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fratura exposta, por flavinha marques

por   /  08/03/2013  /  8:13

O amor padece de, pelo menos, dois grandes sobressaltos, por Flavinha Marques

Eram oito horas da noite quando eu pisei no seu pé e levei um tiro no peito. E descobri que o amor padece de, pelo menos, dois grandes sobressaltos: aquele em que se encanta e aquele em que se desfaz. A flor que se desprende. O retrato antigo. O pincel na água depois da aquarela. Todos vêm nos lembrar que a beleza é finita, mas a gente só recorda num atropelo do destino. Num dia em que Deus parece beber ao volante. Sendo que é você quem gira e se estraçalha lá na frente. Coração com fratura exposta e nada da ambulância chegar. Fazer o quê? Ir pingando até a emergência mais próxima. Tome isso, tome aquilo. Chora mais não, já passou. Passou nada. Um cuspe na cara teria doído menos. Mas não haverá revanche. Respeitável público, pode retirar, no guichê mais próximo, o seu dinheiro de volta. Aqui só o bem se apresenta. E que fique claro que o bem não é escolha relegada aos idiotas. O bem é uma arma silenciosa, que não ataca; defende os fortes de caráter. Os que sabem que alma não é coisa que se venda. Vai, atira. Atira! Eu só observo. Eu sou o prisioneiro diante do seu seu algoz. E o que vejo é que se o meu amor transborda em uma carta escrita à mão, o que você é cabe em um bilhete, enquanto o seu mal se espraia aos quatro ventos, sem medida. E, de alguma forma, volta pra você. O seu mal, que me castiga, sem delito, é o mesmo que há de lhe servir de lição. O mal que eu não lhe desejo, mas que eu espero que lhe ensine a ser alguém de verdade, que um amor não é troféu e que não, você não é tão esperto assim. Agora, dá licença, que eu preciso recolher o que sobrou de mim. Dá licença, que esse jogo eu levo, porque a aposta sempre foi mais minha do que sua. Por favor, dá licença, que eu vou ali e não volto. Vou beber com Deus, pra comemorar que sim, você já passou.

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A foto é de Kate Pulley.

mulheres incríveis

por   /  08/03/2013  /  1:23

No Dia de Mulher, a Contente participa do bate-papo Gente Incrível, a partir das 12h30, no Vale do Anhagabaú.

Nas palavras das organizadoras do Mulheres Incríveis, será “um encontro sobre o amor que cria coisas incríveis”. Nossa cara! A ideia é inspirar, questionar e co-criar, a partir de depoimentos e histórias de vida.

Estão todos convidados (homens e mulheres, ok?)! Esperamos vocês!

Hoje, 8 de março | 12h30 | Vale do Anhangabaú (av. São João, 108)

Mais em > https://www.facebook.com/mulheresincriveis

amor  ·  contente  ·  especial don't touch

daniel johnston

por   /  07/03/2013  /  10:54

Sabe um daqueles shows que você acha que não vai ver na vida? O do Daniel Johnston era um deles. Sendo que isso vai mudar no sábado, quando o artista se apresenta no Beco, em São Paulo, em mais uma edição do Popload Gig.

Daniel Johnston fez “True Love Will Find You in the End”, e só por isso justificou a existência de uma vida inteira.

Enquanto escrevia esse post, o Palugan me avisou: o show foi cancelado  🙁

Do Popload:

O risco era grande e existia. O genial e cultuado artista Daniel Johnston, que se apresentaria no próximo sábado no Beco 203, em mais uma edição do festival Popload Gig, não conseguiu embarcar para a América do Sul na noite de ontem. Johnston, herói do underground americano, que há anos sofre de transtorno bibolar e esquizofrenia, desembarcaria primeiro no Chile para um show hoje, tocaria ainda na Argentina amanhã e depois viria a São Paulo. O músico, que vive sempre recluso mas nos últimos tempos arriscou uma volta bastante comentada aos palcos, chegou a ir ao aeroporto de Houston e teve as malas despachadas para Dallas, onde faria conexão à América Latina. Mas, confuso, aparentando insegurança e com febre, demoveu seu agente da ideia de embarcar.

Nos resta, então, assistir de novo ao documentário “The Devil and Daniel Johnston”, que mostra a luta dele contra a esquizofrenia e o transtorno bipolar, enquanto escreve e compõe suas genialidades, como se buscasse redenção ♥

The Devil and Daniel Johnston (El Diablo y Daniel Johnston – Jeff Feuerzeig, 2005) from Tlatoani Ortíz on Vimeo.

