi negativa.

“Três pessoas diferentes quiseram fazer, mas nunca aceitamos. A produção do Jô Soares convidou a gente para uma entrevista, mas não fomos”.

Um dos lemas da dupla – que segue com Joel – é simples.

“Jornalistas? Não”.

Quase no final do difícil trabalho de apuração, encontrei novamente meu personagem. Ele chegou atrasadíssimo, no final da abertura da exposição sobre os “40 anos do Movimento Armorial”, novamente no Paço Alfândega.

Quando me viu, veio falar comigo. Usava a camisa azul da Nike, novamente.

“Ariano está por ai?”, perguntou.

“Saiu agorinha”.

Ele lamentou muito.

“Ariano gosta muito de mim”.

Ariano Suassuna me contou que no seu aniversário de 60 anos, os Irmãos Evento foram. Foi uma celebração na rua do Chacon, em Casa Forte. Alguém gravou as imagens. Joel e Abrahão aparecem no documentário.

“O que um dizia, o outro completava dizendo: Concordo com tudo o que ele disse”.

Desolado com a partida de Ariano, Joel mandou ver nos salgadinhos.

Lembrei que em nosso primeiro encontro, na Sinagoga, Joel tinha me confessado algo que interessa muito ao mercado editorial.

“Estou escrevendo um livro sobre todas essas nossas coisas”.

Depois arrematou.

“Estou no segundo volume. Escrevo tudo à mão, num caderno”.

Olhou para mim, deu um sorriso e finalizou dizendo o que, de certa forma, todo mundo especula e espera.

“É muita história”.

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O texto de Samarone foi escrito para o “Suplemento Pernambuco” > http://www.suplementopernambuco.com.br/

Encontrei o perfil no Bodega, onde lia um texto sobre outra figura de Recife, o onipresente Delírio > http://www.bodega.blog.br/anacronicas/procurando-delirio/

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som, fúria e obsessão

por   /  03/02/2011  /  10:25

“Cisne Negro” é um dos melhores e mais pertubadores filmes recentes. Até gosto de “A rede social”, mas não entendo porque tanto barulho da Academia quando se tem uma obra-prima dessas nas mãos! Carol Almeida escreveu o melhor texto sobre o filme, para o portal Terra. Leiam!

“Cisne Negro” é a obra-prima de Aronofsky feita de som e fúria, por Carol Almeida

Contrariando as angústias de Narciso, Nina não acha feio o que não é espelho. Ela acha o que sempre teve medo de procurar. E isso não é feio, mas sim assustador. Pois que o espelho, não sabe a protagonista, é essa armadilha que tranca a imagem de quem você acha que é. E mais perigoso ainda, de quem acha que pode ser. É na poesia visual desses reflexos, projeções de nossas ideias e medos sobre nós mesmos, que Darren Aronofsky dirige Cisne Negro, filme que é desde já sua grande obra-prima, personificada na atriz que nos intimida tamanha a imersão na personagem. Natalie Portman, favoritíssima a levar o Oscar de Melhor Atriz este ano, abdica de seu corpo, sua voz, seus olhos e qualquer vestígio dela mesma para se dar por inteiro aos reflexos quebrados de Nina, a bailarina cuja tensão psicológica é capaz de explodir sua cabeça para balés nunca dantes coreografados no cinema.

Cisne Negro, indicado para cinco categorias no Oscar deste ano (incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor) não é exatamente um filme, stricto sensu. É sobretudo um grande espetáculo, de balé, de cinema e de poesia. Desses que, a cada sessão, merecia ser aberto e fechado com uma pesada cortina de veludo vermelho. O que Aronofsky faz é, na verdade, uma interpretação multidimensional do próprio Lago dos Cisnes, o épico balé de Tchaikovsky. Estamos falando de uma história sobre como, assim como a princesa presa no corpo de um cisne, nos enfeitiçamos facilmente com a fantasia que costuramos para vestir diante dos outros.

Nina, a bailarina que busca descontroladamente a perfeição do movimento, encontra a sua chance de provar a todos do que é capaz quando a prima ballerina da companhia, vivida por uma Winona Ryder ironicamente decadente, é forçada a sair de cena. Mas para ser a “cisne rainha”, Nina precisa provar que é capaz não apenas de interpretar a contida e delicada Cisne Branca, como também pode lidar com a tempestividade e sexualidade da Cisne Negra.

