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Posts por "Dani Arrais"

#bibliotecadonttouch: Sabrina Abreu

por   /  11/04/2018  /  17:17

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Sabrina Abreu é jornalista e escritora, uma dessas pessoas que a internet nos traz e que num dia de sol a gente encontra ao vivo e confirma como são preciosas essas conexões.

A gente se conheceu ao vivo quando ela me entrevistou pro seu podcast, o Perrengue. Foi um um papo longo e delicioso, sabe? Se animarem de ouvir basta ir aqui: https://soundcloud.com/sabrinaabreu/perrengue11-dani-arrais

Pedi pra ela contribuições para a #bibliotecadonttouch, e o resultado tá maravilhoso!

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Hemingway, em “Paris é Uma Festa”

As histórias de amor entre escritores e suas cidades-musas me interessam muito. E nenhum romance me deixa mais encantada do que o de Hemingway e a Paris de sua juventude. Peguei este trecho de Paris é uma Festa e incluí no meu primeiro romance, porque não conseguiria pensar, eu mesma, em outra descrição mais bonita para um lugar (porém, troque o nome da cidade por “kibutz”).

“Paris não tem fim e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena, e retribui tudo aquilo que você lhe dê.”

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Sêneca, em “Aprendendo a viver”

“Caro Lucílio, procura fazer o que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso.”

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Milan Kundera, “A Festa da Insignificância”

“Ele tinha uma vaga ideia de que, se tivesse nascido sessenta anos antes, teria sido um artista. Uma ideia realmente vaga, já que ele não sabia o que a palavra “artista” significaria hoje. Um pintor transformado em vitrinista? Um poeta? Ainda existem poetas?”

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mania de explicação

“Mania de Explicação”, de Adriana Falcão

“Mania de Explicação” é meu livro infantil preferido. Pena que quando foi lançado eu já era adulta. Adriana Falcão é genial em cada frase. Fica até difícil escolher a mais querida.

“Alegria é um agora que não tem pressa nenhuma.”

“Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.”

a força das coisas

Simone de Beauvoir é minha memoralista preferida e amiga imaginária. Dois dos livros em que narra sua vida são meus favoritos. A Cerimônia do Adeus, em que relembra seu relacionamento com Sartre e A Força das Coisas. Nesse último, estão as viagens e o ativismo dela, pela libertação das mulheres ou da Tunísia, mas as melhores partes são as mais íntimas, como a descrição de sua descoberta como escritora e a relação com Claude Lanzmann (ele é um dos meus eternos crushs e foi o único homem com quem Simone viveu).

“Já disse qual é, para mim, um dos papéis essenciais da literatura: manifestar verdades ambíguas, separadas, contraditórias, que nenhum momento totaliza, nem fora de mim, nem em mim, em certos casos, só se consegue reuni-los registrando-os na unidade de um objeto imaginário. Só um romance podia, no meu entender, destacar as múltiplas e volteantes significações desse mundo mudado no qual eu despertara, em agosto de 1944, um mundo cambiante e que não parara mais de mover-se.”

Por falar em Simone, enquanto eu lia O Segundo Sexo, não parava de pensar em minha mãe, minhas tias, avós, vizinhas, professoras, amigas, chefes e colegas. Nunca mais perdi a ideia de que o trabalho tem papel central em nossa emancipação. Historicamente, acho que o trabalho foi o melhor amigo da mulher (a palavra “parasita” é sempre um susto, mas, aqui, ela significa a pessoa que não trabalha e que vive da renda de terceiros – geralmente, homens).

“Só quando o poder econômico cair nas mãos do trabalhador é que se tornará possível à trabalhadora conquistar capacidades que a mulher parasita, nobre ou burguesa, nunca obteve.”

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Algum dia de 2013, li e reli este parágrafo de “Serena”, do Ian McEwan, umas 12 vezes seguida, porque sabia muito bem o que o personagem estava sentindo. Ou ele sabia exatamente o que eu sentia.

