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“Treta”, um disco de Marcia Castro para o corpo – e a pista

por   /  13/11/2017  /  15:15

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Gosto de pensar na importância da gente construir um repertório de pista baseado em músicas novas – e não só nas maravilhosas que nos acompanham há 10, 30, 40 anos (como “Cartaz”, de Fagner, “Todo dia era dia de índio”, de Baby do Brasil, e todas aquelas que recheiam o som nas festas de música brasileira, sabe?). Então gosto quando artistas de hoje se propõem a criar músicas pra gente dançar – e suar, colocar o corpo em movimento.

Ao ouvir “Treta”, da Marcia Castro, pensei nisso. Que bom! Foi então que deu vontade de fazer mais uma dessas entrevistas longas, em que a gente tenta conhecer mais da artista, sabe? Espero que gostem!

Pedi playlist pra ela também. Tá uma delícia, ouçam!

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

– Depois de ouvir “Treta” pela primeira vez, pensei: a Márcia Castro quer ser a Anitta, e isso é maravilhoso! Como se deu essa mudança de sair de uma carreira na MPB para algo tão sexy e pop?

Quando comecei a produzir esse trabalho, não tinha idéia onde isso daria, estética e pessoalmente. A única coisa que sabia era que queria produzir um som eletrônico, eu queria dançar com o meu som. Há alguns anos eu vinha fazendo em Salvador um projeto de verão chamado Pipoca Moderna, onde aconteciam encontros bem alegres entre diversos artistas da música brasileira, como Otto, Caetano, Gil Zeca Baleiro etc. Sentia falta de uma música minha que representasse esse espírito de celebração, de dança. Daí vi que fazer um som eletrônico dançante poderia ser um desafio muito enriquecedor para mim, para minha carreira, para esse desejo. Convidei o Rafa Dias (DJ e produtor baiano) para iniciar esse processo comigo, mergulhei no eletrônico de cabeça, nas referências que vinham a partir de Rafa, que já tinha ali um filtro do que poderia me interessar mais, pois o mundo eletrônico é muito vasto. Foi um ano inteiro de processo, desde começar a finalizar o vídeo. E muitas tretas e mudanças pelo meio do caminho. O que se revelou foi a vontade de produzir um som mais pop, que se comunicasse diretamente com as pessoas, e com muitas pessoas. As letras, melodias, os timbres, tudo isso foi definido por esse desejo. E tom sexy se estabeleceu por conta de minha vida pessoal, de novas experiências com o meu corpo. Tudo acontecendo enquanto eu fazia o disco. A música revelou minha vida.

– O disco marca uma fase de transformação na sua vida. Conta sobre ela?

Eu era casada por 9 anos. Em 2016, meu casamento chegou ao fim, me apaixonei por uma pessoa. Tudo que era estável e encaixado em minha vida se estremeceu. Perdi meus lugares de permanência, lugares afetivos, sociais…. Em contrapartida, conquistei novas experiências que só são possíveis a partir do furacão de uma paixão. Todo esse território de instabilidade e novidade foi fundamental para me fazer nessa nova etapa. Não foi fácil, porque a crise estava ali, com todo sofrimento que acompanha toda crise, e em meio a isso havia a responsabilidade de colocar um trabalho novo no universo. Chegado ao fim, parece que você viveu uma longa ressaca. E depois o alívio de ter sobrevivido e construído coisas tão importantes, como esse disco.

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– O disco é do corpo, da pista, cama. O corpo é quase um instrumento nele. Faz sentido?

Faz todo sentido. Há alguns anos comecei a me relacionar de um jeito novo com meu corpo. Mudei minha alimentação, comecei a fazer exercícios intensos regularmente, acendi uma vaidade que estava escondida. Daí o corpo acendeu junto. E foi acendendo faíscas, contaminando quem estava ao redor. E tudo foi acontecendo….

– O que um casamento duradouro trouxe de aprendizados? E para o que uma nova paixão te despertou?

Meu casamento foi longo, 9 anos de relação. São muitos aprendizados. O maior talvez se refere a alteridade. Você perceber o outro a partir dele, ser generoso, saber ceder, saber dividir. Nenhum relacionamento dura tanto tempo de um modo saudável se você não consegue desenvolver esses sentimentos numa relação. Amadureci muito nesse período, como se estivesse mais preparada hoje para viver comigo, dentro e fora de uma relação. A paixão, por outro lado, lhe faz descobrir a intensidade dos desejos, a urgência dos sentimentos, o carnal, o sexo, o frescor da admiração, coisas que, se você não cuida numa relação, vão se perdendo e minando esse território estável. É necessário a gente estar sempre atento para manter a faísca da paixão acesa numa relação. Isso é possível.

– De quem você se cercou para fazer o disco? Não só os compositores e produtores (quero saber dessas escolhas), mas também o que foi referência pra você durante o processo?

Musicalmente, me cerquei de poucas pessoas, porque o trabalho eletrônico é mais enxuto, são menos profissionais necessários para fazer a coisa andar. Iniciei o processo com o baiano Rafa Dias, que foi fundamental para me lançar na história eletrônica. Tínhamos imersões mensais no trampo, aprendi muito nessa fase inicial. Depois, Marcos Vaz se juntou ao trabalho trazendo novas referências e muita experiência, pois há muitos anos ele desenvolve uma pesquisa nesse território eletrônico. Os compositores Ozz, Raoni, Luciano Salvador Bahia, Jurema Paes, Ava Rocha, que conversaram comigo no processo e enviaram músicas e versos a partir dessa minha demanda. Os músicos baianos Juninho Costa (guitarrista), Chibatinha (guitarrista) e Gustavo DiDalva (percussionista) foram precisos para pontuar definitivamente o jeito do som. Por fim, a contribuição do francês Mr. Gib, que mixou o trabalho, foi essencial para chegarmos no resultado de som que desejamos no início. Além dessas pessoas que trabalharam diretamente na música, teve o incentivo absoluto do DJ Zé Pedro, dono do selo Jóia Moderna, que lançou o trabalho. Teve a contribuição valiosa e generosa do diretor criativo Giovanni Bianco, que realizou toda concepção gráfica do trabalho. Enfim, me considero sortuda por ter encontrado a mão de cada uma dessas pessoas disponível para somar ao trabalho. E de referências, no inicio ouvia muito o Stromae, o Buraka, a MIA, Bomba Stereo, Die Antwoord.. Depois comecei a ouvir o pop de Beyonce, Timberland, Rihanna, Drake, Kanye West, Kendrick Lamar… Depois, ouvi muito funk….. E por aí vai…..

– Aliás, o que te formou musicalmente?

Minha formação musical primeira está ligada à música brasileira e ao jazz por conta do meu pai, que me dava todas essas referências para eu escutar. De Elis Regina, passando por Caetano, Tom Jobim e indo até Billie Holiday, Chet Baker etc. Mas eu sempre absorvi muita coisa. Tudo que me soa novo, eu experimento. E daí, acabo absorvendo muita coisa. Não existe um estilo que eu não escute. Talvez, o pagode paulista seja a coisa mais distante de mim. No mais, ouço e acompanho quase tudo. Sou curiosa.

– O que te inspira a compor?

Minha vida, minhas experiências pessoais. Aí mora toda minha inspiração.

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– Conta brevemente sua trajetória?

