Favoritos

Posts da categoria "#galeriadonttouch"

Sirlanney e seus ótimos quadrinhos feministas

por   /  06/07/2018  /  8:00

2015_10

A Sirlanney faz aquele tipo de quadrinho que você lê e se identifica na hora. Ela fala de pensar em mandar uma mensagem de amor a cada 5 minutos, de ser stalker, de trabalhar sob pressão, de destruir o patriarcado. Suas histórias são ácidas e certeiras, e é muito legal acompanhar seu perfil no Instagram. (Aliás, obrigada, @instadage, pela indicação!)

Na entrevista abaixo vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que nasceu no interior do Ceará em 1984 e publica seus textos e desenhos na internet, em zines e revistas há 15 anos.

Mais > @sirlanney + www.sirlanney.com

2016_58

– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu adorava desenhar quando era criança, como todo mundo, mas não parei de deseenhar quando cresci. Era algo que sempre me deixava satisfeita… Ver que eu podia fazer minha própria interpretação do mundo no papel. Mas o que eu amo fazer é contar histórias, escrever mesmo. Ilustração é só uma parte do que eu faço, porque o que eu acho que faço mais é contar histórias através dos desenhos. Então eu estudei artes plásticas, aprendi diferentes técnicas, li os grandes mestres e os nem tão grandes assim… E continuo estudando todos os dias, é um trabalho sem fim.

2015_21
– O que a arte representa na sua vida?

A arte é o ponto central da minha vida, é o que eu escolhi fazer agora e no futuro. Mas antes já era o que embalava meu coração frágil, desde que eu posso lembrar. A arte sempre foi o que eu podia me agarrar enquanto buscava o sentido da vida.

2016_24
– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Geralmente é o que mais me incomoda. Aquele assunto que tá mal resolvido para mim ou para o mundo. Patriarcado, política, direita, esquerda, capitalismo, ego, altruismo, nova era, minha falta de habilidade com o Excel… Qualquer coisa que fique martelando na minha cabeça! Aí eu preciso parir um quadrinho para arrancar isso de mim.

2016_35
– Como é ser mulher no seu meio?

Já foi pior, mas ainda é chato. Não posso negar o salto que demos nos últimos anos no sentido de sermos consideradas, sermos lidas e termos obrigado a sociedade enxergar que somos top. Mas sempre que pego uma revista ou qualquer publicação sobre quadrinhos ou ilustração e vejo lá o clube do bolinha, ainda firme e forte, reviro os olhos.

Sy

2016_59 2017_36

2017_60

2017_61

2017_65

#galeriadonttouch  ·  #minasdonttouch  ·  amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  feminismo

Playlist: Mulherão da porra

por   /  17/06/2018  /  12:12

pa

Viciada na música nova da @avarocha, aproveitei e fiz uma playlist chamada Mulherão da porra!⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Olha só o time: com @luedjiluna, essa maravilhosa da foto feita pelo @coletivoiam@elzasoaresoficial@marciacastroart@marinalimax1@mariaberaldo_@leticialetrux@ailamusic, Karina Buhr, Josyara, Larissa Luz, Duda Beat, Luiza Lian, Teto Preto, Alice Caymmi, Illy e Anelis Assumpção.⠀

#minasdonttouch  ·  #trilhadonttouch  ·  amor  ·  especial don't touch  ·  música

“Um coração sem fechadura”, de Silvia Guimarães

por   /  24/05/2018  /  18:00

sil

“As coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sil (@designdebaunilha) é uma dessas amigas que eu mais marco de ver do que encontro de verdade. Ainda assim, estamos há anos nos acompanhando, frequentando uma festinha de aniversário aqui, um show ali, falando nas DMs. A cada ano que passa eu vejo essa amiga desabrochar, se abrir pro mundo, se entender, colocar na vida e no trabalho o tanto que aprende. É tão bonito!

