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As lições de Tina Roth Eisenberg

por   /  26/11/2014  /  8:08

Tina

Foi fazer um sabático sem clientes e nunca mais voltou pra eles. Em entrevista para o blog da Contente, a trajetória de Tina Roth Eisenberg, criadora do swissmiss, da Tattly, do CreativeMornings e uma das nossas maiores inspirações!

Leiam em > http://contente.vc/blog/as-licoes-de-quem-tirou-um-sabatico-sem-clientes-e-nunca-mais-voltou-pra-eles/

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Precisamos falar sobre o feminismo

por   /  31/10/2014  /  15:15

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Não tinha me dado conta de como o feminismo deve ser uma questão cotidiana*, até o dia em que fazia uma aula de alongamento na academia e três caras entraram para fazer um serviço no ar-condicionado e ficaram secando as mulheres da turma. Foi uma situação desconfortável, pra não dizer nojenta, e eu me senti invadida. Uma parte ficou no deixa disso, eu resolvi reclamar com a coordenação, que prontamente falou que aquilo não ia mais acontecer. Passei o resto do dia pensando nesse tipo de armadilha que tantas vezes cruza o nosso caminho, em como a gente pode cair facilmente (do tipo se achar gostosa porque o cara tá olhando) e, principalmente, no quanto a gente precisa entender melhor várias questões e aprender a se afirmar cada vez mais.

Faz pouco mais de seis meses que voltei para o Facebook, depois de ficar um ano longe. Para não ficar saturada, decidi por menos ruído, mais informação. Entrei em alguns poucos grupos, número suficiente para que eu acompanhe as discussões que acontecem neles. Vi minha relação com a rede mudar. Feminismo era um assunto que me interessava pelas bordas, eventualmente. Depois que entrei no grupo Talk Olga, isso mudou. Comecei a acompanhar as histórias que as garotas postam, a ler um monte. Passei a usar com frequência a palavra empoderamento – e a vibrar cada vez em que ouço uma história desse tipo.

Jamais achei que um grupo no Facebook fosse capaz desse tipo de transformação. Por isso, decidi entrevistar a Juliana de Faria, jornalista, criadora da Olga, um dos melhores sites feministas que você vai encontrar na internet, e moderadora desse grupo no Facebook que é capaz de fazer mudanças na vida de várias mulheres. A entrevista é longa, do jeito que eu gosto. Espero que vocês gostem também! E, desde já, sugiro que acompanhem os canais: www.thinkolga.com e www.facebook.com/groups/talkolga

* Isso soa bobo, eu sei, me deixou com receio de postar, mas foi essa situação que aconteceu recentemente que me despertou com mais intensidade pro movimento. Já tinha passado por outras situações opressoras, tinha me incomodado e sentido nojo, claro, mas foi nesse dia que a questão deixou de ser uma coisa que vem e vai e se firmou mesmo. Pra não ficar com uma abertura rasa, deixo vocês com outra pessoa que entende muito do assunto, a Aline Valek, que fez um compilado sobre o que as feministas defendem e um FAQ feminista.

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Qual é a primeira lembrança que você tem em relação ao feminismo?

Sempre compartilhei da luta do feminismo se partimos do significado básico do termo (do Aurélio, movimento com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos). Lembro até de defender o direito ao aborto em discussões com colegas de escola, quando ainda era pré-adolescente. Mas por muito tempo reneguei a credencial de feminista por acreditar que o feminismo me renegava. Na minha ignorância, acreditava que algumas das minhas ações, como me interessar por moda e beleza e ter me casado no papel, já me excluíam do movimento. Foi graças a debates na internet que me aprofundei no assunto, entendendo então que feminismo também significa liberdade e empoderamento. Criei uma definição do meu feminismo: lutar para ampliar o leque de opções das mulheres. E que elas possam tomar suas próprias decisões, livres de pressões externas, sem ter que pedir desculpas pelos caminhos que escolherem.

E como e quando o feminismo virou uma causa para você?

Eu estudei jornalismo e, depois de cansar de fazer matérias sobre qualquer assunto que caía no meu colo, decidi me especializar em uma área. Estudei moda, em Londres. Fiz dois cursos na Central Saint Martin’s, de marketing de moda e styling. Este último me fez perceber que eu não tinha o menor jeito com roupas (haha). Lembro de uma aula em que tínhamos que reconhecer os tecidos pelo toque e, nossa, eu tinha uma dificuldade para distinguir o que era seda e do que era sintético (haha). Claro que me perguntava se eu estava fazendo a escolha certa. Mas tão logo entendi que moda é uma coisa ampla, e a parte social e antropológica dela era o que me interessava. Por isso que digo que sempre gostei mais de mais falar sobre as mulheres que vestem as roupas do que as roupas que vestem as mulheres. A partir daí, comecei a trabalhar em redações de revistas femininas. Conheci mulheres inspiradoras, apaixonadas pelo que faziam e aprendi muito. Mas também senti que meu interesse pelo feminino ultrapassava a barreira dessas publicações. Notei que minhas sugestões de pautas já não faziam mais sentido para aquele espaço. Muitas delas eram rejeitadas por não conversar com a linha editorial das revistas. Um exemplo era a minha vontade de falar sobre assédio sexual. Decidi criar meu próprio projeto. Se não poderia escrever sobre o que me interessava nessas revistas, criaria um blog próprio, onde teria mais liberdade. E poderia também ser uma opção de leitura para outras pessoas, caso houvesse esse interesse. E o feminismo pautou muito a criação desse espaço, que é a OLGA, e a escolha dos assuntos que eu trataria. Ali, fui desconstruindo um monte de conceitos que oprimem as mulheres, pressões sociais que deixam nossa vida mais difícil. Assim como criando campanhas e projetos cujo objetivo é empoderar mulheres em diversos áreas — de violência de gênero à liderança no trabalho. Não foi um projeto que nasceu com um conceito totalmente pronto. Aprendi e ainda aprendo muito sobre feminismo conforme vou caminhando. Mas a essência dele, de querer criar conexões mais verdadeiras com as mulheres, será sempre a mesma.

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Você trabalhou em revistas femininas, espaços que não costumam oferecer uma visão mais completa e complexa da mulher. O que mais te incomodava nessa época?

A limitação de assuntos. As revistas femininas não deveriam ser chamadas assim porque suas páginas trazem matérias sobre moda, beleza e sexo. Isso é dizer que mulher só se interessa por esses assuntos. Na minha visão, essas publicações deveriam tratar de todos os assuntos — política, economia, cinema, música, arquitetura, carros, futebol — mas com um viés feminino e feminista. Já temos exemplo de publicações que fazem isso muito bem. Lá fora, Rookie Mag, Libertine, Frankie Mag, The Gentlewomen. Aqui, gosto de citar a revista digital Capitolina, que é voltada para adolescentes e não restringe seu conteúdo a boyband e virgindade. Elas falam sobre crise de ansiedade, ciência, homossexualidade, roubos em museus (!), medo da morte, violência doméstica, fantasias sexuais, racismo, quadrinhos, ditadura. Eu acho que as femininas estão no caminho da mudança. Muito vem sendo feito, de verdade, como a capa da Nova com a Preta Gil. De novo, a Nova apoiou a campanha Não Mereço Ser Estuprada, o que foi muito legal também. Mas elas ainda pagam um preço pelo seu histórico — e também pelas chamadas de capa, que insistem na fórmula antiga da “barriga chapada” e “as formas como enlouquecer seu homem”.

Você conseguia de alguma forma driblar as limitações e falar de temas que te interessavam, que mostravam um pouco daquilo em que você acredita?

Eu trabalhei no Modaspot, o extinto portal de moda da Editora Abril, e a diretora de redação era a Eliana Sanches, uma chefe muito incrível que me dava carta branca para pirar. Por ser um site, havia mais espaço (literalmente) para escrevermos sobre o que quiséssemos. Fazia sim o feijão com arroz (tendências, passarelas, o look do dia da celebridade), mas tive também a oportunidade de escrever matérias que debatiam o transgênero, por exemplo. Também criticamos a exposição das crianças no mundo da moda. Mas faço a mea culpa: já escrevi sim coisas das quais me envergonho por pura automatização da reprodução de discursos machistas. Por isso brigo muito para que nós, jornalistas, paremos para refletir sobre a mensagem que colocamos para o mundo. As palavras têm força e temos que tomar cuidado com a escolha de cada uma delas. Quando dizemos que uma atriz foi FLAGRADA sem maquiagem, o termo traz um peso de que ela estava cometendo um crime, sabe? Outra coisa: temos que escutar as leitoras, mas escutar para valer e não atrás de uma janela de vidro, durante uma pesquisa de mercado feita pelo marketing. A conversa entre criador de conteúdo e consumidor de conteúdo precisa ser horizontal e não vertical.

