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#portfoliodonttouch: O vazio na fotografia de Ana Teresa Bello

por   /  21/10/2014  /  9:09

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Viver o Instagram há quatro anos, diariamente, é um grande exercício sobre o olhar. Tanto o meu, quanto o do outro, principalmente. Adoro descobrir fotos que me dizem alguma coisa. Adoro acompanhar os amigos e conhecidos, claro, mas gosto ainda mais de acabar parando no perfil de alguém e, de repente, me impressionar com as imagens reunidas ali.

Existe uma coisa nessa descoberta que me lembra a internet do fim dos anos 1990, quando a gente ficava amigo das pessoas porque elas gostavam da mesma banda que a gente ouvia sem parar ou porque elas tinham lido os autores que nos faziam nos sentir menos sozinhos no mundo. Parece que naquele tempo existiam menos narrativas de uma vida perfeita, e mais conversa. Menos contatos, e mais afinidades.

Há um tempo, conheci o Instagram da Ana Teresa Bello. Ana é decoradora e é apaixonada por fotografia. É dona da Amy, “uma felina cheia de personalidade, colecionadora de arte e afeto, carioca da Gávea e apaixonada por São Paulo”.

Passei a acompanhar o dia a dia dela e me surpreendo com o olhar que ela tem para cada foto. Pedi pra ela escolher algumas pra postar aqui. Ficamos entre a Islândia e o vazio, que ganhou. Fiz umas perguntas, e ela devolveu com um texto que diz muito sobre o que a fotografia representa na vida dela.

No Instagram > @anatbello

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Foi muito difícil responder essas perguntas, porque é sempre complicado para mim falar o que me motiva a fazer alguma coisa. Sempre fui melhor de imagem do que de fala, talvez por isso trabalhe com interiores e por isso a fotografia tenha me tomado desta forma. No meio do processo de descrever o que eu gosto de fotografar, fiquei pensando no que eu não gosto de fotografar, no sentido da possibilidade de filtrar em um frame o que eu quero mostrar para o outro, o que eu escolhi ver.

vazio_islandia

E isso me encanta, poder selecionar apenas uma parte de alguma coisa maior e registrar aquele universo tão particular e tão meu, mas que ao mesmo tempo pode ser também um lugar comum para o outro, um sentimento ou uma imagem que ele possa reconhecer. Acho que no fundo toda vez que faço uma foto eu pense nisso, em algo que o outro também ache interessante e que de alguma forma o faça se transportar para aquela situação. Uma forma de dividir e exercitar meu olhar.

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Já faz 10 anos que trabalho com interiores e neste tempo todo fui aprendendo a selecionar, de um infinito universo de opções, aquilo que acho melhor para cada projeto. É sempre um imenso quebra cabeça de possibilidades e, de alguma forma, levo esse olhar para as minhas fotografias.

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Costumo brincar que as melhores fotos são aquelas que eu ainda não fiz, aqueles lugares que costumo passar com frequência, que sempre enquadro imaginariamente, aquela cena… Algumas eu volto e registro, outras ficam só na lista de pendências fotográficas.

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O vazio tem me interessado muito nos últimos anos, tanto em fotografia quanto em literatura, música e arte. É um interesse que tem muito a ver com o que eu observo da nossa geração, um comportamento individualista e muitas vezes indiferente ao outro. Gosto da brincadeira de pensar no vazio tanto em termos de proporções, como também de situações.

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Como te disse, tenho bastante dificuldade em observar todo este processo por estar muito envolvida por ele. Não tenho distanciamento suficiente para entender como estas imagens se relacionam, por estarem muito presentes em mim. Mas o vazio está ali, e fotografá-lo é uma forma de preenchê-lo, de dar uma história para ele.

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No começo o que me estimulava a fotografar eram os espaços vazios, as linhas, as simetrias ou a ausência delas, tudo muito relacionado à arquitetura. Depois, aos poucos, fui achando interessante quando a relação com a escala humana aparecia de alguma forma, e hoje em dia acho fundamental este elemento para a composição de uma imagem. Nada como ir treinando o olhar…

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Termino com uma frase de Bergson, um filósofo que eu admiro e que estudei por muito tempo: “O olho só vê o que a mente está preparada para compreender”. E eu espero que o meu olhar ainda me ensine muitas coisas.

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10 Comentários Deixe seu Comentário

  • Paula Gicovate • 21.10.2014 @ 10:27 responder

    É um privilégio compartilhar desse olhar. Parabéns Ana, ficou lindo. Sensível como você é.

  • Paula Maria • 21.10.2014 @ 12:41 responder

    Essas fotos me deram uma acalmada, um espaço pra respirar.
    Parece uma busca pela calma, pelo silêncio, pelo desapercebido.

  • BA MORETTI • 21.10.2014 @ 13:27 responder

    umas das coisas que gosto na fotografia é isso, mexe com cada pessoa de formas diferentes.
    trabalho incrível o dela, amei amei.

  • Lalai • 21.10.2014 @ 14:22 responder

    adoro o insta da Ana…. e a seleção ficou incrível 🙂
    parabéns pras duas

  • Luiza Voll • 21.10.2014 @ 19:05 responder

    Adorei tudo! Texto, entrevista e esta linda seleção!

    Beijocas

  • Betinha • 22.10.2014 @ 09:49 responder

    Amei as fotos e os textos! Sensibilidade foi o q passou para mim.

  • Betinha • 22.10.2014 @ 09:50 responder

    Sensibilidade

  • Maritza • 22.10.2014 @ 23:01 responder

    Ana, parabéns !
    Adoro suas fotos, seu olhar, sua sensibilidade.
    Gostei do texto tambem, o espaço, o vazio, o olhar , o enquadrar. Sempre buscando … grande beijo

  • tati • 23.10.2014 @ 19:10 responder

    Muito boas as fotos mesmo! Parabéns! Vou assinar esse insta 🙂

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