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os mundos de dom la nena

por   /  27/09/2013  /  15:30

Dom La Nena, que nome diferente! A capa do disco é bonita, tem uma dupla exposição dela, meio embaçada. Vou ouvir. Das 13 músicas, já tenho vontade de ouvir de novo mais da metade quando acaba o disco. Bom sinal. Durante a semana, ouço mais e mais. E, uns dez dias depois, numa noite em que chovia muito no Rio, saio de casa com duas amigas para ver um show dela no Solar de Botafogo.

Uow! Que boa essa menina. Ela não é só mais uma cantora com um repertório óbvio que me deixa com aquela sensação de “quase lá”. É uma artista completa – e por mais que essa frase seja um clichê, é uma alegria quando conseguimos ver uma performance assim ao vivo. É em busca dessa verdade que passo tanto tempo ouvindo música. Viva!

Ela toca violoncelo, ukelele, faz percussão com um chocalho amarrado no pé, coloca uma música antiga em uma vitrolinha para servir de fundo para que ela cante, em português, francês e espanhol, suas letras que falam de deslocamento, de pertencimento e não pertencimento, de amor, dos amigos que nunca mais foi visitar, de ser estrangeira mas sempre sentir que tem uma casa.

Dom La Nena é Dominique Pinto, uma garota de 23 anos que nasceu em Porto Alegre e passou a maior parte da vida pelo mundo. Primeiro, em Paris, para onde foi com a família acompanhar o doutorado em filosofia do pai. Aos 13 anos, mudou-se para Buenos Aires, para onde foi sozinha estudar violoncelo com Christine Walevska, um de seus ídolos no, conhecida como “a deusa do violoncelo”. De volta à França, aos 18 anos, acabou passando dois anos em turnê com a Jane Birkin, musa do Serge Gainsbourg. Também trabalhou com Jeanne Moreau.

La Nena, a pequena, foi incorporado porque ela sempre foi a caçula dos grupos que frequentava. Dom começou a estudar piano aos 5 anos e, aos 8, já se aventurava no violoncelo. “[Ser artista] no meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse ‘ah, sou artista’! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…Fiz teatro, dança, pintura etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje”, conta ela ao Don’t Touch.

Em agosto, Dom La Nena lançou seu disco, “Ela”, no Brasil. Nos Estados Unidos o álbum saiu no começo do ano pela Six Degrees Records e recebeu elogios de veículos importantes, como o New York Times e a Les Inrokuptibles. O disco foi produzido por Dom e Piers Faccini e conta com participações da cantora francesa Camille e dos brasileiros Thiago Pethit, Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup.

“A Dominique é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço. E acho lindo que o nome artístico dela seja esse pequeno apelido, Dom. Porque ‘dom’, em português, representa um pouco dessa habilidade inata e musical dela. Ela é uma garotinha, doce, sensível, delicada mas tem também uma coisa, uma personalidade forte, muito assertiva e direta. E as músicas acabam ganhando essa qualidade”, diz Thiago Pethit.

Embora tenham morado em Buenos Aires a uma quadra um do outro, eles se conheceram em São Paulo, por meio do Vicent Moon, que faz o La Blogotheque com Jerome, marido da cantora. “Depois de todas essas coincidências, foi uma espécie de amor à primeira vista. Fizemos juntos um Som Brasil – TV Globo em homenagem a Assis Valente e na sequência, de volta a São Paulo, ela me convidou para gravar ‘Buenos Aires’. Desde então, temos nos encontrado meio que por acaso em diversos lugares do mundo, Paris, Lisboa, São Paulo, Paris de novo… Da última vez, até cantei no show de estreia dela por lá e foi muito lindo”, completa.

Tendo como referências artistas como Lhasa de Sela, Juana Molina, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e a música brasileira de Dorival Caymmi, Jorge Ben, Chico Buarque e Tom Jobim, Dom La Nena fez um disco de estreia muito consistente, em que sua voz frágil se junta a melodias delicadas (que, por vezes, lembram canções de ninar) e a arranjos dominados por um violoncelo poderoso.

Talvez por ter mudado tanto de país, parece que ela criou um mundo só seu, cheio de nostalgia. Com seu jeito doce, um sorriso no rosto e até um pouco sem jeito, ela nos convida a entrar nele, meio que ainda sem acreditar que suas criações podem encantar mais gente.