Foi quando suas pautas começaram a ser rejeitadas que você decidiu criar um blog, né? Conta como surgiu o Think Olga?

Sim, exato. A OLGA nasceu dessa vontade de poder criar um conteúdo sobre mulheres, para mulheres, que não fosse condescendente, baseado em clichês. Além disso, queria que fosse um espaço para evidenciar as desigualdades de gêneros — do gap salarial à baixa participação das mulheres como fontes em matérias — e criar soluções para elas. É um sonho e uma responsabilidade imensa, que não vem acompanhada de apoio financeiro.

Falar com a mulher de uma maneira livre de estereótipos é uma das premissas do projeto. Quais são as outras?

Gosto da frase da jornalista e ícone feminista Gloria Steinem: “A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar”. E o feminismo é a conquista de poder pela informação. Uma mulher bem informada – dos seus direitos, das suas possibilidades e principalmente de realidades tristes e injustas – é uma mulher com mais força para lutar e para buscar alternativas e mudanças. E a OLGA nasceu a partir desse desejo de criar uma conversa mais honesta, mais acessível com as mulheres. De criar conteúdo livre de estereótipo, de linguagem paternalista e pressões sociais. O projeto acabou indo além e se desdobrando em diversos outros braços: workshops, encontros, palestras, exposições, projetos colaborativos, um grupo de debate com mais de dois mil membros e até um ebook. Trabalho em diversas plataformas, mas sempre com o mesmo objetivo: empoderar mulheres pela informação.

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Como você articula a rede de mulheres que fazem pesquisas, escrevem textos e ilustram os posts?

Temos algumas colaboradoras voluntárias fixas, como a advogada Gisele Truzzi, que responde dúvidas judiciais das leitoras e até fez um FAQ sobre violência e assédio online (www.thinkolga.com/2014/04/01/f-a-q-juridico-violencia-virtual/).

A Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais, é conselheira do projeto e traz a visão acadêmica para dentro do projeto [ela já foi entrevistada para o blog da Contente; A armadilha do faça o que você ama]. A Luíse Bello, também diretora de comunicação da Olga, e a Gabriela Loureiro têm uma presença se alternam na criação de conteúdo. Esse é o núcleo duro. Mas como a maioria dos nossos projetos, a Olga também funciona de forma colaborativa. Publicamos quadrinhos, ilustrações e textos de quem quiser colaborar. As portas estão abertas!

A internet é recheada de textos que dizem como a gente deve ser, o que fazer. Como despertar a atenção para um conteúdo que é diferente disso – sempre mais aprofundado, falando de temas “difíceis”?

Acho que se eu tivesse uma fórmula, seria mais um dos textos que dizem o que a gente deve fazer e ser para atingir o sucesso. Hehe. Não sei, Dani, mas acredito que a internet abraça todo tipo de pessoa, inclusive quem dá preferência para textos mais aprofundados e complexos. Não tenho regras para despertar a atenção do público: apenas vou lá e faço o que acredito estar certo. A Chega de Fiu Fiu, por exemplo, foi rejeitada quando ofereci como pauta para uma revista. Mas quando a coloquei na internet, sem qualquer trabalho de assessoria de imprensa ou de relações públicas, ela viralizou. Felizmente, existiam várias outras pessoas que queriam ler, falar, discutir sobre o assunto. É claro que nunca terei a mesma audiência do Buzzfeed, afinal, meu conteúdo fala com um nicho. Mas vejo vantagens em falar com nicho — os leitores são muito mais engajados e participativos. Trabalhei vários anos em redações e recebi meia dúzia de e-mails de leitores. Na Olga, tenho um contato frequente e direto com o público, o que fortalece meu trabalho, me dá direções de onde devo mirar. É importante ter esse feedback instantâneo, principalmente para sabermos onde erramos e como podemos acertar numa próxima vez.

Você já tem um modelo de negócios? Como vê a Olga crescendo?

A Olga não é uma empresa. Ela é um movimento cujo objetivo é empoderar mulheres e o ativismo é a sua base. Ou seja, sinto que mudamos o mundo de fora (mobilizando pessoas) para dentro (criando pressão social em órgãos públicos, empresas privadas etc) com ações sem fins lucrativos. Mas debaixo do guarda-chuva da Olga pretendo sim lançar um braço que incentive mudanças e transformações feitas de dentro para fora também. Ou seja, buscar parcerias com marcas, empresas e agências que estão na liderança de produção de produtos para as mulheres e assim poder, por meio de consultorias, criar conexões mais humanas com o feminino.

Por que o feminismo ainda é um tema que não interessa a tanta gente? Quais são as armadilhas que travam as mulheres em relação ao feminismo?

Na verdade, acredito que o feminismo nunca foi tão popular. Nunca vimos tantas celebridades — pessoas imersas em uma indústria ainda muito machista que fatura em cima de padrões de beleza — se declarando feministas. A internet está repleta de produtores de conteúdo feminista de qualidade. E até mesmo jornalistões das antigas e meios de comunicação conservadores já não hesitam mais em usar o termo “feminismo”. Fico feliz em notar que ultrapassamos a barreira do medo de falar sobre o assunto. Mas, sim, acredito que existam ainda armadilhas que travam as mulheres em relação ao movimento. Basta ver campanhas como “mulheres contra o feminismo”. E acredito que essa aversão nasce da ignorância do que é o feminismo. Há muitas estereótipos e informações equivocadas sobre o movimento, muitas delas espalhadas por páginas machistas, com o objetivo de minar o ativismo. O feminismo busca simplesmente oportunidades iguais para homens e mulheres. Como alguém pode ser contra isso?

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Beyoncé citar o feminismo ajuda a mudar um pouco isso? Quais outras iniciativas do tipo você gostaria de ver como notícia?

Ajuda muito. Existem algumas pessoas que acreditam que existe “feminismo certo” e “feminismo errado”. Mas como podemos julgar o ativismo alheio se o movimento não tem mesmo nada de absoluto? Publicamos um texto chamado Flawed: Uma feminista Imperfeita (www.thinkolga.com/2014/08/28/flawed-uma-feminista-imperfeita/), da Fabi Secches, em que ela analisa as críticas às ações da Beyoncé. Ela diz: “O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.” E ela aplaude o ode que Beyoncé faz à escritora Chimamanda Ngozie Adichie. “Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.” Então sim, ver um telão gigante escrito FEMINIST no palco do VMA, da MTV, é uma grande conquista. Queria eu, quando jovem, ver meus ídolos se declarando feministas assim abertamente. Isso me ajudaria a ter contato ainda mais cedo com um movimento que luta contra desigualdades. E ok, o universo pop está superando o medo da palavra. O próximo passo é ver essas celebridades registrarem ainda mais apoio às lutas do feminismo, como aborto, a luta contra a violência de gênero, o gender gap. E é algo que, aos poucos, estamos vendo — de Sheryl Sandberg falando de mulheres na liderança de empresas à Emma Watson representando a ONU Mulheres.

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Você já tinha sofrido assédio bem antes da Olga. Com a repercussão das campanhas, também. O que mais te enoja em tudo isso e quais providências você costuma tomar?

O assédio é uma violência que humilha, traumatiza e amedronta a mulher. Ele não surge da valorização e sim das relações de poder de gênero, da necessidade de impor na mulher um desejo sexual independente de consentimento. Acho aterrorizante perceber como não temos direito aos espaços públicos, mas nossos corpos são sim vistos como públicos. Como se qualquer homem tivesse o direito a usá-lo da forma que bem entender, em qualquer lugar, a qualquer hora. É lamentável o fato de que nós, mulheres, não podemos experimentar cidade da mesma forma que homens — temos medo de ir a certos espaços à noite, de passar em frente a locais com grande concentração de homens, que pensamos duas ou três vezes nas roupas que vamos usar para escapar dessa violência. Jamais, na história da sociedade, um homem precisou ter essas mesmas preocupações. Sempre tive muito medo de responder a assédios — mesmo porque eles começaram quando eu ainda era criança, aos 11 anos. E não foram apenas assédios verbais (que considero uma violência também bastante dolorida para a mulher). Aos 13, um desconhecido na rua puxou meu braço e me empurrou na parede, dizendo que “eu era muito bonita e que queria me comer”. Por sorte, ele estava bastante bêbado, então tive forças para me desvencilhar. Mas e se não tivesse forças? Nós nunca sabemos quando um assédio pode virar estupro ou até mesmo um outro tipo de violência. Quem nunca respondeu a um assédio e, em seguida, ouviu um xingamento ou até mesmo sofreu uma violência física? Mas sinto que graças a campanhas contra o assédio, as mulheres se sentem mais corajosas para responder, buscar ajuda, denunciar para policiais. E também convido a todas que quiserem denunciar qualquer violência contra a mulher a entrar no mapa Chega de Fiu Fiu (www.chegadefiufiu.com.br) e compartilhar sua história. Nossa proposta com a ferramente é de registrar os locais problemáticos do Brasil. E ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público.

