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A tecnoguitarrada de Lucas Estrela

por   /  20/10/2017  /  9:00

Lucas

Ouvi o disco do Lucas Estrela e quis me transportar pro Pará. Que música boa, que vontade de dançar! O músico lançou recentemente “Farol”, seu segundo álbum, e a gente aproveitou pra conversar.

Mais: @lucas.estrela

#trilhadonttouch

Pra completar, ele fez uma playlist especial pro blog!

Minha história na música começou com uns 8 anos de idade. Minha família não é de músicos, mas meus pais amavam música, então recebi toda essa influência deles, principalmente da música instrumental e da lambada, que eles gostavam muito. Eles me deram o primeiro violão de presente e fui aprendendo sozinho, naquelas revistinhas de cifras que vendiam em bancas na época. Mas um ano depois, quando fiz 9, meu pai faleceu e acabei abandonando o instrumento por um tempo. Só depois de alguns anos que fui estudar música mesmo. Com 15 montei a primeira banda e aos 16 já tava começando a tocar na noite. Foi nessa passagem dos 16 pros 18, quando ainda era barrado na porta das casas quando ia tocar, que descobri que queria ser artista, haha.

Tem um disco chamado “Tecnoguitarradas” do Pio Lobato de 2007. Pio é guitarrista, compositor e produtor musical daqui de Belém, hoje ele é o produtor musical da Dona Onete. Então, esse disco que completa 10 anos agora em 2017 mudou minha vida. Quando ouvi o “Tecnoguitarradas” pela primeira vez, a ideia de música instrumental, eletrônica e de música experimental se ampliaram na minha cabeça e no meu jeito de tocar e produzir música. O Pio conseguiu juntar a linguagem tradicional da guitarrada com os elementos do tecnobrega e essa coisa mais contemporânea da música eletrônica. Loops, efeitos, samples, tudo isso gravado no home studio do Pio em 2007, quando o acesso aos equipamentos de estúdio de baixo custo ainda não era tão fácil.

Depois te tanto ouvir esse disco, fui atrás dele. Só então que descobri que ele tinha sido responsável por vários outros trabalhos importantes pra cultura popular paraense, inclusive os “Mestres da Guitarrada” (2001). Trabalho que promoveu essa difusão da guitarrada pelo Brasil. Nessa época, acho que tinha uns 18, já produzia em casa e comecei a mandar coisas pro Pio. Certo dia ele disse que tava produzindo o novo disco e queria que eu fizesse a base eletrônica pra uma música chamada “2×2”. Me mandou algumas trilhas de guitarra e fiz a base. A faixa entrou pro disco dele e nossa parceria de composição surgiu aí. O Pio foi um dos responsáveis pelo meu primeiro álbum. A outra pessoa igualmente responsável foi o Waldo Squash (Gang do Eletro), um dos maiores produtores de música eletrônica que tive o prazer de conhecer. Waldo produziu comigo as bases do “Sal ou Moscou”.

O processo de produção do primeiro foi bem diferente do segundo disco. No primeiro, passei uns 2, 3 anos gravando sozinho em casa, sampleando as bases do Waldo até chegar num álbum. Tentei dar uma unidade a esse trabalho, usando praticamente os mesmos timbres de bumbo, caixa, synths e guitarras nas faixas. Algo bem característico do tecnobrega.

No “Farol” (2017), o processo foi totalmente diferente. Chamei vários amigos pra esse disco, tem muitas participações. Gravamos em 3 meses no estúdio Casarão Floresta Sonora, chamei um grande amigo pra fazer a direção artística, o Felipe Cordeiro, e gravei algumas versões instrumentais nesse disco, coisa que não fiz no disco anterior, em que todas as composições eram minhas. Sem falar na sonoridade, que já caminha por outros lugares também. Do carimbó digital à cumbia. Essa experimentação no estúdio só foi possível graças ao patrocínio do Natura Musical que acreditou nessa união da música tradicional e contemporânea feita no Pará.

Bom, tenho 25 anos, nasci em Belém/PA e acho que só fiz coisas ligadas à música até hoje, haha. Nessa época que comecei a tocar na noite, com uns 16 anos, pensava em fazer arquitetura. Tentei o vestibular por dois anos e não passei. Aí foi quando decidi seguir a carreira da música mesmo. Mas também fiz trabalhos ligados à música em outras áreas, como câmera e editor de vídeo em uma produtora audiovisual em Belém por uns bons anos, editando shows e videoclipes (outras grandes paixões: o cinema e audiovisual). Também já fui roadie da Gaby Amarantos e do Felipe Cordeiro por um tempo, depois passei três anos em São Paulo trabalhando na EMESP (Escola de Música do Estado) como técnico de gravação. Fiz o “Cine Concerto Arboreal”, um média metragem de paisagens sonoras que gravei em várias cidades e tocava a trilha sonora do filme ao vivo. Apresentei em alguns festivais em Belém e São Paulo. Em 2015 voltei pra Belém pra finalizar e lançar ainda o primeiro disco e tô aqui desde então.