Comecei a cantar profissionalmente aos 16 anos, em bares de Salvador. Fiquei fazendo isso por uns cinco anos. Eu tinha meu próprio equipamento de som, fazia eventos, comecei a ganhar meus primeiros cachês assim, mas já estava enfadada de fazer barzinho, eu sentia e sabia que tinha minha mensagem para reverberar por aí. Foi então que conquistei o Prêmio Braskem de Cultura e Arte para gravar o meu primeiro disco, “Pecadinho”. Com ele, me mudei para São Paulo, pois sabia que precisa de um terreno onde espalhar minha música fosse mais possível. Na sequência vieram os discos “De pés no chão” e “Das coisas que surgem”. No meio desse caminho, toquei o projeto Pipoca Moderna em Salvador, que me deu bastante visibilidade e despertou o desejo de fazer um disco de dança, de corpo, que chegou agora com o “TRETA”.

© Erivan Morais

© Erivan Morais

– O que ser cantora, compositora, artista melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?

Ser artista me faz ser mais sensível ao outro, me faz ser aberta ao encontro, me desperta a curiosidade, a generosidade. E sou artista porque essas coisas todas já me pertencem. Sinto que sou uma pessoa melhor por ser artista. A arte me melhora, me espiritualiza. Foram muitas dificuldades no caminho, que ainda existem. Não é fácil ser artista e viver de arte nesse mundo, porque se você não está no topo como artista, o trabalho é pouco valorizado, em todos os sentidos. E precisamos sobreviver. Mas nenhuma dificuldade até aqui sucumbiu o desejo de fazer arte. Vivemos agora um período muito crítico. Depois de anos de conquista, onde vimos pela primeira vez a música independente brasileira se estabelecer de modo mais digno, temos uma crise profunda no mercado musical. E quem mais sofre essa crise somos nós, os pequenos e independentes. Mas estamos aí. Crescemos na crise. Agora é uma questão de administrar.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Não tenho idéia… rs. Eu mudo muito o tempo todo. Tenho vontade fazer um curso de nutrição, me interesso por alimentação. Acredito em nas curas emocionais e físicas a partir dela. Tenho vontade de morar em Portugal. Tenho vontade de morar numa casa no campo. Tenho vontade de ter filhos. Tenho vontade de fazer música para sempre, mas aos poucos a gente vai mudando a expectativa. Sinto cada vez mais que faço para mim, por mim. Em tudo que me vejo fazendo, existe o desejo de me tornar uma pessoa que contribua para a evolução desse mundo, de modo que as pessoas possam viver mais plenas, inclusive eu. É um desafio constante. É uma prática diária.

– Ser artista no Brasil hoje é…

Uma novidade a cada dia…

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O climão do Letrux no melhor disco do ano

por   /  24/10/2017  /  10:10

Foto: Vitor Jorge

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Letrux é a nova alcunha de Letícia Novaes, artista carioca que lançou uma pérola este ano – e hoje concorre a melhor álbum no Prêmio Multishow, ao lado de Chico Buarque e Rincon Sapiência. “Letrux em noite de climão” é, sem dúvida, o melhor disco do ano. Ouço várias vezes por dia, e, a cada vez, uma música diferente me pega. Tem amor, tem sofrência, tem melancolia,tem hit pra pista – muitos, aliás. Ela passeia por tantas histórias e tantos moods…

Ao vivo, suas músicas ganham ainda mais força, uma vez que a Letícia é de um carisma absoluto, dona de um timing perfeito para interagir com a plateia. No show o disco faz ainda mais sentido. É forte, potente, divertido. É uau, sabe? Como é bom ouvir música que é feita com verdade, sem ser para soar de um jeito (que vai agradar mais, vender mais).

Costumo dizer que, se não tem algum sofrimento na história, as músicas ficam naquele estágio de quase lá. Música boa é feita de arrebatamento, né?  – e, tenha ela sofrido ou não, a real é que fez um disco genial (que em vários momentos me lembra Rita Lee dos anos 1970, pensa que delícia?).

Como já deu pra perceber, acho ela foda (já apareceu aqui algumas vezes). Conversamos sobre música, vida, processos, essa coisa de ser artista no Brasil.

Pra completar, a Letícia fez uma playlist com suas músicas de amor.

Ah, ela faz shows no Rio (Circo Voador) e em São Paulo (Sesc Vila Mariana) em novembro. Vamos?

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais: www.facebook.com/letruxletrux +@leticialetrux

– Eu tô apaixonada pelo Letrux, ouço todo dia, várias vezes por dia, aliás. Quando não ouço, dá uma abstinência. Conta como foi o processo de criação desse disco? Como ele se insere na sua carreira depois dos outros trabalhos?

Foi um processo muito natural, mas ainda assim cósmico e caótico, risos. Desde 2012 fui guardando umas melodias, letras, músicas, coisas que não entraram no Letuce. Eu escrevo quase todo dia, não necessariamente muito, mas uma frase, algo, tô sempre anotando. Em 2015, Arthur (um dos produtores do disco) e eu, inventamos que meu disco chamaria Em Noite de Climão, por conta de uma piada besta, somos muito amigos, rimos, guardamos essa informação, esquecemos. Daí a piada foi ganhando força, o conceito foi se ampliando, veio o golpe, veio que eu não passei em nenhum edital, fiz o 3 crowdfunding da minha vida, em pleno ano de crise, ui! Mas aconteceu, as pessoas me salvaram geral! Além do Arthur, chamei a Natália Carrera, guitarrista maravilhosa, pra produzir também. Éramos um trio bem diferente, mas isso foi muito curioso, saber ouvir, saber mesclar as vontades. Depois dos meus outros trabalhos como cantora, seja Letuce ou outros projetos que também participei, Letrux em Noite de Climão foi um processo de cura, de renascimento, foi meu jeito de contar uma saga, uma trajetória romântica desastrosa, mas ao mesmo tempo curiosa, divertida.

– E como tem sido a recepção dele? Aliás, no show no CCSP fiquei impressionada como você tá formando um público que inclui adolescente (e isso é tão legal!). Como foi essa construção? Como é ser artista no Brasil? Como é ser artista tendo a internet como grande meio de disseminação?

Tento não criar expectativa, pois sou um ser ansioso. A recepção ultrapassou tudo que eu esperava, é muito forte, é email, é carta, é foto, é vídeo, é gente falando comigo no metrô, um troço muito forte, porque não é “Oi, Letícia, sou sua fã”. Não. Acho que como eu tenho uma certa intensidade, as pessoas vem com a mesma pra mim, é muito doido. Mensagens profundas, maravilhosas. Sim, meu público mais jovem aumentou, ao passo que o mais adulto também, achei muito importante isso. Consegui atingir os pólos. A construção foi boca a boca. Claro que meu assessor é maravilhoso e saímos em matérias e sites interessantes, mas todo dia no twitter é alguém dizendo “meu deus me indicaram isso aqui e já não consigo parar”! Ser artista no Brasil é bem brabo. Não vou mentir, não vou recomendar, risos e choros. Só sou porque é o que me move, o que me emociona, o que amo fazer, o que me transforma, me alucina, me deixa viva. A internet ajuda um bocado, visto que somos artistas independentes, então, sem ela não estaria rolando esse bafafá todo, né? Ufa!

– Muitas vezes eu ouço uns discos e penso: “tinha que rolar um pouco de sofrimento para essas músicas serem boas de verdade”. Sofrer por amor, aquela coisa de filme de Hollywood de ter que chegar num ponto treta pra dar a volta por cima. Você acha que um pouco de dor influencia o seu trabalho? Como o amor molda sua arte, sua escrita, suas canções?