Para conhecer mais sobre a história da Dom La Nena, leiam a entrevista que fiz com ela logo abaixo. Antes, assistam aqui à estreia de “Golondrina”, seu novo clipe, dirigido por Jeremiah.

– Quando foi que você se descobriu artista?

No meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse “ah, sou artista”! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…fiz teatro, dança, pintura, etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje. – Como foi sua formação? Minha formação musical é em música clássica. Em Porto Alegre, de onde eu venho, comecei a estudar piano aos 5 anos, e violoncelo aos 8. Logo fui para Paris com meus pais (para o doutorado do meu pai), e continuei estudando lá…Sempre fui muito apaixonada pelos dois instrumentos, mas a partir dos meus 10 anos decidi ficar somente com o cello, e já estava decidida que queria ser violoncelista – e já estudava muitas horas por dia. Fiquei estes 4 anos estudando no Conservatório. Depois continuei estudando em Buenos Aires, também uma formação clássica no Conservatório de Buenos Aires e na academia do lindo Teatro Colón…fiquei lá 5 anos, dos meus 13 aos meus 18. Com 18 voltei a Paris, para continuar estudando na École Normale de Musique onde completei meu ciclo superior.

– Conta um pouquinho da sua trajetória, onde você morou, por quanto tempo?

Nasci em Porto Alegre onde fiquei até meus 8 anos. Depois morei em Paris dos meus 8 aos meus 12, voltei para Porto Alegre alguns meses, e com 13 anos fui morar sozinha em Buenos Aires para estudar violoncelo – onde fiquei até meus 18. Logo voltei para Paris, onde agora estou morando já faz 6 anos…

– Como foi que você foi morar sozinha em Buenos Aires?

Quando eu voltei de Paris para Porto Alegre com meus pais, tinha 12 anos (quase 13) e já estava totalmente decidida a ser violoncelista. Estudava o dia inteiro, assim que chegava da escola ia reto estudar cello. Mas tivemos que voltar para Porto Alegre, pois o doutorado do meu pai tinha acabado, e eu sabia que as possibilidades de ter uma boa formação clássica por lá eram poucas… Voltando para lá entrei em uma grande depressão! Então comecei a pensar em como resolver meu problema… E eu lembrei que uma dos meus ídolos do cello, uma violoncelista americana chamada Christine Walevska, tinha morado em Buenos Aires. Comecei a fuçar na internet para ver se achava mais detalhes sobre se ela dava aulas em algum lugar, e descobri que ela tinha voltado para Nova York. Procurei por ela no guia telefônico de Nova Yorque, e liguei para ela para pedirconselhos. Ela foi um amor, muito acolhedora, e como é casada com um argentino, continua indo muito para Buenos Aires… ela estava indo para lá algumas semanas depois e me propôs de nos encontrarmos para ela me dar aulas e tentar me ajudar a achar um professor com o qual eu pudesse ter mais regularidade em Buenos Aires.. Então eu fui, fiquei lá uma semana, ela me deu aulas incríveis, e me apresentou para um professor francês que dava aula no Conservatório de Buenos Aires e que também me deu algumas aulas naquela semana e me aceitou como aluna na sua classe no Conservatório. Voltei para Porto Alegre na maior alegria, avisando meus pais que já estava tudo resolvido e que me mudaria para Buenos Aires… Só que eu tinha 13 anos ! E obviamente meus pais não podiam se mudar para lá… Mas meus pais sempre me apoiaram muito e dessa vez, é claro, depois de muitas noites angustiantes de reflexões, decidiram me dar essa confiança confiança e deixaram eu ir morar lá alguns meses depois… E essa foi sem dúvida uma das decisões mais importantes da minha vida ! Fiquei 5 anos estudando lá, com vários professores maravilhosos, no conservatório de Buenos Aires, na academia do Teatro Colón, e com a Walevska que ia de 3 em 3 meses para la… Quando fiz 18 anos voltei para Paris estudar.

– Como você aprendeu a tocar tantos instrumentos?

