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A louca da casa, de Rosa Montero

por   /  22/02/2016  /  9:09

A louca da casa 2

Se o livro que estamos lendo não nos acorda como se fosse um punho batendo em nosso crânio, para que lê-lo?

Kafka

Existem livros que nos fazem repensar a relação com a literatura. São aqueles que transformam uma biblioteca imensa em um amontoado de papel e te deixam com vontade de fazer uma faxina e só manter títulos que despertem tamanho entusiasmo. “A louca da casa”, da autora espanhola Rosa Montero, tem esse efeito.

Mistura de autobiografia e exercício sobre o que é escrever, o livro é um desses que você grifa do começo ao fim. Livro lido, livro gasto, livro com história, sabe? Do jeito que eu gosto. Rosa é espanhola, tem 65 anos e já escreveu mais de 15 romances. Também é jornalista, e eu conheci o trabalho dela quando li um perfil seu sobre John e Yoko, em uma xerox que ganhei em alguma aula na época da Folha.

Por alguns anos, os livros dela ficaram na estante sem me chamar a atenção. Talvez por conta das capas, que não me diziam muito. Até que no fim de 2015 resolvi ler “Histórias de mulheres”, uma série de perfis de mulheres das artes, da literatura, de áreas diversas como antropologia. Mulheres marcantes, cujas trajetórias e seus feitos foram resumidos em poucas páginas por uma Rosa apaixonada por cada uma delas, leitora ávida de biografias, feminista, eternamente incomodada com o silêncio a que somos submetidas desde sempre. Deu vontade de ler tudo que Georges Sand, Agatha Christie, Simone de Beauvoir, Frida Kahlo escreveram, ou ao menos mais um pouco do que escreveram sobre elas.

Na sequência, peguei “A louca da casa”. Li nos primeiros dias do ano, em uma paradisíaca praia no Ceará, o que deve ter contribuido para a perfeição do momento. Virava cada página com aquela ansiedade de quem espera mais uma descoberta, mais um insight poderoso, mais um trecho que resume tão bem o que já me passou pela cabeça, ou o que eu nem sabia direito que pensava mas logo fez todo sentido.

Rosa nos conduz por uma investigação sobre o ato de escrever, misturando suas histórias e percepções com fragmentos da vida de escritores do cânone e as ideias deles sobre o ofício. “Quero dizer que escrevemos na escuridão, sem mapas, sem bússola, sem sinais reconhecíveis do caminho. Escrever é flutuar no vazio”, diz.

Ela também fala das armadilhas da literatura, como a busca pelo sucesso. Fala de travar e achar que jamais será capaz de escrever outra linha novamente. Fala de vidas destruídas pela literatura e de outras salvas pelo mesmo motivo. Fala de viver não para colocar as experiências no papel, que aí o caminho é fácil demais, mas de entender que “o imaginário reaviva a imaginação, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária.”

Com maestria, ela ainda brinca com o poder da palavra. Conta uma história de sua vida, e a gente acha que aquilo aconteceu, até que somos surpreendidos por mudanças no roteiro, uma, duas, três vezes. Não basta apenas falar do que a palavra é capaz, mas sim mostrar isso brilhantemente nas páginas que se seguem. Rosa encanta porque é frágil, vulnerável, tem medo e dúvida, às vezes trava, às vezes quer ser reconhecida. E principalmente porque nos faz entender que deixar a imaginação, essa tal louca da casa, solta (e ser bastante fiel à disciplina) é o que faz com que as histórias que ela nem sabe que existem continuem a surgir de dentro dela. Que sorte a nossa.

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Separei alguns trechos pra dividir com vocês!

A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas.

Acho que a vida é um mistério descomunal do qual só arranhamos a casquinha, apesar de nossas pretensões de grandes cérebros. Na verdade não sabemos de quase nada; e a pequena luz dos nossos conhecimentos é rodeada (ou melhor, sitiada, como diria Conrad) por um tumulto de agitadas trevas. Também acredito, e continuo com Conrad, na linha de sombra que separa a luz da escuridão; em margens confusas e fronteiras incertas. Em coisas inexplicáveis que nos parecem mágicas só porque somos ignorantes. O romance se dá numa região turva e escorregadia, em torno de um romance sempre acontecem as coisas mais estranhas.  

