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#bibliotecadonttouch: Sabrina Abreu

por   /  11/04/2018  /  17:17

livros dtmm

Sabrina Abreu é jornalista e escritora, uma dessas pessoas que a internet nos traz e que num dia de sol a gente encontra ao vivo e confirma como são preciosas essas conexões.

A gente se conheceu ao vivo quando ela me entrevistou pro seu podcast, o Perrengue. Foi um um papo longo e delicioso, sabe? Se animarem de ouvir basta ir aqui: https://soundcloud.com/sabrinaabreu/perrengue11-dani-arrais

Pedi pra ela contribuições para a #bibliotecadonttouch, e o resultado tá maravilhoso!

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Hemingway, em “Paris é Uma Festa”

As histórias de amor entre escritores e suas cidades-musas me interessam muito. E nenhum romance me deixa mais encantada do que o de Hemingway e a Paris de sua juventude. Peguei este trecho de Paris é uma Festa e incluí no meu primeiro romance, porque não conseguiria pensar, eu mesma, em outra descrição mais bonita para um lugar (porém, troque o nome da cidade por “kibutz”).

“Paris não tem fim e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena, e retribui tudo aquilo que você lhe dê.”

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Sêneca, em “Aprendendo a viver”

“Caro Lucílio, procura fazer o que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso.”

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Milan Kundera, “A Festa da Insignificância”

“Ele tinha uma vaga ideia de que, se tivesse nascido sessenta anos antes, teria sido um artista. Uma ideia realmente vaga, já que ele não sabia o que a palavra “artista” significaria hoje. Um pintor transformado em vitrinista? Um poeta? Ainda existem poetas?”

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mania de explicação

“Mania de Explicação”, de Adriana Falcão

“Mania de Explicação” é meu livro infantil preferido. Pena que quando foi lançado eu já era adulta. Adriana Falcão é genial em cada frase. Fica até difícil escolher a mais querida.

“Alegria é um agora que não tem pressa nenhuma.”

“Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.”

a força das coisas

Simone de Beauvoir é minha memoralista preferida e amiga imaginária. Dois dos livros em que narra sua vida são meus favoritos. A Cerimônia do Adeus, em que relembra seu relacionamento com Sartre e A Força das Coisas. Nesse último, estão as viagens e o ativismo dela, pela libertação das mulheres ou da Tunísia, mas as melhores partes são as mais íntimas, como a descrição de sua descoberta como escritora e a relação com Claude Lanzmann (ele é um dos meus eternos crushs e foi o único homem com quem Simone viveu).

“Já disse qual é, para mim, um dos papéis essenciais da literatura: manifestar verdades ambíguas, separadas, contraditórias, que nenhum momento totaliza, nem fora de mim, nem em mim, em certos casos, só se consegue reuni-los registrando-os na unidade de um objeto imaginário. Só um romance podia, no meu entender, destacar as múltiplas e volteantes significações desse mundo mudado no qual eu despertara, em agosto de 1944, um mundo cambiante e que não parara mais de mover-se.”

Por falar em Simone, enquanto eu lia O Segundo Sexo, não parava de pensar em minha mãe, minhas tias, avós, vizinhas, professoras, amigas, chefes e colegas. Nunca mais perdi a ideia de que o trabalho tem papel central em nossa emancipação. Historicamente, acho que o trabalho foi o melhor amigo da mulher (a palavra “parasita” é sempre um susto, mas, aqui, ela significa a pessoa que não trabalha e que vive da renda de terceiros – geralmente, homens).

“Só quando o poder econômico cair nas mãos do trabalhador é que se tornará possível à trabalhadora conquistar capacidades que a mulher parasita, nobre ou burguesa, nunca obteve.”

serena

Algum dia de 2013, li e reli este parágrafo de “Serena”, do Ian McEwan, umas 12 vezes seguida, porque sabia muito bem o que o personagem estava sentindo. Ou ele sabia exatamente o que eu sentia.

“Fico sem dormir por causa disso. Sempre os mesmos quatro passos. Um, eu quero escrever um romance. Dois, eu estou duro. Três, eu tenho que arrumar um emprego. Quatro, o emprego vai matar a literatura. Eu não consigo ver um jeito de evitar isso. Não existe jeito.”

