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Eu queria que o tempo não fosse uma contagem passando

por   /  27/11/2014  /  9:09

Luiza Potiens

Eu queria que o tempo não fosse uma contagem passando, eu queria que fosse todas as pessoas que amo, juntas, plenamente conscientes da maravilha de nos amarmos uns aos outros. Pelo meio das pessoas que amo, eu queria que o tempo fosse também algumas paisagens, água limpa, o sol, muitos livros, muitos quadros, muitos discos. Mangas, morangos, bananas, chocolates. Pássaros e cachorros pequenos do tamanho de bonecos que podemos embalar no colo.

Notas incompletas sobre assuntos do tempo, por Valter Hugo de Mãe.

A foto é da Luiza Potiens.

[Obrigada, Alessandra Leão, por compartilhar!]

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Para ouvir quando for a San Francisco (ou ao karaokê)

por   /  24/11/2014  /  12:12

Luiza Voll

Fiz uma viagem maravilhosa por San Francisco. Trabalho o dia todo, mil coisas pra aprender, karaokê cinco vezes em dez noites – um recorde até pra mim que sou apaixonada pelo assunto!

Fiz uma mixtape pra lembrar sempre dessa jornada. Começa com “Dancing in the moonlight” termina com “California dreamin’”. No meio do caminho tem um monte de música com a temática Califórnia, outras que têm a vibe do lugar (que vibe, aliás!) e mais várias maravilhosas para cantar no karaokê.

Pra ilustrar, uma foto linda da Luiza Voll.

Ouçam!

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Pedra de sal, de Alessandra Leão

por   /  11/11/2014  /  14:14

Alessandra Leão

Alessandra Leão é uma das minhas cantoras e compositoras preferidas. Ela acaba de lançar seu novo EP, “Pedra de sal”. “Tatuzinho” não sai do repeat desde que a vi cantar com Kiko Dinucci na Casa de Francisca.

Ouçam e tenham um dia cheio de poesia!

Que vontade de pegar nessa mão
Mas será que eu não paro de olhar tua boca a falar
E eu vou te beijar pra ver como é que fica
Não vou desgrudar pra ver no que é que dá

Que vontade de pegar nessa mão
Mas será que eu não paro de olhar tua boca a falar
E eu vou te beijar pra ver como é que fica
Não vou desgrudar pra ver no que é que dá

Que vontade de pegar
Eu não paro de olhar
Eu vou te beijar pra ver como é que fica
Não vou desgrudar pra ver

Ouçam > http://www.alessandraleao.com.br/novo/

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Precisamos falar sobre o feminismo

por   /  31/10/2014  /  15:15

chimamanda

Não tinha me dado conta de como o feminismo deve ser uma questão cotidiana*, até o dia em que fazia uma aula de alongamento na academia e três caras entraram para fazer um serviço no ar-condicionado e ficaram secando as mulheres da turma. Foi uma situação desconfortável, pra não dizer nojenta, e eu me senti invadida. Uma parte ficou no deixa disso, eu resolvi reclamar com a coordenação, que prontamente falou que aquilo não ia mais acontecer. Passei o resto do dia pensando nesse tipo de armadilha que tantas vezes cruza o nosso caminho, em como a gente pode cair facilmente (do tipo se achar gostosa porque o cara tá olhando) e, principalmente, no quanto a gente precisa entender melhor várias questões e aprender a se afirmar cada vez mais.

Faz pouco mais de seis meses que voltei para o Facebook, depois de ficar um ano longe. Para não ficar saturada, decidi por menos ruído, mais informação. Entrei em alguns poucos grupos, número suficiente para que eu acompanhe as discussões que acontecem neles. Vi minha relação com a rede mudar. Feminismo era um assunto que me interessava pelas bordas, eventualmente. Depois que entrei no grupo Talk Olga, isso mudou. Comecei a acompanhar as histórias que as garotas postam, a ler um monte. Passei a usar com frequência a palavra empoderamento – e a vibrar cada vez em que ouço uma história desse tipo.