É bem difícil a gente tentar definir a música que faz, ainda mais sendo instrumental. As influências são tantas que definindo alguma coisa acabaria excluindo outra sem querer. Mas como gosto tanto desse termo criado pelo Pio Lobato e pela cineasta Jorane Castro, eu diria que é tecnoguitarrada.

O “Farol” foi só mais um experimento juntando essas duas linguagens, a tradicional e a experimental. Minha vontade é continuar fazendo música e espero que as pessoas também tenham o intuito de continuar com a produção musical paraense. De ir atrás da história da nossa música, do Mestre Vieira, da guitarrada, do carimbó, do tecnobrega, até chegar nesse momento atual tão legal que a gente tá vivendo. A cidade cheia de novos artistas fazendo música. Isso é bonito demais!

A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers

por   /  19/10/2017  /  10:00

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Tuane Eggers cria imagens que parecem saídas de um sonho. Paisagens idílicas e corroídas pelo filme analógico se misturam aos amores e amigos em meio à natureza que ela tanto adora. O encontro dá tão certo que a gente é transportado para um tempo de beleza e contemplação.

Lembro dela da época do Flickr, muitos anos atrás. Existia toda uma estética Flickr, quem lembra? Lembro também que ela foi parar no filme “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho. Mais recentemente, suas fotografias fizeram parte de “O filme da minha vida”, de Selton Mello.

Entre suas inspirações, estão as fotógrafas Aela Labbe, Polina Washington e Rinko Kawauch.

Nesta breve entrevista, ela fala sobre o que a motiva a criar imagens que falam tanto de impermanência. Espero que vocês gostem! #galeriadonttouch

Mais em: @tuane.eggers + cargocollective.com/tuaneeggers

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Meu nome é Tuane Eggers e sou natural de Lajeado, uma pequena cidade do interior do sul do Brasil, mas atualmente vivo em Porto Alegre. Acho que sou fotógrafa, mas também acho um tanto difícil de me definir assim em algumas poucas palavras…

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O que me encanta na fotografia é esse paradoxo entre o espaço e o tempo – enquanto ela congela o espaço, o tempo continua pulsando dentro de uma imagem infinita. Também gosto de pensar nessa capacidade que a fotografia possui de registrar algo que realmente aconteceu ou existiu no mundo, mas também de criar um mundo à parte, um mundo inventado a partir do real. É como se minhas imagens fossem um recorte de um espaço em que eu gostaria de viver para sempre, e acho que elas permitem que outras pessoas habitem esse espaço no momento em que são olhadas – e então, talvez, o tempo continue pulsando infinito dentro desse olhar.

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Nossa, muito difícil escolher apenas três [fotos mais fortes que já fez], mas vou falar dessas porque elas marcam, simbolicamente, a força de alguns momentos da minha vida. A primeira [que abre o post] é “Um amor que brota”, de 2015: um retrato do meu ex-namorado Antônio, pessoa tão importante na minha vida, que me ensinou tanto e estimulou tantas coisas bonitas na minha vida e no meu ser, incluindo o meu encantamento pela fotografia analógica. Além disso, essa foto também traz outro assunto que me encanta muito e está bastante presente no meu trabalho: os fungos, principalmente em forma de cogumelos, com a sua capacidade tão importante de decompor.

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A segunda [segunda foto do post] é “Estrada para a imensidão”, de 2014: além de ter sido feita em uma ocasião linda de uma viagem com amigos, ela ganhou um significado especial pra mim neste ano, pois está presente em “O Filme da Minha Vida”, dirigido pelo querido Selton Mello, e foi uma emoção enorme ver ela gigante na tela de cinema durante o filme.

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A terceira [foto do post] é “Dos imensos dias em que fomos tão grandiosamente pequenos”, de 2017: feita durante uma viagem que fiz com meus amigos em que fomos de carro desde o sul do Brasil até o Peru. Nessa viagem, tivemos uma experiência muito forte de dar a volta em uma montanha, durante quatro dias de caminhada, entre os 4 mil e 5,2 mil metros de altitude. Ela também marca uma fase importante de mudanças na minha vida.

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Acho que espero [com as fotos] reencontros com outros olhares sensíveis. Que elas possam despertar uma vontade de viver. Espero que meu fascínio pela natureza, pela vida e pela potência dos encontros reverbere em outros corpos. Por isso, a cada vez que recebo uma mensagem de alguém que se sentiu tocado pelas minhas fotografias, me sinto preenchida.

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#asmúsicasdeamor: Laure Briard

por   /  05/10/2017  /  8:08

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A cantora francesa Laure Briard esteve recentemente no Brasil. Aproveitei pra conversar – e pra pedir a ela uma lista de suas músicas de amor. Não encontrei todas no Spotify, daí juntei com algumas de sua própria autoria.

