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Trilha: Sapatão

por   /  29/08/2018  /  9:09

camila

Aproveitando o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, fiz uma playlist chamada Sapatão. É bom falar sapatão, né? Que seja uma cada vez mais uma palavra como outra qualquer, e não um xingamento.
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A foto linda é de @camillacattabriga.

Ouçam no @spotifybrasil.
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#trilhadonttouch #visibilidadelésbica

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Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  20:00

Dandara

O Don’t Touch sempre foi, e é, um blog sobre o amor. Por isso é com muita alegria que compartilho essa novidade com vocês. A partir de hoje, inauguramos a primeira coluna deste blog! Assinada por Dandara de Morais, atriz, bailarina, diretora de cinema e ativista. A cada 15 dias, texto novo dela por aqui.

Líricas Afetivas pra boy lixo – Uma breve explicativa do que me trouxe até aqui

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.” Bell Hooks

Pra início de conversa, confesso aqui que meu primeiro beijo foi quando tinha 16 anos.  O primeiro, e único namorado da vida, quando eu tinha 25. Não tão incomum assim. Sempre falei sobre como me sentia usada pelos caras, um mero objeto, usado e descartado, e ouvindo que a culpa era minha, da boca das pessoas que eu tinha um cariño enorme.

“Mas, você se apega demais”. Era o que eu sempre encontrava como resposta quando eu tentava desabafar, e aquele sentimento de que tinha alguma coisa errada comigo foi crescendo e se instalando com raízes profundas dentro de mim ao longo dos anos. Eu falava sobre a solidão da mulher negra sem nem saber que o que eu sentia/vivia tinha nome, e muitas outras meninas, garotas, mulheres negras passavam pelo mesmo.

Até alguns anos atrás a maioria da minhas amizades eram pessoas brancas. Eu fui a mais feia da escola até uns 14 anos. Minha melhor amiga branca era a mais bonita, namorou e ficou com todos os meninos que eu gostava. Gran amiga! Quando fiquei maiorzinha e comecei a enxergar um pingo de beleza em mim, continuei sendo rejeitada e sem entender porque nenhum boy se interessava em mim. Se eu sou tão bonita, tão legal e engraçada, o que tem de errado comigo que ninguém fica na minha vida?

Muito fácil pensar que realmente o problema é meu, que eu sou exigente, complicada, carente, “fácil” ou qualquer outra palavra que sirva pra jogar a culpa das rejeições em cima de mim. Somente há uns 2, 3 anos, eu comecei a falar e como resposta ouvir “eu também me sinto assim”, porque comecei a fazer mais amigas – que não largo nunca mais – negras. Mulheres maravilhosas, talentosas, inteligentes, criativas, divertidas, fofas, minhas meninas rainhas. Então comecei a perceber que o problema não era comigo de jeito nenhum, que eu não tava louca, exagerando, ou exigindo demais dos outros.

“(…) Muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.”

Eu já fui trocada por mulheres brancas diversas vezes. O cara dizia aquele velho “não quero nada sério” e semanas (ou até dias mesmo) depois aparecia namorando. Já passei por situações do cara não me beijar na frente de amigas y amigos, mas me ligar tarde da noite me chamando pra casa dele (não era pra ver filme). Já fui ignorada, feita de louca, assediada, abusada, enrolada, levada a acreditar por jogos psicológicos que eu estava errada e exagerando. Enfim, é muita história. Eu tinha blogs e diários, escrevi muito durante anos, mas a ansiedade máxima me pegou, e agora sentar pra escrever é algo raro, e difícil de se começar a fazer.

Como até na terapia eu ouvia que o problema era comigo, acho que comecei a confiar mais nas folhas de papel e nas páginas de meus blogs, eu podia falar o que quisesse sem medo de ser incompreendida. Encontrei até pessoas que me entendiam bastante, mas isso não vem ao caso agora. Eu sempre tive vontade de escrever sobre cada boy que me envolvi na vida, alguns não passariam de um parágrafo, outros eu teria que resumir bastante a história. Esse ano finalmente consegui virar autora. Descobri que podem ser crônicas, e é isso que eu vou fazer.

Paralisada por muitos sentimentos ruins durante anos, agora eu consigo finalmente me apropriar das minhas próprias mazelas e então produzir algo de bom com isso. Colocar pra fora, na esperança de que tenha alguma serventia, que esses sentimentos ruins que sempre me acompanharam, as experiências negativas, tão cruéis e destrutivas se transformem em histórias, que sirvam de alguma forma para refletir e entender porque tanto se fala sobre essa solidão e rejeição das mulheres negras.