Seja como for, não é preciso morrer, nem se tornar um doido oficial e ser trancado num manicômio, nem se drogar feito o junkie mais decadente, para ter vislumbres do paraíso. Em todo processo criativo, por exemplo, você chega à beira dessa visão descomunal e alucinante. E também entra em contato com a loucura primordial toda vez que se apaixona loucamente. (…) Porque a paixão talvez seja o exercício criativo mais comum da Terra (quase todos nós inventamos algum dia um amor) e porque é a nossa via mais habitual de conexão com a loucura. Em geral os seres humanos não se permitem outros delírios, mas aceitam o amoroso. A alienação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida. É uma válvula de escape que nos permite continuar sendo equilibrados com todo o resto.

Manter a distância exata do que conta é a maior sabedoria de um escritor; você tem que fazer com que aquilo que narra o represente, como ser humano, de uma maneira simbólica e profunda, da mesma maneira que os sonhos; mas tudo isso não deve ter nada a ver com o episódio de sua pequena vida.

A literatura é uma felicidade inata e uma dificuldade adquirida. [Irmãos Goncourt]

– Sei lá. Às vezes a gente evita começar o trabalho. É uma coisa esquisita.
– Por preguiça?
– Não, não.
– Por quê?
– Por medo.

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#bibliotecadonttouch: Noemi Jaffe

por   /  18/02/2016  /  9:09

Noemi

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Noemi Jaffe, escritora que eu adoro! Estou lendo o livro mais recente dela, “Írisz: as orquídeas” – e nunca deixo de acompanhar seu maravilhoso blog, Quando nada está acontecendo.

Da Companhia das Letras: Noemi nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de “A verdadeira história do alfabeto”, vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e “O que os cegos estão sonhando?”, entre outros.

A foto é do Renato Parada.

Hiroshi Senju 1y

Vender sua própria alma… Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (…) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar… E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (…) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível.

“Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa [a foto é de Hiroshi Senju]

Katrien-De-Blauwer-Collage-Dress

Ela tinha conhecido a felicidade, uma felicidade rara, uma felicidade intensa, e ela prateava as ondas encrespadas com um puco mais de brilho à medida que a luz do dia se apagava e o azul fugia do mar e ela se envolvia em ondas de puro limão que se curvavam e intumesciam e morriam na praia e o êxtase explodia em seus olhos e ondas de puro prazer corriam pelo solo de sua mente e ela sentia: Basta! Basta! 

“Ao farol”, de Virginia Woolf [a colagem é de Katrien De Blauwer]

Mario Botta 2

Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que – como cabe à realidade – Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos – num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que – segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo – a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: “a assim chamada realidade”. Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia.

“Liquidação”, de Imre Kertesz [a foto é de Mario Botta]

Merit Badge

E é assim como aqueles que nos iluminam são os cegos. Assim é como alguém, sem saber, chega a mostrar-te irrefutavelmente um caminho que, por sua parte, seria incapaz de seguir. A Maga jamais saberá como o seu dedo apontava para a fina moldura que cerca o espelho, até que ponto certos silêncios, certas atenções absurdas, certas corridas de centopéia deslumbrada eram a senha para o meu sólido estar-em-mim-mesmo, que era um estar em nenhuma parte. Enfim, isso da fina moldura… Se queres ser feliz, como dizes/ Não poetiza, Horacio, não poetiza. Visto objetivamente: ela era incapaz de me mostrar qualquer coisa dentro do meu terreno, até mesmo no seu girava desconcertadamente, tateando, apalpando. Um morcego frenético, o desenho da mosca no ar do quarto. De repente, para mim, ali sentado, olhando para ela, um indício, uma suspeita. Sem que ela o soubesse, a razão das suas lágrimas ou a ordem das suas compras ou a sua maneira de fritar qualquer comida eram sinais. Morelli falava de algo assim quando escrevia: “Leitura de Heisenberg até o meio-dia, anotações, fichas. O filho da porteira me traz a correspondência e falamos de um modelo de avião que ele está montando na cozinha de sua casa. Enquanto me conta isto, dá dois saltos sobre o pé esquerdo, três sobre o direito, dois sobre o esquerdo. Pergunto-lhe por que dois e três, e não dois e dois ou três e três. Olha-me surpreendido, não compreende. Sensação de que Heisenberg e eu estamos do outro lado de um território, enquanto o garoto continua a cavalo, com um pé em cada um, sem saber, e que brevemente estará apenas do nosso lado e toda a comunicação terá sido perdida. Comunicação com quê, para quê? Enfim, continuemos a ler; talvez Heisenberg…”