Thomas, o coreógrafo e diretor da companhia vivido por um ator – Vincent Cassel – reconhecido por atuações extremamente físicas, está ali para beijar uma face de Nina e estapear a outra. À medida que reconhece seu talento para a Cisne Branca, ele vocifera contra a repressão emocional e sexual da bailarina que recusa a achar na perfeição os elementos do imponderável.

Aronofsky, um diretor cheio de altos e baixos no cinema, atinge aqui uma maturidade que longe de ser exclusivamente fílmica, é antes de tudo cênica. Enche todos os cenários dos já citados espelhos, esse elemento que é tão fundamental para o balé quanto para um filme de terror. Nos reflexos, o filme vai se construindo como um quebra-cabeças entre o ego, o id e o super-ego da protagonista, alguém que sofre de uma aguda crise com sua própria identidade e por isso mesmo, enxerga nos espelhos algo que vai muito além de uma imagem. Nesses momentos, sentimos por diversas vezes a vertigem de ver uma Natalie Portman tão absorta nesse figura despedaçada.

No entorno desse horror psicológico, Nina ainda precisa conviver com a mãe frustrada e com uma bailarina que parece incorporar toda a extroversão e sensualidade que a falta. Em ambas, ela encontra as personas que, de uma maneira estranha, parecem pertencer a ela própria. A mãe é uma mulher que vive com o fardo de ter abdicado da carreira de bailarina – que nunca teve – em nome da filha. Interpretada por uma Barbara Hershey com densidade para essa amargura, a personagem é um dos vários enigmas morais do filme – inveja ou admiração? ódio ou afeto? – reforçando a teoria de que para cada objeto, o sujeito cria olhares distintos que, sim, podem mudar o curso de como formamos nossas ideias.

Quanto à bailarina que logo se projeta como a rival de Nina, esta é ainda mais latente em sua projeção da imagem invertida. Lily é uma Mila Kunis tal qual a mesma Mila Kunis aparenta ser (ou como nos acostumamos a vê-la): sem correntes presas aos pés ou espelhos amarrando seus movimentos. Leve e sexy, ela sabe usar o perigo de seu corpo como virtude. Em outras palavras, ela é a fúria que move a espinha dorsal da Cisne Negra. E sem a fúria de Lily, Nina não consegue voar.

Com esses personagens, o filme vai sendo dirigido tal qual uma sinfonia que aos poucos cresce seu volume, acrescentando um instrumento de cada vez para, em desfecho, apresentar a orquestra completa de sensações e, novamente eles, reflexos. Cisne Negro, enfim, reforça aquela teoria de Lacan de que, para entender a dimensão mais ampla de nossa realidade, precisamos atravessar, tal qual uma bailarina que salta no ar, o excesso de nossas fantasias.


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quando tendência é pura inspiração

por   /  02/02/2011  /  0:05

Sabe aquele tipo de encontro feito pra deixar todo mundo cheio de inspiração? Aconteceu ontem, em São Paulo. O seminário WGSN @ SPFW apontou elementos, referências, histórias que vão encher o mundo em 2012 _e que já são feitas, vividas e sentidas por gente como a gente, hoje.

Em uma palestra riquíssima em conteúdo, Juliet Warkentin, editora-chefe do WGSN,  explicou as macrotendências para 2012: Primal Futurism, Cinematic e JPEG Gen.

A Cherry Plus fez vídeos MARAVILHOSOS para explicar essas tendências, reunindo textos breves e imagens lindíssimas. Não deixem de ver tudo!

O primeiro vídeo explica o Primal Futurism:

O segundo vídeo fala do Cinematic, a tendência de que traz de volta a nostalgia do cinema, as luzes do verão, a memória visual de filmes que fazem parte da nossa história:

O terceiro e último vídeo fala sobre a JPEG Gen, essa que vai além da geração Y, essa que somos nós, que damos like por aí, que vemos uma quantidade absurda de conteúdo e fazemos nosso filtro, espontaneamente:

WGSN macrotrends SS12: JPEG GEN from Cherry Plus on Vimeo.

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fita nada isolante

por   /  01/02/2011  /  15:50

Buff Diss faz fotos de situações do dia a dia e depois usa fitas para fazer desenhos em volta delas. Adorei!

Buff Diss is an Australian artist who specializes in creating works with masking tape. His large-scale, free hand images and the temporary nature of the tape create strikingly bold and highly unique forms of art, and a pleasant variation on the increasingly popular street art genre. (do From Plains to Plate)

As fotos são do Mick Bradley e apareceram no Wooster Collective

Um presente de @crisnaumovs!

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