Eu lido bem com o eixo “amor & dor”, “tragédia & comédia”, deve haver uma explicação psiquiátrica, risos. Mas caminho do meio não vai ser nessa vida. Tenho dias que entro no buraquinho e vou lá no cerne e choro a vida e sinto tudo muito. Mas sou sempre salva pela graça, impressionante. Sou capaz de estar aos prantos, destruída e fazer uma piadinha leve, pra começar a me reerguer. Aí vou rindo, vou voltando. Então essa montanha russa me influencia um bocado. Eu gosto do amor, tenho sol em capricórnio mas é na casa 5 (que entre tantos significados, é a casa “do amor” na astrologia). Gosto do passeio amoroso, por mais alucinante que seja, gosto.

– O que te faz subir no palco e performar brilhantemente? O que você entrega quando está ali, o que você espera receber, se é que espera?

Outro dia eu pensei uma coisa que é a seguinte: eu estava a 5 minutos de entrar no palco e sei lá, eu fico numa concentração tão louca, que minha cabeça esvazia, eu tentei lembrar de uma letra, e eu mesma me censurei, fiquei “não se programa, não se programa”. Tento deixar acontecer naturalmente. Claro que falo algumas coisas duas, três vezes, mas as entrelinhas eu deixo pra sentir a dinâmica da noite. Eu tenho muito medo de palco, cago sempre antes de entrar, de tão louca minha barriga fica. Mas nunca deixei esse medo me controlar, eu controlo ele, e acho que isso me excita. Então eu domo o palco e fico “arrá!”. Eu espero receber atenção, apenas. Não gosto quando ficam à espreita da queda alheia. Já fiz alguns shows com gente me olhando de maneira estranha. Eu canto de olho aberto, eu olho para as pessoas, então às vezes não gosto do que vejo, é raro, mas acontece. Por mais que você não esteja gostando, tem alguém na sua frente (no caso eu) em carne viva quase, tenha alguma empatia, sabe? Não faça cara de cu. Mas foi raro isso ocorrer. Mas aconteceu e às vezes me desconcentra, daí viro a cabeça e olho para os querides que estão me doando atenção e seu tempo. Eu não sei exatamente o que eu entrego quando estou no palco, talvez meu entusiasmo em estar viva. Não sei.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Daqui a 5 anos terei 40, me vejo com mais um livro publicado, uma peça escrita e encenada, mais um disco Letrux, um dvd talvez, risos. Me vejo já tendo lido os 5 livros que estão na minha fila. Acho que já conheci a Grécia e talvez a Itália. Filhos não sei, ainda é uma questão. Me vejo viajando por aí, cantando. Um livro pra crianças, sim. Daqui a 20, uau. Me vejo indo à praia, talvez entrei no vôlei de praia sênior, acho que já fiz a travessia do mar de Copacabana. Passei um ano fora. Na Bahia ou na Grécia mesmo. Sei mais sobre mitologia e sobre a umbanda, talvez já tenha incorporado. Tenho netos, não sei como, mas tenho. Tenho um amor que me acompanhou nessa trajetória insana. Viajamos. Lemos, rimos. Evoluí no violão e no piano, felizmente. Fiz um disco só de baladas, risos. O que eu queria fazer que ainda não fiz é virar mergulhadora profissional, acho.

– O que ser cantora, compositora, artista melhor te ensinou sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?

Aprendi que cantar é forte. Vira para qualquer pessoa na rua e fala “Canta aí”, as pessoas têm vergonha. Ninguém fala “gente, deixa eu cantar aqui rapidinho”. Então se você tem coragem de cantar, saiba que você é forte. Envolve muita força, muita entrega, muita divindade. Ser artista me ensinou que a maneira que eu vejo as coisas não é a mesma maneira que todo mundo vê, e isso parece bobo mas me valeu a vida. As maiores dificuldades foram conciliar as expectativas, entender os desejos dos amados pais que só querem o seu bem, amansar o medo do futuro e da falta de grana. A auto estima que por vezes te julga e te faz pensar que você é uma mentira, que está apenas “brincando” de arte e que já passou da hora de fazer um concurso público. Tem muita dificuldade no caminho, não vou mentir.

– Conta brevemente sua trajetória? Aquela coisa de se apresentar pra quem ainda não te conhece, ou pra quem quer relembrar?

Nasci no Rio, caçula, tenho 2 irmãos homens, meus pais são seres humanos iluminados, tive uma infância muito lúdica, cheia de livros e filmes por parte da minha mãe que era professora de francês e com muita música e piscina, por parte do meu pai que é geminiano, risos. Fiz teatro no colégio e achei que era só um passatempo, mas já sentia minha cara ficar quente. Fiz faculdade de letras porque eu amava escrever, mas achei o ambiente acadêmico muito opressor em 2000. Daí fui fazer teatro na CAL, e ali minha vida mudou, fiz amigos profundos, descobri o violão, comecei a compor, foi uma fase muito rica da minha vida. Montei minha primeira banda, comecei a tomar gosto pela coisa. Conheci Lucas em 2007, nos apaixonamos, fizemos a banda Letuce, lançamos 3 discos, viajamos muito, tivemos muitas pirações e momentos lindos. Ano passado quis encerrar a banda, eu e ele já separados e tudo lindo e natural, e aí quis lançar esse disco solo, essa maluquice de Letrux em Noite de Climão. Ah, também já lancei um livro que chama “Zaralha – abri minha pasta” e também já participei de um filme meio blockbusterzão “Qualquer gato vira lata”, o 1 e o 2. Muito divertido fazer. E outras mil coisinhas malucas que já fiz, e ainda farei, certamente.

– Ser artista no Brasil hoje é…

Resistir.

#trilhadonttouch  ·  amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  música

A tecnoguitarrada de Lucas Estrela

por   /  20/10/2017  /  9:00

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Ouvi o disco do Lucas Estrela e quis me transportar pro Pará. Que música boa, que vontade de dançar! O músico lançou recentemente “Farol”, seu segundo álbum, e a gente aproveitou pra conversar.

Mais: @lucas.estrela

#trilhadonttouch

Pra completar, ele fez uma playlist especial pro blog!

Minha história na música começou com uns 8 anos de idade. Minha família não é de músicos, mas meus pais amavam música, então recebi toda essa influência deles, principalmente da música instrumental e da lambada, que eles gostavam muito. Eles me deram o primeiro violão de presente e fui aprendendo sozinho, naquelas revistinhas de cifras que vendiam em bancas na época. Mas um ano depois, quando fiz 9, meu pai faleceu e acabei abandonando o instrumento por um tempo. Só depois de alguns anos que fui estudar música mesmo. Com 15 montei a primeira banda e aos 16 já tava começando a tocar na noite. Foi nessa passagem dos 16 pros 18, quando ainda era barrado na porta das casas quando ia tocar, que descobri que queria ser artista, haha.

Tem um disco chamado “Tecnoguitarradas” do Pio Lobato de 2007. Pio é guitarrista, compositor e produtor musical daqui de Belém, hoje ele é o produtor musical da Dona Onete. Então, esse disco que completa 10 anos agora em 2017 mudou minha vida. Quando ouvi o “Tecnoguitarradas” pela primeira vez, a ideia de música instrumental, eletrônica e de música experimental se ampliaram na minha cabeça e no meu jeito de tocar e produzir música. O Pio conseguiu juntar a linguagem tradicional da guitarrada com os elementos do tecnobrega e essa coisa mais contemporânea da música eletrônica. Loops, efeitos, samples, tudo isso gravado no home studio do Pio em 2007, quando o acesso aos equipamentos de estúdio de baixo custo ainda não era tão fácil.