Jamais achei que um grupo no Facebook fosse capaz desse tipo de transformação. Por isso, decidi entrevistar a Juliana de Faria, jornalista, criadora da Olga, um dos melhores sites feministas que você vai encontrar na internet, e moderadora desse grupo no Facebook que é capaz de fazer mudanças na vida de várias mulheres. A entrevista é longa, do jeito que eu gosto. Espero que vocês gostem também! E, desde já, sugiro que acompanhem os canais: www.thinkolga.com e www.facebook.com/groups/talkolga

* Isso soa bobo, eu sei, me deixou com receio de postar, mas foi essa situação que aconteceu recentemente que me despertou com mais intensidade pro movimento. Já tinha passado por outras situações opressoras, tinha me incomodado e sentido nojo, claro, mas foi nesse dia que a questão deixou de ser uma coisa que vem e vai e se firmou mesmo. Pra não ficar com uma abertura rasa, deixo vocês com outra pessoa que entende muito do assunto, a Aline Valek, que fez um compilado sobre o que as feministas defendem e um FAQ feminista.

ju faria

Qual é a primeira lembrança que você tem em relação ao feminismo?

Sempre compartilhei da luta do feminismo se partimos do significado básico do termo (do Aurélio, movimento com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos). Lembro até de defender o direito ao aborto em discussões com colegas de escola, quando ainda era pré-adolescente. Mas por muito tempo reneguei a credencial de feminista por acreditar que o feminismo me renegava. Na minha ignorância, acreditava que algumas das minhas ações, como me interessar por moda e beleza e ter me casado no papel, já me excluíam do movimento. Foi graças a debates na internet que me aprofundei no assunto, entendendo então que feminismo também significa liberdade e empoderamento. Criei uma definição do meu feminismo: lutar para ampliar o leque de opções das mulheres. E que elas possam tomar suas próprias decisões, livres de pressões externas, sem ter que pedir desculpas pelos caminhos que escolherem.

E como e quando o feminismo virou uma causa para você?

Eu estudei jornalismo e, depois de cansar de fazer matérias sobre qualquer assunto que caía no meu colo, decidi me especializar em uma área. Estudei moda, em Londres. Fiz dois cursos na Central Saint Martin’s, de marketing de moda e styling. Este último me fez perceber que eu não tinha o menor jeito com roupas (haha). Lembro de uma aula em que tínhamos que reconhecer os tecidos pelo toque e, nossa, eu tinha uma dificuldade para distinguir o que era seda e do que era sintético (haha). Claro que me perguntava se eu estava fazendo a escolha certa. Mas tão logo entendi que moda é uma coisa ampla, e a parte social e antropológica dela era o que me interessava. Por isso que digo que sempre gostei mais de mais falar sobre as mulheres que vestem as roupas do que as roupas que vestem as mulheres. A partir daí, comecei a trabalhar em redações de revistas femininas. Conheci mulheres inspiradoras, apaixonadas pelo que faziam e aprendi muito. Mas também senti que meu interesse pelo feminino ultrapassava a barreira dessas publicações. Notei que minhas sugestões de pautas já não faziam mais sentido para aquele espaço. Muitas delas eram rejeitadas por não conversar com a linha editorial das revistas. Um exemplo era a minha vontade de falar sobre assédio sexual. Decidi criar meu próprio projeto. Se não poderia escrever sobre o que me interessava nessas revistas, criaria um blog próprio, onde teria mais liberdade. E poderia também ser uma opção de leitura para outras pessoas, caso houvesse esse interesse. E o feminismo pautou muito a criação desse espaço, que é a OLGA, e a escolha dos assuntos que eu trataria. Ali, fui desconstruindo um monte de conceitos que oprimem as mulheres, pressões sociais que deixam nossa vida mais difícil. Assim como criando campanhas e projetos cujo objetivo é empoderar mulheres em diversos áreas — de violência de gênero à liderança no trabalho. Não foi um projeto que nasceu com um conceito totalmente pronto. Aprendi e ainda aprendo muito sobre feminismo conforme vou caminhando. Mas a essência dele, de querer criar conexões mais verdadeiras com as mulheres, será sempre a mesma.

olga-frase

Você trabalhou em revistas femininas, espaços que não costumam oferecer uma visão mais completa e complexa da mulher. O que mais te incomodava nessa época?

