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alameda santos

por   /  09/05/2010  /  16:32

“Alameda Santos” é o livro ideal para uma noite de sábado chuvosa em São Paulo. Eu tenho essa coisa de sempre gostar de entender no mapa da minha cabeça as referências de um livro. E Ivana Arruda Leite passeia pela Benedito Calixto, pelo Bexiga, desce a Consolação. Mas o melhor nem é a geografia, mas a forma como ela conta os dramas de uma mulher de 30 e poucos anos, desquitada, com uma filha pra criar e com toda a paixão do mundo para se envolver no que dá e, principalmente, no que não dá certo.

A história é simples: a cada final de ano, entre 1984 e 1992, quando a Globo começa a anunciar sua retrospectiva, a tal mulher faz a sua própria, lembrando o que aconteceu, o que sentiu, o que mudou. Tudo gravado em fita K7. Do tédio como funcionária da Caixa ao prazer de beber cerveja, vodka ou uísque até de manhã, ela vai mostrando como é a vida adulta de verdade, com muito menos floreios que outro tipo de literatura, o cinema e a TV tentam incutir na gente. E ainda sem auto-piedade, mas com força pra buscar a reivenção após cada queda.

Engraçado como um livro pode dizer tanto sobre a vida de um adulto e lembrar tanto a de uma criança. Porque o tempo em que “Alameda Santos” se passa é o da inflação assustadora, que fazia o preço do pão ser diferente de manhã e à noite; o tempo de novelas como “Meu bem, meu mal”, que eu adorava, assim como Gabi, a filha da personagem; da febre que era “Pantanal”, capaz de reunir a família inteira para ver Juma Marruá. Mais pro final, é o tempo da frustração causada por Collor e da estupefação diante do assassinato de Daniela Perez.

O texto de Ivana tem aquela simplicidade que você imagina o quanto custou a ser talhada. O bom é que chega na gente direto assim, como a conversa com uma amiga louca, imprevisível e apaixonada. Um pouco como cada uma de nós.

Portanto, leitura mais que recomendada! Para dar um gostinho, segue um dos muitos trechos que grifei no meu livro:

Aconteceu com ele o mesmo que aconteceu comigo. Duas feras feridas loucas por um cafuné. Quando ele se sentiu amado, se derreteu. Conclusão, ele se apaixonou por mim e eu por ele. Ficamos totalmente relaxados um na presença do outro. Mas ninguém se atreva a chegar perto porque a gente rosna e avança.

A foto da Alameda Santos é de Camilo Pedroso

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3 Comentários Deixe seu Comentário

  • Lusinha • 11.05.2010 @ 20:49 responder

    Não conheço o livro ainda, mas pela resenha fiquei com vontade de ler.
    Texto muito bem escrito!
    Bjitos!

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