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Resultado da busca "\"ivana arruda leite\""

Trilha: As músicas de amor da Ivana Arruda Leite

por   /  07/06/2016  /  19:19

ivana1

Com vocês, #asmúsicasdeamor de Ivana Arruda Leite!

Ela nos conta: “50 músicas de amor (bem e mal sucedidos) ao gosto dos sessentões. Como a maioria das músicas é do século passado, eu pergunto: será que elas ainda valem pras meninas de hoje?”

Na seleção tem Zizi Possi, Maria Bethânia, Angela Ro Ro, Maysa, Gal Costa, Nana Caymmi, Elis Regina, Simone, Alcione, Angela Maria, Marisa Monte, Cássia Eller e Maria Creuza.

Tá uma maravilha!

E vocês sabem que a Ivana é dos assuntos preferidos desse blog, né? Aproveito pra deixar uns links:

Os livros preferidos das escritoras

Cafofo Sessions: Ivana Arruda Leite

Fratura Exposta, por Ivana Arruda Leite

Falo de mulher

Escrever é dedicar

Alameda Santos

E muito mais

Ouçam e sigam donttouchmymoleskine no Spotify! ♡

Mais #asmúsicasdeamor:

Lulina

Miá Mello

Alexandre Matias

Diego de Godoy

#asmúsicasdeamor  ·  amor  ·  especial don't touch  ·  literatura  ·  mixtapes  ·  música

cafofo sessions #4: ivana arruda leite

por   /  06/09/2010  /  0:13

Ivana Arruda Leite é uma das pessoas mais lindas que já conheci na vida. Primeiro, encontrei um tanto dela no “Alameda Santos”, que eu devorei em uma noite de sábado. Depois, em “Hotel Novo Mundo”, que eu não queria acabar por nada, mas precisei fazê-lo tão rapidamente quanto o primeiro, porque a literatura de Ivana é urgente. Ela fala de amor, de vida real, de tudo que a gente procura e poucas vezes acha com tanta verdade e tanta intensidade.

Em junho, eu e Leal entrevistamos Ivana, e Romero e Léo, da Dulaya, gravaram mais uma edição do Cafofo Sessions. Fazia friiiiio, a gente tomava uma cervejinha enquanto conversava sobre literatura, influências, internet, amor, um monte de coisa. Foi uma tarde de sábado que começou no Bar do Biu, na companhia da querida Bebel, filha de Ivana, seguiu para nosso prédio em Pinheiros, que já guarda tanta história, continou na forma de uma conversa maravilhosa e depois ficou na cabeça por dias, porque tanta coisa dita ali faz tanto sentido, diz tanto sobre ela, sobre a gente, sobre todo mundo que vive de verdade a vida…

E então é isso. Aqui estamos nós com mais uma edição do Cafofo Sessions, que ganhou a edição mais linda dos últimos tempos! A gente espera que vocês gostem tanto de ver o Cafofo quanto a gente gostou de fazê-lo!  =)

Erramos uma letrinha: o agradecimento é para Rodrigo Levino

fratura exposta, por ivana arruda leite

por   /  02/07/2010  /  16:35

Gente, e a honra e a felicidade que é ter um texto da maravilhosa escritora Ivana Arruda Leite nesta seção?

A fratura do rabino, por Ivana Arruda Leite

Desde menina sempre tive paixão por fraturas. O menor indício de trincamento numa parede ou onde quer que fosse, era suficiente para distrair-me horas a fio tentando o conserto. Como acredito que a vida segue o rumo que o coração ordena, cedo me decidi pela ortopedia.

Já na residência, nada me dava mais prazer do que chegar ao PS e ver dezenas de braços, pernas, rótulas e clavículas esperando por reparação.

Osso é algo que quebra mas se recompõe. A menos que se engesse errado. Daí fica torto para sempre.

Meus colegas diziam que eu tinha olhos de raio X. Descobria fraturas onde ninguém supunha haver. Aliás, fraturas há de toda espécie e a maneira de repará-las nem sempre é a que aprendemos nos livros.