Abaixo, o cartaz de Eduardo Belga pro show que não vai mais acontecer agora.

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fratura exposta, por jaqueline couto

por   /  07/03/2013  /  10:29

Fratura Exposta, por Jaqueline Couto

E quando eu menos esperei estava lá, aquela coisa se arrastando pelo meus pulsos… Lacerada, aberta cicatriz medonha que nunca se fecha. Como fratura exposta, meus pensamentos sobre você e o que provavelmente fará sem mim povoam minha cabeça vazia de tudo, menos de você, enquanto cruzo a bendita avenida Paulista. Enquanto sei que poderá estar em qualquer parte do mundo, inclusive perenemente em mim, você se refugia em acordes de saudade. Olho, com as mãos nos bolsos e os pensamentos perdidos no tempo frio de São Paulo, o asfalto molhado pela fina garoa que teima em cair e deixa todo cinza o chão mais negro da minha imaginação pensando em com quem poderá você estar, uma vez que escapou do meu coração, rasgando-o para sair e ir embora deixando essa danada dessa fratura… Exposta. Para todo mundo ver, como prova de que alguém, um dia, se libertou de algo quase imutável. Como um amor desgastado, você deixou a minha ferida à mostra. Foi-se…

Vago, com as mãos nos bolsos, repito, para proteger o mundo de agarrá-lo e trazê-lo para mim, com a mente direcionada a um único objetivo: trazer você de volta. Lembrei das nossas conversas. E da maneira como me dizia “toma um café, enquanto não chego”. Eu acatava, na expectativa daquele líquido aquecer meu corpo enquanto você não vinha e tomar seu devido lugar: do meu lado. De dentro. E lembro… Também. De seu coração bater tão forte que era quase possível furar seu peito e se encostar no meu. E agora, andando há um bom tempo, cruzo a São João e, novamente, vem à tona as últimas horas poucas que estive com você. Seu cheiro de chuva caída em chão batido trazia o gosto de um tempo que não teve tempo de passar, porque eu o tinha guardado em forma de saudade. Escutando aquela música da gente, brega como todo sentimento que fala de comonãosepodeviversem, lembrei que você vinha assim, sorrindo, e me dizia “eu também… Eu também…” Como um mantra que se recusa a parar de ser entoado.

Olhei para trás. Deixei o guarda-chuva caído e permiti os pingos entranharem em mim, como pela primeira vez em que o reencontrei. Caminhei, o All Star de vinil preto encharcado, e as calças arrastando pelo peso da água que caía, em direção ao ponto de taxi. E eu disse: “Moço, toca pro aeroporto, antes que eu desista de vez de sorrir…”. E o taxista me olhou de maneira estranha, a menina descabelada e molhada de chuva. Olhos de cansaço… Morosidade da espera que nunca chega. Frio. O queixo, batendo, me fez recordar do instante em que me vi sem você, aqueles minutos de dúvida que parecem durar eternamente, me dizendo “quando nos veremos de novo?” e eu dizia “para sempre”… Mas o para sempre havia morrido, deixando para trás só uma feia ferida de uma fratura exposta.

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A foto é de Hayley Brown.

romance virtual

por   /  05/03/2013  /  8:11

Romance Virtual é uma reportagem de Emily Witt, publicada na revista Piauí deste mês, que fala sobre sites de relacionamento como o OK Cupid, em que milhares de pessoas tentar se achar para ter uma relação. Para isso, elas preenchem questionários com perguntas como “Você acha que fumar é repugnante?” ou “Deixando de lado quaisquer planos para o futuro, o que é mais interessante para você neste momento: o sexo ou o verdadeiro amor?”.

No texto, a repórter conta suas experiências, aventuras e frustrações e fala como o namoro pela internet destruiu a noção que ela tinha de si mesma como alguém que conhece, compreende e consegue se expressar em palavras.

Abaixo, um trecho:

Fui a uma palestra do escritor Ned Beauman, que comparou a experiência no OkCupid com as ideias do astrônomo Carl Sagan, quando falava dos limites da nossa capacidade de até mesmo imaginar um tipo de vida extraterrestre não baseada em carbono. Isso sem falar que nem iríamos perceber se esse tipo de vida estivesse nos enviando sinais.  Você sai jogando a rede no OkCupid para tentar pegar aquilo que você acha que quer – mas e se não formos capazes nem sequer de enxergar os sinais que estão nos enviando, e muito menos de interpretá-los?

