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nowhere man

por   /  06/10/2011  /  21:00

O fotógrado Tiny Evil Hog (não consegui descobrir o nome dele) encontrou essa casa no meio do nada, em Edimburgo, e descobriu que o senhorzinho que mora lá só saiu do lugar uma vez, para ir à guerra.

This house belongs to an old man who has only ever left the island once – to go to war. And each time I pass his house on my way home to Edinburgh I think about how much I want to stay. And how one day I just might.

Mais em > http://www.behance.net/tinyevil

amor  ·  arte  ·  fotografia

não sei de nada certamente

por   /  06/10/2011  /  9:10

Mais um lindo pôster da Keep Calm Gallery > http://www.keepcalmgallery.com/

‘I know nothing with any certainty, but the sight of the stars makes me dream.’ A quote by a man who needs no introduction, Vincent Van Gogh. The words had an immediate resonance with Seb and he knew he had to do something with them!

The lettering that Seb has developed for this piece is made up of hundreds of thousands of tiny stars, each glistening in metallic silver. To see the stars up close and from further angles please scroll through the additional images above.

amor  ·  arte  ·  design

alain de botton para a serafina

por   /  04/10/2011  /  15:20

Fiquei tãaao feliz de entrevistar o Alain de Botton! Fiz isso para a revista Serafina, da Folha, depois de ter visitado a School of Life, em Londres.

A ilustração da matéria é da Adriana Komura.

Espero que vocês gostem! ♥

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“Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira

A School of Life tem um objetivo ambicioso: o de mudar o mundo. Mas não incita seus alunos a discutir política nem a realizar alguma coisa efetivamente. Na “escola da vida” criada pelo filósofo Alain de Botton, mudar o mundo significa mudar o seu próprio mundo, por meio de conversas que vão de “como ser ‘cool'” até “como dosar trabalho e vida”, passando por “como fazer o amor durar”.

Foi nessa última aula que eu fui parar em uma quinta-feira de verão em Londres. Pela fachada discreta da casa localizada no bairro de Bloomsbury, desavisados podem supor que se trata de uma pequena livraria que aposta em títulos bem-humorados e de autoajuda.

A aula estava marcada para as 19h30. Meia hora antes, começaram a chegar os primeiros dos 30 alunos inscritos (ao custo de 30 libras, cerca de R$ 90). Em clima informal, todos comem sanduíches, tomam vinho, enquanto travam conversas sobre “o que você faz?”.

Pontualmente, para não perder a fama britânica, os alunos se dirigem a uma sala no andar inferior da escola. O professor David Water se apresenta, dizendo que já foi jornalista de moda, até que se cansou do mundinho e resolveu se aprofundar em temas universais.

Munido de uma apresentação de Power Point, começa a mostrar estatísticas sobre os desafios do amor: apenas 10% dos casais que se juntarem hoje vão chegar às bodas de diamante (60 anos) em 2070, enquanto 45% vão morrer até lá.

“A gente idealiza muito, o tempo todo. As relações têm de ser tão perfeitas que parecem religião”, diz o professor. A aula segue dividida em tópicos sobre compromisso, solidão, diferenças, sexo, conversas, arte de amar e de espalhar o amor pelo mundo.

Mas a aula não fica apenas nas apresentações, o professor também passa exercícios aos seus alunos: vire-se para o lado, conheça seu colega e discuta se, quando está numa relação, você dá o mesmo peso a amor, amizade e sexo. É preciso ter equilíbrio? Ou dá para viver mais com um, menos com outro?

Ao meu lado estava Anthony Tan, um engenheiro de tecnologia da informação de 31 anos. Ele foi levado à School of Life pela namorada, Gwen, que soube do espaço pelos colegas de trabalho. “Para mim é bem difícil falar abertamente desse assunto com estranhos. Achei interessante ouvir toda a tagarelice”, diz, referindo-se, talvez, ao fato de a sala contar com 27 mulheres e três homens.

“Só achei que as conversas foram meio nervosas, fragmentadas.” Passado um mês, Anthony reflete: “Filosofando, acho que me dei conta do que uma vida amorosa significa. É difícil medir se minha vida melhorou depois da aula, mas certamente eu estou mais atento a ela”.

