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Posts por "Dani Arrais"

As morning pages de Julia Cameron

por   /  17/06/2020  /  9:00

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A convite do projeto @voa__voa, falei sobre a mágica das morning pages, exercício proposto pela Julia Cameron no livro “O caminho do artista”. Segue um trechinho:
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Sempre achei que a escrita é um grande mergulho que a gente faz pra dentro, antes de compartilhar e buscar conexão a partir do que escrevemos. Recomendo as páginas matinais pra quem chega pra conversar e diz que tá duvidando de si, que não se acha suficiente, que quer dividir suas ideias e projetos e ainda não tem coragem. Ao escolher escrever, até quando você não tem o que dizer, você descobre uma força. Ah, e um spoiler: até quando você acha que não tem o que dizer, só escreva. Como diz a autora, geralmente algo acontece depois de uma página e meia.
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Vai lá ouvir inteiro o áudio que gravei pra esse projeto lindo da @abreusabrina e da @laradias sobre criatividade? Quem aí também faz parte de clube de seguidoras das páginas matinais? 🙋🏻‍♀️
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#escrevescreve #bibliotecadonttouch #ocaminhodoartista #juliacameron

“A mulher de pés descalços”, de Scholastique Mukasonga

por   /  03/06/2020  /  9:00

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Scholastique Mukasonga perdeu 37 pessoas da família no genocídio em Ruanda, em 1994. É desse lugar devastador que ela parte para escrever “A mulher de pés descalços” (@editoranosbr), um dos livros de sua trilogia do genocídio. Logo nas primeiras páginas a gente sente a porrada que a leitura provoca: “Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E eu estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”
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A autora escreve sobre fome, violência, estupro, guerra, colonização (“Os brancos pretendiam saber melhor do que nós quem éramos e de onde vínhamos.”), deslocamento. Ao mesmo tempo vai fazendo poesia, lembrando de sua própria história, do pãozinho que a transportava para outros mundos, de sua mãe, Stefania, que vivia inventando esconderijos para as filhas escaparem, enquanto cultivava a terra, preparava comida e ainda atuava como uma espécie de guardiã da cultura do povo tutsi, arranjando até casamentos. É para Stefania que a autora escreve, para os tantos outros que perderam a vida de forma tão brutal (estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de pessoas foram mortas em Ruanda). Scholastique escreve pra proteger a memória, porque quando a gente esquece mata a vítima pela segunda vez, como disse em uma entrevista. Forte demais, tô pronta pra ler os outros dois.
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P.S.: Foi ótimo complementar a leitura com uma incursão no @clubetraca, semana passada. Obrigada pelo contexto e pelas trocas, @clarissag e toda turma!
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#bibliotecadonttouch

“Como o cérebro cria”, de Anthony Brandt e David Eagleman

por   /  25/05/2020  /  9:00

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Gosto de ler sobre criatividade porque conhecer histórias de grandes artistas, inventores, cientistas nos mostra que, para além do sucesso, tem muita tentativa e perrengue também. Estamos acostumados a ler sobre o que deu certo, quem chegou lá, reinventou o mundo. Mas, até conseguirem isso, que jornada. “Uma invenção criativa geralmente requer muitos fracassos. Por causa disso, ao longo da história, novas ideias prosperaram em ambientes em que o erro é tolerado”, escrevem o compositor Anthony Brandt e o neurocientista David Eagleman em “Como o cérebro cria: o poder da criatividade humana para transformar o mundo” (@intrinseca). No livro, os autores vão elencando exemplos de inovação, das viagens espaciais aos smartphones. Me espantou o número de vezes que alguns criadores tentaram até chegar ao produto final. Exemplo: James Dyson, o cara que inventou o primeiro aspirador de pó sem saco, fez 5.127 protótipos ao longo de 15 anos. Chocante, né? Quantas vezes a gente desiste na terceira tentativa? O livro fala como inovação é um requisito, quase um imperativo biológico, que nós seres humanos precisamos de novidade porque temos essa capacidade de imaginar futuros possíveis. E também que criatividade é treino. Tem a ver com entortar o que já existe, quebrar, mesclar, beber da fonte do que já foi feito, não permanecer fiel a uma fórmula por muito tempo. “Quando você esgotar todas as possibilidades, lembre-se disto: elas não se esgotaram.” Leitura leve pra gente se inspirar. Vou complementar com o documentário na Netflix baseado nele, alguém já viu?
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#bibliotecadonttouch #diáriodaquarentena #ficaemcasa