Sempre que eu escrevo eu penso no que as minhas palavras representam. Podem ser coisas muito íntimas, mas com certeza uma ou duas mulheres já passaram pela mesma situação. Então é por isso que eu falo, até brinco, gosto de dizer que eu aprendi a tirar onda da minha própria cara. Se eu tivesse que escolher um gênero para enquadrar a minha vida seria a tragicomédia. Feliz e triste, rindo mas sofrendo, dou início a uma série de crônicas (nem sei se é esse o nome, mas tudo bem) que meu irmão um dia me disse para escrever.

Enquanto as mulheres brancas lutam pela liberdade sexual, nós negras ainda queremos ser reconhecidas como parceiras, companheiras. Se segura, Berenice, aqui vamos nós.

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Leituras recomendadas:

“Para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis, você tem que negar a sua cor”

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

Dissertação: “A solidão da mulher negra: sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”

Vivendo de Amor

 

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  13:13

Dandara

Líricas afetivas pra boy lixo: Número 0

Eu tinha 16, acho que ele tinha 18. Na época eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em um penteado, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa, tá? Vou chamá-lo de Número 0. Número 0 era mais alto que eu, com lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda de hardcore em Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de umas bandas meio autorais adolescentes da cidade.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu tímida, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Não tinha. Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, dar uma voltinha na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho – e onde rolou o primeiro beijo. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa. Toda boba.

Não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa, e eu inocentemente acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Claro que hoje em dia não sou imune a boy uó, mas sei reconhecer melhor os indícios de pura treta e complicação de vida. Porque as pessoas gostam de complicar tudo, e mentir, e fingir que nada aconteceu.

Feliz 2007!

Noite de ano novo. Encontrei com ele por acaso no Recife Antigo, novamente. Eu não sabia muito bem como agir, porque estava na companhia das minhas primas e temia que elas fossem fofocar alguma coisa pra minha mãe (rsrs), e ali, mais uma vez, ele deu sinais de que não era tão legal assim. A memória do que foi verbalizado não é muito definida, mas tenho marcado na mente a minha expressão de insatisfação questionando ele por não ter feito alguma coisa. E no final cedendo a um abraço. E sentando no colo dele. Mas ele não me levava a sério na frente dos seus amigos.

Eu estava gostando da experiência. Eu, Dandara de quase 17 aninhos, ficando com um cara, bonito e tal… Era difícil de acreditar porque passei minha infância e parte da adolescência sendo xingada de tudo que é nome no colégio, e nenhum menino olhava pra mim. Ele também parecia gostar, até que aconteceram as cenas dos próximos parágrafos.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do balé também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Foi a primeira vez que alguém tocou no meu bumbum, e eu achei isso muito avançado. Que tola.

Viajei. Ele parou de falar comigo. Não dava mais sinal de vida, não respondia mensagem. Não subia mais a plaquinha! E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no Jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo. Ele, então, nem pensar.

Essa foi a primeira rejeição concreta que passei na vida, digo, estar com alguém e ser trocada. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem tinha todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender. Porque é muito fácil você se culpar por tudo, muito mesmo.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhava na minha cara. Não sei porque esse ar de surpresa, Dandara. Já a amiga veio falar comigo, de uma forma discreta assumiu o que tinha feito, mas não entrou em detalhes. Hoje em dia não vejo mais nenhum dos dois, mas escrever sobre isso me tira um peso enorme que carrego há anos.

Respiro fundo, não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Lição aprendida: não sei dizer, só sentir.

Amor, feminino, ocupação e crochê: conheçam Karen Dolorez

por   /  17/08/2018  /  9:09

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A arte de Karen Dolorez transborda. Seja em sua nova série com bordados inspirados na poesia do João Cabral de Melo Neto, seja pelas ruas de São Paulo, onde ela faz intervenções potentes. A artista visual encontrou no trabalho uma maneira de criar novos lugres, “lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível.” E a vontade que dá é de morar nesses mundos. Porque eles falam de liberdade, de feminino e feminismo, de amor – e são bonitos demais!

Conversamos em mais uma #entrevistadonttouch, espero que gostem!