A limitação de assuntos. As revistas femininas não deveriam ser chamadas assim porque suas páginas trazem matérias sobre moda, beleza e sexo. Isso é dizer que mulher só se interessa por esses assuntos. Na minha visão, essas publicações deveriam tratar de todos os assuntos — política, economia, cinema, música, arquitetura, carros, futebol — mas com um viés feminino e feminista. Já temos exemplo de publicações que fazem isso muito bem. Lá fora, Rookie Mag, Libertine, Frankie Mag, The Gentlewomen. Aqui, gosto de citar a revista digital Capitolina, que é voltada para adolescentes e não restringe seu conteúdo a boyband e virgindade. Elas falam sobre crise de ansiedade, ciência, homossexualidade, roubos em museus (!), medo da morte, violência doméstica, fantasias sexuais, racismo, quadrinhos, ditadura. Eu acho que as femininas estão no caminho da mudança. Muito vem sendo feito, de verdade, como a capa da Nova com a Preta Gil. De novo, a Nova apoiou a campanha Não Mereço Ser Estuprada, o que foi muito legal também. Mas elas ainda pagam um preço pelo seu histórico — e também pelas chamadas de capa, que insistem na fórmula antiga da “barriga chapada” e “as formas como enlouquecer seu homem”.

Você conseguia de alguma forma driblar as limitações e falar de temas que te interessavam, que mostravam um pouco daquilo em que você acredita?

Eu trabalhei no Modaspot, o extinto portal de moda da Editora Abril, e a diretora de redação era a Eliana Sanches, uma chefe muito incrível que me dava carta branca para pirar. Por ser um site, havia mais espaço (literalmente) para escrevermos sobre o que quiséssemos. Fazia sim o feijão com arroz (tendências, passarelas, o look do dia da celebridade), mas tive também a oportunidade de escrever matérias que debatiam o transgênero, por exemplo. Também criticamos a exposição das crianças no mundo da moda. Mas faço a mea culpa: já escrevi sim coisas das quais me envergonho por pura automatização da reprodução de discursos machistas. Por isso brigo muito para que nós, jornalistas, paremos para refletir sobre a mensagem que colocamos para o mundo. As palavras têm força e temos que tomar cuidado com a escolha de cada uma delas. Quando dizemos que uma atriz foi FLAGRADA sem maquiagem, o termo traz um peso de que ela estava cometendo um crime, sabe? Outra coisa: temos que escutar as leitoras, mas escutar para valer e não atrás de uma janela de vidro, durante uma pesquisa de mercado feita pelo marketing. A conversa entre criador de conteúdo e consumidor de conteúdo precisa ser horizontal e não vertical.

Foi quando suas pautas começaram a ser rejeitadas que você decidiu criar um blog, né? Conta como surgiu o Think Olga?

Sim, exato. A OLGA nasceu dessa vontade de poder criar um conteúdo sobre mulheres, para mulheres, que não fosse condescendente, baseado em clichês. Além disso, queria que fosse um espaço para evidenciar as desigualdades de gêneros — do gap salarial à baixa participação das mulheres como fontes em matérias — e criar soluções para elas. É um sonho e uma responsabilidade imensa, que não vem acompanhada de apoio financeiro.

Falar com a mulher de uma maneira livre de estereótipos é uma das premissas do projeto. Quais são as outras?

Gosto da frase da jornalista e ícone feminista Gloria Steinem: “A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar”. E o feminismo é a conquista de poder pela informação. Uma mulher bem informada – dos seus direitos, das suas possibilidades e principalmente de realidades tristes e injustas – é uma mulher com mais força para lutar e para buscar alternativas e mudanças. E a OLGA nasceu a partir desse desejo de criar uma conversa mais honesta, mais acessível com as mulheres. De criar conteúdo livre de estereótipo, de linguagem paternalista e pressões sociais. O projeto acabou indo além e se desdobrando em diversos outros braços: workshops, encontros, palestras, exposições, projetos colaborativos, um grupo de debate com mais de dois mil membros e até um ebook. Trabalho em diversas plataformas, mas sempre com o mesmo objetivo: empoderar mulheres pela informação.

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Como você articula a rede de mulheres que fazem pesquisas, escrevem textos e ilustram os posts?

Temos algumas colaboradoras voluntárias fixas, como a advogada Gisele Truzzi, que responde dúvidas judiciais das leitoras e até fez um FAQ sobre violência e assédio online (www.thinkolga.com/2014/04/01/f-a-q-juridico-violencia-virtual/).

A Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais, é conselheira do projeto e traz a visão acadêmica para dentro do projeto [ela já foi entrevistada para o blog da Contente; A armadilha do faça o que você ama]. A Luíse Bello, também diretora de comunicação da Olga, e a Gabriela Loureiro têm uma presença se alternam na criação de conteúdo. Esse é o núcleo duro. Mas como a maioria dos nossos projetos, a Olga também funciona de forma colaborativa. Publicamos quadrinhos, ilustrações e textos de quem quiser colaborar. As portas estão abertas!