Sua música é classificada como “yeyé psicodélico” e sua trajetória começou em 2005, nos conta o Coquetel Molotov, que trouxe a turnê para o Brasil junto com o Benke Ferraz, do Boogarins. E continua: o primeiro EP veio em 2013, com ajuda de Julien Barbagallo, do Tame Impala. Dois anos depois, lançou “Révélation”, com inspiração na música dos anos 1960 e do indie rock dos 1990. Em 2016, vieram “Sur La piste de danse” e “Sorcellerie”.

Me descobri cantora tarde. Gostava de música desde a adolescência, fiz aulas de bateria aos 16. Eu cantava só por diversão. Minha praia era mais a arte dramática, eu queria ser comediante. Fui para Paris com a escola de teatro e, quando voltei para Toulouse, minha cidade natal, foi quando comecei a fazer música com meu ex-namorado. Ele havia composto algumas letras, achava minha voz legal, então comecei a tentar a cantar. E foi assim que começou.

Cantar todo dia é um hábito pra mim. Eu posso passar o dia fazendo isso, mesmo que sejam umas canções bem porcaria, às vezes…

Música significa emoção. Eu sinto tantas coisas quando ouço uma música que eu amo. Isso é muito poderoso. Talvez mais do que um filme. Como cantora e compositora, encontro minha forma de expressão. Isso começou realmente depois do fim de um relacionamento. Eu tinha tanta coisa para dizer naquele momento. A música me ajudou demais, e ainda faz isso.

Quando coloco minha música no mundo, só espero proporcionar emoção às pessoas, ou espalhar alguma vibe boa. Fazer as pessoas dançarem, chorarem, terem esperança. Se eu pudesse rodar o mundo para conhecer essas pessoas seria ainda melhor!

Ouçam a playlist! #trilhadonttouch

#galeriadonttouch: João Arraes

por   /  04/10/2017  /  18:18

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João Arraes constrói imagens de moda e gosta de fotografar sem necessariamente falar de roupa. Suas imagens compõem timelines, catálogos, campanhas e revistas. Tem muito de beleza. E diversão. Essa semana, aliás, ele virou hit na internet quando foi publicada uma matéria falando sobre as fotos com pé na pia que ele e os amigos postam no Instagram.

Conversei com esse meu primo torto sobre sua profissão. #galeriadonttouch

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Sou o João, leonino, nascido e criado em Recife, amante da praia. Fotografo desde os 16 anos (agora estou com 28). Eu não consigo muito bem me definir, sou um inquieto sempre na busca de um novo jeito de me comunicar.

Fotografar é a maneira que encontrei de me comunicar. É como expresso meus vários eus. É meu ganha pão, meu prazer, meu trabalho, meu hobby.

Minha paixão não vem tanto da resposta [para as minhas fotos], nem sei nem se de fato espero por resposta, vem do ato de fotografar. O momento que aperto o disparador é o mais importante. Posso ter uma equipe de mil pessoas (que são super importante na construção de uma imagem), mas o momento do click é só meu e da pessoa (ou objeto) em questão, a atenção e a troca são só nossas.

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[Sobre as fotos dele mais marcantes] A primeira é a campanha que fiz para Nike X Pedro Lourenço. Primeiro pela liberdade artística que tive, segundo pela linguagem que pude trazer. Estava fotografando moda sem falar de roupa, sabe? Eles meio que me mandaram ir para rua e fotografar o que eu quisesse, com algumas palavras chaves de mood.

A segunda não é uma foto, e sim uma história. Quando comecei a passar mais tempo que São Paulo e viajando fora de Recife, criei junto com um amigo uma história chamada areia. Era essa minha busca por praia mesmo longe. Falamos de praia de uma forma escura, não tem uma moda focada em tendência. Eram surfistas tirados de casa.

A terceira foto é quando pude falar de futebol sem ser sexista, fiz a foto para um cliente durante a Copa no Brasil. Meu futebol era jogado por uma mulher linda, negra, forte – e que, além de fazer tudo, ainda tinha que cuidar do filho.

Mais João Arraes > joaoarraes.com

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IMS Paulista, uma nova paixão para São Paulo

por   /  14/09/2017  /  11:11

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São Paulo ganhará no próximo dia 20/09 o Instituto Moreira Salles da avenida Paulista. Depois de 4 anos de obras e de expectativa, a cidade recebe um presente – e o público, um lugar maravilhoso para apreciar fotografia, arte, música, cinema. Ontem, na apresentação para a imprensa, fizemos uma visita guiada pelo prédio e suas exposições. E posso dizer sem dúvida: nasce um novo hit na cidade. Um daqueles lugares que vão ficar apinhados de gente, ainda mais com a Paulista aberta aos domingos.