Mais Karen > @karendolorezdolorez.com.br

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na arte e o que você mais gosta de fazer?

Eu sou a Karen Dolorez, sou do interior mas moro em São Paulo há 8 anos. Não sei ao certo como ou quando meu encontro com a arte se deu de fato. Eu aprendi a fazer crochê quando era criança e sempre gostei de trabalhos manuais. Quando me mudei pra capital, trabalhei como designer mas senti uma necessidade maior de produção interna e externa. Acho que talvez tenha sido aí onde realmente comecei a desenvolver os trabalhos com essa consciência. As instalações nos muros nas ruas foram de grande importância pra mim, por que foi onde comecei a sentir uma resposta muito imediata das pessoas, me motivando cada vez mais a me comunicar com as pessoas através da arte.

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– O que a arte representa na sua vida?

O Lama Padma Samten (mestre budista) diz que a arte é a manifestação livre da mente, como uma experiência da realidade onde a dimensão interna se mostra de uma maneira mais visível – aquilo que se é criado também é realidade: a gente enxerga na matéria a essência da obra. Acho que hoje é difícil olhar pra arte como algo separado da minha vida. Por mais que exista o lado profissional envolvido, acho que eu acabo entendendo tudo como coisas que surgem juntas: minha vida se reflete no meu trabalho e meu trabalho acaba se refletindo diretamente na minha vida também.

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– Quem são suas principais referências?

Referências são sempre difíceis, eu tenho muitas e nunca lembro de todas! Mas vou citar alguns artistas que gosto demais e tenho acompanhado bastante ultimamente: Ines Longevial, Olek, Erin Riley, Gleo, Guimtio, Acidum Project, Alexandre Herberte… Fora isso tenho muitas referências de artistas contemporâneos, escritores e músicos também.

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– Como é um dia na sua vida?

Posso dizer que nos últimos meses cada dia da minha vida tem sido bem diferente um do outro e talvez um pouco imprevisível rs. Muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo. Mas basicamente eu costumo passar o dia no atelier produzindo. Meu atelier fica em um casarão onde outros artistas de diversas áreas compartilham salas e por isso tem uma troca diária muito gostosa. Tem sido muito importante para o meu processo estar nesse ambiente criativo todos os dias.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que as pequenas vivências do processo nas ruas que tive no início e o feedback após cada obra finalizada, me proporcionaram entender a potência desse trabalho, sabe? As pessoas passaram a se comunicar comigo, seja respondendo as mensagens e/ou desenhos que colocava nas ruas, seja simplesmente repostando nas redes sociais ou vindo falar diretamente comigo. Acho que por se tratar de um material e técnica que remetem a uma memória afetiva, essas mensagens conseguem atingir algumas pessoas que de repente não atingiria em outros formatos.

Acredito que as pessoas se comunicam de diversas maneiras, se manifestam, protestam… Cada um encontra seu jeito de se expressar. Eu sinto que o meu trabalho foi a maneira que encontrei pra me manifestar também, pra falar de coisas que me incomodam e que me deixam mal, mas também de coisas que me motivam e que podem motivar outras pessoas. Acho que o mais importante nessa comunicação é sempre criar novos “lugares” em paralelo, lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível. Penso que quando falo sobre direitos da mulher, liberdade individual de se expressar, de agir, de escolher e de só ser, é mais ou menos esse mundo que estou tentando criar.

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– Como é ser mulher no seu meio?

É complicado em todo meio, né? A mulher não tem muito espaço nas ruas, nem na arte, nem nos museus. As meninas do Guerrilla Girls tem uma pesquisa muito linda a respeito da representatividade feminina nesses espaços artísticos – exposta recentemente no MASP, inclusive. Mas como disse anteriormente, acho que precisamos criar esses novos lugares onde podemos estar e circular livremente. Acho que é muito importante cada vez mais incluirmos os homens nas nossas conversas também. Trazê-los pra perto é a melhor forma de quebrar as segregações. A mulher precisa sim do lugar de fala, de protagonismo, mas é importante demais que a gente abra esses diálogos com eles, afinal se eles não estiverem presentes, como vão aprender também?

