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a internet é o novo crack

por   /  31/07/2012  /  7:15

Um texto muito bom do Caio Braz sobre esses exageros que estamos acostumados a viver.

Internet é o novo crack e a velocidade da desinformação > http://caiobraz.com.br/internet-e-o-novo-crack-e-a-velocidade-da-desinformacao/

Difícil missão essa de viver em 2012. Despertar com o alarme do iPhone e ao abrir o primeiro olho, correr para o instagr.am para ver quem curtiu e comentou as suas fotos. Depois, o Twitter, pra ver as mentions, e com sorte, uma DM reveladora. Depois o Facebook, que deu uma bagaceirada e te enche de notificações de festas que você não quer ir, e alguns aplicativos inúteis. Por último o e-mail, repleto de mensagens de sites de compras coletivas de cidades que você sequer pisou. E enfim, abrir os dois olhos e dar o primeiro bocejo, em pleno inverno (glacial) paulistano.

A gente toma café, sai pra trabalhar. Entra em outro computador. E no caminho do trabalho, não larga o iPhone, mesmo com um pouquinho de medo de assalto. No trajeto, curte o microcosmo das suas músicas, e do fone de ouvido design. Se alguém te pede informação você já fica #chatiado porque tava chegando no refrão e teve que tirar o fone. Passamos o dia inteiro esbravejando pelo sinal miserável, o 3G sofrido, e a bateria ridícula do iPhone. Quando dá 60%, já começo a surtar. Quando chega aos 20%, é motivo de aflição completa: medo do isolamento, e da obsolescência. O vício de lembrar de sempre passar a mão no bolso direito da calça para ver se ele está lá. O vício de sempre passar a mão no banco do táxi pra ter certeza que não o esqueceu. Tudo para não se desconectar.

As pessoas simplesmente desaprenderam a marcar compromissos como se fazia antes do telefone celular. Lembra que a gente ligava para a casa das pessoas, cumprimentava a mãe do amigo da escola, e pedia pra ela passar adiante? Depois marcava com o amigo às 14h30 na esquina da rua pra andar de bicicleta pelo bairro, e os dois chegavam pontualmente. Não tinha essa de mandar mensagem (tô chegando, tô preso, atrasei). Não podia deixar na mão. E hoje quando a gente se encontra em um bar, difícil mesmo é largar mão do iPhone. Pior só nos festivais, onde telefone simplesmente não funciona – e ninguém se encontra, porque a gente desaprendeu a viver. Porque teoricamente, temos o iPhone pra mandar uma mensagem e nos reencontrarmos. Só que não.

A impressão que dá é que se a gente não estiver conectado, vai estar perdendo alguma grande notícia. No final das contas, nem tem uma grande notícia. Às vezes chega um e-mail ou outro com uma novidade legal. Mas poderia ser um telefonema old school. Ou até, pessoalmente. As coisas incríveis nas vidas de todas as pessoas sempre aconteceram e chegaram de algum jeito. A gente se enche de informação que não serve pra nada e até perde um pouco da capacidade de interpretação – com tanta coisa rolando sujeita à aprovação, às vezes você deixa de clicar em algo que poderia te agregar algum conhecimento porque só duas pessoas deram like, e alimentamos a nossa cota diária de voyeurismo e vício em sites idiotas.

Perdemos alguns rituais. Mal compramos discos, não sabemos as caras dos cantores, a identidade visual. É legal ver os clipes no Youtube, mas depois fechamos a janela, e ele já se foram. Até mesmo o DVD já tá sumindo do mapa. Apagamos as músicas, se foram as memórias musicais. Abra a sua gaveta de discos dos anos 90 com suas anotações nos encartes, a etiqueta que diferenciava os seus discos, dos da sua mãe, e da sua irmã e veja a quantidade de memórias que isso vai te trazer. Nos conectamos com o mundo, e nos desconectamos de nós mesmos.

Isso porque eu nem comecei a falar de amor – saber que a pessoa que você tá a fim leu a mensagem no Whatsapp e não te respondeu doi mais do que quebrar uma perna. Será que é mesmo esse o mundo ideal? Não sei como mudar. Só sei que tem coisa demais, tem opção demais. Tá tudo muito no nosso alcance. O que é bom deixa de ter o valor devido, porque pode ser substituído a qualquer segundo com um clique. Me sinto um pouco prisioneiro dos maus hábitos que desenvolvi. Largar meu iPhone? Jamais. Apenas sobreviver em uma eterna relação de amor e ódio. Queria menos Wikipedia, mais Barsa, Almanaque Abril e dicionários. Menos iTunes e mais discos. Menos Skype e iMessage, e mais quem eu gosto me olhando cara a cara.Coragem, viu.

7 Comentários Deixe seu Comentário

  • rackel • 31.07.2012 @ 11:47 responder

    Ah , dai vc acabou de escrever isso e foi ver quantas pessoas curtiram né? Vai viajar pra bem longe, onde esse iphone não pega, e ai pode ver o que realmente é importante nessa vida . Esse discurso de muita informação, olho no olho, é muito clichê , não ta contente? O telefone está na sua mão, é só desligar.

  • Marina Santa Helena • 31.07.2012 @ 12:25 responder

    Parei pelo menos 2x no meio do texto para ver outras abas do navegador. Podem até falar que é clichê, mas se faz isso porque se pode, não porque se quer. Nem acho que é um negócio consciente.

  • Gustavo Barta • 31.07.2012 @ 14:37 responder

    ha 50 anos nossos avós falavam isso das novas tecnologias, quando eu era jovem falavam isso, quando era adolescente eu comecei a falar isso, e hoje não mudou nada, o valores são os mesmos e os olhares continuam atentos e famintos, a diferença é que, hoje, ontem, hà 10 anos, hà 30 e hà 50 anos existem pessoas acomodadas e pessoas que gostam de agregar valores, conhecer coisas novas e viver intensamente, sempre foi uma escolha.

  • daniela • 31.07.2012 @ 16:26 responder

    eu continuo achando que é tudo por conta da vaidade. as relações virtuais acontecem – e se propagam – pela facilidade em manipular e fragmentar uma realidade, transformando exatamente no que você deseja. a obsessão por ser compartilhado, curtido e mencionado é a versão digital do olhar admirado dos amigos na rodinha, enquanto você falava. vaidade.

  • Érica Martinez • 31.07.2012 @ 17:13 responder

    eu só penso em Cazuza: ” se ninguém olha quando você passa, você logo acha, eu tô carente, eu sou manchete popular… Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
    Desta eterna falta do que falar”
    Vida louca, né?

  • Nivaldo Tizzi • 7.08.2012 @ 11:03 responder

    Sei lá, então vamos só anotando nossas observacoes pra gente mesmo no nosso caderninho. Eu acho que não é 8 nem 80, td é equilibrio. A utilizacao exagerada de um moleskine tb pode levar a uma introspeccao viciante!

  • Lili • 7.08.2012 @ 21:37 responder

    Verdade… mas só até inventarmos outra forma de solidão.

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