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Últimas conversas

por   /  08/04/2015  /  9:09

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É impossível superar uma vida interrompida. Com morte por infarto ou velhice, a gente aprende a lidar. Com uma tragédia, criamos um espaço doído e intocável que se força e se esforça pra encontrar paz de vez em quando – e que entende que nunca vai conseguir sentir isso pra sempre de novo.

A minha tia morreu há mais de dez anos e nunca pôde ver quem eu me tornei. A cidade que escolhi para morar, a casa que transformei no melhor lugar do mundo, a profissão em que me formei, depois a que inventei. Não soube das minhas histórias de amor, das viagens que fiz, das que sonho fazer. Nunca ganhou um presente de Berlim ou Nova York, nem sabe das músicas que eu ouço hoje, dos filmes que vejo, quais livros já li daquela estante infinita.

Aprendi a disfarçar a dor. E tenho uma tristeza que me acompanha sempre desde o dia em que tudo acabou. Sei que ela não ia querer saber que eu sinto essas coisas e talvez seja por isso eu tento viver tão bem.

Tem dia que é foda.

Geralmente acontece quando alguém ou alguma coisa te lembra que não tem jeito, que aquela pessoa que você amava profundamente não vai viver de novo, por mais que a medicina, a ciência e a tecnologia avancem tanto. Acabou, finito, já era, zerou. O mundo dela nunca mais vai encontrar o seu.

Eduardo Coutinho foi um dos maiores cineastas do mundo. Morreu tragicamente há pouco mais de um ano, assassinado pelo filho, que sofre de esquizofrenia. Deixou de presente uma obra vasta, pequenos grandes tratados sobre o ser humano em sua essência. Sem filtro, só com verdade – até quando ela é mentira.

Muito antes de o Humans of New York existir (e ser uma das melhores coisas da internet hoje), Coutinho ouvia o que qualquer pessoa tivesse a dizer e extraía de cada uma sua melhor parte, ou a mais comovente. “Ser ouvido é uma das necessidades mais importantes do ser humano. Ser ouvido é ser legitimado”, diz ele em “Eduardo Coutinho. 7 de outubro”, filme que inverte os papéis e coloca o cineasta na frente das câmeras para ser entrevistado pelo documentarista Carlos Nader.

E ele ouvia com tanto interesse e tanto cuidado, sem preconceito ou julgamento. Tão raro, né? “É preciso amar pessoas e personagens. Com seus truques”, diz  ele em “Últimas conversas”, filme que estreia na vigésima edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários.

O desejo genuíno é a chave da ignição. E ele conduz, com suas perguntas lógicas e também com as absurdas. Ele que sabe escutar com interesse e paciência, o maior entrevistador do Brasil. Aquele que respeitava os silêncios – que tantas vezes fazia jorrar histórias e sentimentos de onde menos se esperava. Até mesmo em “um filme que deve dar errado”, como ele se refere ao “Últimas conversas”, montado por Jordana Berg e terminado por João Moreira Salles depois de sua morte. Entrevistando adolescentes, ele se questiona: “Se não estou curioso, falar pra que, pra quem?”. E do questionamento mais uma vez ele capta história comoventes.

Ver os filmes de Coutinho é um exercício gigante de empatia. É sentir a dor do outro, se colocar no lugar, querer entrar na tela e dar um abraço na maioria deles – no cara que canta “My way”, então, ai meu coração! É se ver em gente que não tem nada a ver com você. O cineasta universaliza a angúsita e a dor, nos coloca todos no mesmo lugar, transforma a tragédia em algo que faz com que a gente se entenda um pouco mais. Ele nos envolve na intimidade e na fragilidade do outro e nos faz melhor ao sair da sessão.

Viver é foda, puta que pariu, diria ele facilmente, jorrando palavrões, como sempre gostou. Vale a pena quando caras como ele criam um legado fascinante sobre a vida de gente comum. Ou quando você sai de um filme desses, pega o metrô pensando em vida e morte, e o shuffle do iPod toca “What a wonderful world”, música que você cantava para sua tia tentando fazer uma voz à la Louis Armstrong e acabava arrancando risadas deliciosas dela.

Tem dia que é foda.

Eduardo Coutinho 01

É Tudo Verdade – 20º Festival Internacional de Documentários

São Paulo e Rio de Janeiro de 09 a 19 de abril. Belo Horizonte de 29 de abril a 4 de maio, em Santos de 07 a 10 de maio e em Brasília de 27 de maio a 1 de junho.

www.etudoverdade.com.br

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