Por isso quando o jovem rabino chegou logo vi que, por trás da úlcera que ele dizia ser o motivo que o levara ao PS àquela hora da madrugada, havia uma fratura não exposta. Ele não entendeu nada quando encaminhei-o à ortopedia e não à gastro como seria de se esperar.

Eu ainda tentei explicar ao rabininho que as fraturas da alma são as piores, mas ele não quis saber de me ouvir e ao me ver tirando o avental e pulando na cama em cima dele, pôs-se a gritar feito um maluco.

Só me lembro das enfermeiras entrando correndo e me arrancando à força de cima dele.

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* O conto é o primeiro do livro “Histórias da Mulher do Fim do Século”, que será relançado no segundo semestre

A foto é de Jolie Ma

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

Os livros preferidos das escritoras

por   /  24/02/2016  /  9:09

Virginia Woolf

Li “A louca da casa”, de Rosa Montero, e fui à casa da Ivana Arruda Leite, amiga querida e escritora de quem sou fã. Falei da Rosa, e claro que ela já tinha lido. A Andrea também, a Bia, idem. Perguntei quais outros livros tinham um poder tão arrebatador, e elas me indicaram “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, que eu devorei em seguida.

Uma dica tão valiosa merece ser compartilhada, e eu acabei perguntando a essas mulheres que eu tanto admiro quais são seus outros livros preferidos. O resultado é precioso – e eu tô aqui querendo ler todos!

Ivana

Ivana Arruda Leite

Sempre me embanano quando pedem meu livro preferido. Então vou falar alguns.
Aos 18 anos, “Antes do Baile Verde” – Lygia Fagundes Telles
Aos 30 anos, “Morangos mofados” – Caio Fernando Abreu
Aos 35 anos, “Jogo da amarelinha” – Júlio Cortazar
Aos 40 anos, “Além do bem e do mal” – Friedrich Nietzche
Aos 50 anos, “A caixa preta” – Amós Oz
Aos 55 anos, “Patrimônio” – Philip Roth
Aos 60 anos, “Sábado” – Ian Mcewan; “Elizabeth Costello” – J. M. Coetzee.
Aos 64 anos – “Antes do baile verde” – Lygia Fagundes Telles.

Lá na época (2004?), nenhum livro me pareceu tão meu quanto “O passado”, do Alan Pauls.

Andrea 2

Andrea del Fuego

Vou citar meu assombro atual: Vergílio Ferreira com o romance “Aparição”. No atacado, todos do Ian McEwan, todos do Philip Roth, todos (poucos) da Sylvia Plath.

“Um teto todo seu” é Bíblia.

Bia

Beatriz Antunes

Depois de “Um teto todo seu”, nada mais me virou do avesso.

Eu leio muito mais não-ficção… Acho que “Hiroshima” é meu livro favorito (John Hersey). Mas é isso, reportagem. E desgraça. Não tem combinação melhor.

“Stasilandia” – Anna Funder é foda também. E “O demônio do meio-dia” – Andrew Solomon.

AH! Tem um livro muuuuuito bom. Tipo m u i t o fucking bom. “A menina sem estrela”, do Nelson Rodrigues. Uma espécie de autobiografia dele.

[Na foto da Bia, a ilustração é do Renato Moriconi para o livro “Telefone sem fio”, escrito em parceria com o Ilan Brenman (Companhia das Letrinhas). “Como eu amo essa ilustração, quero até tatuá-la, eu tenho um postalzinho na minha sala, para me inspirar quando trabalho”, diz. “E essa caixa com cara de homem é uma revista literária maravilhosa, chamada McSweeney’s. Cada edição da revista vem num projeto gráfico diferente, e essa é uma caixa cheia de contos e quadrinhos e coisinhas lindas dentro, com encadernações as mais diversas. Acho que é de 2010. Mas a caixa é muito engraçada, isso que importa.]

falo de mulher

por   /  19/03/2013  /  8:41

Ivana Arruda Leite é uma das minhas escritoras preferidas, como vocês sabem (quem não viu a entrevista que fiz com ela, por favor veja! Aqui, ó > http://donttouchmymoleskine.com/cafofo-sessions-4-ivana-arruda-leite/).

