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@estarmorta, quadrinhos sarcásticos sobre a vida da jovem mulher branca de classe média

por   /  30/07/2018  /  9:09

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O @estarmorta é um desses perfis que quando aparecem na timeline você agradece pelos posts traduzirem vários aspectos da vida mulher de 30 e poucos vivendo na cidade grande enfrentando diversos tipos de dilema e se valendo do humor e do sarcasmo para lidar com várias análises sobre o mundo.

A autora não revela a identidade, o que deixa a história ainda mais legal. Conversei com ela sobre esses desenhos e textos que me fazem ter uns momentos de “é isso, traduziram o que eu penso!”. Foi demais o papo, espero que vocês gostem!

Acompanhem > @estarmorta

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– Conta um pouco sobre você, sobre seus quadrinhos/ilustrações e o que você mais gosta de desenhar e falar?

Vou tentar resumir. Eu sou jornalista. De economia. É isso que paga o meu aluguel e até gosto. Mas eu tinha 4 anos e queria ser estilista. Passava o dia todo desenhando mulheres com roupas bregas! Só que a minha mãe sempre me desestimulou, até porque eu não era nem um pouco boa nisso, nem em nada que envolvesse trabalhos manuais. Ela preferiu estimular meu jeito com números e linguagem – não à toa virei jornalista de economia. Eu reprimi totalmente meu lado artístico durante anos, nem sabia que tinha um. Amava apreciar arte em museu, mas nunca achei que pudesse fazer. Mas aí ano passado eu fique deprimida, tipo, lido com depressão há anos, mas a do ano passado eu achei que fosse morrer – não à toa o nome é “estar morta”. Assim como Lana del Rey eu queria estar morta. Mas não morri, entrei na terapia e a terapeuta deu aquele velho conselho de fazer arte. Mas ela foi específica: faz quadrinhos, já que você é boa em linguagem. Comecei a fazer, meus amigos começaram a gostar. Aí quando eu criei um personagem chamado PANIQUINHO, que é basicamente uma personificação das minhas crises de ansiedade, outras pessoas começaram a seguir. Percebi que tem muita gente sofrendo no mundo.
Eu passo metade da minha vida lendo sobre doença, principalmente as psiquiátricas. Meus pais tinham uma farmácia, só falavam disso. Como doença mental esteve na minha vida desde cedo, esse virou um dos meus temas centrais – e também é um tema que conquistou muita gente. Mas eu também gosto de falar sobre outras coisas: feminismo, lacração, relacionamentos, sexo, amizades, bebidas, drogas, trabalho – enfim, a vida de uma jovem mulher em 2018.

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– Você tem um humor ácido maravilhoso. No que você se inspira, quem são suas referências? Em quem você quer que cheguem essas mensagens?

Sou gaúcha – o que quer dizer que cresci cercada por gente meio grossa, sarcástica e que adora humor negro. Não caí longe do pé, né? Sempre gostei de Monty Python, que tem uma coisa meio nonsense; Agatha Christie, que todo mundo só vê como escritora de mistério, mas tinha um humor ótimo; e piada com coisas sobre as quais não se deve brincar. É que sempre acreditei que humor era a melhor maneira de lidar com coisas ruins (continuo achando que é, mas meu psiquiatra disse pra eu parar de usar sarcasmo para mascarar sentimentos e tenho tentado). Mas minha musa inspiradora, tanto no traço como no estilo de texto é uma ilustradora americana chamada Julie Houts (JooLeeLoren, no insta). Os desenhos dela falam muito com a estilista que eu QUERIA ser e não fui e ela consegue expor certas angústias de mulheres (brancas de classe média) de uma forma muito afiada. No Brasil, gosto muito do Ricardo Coimbra, Bruno Maron, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai e da Chiquinha – achei ótimo uma mulher começar a publicar todo dia na Folha.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Depressão e ansiedade foram os temas que atraíram pessoas pro perfil e continuam sendo um tema frequente – e uma demanda das seguidoras e seguidores, inclusive. Tenho inclusive vontade de fazer um site com mais informação sobre saúde mental. Depressão deve ser a doença mais comum atualmente, e percebo que as pessoas se sentem bem de saber que não estão sozinhas nessa, que o que elas sentem é comum. O meu post que mais “viralizou” até hoje é um que fala sobre a pressão para ter “autoestima” lá no alto – esse feminismo de consumo rápido, sabe? Achei que fosse me ferrar criticando o feminismo da lacração, mas espantosamente muita gente se identificou e concordou.