Quais as histórias mais difíceis que você já ouviu depois de ter aberto esse espaço?

Antes do mapa, abri um espaço na própria Olga para publicar depoimentos de mulheres vítimas de assédio sexual. O recorte era esse. Mas rapidamente as denúncias já se ampliaram para outros tipos de violência de gênero: violência doméstica, machismo no trabalho, gaslighting (www.papodehomem.com.br/porque-as-mulheres-nao-estao-loucas/), racismo, gordofobia, homofobia, abuso sexual na infância e estupro. Foi um espaço em que elas acharam para poder relatar o que sofriam, botar pro mundo os horrores que viviam. Já recebi milhares de depoimentos sobre violência contra a mulher. No grupo de discussão da Olga, também tenho contato com muitas histórias de partir o coração. Confesso que até hoje eu me emociono com esses depoimento, choro, passo raiva, sinto meu coração acelerar. Vivo alternando entre o otimismo (pois acho que estamos avançando muito na conversa sobre violência contra a mulher) e o pessimismo (pois às vezes acho que a única solução para um mundo que permite que mulheres sejam abusadas desde a infância é explodi-lo em milhões de pedacinhos).

Você se dá conta de como ajuda a transformar a vida de várias mulheres?

Espero que a OLGA esteja mesmo cumprindo com o que se pretende, que é empoderar mulheres. E faço também a pergunta ao contrário: será que essas mulheres se dão conta de como me ajudam a transformar a minha vida?

Daqui a 10 anos, o que espera para você, para a Olga, para a causa?

Espero que as mulheres passem a ser tratadas como seres humanos — por revistas, pela publicidade, pela política, pelos homens. Seres humanos de direitos, de desejos e vontades próprias. Será que é querer muito? :-)

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O vazio na fotografia de Ana Teresa Bello

por   /  21/10/2014  /  9:09

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Viver o Instagram há quatro anos, diariamente, é um grande exercício sobre o olhar. Tanto o meu, quanto o do outro, principalmente. Adoro descobrir fotos que me dizem alguma coisa. Adoro acompanhar os amigos e conhecidos, claro, mas gosto ainda mais de acabar parando no perfil de alguém e, de repente, me impressionar com as imagens reunidas ali.

Existe uma coisa nessa descoberta que me lembra a internet do fim dos anos 1990, quando a gente ficava amigo das pessoas porque elas gostavam da mesma banda que a gente ouvia sem parar ou porque elas tinham lido os autores que nos faziam nos sentir menos sozinhos no mundo. Parece que naquele tempo existiam menos narrativas de uma vida perfeita, e mais conversa. Menos contatos, e mais afinidades.

Há um tempo, conheci o Instagram da Ana Teresa Bello. Ana é decoradora e é apaixonada por fotografia. É dona da Amy, “uma felina cheia de personalidade, colecionadora de arte e afeto, carioca da Gávea e apaixonada por São Paulo”.

Passei a acompanhar o dia a dia dela e me surpreendo com o olhar que ela tem para cada foto. Pedi pra ela escolher algumas pra postar aqui. Ficamos entre a Islândia e o vazio, que ganhou. Fiz umas perguntas, e ela devolveu com um texto que diz muito sobre o que a fotografia representa na vida dela.

No Instagram > @anatbello

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Foi muito difícil responder essas perguntas, porque é sempre complicado para mim falar o que me motiva a fazer alguma coisa. Sempre fui melhor de imagem do que de fala, talvez por isso trabalhe com interiores e por isso a fotografia tenha me tomado desta forma. No meio do processo de descrever o que eu gosto de fotografar, fiquei pensando no que eu não gosto de fotografar, no sentido da possibilidade de filtrar em um frame o que eu quero mostrar para o outro, o que eu escolhi ver.

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E isso me encanta, poder selecionar apenas uma parte de alguma coisa maior e registrar aquele universo tão particular e tão meu, mas que ao mesmo tempo pode ser também um lugar comum para o outro, um sentimento ou uma imagem que ele possa reconhecer. Acho que no fundo toda vez que faço uma foto eu pense nisso, em algo que o outro também ache interessante e que de alguma forma o faça se transportar para aquela situação. Uma forma de dividir e exercitar meu olhar.

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Já faz 10 anos que trabalho com interiores e neste tempo todo fui aprendendo a selecionar, de um infinito universo de opções, aquilo que acho melhor para cada projeto. É sempre um imenso quebra cabeça de possibilidades e, de alguma forma, levo esse olhar para as minhas fotografias.

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Costumo brincar que as melhores fotos são aquelas que eu ainda não fiz, aqueles lugares que costumo passar com frequência, que sempre enquadro imaginariamente, aquela cena… Algumas eu volto e registro, outras ficam só na lista de pendências fotográficas.

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O vazio tem me interessado muito nos últimos anos, tanto em fotografia quanto em literatura, música e arte. É um interesse que tem muito a ver com o que eu observo da nossa geração, um comportamento individualista e muitas vezes indiferente ao outro. Gosto da brincadeira de pensar no vazio tanto em termos de proporções, como também de situações.

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Como te disse, tenho bastante dificuldade em observar todo este processo por estar muito envolvida por ele. Não tenho distanciamento suficiente para entender como estas imagens se relacionam, por estarem muito presentes em mim. Mas o vazio está ali, e fotografá-lo é uma forma de preenchê-lo, de dar uma história para ele.

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No começo o que me estimulava a fotografar eram os espaços vazios, as linhas, as simetrias ou a ausência delas, tudo muito relacionado à arquitetura. Depois, aos poucos, fui achando interessante quando a relação com a escala humana aparecia de alguma forma, e hoje em dia acho fundamental este elemento para a composição de uma imagem. Nada como ir treinando o olhar…

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Termino com uma frase de Bergson, um filósofo que eu admiro e que estudei por muito tempo: “O olho só vê o que a mente está preparada para compreender”. E eu espero que o meu olhar ainda me ensine muitas coisas.

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O pós-crise

por   /  29/08/2014  /  21:21

Irina Munteanu |

A melhor coisa que fiz por mim e por este blog nos últimos tempos foi escrever o post da crise dos 7 anos. Dividir a angústia foi um alívio – e já me fez pensar em várias coisas, algumas novas, outras nem tanto. Escrever me tirou da inércia. Ler os comentários de vocês aqui, no e-mail e no Twitter foi a mesma coisa que receber uma injeção de adrenalina, motivação e amor.

A gente vive um tempo maravilhoso. E muito louco. Exigimos demais de nós mesmos – e o mundo ao nosso redor parece exigir mais ainda. Temos que fazer muito, ter uma vontade incessante, nos dedicar a tudo com muita determinação.

Gostei de falhar. De ficar em dúvida. De pensar “pra quê?”. De quase desistir, ao menos por um tempo. Me senti mais gente de verdade, menos personagem nesta internet que a gente se acostumou a viver como palco.

Ver que muitos de vocês sentem as mesmas coisas aumentou meu nível de empatia em 100%. Empatia, essa palavra de que eu tanto gosto!

Entre o post da crise e este, comecei um daqueles trabalhos que nos fazem lembrar porque escolhemos uma profissão. Fui convidada para escrever os perfis dos homenageados do Prêmio Trip Transformadores.

[Vocês conhecem o prêmio? Vai para a sua oitava edição e é muito legal! Seleciona pessoas do Brasil todo que estão fazendo mudanças na vida de muita gente. Obrigada pelo convite e pela parceria, Pedrinho, Ju, Carol, Vinícius e Regina]

O que eu mais gosto no jornalismo é de fazer entrevistas. Com o prêmio, tenho experimentado conversar com um senhor de 75 anos que inventou um aquecedor solar de baixo custo, com uma juíza que mudou a história do casamento no Brasil ao proferir a primeira sentença que reconhecia uma união homoafetiva, com uma doula que fez o imperdível filme “O renascimento do parto” e mais um monte de gente.

Gente que dedica a vida inteira a uma ideia, a uma causa. Que fala com paixão sobre o que faz, sobre o que ainda quer fazer – e a força incessante de cada um deles é impressionante!

Não poderia haver momento melhor para uma crise do que esse de entrar em contato com gente admirável, inspiradora, que todos vocês vão adorar conhecer (os perfis começaram a sair na edição de agosto da Trip).

Ao longo dessas conversas, que podem durar uma hora, mas geralmente duram 5, 6, 7 horas, um dia inteiro, voltei a perceber que uma das melhores coisas do mundo é conversar ouvindo com toda atenção o que o outro tem a dizer. Ando tão fascinada por isso! Você conversa 5, 10 minutos, ok, pode saber algumas coisas sobre alguém. Passou da meia hora, não tenha dúvida: vai descobrir, ao menos um pouquinho, as nuances, o que faz aquela pessoa ser quem é.