Um dos episódios que marcaram a vida dela é o assunto desse post aqui. Há 8 anos, Sil deu à luz Matias, seu filho caçula. Matias nasceu com uma cardiopatia congênita. E mudou tudo na vida de sua mãe – e de todos ao seu redor.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A história dele é contada no livro “Um coração sem fechadura”, que está em processo de financiamento coletivo. A primeira meta já foi atingida, e a ideia agora é dobrar a meta. Vamos ajudar a espalhar essa história preciosa?

www.catarse.me/umcoracaosemfechadura

sil2

Sil, que também faz o Design de Baunilha, conta sobre o livro:

“Passei a vida ouvindo as pessoas dizendo pras mulheres grávidas “não importa se é menina ou menino, o que importa é que tenha saúde”. Em 2010 eu tive um filho que tinha um problema no coração e pensava nessa frase todo dia, perdida, martelando ‘E agora? O que é que importa?’.

Meu primeiro passo foi me vitimizar. Passei por esse passo com força e com vontade. Minha segunda frase favorita nessa época era ‘o que é que eu fiz pra merecer isso?’, e tudo o que eu consegui com ela foi passar um ano sem dormir. E o menino lá, se recuperando, sendo feliz, vivendo, e eu sofrendo porque nada daquilo estava sendo como eu tinha imaginado.

E então eu escrevi um livro. Que é um livro pra criança, mas é um livro pra adulto também. Ele fala sobre medo, fala sobre como a gente quer controlar o incontrolável. Fala sobre encontrar dentro da gente a sabedoria de quem já veio pra esse mundo com um passinho na frente, entendendo que fechando o coração pra vida a gente não vai muito longe não.

E o que eu mais quero agora é que esse livro exista, é que essa história chegue nas pessoas. É mostrar que tudo bem ser diferente. Que as coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”

sil3

Mulheres, seres do mar e sentimentos na profundidade dos desenhos de Eva Uviedo

por   /  22/05/2018  /  12:12

846a4058803929.5abdc01eb9865

Conheço a Eva Uviedo de quando a internet ainda era pouco povoada. E ali ela já se destacava com seus desenhos e ilustrações tão característicos, que foram ganhando ainda mais força ao longo dos anos. O talento dela sempre me encantou, e acho demais vê-lo materializado em quadros, livros, roupas. Descobrir mais da trajetória dela foi uma dessas alegrias que o Don’t Touch me dá. Espero que gostem do bate papo!

Mais Eva: @evauviedo e www.evauviedo.com.br

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

3

Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Nasci na Argentina, em família de artistas (pai diretor de teatro, mãe cantora) que precisaram fugir da ditadura, e moro em São Paulo desde a adolescência. Nessa época comecei a ver que tinha jeito pra desenhar, mas era o início da MTV e o grande barato era videoclipes, vídeoarte. Por conta disso entrei para o meio do audiovisual, e acabei indo pra área de documentários, especialmente os ligados a direitos humanos, LGBT e feminismo, o que foi uma experiência muito enriquecedora. Alternava o curso de comunicação com aulas de desenho e pintura, e também direção de arte e design, que me levou para a internet. Aí passei 15 anos como responsável pela área na Trip Editora – o que foi sensacional porque juntava tudo, arte visual, vídeo e jornalismo – e ia desenhando como hobby e postando no Flickr, até que comecei a receber convites para ilustrar profissionalmente. Em 2008 fiz um curso com os ilustradores Fernando Vilela e Odilon Moraes, que tem uma abordagem incrível dessa arte, e passei a ver isso como uma profissão real oficial, com todas suas características e desafios próprios. Em 2014 saí da Trip e desde então me dedico integralmente à ilustração, seja para o mercado editorial, publicidade ou em projetos autorais.

peixe-beta_v2_eva_uviedo

Gosto muito de desenhar mulheres, e desde 2007 venho desenvolvendo uma série chamada “Sobre Amor & Outros Peixes”, onde relaciono seres do mar com sentimentos e tipos de relacionamentos. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a dinâmicas das relações humanas, e por aí foi se desenvolvendo um universo pictórico de simbolismo próprio. O tubarão, ao mesmo tempo suave e feroz. A arraia, um animal manso que pode ser letal. Os peixes Beta, de briga; o baiacu, que infla pra se defender. O polvo, com seus tentáculos envolventes, que aparece em diversas representações com características sensuais. E a água, que envolve tudo em um estado alterado como quando a gente está apaixonado. E por aí vai, a lista é enorme e é aberta para interpretações de cada um.