Um dia estávamos jantando e conversando. Quando falei que só tinha lido os romances dela, ela virou pra mim e disse: “Então você não me conhece!”.

No dia seguinte, ela deixou quatro livros na portaria do meu prédio. E a cada um que leio, a surpresa é maior.

“Falo de Mulher”, seu livro de estréia, lançado em 2002, é de uma urgência absurda para quem todo mundo que gosta de linhas apaixonadas, exageradas e precisas sobre relações amorosas.

Procurem o livro já! Tenho certeza que vocês vão amar!

Na imagem acima, o conto que abre o livro. Deu pra sentir como é sensacional, né? ♥

escrever é dedicar

por   /  05/05/2011  /  16:08

Adoro escrever pro Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco. Neste mês, a capa é minha! ♥ Escrevi sobre dedicatórias e entrevistei, entre outros, Ivana Arruda Leite, Michel Laub, Bruna Beber. Espero que vocês gostem!

Para ler a reportagem > A ficção do “este livro é para você”

Para ver o Suplemento na versão flip > http://issuu.com/suplemtentopernambuco/docs/pernambuco

A ficção do “este livro é para você”

Nunca escrevi um livro, mas imagino a tristeza que seria autografá-lo numa noite e, tempos depois, descobri-lo intacto em um sebo, com meu carinho e minha assinatura e a quase certeza de que ele foi, apenas, folheado. Fernanda Young e Daniel Galera talvez sentissem essa tristeza, estivessem eles numa sexta-feira à tarde no Sebo Pinheiros, em São Paulo. Numa das primeiras páginas de Aritmética, da polêmica autora que posou nua outro dia, o fotógrafo J.R. Duran foi exaltado: “Duran, obrigada pela foto inteligente. Um grande retrato, para uma sempre inadequada escritora. Beijos, Fernanda Young.” Era 16 de abril de 2004, e, quase seis anos depois, sem riscos nem dobras, a obra repousava sobre um caixote de feira. Embaixo dele, constava um exemplar de Até o dia em que o cão morreu, do gaúcho Daniel Galera. “Para J.R. Duran, uma história de amor e perda. Um grande abraço, Daniel Galera”. Texto mais simples, que não demonstra uma relação maior entre o autor e o leitor. Mas, com ou sem apego, ambos os títulos foram parar nos fundos sem poeira de um sebo.

“Quando vejo dedicatórias, fico pensando: nossa, a pessoa comprou o livro, pegou um autógrafo e agora o vendeu por dois reais”, ri a simpática e solícita vendedora que tem um patrão com postura oposta à dela. Para evitar esse tipo de situação, jornalistas que cobrem literatura contam que o jornalista Elio Gaspari nunca autografa seus livros, mas sim um cartão, que é colocado dentro do exemplar. Consta que ele não quer correr o risco de constranger esse tipo de leitor (ou consumidor, apenas) que vai vender a publicação no sebo com o autógrafo.

Uma dedicatória evoca tanta coisa. O autor escolhe dedicar um livro a alguém – à família, ao grande amor, a outro autor que foi responsável pela sua própria descoberta. Em noites de autógrafos, este mesmo autor encara filas imensas (e dá graças a Deus, afinal ninguém quer um lançamento vazio), se desdobrando para criar frases que expressem alguma coisa de verdade. Outros se limitam a escrever um beijo, um abraço, formam a turma dos genéricos. Quem ganha livro de presente, às vezes encontra palavras de motivação, de agradecimento, de amor. Quem os ama de amor táctil, como disse Caetano em Livros, provavelmente enche as paredes de casa com um número cada vez maior de exemplares, muitos deles com palavras de carinho. Quem, por falta de espaço físico ou emocional, decide se livrar desses objetos fornece um material primoroso para quem os encontra em sebos, bibliotecas, terminais de ônibus.