Voltar a fazer jornalismo me lembrou do que une tudo que fiz e faço, tanto na profissão que escolhi quanto na outra que descobri ao criar a Contente com a Lu: vontade de compartilhar as coisas do mundo que me interessam e me emocionam. É quando mostro, faço um convite, converso sobre as coisas que elas ficam mais legais de verdade.

Tem momentos em que tudo que a gente precisa é olhar pra dentro, né? E depois ver o tanto de mundo que existe lá fora.

Este post é para agradecer pelas palavras de vocês, que me lembraram da essência deste blog. É muito natural para mim dividir o que me emociona. Pode ser uma foto, uma música, uma história transformadora. O mundo é tão interessante, e eu me empolgo tanto com tanta coisa, que é impossível não voltar a postar por aqui com todo o amor do mundo.

Vocês são foda! Muito obrigada.

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A foto é de Irina Munteanu.

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A armadilha do “Faça o que você ama”

por   /  18/02/2014  /  11:11

Há pouco mais de três semanas, decidimos falar menos, mas trocar mais. Criamos, então, um blog para a Contente > http://contente.vc/blog/

Para nossa surpresa, o feedback foi muito maior do que a gente esperava, o que nos encoraja a continuar pensando cada vez mais na internet que a gente quer.

Semana passada, publicamos uma longa entrevista que fiz com a Bárbara Castro, socióloga, sobre o lema “Faça o que você ama”. Coloco aqui o começo da entrevista. E peço pra que quem se interessar vá lá no blog ler tudo. Foi uma alegria conversar sobre esse tema com alguém tão brilhante. Leiam! > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos sugere com veemência o que devemos fazer para ter uma vida melhor. Seja você mesmo, ame o seu amor, faça o que você ama. Nas paredes das ruas e nos murais da internet, as frases se impõem a todo momento, nos incentivando a sermos mais completos e felizes (muitas delas até já apareceram no nosso projeto Autoajuda do dia, aliás). Mas esse mesmo incentivo, quando feito em excesso, também acaba nos causando uma certa angústia. Afinal, sabemos que a vida é feita também de vulnerabilidade e que ainda vamos falhar muitas vezes, por mais que a gente passe dia após dia em busca dessa satisfação total.

Não tinha idéia de quando o discurso do “Faça o que você ama” tinha começado a aparecer com tanta frequência ao meu redor. Geralmente quando percebo alguma coisa assim, minha primeira reação é achar que todo mundo está sentindo a mesma coisa (ô, pretensão!). Depois costumo fazer o recorte: isso deve ser coisa de nicho, do meu nicho, de gente que faz trabalhos criativos, que consegue inventar sua própria rotina etc. O próximo passo é sair da superficialidade e entender melhor o tema.

Depois de ler uma matéria da Slate que fala sobre como o lema “Do what you love, love what you do”, estampado em pôsteres lindos que compõe a decoração do home office (obrigada por me mandar, Jana!) pode ser uma grande armadilha, encontrei minhas amigas do trainee da Folha para um jantar. Comecei a discutir com uma delas sobre o texto. E qual não foi minha surpresa? A Bárbara tinha passado o segundo semestre de 2013 inteiro dando aulas sobre o assunto!

Fiz uma entrevista com ela. E o que ganhei em troca foi uma aula sobre a história do trabalho. Bárbara Castro é socióloga e doutora em ciências sociais pela Unicamp (Universidade de Campinas). É especialista em discussões sobre trabalho e gênero e atualmente dá aulas no curso do sociopsicologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho”, diz ela na entrevista. “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade.”

A entrevista completa > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

As imagens que ilustram a entrevista são da Ana Luiza Gomes.

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Futuros amantes

por   /  13/02/2014  /  18:18

Apaixonar-se por um sistema operacional que habita seu computador e seu telefone é possível – e vai acontecer quando você menos esperar. Simplesmente porque se apaixonar pelo seu sistema operacional parte da mesma premissa de se apaixonar por uma pessoa de carne e osso: um conjunto de interesse, atenção, dedicação e tempo. Se vivemos cada vez mais grudados nas telas que nos cercam, vai ser natural flertar com essa disponibilidade constante (ou ao menos cogitá-la). A vontade de ficar junto e o tesão vão aparecer em seguida. Afinal, o que é o começo do amor se não a escolha de duas pessoas de construírem uma história juntas?

“Ela” é o novo filme de Spike Jonze (“Onde Vivem os Monstros”, “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação”) e conta a história de Theodore, um cara que acabou de se separar do amor da sua vida e que ganha a vida escrevendo cartas de amor para terceiros. Estimulado por uma propaganda que quase promete redenção, o personagem de Joaquin Phoenix compra um novo sistema operacional que não apenas vai organizar toda a sua vida (incluindo seus e-mails e contatos e até um futuro livro, que sonho!) mas evoluir com ele, por meio de troca e intuição. É assim que ele conhece Samantha, que é apenas a voz de Scarlett Johansson – e consegue ser sexy pra caramba.

O filme se passa numa Los Angeles de um futuro incerto. Não dá pra saber se o ano é 2040 ou 2200. Mas dá pra perceber que no futuro não vai existir engarrafamento, o metrô vai te levar até a praia e os aparelhos tecnológicos não vão ser tão high tech, e terão, sim, um ar bem retrô. Suas roupas também. Pode apostar numa calça de cós muito alto, meio desengonçada até. E numa casa extremamente clean e funcional. Na rua, muitos painéis coloridos, de onde sempre vai sair alguma imagem em movimento. Tudo muito bonito e agradável, como se a vida tivesse ganhado um eterno filtro de Instagram.

Em contraste com as mudanças, o amor permanecerá como sempre foi. Vai começar devagarinho e, de repente, vai ter mudado o dia, fazer com que a gente queira ser melhor. E vai tornar a vida mais leve e completa. De repente pode até surgir um ciúme bobo, uma insegurança, um medo de perder aquela conquista que a gente pensa que é replicável, mas percebe que acontece poucas vezes na nossa trajetória. Vem um medo danado, e a racionalidade diz pra gente acabar com tudo. Numa dessas, grandes amores se desfazem. Em outras, se renovam. E, no fundo, a gente entende que passa a vida querendo escapar da solidão para sentir o que tivemos quando o coração foi pleno e feliz.

Criada para evoluir, Samantha começa trazendo conforto e depois apresenta o risco. E nisso ela é como qualquer um de nós. Os questionamentos da relação homem x sistema operacional, também. Conseguimos lidar com as nossas mudanças e a do outro no meio do caminho, sem nos assustarmos? Ou travamos com a incerteza e o medo? A certa altura, quando é indagado pela amiga Amy (Amy Adams) se está apaixonado por um sistema operacional, Theodore hesita. E logo depois é confortado por ela:

Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É uma coisa louca de se fazer, uma forma aceitável de insanidade.

Se fomos e somos insanos, fico achando possível que a gente escute histórias de novas configurações de amor num futuro tão longe e tão perto, ainda mais se elas vierem embaladas pelo filtro de promessa de perfeição. Pra mim, é impossível pensar no amor sem toque e pele, mas vai que pra um monte de gente não é bem assim? Daí lembro da frase de uma amiga querida: a tecnologia vai matar o amor. E pergunto: a tecnologia vai matar o amor ou a tecnologia vai inventar novas formas de amor? Deixem suas apostas nos comentários!

“Ela” entra em cartaz nos cinemas do Brasil nesta sexta-feira (14/2). Aproveitem para ver antes “Her: Love In The Modern Age”, um documentário dirigido por Lance Bangs e que mostra as reflexões de gente como Olivia Wilde, James Murphy e Bret Easton Ellis sobre o filme > http://www.youtube.com/watch?v=ZSfUcWw9zto

* Escrevi este post como um publieditorial da Sony, distribuidora do filme, e do Creators Project/Vice, que fez o documentário. Espero que vocês gostem!

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A festa é minha e eu choro se eu quiser

por   /  22/01/2014  /  8:08

Escreveram o livro que traduz com perfeição várias sensações que experimentamos todos os dias ao usar o Instagram, o Facebook, o Twitter e qualquer outra rede que vier a surgir e que nos faça pensar que, quanto mais mostrarmos nossas vidas perfeitas, mais seremos felizes.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é o primeiro livro de Maria Clara Drummond, escritora e jornalista carioca de 27 anos. Em pouco mais de 80 páginas, ela faz uma crônica do que eu tenho chamado de Vazilândia (talvez fosse mais legal traduzir o termo pro inglês: Emptyland. Mais cool, né? Mas não).

