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“Canibal Vegetariano”, de Gabriel Pardal

por   /  25/07/2017  /  15:15

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Toda vez que surge no feed um post do @canibal.vegetariano o Instagram fica melhor, mais inteligente, ácido, provocativo. Em meio a tanto conteúdo genérico, igual, o perfil traz humor e sagacidade. Seu autor é o Gabriel Pardal, artista visual, ator e agora também pai do Tomás Zazu.

Por ocasião do lançamento do livro “Canibal Vegetariano”, no fim do ano passado, conversamos um pouco. Só agora (desculpa, Pardal!) publico. Espero que gostem.

– Quando e de onde surgiu o Canibal Vegetariano?

Sempre gostei de quadrinhos, cartuns, mangás, e, principalmente, sempre fui fascinado por tirinhas de jornal e revista, pela característica em ser simples, rápida e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo atrás eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava, eu achava feio. Então pensei: “e se eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?”  Como eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, é isso o que me instiga, é assim que desperto a liberdade imprescindível no processo criativo, fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si só um desenho. Desenhar com palavras. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é texto ou desenho e para confundir ainda mais eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro em qualquer lugar. Eu gosto da simplicidade do processo. Desenho em cadernos, em folhas soltas, com canetas baratas, tiro uma foto e posto na internet. A literatura é a forma de expressão artística que eu mais gosto, justamente pela força da sua simplicidade, e por isso também gosto de considerar o Canibal Vegetariano literatura.
 
Por isso também que… Quando a editora Rocco me convidou para lançar um livro com alguns dos desenhos que eu já havia publicado no instagram e outros inéditos, topei na hora. Achei que ficaria bonito ver os desenhos que faço nos cadernos e publico na web voltar para o papel novamente.

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 – Adoro quando você fala de internet. A gente meio que perdeu a mão com tanta conexão?

Eu aprendi muito na internet, lendo, vendo filmes, trocando ideias nas comunidades, e também é o meio ambiente onde realizo meus trabalhos, é onde existe e funciona o Canibal Vegetariano, O Leitor, o ORNITORRINCO, etc. Considero ter uma relação saudável com o meio digital, não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens, respondo quando posso e posto quando quero. A internet é para mim fonte de conhecimento e espaço para minhas atividades, mas isso aconteceu quando aprendi a usar a ferramenta, a selecionar as fontes e montar minha rede de informações. Eu sou um viajante. Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.Considero isso importante porque estamos saturados de informação. Diariamente recebemos novidades de milhares de fontes diferentes e para não ficar perdido é preciso escolher o que merece a nossa atenção. Assim como a gente deve escolher o que quer comer, diferenciar o que é porcaria do que é saudável, a gente também deve saber como alimentar a mente. O que merece a nossa atenção e o que é descartável.

O grande lance da internet é que podemos escolher o que queremos ler, ver, assistir. Mas será que estamos mesmo sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil ou continuamos presos nas manchetes, nas grandes corporações e nas listas dos mais lidos? A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos, sendo que o Facebook é a principal fonte de informação deles. Eles acham que a internet é o Facebook. Pensar assim é o mesmo que achar que o mundo acaba no quintal de casa.

O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Eu entro pouco no Facebook e nunca leio a timeline porque não encontro nada que realmente me interesse, que me faça aprender mais. Para mim o Facebook é a nova TV, onde a maior parte do seu conteúdo é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo.

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– Você é escritor, ator, diretor. Conta um pouco como você começou, o que já fez, o que tá fazendo e o que mais planeja?

Comecei há 32 anos atrás… Aquela frase “Levei minha vida toda para pintar este quadro”, quem foi que disse? Clarice? Luis Fernando Veríssimo? Silvio Santos? Não importa, é uma frase batida mas é verdade. Porque a vida toda está incluída nos estranhos caminhos da criação. Publiquei uns livros, faço teatro e cinema, desenho, mas para mim tudo vem do mesmo lugar. O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um texto, uma peça, um desenho, uma entrevista; o que me interessa não é o formato, é a questão. Além disso, o que aprendo no processo criativo como ator coloco no processo para escrever e vice-versa. Na prática acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações.

No momento estou fazendo uma peça de teatro chamada “As Palavras e As Coisas”, com texto e direção do Pedro Brício. O filme “Tropykaos”, dirigido pelo Daniel Lisboa, vai estrear em 2017 nos cinemas. Os desenhos do Canibal Vegetariano eu continuo fazendo todos os dias e postando no Instagram e no Facebook. E estou terminando de escrever uma narrativa longa, que é provavelmente o meu projeto mais pessoal e a coisa mais importante que já fiz. Esse é o melhor exemplo para o que eu estava falando, porque estou escrevendo há dois anos mas conto sobre algo que aconteceu comigo há nove anos atrás. É daqueles trabalhos que a gente coloca tanto da gente que quando você me pergunta “o que mais planeja?” eu só penso que depois disso nunca mais vou fazer nada. Pode ser mentira, mas sentir isso é um jeito de entender que estou no caminho certo. Pelo menos pra mim.

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Canibal Vegetariano no instagram: instagram.com/canibal.vegetariano
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