No mesmo Sebo Pinheiros, um exemplar d’A montanha mágica, de Thomas Mann, guarda a inscrição: “A Renata, ‘um feitiço de simpatia’. Somos pouco visionários, talvez sabemos! O amor correrá e o beijo se disseminará célere de boca em boca”. Renata, tão querida, tão elogiada, precisava de uns trocados? Ou quis se livrar de uma história que não teve um final feliz? Em um exemplar de A maior verdade do mundo, de OG Mandino, José Luiz escreve para Liberty: “A felicidade não é um fim, mas um meio. Ninguém é feliz, para ser feliz, mas para fazer alguém feliz. Por tudo que você fez por mim neste ano. Por tudo que fizemos pela CEF. Muito obrigado”.

Foi por encontrar uma dedicatória que Shaun Raviv começou um grande projeto, o Book Inscriptions(www.bookinscriptions.com), que reúne na internet achados de vários lugares do mundo. Ele estava em um bar em Manhattan, Nova York, em 2002, quando encontrou um exemplar de The road to human destiny, de Mary Lecomte du Noüy, onde estava escrito “Joey, eu te amo tanto! Você ultrapassou a definição para tudo. Eu sempre vou apreciar nossos momentos orgásmicos (sic). Amor e resistência, Mark”.

“A dedicatória de Mark para Joey era tão forte que peguei o livro, que falava sobre um cientista na lista negra, e o li. Daí, alguns meses depois, eu estava numa loja de livros usados e encontrei outra dedicatória e pensei que seria um hobby divertido colecioná-las”, disse Raviv, em entrevista ao Suplemento. “Essas dedicatórias, que não devem ser confundidas com autógrafos de autores, são mensagem pessoais, escritas com caneta e foram dadas de presente. Algumas são tão pessoais que é quase impossível que elas tenham se separado de seus donos.”

O tipo de dedicatória mais comum que Shaun costuma encontrar é “Feliz Natal”, mas ele não fica com elas. “Fico apenas com aquelas que são diferentes. As mais valiosas para mim são aquelas tristes, que só podem ter sido escritas por pessoas que estavam muito agoniadas na época.” Como a que foi escrita por uma Annie no livro And spring shall come, de Walley Dean. “Candle Light, um pensamento especial para um alguém especial, que me faz brilhar e sorrir e sempre traz o melhor de mim. Uma espécie de inspiração. P.S.: Estou esperando que tudo dê certo. Eu sou do tipo preocupada! Cuide-se, ok?”

Uma outra é ainda mais enigmática e foi encontrada em um catálogo do College de Vermont, datado de 1970-1971. “Querida mamãe, esta pode ser a última vez que vocês todos me veem e isso é porque Debbie é louca e, se eu ficar por perto mais algum tempo, estarei na mesma condição que ela.”

“Um dos motivos porque eu acho a maioria das dedicatórias tristes é porque elas foram presentes em algum ponto, e as palavras escritas ali soam tão pessoais… E mesmo assim os livros foram parar numa loja de livros usados, numa esquina, numa venda promocional de bibliotecas”, analisa Shaun, que gosta de escrever dedicatórias especiais, na esperança de que as pessoas que presenteia fiquem com os livros.

ENCONTROS
Algumas dedicatórias conseguem fazer com que a leitura de um livro comece antes mesmo da primeira página. Foi assim com a jornalista Larissa Brainer, que encontrou pequenas histórias de amor em livros aleatórios.

A primeira estava escrita num exemplar de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, que ela encontrou na casa dos pais, em uma pilha de livros que seriam jogados fora. “Lala, este é um dia comum como qualquer outro, mas com uma grande diferença, pois estamos juntos, aqui e agora. Vitória, 12/06/82, Rivo”.

“O de Gabo herdei de meu pai. Anos antes de eu nascer ele pegou emprestado com uma amiga e nunca devolveu. Encontrei na estante, empoeirado. A dedicatória de Dia dos Namorados fofa me fez ter mais vontade ainda de ler o livro. Fora a coincidência do apelido da dona, que também é o meu. Fico imaginando como pode ter sido especial aquele 12 de junho de 1982 para minha xará. De vez em quando releio a dedicatória, para não deixar de lembrar que estar apaixonado faz parte do dia a dia também.”