A internet é recheada de textos que dizem como a gente deve ser, o que fazer. Como despertar a atenção para um conteúdo que é diferente disso – sempre mais aprofundado, falando de temas “difíceis”?

Acho que se eu tivesse uma fórmula, seria mais um dos textos que dizem o que a gente deve fazer e ser para atingir o sucesso. Hehe. Não sei, Dani, mas acredito que a internet abraça todo tipo de pessoa, inclusive quem dá preferência para textos mais aprofundados e complexos. Não tenho regras para despertar a atenção do público: apenas vou lá e faço o que acredito estar certo. A Chega de Fiu Fiu, por exemplo, foi rejeitada quando ofereci como pauta para uma revista. Mas quando a coloquei na internet, sem qualquer trabalho de assessoria de imprensa ou de relações públicas, ela viralizou. Felizmente, existiam várias outras pessoas que queriam ler, falar, discutir sobre o assunto. É claro que nunca terei a mesma audiência do Buzzfeed, afinal, meu conteúdo fala com um nicho. Mas vejo vantagens em falar com nicho — os leitores são muito mais engajados e participativos. Trabalhei vários anos em redações e recebi meia dúzia de e-mails de leitores. Na Olga, tenho um contato frequente e direto com o público, o que fortalece meu trabalho, me dá direções de onde devo mirar. É importante ter esse feedback instantâneo, principalmente para sabermos onde erramos e como podemos acertar numa próxima vez.

Você já tem um modelo de negócios? Como vê a Olga crescendo?

A Olga não é uma empresa. Ela é um movimento cujo objetivo é empoderar mulheres e o ativismo é a sua base. Ou seja, sinto que mudamos o mundo de fora (mobilizando pessoas) para dentro (criando pressão social em órgãos públicos, empresas privadas etc) com ações sem fins lucrativos. Mas debaixo do guarda-chuva da Olga pretendo sim lançar um braço que incentive mudanças e transformações feitas de dentro para fora também. Ou seja, buscar parcerias com marcas, empresas e agências que estão na liderança de produção de produtos para as mulheres e assim poder, por meio de consultorias, criar conexões mais humanas com o feminino.

Por que o feminismo ainda é um tema que não interessa a tanta gente? Quais são as armadilhas que travam as mulheres em relação ao feminismo?

Na verdade, acredito que o feminismo nunca foi tão popular. Nunca vimos tantas celebridades — pessoas imersas em uma indústria ainda muito machista que fatura em cima de padrões de beleza — se declarando feministas. A internet está repleta de produtores de conteúdo feminista de qualidade. E até mesmo jornalistões das antigas e meios de comunicação conservadores já não hesitam mais em usar o termo “feminismo”. Fico feliz em notar que ultrapassamos a barreira do medo de falar sobre o assunto. Mas, sim, acredito que existam ainda armadilhas que travam as mulheres em relação ao movimento. Basta ver campanhas como “mulheres contra o feminismo”. E acredito que essa aversão nasce da ignorância do que é o feminismo. Há muitas estereótipos e informações equivocadas sobre o movimento, muitas delas espalhadas por páginas machistas, com o objetivo de minar o ativismo. O feminismo busca simplesmente oportunidades iguais para homens e mulheres. Como alguém pode ser contra isso?

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Beyoncé citar o feminismo ajuda a mudar um pouco isso? Quais outras iniciativas do tipo você gostaria de ver como notícia?

Ajuda muito. Existem algumas pessoas que acreditam que existe “feminismo certo” e “feminismo errado”. Mas como podemos julgar o ativismo alheio se o movimento não tem mesmo nada de absoluto? Publicamos um texto chamado Flawed: Uma feminista Imperfeita (www.thinkolga.com/2014/08/28/flawed-uma-feminista-imperfeita/), da Fabi Secches, em que ela analisa as críticas às ações da Beyoncé. Ela diz: “O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.” E ela aplaude o ode que Beyoncé faz à escritora Chimamanda Ngozie Adichie. “Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.” Então sim, ver um telão gigante escrito FEMINIST no palco do VMA, da MTV, é uma grande conquista. Queria eu, quando jovem, ver meus ídolos se declarando feministas assim abertamente. Isso me ajudaria a ter contato ainda mais cedo com um movimento que luta contra desigualdades. E ok, o universo pop está superando o medo da palavra. O próximo passo é ver essas celebridades registrarem ainda mais apoio às lutas do feminismo, como aborto, a luta contra a violência de gênero, o gender gap. E é algo que, aos poucos, estamos vendo — de Sheryl Sandberg falando de mulheres na liderança de empresas à Emma Watson representando a ONU Mulheres.