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– O que a arte representa na sua vida?

Transcendência – é isso que eu sempre achei mais legal na arte. Pelo menos pra mim, apreciar e mais recentemente produzir arte é uma coisa que me permite sair do “eu”. Deprimido e ansioso passa muito tempo dentro da própria cabeça e acho apreciação e criação de arte ótimas maneiras de sair de lá. Não à toa quase todo psicólogo e psiquiatra indica trabalhos artísticos, artesanais, manuais, como uma via de tratamento.

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– Como é ser mulher no seu meio?

No jornalismo econômico francamente acho bem tranquilo – mulheres são maioria, várias em cargo de chefia. Tem machista? Até tem, claro, mas acho que menos que em outras profissões até pela grande presença feminina. Entrevisto muita gente do mundo dos negócios, executivos, etc e a maioria é homem, quase todos muito respeitosos e educados. Eles fazem mansplaining? Fazem, mas jornalista adora gente que fala demais, então podem continuar fazendo. O que mais me incomoda em entrevistar tanto homem é que eu queria ver mais mulheres na posição de poder. Sou novata em quadrinhos ou arte, mas tenho um pouco essa impressão também, de que faltam mulheres em “posição de poder”, tipo, mais mulheres quadrinistas publicando em jornal diário, lançando livros, sabe? Mas também acho que isso vem mudando, fiquei muito feliz que a Chiquinha começou a publicar na folha e cada vez mais vejo mulheres ganhando visibilidade.

Por fim, também tenho impressão que ter sucesso em arte é uma coisa que depende de networking (vc viu “Nanette”? Ela fala disso) e homens são historicamente bons nisso, pois mais tempo tendo poder e tendo contato com poderosos, né? Acho que a gente tem que aprender a não só criar redes de mulheres mas também entrar nas redes deles – acho que o feminismo e as mulheres perdem se se isolarem apenas em clubes de mulheres e ficarem chamando os homens de machista o tempo todo.

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A potência das fotografias de Helen Salomão

por   /  25/07/2018  /  7:30

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Muito impactada pelo trabalho da Helen Salomão, puxei uma conversa pra conhecê-la mais.

Acompanhem esta mulher! > @helesalomao

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Sempre fui apaixonada por arte, mas as pessoas diziam que a arte não era para mim, e eu levei essa afirmação muito a sério. Só decidi que iria me dedicar a ela quando me decepcionei com a profissão que eu almejava. Meu sonho era ser advogada, até eu entrar para estagiar como Jovem Aprendiz no fórum da minha cidade e perceber que naquele momento eu seria infeliz se escolhesse essa profissão. E então decidi me dedicar à arte.

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Comecei a estudar para passa na faculdade pública para cursar design. Nesse meio tempo já tinha comprado uma máquina semiprofissional e estudava sozinha fotografia. Comprei a máquina sem pretensões, só queria me aproximar da arte. Sem conseguir passa em design, entrei num curso de arte e tecnologia. Foi nesse curso que me tornei artista e me dediquei inteiramente à fotografia. E descobri que ela seria minha aliada para mostrar e discutir minhas ideologias, para ser uma artivista e poder ser o meio para que outras pessoas pudessem se mostrar e contar suas histórias.

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Minha fotografia é muito sentimento, é o momento que passo, junto com o espaço ou pessoa que compõe a foto. Minhas referências: a rua, as pessoas, a minha família.

