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Amor, feminino, ocupação e crochê: conheçam Karen Dolorez

por   /  17/08/2018  /  9:09

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A arte de Karen Dolorez transborda. Seja em sua nova série com bordados inspirados na poesia do João Cabral de Melo Neto, seja pelas ruas de São Paulo, onde ela faz intervenções potentes. A artista visual encontrou no trabalho uma maneira de criar novos lugres, “lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível.” E a vontade que dá é de morar nesses mundos. Porque eles falam de liberdade, de feminino e feminismo, de amor – e são bonitos demais!

Conversamos em mais uma #entrevistadonttouch, espero que gostem!

Mais Karen > @karendolorezdolorez.com.br

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na arte e o que você mais gosta de fazer?

Eu sou a Karen Dolorez, sou do interior mas moro em São Paulo há 8 anos. Não sei ao certo como ou quando meu encontro com a arte se deu de fato. Eu aprendi a fazer crochê quando era criança e sempre gostei de trabalhos manuais. Quando me mudei pra capital, trabalhei como designer mas senti uma necessidade maior de produção interna e externa. Acho que talvez tenha sido aí onde realmente comecei a desenvolver os trabalhos com essa consciência. As instalações nos muros nas ruas foram de grande importância pra mim, por que foi onde comecei a sentir uma resposta muito imediata das pessoas, me motivando cada vez mais a me comunicar com as pessoas através da arte.

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– O que a arte representa na sua vida?

O Lama Padma Samten (mestre budista) diz que a arte é a manifestação livre da mente, como uma experiência da realidade onde a dimensão interna se mostra de uma maneira mais visível – aquilo que se é criado também é realidade: a gente enxerga na matéria a essência da obra. Acho que hoje é difícil olhar pra arte como algo separado da minha vida. Por mais que exista o lado profissional envolvido, acho que eu acabo entendendo tudo como coisas que surgem juntas: minha vida se reflete no meu trabalho e meu trabalho acaba se refletindo diretamente na minha vida também.

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– Quem são suas principais referências?

Referências são sempre difíceis, eu tenho muitas e nunca lembro de todas! Mas vou citar alguns artistas que gosto demais e tenho acompanhado bastante ultimamente: Ines Longevial, Olek, Erin Riley, Gleo, Guimtio, Acidum Project, Alexandre Herberte… Fora isso tenho muitas referências de artistas contemporâneos, escritores e músicos também.

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– Como é um dia na sua vida?

Posso dizer que nos últimos meses cada dia da minha vida tem sido bem diferente um do outro e talvez um pouco imprevisível rs. Muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo. Mas basicamente eu costumo passar o dia no atelier produzindo. Meu atelier fica em um casarão onde outros artistas de diversas áreas compartilham salas e por isso tem uma troca diária muito gostosa. Tem sido muito importante para o meu processo estar nesse ambiente criativo todos os dias.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que as pequenas vivências do processo nas ruas que tive no início e o feedback após cada obra finalizada, me proporcionaram entender a potência desse trabalho, sabe? As pessoas passaram a se comunicar comigo, seja respondendo as mensagens e/ou desenhos que colocava nas ruas, seja simplesmente repostando nas redes sociais ou vindo falar diretamente comigo. Acho que por se tratar de um material e técnica que remetem a uma memória afetiva, essas mensagens conseguem atingir algumas pessoas que de repente não atingiria em outros formatos.

Acredito que as pessoas se comunicam de diversas maneiras, se manifestam, protestam… Cada um encontra seu jeito de se expressar. Eu sinto que o meu trabalho foi a maneira que encontrei pra me manifestar também, pra falar de coisas que me incomodam e que me deixam mal, mas também de coisas que me motivam e que podem motivar outras pessoas. Acho que o mais importante nessa comunicação é sempre criar novos “lugares” em paralelo, lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível. Penso que quando falo sobre direitos da mulher, liberdade individual de se expressar, de agir, de escolher e de só ser, é mais ou menos esse mundo que estou tentando criar.

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– Como é ser mulher no seu meio?

É complicado em todo meio, né? A mulher não tem muito espaço nas ruas, nem na arte, nem nos museus. As meninas do Guerrilla Girls tem uma pesquisa muito linda a respeito da representatividade feminina nesses espaços artísticos – exposta recentemente no MASP, inclusive. Mas como disse anteriormente, acho que precisamos criar esses novos lugares onde podemos estar e circular livremente. Acho que é muito importante cada vez mais incluirmos os homens nas nossas conversas também. Trazê-los pra perto é a melhor forma de quebrar as segregações. A mulher precisa sim do lugar de fala, de protagonismo, mas é importante demais que a gente abra esses diálogos com eles, afinal se eles não estiverem presentes, como vão aprender também?

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Aaah, acho que uma das coisas legais de se dizer de repente também tem a ver com minha nova fase mesmo, desde que aluguei o espaço pro ateliê entrei nessa nova fase, criando trabalhos mais internos e saindo um pouco das instalações na rua. Foi bem importante pro meu processo criativo ter um espaço voltado somente para o trabalho sabe? Consegui desenvolver novas obras e dentre elas essa série sobre o amor. São 3 retratos que simbolizam alguns momentos da minha vida. Me inspirei na poesia do João Cabral de Melo Neto para os títulos, Os Três Mal Amados: “Quando o amor comeu a minha paz e a minha guerra”, “Quando o amor comeu o meu dia e a minha noite” e “Quando o amor comeu o meu medo da morte”.

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