Eu considero que eu toco mesmo só violoncelo… um pouco de piano, do que me lembro de quando criança. Na hora de compor eu uso o violão também, mas sou péssima! Até cheguei a gravar alguns dos violões no meu disco, mas só sei tocar mesmo minhas músicas ! Também estudei um pouquinho de contrabaixo em Buenos Aires, então também sou eu quem toca contrabaixo no disco. Quando gravei, queria poder tocar ao máximo possível todos os instrumentos eu mesma… E é verdade que na maior parte do disco sou eu e o Piers Faccini – que produziu junto comigo, quem toca.. Muitos instrumentos, eu me aventuro a tocar por instinto, não acho que eu saiba realmente tocá-los ! – E como se interessou pelo violoncelo? Meus pais sempre ouviram muita musica clássica em casa, portanto eu já conhecia o instrumento. Eu estudava numa escola de música muito legal quando pequena em Porto Alegre…uma vez fomos para um encontro entre várias escolas do país em Florianópolis, e no ônibus sentei ao lado do professor de violoncelo da escola. A viagem era longa, mas me dei super bem com ele, nos divertimos durante todo o trajeto, adorei ele, e durante o encontro em Floripa comecei a ir assistir as aulas dele e adorei ainda mais o instrumento ! Quando voltei, apresentei-o ao meus pais: “Esse é meu novo professor”. E assim comecei a estudar cello. Decidi realmente a ser violoncelista aos 10 anos de idade em Paris.

– Conta um pouco como é seu processo na hora de compor? De onde vem a inspiração?

Não tenho muita regra, mas geralmente nunca penso “vou falar disso ou daquilo”. Gosto de trabalhar bastante com o inconsciente, acho bem mais interessante. Por vezes vem primeiro uma melodia, com algumas palavras, depois vem o texto, outras vezes é ao contrario… Não há receita fixa.

– Apesar de ter passado tanto tempo fora, a música brasileira influencia muito você, né? Dá pra ver em músicas como “Batuque”, que tem até berimbau. A sua formação proporcionou alguma pesquisa que levou a essa influência, a essas descobertas?

Minha formação é principalmente clássica,  mas desde sempre ouvi muitíssima música brasileira… Cresci com Jorge Ben, Chico, Tom, Caymmi, e eles me acompanham até hoj ! Então com certeza eles também estão muito presentes na minha música. A música brasileira está presente desde sempre para mim, e foi se misturando com tudo o mais que fui escutando… Sempre quis parar para pesquisar mais sobre ela, mas ainda não tive o tempo que do qual precisaria para fazer isso.

– Levando em conta que cada língua possui uma musicalidade diferente, que muda um pouco a própria música, como a gente a ouve, você acha que para o trabalho que você faz hoje a língua portuguesa consegue expressar melhor suas ideias? Ou é assim mesmo que elas surgem, naturalmente?

A escolha da língua também é algo totalmente inconsciente. As coisas vêm assim, eu nunca pensei “vou escrever em português” ou ao contrário “tenho que tentar não escrever em português”… Acho que como é minha língua materna, por mais que no dia a dia não seja a que eu fale mais, termina sendo a que vem mais naturalmente. Mas ultimamente tenho composto muito em espanhol – também não sei explicar por quê.

– E a recepção do público? O que você espera quando coloca sua música no mundo?

É muito impressionante, porque na maioria do tempo, canto para pessoas que não falam nem entendem português… Quando leio artigos, ou depois do show, conversando com o público, me dou conta que eles entendem muito do que eu falo sem mesmo entender as letras! Isso para mim é mais do que gratificante, ver que consigo atravessar esta barreira e transmitir o que eu quero além das palavras!

– Quem são suas principais referências, os artistas que mais admira? E aqueles com quem adoraria dividir o palco?

São muitíssimas… E ainda por cima já tive a sorte de poder dividir o palco com muitas delas! Jane Birkin, Jeanne Moreau, Camille, Piers Faccini, por exemplo, são referências de longa data para mim e, às vezes, custo a acreditar que já estive no palco com eles! Ultimamente tenho escutado muitíssimo Lhasa de Sela (mas infelizmente ela já faleceu) e a cantora argentina Juana Molina – adoraria fazer algo com ela um dia. Também bastante Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e obviamente, como falei antes, muita música brasileira…

– Aliás, como você foi parar na banda da Jane Birkin? E o que aprendeu de mais legal com ela?