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O IMS Paulista começa com cinco exposições, além da célebre videoinstalação “The Clock”, de Christian Marclay, que recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, em 2011, tem 24 horas de duração e conta com milhares de cenas de TV e cinema que fazem referência ao horário do dia.

“Você sempre tem uma tensão em relação ao tempo. Quando você vai ao cinema, relaxa e sabe que vai sentar e ficar ali por duas horas. Aqui não. Você está sempre pensando no tempo de alguma maneira. O que cria essas pequenas narrativas que são sempre interrompidas é o som”, diz Heloísa Espada, coordenadora de artes visuais e curadora dessa exposição.

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O IMS exibe pela primeira vez no Brasil “Os americanos”, de Robert Frank, um dos ícones da fotografia. A série faz parte do repertório de quem ama fotografia, e ver ao vivo as 83 imagens que compõem o livro é um deslumbre. Entre 1955 e 1957, Frank percorreu os Estados Unidos para fazer retratos de todo tipo de gente. Fez mais de 28 mil fotos, que são um verdadeiro retrato da América profunda.

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Com auxílio do célebre fotógrafo Walker Evans, a viagem também rendeu um livro, que ganha versão brasileira publicada pelo IMS, em parceria com a editora alemã Steidl, celebrada por seu acervo de fotografia. “Pra mim é um verdadeiro curto circuito temporal. Me sinto devolvido para os anos 1950 nos Estados Unidos e, no momento seguinte, me sinto devolvido para esse presente tão conturbado, misturado, confuso que é agora dos Estados Unidos, mas também é do Brasil – e dessa própria avenida”, diz Samuel Titan Jr., um dos curadores da exposição.

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A mostra conta também com fotos inéditas que Frank fez em Manaus. Ele estava em uma viagem pelo Peru, que também originou um livro, e deu um pulo no Brasil. “A relação que ele estabelece com Brasil naquele momento. E também em 1956, que inclui fotos do Pierre Verger”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia e curador da exposição.

A mostra conta ainda com uma série de fotos de 24 livros de Frank impressas em formato banner, tomando a parede. Frames de filmes, várias edições do livro célebre e de mais outros. O IMS também vai exibir uma retrospectiva da filmografia de Frank, com 25 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. É emocionante ver as imagens de Frank ao vivo. Elas viraram referência de fotografia de rua, em que a técnica importa menos do que a expressão de quem é retratado, o momento que diz tanto ao ser congelado.

Brasil

“Corpo a corpo” mostra sete trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos brasileiros em parceria com Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do IMS e editor da revista Zum. Os artistas foram convidados a pensar como as imagens podem nos ajudar a enxergar os conflitos sociais que emergiram no Brasil nos últimos anos. “O mote da exposição é o uso do corpo como um elemento de representação social e atuação política – seja pela presença física e simbólica nos espaços públicos, seja como o veículo condutor da câmera, seja como lugar de expressão da individualidade, que aproxima e separa os indivíduos”, diz o IMS.

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Pra mim os destaques são os trabalhos de Bárbara Wagner. Em “À procura do quinto elemento”, ela retrata os candidatos de um concurso de MCs de uma famosa produtora de funk de São Paulo. São 52 fotografias e um vídeo que nos fazem pensar na música como passaporte para uma vida radicalmente da que eles têm.

Em “Terremoto Santo”, ela e o parceiro Benajmin de Burca fazem uma espécie de musical sobre cortadores de cana da zona da mata de Pernambuco que sonham em gravar um videoclipe gospel. É sensacional!

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“Eu, mestiço”, de Jonathas de Andrade, parte de uma pesquisa dos anos 1950 da Unesco em que fotografias de pessoas com diferentes tons de pele eram usadas como base de um questionário sobre quem parecia mais bonito, rico ou inteligente. O artista fez uma série de retratos com gente de diferentes partes do país para pensar sobre a relação que estabelecemos com a imagem.

A mostra conta ainda com trabalhos do coletivo Mídia Ninja, que exibe transmissões feitas entre 2013 e 2017 de vários protestos no país; “A máscara, o gesto, o papel”, de Sofia Borges, que mistura bocas e gestos de políticos do Congresso Nacianal; “Postais para Charles Lynch”, do coletivo Garapa, que surgiu a partir de notícias sobre linchamentos no Brasil e pesquisa de vídeos no Youtube sobre o tema.

Biblioteca

Pra completar, o IMS Paulista conta, ainda, com uma biblioteca maravilhosa dedicada à fotografia. Começa com 6.000 títulos, deve dobrar de capacidade em breve e tem espaço para 30 mil. Além de aquisições e doações, o acervo conta com coleções especiais de nomes como Stefania Bril, uma das primeiras críticas de fotografia do Brasil, Thomaz Farkas Iatã Cannabrava, Paulo Leite. Gerhard Steidl doou um conjunto completo de livros produzidos por sua prestigiada editora.