Depois te tanto ouvir esse disco, fui atrás dele. Só então que descobri que ele tinha sido responsável por vários outros trabalhos importantes pra cultura popular paraense, inclusive os “Mestres da Guitarrada” (2001). Trabalho que promoveu essa difusão da guitarrada pelo Brasil. Nessa época, acho que tinha uns 18, já produzia em casa e comecei a mandar coisas pro Pio. Certo dia ele disse que tava produzindo o novo disco e queria que eu fizesse a base eletrônica pra uma música chamada “2×2”. Me mandou algumas trilhas de guitarra e fiz a base. A faixa entrou pro disco dele e nossa parceria de composição surgiu aí. O Pio foi um dos responsáveis pelo meu primeiro álbum. A outra pessoa igualmente responsável foi o Waldo Squash (Gang do Eletro), um dos maiores produtores de música eletrônica que tive o prazer de conhecer. Waldo produziu comigo as bases do “Sal ou Moscou”.

O processo de produção do primeiro foi bem diferente do segundo disco. No primeiro, passei uns 2, 3 anos gravando sozinho em casa, sampleando as bases do Waldo até chegar num álbum. Tentei dar uma unidade a esse trabalho, usando praticamente os mesmos timbres de bumbo, caixa, synths e guitarras nas faixas. Algo bem característico do tecnobrega.

No “Farol” (2017), o processo foi totalmente diferente. Chamei vários amigos pra esse disco, tem muitas participações. Gravamos em 3 meses no estúdio Casarão Floresta Sonora, chamei um grande amigo pra fazer a direção artística, o Felipe Cordeiro, e gravei algumas versões instrumentais nesse disco, coisa que não fiz no disco anterior, em que todas as composições eram minhas. Sem falar na sonoridade, que já caminha por outros lugares também. Do carimbó digital à cumbia. Essa experimentação no estúdio só foi possível graças ao patrocínio do Natura Musical que acreditou nessa união da música tradicional e contemporânea feita no Pará.

Bom, tenho 25 anos, nasci em Belém/PA e acho que só fiz coisas ligadas à música até hoje, haha. Nessa época que comecei a tocar na noite, com uns 16 anos, pensava em fazer arquitetura. Tentei o vestibular por dois anos e não passei. Aí foi quando decidi seguir a carreira da música mesmo. Mas também fiz trabalhos ligados à música em outras áreas, como câmera e editor de vídeo em uma produtora audiovisual em Belém por uns bons anos, editando shows e videoclipes (outras grandes paixões: o cinema e audiovisual). Também já fui roadie da Gaby Amarantos e do Felipe Cordeiro por um tempo, depois passei três anos em São Paulo trabalhando na EMESP (Escola de Música do Estado) como técnico de gravação. Fiz o “Cine Concerto Arboreal”, um média metragem de paisagens sonoras que gravei em várias cidades e tocava a trilha sonora do filme ao vivo. Apresentei em alguns festivais em Belém e São Paulo. Em 2015 voltei pra Belém pra finalizar e lançar ainda o primeiro disco e tô aqui desde então.

É bem difícil a gente tentar definir a música que faz, ainda mais sendo instrumental. As influências são tantas que definindo alguma coisa acabaria excluindo outra sem querer. Mas como gosto tanto desse termo criado pelo Pio Lobato e pela cineasta Jorane Castro, eu diria que é tecnoguitarrada.

O “Farol” foi só mais um experimento juntando essas duas linguagens, a tradicional e a experimental. Minha vontade é continuar fazendo música e espero que as pessoas também tenham o intuito de continuar com a produção musical paraense. De ir atrás da história da nossa música, do Mestre Vieira, da guitarrada, do carimbó, do tecnobrega, até chegar nesse momento atual tão legal que a gente tá vivendo. A cidade cheia de novos artistas fazendo música. Isso é bonito demais!

A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers

por   /  19/10/2017  /  10:00

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Tuane Eggers cria imagens que parecem saídas de um sonho. Paisagens idílicas e corroídas pelo filme analógico se misturam aos amores e amigos em meio à natureza que ela tanto adora. O encontro dá tão certo que a gente é transportado para um tempo de beleza e contemplação.

Lembro dela da época do Flickr, muitos anos atrás. Existia toda uma estética Flickr, quem lembra? Lembro também que ela foi parar no filme “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho. Mais recentemente, suas fotografias fizeram parte de “O filme da minha vida”, de Selton Mello.

Entre suas inspirações, estão as fotógrafas Aela Labbe, Polina Washington e Rinko Kawauch.

Nesta breve entrevista, ela fala sobre o que a motiva a criar imagens que falam tanto de impermanência. Espero que vocês gostem! #galeriadonttouch

Mais em: @tuane.eggers + cargocollective.com/tuaneeggers

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Meu nome é Tuane Eggers e sou natural de Lajeado, uma pequena cidade do interior do sul do Brasil, mas atualmente vivo em Porto Alegre. Acho que sou fotógrafa, mas também acho um tanto difícil de me definir assim em algumas poucas palavras…

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O que me encanta na fotografia é esse paradoxo entre o espaço e o tempo – enquanto ela congela o espaço, o tempo continua pulsando dentro de uma imagem infinita. Também gosto de pensar nessa capacidade que a fotografia possui de registrar algo que realmente aconteceu ou existiu no mundo, mas também de criar um mundo à parte, um mundo inventado a partir do real. É como se minhas imagens fossem um recorte de um espaço em que eu gostaria de viver para sempre, e acho que elas permitem que outras pessoas habitem esse espaço no momento em que são olhadas – e então, talvez, o tempo continue pulsando infinito dentro desse olhar.

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Nossa, muito difícil escolher apenas três [fotos mais fortes que já fez], mas vou falar dessas porque elas marcam, simbolicamente, a força de alguns momentos da minha vida. A primeira [que abre o post] é “Um amor que brota”, de 2015: um retrato do meu ex-namorado Antônio, pessoa tão importante na minha vida, que me ensinou tanto e estimulou tantas coisas bonitas na minha vida e no meu ser, incluindo o meu encantamento pela fotografia analógica. Além disso, essa foto também traz outro assunto que me encanta muito e está bastante presente no meu trabalho: os fungos, principalmente em forma de cogumelos, com a sua capacidade tão importante de decompor.

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A segunda [segunda foto do post] é “Estrada para a imensidão”, de 2014: além de ter sido feita em uma ocasião linda de uma viagem com amigos, ela ganhou um significado especial pra mim neste ano, pois está presente em “O Filme da Minha Vida”, dirigido pelo querido Selton Mello, e foi uma emoção enorme ver ela gigante na tela de cinema durante o filme.

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A terceira [foto do post] é “Dos imensos dias em que fomos tão grandiosamente pequenos”, de 2017: feita durante uma viagem que fiz com meus amigos em que fomos de carro desde o sul do Brasil até o Peru. Nessa viagem, tivemos uma experiência muito forte de dar a volta em uma montanha, durante quatro dias de caminhada, entre os 4 mil e 5,2 mil metros de altitude. Ela também marca uma fase importante de mudanças na minha vida.