Eu conhecia a produtora musical do ultimo disco da Jane (“Enfants d’hiver”), e ela me chamou para tocar no disco. No início seriam apenas algumas músicas, mas foi tão legal que no fim toquei em quase todas! A Jane estava sempre no estúdio com a gente, ela adorou, nos demos super bem… Então ela me convidou para formar parte da banda da turnê do disco (éramos 4: piano, cello, contrabaixo e guitarra). Foram dois anos de viagens incríveis, pelo mundo inteiro… Uma das coisas que mais me marcou da Jane era a força que ela tirava de dentro de si na hora de entrar no palco. Como viajávamos muito e ela já estava com a idade avançando e com a saúde um pouco frágil, era muito cansativo para ela o ritmo de turnê, promoção, além dos filmes que ela fazia nos dias livres. Às vezes ela passava o dia inteiro exausta, cansadíssima, mas na hora de entrar no palco era outra mulher, se transformava totalmente e transbordava de energia!

– Quando foi que você decidiu lançar um disco? E como foi o processo de criá-lo?

Não foi realmente uma decisão… Quando eu comecei a compor, não tinha a menor pretensão de lançar um disco, fazer turnê etc… Queria mesmo fazer as músicas para mim, para ver no que dava, por diversão. Comecei a gravar em casa, a fazer os arranjos e foi dando vontade de ouvi-las mais elaboradas, mais bonitas… Procurei a melhor maneira de gravar. Gravei, e o Piers Faccini mandou para a gravadora dele nos Estados Unidos, que adorou, e as coisas foram indo. Nada foi muito calculado, as coisas foram acontecendo e acho que isso foi uma coisa muito importante para mim no processo criativo e de gravação do disco. Fiz tudo do jeito que eu queria ouvir mesmo, sem me deixar influenciar por nenhuma pressão de gravadora ou outros, usei todo o tempo necessário até estar totalmente satisfeita… Acho que, se na hora de gravar já tivesse na mente “vou lançar meu primeiro disco, vamos lá”, teria sido muita pressão e talvez as coisas não tivessem sido tão fluídas.

– Você produziu o disco também, né? Fala um pouco sobre isso?

Eu produzi o disco junto com o Piers Faccini, que é um cantor inglês que mora na França, que já tem 4 discos incríveis lançados e que é respeitadíssimo na Europa. Eu escuto a música dele desde que era adolescente em Buenos Aires, e ele sempre foi uma referência para mim. Por acaso, ele trabalha há muitos anos com meu marido, então nos conhecemos há alguns anos e, desde então, ficamos bons amigos e temos tocado muito juntos. O Piers tem um estúdio em casa que é um sonho: ele mora no sul da França, no meio das montanhas, e no fundo do jardim dele tem uma casinha onde ele fez este estúdio – simples, mas com excelente material de som e vários instrumentos. Quando comecei a gravar já tinha pré-feito em casa a maior parte dos arranjos… Fiquei uma semana sozinha, passando tudo a limpo, experimentando novas coisas, trabalhando no som – trabalhei sem técnico de som, todos os takes foram feitos por mim mesma. Logo deixei todos os arquivos para o Piers, que começou a fazer a parte dele dos arranjos. E íamos trabalhando assim, por blocos de períodos em que eu gravava sozinha, depois ele, depois nos enviávamos as músicas, até o disco ficar pronto. Para mim era muito importante poder ter a direção da produção…Não poderia imaginar ter feito este disco com alguém fazendo todos os arranjos e a produção, seria impossível para mim trabalhar assim!

– Como é trabalhar com seu marido?

Eu não consigo nem imaginar trabalhar sem ele. Sou totalmente fã do trabalho dele, é quase impossível para mim pensar em ter outra pessoa fazendo minhas fotos, meus vídeos, me aconselhando para arte… E como eu não sou das mais à vontade com câmeras, isso facilita muito, porque geralmente não tenho o sentimento de estar posando, de estar fazendo algo a propósito. O Jeremiah tem o dom de mostrar a beleza nas coisas simples do cotidiano… Somente ele conseguiria tornar bonito um vídeo onde há apenas imagens minhas dormindo (como em “Anjo Gabriel”)! Ou filmar um show somente com uma câmera, no meio do público, de maneira simples e poética (como em “Golondrina”). E ele tem tanta experiência em trabalhar com músicos (já fez filmes, vídeos, clipes para o REM, a Camille, o Erik Truffaz, para a Blogothèque durante anos) que até nas questões musicais, de show, de eleição de repertório, de estratégia ele me ajuda demais. Ele é quase como se fosse minha segunda cabeça!

