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#bibliotecadonttouch: Gabriel Pardal

por   /  02/03/2016  /  9:09

Gabriel Pardal

O convidado da vez da #bibliotecadonttouch é Gabriel Pardal, editor da rede de autores Ornitorrinco e autor do @canibalvegetariano. Ele é artista multimídia, nasceu em 1984 e mora há 9 anos no Rio de Janeiro. Seus trabalhos costumam originar na escrita e se desenvolve, em diversas plataformas, como livros, websites, filmes, performances e vídeos. Publicou “Carnavália” (editora Oito e Meio) em 2011 e, em breve, vai lançar o livro “Tédio & Diversão”, reunindo seus textos publicados no Ornitorrinco. Atuou em uma dezenas de espetáculos teatrais e, em 2015, lançou o longa-metragem “Tropykaos”, onde é o protagonista.

“Eu poderia passar o dia inteiro te enviando meus trechos favoritos de livros. Tenho um baú – na verdade uma pasta no computador – cheio deles, que costumo alimentar cotidianamente com novas frases, parágrafos etc. Eu vivo ali, pescando pérolas para inspirar meus trabalhos. Impossível pra mim selecionar os melhores entre eles, então fui mais prático e catei os primeiros que vieram”, explica.

Rubem Braga

O melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.

“200 crônicas escolhidas”, de Rubem Braga

Karl Ove Knausgård, 1989

Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de gentlemen’s agreement que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território. Por outro lado, é um processo inexorável. Bactérias, um exército delas, começam a se alastrar pelo interior do corpo sem que nada possa detê-las. Houvessem tentado apenas algumas horas antes, e teriam enfrentado uma resistência cerrada, mas agora tudo em volta está calmo, e elas avançam pelas profundezas escuras e úmidas. Chegam aos canais de Havers, às glândulas de Lieberkühn, às ilhotas de Langerhans. Chegam à cápsula de Bowman nos rins, à coluna de Clarke na medula, à substância escura no mesencéfalo. E chegam ao coração. Ele continua intacto, mas se recusa a pulsar, atividade para a qual toda a sua estrutura foi construída. É um cenário desolador e estranho, como uma fábrica que trabalhadores tivessem sido obrigados a evacuar às pressas, os veículos parados a projetar a luz amarela dos faróis na escuridão da floresta, os galpões abandonados, os vagões carregados sobre os trilhos, um atrás do outro, estacionados na encosta da montanha. No exato instante em que a vida abandona o corpo, ele passa para os domínios da morte. As lâmpadas, as malas, os tapetes, as maçanetas, as janelas. A terra, os campos, os rios, as montanhas, as nuvens, o céu. Nada disso nos é estranho. Estamos permanentemente rodeados por objetos e fenômenos do mundo dos mortos. Ainda assim, poucas coisas nos causam mais desconforto do que ver alguém preso a essa condição, ao menos se julgarmos pelos esforços que empreendemos para manter os cadáveres longe dos nossos olhos.

“A Morte do Pai – [Minha Luta: Volume 1]”, de Karl Ove Knausgard

JC

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo de minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer e tudo recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha. Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.

“O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar

Charles Bukowski

Some lose all mind and become soul, insane.

some lose all soul and become mind, intellectual.

some lose both and become accepted.

“Poesia”, de Charles Bukowski

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You’re an interesting species. An interesting mix. You’re capable of such beautiful dreams, and such horrible nightmares. You feel so lost, so cut off, so alone, only you’re not. See, in all our searching, the only thing we’ve found that makes the emptiness bearable, is each other.

“Contact”, de Carl Sagan

Noemi Jaffe por Renato Parada

gosto do bonito, não do belo; do difícil, não do complicado; do simples, não do fácil; do verdadeiro, não do real; da mentira, não do falso; do longe, não do distante; do perto, não do próximo; da procura, não da busca; da paciência, não da espera; de estar sozinha, não da solidão; da tolice, não da burrice; da inteligência, não da esperteza. mas nada disso é tão categórico assim.

“tão”, de Noemi Jaffe

angélica freitas

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir ao lado.

“Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas

Pauline Kael

Há um diálogo crucial [em Hiroshima Mon Amour]: “Fazem filmes para vender sabão, por que não um filme para vender a paz?”. Eu não sei quantos filmes vocês viram ultimamente feitos para vender sabão, mas os filmes americanos “parecem” comerciais, e podemos sem dúvida supor que indiretamente vendem um estilo de vida que inclui sabão, além de uma infinidade de outros produtos. O que torna o diálogo crucial, porém, é que a platéia de Hiroshima Mon Amour se sente virtuosa porque quer comprar a paz. E a pergunta que eu quero fazer é: quem a está vendendo?

“Fantasias do público do cinema de arte”, de Pauline Kael

franz-kafka-en-1906

Não é necessário sair de casa. Permaneça em sua mesa e ouça. Não apenas ouça, mas espere. Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará desmascarado. Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

Franz Kafka

Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Júlia de Carvalho Hansen

Noemi Jaffe

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond

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