A outra, escrita em Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robert M. Pirsig, dizia: “Na verdade, eu comprei este livro para lermos juntos. Achei que você ia gostar do fato de podermos ler alguma coisa que tem a ver com os dois e discutir, etc. Mas agora o deixo com você; é para você, foi muito por você… Amor, Jô”.

“Alexandre, meu marido, comprou o livro pelo site Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br), sem saber da existência da dedicatória. Quando o livro chegou, que ele leu, sentiu o baque. As palavras fazem a gente sentir a dor da despedida de quem escreveu essa dedicatória. E, ao mesmo tempo, me pergunto o que (todas as lembranças, emoções etc) levaria alguém a se desfazer de um livro com uma dedicatória assim.”

PRECIOSIDADES
Até que com frequência, Leandro Antoniasse, do Sebo Avalovara, encontra exemplares autografados pelos próprios autores. Dia desses achou um exemplar de Visão do paraíso autografado pelo autor Sérgio Buarque de Hollanda. “Era uma dedicatória simples, que dizia ‘um abraço cordial do amigo Sérgio’”, lembra.

O mineiro Carlos Drummond de Andrade é um dos campeões das dedicatórias. “Já ouvi histórias de que ele chegava a cobrar por algumas”, conta Antoniasse. Nas conversas com autores e frequentadores do sebo, o vendedor acabou descobrindo, também, que o dramaturgo Plínio Marcos fazia dedicatórias de acordo com seu público-alvo: “Para suas mulheres, amantes, musas, ele fazia textos imensos, às vezes incluía até uma poesia.” Outro que aproveitava o viés literário para um algo a mais era Jorge Amado. “Uma vez peguei um livro dedicado para uma certa Maria. Ele dizia que esperava que o livro chegasse à altura dela.”

O fetiche pelo autógrafo do autor transforma o sebo em parada estratégica para aqueles que querem tirar proveito da fama dos outros. “Um dia chegou um sujeito aqui querendo vender uma primeira edição de Grande Sertão: Veredas, supostamente autografada pelo Guimarães Rosa. Mas não era”, atesta Antoniassi – e ele sabia que não era porque já havia estudado todas as nuances da obra do autor e dele próprio durante as aulas no curso de Letras. “Quando falei que a assinatura não era do Guimarães, o sujeito ficou nervoso. Ele quis catapultar o preço e nem precisava, porque uma primeira edição já é valiosa.”

NA NOITE DE AUTÓGRAFOS
Para os autores, noites de lançamento de livro misturam prazer, ansiedade e dúvida sobre o que escrever para todas aquelas pessoas que formam a fila de cumprimentos.

“É sempre um momento tenso, mas também especial. O dedicado sempre espera ser tocado, e quem dedica sempre tenta ser tocante, em respeito e por afeto. Escrevo sempre o que sinto vontade de dizer na hora. Acho que o legal da dedicatória é falar banalidades, explorar o momento que aquilo está acontecendo porque a pessoa que guardar o livro vai lembrar com carinho depois. Se é amigo ou alguma pessoa íntima fica mais fácil, você pode usar as palavras e piadas particulares. Mas em regra geral o nonsense é sempre uma boa fonte de inspiração”, afirma a escritora Bruna Beber, autora de A fila sem fim dos demônios descontentes e Balés. “Se dedicar é um dom, acho que tem gente que não sabe escrever dedicatória e eu acho que sou uma delas. Ultimamente aprendi que você pode dedicar um livro escrevendo nele inteiro e não só no frontispício. Fica mais divertido.”

E as idas e vindas que um livro pode travar ao longo de sua vida útil, acabam gerando surpresas: “Outro dia aconteceu uma situação nova: eu reautografei um livro que já tinha autografado. Uma conhecida comprou meu primeiro livro num sebo e ele veio com a dedicatória da primeira compradora. Foi engraçado.”