NÃO SOMOS GURUS

Nos primeiros dois anos (a escola foi criada em 2008), mais de 8.000 pupilos participaram de aulas na School of Life, segundo Alain de Botton, 41, suíço radicado em Londres. Acrescentando palestras, encontros na rua, sermões dominicais e outras atividades, o número já chega a 40 mil, diz ele. “Temos um retorno excelente. Geralmente as pessoas dizem que, em uma grande cidade solitária como Londres, elas nunca têm a chance de falar de uma maneira sincera e profunda com outras pessoas. Isso é tocante”, diz o filósofo.

O sucesso se dá, na opinião de Botton, porque a escola aborda problemas que fazem as pessoas sofrerem. “Morte, dinheiro, amor, trabalho e família. Esses são os problemas centrais que afligem as pessoas, e nossas aulas, programas e projetos circulam em torno desses grandes desafios. Estamos desesperados para conseguir respostas para os terríveis dilemas e tragédias que enfrentamos”, diz.

A ideia de criar a School of Life foi uma maneira de levar o que Botton já fazia na literatura para o mundo físico, em três dimensões. “Em meus livros, eu sempre me interessei em olhar como a cultura pode nos ajudar a viver. Em ‘Como Proust Pode Mudar a Sua Vida’ (de 1998) e em ‘As Consolações da Filosofia’ (de 2001), por exemplo, explorei como grandes textos da tradição ocidental podem nos ajudar a entender os desafios e os dilemas da existência hoje.”

A equipe que trabalha na School of Life é formada por acadêmicos e escritores que decidiram apostar em algo menos formal. “Nós não somos gurus e nem sempre somos otimistas. Há um pouco de melancolia e de escuridão nos temas que debatemos. Nesse sentido, estamos mais perto do espírito da religião, embora 
sejamos totalmente mundanos.”

NO BRASIL

Cansado de apenas escrever — oito livros ao longo de quase 20 anos de carreira; o primeiro, “Ensaios de Amor”, foi lançado quando ele tinha apenas 23 anos –, Botton deixou seu lado empreendedor aflorar. Antes disso, ele nunca precisou trabalhar efetivamente, porque é herdeiro de um dos maiores financistas da Suíça.

“Minha tentativa é colocar as necessidades da alma em um contexto de negócios. Não é uma ideia vulgar, mas intelectual. Por que o capitalismo tem de entregar apenas coisas superficiais? Ele não pode almejar profundidade?”, questiona.

Para tentar chegar a esse cenário, Botton e sua equipe têm grandes projetos. “Nós queremos ser o provedor número um de ‘boas ideias para vida cotidiana'”, diz.

Entre os planos está o de abrir uma empresa multinacional para administrar aulas, organizar conferências, publicar livros, fazer filmes, 
gerenciar hotéis e spas dedicados ao “esclarecimento emocional”, além de comercializar produtos como jogos e até artigos de papelaria. Filósofos apegados à tradição podem se contorcer diante do projeto. Mas isso não o intimida.

Além da escola em Londres, a ideia é crescer e abrir outras unidades pelo mundo. Uma delas em São Paulo. “Além de Seul, Istambul, Sydney e Vancouver -todas elas grandes cidades do futuro.” Botton não dá mais detalhes sobre a vinda da School of Life para São Paulo por questões contratuais. Mas adianta que, em novembro, uma versão de sua escola da vida aportará por aqui.

“Como sua prima no Reino Unido, a School of Life Brazil vai ter cursos, seminários, conferências e outros serviços. Estamos encantados”, diz o filósofo, que aproveita o mês para vir ao Brasil e lançar seu livro mais recente: “Religião para Ateus” (ed. Intrínseca).

