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A armadilha do “Faça o que você ama”

por   /  18/02/2014  /  11:11

Há pouco mais de três semanas, decidimos falar menos, mas trocar mais. Criamos, então, um blog para a Contente > http://contente.vc/blog/

Para nossa surpresa, o feedback foi muito maior do que a gente esperava, o que nos encoraja a continuar pensando cada vez mais na internet que a gente quer.

Semana passada, publicamos uma longa entrevista que fiz com a Bárbara Castro, socióloga, sobre o lema “Faça o que você ama”. Coloco aqui o começo da entrevista. E peço pra que quem se interessar vá lá no blog ler tudo. Foi uma alegria conversar sobre esse tema com alguém tão brilhante. Leiam! > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos sugere com veemência o que devemos fazer para ter uma vida melhor. Seja você mesmo, ame o seu amor, faça o que você ama. Nas paredes das ruas e nos murais da internet, as frases se impõem a todo momento, nos incentivando a sermos mais completos e felizes (muitas delas até já apareceram no nosso projeto Autoajuda do dia, aliás). Mas esse mesmo incentivo, quando feito em excesso, também acaba nos causando uma certa angústia. Afinal, sabemos que a vida é feita também de vulnerabilidade e que ainda vamos falhar muitas vezes, por mais que a gente passe dia após dia em busca dessa satisfação total.

Não tinha idéia de quando o discurso do “Faça o que você ama” tinha começado a aparecer com tanta frequência ao meu redor. Geralmente quando percebo alguma coisa assim, minha primeira reação é achar que todo mundo está sentindo a mesma coisa (ô, pretensão!). Depois costumo fazer o recorte: isso deve ser coisa de nicho, do meu nicho, de gente que faz trabalhos criativos, que consegue inventar sua própria rotina etc. O próximo passo é sair da superficialidade e entender melhor o tema.

Depois de ler uma matéria da Slate que fala sobre como o lema “Do what you love, love what you do”, estampado em pôsteres lindos que compõe a decoração do home office (obrigada por me mandar, Jana!) pode ser uma grande armadilha, encontrei minhas amigas do trainee da Folha para um jantar. Comecei a discutir com uma delas sobre o texto. E qual não foi minha surpresa? A Bárbara tinha passado o segundo semestre de 2013 inteiro dando aulas sobre o assunto!

Fiz uma entrevista com ela. E o que ganhei em troca foi uma aula sobre a história do trabalho. Bárbara Castro é socióloga e doutora em ciências sociais pela Unicamp (Universidade de Campinas). É especialista em discussões sobre trabalho e gênero e atualmente dá aulas no curso do sociopsicologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho”, diz ela na entrevista. “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade.”

A entrevista completa > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

As imagens que ilustram a entrevista são da Ana Luiza Gomes.

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2 Comentários Deixe seu Comentário

  • Mari Mari • 19.02.2014 @ 23:07 responder

    Pensei em tentar resumir por comentário o quanto eu achei esse post genial, mas vou passar horas aqui escrevendo. AMEI DEMAIS, absurdos.

    “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado.” – Barbara Castro conquistou meu coração com essa passagem. Pouca gente consegue definir tanto o que eu penso.

    Todo esse lance de trabalho, faça o que você ama, “seja feliz, seja livre, contanto que você não pare de servir a sociedade” gera uma angústia, de fato. E de tanta angustia, estou quase ligando a televisão e ponto clube da luta – unico filme que me fornece uma certa calmaria e identificação em relação à esses pontos de vista. Eu, sempre citando cinema… hahaha

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