A comparação constante das redes sociais

por   /  22/05/2020  /  9:00

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Chega a ser quase impossível manter constantes o gás e a confiança se você passa duas horas navegando aleatoriamente no Instagram, dando uma passadinha em cada uma das 20 lives que estão acontecendo por volta das 19h, olhando IGTVs e dezenas de posts. Parece que tá todo mundo fazendo muita coisa, agora que aprendemos a conviver um pouco com a pandemia (sem deixarmos de nos espantar diariamente com tudo, claro). As redes sociais são plataformas de comparação constante. A gente já sabe disso, mas não é doido que isso nos afete em dias que largamos um pouco o navegar com consciência e passamos minutos aleatórios rolando a tela? Dá para entender porque muita gente ainda resiste em se expressar por aqui. Há um tempo venho falando pra uma amiga que ela devia postar no feed, mostrar o que tá fazendo, criar seu canal de comunicação. Recentemente, ela deu esse passo. Não sem antes duvidar se tinha algo pra falar, se iam gostar, se ela iria conseguir manter frequência. Fico pensando como nos sentiríamos se houvesse aqui um mecanismo diferente, se as redes não operassem com base em volume, frequência e comparação. Ainda não sei dizer como, mas fiquei pensando que se até o Jornal Nacional muda e faz com que o William Bonner quase conduza uma meditação guiada um dia e no outro clame para que ninguém deixe de prestar atenção às vidas perdidas é porque estamos precisando de lembretes na hora de ver informação, né? Entre um post e outro poderíamos ser impactados por mensagens do tipo: “você só está vendo uma parte da história”; “pare de comparar sua vida a de quem você adora stalkear, mesmo que não admire tanto”; “cuida do seu caminho, é isso que importa”; “lembra de respirar”. Eu ia gostar de ter essa experiência, seria muito #ainternetqueagentequer.

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Produtividade na pandemia

por   /  07/05/2020  /  9:00

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É possível produzir com qualidade em meio ao medo? Qual a relação entre a sensação generalizada atual e nossa capacidade criativa? Com essas perguntas a revista @claudiaonline me convidou pra escrever um texto pra edição deste mês. Escrevi sobre como não estava conseguindo ser “produtiva” – e que talvez mais do que ser produtivo a gente tenha que questionar essa urgência de fazer sempre mais. O mundo parou, se não agora, quando a gente vai repensar a forma como estávamos vivendo? A gente que pode fazer isso, claro. Estamos em meio a uma pandemia, e a “oportunidade” que existe nisso é continuarmos vivos e cuidarmos uns dos outros. Falo disso citando Byung-Chul Han e Julia Cameron, autores que me ajudam, respectivamente, a repensar essa aceleração do capitalismo e a nutrir a criatividade diariamente. Convido vocês a lerem. Orgulho de ter um texto meu em uma revista que faz uma capa valorizando profissionais de saúde, viu? Obrigada pelo espaço, @isadercole! ⠀⠀⠀

Aqui o texto completo: https://claudia.abril.com.br/carreira/produtividade-na-pandemia/⠀

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“O amanhã não está à venda”, de Ailton Krenak

por   /  02/05/2020  /  9:00

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Leituras para adiar o fim do mundo: Ailton Krenak em “O amanhã não está à venda”. Curtinho e certeiro, desses que a gente consegue ler mesmo quando a concentração tá baixa, o livro recém-lançado fala sobre como o momento que vivemos requer cuidado e coragem. ⠀⠀⠀⠀
Um trecho que grifaria mil vezes é esse aqui: “Governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa de quem acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. Não podemos pagar o preço que estamos pagando e seguir insistindo nos erros.” ⠀⠀⠀⠀
Sobre “o novo normal”, expressão já tão usada e que particularmente acho nada a ver, ele diz: “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.” Que bom ter a perspectiva de um gigante num momento assim.
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“Vida querida”, de Alice Munro

por   /  25/04/2020  /  9:00

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Obrigada, Alice Munro. Você foi a única que conseguiu fisgar minha atenção e me fazer terminar um livro depois de semanas com concentração em níveis baixíssimos. Sempre achei que se estivesse confinada em casa leria um monte. Mas não contava com o fato de que uma pandemia, entre tantas variáveis, ainda “sequestra” nossas mentes. Mal consigo ver um filme ou um seriado (só tá rolando BBB mesmo). Mas fui aos pouquinhos, de página em página, um capítulo por vez, tentando. Porque me faz bem demais mergulhar em mundos diferentes do meu, ainda mais agora.
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“Vida querida” reúne contos dessa autora canadense que ganhou o Nobel de Literatura em 2013. Ela é capaz de criar histórias que vão nos surpreendendo aos poucos, a partir daquelas viradas na vida que vêm de maneira sutil e transformam tudo, sabe? É tudo tão bem colocado, alguns parágrafos iniciais me fizeram escrever na página: isso aqui é bom demais. Adorei cada história. Como é bom ter a companhia de um livro, né?
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#escrevescreve #bibliotecadonttouch #diáriodaquarentena #ficaemcasa