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Você já tinha sofrido assédio bem antes da Olga. Com a repercussão das campanhas, também. O que mais te enoja em tudo isso e quais providências você costuma tomar?

O assédio é uma violência que humilha, traumatiza e amedronta a mulher. Ele não surge da valorização e sim das relações de poder de gênero, da necessidade de impor na mulher um desejo sexual independente de consentimento. Acho aterrorizante perceber como não temos direito aos espaços públicos, mas nossos corpos são sim vistos como públicos. Como se qualquer homem tivesse o direito a usá-lo da forma que bem entender, em qualquer lugar, a qualquer hora. É lamentável o fato de que nós, mulheres, não podemos experimentar cidade da mesma forma que homens — temos medo de ir a certos espaços à noite, de passar em frente a locais com grande concentração de homens, que pensamos duas ou três vezes nas roupas que vamos usar para escapar dessa violência. Jamais, na história da sociedade, um homem precisou ter essas mesmas preocupações. Sempre tive muito medo de responder a assédios — mesmo porque eles começaram quando eu ainda era criança, aos 11 anos. E não foram apenas assédios verbais (que considero uma violência também bastante dolorida para a mulher). Aos 13, um desconhecido na rua puxou meu braço e me empurrou na parede, dizendo que “eu era muito bonita e que queria me comer”. Por sorte, ele estava bastante bêbado, então tive forças para me desvencilhar. Mas e se não tivesse forças? Nós nunca sabemos quando um assédio pode virar estupro ou até mesmo um outro tipo de violência. Quem nunca respondeu a um assédio e, em seguida, ouviu um xingamento ou até mesmo sofreu uma violência física? Mas sinto que graças a campanhas contra o assédio, as mulheres se sentem mais corajosas para responder, buscar ajuda, denunciar para policiais. E também convido a todas que quiserem denunciar qualquer violência contra a mulher a entrar no mapa Chega de Fiu Fiu (www.chegadefiufiu.com.br) e compartilhar sua história. Nossa proposta com a ferramente é de registrar os locais problemáticos do Brasil. E ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público.

Quais as histórias mais difíceis que você já ouviu depois de ter aberto esse espaço?

Antes do mapa, abri um espaço na própria Olga para publicar depoimentos de mulheres vítimas de assédio sexual. O recorte era esse. Mas rapidamente as denúncias já se ampliaram para outros tipos de violência de gênero: violência doméstica, machismo no trabalho, gaslighting (www.papodehomem.com.br/porque-as-mulheres-nao-estao-loucas/), racismo, gordofobia, homofobia, abuso sexual na infância e estupro. Foi um espaço em que elas acharam para poder relatar o que sofriam, botar pro mundo os horrores que viviam. Já recebi milhares de depoimentos sobre violência contra a mulher. No grupo de discussão da Olga, também tenho contato com muitas histórias de partir o coração. Confesso que até hoje eu me emociono com esses depoimento, choro, passo raiva, sinto meu coração acelerar. Vivo alternando entre o otimismo (pois acho que estamos avançando muito na conversa sobre violência contra a mulher) e o pessimismo (pois às vezes acho que a única solução para um mundo que permite que mulheres sejam abusadas desde a infância é explodi-lo em milhões de pedacinhos).

Você se dá conta de como ajuda a transformar a vida de várias mulheres?

Espero que a OLGA esteja mesmo cumprindo com o que se pretende, que é empoderar mulheres. E faço também a pergunta ao contrário: será que essas mulheres se dão conta de como me ajudam a transformar a minha vida?

Daqui a 10 anos, o que espera para você, para a Olga, para a causa?