“Fico sem dormir por causa disso. Sempre os mesmos quatro passos. Um, eu quero escrever um romance. Dois, eu estou duro. Três, eu tenho que arrumar um emprego. Quatro, o emprego vai matar a literatura. Eu não consigo ver um jeito de evitar isso. Não existe jeito.”

 

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“Alice” é o livro que muda de tamanho comigo, cada vez o releio. E nunca é fácil responder aquela pergunta que a cigarra faz:

“Quem é você?”

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Polêmicas à parte, Woody Allen é o meu artista preferido no mundo dos vivos. Nada toca meu coração tanto quanto Anne Hall ou Manhattan, a vontade que ele tem de escrever, a teimosia que ele tem de viver, apesar de toda a melancolia, suas piadas depreciativas, a ida de seus personagens invariavelmente doidos a psicanalistas tão doidos quanto. No livro de entrevistas Conversas com Woody Allen, ele fala várias vezes que sua escrita é fruto do esforço, não de puro talento e iluminação – o que é sempre estimulante, quando vem do meu artista preferido no mundo dos vivos .

“Logo descobri que a escrita não vem fácil, é um trabalho que dá agonia, muito duro, e você precisa fazer um grande esforço. Muitos anos depois, li que Tolstói disse: ‘Você precisa molhar sua pena em sangue’.”

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A tetralogia napolitana escrita por Elena Ferrante era tudo aquilo que todo mundo falava. E era mais. Li em transe os detalhes da amizade entre Lenu e Lila, o contraste entre o mundo íntimo das duas, tão rico, e o bairro claustrofóbico em que cresciam. Várias frases que a autora usa para descrever Lila estão todas grifadas nos meus livros.

“Ela tem uma força interior que não consigo dobrar.”

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Amos Oz escreve tão bem que, basta abrir um livro dele em qualquer página para ler um trecho bonito. Esta citação de Judas, grifei em 2015 e ficaria feliz em reler todos os dias.

“Graças aos sonhadores, talvez nós também, os sóbrios, fiquemos um pouco menos petrificados e desesperançosos.”

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Eu ainda era criança quando li “Anne Frank: O Outro Lado do Diário”, escrito por Miep Gies, holandesa que ajudou a esconder a família Frank. Ainda não tinha o Diário de Anne Frank e nem sabia que ela morria no final. O fato de Anne e aquelas pessoas que moravam no sótão escondidas dos nazistas terem sido traídas em troca de dinheiro, imaginar foram vendidas foi uma das minhas impressões mais fortes dessa época. Passei um bom tempo obcecada pelo assunto. Recentemente, vi que o caso foi reaberto e que talvez o traidor seja descoberto. Espero que sim.

“Em 1948 a polícia holandesa fez uma investigação para saber quem teria traído nossos amigos, pois, de acordo com os registros, houve traição. Não havia nomes no relatório, apenas estava escrito que alguém recebera 7,5 florins por judeu – isso é, um total de 60 florins.”

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Foi num livro de Primo Levi que eu li pela primeira vez sobre a vergonha dos sobreviventes do Holocausto. É um sentimento muito comum entre as pessoas que passaram por guetos e campos, algumas das quais viraram minhas entrevistadas e amigas. Mas a primeira vez que eu tive contato com essa sensação incompreensível foi em Os Afogados e Os Sobreviventes.

“Você tem vergonha porque está vivo no lugar de um outro? E, particularmente, de um homem mais generoso, mais sensível, mais sábio, mais útil, mais digno de viver? É impossível evitar isso: você se examina, repassa todas as suas recordações, esperando encontrá-las todas, e que nenhuma delas se tenha mascarado ou travestido; não, você não vê transgressões evidentes, não defraudou ninguém, não espancou (mas teria força para tanto?), não aceitou encargos (mas não lhe ofereceram…), não roubou o pão de ninguém; no entanto, é impossível evitar. É só a suposição, ou, antes, a sombra de uma suspeita: a de que cada qual seja o Caim de seu irmão e cada um de nós seja (mas dessa vez digo ‘nós’ em um sentido mais amplo, ou melhor, universal) tenha defraudado seu próximo, vivendo em lugar dele. É uma suposição, mas corrói, penetrou profundamente, como um carcoma. De fora não se vêm, mas corrói e grita.”