Vazilândia é um universo nada obscuro, do qual qualquer um pode fazer parte. É o mundo da aparência e da falsa conexão, onde importa se vestir a partir das mesmas referências, frequentar os mesmos lugares, viajar para destinos badalados, frequentar estréias e vernissages muito cool, postar o seu dia a dia no Instagram, se alimentar de likes, comentários e número de amigos ou seguidores e chegar em casa e se sentir uma merda. Sozinho, oco, perdido, sem saber o que importa de verdade ou o que quer da vida.

No livro, Maria Clara conta a história de Davi, um jovem cineasta carioca que aceita um emprego em publicidade em São Paulo, passa a frequentar as melhores festas, vai a Cannes e se sente completamente sem rumo, usa drogas legalizadas e outras não pra escapar da dureza que é acordar e não saber porque decidiu atuar com tanta destreza em um filme cujo roteiro está completamente desamarrado. Em certo momento, o personagem diz:

Na verdade, o objetivo disso tudo é: beber durante a noite para tentar esquecer a angústia ou ao menos deixá-la em segundo plano. No dia seguinte, dormir muito e só acordar no meio da tarde. Aí só falta metade do dia em consciência, e logo posso voltar a dormir ou beber. Mas não importa. De tudo o que eu faço o objetivo principal sempre é escapar.

Estamos conectados o tempo todo, viajando na nossa própria viagem de que nossa vida editada uma hora vira vida de verdade. Será? E aí vem outro trecho:

Quanto mais você se aproxima de ser um adulto bem-sucedido mais você se afasta da felicidade. E aí, cara, chega num ponto que não tem mais jeito, babou. Você não vai abrir mão das suas regalias. São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! De pessoas que também são consideradas o máximo e ser exaltado primeiro no microcosmo da Incógnito e, logo depois, no Rio de Janeiro todo, e ouvir que pessoas de São Paulo já sabem quem você é e querem estar sempre por perto, é receber uma proposta de trabalho em São Paulo por um salário muito melhor, em um cargo muito melhor e com muito mais oportunidades de ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mais gente e assim você vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando, porque você sabe que se parar por um minuto você não volta do seu buraco interno jamais.

Ops… Parece que foi você que escreveu isso em um daqueles dias em que está mais pra baixo? Também tive essa sensação. E toda vez que sinto isso, penso: não dá pra achar que o problema é o Instagram ou o Facebook, mas sim as conexões de verdade que a gente deixa de fazer com as pessoas, né? E pra falar disso, seria necessário um outro livro – ou um outro post!

Rápido, preciso e atual, “A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é um livro que fala sobre a bolha de que muitos de nós fazemos parte de vez em quando. Aproveitei pra conversar com a Maria Clara sobre essas coisas todas.

Qual foi o clique que te deu pra escrever esse livro?

Sempre gostei de escrever, mas nunca ficava satisfeita com nada – e olha que eu sempre escrevi obsessivamente. Quando tentava contos, sentia que ficavam frios e sem alma. Também escrevia algo similar a uma prosa poética, mas, na maioria das vezes, tinha alma em excesso e o resultado era muito melodramático – além de ser muito difícil editar textos tão pessoais. Com a carreira de jornalista engatilhada, o sonho de escrever um romance ficava cada vez mais adormecido.

No dia 1º de janeiro, assim que cheguei em casa da minha festa de réveillon, sentei no computador e escrevi: “Cara. Melhor réveillon da minha vida. Mas, mesmo assim, ano que vem passo em casa, quieto.” Era um desabafo, porque de fato eu passo quase todos meus réveillons em casa, dormindo, e este eu passei em uma superfesta na casa de uma amigo, me divertindo horrores. Mas aí, sem muito planejamento, surgiu esse personagem e todo o círculo de amigos dele e suas respectivas personalidades. Escrevi praticamente o capítulo 1 inteiro neste dia, de uma vez só – mas é lógico que, ao longo dos seis meses que passei me dedicando ao romance, ele foi reescrito inúmeras vezes. O livro foi criado espontaneamente – sua estrutura foi sendo desenvolvida na medida que ele ia sendo escrito, na base de muitos testes.

Da série perguntas carregadas de suposição: como foi escrever uma história baseada na vida de 90% dos seus amigos e conhecidos?

Praticamente nada que existe de factual do livro foi baseado na vida de pessoas que eu conheço, somente alguns detalhes que serviam de inspiração para uma ficção nascer dali. Por exemplo, poucos dias antes do réveillon, fui à Comuna (bar que eu e meus amigos frequentamos no Rio) e, no bar, desabafei para um amigo: Não estou aguentando minha existência. Ele pegou a cerveja dele e disse: Ninguém aqui aguenta, tá todo mundo fingindo. E aí ele foi dançar e eu fiquei olhando aquele grupo de pessoas, aparentemente tão alegres. Fiquei com esse diálogo na cabeça (que reproduzi no livro) e dali surgiram várias cenas e pensamentos para a história. Muitas das reflexões foram baseadas em conversas com amigos sobre nossa geração.

Alguém ficou chateado? Ou a reação mais constante foi do tipo: “uow, é exatamente isso! O que a gente faz agora”?

Não, a reação foi positiva. Alguns disseram que ficaram meio perturbados e envergonhados de se identificarem com o Davi, mas foi uma perturbação boa, uma reflexão.

Como é viver em um mundo em as coisas só existem se forem postadas?

Acho que a chave para essa pergunta esta no parágrafo de conclusão do livro: inveja de nós mesmos. Aparentemente todos nós vivemos uma vida incrível, somos bonitos (todo mundo é lindo no selfie), inteligentes, frequentamos festas e exposições. Mas, no fundo, sabemos que não somos tão ~ legais ~ assim e daí vem a crise. Creio que a obrigatoriedade do sucesso que sempre existiu na sociedade norte-americana tenha se globalizado com as redes sociais, a ponto de virar pecado fracassar. Procuramos aparentar sucesso e felicidade, mais do que ser – e quando passamos a vida olhando para fora ao invés de olhar para dentro fica mais e mais difícil alcançar o que seria a felicidade.

Desaprendemos a falar a real uns para os outros em troca dessa exaltação de que somos o máximo o tempo inteiro?

Quando temos amizades verdadeiras, como as de infância, existe esse momento de falar A REAL. No entanto, muitas vezes essas amizades ocupam menos espaço na nossa vida, dando lugar a amizades do trabalho ou que sejam de alguma forma importante para o networking.Em cidades mais cosmopolitas, como São Paulo, isso acontece com frequência: tem uma frase da Tina Brown, que foi editora da Vanity Fair e da New Yorker, que simboliza bem esse espírito: “You don’t make friends, you make contacts”.  No Rio de Janeiro, que é uma cidade bem provinciana, é menos comum. Você encontra seus amigos de infância no Baixo Gávea: um surfista que ainda mora com a mãe, um CEO milionário, um artista hypado… E tá tudo certo.

É difícil para quem cresceu tendo tudo e podendo tudo lidar com frustração?

Sim, com certeza. Isso já foi bem explorado por vários artigos que tentam dissecar os chamados Millennials. Especificamente no Brasil, a minha geração foi criada em um momento econômico bom, o que torna as suas expectativas ainda mais irreais – isso somado à felicidade dos outros mostrada em redes sociais e revistas de lifestyle torna a combinação ainda mais explosiva. Uma frustração normal da vida toma ares de fracasso que só você passa – os outros estão lá, felizes e bem sucedidos.

Depois de escrever o livro, você pensou em tomar uma decisão “drástica”, do tipo ficar longe de redes sociais?

Amo Facebook. Gosto de discutir sobre política e outros temas relevantes com uma gama imensa de pessoas que eu normalmente não conversaria e que tem pontos interessantes a acrescentar – aprendo a partir dos links que os outros postam, sites e assuntos que eu não teria acesso de outra forma. A linguagem de internet é descontraída, mesmo quando o assunto é sério. Isso me agrada. Normalmente, não perco meu tempo vendo vídeos virais, nem tenho muita paciência para humor de internet – de vez em quando surgem uns ótimos e é bom, mas a maioria acho sem graça. Em geral, uso o Facebook como plataforma para fóruns de discussão sobre assuntos variados.

Odeio Instagram. Perdi meu iPhone e tive que ficar dois meses sem o aplicativo e foi ótimo. Me senti bem mais leve. Instagram é superficial e desperta o pior das pessoas: inveja, competitividade, narcisismo. Atualmente uso pouco essa rede social e pretendo usar cada vez menos.

O Instagram não te trouxe nada de bom?

Acho que não. Por vezes acho divertido (estou viajando e estou gostando de tirar fotos e deixá-las mais bonitas), mas tendo a relacionar o Instagram com ansiedade. Ansiedade de se mostrar feliz, de ter a sensação de ser querida, e é uma sensação falsa, porque likes não contabilizam amor. Já ouvi alguém dizer: “acho que ela não é muito querida, ela não tem muitos likes”. Outro dia, falava com uma amiga sobre como me senti mais leve quando estava sem Instagram e ela disse: “mas aí as pessoas podem esquecer que você existe, é ruim para o marketing pessoal” – ela disse isso a sério e creio que muita gente pensa assim.