 

alice

“Alice” é o livro que muda de tamanho comigo, cada vez o releio. E nunca é fácil responder aquela pergunta que a cigarra faz:

“Quem é você?”

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Polêmicas à parte, Woody Allen é o meu artista preferido no mundo dos vivos. Nada toca meu coração tanto quanto Anne Hall ou Manhattan, a vontade que ele tem de escrever, a teimosia que ele tem de viver, apesar de toda a melancolia, suas piadas depreciativas, a ida de seus personagens invariavelmente doidos a psicanalistas tão doidos quanto. No livro de entrevistas Conversas com Woody Allen, ele fala várias vezes que sua escrita é fruto do esforço, não de puro talento e iluminação – o que é sempre estimulante, quando vem do meu artista preferido no mundo dos vivos .

“Logo descobri que a escrita não vem fácil, é um trabalho que dá agonia, muito duro, e você precisa fazer um grande esforço. Muitos anos depois, li que Tolstói disse: ‘Você precisa molhar sua pena em sangue’.”

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A tetralogia napolitana escrita por Elena Ferrante era tudo aquilo que todo mundo falava. E era mais. Li em transe os detalhes da amizade entre Lenu e Lila, o contraste entre o mundo íntimo das duas, tão rico, e o bairro claustrofóbico em que cresciam. Várias frases que a autora usa para descrever Lila estão todas grifadas nos meus livros.

“Ela tem uma força interior que não consigo dobrar.”

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Amos Oz escreve tão bem que, basta abrir um livro dele em qualquer página para ler um trecho bonito. Esta citação de Judas, grifei em 2015 e ficaria feliz em reler todos os dias.

“Graças aos sonhadores, talvez nós também, os sóbrios, fiquemos um pouco menos petrificados e desesperançosos.”

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Eu ainda era criança quando li “Anne Frank: O Outro Lado do Diário”, escrito por Miep Gies, holandesa que ajudou a esconder a família Frank. Ainda não tinha o Diário de Anne Frank e nem sabia que ela morria no final. O fato de Anne e aquelas pessoas que moravam no sótão escondidas dos nazistas terem sido traídas em troca de dinheiro, imaginar foram vendidas foi uma das minhas impressões mais fortes dessa época. Passei um bom tempo obcecada pelo assunto. Recentemente, vi que o caso foi reaberto e que talvez o traidor seja descoberto. Espero que sim.

“Em 1948 a polícia holandesa fez uma investigação para saber quem teria traído nossos amigos, pois, de acordo com os registros, houve traição. Não havia nomes no relatório, apenas estava escrito que alguém recebera 7,5 florins por judeu – isso é, um total de 60 florins.”

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Foi num livro de Primo Levi que eu li pela primeira vez sobre a vergonha dos sobreviventes do Holocausto. É um sentimento muito comum entre as pessoas que passaram por guetos e campos, algumas das quais viraram minhas entrevistadas e amigas. Mas a primeira vez que eu tive contato com essa sensação incompreensível foi em Os Afogados e Os Sobreviventes.

“Você tem vergonha porque está vivo no lugar de um outro? E, particularmente, de um homem mais generoso, mais sensível, mais sábio, mais útil, mais digno de viver? É impossível evitar isso: você se examina, repassa todas as suas recordações, esperando encontrá-las todas, e que nenhuma delas se tenha mascarado ou travestido; não, você não vê transgressões evidentes, não defraudou ninguém, não espancou (mas teria força para tanto?), não aceitou encargos (mas não lhe ofereceram…), não roubou o pão de ninguém; no entanto, é impossível evitar. É só a suposição, ou, antes, a sombra de uma suspeita: a de que cada qual seja o Caim de seu irmão e cada um de nós seja (mas dessa vez digo ‘nós’ em um sentido mais amplo, ou melhor, universal) tenha defraudado seu próximo, vivendo em lugar dele. É uma suposição, mas corrói, penetrou profundamente, como um carcoma. De fora não se vêm, mas corrói e grita.”

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