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#bibliotecadonttouch: Noemi Jaffe

por   /  18/02/2016  /  9:09

Noemi

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Noemi Jaffe, escritora que eu adoro! Estou lendo o livro mais recente dela, “Írisz: as orquídeas” – e nunca deixo de acompanhar seu maravilhoso blog, Quando nada está acontecendo.

Da Companhia das Letras: Noemi nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de “A verdadeira história do alfabeto”, vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e “O que os cegos estão sonhando?”, entre outros.

A foto é do Renato Parada.

Hiroshi Senju 1y

Vender sua própria alma… Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (…) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar… E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (…) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível.

“Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa [a foto é de Hiroshi Senju]

Katrien-De-Blauwer-Collage-Dress

Ela tinha conhecido a felicidade, uma felicidade rara, uma felicidade intensa, e ela prateava as ondas encrespadas com um puco mais de brilho à medida que a luz do dia se apagava e o azul fugia do mar e ela se envolvia em ondas de puro limão que se curvavam e intumesciam e morriam na praia e o êxtase explodia em seus olhos e ondas de puro prazer corriam pelo solo de sua mente e ela sentia: Basta! Basta! 

“Ao farol”, de Virginia Woolf [a colagem é de Katrien De Blauwer]

Mario Botta 2

Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que – como cabe à realidade – Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos – num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que – segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo – a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: “a assim chamada realidade”. Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia.

“Liquidação”, de Imre Kertesz [a foto é de Mario Botta]

Merit Badge

E é assim como aqueles que nos iluminam são os cegos. Assim é como alguém, sem saber, chega a mostrar-te irrefutavelmente um caminho que, por sua parte, seria incapaz de seguir. A Maga jamais saberá como o seu dedo apontava para a fina moldura que cerca o espelho, até que ponto certos silêncios, certas atenções absurdas, certas corridas de centopéia deslumbrada eram a senha para o meu sólido estar-em-mim-mesmo, que era um estar em nenhuma parte. Enfim, isso da fina moldura… Se queres ser feliz, como dizes/ Não poetiza, Horacio, não poetiza. Visto objetivamente: ela era incapaz de me mostrar qualquer coisa dentro do meu terreno, até mesmo no seu girava desconcertadamente, tateando, apalpando. Um morcego frenético, o desenho da mosca no ar do quarto. De repente, para mim, ali sentado, olhando para ela, um indício, uma suspeita. Sem que ela o soubesse, a razão das suas lágrimas ou a ordem das suas compras ou a sua maneira de fritar qualquer comida eram sinais. Morelli falava de algo assim quando escrevia: “Leitura de Heisenberg até o meio-dia, anotações, fichas. O filho da porteira me traz a correspondência e falamos de um modelo de avião que ele está montando na cozinha de sua casa. Enquanto me conta isto, dá dois saltos sobre o pé esquerdo, três sobre o direito, dois sobre o esquerdo. Pergunto-lhe por que dois e três, e não dois e dois ou três e três. Olha-me surpreendido, não compreende. Sensação de que Heisenberg e eu estamos do outro lado de um território, enquanto o garoto continua a cavalo, com um pé em cada um, sem saber, e que brevemente estará apenas do nosso lado e toda a comunicação terá sido perdida. Comunicação com quê, para quê? Enfim, continuemos a ler; talvez Heisenberg…”

“O Jogo de Amarelinha”, de Julio Cortázar [a foto é de Oli McAvoy]

Ina Jang

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector [a foto é de Ina Jang]

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Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond

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