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O IMS conta ainda com ateliês e laboratório para cursos, workshops e oficinas, cinema, livraria e o restaurante Balaio, do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. O prédio de 7 andares fica entre as ruas Consolação e Bela Cintra. Sua obra custou R$ 150 milhões. O IMS foi fundado em 1992 pelo banqueiro Walther Moreira Salles. É uma entidade civil sem fins lucrativos, vive de um fundo e não se vale de incentivos fiscais e patrocínio.

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IMS Paulista

Avenida Paulista, 2424

De terça a domingo, das 10h às 20h. Às quintas, até 22h

Entrada gratuita

ims.com.br

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“Canibal Vegetariano”, de Gabriel Pardal

por   /  25/07/2017  /  15:15

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Toda vez que surge no feed um post do @canibal.vegetariano o Instagram fica melhor, mais inteligente, ácido, provocativo. Em meio a tanto conteúdo genérico, igual, o perfil traz humor e sagacidade. Seu autor é o Gabriel Pardal, artista visual, ator e agora também pai do Tomás Zazu.

Por ocasião do lançamento do livro “Canibal Vegetariano”, no fim do ano passado, conversamos um pouco. Só agora (desculpa, Pardal!) publico. Espero que gostem.

– Quando e de onde surgiu o Canibal Vegetariano?

Sempre gostei de quadrinhos, cartuns, mangás, e, principalmente, sempre fui fascinado por tirinhas de jornal e revista, pela característica em ser simples, rápida e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo atrás eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava, eu achava feio. Então pensei: “e se eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?”  Como eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, é isso o que me instiga, é assim que desperto a liberdade imprescindível no processo criativo, fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si só um desenho. Desenhar com palavras. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é texto ou desenho e para confundir ainda mais eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro em qualquer lugar. Eu gosto da simplicidade do processo. Desenho em cadernos, em folhas soltas, com canetas baratas, tiro uma foto e posto na internet. A literatura é a forma de expressão artística que eu mais gosto, justamente pela força da sua simplicidade, e por isso também gosto de considerar o Canibal Vegetariano literatura.
 
Por isso também que… Quando a editora Rocco me convidou para lançar um livro com alguns dos desenhos que eu já havia publicado no instagram e outros inéditos, topei na hora. Achei que ficaria bonito ver os desenhos que faço nos cadernos e publico na web voltar para o papel novamente.

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 – Adoro quando você fala de internet. A gente meio que perdeu a mão com tanta conexão?

Eu aprendi muito na internet, lendo, vendo filmes, trocando ideias nas comunidades, e também é o meio ambiente onde realizo meus trabalhos, é onde existe e funciona o Canibal Vegetariano, O Leitor, o ORNITORRINCO, etc. Considero ter uma relação saudável com o meio digital, não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens, respondo quando posso e posto quando quero. A internet é para mim fonte de conhecimento e espaço para minhas atividades, mas isso aconteceu quando aprendi a usar a ferramenta, a selecionar as fontes e montar minha rede de informações. Eu sou um viajante. Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.Considero isso importante porque estamos saturados de informação. Diariamente recebemos novidades de milhares de fontes diferentes e para não ficar perdido é preciso escolher o que merece a nossa atenção. Assim como a gente deve escolher o que quer comer, diferenciar o que é porcaria do que é saudável, a gente também deve saber como alimentar a mente. O que merece a nossa atenção e o que é descartável.

O grande lance da internet é que podemos escolher o que queremos ler, ver, assistir. Mas será que estamos mesmo sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil ou continuamos presos nas manchetes, nas grandes corporações e nas listas dos mais lidos? A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos, sendo que o Facebook é a principal fonte de informação deles. Eles acham que a internet é o Facebook. Pensar assim é o mesmo que achar que o mundo acaba no quintal de casa.

O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Eu entro pouco no Facebook e nunca leio a timeline porque não encontro nada que realmente me interesse, que me faça aprender mais. Para mim o Facebook é a nova TV, onde a maior parte do seu conteúdo é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo.

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– Você é escritor, ator, diretor. Conta um pouco como você começou, o que já fez, o que tá fazendo e o que mais planeja?

Comecei há 32 anos atrás… Aquela frase “Levei minha vida toda para pintar este quadro”, quem foi que disse? Clarice? Luis Fernando Veríssimo? Silvio Santos? Não importa, é uma frase batida mas é verdade. Porque a vida toda está incluída nos estranhos caminhos da criação. Publiquei uns livros, faço teatro e cinema, desenho, mas para mim tudo vem do mesmo lugar. O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um texto, uma peça, um desenho, uma entrevista; o que me interessa não é o formato, é a questão. Além disso, o que aprendo no processo criativo como ator coloco no processo para escrever e vice-versa. Na prática acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações.