Às vezes o Instagram pode ser útil para se começar um primeiro contato com alguém que você admira, pois cria-se uma conexão de forma mais leve que no Facebook, onde normalmente você precisa conhecer a pessoa para virar amigo. Dessa forma, fico feliz de ter algum tipo de relação com essas pessoas que não conheço, mas admiro o trabalho (principalmente se essas pessoas me seguirem também), mas como o instagram não permite muitas interações por texto (onde me saio melhor – sou meio ruim com imagens e isso deve influenciar minha implicância com o aplicativo) normalmente esse tipo de contato permanece superficial, na base de likes. Então, sou meio indiferente em relação às benesses do Instagram.

O que a internet te trouxe de mais assustador até hoje?

Acho a internet ótima, o problema é alguns tipos de rede social que fazem com que seja muito tentador se comparar com os outros a partir de critérios aleatórios como likes, seguidores etc. Isso torna as pessoas mais narcisistas, autoconscientes, competitivas e invejosas. Mas nada que um pouco mais de terapia e introspecção não resolva. Qualquer problema do mundo moderno (tanto oriundo das redes sociais ou os que eu trato no livro) pode ser resolvido com uma boa dose de introspecção, silêncio, autoanálise, leitura. Menos selfie, mais Freud e Jung – as pessoas podem até começar a ler sobre esses dois pensadores em um texto de internet para então migrar para um livro.

E de mais surpreendente?

Acho internet ótima para relações pessoais, é mais fácil você se aproximar de pessoas com quem você tenha afinidades. Você tem a chance de ler sobre assuntos que normalmente não leria – eu não tinha o menor interesse sobre feminismo até minha timeline ser inundada por posts dessa espécie e só a partir daí que comecei a pesquisar sobre o assunto. Tem mil ensaios interessantes disponíveis na web. É lógico que um artigo de internet pode ser insuficiente comparado a texto mais extenso que você encontra em um livro, mas é um bom ponto de partida para você começar a desenvolver uma espécie de curadoria intelectual (ex: não me interesso sobre fenomenologia, mas descobri que amo semiótica e vou me aprofundar no assunto).

Quem você quer que te leia? Vale fazer uma citação genérica do tipo “jovens de 30 anos que moram em São Paulo” ou nominal: “aquele cara que tem a família perfeita no Instagram”.

Imagino que meu livro seja mais atraente para jovens (de qualquer canto do mundo), entre 20 e 35 anos, mas nada impede que um adulto de 55 anos leia e se identifique com o Davi.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser”, de Maria Clara Drummond

Editora Guarda-Chuva

Mais em > https://www.facebook.com/pages/A-festa-%C3%A9-minha-e-eu-choro-se-eu-quiser/1387164904851450

Crédito das imagens: divulgação + Pinterest + Pinterest

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Entrevista com o Devendra Banhart

por   /  19/12/2013  /  9:09

Em novembro, a Ana Bean me convidou para entrevistar o Devendra Banhart para a Beltrano Musical, que faz o Popload Gig. Foi rápido e inusitado!

Reproduzo o texto da Beltrano:

Tem uma coisa que não sai da cabeça do Devendra Banhart. Não importa se ele está em um karaokê, ou pensando em um poema: tem sempre essa obsessão no caminho. O que será?

Que música ele gosta de cantar com os amigos? Qual a sua banda preferida que ninguém desconfia? E com quais músicos brasileiros ele gostaria de fazer uma parceria um dia?

A Beltrano Musical foi até o Cine Joia, no dia 13 de novembro, e conversou com o cantor e com os fãs. Pelo jeito, ninguém sabia dessa paixão secreta do Devendra…

Assistam ao vídeo! ♥

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Por uma vida mais off-line

por   /  21/11/2013  /  16:30

David Baker checa email duas vezes por dia, acha extremamente rude manter uma conversa com alguém que não tira os olhos do celular e só conseguiu usar o Facebook por um mês (e odiou a experiência). O comportamento frugal em relação à tecnologia vem da experiência que ele tem na área: há mais de três décadas ele pensa, escreve, faz consultorias e dá aulas sobre o assunto. Por anos foi editor-chefe da versão inglesa da revista Wired, a bíblia da tecnologia, e hoje é professor na The School of Life, a escola criada por Alain de Botton e Roman Kznaric (“Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira + Como encontrar o trabalho da sua vida)

Nos anos 1980, Baker deixou o emprego em um escritório de relações públicas e teve que aprender duas coisas: como ganhar dinheiro sendo seu próprio empregador e como lidar com o tempo para tirar o melhor proveito dele. “Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais que o necessário”, disse ele ao Don’t Touch.

Em uma época em que o lema era “work hard, play hard”, Baker decidiu não ser um yuppie. “Tomei uma decisão de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita.”

Viver com menos talvez tenha sido o primeiro passo para que Baker começasse a entender que esse comportamento também poderia ser levado para o mundo digital, que funciona em uma velocidade e com um volume de dados impossíveis de acompanhar. “Precisamos reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usar toda a tecnologia disponível pra viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usar a tecnologia como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos”, diz ele.

Conversei com o David na última terça-feira, ao fim do intensivo que ele deu na versão brasileira da The School of Life, em São Paulo. No próximo sábado, às 11h, ele fala sobre “Tecnologia e Humanidade” no sermão da escola, que acontece no Teatro Augusta. Ainda há ingressos, aproveitem > http://www.theschooloflife.com/shop/david-baker-sobre/

O papo foi daqueles demorados e deliciosos, em que a gente vai ouvindo cada frase com total atenção (e com o celular no modo avião, por favor!), aprendendo com a experiência de quem se dedica ao assunto há muito tempo e pegando dicas para incorporar na vida atitudes que levam a um comportamento digital mais saudável.

Espero que vocês gostem! ♥

- Tem um livro que eu gosto que fala que nós esperamos mais da tecnologia do que uns dos outros. O que você acha disso?

Meu tema para este ano, porque eu trabalho para a Wired e porque ensino na School of Life, é tentar investigar o que acontece quando seres humanos e tecnologia colidem. A tecnologia está se tornando cada vez melhor mais rapidamente e isso não vai parar. E isso nos traz problemas. O primeiro é que nós temos expectativas diante da tecnologia que são despropositadas, temos a ilusão de que a tecnologia vai resolver todos os nossos problemas. E não é verdade. Existe um “solucionismo”. Tenho um problema e penso que vai existir uma tecnologia para resolvê-lo. E não é o caso. Tecnologia é ferramenta. O que nós precisamos é reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usá-la para viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usá-la como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos. Isso aconteceu na Revolução Industrial. Quando as indústrias de fábricas cresceram, as vidas de várias pessoas ficaram piores, mesmo com muita gente pensando que aquilo era sinônimo de progresso. Começamos a descobrir coisas como poluição, o som constante das máquinas. Aí mudamos essa relação. A nossa relação com a tecnologia hoje ainda é adolescente e agora estamos começando a nos tornar adultos.

- Por que você acha que nós estamos tão viciados em likes e comentários?

Por duas razões. É realmente excitante quando as pessoas dão like em alguma coisa que nós postamos. É como ser um ator em um filme, é como se fôssemos famosos. Tem uma platéia ali, de maioria de pessoas desconhecidas. “Estranhos gostam do que eu digo? Que bom!”. E nós podemos ter números. Conheço pessoas no Twitter que entram em competições para ver quem tem mais seguidores. Existe uma idéia de que podemos ser melhores por causa dos números. E o que ferramentas como Twitter e Instagram fazem é o que os psicólogos chamam de reforço intermitente. É como um jogo de azar. Vencer é o like, que vem de maneira randômica. Continuo jogando roleta porque a próxima rodada pode me fazer ganhar. Continuo postando pra ver se vem um prêmio. Pessoas que não podem deixar seus telefones de lado têm um problema psicológico.

- Há estudos que dizem que esse vício é químico também. Quando checamos email e tem uma mensagem nova, o cérebro libera dopamina. Ficamos animados e queremos de novo.

Nós temos que entender onde está a dopamina em outras áreas da nossa vida. Não é certo sentir prazer em checar email. É ridículo. Email é uma coisa prática para comunicação. Nós precisamos pensar: por que estou procurando meu prazer aqui, se poderia fazer isso de uma maneira que me preenchesse mais? Eu checo emails duas vezes por dia, geralmente. E minha vida é ok, não é um desastre. No resto do tempo eu espero encontrar prazer em outros lugares.

- E como você chegou a essa dinâmica de checar email duas vezes por dia?