Espero que as mulheres passem a ser tratadas como seres humanos — por revistas, pela publicidade, pela política, pelos homens. Seres humanos de direitos, de desejos e vontades próprias. Será que é querer muito? :-)

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O vazio na fotografia de Ana Teresa Bello

por   /  21/10/2014  /  9:09

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Viver o Instagram há quatro anos, diariamente, é um grande exercício sobre o olhar. Tanto o meu, quanto o do outro, principalmente. Adoro descobrir fotos que me dizem alguma coisa. Adoro acompanhar os amigos e conhecidos, claro, mas gosto ainda mais de acabar parando no perfil de alguém e, de repente, me impressionar com as imagens reunidas ali.

Existe uma coisa nessa descoberta que me lembra a internet do fim dos anos 1990, quando a gente ficava amigo das pessoas porque elas gostavam da mesma banda que a gente ouvia sem parar ou porque elas tinham lido os autores que nos faziam nos sentir menos sozinhos no mundo. Parece que naquele tempo existiam menos narrativas de uma vida perfeita, e mais conversa. Menos contatos, e mais afinidades.

Há um tempo, conheci o Instagram da Ana Teresa Bello. Ana é decoradora e é apaixonada por fotografia. É dona da Amy, “uma felina cheia de personalidade, colecionadora de arte e afeto, carioca da Gávea e apaixonada por São Paulo”.

Passei a acompanhar o dia a dia dela e me surpreendo com o olhar que ela tem para cada foto. Pedi pra ela escolher algumas pra postar aqui. Ficamos entre a Islândia e o vazio, que ganhou. Fiz umas perguntas, e ela devolveu com um texto que diz muito sobre o que a fotografia representa na vida dela.

No Instagram > @anatbello

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Foi muito difícil responder essas perguntas, porque é sempre complicado para mim falar o que me motiva a fazer alguma coisa. Sempre fui melhor de imagem do que de fala, talvez por isso trabalhe com interiores e por isso a fotografia tenha me tomado desta forma. No meio do processo de descrever o que eu gosto de fotografar, fiquei pensando no que eu não gosto de fotografar, no sentido da possibilidade de filtrar em um frame o que eu quero mostrar para o outro, o que eu escolhi ver.

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E isso me encanta, poder selecionar apenas uma parte de alguma coisa maior e registrar aquele universo tão particular e tão meu, mas que ao mesmo tempo pode ser também um lugar comum para o outro, um sentimento ou uma imagem que ele possa reconhecer. Acho que no fundo toda vez que faço uma foto eu pense nisso, em algo que o outro também ache interessante e que de alguma forma o faça se transportar para aquela situação. Uma forma de dividir e exercitar meu olhar.

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Já faz 10 anos que trabalho com interiores e neste tempo todo fui aprendendo a selecionar, de um infinito universo de opções, aquilo que acho melhor para cada projeto. É sempre um imenso quebra cabeça de possibilidades e, de alguma forma, levo esse olhar para as minhas fotografias.

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Costumo brincar que as melhores fotos são aquelas que eu ainda não fiz, aqueles lugares que costumo passar com frequência, que sempre enquadro imaginariamente, aquela cena… Algumas eu volto e registro, outras ficam só na lista de pendências fotográficas.

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O vazio tem me interessado muito nos últimos anos, tanto em fotografia quanto em literatura, música e arte. É um interesse que tem muito a ver com o que eu observo da nossa geração, um comportamento individualista e muitas vezes indiferente ao outro. Gosto da brincadeira de pensar no vazio tanto em termos de proporções, como também de situações.

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Como te disse, tenho bastante dificuldade em observar todo este processo por estar muito envolvida por ele. Não tenho distanciamento suficiente para entender como estas imagens se relacionam, por estarem muito presentes em mim. Mas o vazio está ali, e fotografá-lo é uma forma de preenchê-lo, de dar uma história para ele.

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No começo o que me estimulava a fotografar eram os espaços vazios, as linhas, as simetrias ou a ausência delas, tudo muito relacionado à arquitetura. Depois, aos poucos, fui achando interessante quando a relação com a escala humana aparecia de alguma forma, e hoje em dia acho fundamental este elemento para a composição de uma imagem. Nada como ir treinando o olhar…

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Termino com uma frase de Bergson, um filósofo que eu admiro e que estudei por muito tempo: “O olho só vê o que a mente está preparada para compreender”. E eu espero que o meu olhar ainda me ensine muitas coisas.