– Como têm sido os shows, a turnê?

Desde que eu lancei o disco em janeiro, minha vida tem sido um turbilhão… Muitos shows, principalmente na França, Estados Unidos e Canadá… Também estive tocando bastante em Portugal, na Suíça e na Bélgica e mês que vem faço os primeiros shows na Inglaterra. Agora que lançamos o álbum no Brasil, estou começando a tocar mais por aí! Tem sido incrível poder levar minha música para todos estes lugares  E muito interessante ver a diferença de público de país em país ou até de cidade em cidade!

– Como é ficar sozinha no palco, preenchendo os lugares com um som tão encorpado?

Tocar sozinha hoje em dia é o que eu prefiro no palco. Tentei ter banda, ter quarteto de cordas, ter uma violinista, enfim, tentei varias fórmulas… Mas cheguei à conclusão de que me sinto mais à vontade quando toco sozinha. É um risco enorme, pois ainda por cima estou no cello, que é um instrumento mil vezes mais complicado do que o violão para a afinação e que, ainda por cima, não é nem um pouco feito para ser instrumento harmônico. Mas eu adoro estar assim, “nua”, 100% eu, acho bem mais interessante a relação com o público! Não há como esconder nada, tudo está em estado bruto… Às vezes é mais fácil, às vezes mais difícil, mas geralmente sempre termina sendo bem mais gratificante estabelecer esta cumplicidade, esta proximidade com as pessoas.

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don’t touch my mixtape: músicas para um ano sabático, por carlota mingolla

por   /  26/09/2013  /  12:15

“Sempre gostei de imaginar como seria a minha vida se ela fosse uma jukebox. Claro que minha obsessão por listas e o prazer em encontrar a música perfeita pra dizer aquilo que as canetas não conseguem contribuiram na elasticidade da imaginação (rs)”, diz Carlota Mingolla, que saiu para descobrir o mundo e não tem data pra voltar.

Na seleção da mixtape, intitulada “Rendas, janelas e figos”, ela colocou músicas que falam muito dela (ou daquilo que ela gostaria de ser) e do que quer ter por perto.

Começa com Caetano Veloso e passa por João Donato, Vivaldi, Elton John, Louis Prima, George Harrison, Nina Simone… E tanta coisa linda!

A foto é da Maria | Wolfwendy.

Se eu fosse você, ouvia! ♥

Carlota Mingolla deu uma pausa no conforto do emprego e da rotina para experimentar o tempo do tempo. E tem se divertido muito passeando e escrevendo cartas.

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música do dia: the flower lane

por   /  24/09/2013  /  11:11

A música de hoje vai para todos aqueles que estão com o coração partido.

“The Flower Lane” é uma baladinha fofa e amarga feita pelos Ducktails, uma banda meio pop, meio psicodélica que tem à sua frente esse cara aí de cima, o Matt Mondanile, que canta o seguinte:

So now she’s gone
And I feel a mess
Leave the world outside
To stay inside my head
Anyone to talk to 
I haven’t met before
They said it couldn’t happen
Not something to shoot for 
Imagine all the people
Walking out the door
A million pretty faces
And no one to care for
The flower lane

Gostaram?

Mais em > https://www.facebook.com/pages/Ducktails/78029223987

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às vezes

por   /  23/09/2013  /  8:08

Às vezes, por Renata, do Tantos Clichês

Uma vez um namorado resolveu terminar comigo no meio da madrugada. Os dois prontos pra dormir. Eu tava pronta pra dormir, com certeza. Pronta pra levar um pé na bunda eu garanto que não estava.

Daí ele terminou comigo no meio da madrugada. E chorouchorouchorou. E eu choreichoreichorei.

Eu quis ser legal. Abracei, falei “que isso, garotão. a gente pode ser amigo. imagina, a gente já viveu tanta coisa. vai ficar tudo bem, eu não tô zangada.”