Talita Avelino: “A música é minha crença”

por   /  10/04/2018  /  12:12

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Ao ouvir “O bom da vida”, de Talita Avelino, comecei a fazer uma playlist intitulada Autocuidado. Ainda não terminei, mas ouço essa música várias vezes, é tão good vibes! Parti pra escutar disco inteiro dela, o “Azul Bahia”, e logo depois fizemos uma entrevista rápida.

Ouçam essa cantora paulistana radicada em Salvador que fala de amor e ancestralidade.

Mais: @taliavelino

– O que a música representa na tua vida?

A música representa muita coisa. A música é minha crença, minha forma de viver, meu manifesto . Todos os dias eu ouço uma canção, toco um instrumento, faço música. É como se fosse uma necessidade absurda pra viver, a minha respiração. Tenho a impressão que através da música eu me comunico melhor do que quando falo.

– Ser mulher na música significa….

Resistência, voz, amor, delicadeza. Significa tanto e tanta coisa. Significa cantar suas dores, conquistas, revelar seu feminino e sua força. Revelar nossos potenciais que são fortes e preciosos. A voz feminina é algo único dentro de uma música. Fora as mulheres instrumentistas com sua sensibilidade .

– No que você tá trabalhando agora?

Atualmente , estou divulgando e circulando o meu disco “Azul Bahia”, recentemente lançado pelo Natura Musical. Estamos divulgando e firmando o público em Salvador. Segundo semestre pretendo circular em algumas capitais do Brasil com esse novo som.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Tem musicas que a gente se apaixona e desapaixona , já tem outras que sempre farão parte da nossa playlist. Uma canção que sempre me acompanha é “Da Maior Importância” de Caetano.

E uma canção que tenho escutado apaixonadamente nos últimos dias é “Dorival”, da banda pernambucana Academia da Berlinda.

A força das mulheres de verdade ilustradas por Priscila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

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Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

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A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

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A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

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Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

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Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

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Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

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Mais:

Brunna Mancuso

#asmúsicasdeamor: Ju Morganti

por   /  05/04/2018  /  21:00

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A Ju Morganti é uma dessas presenças que ilumina qualquer lugar onde chega. Tá sempre de alto astral, de bem com a vida, além de ser uma virginiana que organiza nossas viagens inteiras no Excel. É daquelas amigas que cuida da gente, sabe? Faz a melhor massa que existe, te dá colo e cochila com você no sofá vendo um filme no Netflix para acalmar o coração. Que bom que tu existe, Ju!

“Escolhi músicas que me fazem lembrar de momentos de amor tão diferentes que passei pela vida. Amor próprio, crush, vontade, namorico, paixão, carinho, admiração, conforto, companheirismo, dedicação, cuidado, saudades, falta, término….
Amor está em tanta coisa né? <3”, diz ela.

Vamos dar o play?

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais:

#asmúsicasdeamor: Guilherme Gatis

#asmúsicasdeamor: Juliana Alves

#asmúsicasdeamor: Sininho

#asmúsicasdeamor: Henrique Neto

#asmúsicasdeamor: Márcia Castro

#asmúsicasdeamor: Pérola Braz

#asmúsicasdeamor: Mariana Neri

#asmúsicasdeamor: Laís Sampaio

#asmúsicasdeamor: Laure Briard

#asmúsicasdeamor: Ivana Arruda Leite

#asmúsicasdeamor: Lulina

#asmúsicasdeamor: Miá Mello

#asmúsicasdeamor: Alexandre Matias

#asmúsicasdeamor: Diego de Godoy

Maria Beraldo: “A música só pode me salvar e não me afundar”

por   /  05/04/2018  /  9:00

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Existe algo de hipnotizante quando Maria Beraldo encara a câmera e começa a cantar. Tem força e mistério, como em “Cavala”. E também tem suavidade, uma aproximação de quem liga o computador, pega o violão e se diverte com aquilo que sabe fazer desde criança.