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Acho que espero [com as fotos] reencontros com outros olhares sensíveis. Que elas possam despertar uma vontade de viver. Espero que meu fascínio pela natureza, pela vida e pela potência dos encontros reverbere em outros corpos. Por isso, a cada vez que recebo uma mensagem de alguém que se sentiu tocado pelas minhas fotografias, me sinto preenchida.

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#asmúsicasdeamor: Laure Briard

por   /  05/10/2017  /  8:08

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A cantora francesa Laure Briard esteve recentemente no Brasil. Aproveitei pra conversar – e pra pedir a ela uma lista de suas músicas de amor. Não encontrei todas no Spotify, daí juntei com algumas de sua própria autoria.

Sua música é classificada como “yeyé psicodélico” e sua trajetória começou em 2005, nos conta o Coquetel Molotov, que trouxe a turnê para o Brasil junto com o Benke Ferraz, do Boogarins. E continua: o primeiro EP veio em 2013, com ajuda de Julien Barbagallo, do Tame Impala. Dois anos depois, lançou “Révélation”, com inspiração na música dos anos 1960 e do indie rock dos 1990. Em 2016, vieram “Sur La piste de danse” e “Sorcellerie”.

Me descobri cantora tarde. Gostava de música desde a adolescência, fiz aulas de bateria aos 16. Eu cantava só por diversão. Minha praia era mais a arte dramática, eu queria ser comediante. Fui para Paris com a escola de teatro e, quando voltei para Toulouse, minha cidade natal, foi quando comecei a fazer música com meu ex-namorado. Ele havia composto algumas letras, achava minha voz legal, então comecei a tentar a cantar. E foi assim que começou.

Cantar todo dia é um hábito pra mim. Eu posso passar o dia fazendo isso, mesmo que sejam umas canções bem porcaria, às vezes…

Música significa emoção. Eu sinto tantas coisas quando ouço uma música que eu amo. Isso é muito poderoso. Talvez mais do que um filme. Como cantora e compositora, encontro minha forma de expressão. Isso começou realmente depois do fim de um relacionamento. Eu tinha tanta coisa para dizer naquele momento. A música me ajudou demais, e ainda faz isso.

Quando coloco minha música no mundo, só espero proporcionar emoção às pessoas, ou espalhar alguma vibe boa. Fazer as pessoas dançarem, chorarem, terem esperança. Se eu pudesse rodar o mundo para conhecer essas pessoas seria ainda melhor!

Ouçam a playlist! #trilhadonttouch

#galeriadonttouch: João Arraes

por   /  04/10/2017  /  18:18

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João Arraes constrói imagens de moda e gosta de fotografar sem necessariamente falar de roupa. Suas imagens compõem timelines, catálogos, campanhas e revistas. Tem muito de beleza. E diversão. Essa semana, aliás, ele virou hit na internet quando foi publicada uma matéria falando sobre as fotos com pé na pia que ele e os amigos postam no Instagram.

Conversei com esse meu primo torto sobre sua profissão. #galeriadonttouch

2 FOTO 03_Ana Bela Santos para Portal Tag It

Sou o João, leonino, nascido e criado em Recife, amante da praia. Fotografo desde os 16 anos (agora estou com 28). Eu não consigo muito bem me definir, sou um inquieto sempre na busca de um novo jeito de me comunicar.

Fotografar é a maneira que encontrei de me comunicar. É como expresso meus vários eus. É meu ganha pão, meu prazer, meu trabalho, meu hobby.

Minha paixão não vem tanto da resposta [para as minhas fotos], nem sei nem se de fato espero por resposta, vem do ato de fotografar. O momento que aperto o disparador é o mais importante. Posso ter uma equipe de mil pessoas (que são super importante na construção de uma imagem), mas o momento do click é só meu e da pessoa (ou objeto) em questão, a atenção e a troca são só nossas.

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[Sobre as fotos dele mais marcantes] A primeira é a campanha que fiz para Nike X Pedro Lourenço. Primeiro pela liberdade artística que tive, segundo pela linguagem que pude trazer. Estava fotografando moda sem falar de roupa, sabe? Eles meio que me mandaram ir para rua e fotografar o que eu quisesse, com algumas palavras chaves de mood.

A segunda não é uma foto, e sim uma história. Quando comecei a passar mais tempo que São Paulo e viajando fora de Recife, criei junto com um amigo uma história chamada areia. Era essa minha busca por praia mesmo longe. Falamos de praia de uma forma escura, não tem uma moda focada em tendência. Eram surfistas tirados de casa.

A terceira foto é quando pude falar de futebol sem ser sexista, fiz a foto para um cliente durante a Copa no Brasil. Meu futebol era jogado por uma mulher linda, negra, forte – e que, além de fazer tudo, ainda tinha que cuidar do filho.

Mais João Arraes > joaoarraes.com

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IMS Paulista, uma nova paixão para São Paulo

por   /  14/09/2017  /  11:11

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São Paulo ganhará no próximo dia 20/09 o Instituto Moreira Salles da avenida Paulista. Depois de 4 anos de obras e de expectativa, a cidade recebe um presente – e o público, um lugar maravilhoso para apreciar fotografia, arte, música, cinema. Ontem, na apresentação para a imprensa, fizemos uma visita guiada pelo prédio e suas exposições. E posso dizer sem dúvida: nasce um novo hit na cidade. Um daqueles lugares que vão ficar apinhados de gente, ainda mais com a Paulista aberta aos domingos.

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O IMS Paulista começa com cinco exposições, além da célebre videoinstalação “The Clock”, de Christian Marclay, que recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, em 2011, tem 24 horas de duração e conta com milhares de cenas de TV e cinema que fazem referência ao horário do dia.

“Você sempre tem uma tensão em relação ao tempo. Quando você vai ao cinema, relaxa e sabe que vai sentar e ficar ali por duas horas. Aqui não. Você está sempre pensando no tempo de alguma maneira. O que cria essas pequenas narrativas que são sempre interrompidas é o som”, diz Heloísa Espada, coordenadora de artes visuais e curadora dessa exposição.

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O IMS exibe pela primeira vez no Brasil “Os americanos”, de Robert Frank, um dos ícones da fotografia. A série faz parte do repertório de quem ama fotografia, e ver ao vivo as 83 imagens que compõem o livro é um deslumbre. Entre 1955 e 1957, Frank percorreu os Estados Unidos para fazer retratos de todo tipo de gente. Fez mais de 28 mil fotos, que são um verdadeiro retrato da América profunda.

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Com auxílio do célebre fotógrafo Walker Evans, a viagem também rendeu um livro, que ganha versão brasileira publicada pelo IMS, em parceria com a editora alemã Steidl, celebrada por seu acervo de fotografia. “Pra mim é um verdadeiro curto circuito temporal. Me sinto devolvido para os anos 1950 nos Estados Unidos e, no momento seguinte, me sinto devolvido para esse presente tão conturbado, misturado, confuso que é agora dos Estados Unidos, mas também é do Brasil – e dessa própria avenida”, diz Samuel Titan Jr., um dos curadores da exposição.

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A mostra conta também com fotos inéditas que Frank fez em Manaus. Ele estava em uma viagem pelo Peru, que também originou um livro, e deu um pulo no Brasil. “A relação que ele estabelece com Brasil naquele momento. E também em 1956, que inclui fotos do Pierre Verger”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia e curador da exposição.