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Abordo aquilo que está no meu cotidiano e a minha vida. Acredito que é importante retratar para além de um tema, sempre penso em mostrar o que me toca, o que pode ajudar o outro, a autoestima, a felicidade, o poder e por aí vai.

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Do Projeto Fotopoético Casa Corpo Pele Parede, que conta vivências de mulheres, focando nas experiências do seu corpo, marcadas na pele.

Débora Ester, 22 .
“Minha pele tem tendência a manchar por qualquer eventualidade. Seja uma espinha, cravo ou ferimento. Futucada ou não, ela sempre marca. Eu não tinha estrias, porém, durante a gravidez, elas começaram a aparecer. A pele em volta da barriga esticou bastante, além de aparecer aquela famosa listra negra fazendo divisão. Quando minha bebê nasceu, a barriga diminuiu, ficando bem flácida, mole e escura. Aos poucos, ela está voltando para o lugar e clareando. Ainda tenho vergonha de algumas manchas e, agora, das estrias, mas estou trabalhando minha autoestima para lidar e me aceitar. Faz 40 dias que minha Maria nasceu e o corpo está normalizando bem, a barriga murchou bastante e as estrias estão sumindo. Com tudo que aconteceu, amo demais meu corpo e amo ser eu, amo residir no corpo em que estou e aprender com as mudanças que acontecem nele.”

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[O que faz o seu trabalho reverberar?] É a minha verdade junto ao que retrato.

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[Ser mulher no meio da fotografia] É perceber que alguns homens ainda continuam falando e mostrando nossas particularidades sem nenhum cuidado, vendo os homens ainda fazendo mais jobs que nós e sentindo na pele o desrespeito por simplesmente ser mulher.

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Dona Maria.
Você é boa.
Você é bonita.
Você é importante.
Você é inteligente.
#historiasquenaoestavamnoslivros

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Os bordados “desajeitados” de Nani Broderie

por   /  20/07/2018  /  14:14

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Adoro quando alguém chega por DM e apresenta o que faz. A Ana Maria Copetti fez isso, e cá estamos para falar do trabalho dela e mostrá-lo um pouco!

Mais > @nani_broderie

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Bom, me chamo Ana Maria, sou bordadeira e designer, e meu apelido em casa é Nani. Sempre tive gosto pelas artes manuais, praticava de tudo quando pequena, desde aquarela a marcenaria, e hoje sigo experimentando. O design como profissão contribui para o meu pensamento criativo, mas, mesmo amando muito, sempre existiu aquele receio de expor minhas criações e também uma falta de trabalhar com o manual (fico geralmente mais de 8h por dia no computador). Foi através do bordado que encontrei uma forma própria de expressão, que consegui me identificar e ter maior confiança nos meus trabalhos, riscos e identidade. Comecei a bordar em 2014, quando fiz por acaso uma oficina da técnica em um evento de design em Buenos Aires – e desde então não parei mais.

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Hoje tenho a marca de bordados Nani, com bordados desajeitados e feitos à mão em um processo 100% autoral; mas continuo descobrindo outras manualidades também, faço cerâmica e tenho um grupo que compartilha conhecimento manuais: o Clube das Miçangas. Então, sobre o que eu gosto de fazer, acho que a resposta é um pouco de tudo. Em relação ao bordado, bordo o que eu vejo ao redor e o que eu sinto, vejo meu trabalho como a materialização de sentimentos e, por isso, busco sempre inspirações no universo feminino, com sua delicadeza, suas curvas e sua força.

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Acho que a arte representa uma forma de dizer aquilo que muitas vezes eu não sabia como me expressar. Também representa uma forma de ver a vida e o que nos cerca e uma forma de comunicar, uma troca e um compartilhamento dos sentimentos.

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Meu trabalho trata do feminino e da delicadeza e da força da mulher de uma forma simples e natural, e isso sem dúvidas é algo que as mulheres se identificam. Gosto de trabalhar a relação das mulheres e da sororidade, da união e do estar presente pela outra. E também a relação mulher x natureza, através dos animais e das plantas.

