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a gente se acostuma

por   /  12/10/2010  /  15:08

Eu sei, mas não devia, por Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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A foto é de Samuel Bradley

amor  ·  fotografia  ·  literatura

17 Comentários Deixe seu Comentário

  • Joana • 12.10.2010 @ 17:29 responder

    um dos textos mais bonitos que eu li aqui 🙂 chu.

  • Thiago Oliveira • 12.10.2010 @ 18:56 responder

    Um resumo do que é a vida.

  • Mari Liberali • 12.10.2010 @ 19:54 responder

    concordo com a Joana.

  • natalia • 12.10.2010 @ 20:04 responder

    desculpa se ela falou e disse! gostei bastante.. parabéns!

  • Luiza Voll • 12.10.2010 @ 21:14 responder

    oh céus

    amei amiga

    vontade de revolucionar a vida

    luv!

  • Ariana • 12.10.2010 @ 23:32 responder

    não tem uma linha que não seja verdade, não tem um de nós que não passa por isso.

  • Gabriela Galvão • 13.10.2010 @ 10:16 responder

    Pois eh. Eh o q sempre digo: me recuso a nivelar por baixo. “Podia estar pior.” Podia. Mas tb podia estar melhor.

  • nina • 13.10.2010 @ 22:40 responder

    texto perfeito. parabéns!!!

  • Aline Bez de Aragão • 15.10.2010 @ 10:14 responder

    Esse texto fecha com o momento que estou “vivendo”. Viver maneira de se viver pq isso não é vida! Me acostumei ( palavra correta – me conformei). Espero que não por muito mais tempo. Amei o texto. Parabéns Marina.

  • Aline Bez de Aragão • 15.10.2010 @ 10:15 responder

    Esse texto fecha com o momento que estou “vivendo”. Viver maneira de se dizer pq isso não é vida! Me acostumei ( palavra correta – me conformei). Espero que não por muito mais tempo. Amei o texto. Parabéns Marina.

  • Nix • 17.10.2010 @ 16:34 responder

    Muito bom, Dani.
    Felizmente algumas das coisas citadas eu não curto mesmo. 😛
    Adorei o texto. Voltarei mais.
    Beijos

  • Marilia • 17.10.2010 @ 21:47 responder

    Pois é.. estamos alienados, acostumados, condicionados. Isso é triste… e ngm percebe… bom vc percebeu…

    Um beijo

  • Dine • 21.10.2010 @ 11:40 responder

    é difícil saber que nos acostumamos a coisas que nem sempre nos fazem bem… o primeiro passo para a mudança é sempre o mais complicado 🙁 mas um dia ele terá que ser dado. lindo texto, marina! 😀

  • Thayanne Freitas • 4.05.2011 @ 23:52 responder

    Que esse texto me salve de mim!!

    Texto provocador, tudo o que eu precisava nesse momento…

    Parabéns! 😀

  • Roberto • 11.05.2011 @ 12:16 responder

    A gente se acostuma a dizer que tudo está errado…se acostuma a entrar em consonância com o erro. Se deixa levar pelos defeitos…e por um instante que olhamos que existem mais coisas melhores que piores em nossas vidas…acostumamos a desconfiar e a procurar motivos certos para dizer que não está mesmo bom. Entramos no comodismo de achar que está tudo errado. E assim a gente se acostuma a desperdiçar a vida, gantando-se nos erros, perdendo-se no pessimismo de si mesmo.

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