No momento estou fazendo uma peça de teatro chamada “As Palavras e As Coisas”, com texto e direção do Pedro Brício. O filme “Tropykaos”, dirigido pelo Daniel Lisboa, vai estrear em 2017 nos cinemas. Os desenhos do Canibal Vegetariano eu continuo fazendo todos os dias e postando no Instagram e no Facebook. E estou terminando de escrever uma narrativa longa, que é provavelmente o meu projeto mais pessoal e a coisa mais importante que já fiz. Esse é o melhor exemplo para o que eu estava falando, porque estou escrevendo há dois anos mas conto sobre algo que aconteceu comigo há nove anos atrás. É daqueles trabalhos que a gente coloca tanto da gente que quando você me pergunta “o que mais planeja?” eu só penso que depois disso nunca mais vou fazer nada. Pode ser mentira, mas sentir isso é um jeito de entender que estou no caminho certo. Pelo menos pra mim.

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Canibal Vegetariano no instagram: instagram.com/canibal.vegetariano
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“Desejo Motivo”, o acontecimento de arte e afeto de Carolina Paz

por   /  23/06/2017  /  18:18

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“Desejo Motivo” é um acontecimento. Surgiu a partir de um pedido da artista plástica Carolina Paz, que fez uma chamada pedindo que as pessoas lhe enviassem cartas. Cartas sobre qualquer coisa, desde que fossem escritas em papel, enviadas pelos Correios. A ideia? Produzir uma pintura para cada uma delas.

O trabalho que vem sendo desenvolvido desde o final 2015. Na primeira semana de 2016, Carolina abriu uma chamada pública em redes sociais (e também na fachada do seu ateliê) para que interessados enviassem histórias, pedidos, desejos, assuntos, motivos para ela. Recebeu 44 cartas, fez 44 pinturas.

O processo se materializa para o público neste sábado, com uma exposição do Auroras, uma conversa sobre o processo com a artista, curador Divino Sobral, o crítico José Bento Ferreira e a artista Rivane Neuenschwander  e entrega dos trabalhos ao seus quase coautores. (Eu mandei uma carta, estou louca pra ver o resultado!)

Conversei com a artista sobre todo o processo, suas referências e tudo mais.

Desejo Motivo: acontecimento, de Carolina Paz
Sábado, 24 de junho, das 14 às 19 horas
Mesa redonda: 16:30 horas
Auroras – Avenida São Valério, 426, São Paulo
Informações: desejomotivo@carolinapaz.com

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– Como surgiu a ideia do Desejo Motivo?

Foi durante uma residência artística que fiz em Nova York, em 2014, acho que por conta da convivência com os outros artistas residentes, tive a vontade de incluí-los de alguma forma nas pinturas que eu estava fazendo. Eu estava procurando abrir mais meu repertório de imagens, não ficar só na figura humana e objetos “domésticos”. Pedi, então, que me dessem um “assunto” para pintar (não uma imagem, um assunto),  para eu pensar e, então, pintar uma imagem que trouxesse meu repertório meio que dando uma continuidade à conversa. Porque meu interesse continuava sendo (e ainda é) os relacionamentos, os contatos mais íntimos, algo de privado, afetivo… Então me empolguei e passei o ano seguinte, 2015, pensando em como fazer isso. Até saiu uma exposição na época, “Teoria dos Conjuntos”, com essas imagens.

Conversa vai, conversa vem (com outros artistas e amigos críticos, curadores), fui lapidando a ideia do “Desejo Motivo”. Desta vez, eu queria algo físico do outro, uma presença. Primeiro pensei nas pessoas virem no meu ateliê para conversar. Tipo consultório! (risos) Mas isso me pareceu que limitaria muito. Daí pensei nos textos, em receber textos, pedidos, histórias, causos, lista de compras de supermercado. E desta vez eu daria uma pintura em troca dessa presença, dessa disponibilidade à pessoa que se manifestasse, em vez de usar sua proposição como insumo de um trabalho que teria outro destino (a galeria, por exemplo). O trabalho neste momento já não era mais a pintura. Ela se tornava parte, uma peça, uma moeda. A obra é a rede de vínculos criada. Isso pra mim era a proposta do “Desejo Motivo” desde o começo, a intensidade disso é que realmente eu desconhecia, ou não me preocupei muito logo de saída.

Enfim… Ah! As cartas! Fazer tudo pela internet não me interessava porque, pra mim, o texto digital não tem a mesma textura do que o texto no papel (e o projeto comprovou isso). Então, cartas! Enviadas por correio ou entregues em mãos, não importa. E realmente valeu a pena, cada carta foi um surpresa. Rolou muita emoção no recebimento de cada uma. Há uma expectativa, uma chegada e uma presença.

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– Como foi a adesão?