Cantora, compositora, clarinetista e claronista, Maria se prepara para iniciar a carreira solo, aos 29 anos. Vai até domingo (08/04), aliás, a campanha de financiamento de seu disco no Catarse (apoiem!).

Ela faz parte da banda de Arrigo Barnabé em “Claras e Crocodilos” e da Quartabê. Já gravou Moacir Santos, este ano lança um disco a partir da obra de Dorival Caymmi, além de assinar os arranjos de sopros de algumas faixas do novo CD de Elza Soares. Também vai lançar o primeiro álbum do trio Bolerinho.

Na entrevista abaixo falamos de música e de ser mulher, tópicos do nosso maior interesse.

Mais: @mariaberaldobastos_ + facebook.com/beraldomaria

– O que a música representa na tua vida?

Poxa, essa pergunta é coisa muito séria. Tão séria que eu acredito que vou levar a vida descobrindo e transformando uma possível resposta, mas tenho nesse momento uma sensação com relação a ela, que não é exatamente uma resposta.

No processo de produção do meu disco solo – que começou há alguns meses como produção, e como composição há uns 4 anos – eu percebi mais objetivamente a função emocional da música na minha vida. Tem uma coisa física de preenchimento emocional. De cuidar das minhas carências e preencher buracos de uma maneira muito objetiva. Sou muito passional e algumas pessoas são donas do meu humor, ou minha relação com essas pessoas. Descobri nesse processo como minha relação com a música também opera nesse âmbito. Conduz processos emocionais profundos e rasos, pode me salvar e me afundar. E me dar extremo e muito prazer.

Mas isso é uma divagação e pode parecer blablabla. Mas, ora, se não fosse isso eu não dedicaria minha vida a fazê-la – fazer-me.

A música é a maneira que eu tenho de dizer. É como aprendi a me expressar. É uma ferramenta de transformação pessoal muito potente e uma via de condução.

Faço música desde os 6 anos de idade tocando instrumentos e desde a barriga ouvindo e cantando. E vejo na música que faço em cada período da minha vida quem eu era naquele momento. Talvez a via mais transparente de mim.

Nesse sentido acredito que ela só possa me salvar e não me afundar.

Venho estreitando minha relação com ela e comigo.

E isso tudo porque aprendi os afetos em conexão com a música.

Meus pais são músicos, minha irmã também, e mais dois irmãos, todos esses músicos profissionais. Então pra mim muita coisa foi aprendida com essa via, esse meio de comunicação com as outras – que não exclui os homens – e comigo.

Me toca a música dos outros – quando me toca.

Me comunico profundamente através dessa coisa que ela é.

– Ser mulher na música significa….

Adoraria responder que ser mulher na música significa ser uma pessoa na música. Ou que ser mulher na música significa ser mulher na música, mas não chegamos nesse ponto ainda.

Ser mulher na música é uma luta. Me encontro cada vez mais como mulher – a mulher que eu quero ser a cada instante, não a que está descrita nas bulas – e cada vez mais como uma pessoa que se coloca como indivíduo na música – e isso me leva de volta ao coletivo automaticamente.

Acredito que toda mulher que busca sua autonomia na música é uma mulher de luta, e cada uma encontra sua maneira. Eu encontrei uma agressividade muito grande que é minha, combinada com uma doçura, e assim digo o que tenho pra dizer, busco o que tenho pra buscar. Tenho muitos sofrimentos como mulher no meu corpo, e meu corpo é feito de muitas mulheres que sofreram por suas vidas inteiras, e esse sofrimento talvez, de maneira exponencial, é pensando cronologicamente nas gerações de frente para trás. Sinto essa vibração em mim – parece que minha matéria encontra sua potência quando se dispõe a tal conexão com essas pessoas, as do presente que são feitas de muitas outras pelas linhas múltiplas dos tempos. Nada místico, nada premeditado, só foi acontecendo. Fui encontrando minha identidade em uma agressividade que eu não conhecia e que me leva a transformações. A doçura igual, mas ela eu já a conhecia e me cansei um pouco, mas permanece.