Quando me tornei o editor-chefe da Wired em Londres, comecei a receber centenas de emails. Eu passava o dia lendo emails, e os projetos que eu precisava fazer, como criar uma edição digital, não iam pra frente, pois eu não tinha tempo. Daí decidi reduzir essa exposição. Sou velho o suficiente para lembrar que a comunicação era feita por correios. Quando comecei a trabalhar, a comunicação vinha duas vezes por dia. Recebíamos alguma coisa, pensávamos na resposta, escrevíamos, enviávamos. E o trabalho funcionava do mesmo jeito. Decidi checar email às 11h, depois às 16h. Também desliguei o voicemail do meu telefone, para que as pessoas não pudessem deixar mensagens. Desliguei as notificações do Outlook. Isso mudou a minha vida completamente.

- Queria conseguir fazer isso.

O que falamos aqui na School of Life é de ir experimentando. Tente por um dia, veja o que acontece. Depois por dois e assim por diante.

- Estamos sempre conectados, mas frequentemente nos sentimos sozinhos. Isso é um paradoxo ou é um sentimento que está se tornando real para cada vez mais pessoas? Qual é a importância de saber ficar sozinho?

É irônico, né? Quanto mais conectados, mais nos sentimos sozinhos. O que acontece é a Fomo (fear of missing out), o medo de perder as coisas é um sentimento muito profundo, principalmente para quem vive em grandes cidades. O que acontece é que na internet vivemos em “megalópolis”. Não consigo lembrar quantos membros o Facebook tem, mas vivemos numa população de bilhões. O que a internet promete é conexão e compartilhamento, mas o que entrega é mais uma sensação do que estamos perdendo. Nós pensávamos que a internet iria aumentar a diversidade, mas, em vez disso, as pessoas tendem a se comunicar com quem já conhecem, a criar pequenos grupos. E também não existe fronteira de tempo. Preciso estar conectado. A idéia de estar sempre conectado é ainda mais jovem que a internet, veio com a conexão banda larga. Nós olhamos como um direito que sempre existiu, mas em 1990, 1992, você tinha que ligar para um número, se conectar na internet, fazer seus negócios, se desconectar. Tínhamos uma atitude diferente: vou me conectar, falar com as pessoas, me desconectar. Mas o “always on” nos dá a ilusão de que temos que estar conectados o tempo todo, o que é um problema, porque, quando a conexão cai, a gente enlouquece.

- E qual é a importância de saber ficar sozinho?

Nós geralmente estamos sozinhos e é importante que a gente entenda que isso vem com coisas boas e ruins. No Brasil a palavra é uma só: solidão. Na Inglaterra, temos duas: loneliness e solitude. A primeira é ruim, a segunda é boa. Uma investigação que podemos fazer é como tornamos o sentimento de nos sentirmos solitários em solidão. Ficar sozinho não precisa ser uma coisa ruim. Porque a internet é baseada em conexão, quanto menos você tem parece que é pior. Mas esses momentos quando estamos sozinhos de uma maneira boa são momentos de pensamentos profundos que podem nos levar a descobertas maravilhosas sobre o que somos capazes de fazer. E pra mim estamos aqui na Terra para descobrir o potencial dentro da gente e crescer e aproveitar para fazer as coisas nas quais somos bons, que nos deixam animados e felizes. Algumas vezes a gente precisa ficar sozinho para descobrir isso. E o que acontece com a internet é que ela está sempre lá, nos chamando.

- Tem um outro livro, “The Information Diet”, que diz que nós estamos ficando obesos não apenas nos nossos corpos, mas em nossos cérebros, devido ao lixo de informação que consumimos. O que você acha disso?

Informação hoje na internet tem que gritar para ser ouvida. Acho que a quantidade de dados que trafega na internet em um mês é de 40 exabyte.

- Eu nem sei o que é um exabyte.

Exatamente. O interessante é que 5 exabytes é número total de palavras ditas pelos seres humanos em toda a história. Oito vezes isso circula na internet todo mês. É astronômico. Para ser ouvido, as coisas precisam gritar. Não é diferente do mundo, onde tem milhões de pessoas que nunca vamos conhecer. O cérebro funciona como uma banda larga doméstica. Não temos como lidar com todos esses dados. Popularizam-se coisas como vídeos de gatos, que são brilhantes. Parece que tudo é muito efêmero. Como eu cultivo solidão na minha vida? A internet é incapaz de responder isso. A velocidade da internet nos desencoraja a pensar mais lentamente. Agora o relógio nos faz pensar em resultados instantâneos. O Google nos dá resultados em frações de segundos. Nós somos encorajados a consumir os dados ruins, mas também a não pausar e resistir e ir procurar outro tipo.

- Me parece que estamos preguiçosos, vivemos numa época em que parece que tudo é o Buzzfeed. Amo o Buzzfeed, mas ninguém lê um texto grande na internet.

Quando lançamos a Wired em Londres, uma publicação impressa, decidimos escrever textos longos, com 4 mil palavras. Eu achava que não ia dar certo, mas se tornou muito popular. A gente queria que as pessoas parassem por 20, 30 minutos e contemplassem, aprendessem alguma coisa. A velocidade também nos deixa preguiçosos para a especulação. Conhecimento vem da especulação, da conversa. Se eu falo pra você que o Azerbaijão é maior que o Cazaquistão, e você diz que não, temos uma conversa. Hoje vamos ao Google e resolvemos a questão muito rapidamente. Paramos de trocar as informações que tínhamos. Podemos até não chegar na resposta, mas na jornada para a resposta, aumentamos nosso conhecimento. Com o Google a gente tem a resposta, mas vamos esquecer no outro dia ou não vamos ter aumentado nosso conhecimento. Sinto falta disso. Quero ser um evangelista da especulação. Quero que as pessoas deixem o Google de lado e investiguem o que têm em suas cabeças.

- Como nós podemos tirar o máximo da internet, de uma boa maneira? Quais são os sites que você costuma checar diariamente?

Não tem nada que eu veja todo dia. O Google eu uso todo dia. Adoro todas as ferramentas deles. Fico muito feliz em dar todos os meus dados para eles em troca dessas ferramentas gratuitas. GDocs, Gmail são coisas incríveis. Eles me ajudaram a pensar melhor, a me organizar, a lidar com colegas. Obrigada, Google! Além disso, amo o Gawker, leio por entretenimento. Amo a Wikipédia, acredito muito nela. O que tento fazer é usar a internet sem usar a internet. Gosto de tirar tempo fora dela, me desconectar. De repente tenho esse tempo incrível em que leio um livro ou uso um pedaço de papel e lápis para colocar meus pensamentos. São sempre tempos melhores.

- Você está no Facebook?

Não. Eu tentei por um mês e detestei. Em princípio não tenho nada contra. Mas velhas informações ficavam aparecendo pra mim, demandando minha atenção. Tenho muitos amigos que eu vejo no mundo real e essas conexões com eles, falando no telefone, indo na casa ou recebendo na minha, são conexões melhores. Eu fazia log in e ficava aterrorizado. Preferi me desconectar, ir pra fora, investigar algo nos meus termos. A ironia é que não fechei minha conta, um pouco tempo depois tive que escrever para um site que estava em beta e eu precisava logar pelo Facebook. Fiz uma página e hoje tenho 0 amigos. Eu sou o loser do Facebook e sou muito feliz com isso.

- Será que temos que criar momentos específicos para usar a internet? Está em tempo de seguirmos uma etiqueta virtual?

Eu odeio quando as pessoas estão olhando para o telefone enquanto estão tendo uma conversa comigo. Eu realmente odeio isso. Parece não apenas rude, mas também meio idiota. Acho que uma das coisas mais bonitas que você pode fazer na vida é dar sua atenção completa a um ser humano, é um ato de amor. E é o que faz a conversa cara a cara tão melhor do que a pelo Skype. Quando estamos na presença de outra pessoa, podemos dar toda a nossa atenção a ela, e eles nos dão de volta. E nós chegamos a um lugar tão mais profundo, que nos preenche, do que quando temos conversas no mundo digital. O que prejudica isso é quando as pessoas são distraídas pelos seus telefones. Um amigo meu lançou uma acampanha em Tel Aviv para deixar os telefones virados pra baixo. Isso está começando a ficar popular por lá. É muito legal pensar: onde está meu telefone agora? O meu está no bolso. E prefiro que as pessoas deixem no bolso ou virado pra baixo, no silencioso. Se não a mensagem fica apitando e você vê os olhos da pessoa procurando. É rude. Sei que pareço um homem velho, mas acho que é rude pra todo mundo, inclusive para um menino de 14 anos. Quando estamos com outra pessoa essa é a pessoa mais importante, não as que estão online.

- Como você organiza sua rotina para dar conta de fazer tudo?

Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais. É o sistema. Nós pagamos as pessoas por hora, dia, mês. Elas não são encorajadas a trabalhar com rapidez, mas sim devagar. Eu trabalho pra mim. Se alguém me pede pra fazer uma coisa, é uma vantagem se eu fizer rapidamente. Quanto mais espaço você tem na sua vida, mais coisas boas acontecem. Eu tomei uma decisão há alguns anos de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita. Como resultado, quando trabalho, faço isso de maneira esperta e satisfatória para mim e para as outras pessoas.

Em casa, meu ritmo. Descobri recentemente que gosto de acodar cedo. Vou para cama às 22h30, acordo às 7h. Sou inglês, preparo um chá, levo meu laptop pra cama, passo umas duas horas, faço o primeiro turno de emails. Escrevo alguma coisa. Está tudo calmo lá fora, não tem ninguém por perto. Como resultado, a maioria das coisas que preciso fazer estão acabadas às 9h. Gosto de, todo dia, estar em um lugar analógico. Gosto de nadar em água fria num lugar aberto. Pego minha bicicleta. Tem água, floresta, pássaros, é o oposto da internet, é analógico. E gosto de passar tempo nesse mundo. Quando volto, faço o segundo turno de emails e o dia chega ao fim. Em escritórios nós perdemos tempo. Não precisamos ser escravos. Especialmente pessoas que todos os dias ficam até tarde no trabalho. Eu não acredito que elas tenham tanto para fazer todos os dias.

- Quem são suas inspirações?

Eu me inspirei em mim mesmo. Trabalhei para duas empresas de relações públicas em Londres, nos anos 1980, numa época yuppie, de “work hard, play hard”. Saí da empresa, tive que entender como funcionava a vida de alguém que se emprega. E me dei conta de que o meu tempo era muito importante. Fiz um trabalho com uma consultoria sobre gerenciamento de tempo. Comecei a pensar em qual é o ponto de estarmos no mundo. E sempre fui atraído por pessoas que vivem de um jeito mais simples, que têm um propósito. Mais do que as pessoas que ostentam. Por necessidade, sem dinheiro, entendi que precisava fazer alguma coisa boa com o meu tempo. E depois se mostrou um valor viver assim. Sou religioso, judeu, tem um profeta que diz: você pergunta o que é ser bom. E eu digo: você deve procurar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o seu Deus. Gosto de andar humildemente.

- Você tem um mantra de vida?

Nunca deixe de ser curioso. Existem coisas maravilhosas lá fora prontas para serem descobertas.

Créditos das imagens: 1) The School of Life; 2) do Pinterest; 3) Julien Mauve; 4) Daniela Arrais; 5) Tim Barber.

Agradecimentos especiais a Cris Naumovs, Carol Almeida, Júlia Veras, Raquel Ferraz e Luiza Voll! ♥

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Lulina cheia de Pantim

por   /  20/11/2013  /  11:13

Poderia dizer que conheço Lulina de outros carnavais de Olinda, mas nem é. A gente se conheceu pela internet, compartilhando um amor louco pelo Belle and Sebastian e muitos emails gigantes, daqueles em que a gente conta a vida toda, quase todo dia.

Nos vimos em Recife quando eu ainda morava lá e ela dava umas passadas, vinda de São Paulo. Eu ouvia os discos que ela fazia em casa (e desde então amo várias de suas músicas, principalmente “Do You Remember Laura?” e “Meu Príncipe”), ia em muitos de seus shows. Fazíamos piqueniques e previsões de como seria o próximo ano – e como eu queria encontrar os caderninhos onde a gente anotava dos mais simples aos mais ousados desejos!

Lulina lança agora seu segundo disco gravado em estúdio, o “Pantim”. O show acontece nesta sexta (22/11), às 21h30, no Sesc Belenzinho. Aproveitei pra conversar com ela, fazendo umas perguntas bem atemporais e outras mais focadas na carreira e no novo disco.

Espero que vocês gostem da conversa! ♥

- Qual é a música que mudou a sua vida?

Não diria uma música, mas uma banda. Velvet Underground. Muitas músicas de Lou Reed fizeram a diferença na minha vida.

- E qual música sua você ouve e entende como algo poderoso, que vai mudar a vida de alguém?

É muito difícil acertar que música teria esse poder, pois nem todo mundo consegue ser tocado pelas mesmas palavras e melodias. Acho que só quem pode responder a essa pergunta é quem está na platéia. Do disco novo, muitas pessoas comentaram comigo sobre duas canções que as tinham tocado profundamente: “Prometeu sem cadeado” e “Areia”.

- Conta um pouco sobre sua trajetória? Quando você se descobriu artista, quando começou, quando tocou pela primeira vez, como começou a ser reconhecida?

Não tenho uma formação musical tradicional, comecei a compor oficialmente aos 15 anos (apesar de já gostar de criar músicas desde uns 9 anos) e tive como professor na adolescência Raul Seixas, através das revistinhas de cifras que eu comprava em Olinda. Comecei a gravar discos em casa em 2001 e nos anos seguintes, a fazer shows com uma banda formada por amigos, em Recife. Ao me mudar para São Paulo, recebi o convite da Yb para gravar meu primeiro disco oficial, depois que ouviram os discos caseiros que eu costumava gravar antes. Nessa época, eu já fazia bastante show no circuito indie de São Paulo. “Cristalina” (2009, Yb) é ao mesmo tempo o meu primeiro disco oficial e também um “the best of” dos 6 discos caseiros gravados anteriormente. O disco foi muito bem recebido por crítica e público, e comecei a fazer shows maiores e a me dedicar cada vez mais à carreira artística. Agora estou lançando o “Pantim”, meu segundo disco pela gravadora Yb, ao mesmo tempo meu 12˚ disco, se eu contar com as produções caseiras, e ao mesmo tempo meu primeiro disco realmente novo (já que o “Cristalina” era uma compilação).É tudo meio fora do padrão mesmo, seguindo o flow da vida e do que dá vontade de compor e lançar.

- Como você define a sua música?

Não sei. Esses dias ouvi um cara definir como “ressaca em dia de sol”. Acho que é isso mesmo. Por sinal, ressaca é um dos momentos mais criativos para mim – fico mais sensível e, se deixar, componho um disco inteiro em um dia de ressaca.

- O que inspira você a criar? O que você quer dizer com o que faz?

Acontecimentos da vida e também a morte me inspiram a criar. A música acaba sendo um diálogo que mantenho comigo mesma e que divido com quem mais se interessar pelo assunto. Não tenho nenhuma intenção específica ao fazer música, apenas é uma atividade que amo, que é tão natural quanto falar, e que me deixa feliz muito mais pelo fazer em si do que pelo resultado que dá. Mas gosto de torcer para que a música que eu faço seja ao menos uma boa companhia, quem sabe um bom amigo, para quem ouve.

- Você cresceu sendo influenciada pelo que? E quais são suas principais referências hoje?

Cresci influenciada por Super Nintendo, Playmobis, revista Mad – foi musicando um texto da revista Mad que compus uma das minhas primeiras canções, por volta dos 10 anos de idade -, literatura russa, festas da família regadas à cerveja, arrumadinho e cozido, Rita Lee e Elton John na vitrola da minha mãe em Olinda, Nirvana e NBA na adolescência, Velvet Underground, Mutantes e Yo La Tengo na faculdade, e nos últimos anos, Tom Zé, Erasmo, Connan Mockasin, Will Oldham, escritores como Philip Roth e David Foster Wallace, Tibete.


- Tem alguma frase que seja seu lema?

Uma frase que a minha vó repetia pra mim, sempre que me via correndo de um lado pro outro, aperriada com trabalho ou com outras preocupações: “A vida é mais importante”.

- E conta sobre o “Pantim”? É seu segundo disco em estúdio. O que a gente vai ouvir? Um disco influenciado pelo que, com participação de quem, que diz o que sobre esse seu momento de vida?

“Pantim” contém músicas compostas em 2011 e 2012 e que parecem ter como fio condutor uma discussão sobre o egocentrismo e o buraco negro que ele provoca. A palavra pantim quer dizer dar chilique, espernear, e é mais usada no Nordeste. O disco tenta buscar algum sentido em tudo o que fazemos e conquistamos, com uma linguagem mais direta, numa gravação com toda a banda ao vivo, praticamente. É diferente do “Cristalina” na forma, mas é muito parecido com ele no conteúdo – se antes as metáforas e o humor escrachado disfarçavam os questionamentos, agora eles são colocados de forma direta, com algum humor, mas sem ironia e sem rodeios. Os mesmos assuntos, antes tratados de um jeito escapista, agora vêm à tona de um jeito mais realista.

As fotos de Lulina foram feitas pela Ana Shiokawa.

Lulina faz show nesta sexta, às 21h30, no Sesc Belenzinho. Mais em > http://www.sescsp.org.br/programacao/15722_LULINA

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