Antes da noite de autógrafos, o autor enfrenta a decisão de dedicar seu novo livro a alguém, ou não. Bruna prefere não escolher alguém. Michel Laub, autor de O segundo tempo e Longe da água, fez isso apenas no seu primeiro livro. “Ali agradeci à família, à minha namorada na época, a todos os meus amigos, aos cachorros etc. Depois não fiz mais por várias razões – algumas de ordem particular, mas em geral porque não sentia que o livro tinha algo a ver com alguma pessoa em especial, ou que sem alguma pessoa o livro não existiria. Mas, casualmente, estou lançando um livro agora no primeiro semestre e vou dedicá-lo ao meu pai, que morreu no ano passado.”

Na noites de autógrafo, Laub opta por dedicatórias–padrão. “Não tento ser engraçadinho improvisando frases espertas na hora (quando tento, fica meio patético). Em geral estou um pouco nervoso, então não arrisco muito e faço uma dedicatória padrão, tipo ‘para fulano, com um abraço do Michel’. A dedicatória é uma síntese, e nunca fui bom nesse tipo de coisa.”

Postura oposta tem o ilustrador Rafa Coutinho, que sempre tenta fazer alguma coisa especial em seus livros, comoCachalote, em parceria com Daniel Galera. “Lembro muito de como me sentia quando era mais novo e ia nos lançamentos dos meus ídolos. Acho um ritual muito forte, esse de encontrar cara à cara com o autor e trocar com ele alguma coisa. E pra nós, autores, é o momento em que você finalmente vai sentir a reação do leitor ou futuro leitor. É claro que nem sempre rola, depois de 500 livros, a fila começa a ficar impaciente. Mas sempre dá gosto de pensar em algo pessoal”, diz. “Procuro fazer algo pra cada um. Pergunto se o cara já leu, se gostou de algum personagem em especial. E tem aquela coisa de ver a pessoa, sentir mesmo como ela está, tentar relaxar o sujeito também. Muita gente chega nervosa na hora do autógrafo, quer conversar um pouco. O autógrafo é uma desculpa pra gente se conhecer, acho.”

Se gosta do interlocutor, a escritora Ivana Arruda Leite, autora dos preciosos Hotel Novo Mundo e Alameda Santos, procura fazer uma dedicatória especial com alguma referência que lhe diga respeito. “Minhas dedicatórias são sempre exageradas e cheias de superlativos, principalmente depois do terceiro copo. Aí abundam beijos e amores pra todos. Agora, quando a fila está muito grande com pessoas que eu não conheço, depois de um tempo eu fico cansada e vai no automático.” Ela também costuma fazer dedicatória nos livros que dá de presente. “E o mais engraçado: assino com o nome do autor para aquela pessoa. Por exemplo: uma vez dei um livro do Amós Oz pra Andrea del Fuego e escrevi: ‘para Andrea, com meu respeito e admiração, deste seu fã Amós Oz’. Gosto de pensar no que significado que essas dedicatórias terão daqui a 100 anos.”

Mas Ivana não precisou esperar muito para saber o significado que uma dedicatória sua teve na vida de um leitor que foi ao lançamento do seu livro Ao homem que não me quis. “Quando o próprio chegou no lançamento e colocou o livro na minha frente, eu escrevi: ‘Este livro é pra você. Um beijo, Ivana’.” Na época, o homem em questão era casado, mas Ivana soube o que ele acabou fazendo com seu livro. “Ele arrancou a página da dedicatória para a mulher não ler e guarda o livro com ele até hoje. A mulher dançou logo depois.”

Daniela Arrais é jornalista.