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Aaah, acho que uma das coisas legais de se dizer de repente também tem a ver com minha nova fase mesmo, desde que aluguei o espaço pro ateliê entrei nessa nova fase, criando trabalhos mais internos e saindo um pouco das instalações na rua. Foi bem importante pro meu processo criativo ter um espaço voltado somente para o trabalho sabe? Consegui desenvolver novas obras e dentre elas essa série sobre o amor. São 3 retratos que simbolizam alguns momentos da minha vida. Me inspirei na poesia do João Cabral de Melo Neto para os títulos, Os Três Mal Amados: “Quando o amor comeu a minha paz e a minha guerra”, “Quando o amor comeu o meu dia e a minha noite” e “Quando o amor comeu o meu medo da morte”.

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“Transformo o que não aceito”, diz Cris Pagnoncelli em seus letterings

por   /  09/08/2018  /  8:08

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Quando trabalho e vida se misturam e se materializam em ilustrações, designs e letterings. Assim é o trabalho de Cris Pagnoncelli, que vocês conhecem mais na entrevista a seguir!

Acompanhem > @crispagnoncelli

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Sou designer, artista visual e profissional independente desde 2010. Me formei em design gráfico em Curitiba, e depois de 4 anos atuando em agências de design e publicidade, naquela correria insana, senti que havia perdido o que havia de mais original e prazeroso do processo: as técnicas manuais. Em 2009, armei uma fuga (talvez de mim mesma, talvez do que me prendia) e mudei para Barcelona, onde cursei uma pós em ‘Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual’, mas acredito que não só o curso, e sim a vivência em outro país, foi o que me permitiu redescobrir outras coisas sobre mim. Sinto que nessa fase meu trabalho teve uma grande mudança não só visual, mas de propósito mesmo. Eu queria ter prazer e me enxergar no que eu tava fazendo / criando / colocando no mundo. Na época eu estava com 24 anos. E os anos seguintes foram de muita busca. Experimentei técnicas novas, estudei coisas diferentes, me conheci melhor. Não digo que foi fácil – talvez os anos mais difíceis da minha vida, mas sem dúvida, o autoconhecimento foi essencial pra estar na fase que me encontro hoje: um pouco mais em paz com tudo o que faço e feliz de colocar minha voz no mundo, talvez por isso eu tenha encontrado no lettering um caminho que gosto de explorar em várias mídias e formatos. Eu gosto de desenhar coisas novas, de me desafiar, de estar sempre me reinventando.

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A arte é a forma mais sincera da nossa liberdade de expressão e coragem. Escolher abordar um tema nas nossas criações exige que a gente se posicione, acredite em algo e defenda até o fim (ou pelo menos, até ser convencido do contrário). Sou muito aberta a novas ideias e estou sempre buscando o equilíbrio das coisas à minha volta. Acredito que através das minhas ilustrações, designs e letterings eu posso comunicar e principalmente transformar aquilo que não aceito. Sei que não posso mudar tudo, mas até o momento que eu puder, vou utilizar a arte e o design como um veículo de informação das pautas que acredito.

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Nos últimos anos coloquei muito da minha vivência pessoal em meu trabalho. Foi algo muito natural. Ao pedalar na rua, e perceber a falta de respeito e espaço com os ciclistas, passei a defender e falar mais sobre bicicleta. Ao perceber o quanto me calei e aceitei coisas que antes pensava serem normais no mundo de agência, entendi que poderia ir ainda mais além sendo independente e traçando meu próprio caminho. E sempre falei sobre isso. Acho que as pessoas se identificam. Trabalhar sozinha nunca foi fácil, mas encontrei belas parcerias no meio do caminho e isso com certeza foi o que me fortaleceu. E acredito que essa coragem de falar sobre o que eu queria falar, de me abrir, de compartilhar, ensinar e aprender com outras pessoas autônomas me trouxeram ainda mais visibilidade. Em tempos de tanta individualidade, acho bem importante bater nessa tecla de que sozinhos a gente não chega tão longe quanto estando lado a lado com quem nos inspira e fortalece.

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Nunca foi fácil ser mulher em qualquer meio. E o meio da comunicação é bastante machista e predominantemente masculino. Sempre trabalhei e convivi com muitos homens. Mas talvez por ter minha mãe como referência eu nunca me senti inferior ou incapaz sendo minoria. Eu cresci acreditando que eu poderia ser o que eu quisesse. E minha mãe sempre foi uma grande líder. Uma vez ouvi de um superior que eu nunca seria uma (líder), pois era emotiva demais, chorava fácil (e choro até hoje). Guardei isso e toda vez que lembro dessa frase, tenho a certeza de que me tornei a mulher que eu já sabia que queria ser, que não necessariamente queria ser líder de alguém mas que saberia e gostaria de liderar. E sigo nesse processo. Construindo espaços de fala, lutando ao lado de outras mulheres e homens que admiro, resistindo. Para que um dia todas nós tenhamos a mesma força e auto estima dos homens. A gente não foi criada pra se impor, pra liderar (muito pelo contrário), mas a mudança está acontecendo e somos parte dela.