Foi alta! Tanto que eu logo que saquei que a coisa ia crescer muito resolvi dar uma data limite muito antes do que eu havia imaginado. Foram apenas 3 meses para receber as cartas pois eu não daria conta. Achei que não haveria tanta gente disposta a ter o trabalho de escrever a mão, caprichar em um envelope, ir até os Correios (que foi o caso da maioria). Essa é uma primeira edição e foi muito experimental todo o processo, por isso quis limitar mais. Nesta recebi 44 cartas. Foram 44 pinturas. Uma parte de pessoas conhecidas, amigas mas uma outra parte de pessoas completamente desconhecidas que passei a me relacionar a partir do projeto. Demais, né?! Haverá outras edições e já penso em estabelecer algum critério diferente de limite, não necessariamente por data. E também, tenho vontade de abrir para outros idiomas que conheço e ampliar ainda mais o espectro dessa rede. Bom, mas isso são ideias ainda a lapidar.

– Conta como foi todo o processo? Da ideia ao recebimento das cartas passando pela produção das peças?

Cada carta, foi uma experiência singular. Eu lia, pensava, passava uns dias convivendo com ela, imaginando uma resposta não verbal e só então pintava. Algumas foram um processo mais suave, outras um embate de algumas idas e vindas. Não foi “pá pum”. Eu me propus viver cada leitura e cada pintura com a máxima intensidade. Apesar de pequenas (até para que todos os futuros transportes delas sejam bem fáceis e ela possam voltar a conviver eventualmente em quantidade e com outras de novas edições) elas deram trabalho. Não foi fácil. É muito mais fácil pintar a partir de uma pesquisa solitária, criando no ateliê o que der na veneta. Quando abri esse vínculo, a coisa complicou. Mas foi um desafio incrível em vários níveis. Foi uma experiência que me transformou.

– Teve algum momento em que você pensou em desistir?

Claro! Muitas vezes! (risos) Teve momento que sofri pra valer. Teve história que até agora não sei se consegui entrar direito nela, sabe? Será que é assim que um psicanalista se sente?! Lembrei muita da minha! Por que será?! (risos)
Mas o compromisso é algo incrível. Esse compromisso em dar uma devolutiva tão precisa e pontual: “uma pintura a óleo e ponto final” dá um super norte e prossegui. Claro que agora no final (dessa etapa) estou surpresa com o tamanho que a coisa toda tomou. Eu consigo perceber sua força e ela é tremenda. Acho que todos os envolvidos percebem ou perceberão, com mais ou menos intensidade, isso também. Passar batido não dá. Tem muita coisa aí.

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– O que você aprendeu com o processo?

Nossa! Muita coisa. Desde mais repertório formal com a pintura como linguagem até essa camada de quarta dimensão que é quando a obra acontece dentro do espectador, dentro dos participantes (eu inclusa). É um lamaçal fértil, infinito, de possibilidades poéticas. É muito repertório, muito desdobramento. Aprendi que arte interessa, que as pessoas desejam conviver com ela e se manifestar através dela. As cartas que recebi são objetos de arte pra mim. Sinto-me privilegiadíssima em ser portadora desses objetos que não são só seus conteúdos. Aprendi também que o amor é o assunto mais universal mesmo e que o sentimos ainda mais presente quando ele parece nos faltar. É muito locou, muito humano. Fico tão contente em ter empreendido com esse projeto em tempos de sérios dramas políticos, ambientais e sociais tão lamentáveis em todo o planeta. É um alento conviver com essa rede do “Desejo Motivo” com tanta doação e entrega. Isso dá ao projeto um caráter político, ele ganha mais força e importância pois trata-se um esforço em ir contra o clima de desconfiança, encapsulamento e discórdia que parece estar dominando nosso cotidiano. Enquanto, ao que parece, vivemos tempos de divergências, neste projeto a gente converge. Mesmo que não vençamos no final, esse esforço em compartilhar sempre valerá a pena.

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– Conta da sua trajetória como artista? Quando você começou, quais suas principais referências, qual legado você quer deixar pro mundo?

Minha formação é em ciências sociais e foi através dos pensamentos sociológico e antropológico que acabei me aproximando das artes visuais. Foi um processo bem sutil de transformação. Ainda me identifico com a cientista social apesar de efetivamente me intitular artista. Meu interesse, desde o começo, são as pessoas na intimidade, na minha intimidade, da minha intimidade, nossas identidades, práticas cotidianas, repertórios (não necessariamente, ou não somente, memórias). Durante meu percurso percebo que sempre mantive a atenção ao pessoal, ao indivíduo, e não à representação de algo mais generalizado socialmente, entende? Claro que o contexto social entra de alguma forma, é inevitável, mas acho que ele é indireto. A pessoa, o sujeito vem em primeiro plano. É um movimento do micro para o macro. Comecei com retratos, fui às cenas domésticas, trabalhei com objetos da intimidade e dos afetos (travesseiros, louças, café e açúcar etc)… Hoje o repertório imagético está bem expandido e as pessoas, que ainda continuam em primeiro plano, são mais integradas e associadas ao trabalho e entre si (acho que cheguei nesse ponto com “Desejo Motivo”), elas são parte da obra e não apenas o assunto ou o espectador num sentido mais tradicional, que seria separado do trabalho.