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espada flamejante

por   /  04/05/2011  /  7:50

A espada flamejante do querubim, de Ivana Arruda Leite

Nasci e fui criada no convento das carmelitas. Minha mãe deixou-me com as irmãs e sumiu no mundo. Minha vida era bem diferente da vida das outras moças. Nunca fui a um baile nem tive namorado. Meu prazer eram as noites em vigília, os jejuns e as orações. Minha alegria era servir ao Senhor. Por mais que eu explicasse às irmãs o que eram esses momentos de êxtase, elas não compreendiam. “Você é maluca”, diziam com desdém.
Era comum me encontrarem dormindo no chão da capela, pela manhã, aos pés do Crucificado. Depois do júbilo, eu perdia os sentidos e caía no chão. Acordava com a madre superiora me chacoalhando: “De novo, irmã Inocência, acorda. O que aconteceu?”. Eu nunca sabia explicar. “Eu estava deitada quando ouvi o Senhor me chamando…”.
Certa noite acordei com alguém batendo na porta do meu quarto. Pensei ser uma das irmãs, mas não. Era um homem alto, loiro, forte, de barba rala e olhos azuis. Um querubim que chegou sem anúncio nem trombetas, sem raios nem vendaval.
O anjo entrou, sentou-se na beira da cama e me disse estendendo a mão. “Vem, Inocência”. Eu obedeci. Só um anjo pegaria nos meus ombros e me colocaria deitada com tanta delicadeza, colocaria minhas pernas sobre a cama e tiraria minha camisola tão devagar, poria as mãos sobre minhas coxas e as alisaria como se moldasse o barro da criação. Ao ver que eu estava sem calcinha, ele sorriu.
A madre superiora sempre dizia que mulher que dorme sem calça recebe a visita do demônio. Ela estava enganada. Sempre dormi sem calcinha e veja quem apareceu: um emissário do Senhor que encostou os lábios no meu ventre e me beijou bem ali, onde os pêlos começam, e foi descendo a língua até chegar àquele ponto onde uma mulher não pode ser tocada sem que lhe venha um desejo irrefreável de morrer. Procurei sua boca e enfiei nela minha língua, o mais fundo que pude. Ele lambeu meu pescoço, minha orelha e sugou meus seios com tamanha volúpia que eu quase perdi os sentidos. Abri as pernas e empurrei-o para dentro. Foi então que o anjo enfiou-me a espada flamejante e rompeu meu sexo como o sol rompe a manhã. Devagar e completamente. Cravei as unhas nas suas costas e pedi que ele o fizesse com mais força.
E o mais engraçado é que o tempo todo o anjo falava essas coisas que os homens costumam dizer para as mulheres com quem  se deitam: ai que tesão, vem cá minha gostosa. O anjo era tão devasso como um qualquer. Parecia de carne o corpo do querubim.
Se a espada dava ares de arrefecer, eu logo tratava de fazê-la flamejar de novo. “Mais forte, mais forte”, eu pedia.
Acordei com a madre superiora jogando água no meu rosto. Contei-lhe do querubim mas ela duvidou e me chamou de louca. “Além de santidade, falta-lhe também sanidade”. De nada adiantou mostrar o lençol manchado de sangue. Fui expulsa do convento e da congregação.
Depois disso, dormi com muitos homens mas nenhum como o querubim.
Um dia o jardineiro do convento apareceu na boate onde eu trabalhava. Um homem baixinho, troncudo, careca, negro como a noite, sem nenhum dente na boca. Ele ficou embasbacado ao me ver ali. “Irmã Inocência!”. “Fique à vontade porque a inocência eu já perdi faz tempo”, eu lhe disse.
Assim que ele colocou as mãos nas minhas pernas eu me lembrei de tudo.

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A foto é de Fernando Farfán

amor  ·  literatura

rondó

por   /  16/03/2011  /  11:36

Rondó, de Ivana Arruda Leite

Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário a sua casa e pediu que não a procurasse mais. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.

Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário a sua casa e pediu que não a procurasse mais. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.

Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário a sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Fez um café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.

Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio. Já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estavam juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. Aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário a sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Nisso tocou o telefone. Era a mulher de Mário dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Mário pediu dinheiro emprestado à Luísa e foi entregar à mulher que estava esperando lá embaixo. Com o talão de cheques aberto sobre a mesa, Luísa disse olhando fundo nos seus olhos: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, ele nunca quis mudar a situação. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. E eu ainda lhe paguei o Credicard! Fez café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.

Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estavam juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. No começo foi um romance muito apaixonado. Acreditavam que haviam nascido um para o outro. Hoje, aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário a sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Nisso tocou o telefone. Era a mulher de Mário dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Mário pediu dinheiro emprestado à Luísa e foi entregar à mulher que estava esperando lá embaixo. Com o talão de cheques aberto sobre a mesa, Luísa disse olhando fundo nos seus olhos: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, ele nunca quis mudar a situação. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Não sei se se fez de surdo ou de bobo, mas sugeriu que fossem comprar cerveja pra lavar a serpentina. Luísa disse que não estava a fim de cerveja porcaria nenhuma e que não queria prolongar aquele inferno por mais nem um minuto. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. E eu ainda lhe paguei o Credicard! Fez café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.

Meu nome é Luísa, tenho trinta e sete anos e sempre julguei impossível terminar meu caso com Mário. Passei a sofrer a síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estávamos juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. Sóbrio, tinha sempre um punhado de razões: o filho, os cachorros, a casa, a mulher, o papagaio, a mãe doente, a grana. No começo foi um romance muito apaixonado. Acreditávamos que havíamos nascido um para o outro. Hoje, aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Sempre esperei que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamei Mário a minha casa e pedi que não me procurasse mais. Antes, porém, sentei no colo e falei que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Depois riu: você já me falou isto mil vezes. Nisso tocou o telefone. Era a mulher dele dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Pois ele teve a cara de pau de me pedir dinheiro emprestado e levar à mulher que estava esperando lá embaixo. Quando perguntei: e nós? E a nossa situação? Ele me disse: hoje é o último dia pra pagar o Credicard e você quer que eu pense na nossa situação? Ao subir, me encontrou feito estátua na sala de jantar. Olhei fundo nos seus olhos e perguntei: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, Mário nunca quis mudar a situação. Fiz pé firme e pedi que ele fosse embora de uma vez. Não sei se se fez de surdo ou de bobo, mas sugeriu que fôssemos comprar cerveja pra lavar a serpentina. Disse-lhe que não estava a fim de cerveja porcaria nenhuma e que não queria prolongar aquele inferno por mais nem um minuto. Ele relutou, mas foi. Eu nem chorei. E eu ainda lhe paguei o Credicard! Depois que ele saiu, fiz café, sentei-me na sala e acendi um cigarro. Nunca mais fui feliz.

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A foto é de Shawn Isabelle

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oco

por   /  07/12/2010  /  16:03

Oco, por Ivana Arruda Leite

Você lamenta que nada tenha dado certo entre nós, diz que nunca amou ninguém igual, que ainda sente muito minha falta e me imagina ao seu lado até hoje, dividindo o pouco que a vida lhe dá (um filhote de cachorro, um copo de vinho, um cd novo). Besteira lamentar, amor também é buraco e o nosso nasceu com essa vocação. E buraco é bonito também. E vai ficando mais bonito à medida que envelhece, mais bonito e mais fundo. Vista o seu que eu visto o meu.

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A foto é de Emily Chard

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horóscopo

por   /  23/09/2010  /  14:46

Horóscopo, por Ivana Arruda Leite

– Sou do signo de leão – ele bradava ferozmente balançando a juba – O rei da floresta, o maioral. – Por onde passava dominava o ambiente, atraia os holofotes, seduzia as pessoas.
Sempre à sua sombra, resisti até onde pude. É difícil resignar-se a um destino tão inglório.
Seus gritos ecoavam pela casa toda assustando os vizinhos. Não a mim. Eu sabia que a vitória viria um dia. Por ora, o melhor era me fingir de morta.
Sou do signo de gêmeos. Metade finge que morre enquanto a outra prepara o bote: um uísque bem servido todo dia, ano após ano, derrubaria até elefante.
Hoje o leão passeia de camisolão pelos jardins do sanatório sem nem desconfiar que sua bunda está à mostra. Em outros tempos morreria de vergonha.
Toda semana a enfermeira lhe entrega os cigarros que eu mando. Ele custa a lembrar meu nome. O álcool corrói a memória, os dentes, a vergonha. O álcool corrói até o amor que, dizem, resiste a tudo. É mentira. O amor não resiste ao álcool.

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A foto é de Wicklow

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