Bem-vinda ao clube, você sofre de síndrome da impostora

por   /  23/04/2020  /  9:00

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Quem aí já deixou de fazer algo porque achou que não estava pronta? Que nunca tremeu de medo antes de subir em um palco? Quem, aliás, já desejou uma chuva forte pra não conseguir chegar a tempo de uma apresentação? Quem acha que deveria fazer um mestrado antes de sair falando por aí de determinado assunto? Bem-vinda ao clube, você sofre de síndrome da impostora. Um comportamento que acomete em sua maioria mulheres que sempre acabam não se achando o suficiente, mesmo que suas trajetórias de vida digam o contrário. Parece que foi sorte, sabe? E que alguém vai descobrir a “fraude” que nós somos. Quando aprendi sobre isso, um portal se abriu. Primeiro porque o que eu sentia tinha nome. Depois porque eu não estava sozinha. Comecei a estudar o assunto, a escrever sobre ele e, principalmente, a conversar com outras mulheres. Todas tão talentosas e preparadas, e ainda assim tão inseguras como eu. Caminho sem volta. Parece que falar é começo de cura, né?
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Essa semana postei nos stories o link pro podcast @chacomaimpostora, da @terrinha, com produção da @doravantepodcasts. Tive a honra de ser a primeira convidada, e a conversa foi tão boa que achei que merecia o feed também. Até porque as trocas que começaram a surgir da DM reforçam a ideia de que a gente precisa muito falar sobre esse assunto. Vou deixar o link nos stories!
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Pra ilustrar, uma foto que dificilmente eu postaria para além dos stories. Mas é tentativa de deixar de lado essa coisa de ficar sempre em dúvida, né? Selfie com macacão lindo que ganhei da @flaviaaranha_.
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#escrevescreve #síndromedaimpostora

“A quietude é a chave”, de Ryan Holiday

por   /  08/03/2020  /  9:00

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Tem uns livros que caem nas nossas mãos quando precisamos. “A quietude é a chave” (@intrinseca) é um desses. Escrito pelo filósofo Ryan Holiday, tem como mote nos ensinar sobre a habilidade de desacelerar e encontrar um lugar de paz em nós mesmos. Em uma era de distrações, como a gente faz pra se conectar com o que importa? Uma frase de Sêneca resume bem: “Podes estar seguro de que estás em paz contigo mesmo quando nenhum ruído chega a ti, quando nenhuma palavra te arranca de ti, seja ela lisonja ou ameaça, ou meramente um som vazio zumbindo à tua volta com um barulho sem sentido.” Outra do autor também: “Construa uma vida da qual você não precise fugir”.
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Um dos grandes desafios da minha vida é entender o tempo. O que faço com o meu? Como posso viver sem tanta ansiedade? Como posso não encarar a vida como uma eterna lista de tarefas? Ou como posso entender que a lista não tem fim e relaxar? Holiday fala da importância da presença, da limitação de estímulos, de cultivar o silêncio, manter um diário, dormir bem, aprender a lidar com a raiva, escolher estar em um relacionamento, encontrar um hobby, caminhar, aprender a dizer não (para poder dizer sim para o que importa), construir uma rotina que vire ritual, buscar solitude, entre outras coisas. Sempre com base em ensinamentos de nomes como Confúcio, Thich Nhat Hanh, Nietzsche, além de exemplos de figuras, como Churchill, que se beneficiaram desse caminho.
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“Nós não vivemos neste momento. Nós, na realidade, tentamos desesperadamente sair dele – pensando, fazendo, falando, nos preocupando, lembrando, esperando, seja o que for. Pagamos somas enormes para ter em nosso bolso um aparelho que garanta que nunca fiquemos entediados. Inscrevemo-nos em inúmeras atividades e assumimos um sem-fim de obrigações, corremos atrás de dinheiro e realizações, tudo com a crença ingênua de que no fim disso haverá felicidade.” E a gente sabe que não é isso, né? Quando a gente tá feliz é tudo tão mais simples. O que temos basta, a vida flui. Aprender a cultivar esses espaços parece ser a busca de uma vida toda. E esse tipo de leitura dá uma animada na missão. #bibliotecadonttouch