“O Jogo de Amarelinha”, de Julio Cortázar [a foto é de Oli McAvoy]

Ina Jang

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector [a foto é de Ina Jang]

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Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond

#bibliotecadonttouch: Paula Gicovate

por   /  30/10/2015  /  15:00

Paula Gicovate por Jorge Bispo

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Paula Gicovate!

Ela nasceu em Campos dos Goytacazes em 1985 e mora no Rio de Janeiro desde 2004. Cursou Letras na Puc-Rio. Publicou dois livros de contos – “Sobre (o) Tudo que Transborda” e “D4” e, em 2014, lançou seu primeiro romance, “Este é Um Livro Sobre Amor” (Editora Guarda-chuva). Criou com três amigos o programa “Só Garotas” para o Multishow. Além de livros e roteiros, também escreve cartas de amor.

A foto é do Jorge Bispo.

Valter Hugo Mãe

“O Paraíso São Os Outros”, de Valter Hugo Mãe.

“Ganhei este livro de presente de aniversário no ano passado. É amor recente, mas este trecho mexe um tanto comigo”, diz ela.

Ana Cristina César

Mocidade independent , poema do livro “A teus pés”, de Ana Cristina César.

“Quem me conhece sabe da minha obsessão por Ana Cristina César, mas este poema é o mais especial. Tinha acabado de me mudar para o Rio, primeira semana da faculdade de letras. Numa tarde resolvi conhecer a biblioteca da PUC, peguei uns livros e entre eles estava ‘A Teus Pés’, da Ana Cristina, que tinha sido aluna de letras lá também. Abri o texto em uma página aleatória. Era esta. Nunca mais eu fui a mesma.”

Junot Diaz

“Junot Diaz é outro amor recente. Primeiro li ‘A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao’, que foi meu livro preferido do ano passado, e este ano eu peguei ‘É Assim que Você a Perde’, um livro de relatos sobre amor, perdas e traições. Este trecho – que está até marcado no meu livro, é tão bonito e tão triste. Como a vida é. Como os amores podem ser.”

Cortazar 2 Cortazar

“Instruções para chorar”, de Julio Cortázar.

Murakami Murkami1

“Kafka à beira-mar”, de Haruki Murakami.

“Transcrevi esta parte e andei com ela durante muito tempo na carteira. De vez em quando abria, lia, e ficava tudo bem de novo. ‘Kafka à Beira-Mar’ é um dos meus livros preferidos do Murakami, e este trecho é um soco na cara de beleza e lucidez.”

#bibliotecadonttouch por Liliane Prata

por   /  07/10/2015  /  10:10

Lili

A #bibliotecadonttouch desta semana é da Liliane Prata (@liliprata)!

Ela é jornalista e escritora. Autora de oito livros, entre juvenis e adultos (o mais recente é “Eu odeio te amar”), posta crônicas e vídeos no seu lilianeprata.com.br (adoro os vídeos dela, aliás!) e é editora da revista Claudia.