Depois de duas horas que passei consolando a pessoa que chorava de soluçar, eu também chorando, ele disse “deixa pra lá, eu estava errado. te amo, não quero terminar. vamos dormir.”

Terminamos dois anos depois, por e-mail.

Faz tanto tempo, já contei essa história tantas vezes que já não sei mais qual é a história. Às vezes a gente só entende o presente quando ele já é passado. Às vezes a gente nunca entende porque a história muda sem que a gente perceba.

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A foto é da Jessica Levin.

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don’t touch my mixtape: músicas para ler notícia, por a. mariotti

por   /  20/09/2013  /  13:30

Depois do sucesso que foi a primeira mixtape, o Augusto Mariotti nos dá outra de presente!

Desta vez o mote é o seguinte:

São músicas que tenho colocado pra ouvir nas manhãs de sábado ou domingo e que acompanham minha leitura semanal das minhas revistas favoritas.

Na seleção, Bodi Bill, Seapony, Massive Atack, Ariel Pink, Thee Oh Sees e mais um monte de música gostosa!

A foto é de Adelaide Ivánova.

Se eu fosse você, ouvia! ♥

Augusto Mariotti, 32, é publicitário de formação, mas profissional de moda com paixão. É diretor de conteúdo da Luminosidade, empresa que criou e produz o São Paulo Fashion Week, comanda o site FFW.com.br e é viciado em descobrir novas bandas, viajar pelo mundo atrás dos festivais de música e discotecar as descobertas em festas de amigos. Abriu o tumblr http://theaugustos.tumblr.com/ para documentar suas andanças por aí.

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como encontrar o trabalho da sua vida, por roman krznaric

por   /  18/09/2013  /  10:15

Há quase um ano, troquei a certeza de um emprego com carteira assinada em uma empresa de prestígio pela aventura de me dedicar 100% ao meu próprio negócio – a Contente, empresa de projetos pra internet que faço com a minha amada sócia Luiza Voll há quase três anos.

Sempre achei que fosse fazer duas coisas na vida profissional. Nunca me identifiquei com o discurso de quem falava que tinha encontrado sua vocação e queria se dedicar integralmente a ela pelo resto da vida. Eu pensava: trabalho é trabalho, é todo dia, é repetitivo, eu quero é ter a chance de não me entediar no meio do caminho.

Descobri (e descubro todo dia) na prática o que significa ter uma empresa. Eu e a Lu brincamos que somos tudo: de office boy a secretária, passando por telefonista, vendedora, gerente de crise. E fazemos tudo com um prazer tão grande! As dificuldades aparecem – tantas vezes! As incertezas, também. Mas o que conta muito mais é a alegria de acordar todo dia e trabalhar no que a gente gosta e acredita.

Quando soube que o Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, viria ao Brasil este mês, quis conversar com ele. Afinal, ele é autor do livro “Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida” (ed. Objetiva), título que traduz a vontade de ao menos 80% dos meus amigos e conhecidos no momento.

Todo mundo quer fazer o que ama, mas ainda tem dúvidas se troca o certo pelo incerto, se vai conseguir grana pra pagar as contas, se a saída é apostar no novo mesmo. Vivemos um momento de muita dúvida e de muito questionamento sobre o modelo de trabalho tradicional, em que a lógica do patrão é que você passe ao menos oito horas dando expediente, mesmo que muitos desses momentos sejam de procrastinação no Facebook.

Roman vem ao Brasil neste mês para dar um sermão dentro da programação da The School of Life no Brasil. O primeiro acontece no próximo domingo (22/9), às 11h, no Teatro Augusta, em São Paulo (os ingressos estão esgotados; há lista de espera). No dia 29/9, ele fala no Rio sobre empatia (ainda há ingressos). Ele também aproveita para lançar “Sobre a Arte de Viver” (ed. Zahar).

Em entrevista ao Don’t Touch, o filósofo australiano surpreende ao advogar contra a lógica tradicional de ser muito cuidadoso e fazer um planejamento detalhado antes de chutar o balde pra ir buscar o trabalho dos sonhos. “Em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir e, depois, pensar. Em outras palavras, comece a experimentar tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devemos ser completamente imprudentes e não nos preparar totalmente. Mas, se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.”