A mostra conta ainda com uma série de fotos de 24 livros de Frank impressas em formato banner, tomando a parede. Frames de filmes, várias edições do livro célebre e de mais outros. O IMS também vai exibir uma retrospectiva da filmografia de Frank, com 25 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. É emocionante ver as imagens de Frank ao vivo. Elas viraram referência de fotografia de rua, em que a técnica importa menos do que a expressão de quem é retratado, o momento que diz tanto ao ser congelado.

Brasil

“Corpo a corpo” mostra sete trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos brasileiros em parceria com Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do IMS e editor da revista Zum. Os artistas foram convidados a pensar como as imagens podem nos ajudar a enxergar os conflitos sociais que emergiram no Brasil nos últimos anos. “O mote da exposição é o uso do corpo como um elemento de representação social e atuação política – seja pela presença física e simbólica nos espaços públicos, seja como o veículo condutor da câmera, seja como lugar de expressão da individualidade, que aproxima e separa os indivíduos”, diz o IMS.

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Pra mim os destaques são os trabalhos de Bárbara Wagner. Em “À procura do quinto elemento”, ela retrata os candidatos de um concurso de MCs de uma famosa produtora de funk de São Paulo. São 52 fotografias e um vídeo que nos fazem pensar na música como passaporte para uma vida radicalmente da que eles têm.

Em “Terremoto Santo”, ela e o parceiro Benajmin de Burca fazem uma espécie de musical sobre cortadores de cana da zona da mata de Pernambuco que sonham em gravar um videoclipe gospel. É sensacional!

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“Eu, mestiço”, de Jonathas de Andrade, parte de uma pesquisa dos anos 1950 da Unesco em que fotografias de pessoas com diferentes tons de pele eram usadas como base de um questionário sobre quem parecia mais bonito, rico ou inteligente. O artista fez uma série de retratos com gente de diferentes partes do país para pensar sobre a relação que estabelecemos com a imagem.

A mostra conta ainda com trabalhos do coletivo Mídia Ninja, que exibe transmissões feitas entre 2013 e 2017 de vários protestos no país; “A máscara, o gesto, o papel”, de Sofia Borges, que mistura bocas e gestos de políticos do Congresso Nacianal; “Postais para Charles Lynch”, do coletivo Garapa, que surgiu a partir de notícias sobre linchamentos no Brasil e pesquisa de vídeos no Youtube sobre o tema.

Biblioteca

Pra completar, o IMS Paulista conta, ainda, com uma biblioteca maravilhosa dedicada à fotografia. Começa com 6.000 títulos, deve dobrar de capacidade em breve e tem espaço para 30 mil. Além de aquisições e doações, o acervo conta com coleções especiais de nomes como Stefania Bril, uma das primeiras críticas de fotografia do Brasil, Thomaz Farkas Iatã Cannabrava, Paulo Leite. Gerhard Steidl doou um conjunto completo de livros produzidos por sua prestigiada editora.

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O IMS conta ainda com ateliês e laboratório para cursos, workshops e oficinas, cinema, livraria e o restaurante Balaio, do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. O prédio de 7 andares fica entre as ruas Consolação e Bela Cintra. Sua obra custou R$ 150 milhões. O IMS foi fundado em 1992 pelo banqueiro Walther Moreira Salles. É uma entidade civil sem fins lucrativos, vive de um fundo e não se vale de incentivos fiscais e patrocínio.

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IMS Paulista

Avenida Paulista, 2424

De terça a domingo, das 10h às 20h. Às quintas, até 22h

Entrada gratuita

ims.com.br

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“Canibal Vegetariano”, de Gabriel Pardal

por   /  25/07/2017  /  15:15

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Toda vez que surge no feed um post do @canibal.vegetariano o Instagram fica melhor, mais inteligente, ácido, provocativo. Em meio a tanto conteúdo genérico, igual, o perfil traz humor e sagacidade. Seu autor é o Gabriel Pardal, artista visual, ator e agora também pai do Tomás Zazu.

Por ocasião do lançamento do livro “Canibal Vegetariano”, no fim do ano passado, conversamos um pouco. Só agora (desculpa, Pardal!) publico. Espero que gostem.

– Quando e de onde surgiu o Canibal Vegetariano?

Sempre gostei de quadrinhos, cartuns, mangás, e, principalmente, sempre fui fascinado por tirinhas de jornal e revista, pela característica em ser simples, rápida e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo atrás eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava, eu achava feio. Então pensei: “e se eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?”  Como eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, é isso o que me instiga, é assim que desperto a liberdade imprescindível no processo criativo, fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si só um desenho. Desenhar com palavras. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é texto ou desenho e para confundir ainda mais eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro em qualquer lugar. Eu gosto da simplicidade do processo. Desenho em cadernos, em folhas soltas, com canetas baratas, tiro uma foto e posto na internet. A literatura é a forma de expressão artística que eu mais gosto, justamente pela força da sua simplicidade, e por isso também gosto de considerar o Canibal Vegetariano literatura.
 
Por isso também que… Quando a editora Rocco me convidou para lançar um livro com alguns dos desenhos que eu já havia publicado no instagram e outros inéditos, topei na hora. Achei que ficaria bonito ver os desenhos que faço nos cadernos e publico na web voltar para o papel novamente.

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 – Adoro quando você fala de internet. A gente meio que perdeu a mão com tanta conexão?

Eu aprendi muito na internet, lendo, vendo filmes, trocando ideias nas comunidades, e também é o meio ambiente onde realizo meus trabalhos, é onde existe e funciona o Canibal Vegetariano, O Leitor, o ORNITORRINCO, etc. Considero ter uma relação saudável com o meio digital, não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens, respondo quando posso e posto quando quero. A internet é para mim fonte de conhecimento e espaço para minhas atividades, mas isso aconteceu quando aprendi a usar a ferramenta, a selecionar as fontes e montar minha rede de informações. Eu sou um viajante. Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.Considero isso importante porque estamos saturados de informação. Diariamente recebemos novidades de milhares de fontes diferentes e para não ficar perdido é preciso escolher o que merece a nossa atenção. Assim como a gente deve escolher o que quer comer, diferenciar o que é porcaria do que é saudável, a gente também deve saber como alimentar a mente. O que merece a nossa atenção e o que é descartável.

O grande lance da internet é que podemos escolher o que queremos ler, ver, assistir. Mas será que estamos mesmo sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil ou continuamos presos nas manchetes, nas grandes corporações e nas listas dos mais lidos? A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos, sendo que o Facebook é a principal fonte de informação deles. Eles acham que a internet é o Facebook. Pensar assim é o mesmo que achar que o mundo acaba no quintal de casa.

O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Eu entro pouco no Facebook e nunca leio a timeline porque não encontro nada que realmente me interesse, que me faça aprender mais. Para mim o Facebook é a nova TV, onde a maior parte do seu conteúdo é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo.

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– Você é escritor, ator, diretor. Conta um pouco como você começou, o que já fez, o que tá fazendo e o que mais planeja?

Comecei há 32 anos atrás… Aquela frase “Levei minha vida toda para pintar este quadro”, quem foi que disse? Clarice? Luis Fernando Veríssimo? Silvio Santos? Não importa, é uma frase batida mas é verdade. Porque a vida toda está incluída nos estranhos caminhos da criação. Publiquei uns livros, faço teatro e cinema, desenho, mas para mim tudo vem do mesmo lugar. O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um texto, uma peça, um desenho, uma entrevista; o que me interessa não é o formato, é a questão. Além disso, o que aprendo no processo criativo como ator coloco no processo para escrever e vice-versa. Na prática acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações.