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Corpo que vivem, sentem e se relacionam nas maravilhosas pinturas de Jade Marra

por   /  06/08/2018  /  8:08

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Desde a primeira vez que vi o trabalho de Jade Marra fiquei encantada pelas cores, pela textura, pelos corpos ali desenhados. Fui conversar com ela pra entender de onde vem tanta beleza e consistência, e como resultado agora quero ter uma obra dela na parede! Espero que gostem da entrevista.

Acompanhem a Jade > @dejadejadejadejadeja e jademarra.com

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na arte e o que você mais gosta de pintar?

Sou a Jade, tenho 25 anos e vivo em Belo Horizonte. Em 2014 comecei a cursar artes plásticas na Escola Guignard, onde iniciei meu contato com a pintura. No segundo semestre de 2015, tive o privilégio de receber uma bolsa de um ano do programa Ciências sem Fronteiras para estudar artes visuais na Alemanha, o que foi determinante no meu amadurecimento como artista. Durante esse período, pude me dedicar integralmente a experimentar e entender meu lugar na arte, e foi também quando desenvolvi a série “Toque”, que considero meu primeiro trabalho com maior consistência artística.

A experiência de distância e ausência que vivi durante esse período me colocou em contato com sentimentos muito intensos e com a possibilidade de incorporá-los no meu trabalho. Aprendi aí a encontrar nos meus afetos pessoais a potência do que eu quero criar.

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– O que a arte representa na sua vida?

A arte, de um ponto de vista purista e ideal, representa a possibilidade de comunicação num plano sensível. A possibilidade de enxergar o mundo a partir da perspectiva do outro, de ter acesso a novas ideias e experiências. Por outro lado, a arte pode também representar um circuito extremamente restrito e elitista baseado em relações opressoras de poder.

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– Quem são suas principais referências?

Francesca Woodman

Pina Bausch

Felix Gonzalez-Torres

Paula Rego

Guerrilla Girls

Regina Parra

Leonilson

Ana Mendieta

Emilio Vilalba

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– Como é um dia na sua vida?

Ontem eu acordei, tomei café, atualizei meu portfólio, respondi e-mails, liguei pra minha mãe, fui ao banco, fui ao supermercado, li coisas diversas, procurei editais, desenhei, paguei meu aluguel, fiz uma torta de maçã, jantei, vi um filme e dormi. Zero glamour, muita vida real.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Eu trabalho a relação de afeto entre o corpo da minha companheira Luíza e o meu próprio corpo. Acredito que o afeto seja esse elemento que reverbera, cria identificação e empatia. Além disso, vale ressaltar que estou falando do afeto entre duas mulheres. O corpo da mulher lésbica existe socialmente em duas margens extremas: ou é apagado por não estar conforme o padrão de feminilidade, ou objetificado e fetichizado em função do prazer masculino. Considero meu trabalho político à medida que, trazer minha relação pessoal para a minha pesquisa artística, coloca o corpo lésbico em posição de protagonista e de propositor. Quem estabelece contato com o meu trabalho passa a ter contato também com um corpo que vive, sente e se relaciona como qualquer ser humano dotado de sensibilidade.

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– Como é ser mulher no seu meio?

Outro dia saiu o resultado de um edital ao qual eu estava concorrendo. Dos 9 selecionados, uma mulher. Existem camadas veladas de misoginia nas mais diversas esferas da arte, é vergonhoso. Precisamos estar atentas e conscientes e ajudarmos umas as outras a conquistar respeito e reconhecimento.

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Esse trabalho joga com uma inversão de perspectiva. Uma mesma imagem apresentada ora em uma orientação, ora em outra, permite uma alternância entre símbolos associados a visões de mundo contrastantes. Quando o mesmo elemento visual é capaz de representar sujeitos antagônicos, cria-se uma sensação de similaridade capaz de questionar a efetiva oposição entre categorias que podem estar relacionadas a estes sujeitos. 

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