Essa série já se desdobrou em diversos trabalhos e parcerias, como os livros “Nossa Senhora da Pequena Morte” [Ed. do Bispo, 2008] e T”oureando o Diabo” [Independente, 2016], em parceria com a escritora Clara Averbuck; apareceram em “Mnemomáquina”, de Ronaldo Bressane [Demônio Negro, 2014], capas de discos, como o das cantoras Pitty e Elza Soares, e outros trabalhos.

Também gosto muito de desenhar sobre viagens, em forma de mapas, travelbooks, guidebooks e afins, tenho vários trabalhos nessa área. E toda viagem que faço rende um caderninho com as impressões da viagem e desenhos.

220fb458803929.5abdc01ec2e76

– O que a arte representa na sua vida?

Vejo a arte como uma frequência diferente de comunicação entre as pessoas. É como se houvessem coisas das quais só dá pra falar, e entender, através da arte. Muitas vezes faço um desenho que eu mesma não sei exatamente o que ele significa, mas veio de um sentimento que não consegui colocar em palavras. Aí muitas pessoas vêm e falam: “esse desenho me tocou, me fez chorar, mexeu comigo de um jeito que não sei explicar”. É porque a gente compartilhou algo, só que em outra sintonia. Às vezes tenho vontade de perguntar: “mas o que foi que você entendeu?”. Mas acho que isso quebraria essa magia. E a mesma coisa acontece de volta com as artes que eu gosto.

16ec2758803929.5abdc01dd04e9

– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que o que faz o trabalho reverberar é que ele fala de sentimentos de um jeito aberto para que as pessoas ponham nele suas próprias vivências e interpretações. Os temas que gosto de abordar são as relações entre as pessoas, sendo o personagem principal uma mulher (que pode ser representada de várias maneiras, épocas, e com várias idades), pois o desenho é autobiográfico, e o sentimento, o ser do mar.

6d137b58803929.5abdc017c9966

– Como é ser mulher no seu meio?

Por um lado é muito bacana, porque está se formando um sentimento de comunidade real, muito sincera e naturalmente, coisa que não existia anos atrás. O fato das mulheres se juntarem para montar exposições e coletivos femininos é necessário para ganhar força e visibilidade neste momento; então é ótimo que isso esteja acontecendo. Mas penso que o ideal seria uma equiparação real de gênero em todas as oportunidades e projetos.

Já como artista, me incomoda quando dizem que tenho um estilo “delicado / feminino”, como se fossem coisas naturalmente associadas. Existem trabalhos feitos por mulheres que são super agressivos, transgressores, e tem artistas como o espanhol Conrad Roset, que retrata mulheres com um trabalho super delicado (e não trabalha só para marcas femininas).

Essa associação dá a impressão de que faço um tipo de arte que SÓ pode ser apreciado por mulheres, o que não é real: muitos dos que compram meu trabalho são homens. Mas na última feira que participei teve um cara que se recusou a ficar PERTO dos meus desenhos enquanto a mulher dele escolhia, fez questão de falar e mostrar que ele não queria opinar sobre aquilo, que era “coisa de mulher”. Tipo depreciando mesmo. Por que eu preciso passar por esse tipo de coisa?

livro Como viver em SP sem carro

livro 50 Brasileiras Incríveis para conhecer antes de crescer

Mais:

Priscila Barbosa

Brunna Mancuso

#galeriadonttouch  ·  #minasdonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  especial don't touch