No momento estou fazendo uma peça de teatro chamada “As Palavras e As Coisas”, com texto e direção do Pedro Brício. O filme “Tropykaos”, dirigido pelo Daniel Lisboa, vai estrear em 2017 nos cinemas. Os desenhos do Canibal Vegetariano eu continuo fazendo todos os dias e postando no Instagram e no Facebook. E estou terminando de escrever uma narrativa longa, que é provavelmente o meu projeto mais pessoal e a coisa mais importante que já fiz. Esse é o melhor exemplo para o que eu estava falando, porque estou escrevendo há dois anos mas conto sobre algo que aconteceu comigo há nove anos atrás. É daqueles trabalhos que a gente coloca tanto da gente que quando você me pergunta “o que mais planeja?” eu só penso que depois disso nunca mais vou fazer nada. Pode ser mentira, mas sentir isso é um jeito de entender que estou no caminho certo. Pelo menos pra mim.

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Canibal Vegetariano no instagram: instagram.com/canibal.vegetariano
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“Desejo Motivo”, o acontecimento de arte e afeto de Carolina Paz

por   /  23/06/2017  /  18:18

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“Desejo Motivo” é um acontecimento. Surgiu a partir de um pedido da artista plástica Carolina Paz, que fez uma chamada pedindo que as pessoas lhe enviassem cartas. Cartas sobre qualquer coisa, desde que fossem escritas em papel, enviadas pelos Correios. A ideia? Produzir uma pintura para cada uma delas.

O trabalho que vem sendo desenvolvido desde o final 2015. Na primeira semana de 2016, Carolina abriu uma chamada pública em redes sociais (e também na fachada do seu ateliê) para que interessados enviassem histórias, pedidos, desejos, assuntos, motivos para ela. Recebeu 44 cartas, fez 44 pinturas.

O processo se materializa para o público neste sábado, com uma exposição do Auroras, uma conversa sobre o processo com a artista, curador Divino Sobral, o crítico José Bento Ferreira e a artista Rivane Neuenschwander  e entrega dos trabalhos ao seus quase coautores. (Eu mandei uma carta, estou louca pra ver o resultado!)

Conversei com a artista sobre todo o processo, suas referências e tudo mais.

Desejo Motivo: acontecimento, de Carolina Paz
Sábado, 24 de junho, das 14 às 19 horas
Mesa redonda: 16:30 horas
Auroras – Avenida São Valério, 426, São Paulo
Informações: desejomotivo@carolinapaz.com

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– Como surgiu a ideia do Desejo Motivo?

Foi durante uma residência artística que fiz em Nova York, em 2014, acho que por conta da convivência com os outros artistas residentes, tive a vontade de incluí-los de alguma forma nas pinturas que eu estava fazendo. Eu estava procurando abrir mais meu repertório de imagens, não ficar só na figura humana e objetos “domésticos”. Pedi, então, que me dessem um “assunto” para pintar (não uma imagem, um assunto),  para eu pensar e, então, pintar uma imagem que trouxesse meu repertório meio que dando uma continuidade à conversa. Porque meu interesse continuava sendo (e ainda é) os relacionamentos, os contatos mais íntimos, algo de privado, afetivo… Então me empolguei e passei o ano seguinte, 2015, pensando em como fazer isso. Até saiu uma exposição na época, “Teoria dos Conjuntos”, com essas imagens.

Conversa vai, conversa vem (com outros artistas e amigos críticos, curadores), fui lapidando a ideia do “Desejo Motivo”. Desta vez, eu queria algo físico do outro, uma presença. Primeiro pensei nas pessoas virem no meu ateliê para conversar. Tipo consultório! (risos) Mas isso me pareceu que limitaria muito. Daí pensei nos textos, em receber textos, pedidos, histórias, causos, lista de compras de supermercado. E desta vez eu daria uma pintura em troca dessa presença, dessa disponibilidade à pessoa que se manifestasse, em vez de usar sua proposição como insumo de um trabalho que teria outro destino (a galeria, por exemplo). O trabalho neste momento já não era mais a pintura. Ela se tornava parte, uma peça, uma moeda. A obra é a rede de vínculos criada. Isso pra mim era a proposta do “Desejo Motivo” desde o começo, a intensidade disso é que realmente eu desconhecia, ou não me preocupei muito logo de saída.

Enfim… Ah! As cartas! Fazer tudo pela internet não me interessava porque, pra mim, o texto digital não tem a mesma textura do que o texto no papel (e o projeto comprovou isso). Então, cartas! Enviadas por correio ou entregues em mãos, não importa. E realmente valeu a pena, cada carta foi um surpresa. Rolou muita emoção no recebimento de cada uma. Há uma expectativa, uma chegada e uma presença.

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– Como foi a adesão?

Foi alta! Tanto que eu logo que saquei que a coisa ia crescer muito resolvi dar uma data limite muito antes do que eu havia imaginado. Foram apenas 3 meses para receber as cartas pois eu não daria conta. Achei que não haveria tanta gente disposta a ter o trabalho de escrever a mão, caprichar em um envelope, ir até os Correios (que foi o caso da maioria). Essa é uma primeira edição e foi muito experimental todo o processo, por isso quis limitar mais. Nesta recebi 44 cartas. Foram 44 pinturas. Uma parte de pessoas conhecidas, amigas mas uma outra parte de pessoas completamente desconhecidas que passei a me relacionar a partir do projeto. Demais, né?! Haverá outras edições e já penso em estabelecer algum critério diferente de limite, não necessariamente por data. E também, tenho vontade de abrir para outros idiomas que conheço e ampliar ainda mais o espectro dessa rede. Bom, mas isso são ideias ainda a lapidar.

– Conta como foi todo o processo? Da ideia ao recebimento das cartas passando pela produção das peças?

Cada carta, foi uma experiência singular. Eu lia, pensava, passava uns dias convivendo com ela, imaginando uma resposta não verbal e só então pintava. Algumas foram um processo mais suave, outras um embate de algumas idas e vindas. Não foi “pá pum”. Eu me propus viver cada leitura e cada pintura com a máxima intensidade. Apesar de pequenas (até para que todos os futuros transportes delas sejam bem fáceis e ela possam voltar a conviver eventualmente em quantidade e com outras de novas edições) elas deram trabalho. Não foi fácil. É muito mais fácil pintar a partir de uma pesquisa solitária, criando no ateliê o que der na veneta. Quando abri esse vínculo, a coisa complicou. Mas foi um desafio incrível em vários níveis. Foi uma experiência que me transformou.

– Teve algum momento em que você pensou em desistir?

Claro! Muitas vezes! (risos) Teve momento que sofri pra valer. Teve história que até agora não sei se consegui entrar direito nela, sabe? Será que é assim que um psicanalista se sente?! Lembrei muita da minha! Por que será?! (risos)
Mas o compromisso é algo incrível. Esse compromisso em dar uma devolutiva tão precisa e pontual: “uma pintura a óleo e ponto final” dá um super norte e prossegui. Claro que agora no final (dessa etapa) estou surpresa com o tamanho que a coisa toda tomou. Eu consigo perceber sua força e ela é tremenda. Acho que todos os envolvidos percebem ou perceberão, com mais ou menos intensidade, isso também. Passar batido não dá. Tem muita coisa aí.