Me sinto muito acolhida pelas mulheres. Virei mulher na música num momento de glória – estamos finalmente mais atentas, mais juntas.

As dificuldades, os absurdos, os assassinatos, permanecem, mas sinto que estejamos criando ferramentas para irmos nos levantando. Juntas.

– No que você tá trabalhando agora?

Agora estou mergulhada no meu primeiro disco, “Cavala”. Estou terminando a produção dele junto com o Tó Brandileone, começando a mixar com o Ricardo Mosca e produzindo o clipe do single que antecederá o álbum.

Estou trabalhando muito no meu projeto de financiamento coletivo para este disco, na plataforma do Catarse: catarse.me/mariaberaldo

Estou ensaiando com a Quartabê – banda que tenho com Mariá Portugal, Joana Queiroz e Chicão – o nosso terceiro disco, desta vez a partir da obra de Dorival Caymmi, com apoio da Natura Musical.

Estou em fase de pré-lançamento do álbum do “Bolerinho”, meu trio com Luísa Toller e Marina Beraldo Bastos (sim, minha irmã). O disco já está pronto.
Fora isso existe o trabalho com Arrigo Barnabé para o qual vivo na espreita e o qual muito me nutre.

E para além tenho gravado discos de amigos como Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Rômulo Fróes, Manu Maltez e tenho ido ver meus amigos tocando, o que não é um trabalho mas participa dele.

– “Cavala” fala do encontro de duas mulheres. No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Ser lésbica exige um posicionamento político. Ou você se omite ou você enfrenta a realidade e rompe muitos padrões sociais e sofre preconceitos.

Eu por muito tempo me reprimi muito, por conta de muitos fatores na minha criação, e também graças a essa mesma criação eu tive forças pra perceber e lutar contra essa repressão.

Encontrei muita força nessa luta – de enfrentar o que for preciso pra poder simplesmente ser, o que jamais poderia ser simples.

A música é um canal muito forte pra mim e encontrei na composição e nesse meu trabalho solo uma via de transformação e de libertação totalmente relacionada à minha sexualidade. Então meu trabalho solo fala disso, tem essa força política ligada ao fato de eu ser lésbica e dos sofrimentos que tive e tenho por isso.

Estão nesse trabalho também os prazeres e orgulhos que tenho e fui encontrando cada vez mais através dele.

Preciso afirmar minha sexualidade porque se eu não afirmo sou engolida pela heteronormatividade e isso me fez muito mal por muito tempo, então sai de dentro de mim em forma de grito.

Me sinto muito bem recebida desse jeito.

Sinto que ajudo muitas mulheres lésbicas com minhas músicas. As pessoas precisam de espelhos, de referências, precisamos saber que não estamos sozinhas porque somos seres de sociedade. Eu cresci sem referência de mulheres lésbicas que eu admirasse e que fossem assumidas. Cresci vendo essas mulheres – que eu admirava e que eram referência pra mim, por exemplo, professoras – omitindo o fato de serem casadas com outras mulheres, ou mesmo sua sexualidade independente de casamento. E isso pra mim sempre foi sofrido. Hoje recebo muitas mensagens nas redes sociais de pessoas que dizem que minha música as ajudou a sair do armário, pessoas totalmente identificadas com minhas músicas, acho que ela tem essa função de espelho, e dá força.

Isso consome muita energia. Para além dos haters que começam a aparecer, e dos amigos que manifestam em forma de preocupações cuidadosas visões que agridem totalmente minha natureza e o posicionamento político que preciso ter para sobreviver nessa sociedade homofóbica (sem perceberem que estão fazendo isso, é claro, mas consumindo muita da minha energia de luta), lido todos os dias com minhas dificuldades pessoais, com a minha remanescente homofobia que às vezes aparece, e me expor tem um custo muito alto, mas não tenho dúvidas de que vale muito à pena.