O OkCupid dava uma impressão muito forte de ser aquele banco de dados com que Kremen havia sonhado: escolha ilimitada. Mas isso tem suas desvantagens. Como escreve a socióloga Eva Illouz emO Amor nos Tempos do Capitalismo, “a experiência do amor romântico se relaciona a uma economia da escassez, o que por sua vez permite a novidade e a emoção”. Em contraste, “o espírito que preside a internet é a economia da abundância, na qual a pessoa precisa escolher e maximizar suas opções, e é obrigada a usar técnicas de eficiência e custo-benefício”. No começo foi até divertido, mas, depois de alguns meses, os problemas começaram a aparecer. Acabei achando bem verdadeiro o que Beauman diz sobre a nossa incapacidade de avaliar o que poderia ser atraente.

Leiam a reportagem completa > http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-77/questoes-tecnoafetivas/romance-virtual

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searching for sugar man

por   /  01/03/2013  /  17:26


 

A gente passa a vida achando que, se fizer a coisa certa, vai ser recompensado por isso. Você é um artista genial que coloca seu coração no que faz? Vão te ver, vão ler seus livros, vão ouvir sua música. Você vai ter fãs e, com isso, vai produzir cada vez mais coisas bonitas e viver do que ama e é sua verdade. Mas a vida também é cheia de mistérios e, por mais que muita gente espere o seu sucesso, você encontra o mais cortante ostracismo.

“Searching for the Sugar Man” tira a gente do eixo ao contar a história de Rodriguez, um cantor e compositor de Detroit que foi nada na América e absolutamente tudo na África do Sul.

Sixto Rodriguez nasceu em 1942 e lançou apenas dois álbuns: “Cold Fact” e “Coming from Reality”. Ele foi descoberto em um bar em Detroit no fim dos anos 1970, por dois produtores de renome, que já tinham trabalho com gente como Stevie Wonder e achavam que as letras do cantor, crônicas de uma cidade, de uma época, de sentimentos que perpassam qualquer tempo, iam torná-lo um dos maiores artistas de sua geração. Alguém maior até que Bob Dylan (por mais que lembre Nick Drake tão mais).

Mas o disco não vingou, e Rodriguez desapareceu dos holofotes que nunca teve e foi trabalhar na construção, ter filhas, viver uma vida modesta, de carregar geladeira nas costas.

Em outro continente, uma garota de férias com o namorado sul-africano colocou os amigos para ouvir o primeiro disco de Rodriguez (reza a lenda). Uma cópia se multiplicou em tantas a ponto de tornar o cantor símbolo da juventude que vivia o apartheid. Suas letras mostravam um um outro mundo possível, tornavam urgente questionar o establishment.

Rodriguez virou um fenômeno, sem nunca saber disso. Mais de 20 anos depois, dois apaixonados por sua breve obra, um jornalista e um joalheiro, se aventuraram a descobrir quem era aquele gênio que tinha tocado fogo no corpo e se suicidado no último show de sua vida (rezava outra lenda). A partir daí, a jornada de investigações, tentativas e frustrações, colaborações e encontros mostram uma história inimaginável e completamente extraordinária.

Em entrevista ao Telegraph, o produtor Simon Chinn traduz a força do filme, dirigido por Malik Bendjelloul:

“O segredo para um ótimo documentário é uma narrativa realmente poderosa. O filme tem que ser maior do que a soma de suas partes e precisa entrar em ressonância com o público. Realmente dar às pessoas o que elas não esperam, algo que faça com que elas riam, chorem, se inspirem. Ele entrega algo intangível. Os documentários em que trabalho têm um tipo de fator X. Talvez seja a bagunça pela qual estamos passando, o fato de Rodriguez ter vivido uma vida incrivelmente rica sem nada.”

“Searching for Sugar Man” ganhou o Oscar de melhor documentário no último domingo. É um dos filmes mais surpreendentes e emocionantes que já vi e me lembrou o quanto música é arte mais poderosa que existe. Por favor, vejam também!

E ouçam suas músicas lindas, lindas, lindas ♥ ♥ ♥ ♥ ♥

Playlist no Youtube (obrigada, Giu, por compartilhar!) > http://www.youtube.com/playlist?list=AL94UKMTqg-9BRCJJukNtjnPRK42rCr2fC

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