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– O que você aprendeu com o processo?

Nossa! Muita coisa. Desde mais repertório formal com a pintura como linguagem até essa camada de quarta dimensão que é quando a obra acontece dentro do espectador, dentro dos participantes (eu inclusa). É um lamaçal fértil, infinito, de possibilidades poéticas. É muito repertório, muito desdobramento. Aprendi que arte interessa, que as pessoas desejam conviver com ela e se manifestar através dela. As cartas que recebi são objetos de arte pra mim. Sinto-me privilegiadíssima em ser portadora desses objetos que não são só seus conteúdos. Aprendi também que o amor é o assunto mais universal mesmo e que o sentimos ainda mais presente quando ele parece nos faltar. É muito locou, muito humano. Fico tão contente em ter empreendido com esse projeto em tempos de sérios dramas políticos, ambientais e sociais tão lamentáveis em todo o planeta. É um alento conviver com essa rede do “Desejo Motivo” com tanta doação e entrega. Isso dá ao projeto um caráter político, ele ganha mais força e importância pois trata-se um esforço em ir contra o clima de desconfiança, encapsulamento e discórdia que parece estar dominando nosso cotidiano. Enquanto, ao que parece, vivemos tempos de divergências, neste projeto a gente converge. Mesmo que não vençamos no final, esse esforço em compartilhar sempre valerá a pena.

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– Conta da sua trajetória como artista? Quando você começou, quais suas principais referências, qual legado você quer deixar pro mundo?

Minha formação é em ciências sociais e foi através dos pensamentos sociológico e antropológico que acabei me aproximando das artes visuais. Foi um processo bem sutil de transformação. Ainda me identifico com a cientista social apesar de efetivamente me intitular artista. Meu interesse, desde o começo, são as pessoas na intimidade, na minha intimidade, da minha intimidade, nossas identidades, práticas cotidianas, repertórios (não necessariamente, ou não somente, memórias). Durante meu percurso percebo que sempre mantive a atenção ao pessoal, ao indivíduo, e não à representação de algo mais generalizado socialmente, entende? Claro que o contexto social entra de alguma forma, é inevitável, mas acho que ele é indireto. A pessoa, o sujeito vem em primeiro plano. É um movimento do micro para o macro. Comecei com retratos, fui às cenas domésticas, trabalhei com objetos da intimidade e dos afetos (travesseiros, louças, café e açúcar etc)… Hoje o repertório imagético está bem expandido e as pessoas, que ainda continuam em primeiro plano, são mais integradas e associadas ao trabalho e entre si (acho que cheguei nesse ponto com “Desejo Motivo”), elas são parte da obra e não apenas o assunto ou o espectador num sentido mais tradicional, que seria separado do trabalho.

Minhas referências são muito diversas e não ficam só nas artes. São muitas mesmo. Atualmente, tenho me dedicado aos estudos sobre a ética de Espinosa (a partir de Deleuze) e tenho olhado muito para artistas como Rivane Neuenschwander, Cildo Meireles e Lygia Clark. Isso hoje, essa lista de referências é bem comprida.

Sobre legado não penso nisso. Vou vivendo e só. Acho que a gente pensa em “salvar o mundo” ou “fazer história” até a faixa dos 20 anos, depois a gente descobre que há tanto de relativo e tanto de impotência na própria existência humana que isso fica desimportante. Pelo menos pra mim! (risos) Se eu puder viver o melhor de mim cada dia, ajudar às pessoas a serem o melhor delas, a cada dia, através da arte, da conversa, enfim, do convívio, tá ótimo, excelente, super! Não vivo minha vida pra mim, nem pra minha arte. Cultivo a vida que há em mim a serviço dos vivos, dos demais seres viventes. Vida pela vida? Acho que é por aí… Bom… Melhor deixar em aberto com muita pausa, lacuna, suspensão, esgarçamento e reticência…

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Trilha: Inky, música eletrônica com pegada rock made in Brasil

por   /  13/10/2016  /  15:15

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De vez em quando entro numas de ouvir música eletrônica made in Brasil. E gosto bastante, ainda mais quando tem uma pegada de rock. Conheci a Inky com “Parallels”, o primeiro EP, que foi lançado em 2010. De lá pra cá, curti o clipe de “Baião”, vi um show em algum lugar que não lembro e, agora, tenho ouvido “Animania”, o segunda álbum do grupo formado por Luiza Pereira (vocais e sintetizadores), Guilherme Silva (baixo), Stephan Feitsma (guitarra) e Luccas Villela (bateria). A produção é de Guilherme Kastrup, que assina, entre tantos outros, “A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares.

Ouçam o disco > https://www.youtube.com/watch?v=j46melKgk_E

Pedi pra Luiza uma playlist com suas principais influências, que vão de PJ Harvey a Savages, passando por Janis Joplin, Pixies e Warpaint. Ouçam!

Aproveitei pra bater um papo rápido com ela, espero que gostem!

Ah, a banda faz show no próximo domingo, em São Paulo. Saiba mais > www.facebook.com/events/1052784464777526

– Conta um pouco da sua história? Como você começou a cantar? Quais foram suas principais influências?

Comecei a fazer aulas de música desde muito pequena, com 4/5 anos. Primeiro iniciação musical e depois aulas de piano. Nessa mesma época comecei a querer cantar me acompanhando no piano e achava mais fácil me expressar assim; a voz é um instrumento muito pessoal, cantar é um processo de autoconhecimento, de desvendar o seu instrumento e se descobrir. Gostava muito do jazz e de cantar standards clássicos. Uns anos depois, descobri o rock, a Björk, o Thom Yorke, a Beth Gibbons (e outros vários) e fui descobrindo minha personalidade artística no meio disso. Já no synth, tive uma grande influencia do “disco punk”, dos anos 80 e do trip hop.

– Como é ser mulher no mercado da música? É um espaço de mais acolhimento ou ainda tem bastante preconceito?

Acho que poucos mercados de trabalho são acolhedores pras mulheres. Salvo aqueles de carreiras consideradas “femininas”. O mercado musical é extremamente masculino. Desde produtores, engenheiros de som, roadies, músicos… E ser mulher nesse mercado é ser constantemente testada, subestimada e desrespeitada. Já ouvi homens questionando se eu sabia ligar meu instrumento, se eu tocava com playback, já fui assediada, já ouvi que eu tava na banda porque “era legal como marketing”, enfim… Ainda tem essa mentalidade de que mulher não tem capacidade e somos reduzidas ao nosso gênero e à nossa aparência. Mas isso tá mudando aos poucos, e fico feliz de ver cada vez mais mulheres trabalhando no mercado e mostrando qualidade e competência.

– Qual caminho você espera seguir com a INKY? Conta como vocês começaram, como estão atualmente e quais os planos pro futuro?

A gente começou a tocar em 2010. O Gui (baixista) tinha um projeto de musica eletrônica com baixo ao vivo e queria que isso virasse uma banda. Na época, eu tinha 17 anos e tinha acabado de comprar um synth e ele me chamou pra fazer um ensaio com outros integrantes e ver no que dava. A INKY nasceu e eu tô na banda desde então 🙂
Lançamos nosso segundo disco, Animania, em agosto desse ano e começamos a fazer os shows desse disco e a absorver essa nova fase. Espero que a gente continue crescendo, tocando pelo Brasil e pelo mundo e podendo trabalhar com pessoas que a gente admira.

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