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– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre “Três Estrelinhas” (Anacleto de Medeiros):

To apaixonada por “Consideration” (Rihanna e SZA):

Mais entrevistas com cantoras brasileiras:

O artivismo fundamental da Aíla

O climão de Letrux no melhor disco do ano

#minasdonttouch  ·  #trilhadonttouch  ·  amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música

Projeto I’m Tired fala do impacto das microagressões cotidianas

por   /  03/04/2018  /  10:10

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O projeto I’m Tired (@theimtiredproject) “utiliza a fotografia, o corpo humano e as palavras escritas como ferramentas para falar do impacto duradouro que microagressões cotidianas, suposições e estereótipos causam em nossas vidas”. Criado por Paula Akpan e Harriet Evans, tem como objetivo tirar camadas de discriminação para relevar pensamentos e sentimentos que geralmente não são expressados, seja por medo de reação, seja por dúvida se outras pessoas também passam por isso. Forte, né?

Mais: theimtiredproject.com

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#minasdonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  ativismo  ·  fotografia

Autoamor e natureza na fotografia de Ieve Holthausen

por   /  03/04/2018  /  9:09

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Gosto de ver como trabalhos de mulheres diferentes se conectam. Conheci o da Ieve Holthausen por meio de uma indicação da Tuane Eggers, que já apareceu por aqui (A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers). Ela também falou da Chana de Moura (Fotografar foi o início de uma liberdade). As três são do Sul – e se conectam com si mesmas e com a natureza para criar imagens em que a gente quer mergulhar, fazer parte.

Conversei com a Ieve sobre seu trabalho. Espero que gostem!

Mais: @ieveholthausen + ieve.org

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Penso que é o sagrado que é o objeto da minha fotografia. Entendi que de forma mais inconsciente ou intuitiva costumo buscar em meu trabalho fotográfico fazer uma louvação à natureza (que é Deus para mim) e aos sentimentos mais elevados, como o amor. Percebo que minhas fotos falam de conexão consigo ou com a natureza, de meditação, de transcendência, da potência das viagens interiores, buscando lembrar que somos consciência. E também falam de ser mulher, de nossa força, de nossa sensibilidade, da potência da união feminina e do autoamor e da libertação dos nossos corpos de mulheres – os portais que nos trouxeram até aqui.

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Acho que não estou muito inserida no meio da fotografia, visto que não participo de editais, concursos, eventos e não tenho quase nenhum contato com outros fotógrafos (exceto duas amigas) ou qualquer coisa assim. Fico meio escondida e não percebo a muito diferença entre ser homem e ser mulher nessas circunstâncias, embora saiba que exista bastante machismo nesse meio.

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A fotografia representa a linguagem que minha alma aprendeu a usar para se expressar. Tudo aquilo que não consigo expressar por palavras, pintura, desenho ou música. É a maneira de revelar e compartilhar um pouco do meu universo interior.

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#asmúsicasdeamor: Guilherme Gatis

por   /  02/04/2018  /  14:14

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Na mesma linha da playlist #asmúsicasdeamor: Sininho, essa outra vem com a alegria de uma amizade de muitos anos. Gui e Mateus gravavam pra mim fitas K7 com músicas de bandas que eu nunca tinha ouvido: Sonic Youth, Pavement, Weezer. Meu mundo adolescente mudou tanto depois disso! A gente fazia festas pra ninguém, ia na Non Stop, falava de tudo o tempo todo, compartilhava pipoca Karintó e salgadinho Torcida no recreio, jogava RPG e fazia aula de teatro. Nos achávamos diferentes dos outros, daquele jeito meio blasé de quem ainda sabe pouco da vida mas anda cheio de si. De algum jeito a gente já comemorava o fato de ter se encontrado.