Será que o negócio pega por aqui? “Não tenho dúvida de que a escola vai ser um enorme sucesso”, aposta. Ninguém pode culpá-lo por falta de ambição e excesso de ousadia. Para todos aqueles que gostam de consumir experiências e não resistem a uma pitada de autoajuda, pensar na vida é o novo preto.

blog awards 10+

por   /  04/10/2011  /  15:15

Fiquei super feliz com a notícia de que o Don’t Touch é um blog que faz diferença na internet brasileira! Obrigada, pessoal! =)

A Vitamina Publicitária segmentou e elegeu através de uma análise criteriosa juntamente com mais de 15 especialistas em Comunicação, Humor, Moda, Entretenimento, Design e Tecnologia ao logo do ano de 2011, os 10 Blogs em cada categoria, que mais contribuíram de forma inovadora e criativa para a Internet brasileira. O #Blog Awards 10+ é uma homenagem a todos os envolvidos direta e indiretamente nesses projetos. Cada um dos blogs foi sujeito a uma análise minuciosa de conteúdo, engajamento com seus leitores nas redes sociais, seu design e usabilidade.

Aqui, ó > http://www.vitaminapublicitaria.com.br/blog-awards-10-os-blogs-fazem-diferena-na-internet-brasileira.html

traição é traição

por   /  04/10/2011  /  15:10

Na semana passada, fiz com Rafael Capanema uma matéria para o caderno Tec, da Folha, sobre sites de traição, que viraram febre na internet.

Leiam!

Site para pular cerca tem prostituição e falha de segurança

Site para encontrar amantes serve como ‘facilitador’, diz usuária

Leia depoimentos de repórteres que experimentaram sites de traição

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ELA: É NO BATE-BAPO QUE A COISA PEGA FOGO

DANIELA ARRAIS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Foi às 10h de uma segunda-feira que decidi apimentar minha vida amorosa. Entrei no Ashley Madison, escolhi o nome Danizinha e comecei a descrever meus supostos interesses: “mulher comprometida procurando homens”, em busca de “qualquer coisa que dê tesão”.

Escolhi homens que estavam a um raio de 50 km e tive acesso a uma profusão de torsos nus e frases diretas, para não dizer cafajestes. Marcos*, por exemplo, usa como definição “topo conhecer e te dar prazer”. Loirão24 vai direto ao ponto: “tô à procura de sexo sem compromisso”, enquanto Tatazinho exagera dizendo “proporciono grandes emoções”.

Foi MMM5400, de sunga na foto, que chamou minha atenção. Diz que está de “bem com a vida e buscando aventura”. Para começar a interagir, recorro às opções: enviar mensagem, presente ou uma piscadinha. Enviei de presente uma cereja.

Para Tequero69, “só faço com você”, mandei mensagem perguntando se ele queria conversar.

Em 24 horas, recebi duas mensagens, um presente, três piscadinhas, uma chave de acesso para fotos privativas e fui adicionada a uma lista de favoritos. O negócio funciona.

Mas é no bate-papo que pega fogo. Basta ver quem está disponível para começar a falar.

Foi assim que Nos80 me encontrou. Ele acabara de voltar da viagem de férias. Enquanto a esposa (com quem está há 11 anos e tem duas filhas) descansa, ele vê e-mail e entra no Ashley.”Ela é bacana, mas nossa relação esfriou.”

Ele some por uns dez minutos. Quando volta, diz que a esposa estava do lado e pergunta se podemos conversar por e-mail ou MSN. Claro! Danizinha está sempre disponível.

Na outra janela, converso com Gatodacidade40 e pergunto o que o levou ao site. “Carinho anda em falta por aqui, sexo então… Meses sem!”, ele responde. A conversa é interrompida. Ele volta e diz que teve que comprar créditos.

E, se no bar o que não faltam são homens comprometidos que não resistem a uma paquerinha, imagine na internet? É tudo muito rápido. Você pode marcar um encontro depois de 20 minutos de conversa. Se depender da disposição deles, o clímax vem rapidinho!

sem medo de ser clarice lispector

por   /  04/10/2011  /  15:00

Ótimo texto de Isabelle Barros no excelente Suplemento Pernambuco > http://www.suplementope.com.br/

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Sem medo algum de ser Clarice Lispector, por Isabelle Barros

Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.

A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.

Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.

Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores – até diria em nenhum escritor – que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.

CLARICE, A ELEITA

A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.

Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.

Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.

O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.

CLARICE E A INTERNET

A internet opera um papel especial – e ambíguo – com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.

Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.

No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.

É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.

Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.

A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.

NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de
A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 … José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.

A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.

Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.

CLARICE E A HISTERIA

Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.

Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.

Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.

Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.

Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.

Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.

Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social

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