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Ser mulher no Brasil é horrível, mas acredito que a pergunta seja específica em relação ao trabalho com o manual. Eu percebo que ser artista, independente do gênero, já venha com toda uma carga de desvalorização do manual no Brasil. Agora, ser artesã e mulher é ainda mais difícil pois já carrega um significado que a sociedade traz do olhar insignificante ou ordinário sobre o trabalho. O bordado acaba muitas vezes sendo tratado mais como um artesanato básico e medíocre do que como arte profissional em si. O tempo de produção, que é altíssimo, acaba sendototalmente  menosprezado, e o valor sobre a peça diminuído. E nesse sentido eu já percebi que há uma diferença de tratamento de quando a arte do bordado é feita por homens, pois eles já são mais vistos como de fato “artistas”.

Porém, me sinto bastante privilegiada em relação ao meu trabalho, pois nunca senti um preconceito direto em relação a exercer meu trabalho. Mas já passei por situações desconfortáveis de receber comentários da família sobre certos bordados “mais ousados”, comentários machistas e homofóbicos em posts dos meus trabalhos e comentários bizarros no transporte público de homens enquanto eu bordava, perguntando se “sobrava tempo para cuidar da casa”, tipo oi?

Por outro lado, como ponto positivo, eu vejo toda uma cultura de valorização do pequeno nascendo. No Brasil pelo fato da maioria das microempresas serem coordenadas por mulheres, todo esses negócios acabam sendo muito inspiradores. E quem se dedica às artes manuais acaba achando uma rede de apoio bem grande e muito querida de artistas.

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Sirlanney e seus ótimos quadrinhos feministas

por   /  06/07/2018  /  8:00

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A Sirlanney faz aquele tipo de quadrinho que você lê e se identifica na hora. Ela fala de pensar em mandar uma mensagem de amor a cada 5 minutos, de ser stalker, de trabalhar sob pressão, de destruir o patriarcado. Suas histórias são ácidas e certeiras, e é muito legal acompanhar seu perfil no Instagram. (Aliás, obrigada, @instadage, pela indicação!)

Na entrevista abaixo vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que nasceu no interior do Ceará em 1984 e publica seus textos e desenhos na internet, em zines e revistas há 15 anos.

Mais > @sirlanney + www.sirlanney.com

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu adorava desenhar quando era criança, como todo mundo, mas não parei de deseenhar quando cresci. Era algo que sempre me deixava satisfeita… Ver que eu podia fazer minha própria interpretação do mundo no papel. Mas o que eu amo fazer é contar histórias, escrever mesmo. Ilustração é só uma parte do que eu faço, porque o que eu acho que faço mais é contar histórias através dos desenhos. Então eu estudei artes plásticas, aprendi diferentes técnicas, li os grandes mestres e os nem tão grandes assim… E continuo estudando todos os dias, é um trabalho sem fim.

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– O que a arte representa na sua vida?

A arte é o ponto central da minha vida, é o que eu escolhi fazer agora e no futuro. Mas antes já era o que embalava meu coração frágil, desde que eu posso lembrar. A arte sempre foi o que eu podia me agarrar enquanto buscava o sentido da vida.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Geralmente é o que mais me incomoda. Aquele assunto que tá mal resolvido para mim ou para o mundo. Patriarcado, política, direita, esquerda, capitalismo, ego, altruismo, nova era, minha falta de habilidade com o Excel… Qualquer coisa que fique martelando na minha cabeça! Aí eu preciso parir um quadrinho para arrancar isso de mim.

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– Como é ser mulher no seu meio?

Já foi pior, mas ainda é chato. Não posso negar o salto que demos nos últimos anos no sentido de sermos consideradas, sermos lidas e termos obrigado a sociedade enxergar que somos top. Mas sempre que pego uma revista ou qualquer publicação sobre quadrinhos ou ilustração e vejo lá o clube do bolinha, ainda firme e forte, reviro os olhos.

Sy

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