“Amora”, de Natalia Borges Polesso

por   /  17/05/2018  /  20:20

amora

Nunca tinha lido um livro 100% lésbico, até passar o domingo na companhia de “Amora”, de Natalia Borges Polesso (@tia_brigida). Mais uma vez me vem à cabeça aquela palavra tão importante e que já é quase lugar comum (tomara mesmo que se torne): representatividade. Das inúmeras histórias de amor que você passou a vida vendo, lendo, ouvindo, quantas são protagonizadas por duas mulheres?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A literatura nos expande. E, tantas vezes, nos mostra que somos mais parecidos do que antagônicos. Afinal, nos apaixonamos, levamos pé na bunda, nos metemos em confusão, celebramos acordar todo dia ao lado da mesma pessoa, casamos, travamos DRs, às vezes separamos e começamos tudo outra vez. Tem tudo isso no livro, que é sobre amor e descoberta e, por isso, interessa a qualquer um que goste dos temas. De diferente ele tem camadas de silenciamento e preconceito. Duras e doloridas, sempre, mas que bom vê-las visíveis na literatura, né?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
#bibliotecadonttouch
#minasdonttouch

#asmúsicasdeamor: Kika Novaes

por   /  14/05/2018  /  15:15

kika

A Kika viu a playlist da Aurea e perguntou qual era o critério para fazer uma também. E logo a convidei para fazer esse passeio pelo seu repertório de amor. A surpresa é que ela fez uma playlist com 100 músicas! Daquelas pra acompanhar a gente em diversos momentos da vida.

Kika é mãe solo de um menino de 14 anos, designer de moda, figurinista e há um ano trabalha com pintura em porcelana. “Faço ilustrações com cunho meio feminista/erótico e estou sempre ouvindo música enquanto pinto, o que me inspira bastante e muitas vezes frases das musicas que ouço vão parar nas minhas peças.” Sobre a seleção, ela diz: “Obviamente cortei várias da lista e obviamente não consegui fazer uma coisa resumida mesmo assim (prazer, meu sobrenome é complexidade). Misturei nesse repertório todo tipo de amor que existe dentro do meu pequeno ser (o universal, o próprio, o romântico, o platônico, o carnal e o mais amor dos amores que sinto que é o incondicional e que todos sabem porque e por quem). Coloquei pra fora da boca, através das palavras de outros, o meu coração que pulsa terra, ar, fogo, água, suor e muito sangue.”

A foto é daqui.

Vamos ouvir?

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

#asmúsicasdeamor: Aurea Vieira

por   /  25/04/2018  /  17:17

aurea4

Tem amiga que amplia sua visão de mundo. A Aurea Vieira tem esse papel na minha vida. Me mostra coisas que não conheço e que me emocionam ao primeiro contato. Me conta das músicas, da arte, do teatro, me mostra uma maternidade admirável – e ainda compartilha uns drinks de vez em quando.

Ela fez uma seleção impecável, dessas que misturam Frank Sinatra com Beatles, Ravel com Amy Winehouse.

Vamos ouvir?

A foto é de Eliott Erwitt.

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais:

#asmúsicasdeamor: Ju Morganti

#asmúsicasdeamor: Guilherme Gatis

#asmúsicasdeamor: Juliana Alves

#asmúsicasdeamor: Sininho

#asmúsicasdeamor: Henrique Neto

#asmúsicasdeamor: Márcia Castro

#asmúsicasdeamor: Pérola Braz

#asmúsicasdeamor: Mariana Neri

#asmúsicasdeamor: Laís Sampaio

#asmúsicasdeamor: Laure Briard

#asmúsicasdeamor: Ivana Arruda Leite

#asmúsicasdeamor: Lulina

#asmúsicasdeamor: Miá Mello

#asmúsicasdeamor: Alexandre Matias

#asmúsicasdeamor: Diego de Godoy

#bibliotecadonttouch: Sabrina Abreu

por   /  11/04/2018  /  17:17

livros dtmm

Sabrina Abreu é jornalista e escritora, uma dessas pessoas que a internet nos traz e que num dia de sol a gente encontra ao vivo e confirma como são preciosas essas conexões.

A gente se conheceu ao vivo quando ela me entrevistou pro seu podcast, o Perrengue. Foi um um papo longo e delicioso, sabe? Se animarem de ouvir basta ir aqui: https://soundcloud.com/sabrinaabreu/perrengue11-dani-arrais

Pedi pra ela contribuições para a #bibliotecadonttouch, e o resultado tá maravilhoso!