Rebu, um seriado sapatão no Instagram

por   /  30/08/2019  /  21:21

Sextou! Que tal maratonar um seriado sapatão? No Instagram? Segue a dica: “Rebu: egolombra de uma sapatão quase arrependida”, um seriado feito por Mayara Santana (@tretasan) e disponível no formato IGTV no perfil @rebu.doc. A jovem pernambucana de 27 anos resolveu mergulhar na história de seus relacionamentos amorosos quando percebeu que, mesmo sendo uma mulher negra, lésbica e ativista, ela tinha muito do seu pai, um homem hétero, branco, um tanto machista. “Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas”, conta ela em entrevista ao blog.

Na série de seis episódios, Mayara relembra suas histórias, seus amores, conversa com o pai com uma sinceridade cortante – a mãe prefere não aparecer tanto, mas dá pra ouvir suas considerações. Tudo editado com fotos de infância e adolescência, da vida atual e da que já passou, um tanto de cultura pop, de “Chiquititas” a novela de Manoel Carlos, passando por Los Hermanos. A trilha sonora, aliás, é tão boa! Eu como nordestina chega sorrio ao entender tanto aquela mistura. 

Leia a seguir a entrevista que fiz com ela.

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– Como surgiu a ideia pro Rebu.doc? E como foi o processo entre ter a ideia e publicar a série? Os altos e baixos, as dúvidas… 

Faz um tempo que eu venho questionando e sendo questionada pelo modo que eu me relaciono nos meus namoros. Entre tantos sentimentos, reflexões e sessões de terapia, cheguei à conclusão bem dura que eu reproduzia muitas práticas abusivas. Esse entendimento da minha condição veio em conjunto com uma análise pesada do tanto que eu parecia com meu pai, e na minha cabeça eu não parava de perguntar: Como uma mulher de 27 e anos cheia de consciência de classe, cor e gênero pode muitas vezes se comportar como o homem, boleiro, hétero dos anos 70. A partir daí nasce a vontade de investigar essa história. A princípio eu tinha vontade de fazer um curta simples onde eu gravaria uma conversa com meu pai, mas durante uma cadeira na faculdade de dispositivos móveis veio a ideia dessa série, e em uma tarde eu rabisquei todos os episódios. Cerca de um mês depois comecei a gravar, fiz todo o processo técnico sozinha, mas o processo de concepção foi divido com muita gente, especialmente minha mãe, minhas duas maravilhosas últimas ex namoradas e minha atual namorada incrível, paciente e generosa, que me deixou embarcar tranquilamente nessa viagem que é se olhar no espelho e se expor. E, rapaz, eu juro que no começo eu não achava que fosse ter tantos altos e baixos, hehe, mas aconteceram uns BOs sim. Minha mãe depois que soube de toda repercussão ficou um tanto tensa com a minha exposição,  e do meu pai e por consequência dela, e me preocupa muito que qualquer ação minha traga qualquer questão pra essa maravilhosa. Também tive algumas questões quando pensei e fui “conduzida” a pensar se o que eu tava fazendo não era uma romantização dos meus atos. Isso fez com o que eu tivesse que refazer um dos episódios. Enfim, muitos altos e baixos, mas também muita satisfação com as trocas que ter puxado esse assunto trouxe.

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– E, principalmente, como foi ver a repercussão? Como foi encontrar tanta identificação ao postar sua série no Instagram?

Então, confesso que fiquei um pouco surpresa com a repercussão, até por que fiz a série bem sem pretensão, inclusive sem tanta elaboração técnica. Mas agora olhando o tanto de mensagem e compartilhamento que recebi é um pouco compreensível, a gente não tem tanto conteúdo sapatão sendo difundido. Acho que outro fator é o tema, que é o centro da série, que é debater o fato que eu me identifiquei com uma sapatão abusiva. Muitas das mensagens recebidas é sobre ter passado como vítima ou agente dessa violência em uma relacionamento com mulher. Além disso a linguagem que eu usei subverte um pouco a ideia do documentário clássico, o fato de ser curtinho e estar na palma da mão trás um respiro pra esse modo de consumir material audiovisual. Além da repercussão na internet, tem rolado umas interações bem engraçadas na rua, nos rolês que eu frequento. Fiquei de cara com uma amiga que disse que assistiu com a mãe evangélica e a mãe disse: nunca pensei que ia me emocionar com uma sapatão. Isso é muito massa hehe.