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“A redoma de vidro”, de Sylvia Plath

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“Plataforma”, de Michel Houllebecq

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“A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector

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“Bonsai”, de Alejandro Zambra

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Trecho de crônica da Martha Medeiros

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“Capitães de Areia”, de Jorge Amado

#bibliotecadonttouch  ·  amor  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  literatura

#bibliotecadonttouch por Emilio Fraia

por   /  11/08/2015  /  10:00

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O convidado desta semana da #bibliotecadonttouch é o Emilio Fraia, editor e escritor, autor do romance “O verão do Chibo” (Alfaguara/ @editora_objetiva), em parceria com Vanessa Barbara, e da graphic novel “Campo em branco” (@companhiadasletras), com o ilustrador DW Ribatski.

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“Diario argentino”, de Witold Gombrowicz.

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“Como são breves as despedidas. Quer-se dizer alguma coisa, mas, bem na hora, se esquece o apropriado a dizer e não se diz nada, ou se diz alguma idiotice. Desperdir-se é horroroso, para quem parte e para quem fica.” . “Jakob von Gunten”, de Robert Walser.

 

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“Mas uma coisa sabemos: para que um mundo novo surja, é preciso primeiro que um mundo antigo morra.” . “O sermão sobre a queda de Roma”, de Jérôme Ferrari.

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“Você aposta num relacionamento, ele fracassa; você passa para outro relacionamento, ele fracassa também: e, talvez, o que você perca não sejam duas simples somas de números negativos, mas a multiplicação do que você apostou.” . “O sentido de um fim”, de Julian Barnes.

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“Um caso clínico”, de Anton Tchekhov.

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“Não era capaz de ver a si próprio como uma pessoa única, como todos fazem e precisam fazer, se não querem para si o desespero; seja a pessoa quem for, ela é única, vivo dizendo a mim mesmo, o que me salva.” . “O náufrago”, de Thomas Bernhard, encerrando a participação do @emiliofraia na #bibliotecaDTMM! Espero que vocês tenham gostado!

#bibliotecadonttouch por Maria Clara Drummond

por   /  31/07/2015  /  15:00

Companhia das Letras

Quais são os trechos de livros favoritos dos escritores? Vamos mostrar essas preciosidades por aqui na #bibliotecadonttouch!

A estreia é da Maria Clara Drummond (@mclaradrummond), jornalista e escritora que escreveu dois romances: “A festa é minha e eu choro se eu quiser”, pela @editoraguardachuva, e “A realidade devia ser proibida”, com previsão de lançamento para outubro, pela @companhiadasletras.

Aliás, já falamos do livro de estreia dela por aqui, relembrem > donttouchmymoleskine.com/a-festa-e-minha-e-eu-choro-se-eu-quiser

1

Pra começar, a @mclaradrummond escolheu a primeira página de “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

2

De @mclaradrummond para a #bibliotecaDTMM: “Fragmentos de um discurso amoroso”, de Roland Barthes. . “O amante cria sentido, sempre, a partir de um nada, é o sentido que o faz estremecer, ele está no braseiro do sentido.”

3

Mais um trecho selecionado pela @mclaradrummond: David Grossman em “A era genial: A lenda de Bruno Schulz”. “É um ensaio que li na revista Serrote, mas foi originalmente publicado na New Yorker.”

4

Deborah Levy em “Nadando de volta para casa”. “Não sei se esse trecho\página passa toda a tristeza implícita que permeia o romance, mas creio que é este o ápice do narrativa: quando Kitty Finch mostra ao poeta Joe Jacobs seu poema favorito, do francês Apollinaire.”

5

ra encerrar, a @mclaradrummond escolheu um trecho de “No caminho de Swann”, de Marcel Proust. . “A possibilidade de semelhantes horas nunca mais renascerá em mim. Porém, desde algum tempo recomeço a perceber muito bem, se apuro os ouvidos, os soluços que então consegui conter na presença de meu pai, e que só rebentaram quando eu fiquei a sós com mamãe. Na verdade, eles nunca cessaram; e é somente porque vida se vai agora emudecendo cada vez mais ao meu redor que os ouço de novo, como os sinos do convento que parecem tão silenciosos durante o dia por causa dos barulhos da cidade que os julgamos parados, mas que voltam a soar no silêncio da noite.”