IMG_1577_Facetune_28-03-2018-09-26-12

Hemingway, em “Paris é Uma Festa”

As histórias de amor entre escritores e suas cidades-musas me interessam muito. E nenhum romance me deixa mais encantada do que o de Hemingway e a Paris de sua juventude. Peguei este trecho de Paris é uma Festa e incluí no meu primeiro romance, porque não conseguiria pensar, eu mesma, em outra descrição mais bonita para um lugar (porém, troque o nome da cidade por “kibutz”).

“Paris não tem fim e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena, e retribui tudo aquilo que você lhe dê.”

IMG_1780

Sêneca, em “Aprendendo a viver”

“Caro Lucílio, procura fazer o que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso.”

IMG_1781

Milan Kundera, “A Festa da Insignificância”

“Ele tinha uma vaga ideia de que, se tivesse nascido sessenta anos antes, teria sido um artista. Uma ideia realmente vaga, já que ele não sabia o que a palavra “artista” significaria hoje. Um pintor transformado em vitrinista? Um poeta? Ainda existem poetas?”

IMG_1782

mania de explicação

“Mania de Explicação”, de Adriana Falcão

“Mania de Explicação” é meu livro infantil preferido. Pena que quando foi lançado eu já era adulta. Adriana Falcão é genial em cada frase. Fica até difícil escolher a mais querida.

“Alegria é um agora que não tem pressa nenhuma.”

“Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.”

a força das coisas

Simone de Beauvoir é minha memoralista preferida e amiga imaginária. Dois dos livros em que narra sua vida são meus favoritos. A Cerimônia do Adeus, em que relembra seu relacionamento com Sartre e A Força das Coisas. Nesse último, estão as viagens e o ativismo dela, pela libertação das mulheres ou da Tunísia, mas as melhores partes são as mais íntimas, como a descrição de sua descoberta como escritora e a relação com Claude Lanzmann (ele é um dos meus eternos crushs e foi o único homem com quem Simone viveu).

“Já disse qual é, para mim, um dos papéis essenciais da literatura: manifestar verdades ambíguas, separadas, contraditórias, que nenhum momento totaliza, nem fora de mim, nem em mim, em certos casos, só se consegue reuni-los registrando-os na unidade de um objeto imaginário. Só um romance podia, no meu entender, destacar as múltiplas e volteantes significações desse mundo mudado no qual eu despertara, em agosto de 1944, um mundo cambiante e que não parara mais de mover-se.”

Por falar em Simone, enquanto eu lia O Segundo Sexo, não parava de pensar em minha mãe, minhas tias, avós, vizinhas, professoras, amigas, chefes e colegas. Nunca mais perdi a ideia de que o trabalho tem papel central em nossa emancipação. Historicamente, acho que o trabalho foi o melhor amigo da mulher (a palavra “parasita” é sempre um susto, mas, aqui, ela significa a pessoa que não trabalha e que vive da renda de terceiros – geralmente, homens).

“Só quando o poder econômico cair nas mãos do trabalhador é que se tornará possível à trabalhadora conquistar capacidades que a mulher parasita, nobre ou burguesa, nunca obteve.”

serena

Algum dia de 2013, li e reli este parágrafo de “Serena”, do Ian McEwan, umas 12 vezes seguida, porque sabia muito bem o que o personagem estava sentindo. Ou ele sabia exatamente o que eu sentia.

“Fico sem dormir por causa disso. Sempre os mesmos quatro passos. Um, eu quero escrever um romance. Dois, eu estou duro. Três, eu tenho que arrumar um emprego. Quatro, o emprego vai matar a literatura. Eu não consigo ver um jeito de evitar isso. Não existe jeito.”

 

alice

“Alice” é o livro que muda de tamanho comigo, cada vez o releio. E nunca é fácil responder aquela pergunta que a cigarra faz:

“Quem é você?”