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– O público adorou, né? E quer mais. Quais são os próximos passos que você pretende dar?

Então, para o Rebu eu tenho duas ideias até agora. Eu estudo cinema e a gente costuma pensar muito em filme no formato pra festival. E eu acho massa. Então essa primeira temporada de Rebu provavelmente vai ganhar um corte de curta metragem, mas confesso que me atrai mais a ideia de chegar direto nas pessoas sem o filtro de um festival, fechado em sala debatendo o material. Depois de receber um monte de mensagens acredito que seria massa continuar esse debate, então meu outro plano pra o Rebu é uma segunda temporada, em que eu debata temas que me atravessam mas botando outras sapatões na roda.

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– Conta um pouco de você? Quem é, qual idade tem, o que estudou, como começou no cinema?

Tenho 27 anos, sou designer e videasta, atualmente trabalho como assessora parlamentar e comunicadora em um mandato de esquerda aqui no Recife, mas sigo trabalhando em projetos paralelos tanto em cinema quanto em design. Comecei a estudar cinema depois de um tempo de trabalho com design, onde eu vinha achando a linguagem estática do design meio frustrante para o que eu queria expressar e viver. Agora depois de um tempo em cinema fiz as pazes com o design e tenho tentando unir os dois, construir narrativas visuais e principalmente me divertir contanto e escutando histórias. 🙂

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– Como é ser uma mulher negra e lésbica vivendo no Recife?

Ao mesmo tempo que essas vivências se alinham elas tem suas divergências, dependendo do contexto. Confesso que no meu contexto ser uma mulher negra tem sido um caminho mais tortuoso, é preciso correr 5 vezes mais que toda e qualquer pessoa branca, é preciso viver um processo constante de fortalecimento da auto-estima, é preciso lidar com infinitos BOs dessa sociedade racista que fode nossa cabeça. É bem cansativo, imagino que aqui como em todo lugar. No meu contexto ser uma mulher lésbica, mesmo que com todas suas problemáticas, tem sido um processo mais fácil, já que minha família é bem incrível e me enche de amor, e os demais ambientes que convivo são de puro acolhimento. Mas claro que eu não posso marcar bobeira, ser essas duas mulheres é se resistir diariamente quando saímos dessa rede de proteção. Mas é isso, mesmo com suas infinitas tretas é compensado pelo orgulho.

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– Conta um pouco do que te inspira? Eu amei muito as músicas, que playlist! Onde você busca referências, identificação, quem são suas musas?

Muito engraçado tu falar da playlist, muita gente mandou mensagem falando dela, e eu sem entender por que hehe. A escolha das músicas foi a partir do que tava presente na série, que é uma mistura bem aleatória das coisas que eu gosto de escutar e que de alguma forma marcaram minha vida, mas também entendo que mais gente tenha curtido. Impossível não dar certo Alcione, Mastruz com Leite, Mr. Catra e Maria Bethânia no mesmo lugar, haha.

É sempre difícil a gente definir referências quando a gente tá o tempo inteiro consumindo e recebendo estímulos visuais por todo canto, mas eu cato muita referência nas ruas, adoro escutar toda e qualquer história da vida dos outros, na época do meu pai talvez fosse chamada fofoqueira, hehe. Tenho buscado muita referência e passado por um processo de formação bem pesado nos últimos anos através do rap, tanto de referência visual quanto de conteúdo. Além das coisas palpáveis têm as referências que mobilizam a gente pelo sentir. Acho que os momentos caóticos que o país vem vivendo nos últimos anos deixou a gente mais ligado na política, e ter achado certas inspirações nesse meio é de certa forma achar referências. Já que é pra falar de “musas”, hehe, quando eu escuto uma fala de Áurea Carolina (Dep. Federal MG), de Talíria Petrone (Dep. Federal RJ), de Mônica Francisco (Dep. Estadual RJ) me inspiram na hora a querer escrever e contar a minha própria história, ser dona da minha narrativa. É muita mulher maravilhosa, eu ainda botava aí nessa minha lista Ana Maria Gonçalves (leiam “Um defeito de cor”), minha mãe Zefa, Débora Britto, minha namorada (já era musa inspiradora jornalista antes disso, haha), e por favor incluir Alcione, haha.

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