Ele explica o que o fez escolher essas músicas. “Sempre fui daqueles que tinha essa visão estreita de que só se ama de um jeito, que o ‘tempo de amor’ já tinha passado, que já tinha atingido minhas cotas e que, daqueles arrebatamentos amorosos superintensos e melodramáticos da adolescência tardia, só restavam uma vaga lembrança que eu tentava encaixar sem sucesso em novas histórias. Mas, ainda bem, quando menos esperava ela veio, abriu a janela e a cortina sem dó, inundou tudo de luz, tirou o mofo e me apresentou um amor solar, desses bem novos, que vem desconstruindo e me levando pra caminhos totalmente diferentes, uma aventura que antes sequer me permitia participar. Daí quando chegou teu convite de pensar músicas de amor tudo o que quis foi transmitir, nas escolhas, esse verão do amor com reggaes, clichês de Pepeu e Alceu, Caetano dizendo que sim, quero um baby seu, com o prato de flores da Nação Zumbi ou com as meninas do Warpaint que tão bem cantaram sobre isso de enxergar noutra pessoa essa constante empolgação de uma música massa que a gente acabou de conhecer.”

Guilherme é pai de Vicente, jornalista, DJ e dono do Músicas de Sexta, em que, toda sexta, ele cria playlists temáticas.

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais:

#asmúsicasdeamor: Ju Morganti

#asmúsicasdeamor: Juliana Alves

#asmúsicasdeamor: Sininho

#asmúsicasdeamor: Henrique Neto

#asmúsicasdeamor: Márcia Castro

#asmúsicasdeamor: Pérola Braz

#asmúsicasdeamor: Mariana Neri

#asmúsicasdeamor: Laís Sampaio

#asmúsicasdeamor: Laure Briard

#asmúsicasdeamor: Ivana Arruda Leite

#asmúsicasdeamor: Lulina

#asmúsicasdeamor: Miá Mello

#asmúsicasdeamor: Alexandre Matias

#asmúsicasdeamor: Diego de Godoy

As mulheres na ilustração de Brunna Mancuso

por   /  02/04/2018  /  9:09

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Colocando em prática a vontade de falar cada vez mais do trabalho de mulheres – e mulheres brasileiras -, converso hoje com a Brunna Mancuso, ilustradora que tem um traço daqueles que dá vontade de dar print e guardar pra mostrar pra mais gente, sabe?

Mais > @brunnamancuso

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

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Eu já trabalhava como designer há alguns anos, no meio editorial, quando entrei, em 2012, na faculdade de artes visuais. Aconteceu de eu começar a trabalhar, bem timidamente, com ilustração editorial, ao mesmo tempo que estava na faculdade. Desde o começo eu tinha uma inclinação bem forte para desenhar temas femininos, e só segui minha intuição. Até hoje sigo abordando os mesmo temas, porém com mais técnica e profundidade.

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O universo que eu vivo é bem feminino. Entre meus contatos profissionais e colegas de profissão, há muito mais mulheres do que homens. Sinto um movimento forte dentro da área, sinto mulheres sendo mais procuradas e reconhecidas. Claro, sei que vivo numa bolha e que nem tudo no mercado é assim, tem outras áreas da ilustração (como a de quadrinhos, por exemplo) em que nós mulheres ainda estamos lutando por espaço. Porém não posso reclamar.

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Vivo arte 24h por dia. Nos momentos raros que eu não estou trabalhando, estou planejando novos cursos, novas obras, buscando referências, mesmo quando estou fazendo outras coisas. O cérebro não para, literalmente. Às vezes tenho, inclusive, dificuldade me dormir. Com a maturidade, estou aprendendo a ter uma vida mais equilibrada, pois já tive muitos problemas de estafa mental e física no passado. Hoje sei valorizar os momentos de descanso e ouvir meu corpo, mas pra mim é difícil parar, já que o maior prazer da minha vida é criar.

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Mais:

Priscila Barbosa