****

Polêmicas à parte, Woody Allen é o meu artista preferido no mundo dos vivos. Nada toca meu coração tanto quanto Anne Hall ou Manhattan, a vontade que ele tem de escrever, a teimosia que ele tem de viver, apesar de toda a melancolia, suas piadas depreciativas, a ida de seus personagens invariavelmente doidos a psicanalistas tão doidos quanto. No livro de entrevistas Conversas com Woody Allen, ele fala várias vezes que sua escrita é fruto do esforço, não de puro talento e iluminação – o que é sempre estimulante, quando vem do meu artista preferido no mundo dos vivos .

“Logo descobri que a escrita não vem fácil, é um trabalho que dá agonia, muito duro, e você precisa fazer um grande esforço. Muitos anos depois, li que Tolstói disse: ‘Você precisa molhar sua pena em sangue’.”

****

A tetralogia napolitana escrita por Elena Ferrante era tudo aquilo que todo mundo falava. E era mais. Li em transe os detalhes da amizade entre Lenu e Lila, o contraste entre o mundo íntimo das duas, tão rico, e o bairro claustrofóbico em que cresciam. Várias frases que a autora usa para descrever Lila estão todas grifadas nos meus livros.

“Ela tem uma força interior que não consigo dobrar.”

****

Amos Oz escreve tão bem que, basta abrir um livro dele em qualquer página para ler um trecho bonito. Esta citação de Judas, grifei em 2015 e ficaria feliz em reler todos os dias.

“Graças aos sonhadores, talvez nós também, os sóbrios, fiquemos um pouco menos petrificados e desesperançosos.”

****

Eu ainda era criança quando li “Anne Frank: O Outro Lado do Diário”, escrito por Miep Gies, holandesa que ajudou a esconder a família Frank. Ainda não tinha o Diário de Anne Frank e nem sabia que ela morria no final. O fato de Anne e aquelas pessoas que moravam no sótão escondidas dos nazistas terem sido traídas em troca de dinheiro, imaginar foram vendidas foi uma das minhas impressões mais fortes dessa época. Passei um bom tempo obcecada pelo assunto. Recentemente, vi que o caso foi reaberto e que talvez o traidor seja descoberto. Espero que sim.

“Em 1948 a polícia holandesa fez uma investigação para saber quem teria traído nossos amigos, pois, de acordo com os registros, houve traição. Não havia nomes no relatório, apenas estava escrito que alguém recebera 7,5 florins por judeu – isso é, um total de 60 florins.”

****

Foi num livro de Primo Levi que eu li pela primeira vez sobre a vergonha dos sobreviventes do Holocausto. É um sentimento muito comum entre as pessoas que passaram por guetos e campos, algumas das quais viraram minhas entrevistadas e amigas. Mas a primeira vez que eu tive contato com essa sensação incompreensível foi em Os Afogados e Os Sobreviventes.

“Você tem vergonha porque está vivo no lugar de um outro? E, particularmente, de um homem mais generoso, mais sensível, mais sábio, mais útil, mais digno de viver? É impossível evitar isso: você se examina, repassa todas as suas recordações, esperando encontrá-las todas, e que nenhuma delas se tenha mascarado ou travestido; não, você não vê transgressões evidentes, não defraudou ninguém, não espancou (mas teria força para tanto?), não aceitou encargos (mas não lhe ofereceram…), não roubou o pão de ninguém; no entanto, é impossível evitar. É só a suposição, ou, antes, a sombra de uma suspeita: a de que cada qual seja o Caim de seu irmão e cada um de nós seja (mas dessa vez digo ‘nós’ em um sentido mais amplo, ou melhor, universal) tenha defraudado seu próximo, vivendo em lugar dele. É uma suposição, mas corrói, penetrou profundamente, como um carcoma. De fora não se vêm, mas corrói e grita.”

A força das mulheres de verdade ilustradas por Priscila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

pri000

Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

pri00

A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

pri2

A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

pri3

Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

pri10

Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

pri4

Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

pri12

pri5

pri6

pri8

pri14

Mais:

Brunna Mancuso