Leiam a entrevista completa logo abaixo. Foi um prazer conversar com um cara que tem respostas tão precisas sobre questões que nos rondam tanto! ♥

– Não sei se é porque fiz isso, mas nunca vi tanta gente querendo largar seus empregos tradicionais e querendo investir no trabalho dos sonhos. Esse movimento realmente está acontecendo no mundo?

Completamente. Esse movimento é um das grandes revoluções do nosso tempo. A insatisfação com o trabalho bateu níveis recordes nos Estados Unidos. Na Europa, cerca de 60% dos trabalhadores estão infelizes com seus empregos e gostariam de trocá-los. E isso se espalhou para o Brasil também. Aqui vai uma estatística maravilhosa: em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Hoje esse número aumentou para 56%

– O que as pessoas precisam fazer quando tomam essa decisão? É preciso se preparar antes, fazer uma poupança, por exemplo?

A abordagem tradicional para trocar de emprego é ser muito cuidadoso e fazer muito planejamento. Preparar-se com antecedência, pesquisar possibilidades profissionais, fazer testes de personalidade, poupar dinheiro e procrastinar. Eu sou um defensor da abordagem oposta: em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir primeiro e pensar depois. Em outras palavras, comece a experimentar, tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devamos ser completamente imprudentes e não nos prepar totalmente. Mas se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.

– Outra coisa que percebo é que, hoje em dia, todo mundo tem um projeto paralelo, o que é ótimo, mas como é que esse projeto vai virar um trabalho de verdade, que dê dinheiro para pagar as contas?

Projetos paralelos são uma ótima maneira de trocar de emprego. Existe um mito de que para fazer a mudança a gente precisa entrar no trabalho na segunda de manhã e renunciar dramaticamente. Mas não. Em vez disso, tente manter o seu emprego existente e fazer o que eu chamo de “branching projects” (algo como projetos ramificados, como ensinar ioga em uma tarde de quinta-feira ou fazer um frila de webdesign no fim de semana. E o que você faz é gradualmente passar mais e mais tempo nos projetos paralelos que você gosta até que as duas coisas aconteçam. Uma, você percebe que você consegue ganhar o suficiente para pagar as contas. Dois, você criou a confiança necessária para mudar. Com projetos assim, pequenos passos levam a grandes resultados.

– Aliás, falando em dinheiro… Qual é a importância dele na equação de satisfação com o trabalho?

Ah, dinheiro! O dinheiro foi o maior motivador nos últimos 500 anos. Mas ao menos nas duas últimas décadas pesquisas mostram que ele está se tornando menos importante. Então o que importa para os trabalhadores hoje? Coisas como autonomia (ter liberdade para tomar as próprias decisões no trabalho e como usar o seu tempo) e respeito (sentir que é tratado como um indivíduo valioso, não um engrenagem na máquina). Claro que nós ainda precisamos ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas e alimentar nossos filhos, mas dinheiro está se tornando fora de moda como uma fonte de satisfação no trabalho.

– Quando falamos em buscar o trabalho dos sonhos, ninguém nos avisa que vai ser preciso encarar burocracias, aprender a fazer um plano de negócios. Você acha que existe mais idealização do que ação?

Você não deve pensar que ter um trabalho dos sonhos necessariamente vai ser fácil e só diversão. Trabalhos dos sonhos são, geralmente, extraordinariamente exigentes. Um século atrás, a cientista franco-polonesa Marie Curie, que ganhou dois prêmios Nobel por seu trabalho, encontrou seu trabalho dos sonhos fazendo pesquisas sobre radiação. Mas ela trabalhou extremamente duro. Hoje, seu trabalho dos sonhos pode exigir que você passe a noite acordado fazendo modelos de negócio. Felizmente, os seres humanos prosperam em desafios.

– Mesmo que seja o trabalho dos sonhos, trabalho é trabalho. O que a gente deve fazer para manter a empolgação sempre no alto?