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Trilha sonora para uma roadtrip com as amigas

por   /  14/10/2014  /  6:40

TheValerias2

Viajar com as amigas é criar algumas das melhores lembranças da vida. É conhecer cada uma no dia a dia, descobrir que uma adora dormir cedo e a outra, acordar tarde. É cantar junto no carro aquelas músicas deliciosas dos anos 1990. É contar as histórias de família, ir conhecendo mais da vida de cada uma. É dosar os programas pra que todo mundo fique feliz. É ter aquelas conversas intensas deitadas na cama, como adolescentes. É cuidar da que pegou gripe. É mimar as hóspedes com queijos e vinhos, com cheirinhos de vela espalhados pela casa. É espantar fantasmas com uma festa improvisada na sala da casa. Festa essa que vira quase aula de dança, com todo mundo suado e feliz. É fazer “festa na lancha” e querer que ela não acabe. É criar piadas internas e ainda receber do hostel uma hashtag pra juntar as fotos no Instagram. É ver paisagens deslumbrantes e fazer aquela cara de que não dá pra acreditar. É segurar as lágrimas ao ver o casal de velhinhos mais apaixonado do mundo. É tomar sol em uma praia paradisíaca, lendo um livrinho. É comer, comer, comer e pensar no que vamos comer daqui a pouco. É tanta coisa! É reforçar os laços que já existiam e criar os que ainda estavam mais no Whatsapp. É ter certeza de que amigos têm que viajar juntos ao menos uma vez na vida. Simplesmente porque a gente aprende demais e fica numa onda de amor maravilhosa – e celebra isso 24 horas por dia!

Pra lembrar sempre desses dias em setembro, fiz uma Trilha sonora para uma roadtrip com as amigas. Começa com “What a wonderful world”, termina com “La vie en rose”, ambas cantadas por Louis Armstrong. No meio do caminho, tem de tudo, de Chet Faker a Gipsy Kings, passando por Bonnie Tyler, Françoise Hardy, Dusty Springfield, Spice Girls, Bob Marley e Lauryn Hill.

Ouçam! E comecem a planejar uma viagem com os seus.

Muito obrigada por esses dias inesquecíveis, Lu, Cau, Rê e Nina. Amo vocês!

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No fim a gente só quer ouvir um eu te amo

por   /  09/09/2014  /  9:09

Einmusik

Gosto de ouvir disco pela capa. E essa do Einmusik é sensacional!

Einmusik é Samuel Kindermann, DJ alemão sobre o qual nunca tinha ouvido falar. Mas hoje é dia de ficar procurando coisa nova pra ouvir, e daí veio ele.

10 Years beetween studio and club, between aiport halls, cold tea and afterpartys. 10 Years dusty shoes and endorphin after one of those gigs under the burning sun. 10 Years draging cases and hotel life. Einmusik is an electronic musician, who took the ladder step by step. Hard work, dreamly breaks, hard disks full of ideas and the mind full of inspiring moments made him a well known producer & Live-Act over the time.

Mais em > https://soundcloud.com/einmusik

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A Califórnia de Rafael Barion

por   /  08/09/2014  /  10:10

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Viajar nos deixa com o olhar tão mais afiado. Basta sair da rotina – e escolher um destino apaixonante, é verdade – para que as fotos nossas de cada dia no Instagram deem um salto impressionante.

Ao escolher a Califórnia como destino para as férias, o jornalista Rafael Barion acabou virando fotógrafo. As imagens que ilustram o post atestam isso. Experimentando ângulos e filtros e fotografando gente e paisagem, ele criou uma narrativa deslumbrante sobre a costa oeste norte-americana.

“A Califórnia toda tem uma luz linda, suave, que parece que já vem filtrada por com um difusor. E uma topografia super-rica, com deserto, praia, paisagem urbana, floresta, montanha – uma coisa do lado da outra. Dá muita vontade de fotografar mesmo”, diz ele.

E completa: “A coisa da personalidade das cidades que também ajuda: San francisco, além da luz e da topografia, tem a névoa que vem do pacífico, a arquitetura (meio art deco, meio vitoriana) e as cores pastel. E los angeles é um lugar meio pós-apocalíptico, com uma mistura (o surf, o skate, o centro detonado, os resquícios da Hollywood antiga) que só tem lá. SF é melancólica e acolhedora, LA é libertadora e estimulante. E as duas são superinspiradoras”.

No portfólio californiano, tem fotos que parecem quadro, cartão postal, cena de filme de Wim Wenders. Vejam!

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