Um pequeno conselho é tentar maximizar o fluxo na sua experiência. Fluxo é um conceito psicológico que envolve estar completamente presente e completamente absorvido em qualquer coisa que você esteja fazendo. É o que significa para os atletas quando eles dizem que estão “in the zone”. Como você entra nesta zona? Prepare tarefas para você que sejam desafiadoras e criativas, mas não tão desafiadoras que você se preocupe em falhar, e não tão fáceis a ponto de você ficar entediado. A excitação está justamente em ficar fora da sua zona de conforto.

– Existe realmente um trabalho dos sonhos ou temos que aprender a desdobrar nossos interesses para atender às demandas de um mercado que muda tanto e em que as vagas para algumas áreas vão ficando cada vez mais escassas?

Não acredito que exista um único trabalho dos sonhos esperando lá fora para que a gente o descubra. Nós temos múltiplos eus, muitas identidades, e diferentes trabalhos vão satisfazer diferentes partes do que somos em diferentes momentos das nossas vidas. Claro que faz sentido desenvolver habilidades quando o mercado de trabalho está ficando maior, e não menor. Mas depois tudo se resume a saber se você quer trabalhar como um meio para um fim (ganhar dinheiro) ou como um fim em si mesmo (encontrar sentido).

– Alguém da geração que tem 30 anos hoje vai se aposentar tradicionalmente, depois de completar 30 anos de carreira? Ou vai ser mais corriqueiro ver as pessoas saltando de um trabalho para outro?

Meu pai trabalhou para a mesma empresa por 51 anos. Essa era já foi. Os trabalhadores de hoje estão trocando de trabalho, em média, a cada quatro anos. E como a nossa vida de trabalho vai aumentando (as pessoas estão se aposentando mais e mais tarde por conta de restrições financeiras), nós estamos suscetíveis a mudar de emprego várias vezes ao longo da vida.  Essa é mais uma razão para pensar muito sobre as melhores maneiras de fazer isso, e não apenas deixar-nos à deriva através de nossas vidas profissionais.

– O que a gente pode aprender com a história e com a evolução do trabalho?

Obrigada por perguntar isso, é um dos meus temas favoritos! No geral, a grande mudança história é do destino à escolha. Há poucos séculos, a maioria das pessoas tinham que trabalhar por uma questão de necessidade e destino – elas nasceram para ser um agricultor ou eram filhas de um escravo, então estavam destinadas à escravidão também. Hoje em dia, a maioria das pessoas (embora longe de todas) têm muito mais chances à sua frente. Antes do surgimento da industrialização, havia apenas cerca de 30 postos de trabalho padrão. Agora existem websites listando mais de 12.000. O problema é que fazer escolhas pode ser difícil.

– Quais são as perguntas que você mais costuma ouvir em relação ao tema? E aquelas que você adoraria responder, mas nunca te perguntam?

A pergunta que ouço mais frequentemente é se devemos procurar trabalhos pelo dinheiro ou pelo significado. E o que nunca me perguntam? Quase nunca me perguntam sobre o que nós podemos aprender com a história do trabalho. Mas você mudou isso!

– Como você encontrou o trabalho dos seus sonhos?

Tenho abordado minha vida de trabalho como um experimento. Fui um professor universitário, mas deixei de ser para virar um jardineiro profissional. Fui jornalista, mas mudei para tentar carpintaria. Também já atuei como professor de inglês, treinador de tênis e agente comunitário. No momento sou mais um escritor – e me sinto muito realizado fazendo isso. Mas espero ter coragem para mudar de novo – talvez quando meus interesses ou minhas paixões mudarem. Talvez minha visita ao Brasil neste mês vá me inspirar a treinar como um chef especializado em cozinha brasileira!

– Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no processo? E quais as maiores alegrias que você teve e tem até hoje?

O maior obstáculo têm sido as opiniões dos amigos, colegas e pares. Quando eu era um professor universitário, todo mundo que eu conhecia disse: “Como você pode deixar um grande trabalho em uma universidade? Você está louco!”. Quando eu era um jornalista todos disseram a mesma coisa. Mas, felizmente, eu ignorei os conselhos. Nosso grupo de pares forma nossa visão de mundo, e isso pode ser uma luta para mudar nossas mentes e fazer algo inesperado ou aparentemente insensível. Mas é aí que a emoção da vida está – no sentimento maravilhoso que você está fazendo a mudança, aproveitando as oportunidades, quebrando convenções e imerso em um estado radical de vitalidade.

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