Minhas referências são muito diversas e não ficam só nas artes. São muitas mesmo. Atualmente, tenho me dedicado aos estudos sobre a ética de Espinosa (a partir de Deleuze) e tenho olhado muito para artistas como Rivane Neuenschwander, Cildo Meireles e Lygia Clark. Isso hoje, essa lista de referências é bem comprida.

Sobre legado não penso nisso. Vou vivendo e só. Acho que a gente pensa em “salvar o mundo” ou “fazer história” até a faixa dos 20 anos, depois a gente descobre que há tanto de relativo e tanto de impotência na própria existência humana que isso fica desimportante. Pelo menos pra mim! (risos) Se eu puder viver o melhor de mim cada dia, ajudar às pessoas a serem o melhor delas, a cada dia, através da arte, da conversa, enfim, do convívio, tá ótimo, excelente, super! Não vivo minha vida pra mim, nem pra minha arte. Cultivo a vida que há em mim a serviço dos vivos, dos demais seres viventes. Vida pela vida? Acho que é por aí… Bom… Melhor deixar em aberto com muita pausa, lacuna, suspensão, esgarçamento e reticência…

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Trilha: Inky, música eletrônica com pegada rock made in Brasil

por   /  13/10/2016  /  15:15

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De vez em quando entro numas de ouvir música eletrônica made in Brasil. E gosto bastante, ainda mais quando tem uma pegada de rock. Conheci a Inky com “Parallels”, o primeiro EP, que foi lançado em 2010. De lá pra cá, curti o clipe de “Baião”, vi um show em algum lugar que não lembro e, agora, tenho ouvido “Animania”, o segunda álbum do grupo formado por Luiza Pereira (vocais e sintetizadores), Guilherme Silva (baixo), Stephan Feitsma (guitarra) e Luccas Villela (bateria). A produção é de Guilherme Kastrup, que assina, entre tantos outros, “A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares.

Ouçam o disco > https://www.youtube.com/watch?v=j46melKgk_E

Pedi pra Luiza uma playlist com suas principais influências, que vão de PJ Harvey a Savages, passando por Janis Joplin, Pixies e Warpaint. Ouçam!

Aproveitei pra bater um papo rápido com ela, espero que gostem!

Ah, a banda faz show no próximo domingo, em São Paulo. Saiba mais > www.facebook.com/events/1052784464777526

– Conta um pouco da sua história? Como você começou a cantar? Quais foram suas principais influências?

Comecei a fazer aulas de música desde muito pequena, com 4/5 anos. Primeiro iniciação musical e depois aulas de piano. Nessa mesma época comecei a querer cantar me acompanhando no piano e achava mais fácil me expressar assim; a voz é um instrumento muito pessoal, cantar é um processo de autoconhecimento, de desvendar o seu instrumento e se descobrir. Gostava muito do jazz e de cantar standards clássicos. Uns anos depois, descobri o rock, a Björk, o Thom Yorke, a Beth Gibbons (e outros vários) e fui descobrindo minha personalidade artística no meio disso. Já no synth, tive uma grande influencia do “disco punk”, dos anos 80 e do trip hop.

– Como é ser mulher no mercado da música? É um espaço de mais acolhimento ou ainda tem bastante preconceito?

Acho que poucos mercados de trabalho são acolhedores pras mulheres. Salvo aqueles de carreiras consideradas “femininas”. O mercado musical é extremamente masculino. Desde produtores, engenheiros de som, roadies, músicos… E ser mulher nesse mercado é ser constantemente testada, subestimada e desrespeitada. Já ouvi homens questionando se eu sabia ligar meu instrumento, se eu tocava com playback, já fui assediada, já ouvi que eu tava na banda porque “era legal como marketing”, enfim… Ainda tem essa mentalidade de que mulher não tem capacidade e somos reduzidas ao nosso gênero e à nossa aparência. Mas isso tá mudando aos poucos, e fico feliz de ver cada vez mais mulheres trabalhando no mercado e mostrando qualidade e competência.

– Qual caminho você espera seguir com a INKY? Conta como vocês começaram, como estão atualmente e quais os planos pro futuro?

A gente começou a tocar em 2010. O Gui (baixista) tinha um projeto de musica eletrônica com baixo ao vivo e queria que isso virasse uma banda. Na época, eu tinha 17 anos e tinha acabado de comprar um synth e ele me chamou pra fazer um ensaio com outros integrantes e ver no que dava. A INKY nasceu e eu tô na banda desde então 🙂
Lançamos nosso segundo disco, Animania, em agosto desse ano e começamos a fazer os shows desse disco e a absorver essa nova fase. Espero que a gente continue crescendo, tocando pelo Brasil e pelo mundo e podendo trabalhar com pessoas que a gente admira.

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Precisamos falar do assédio

por   /  10/10/2016  /  8:08

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“Precisamos falar do assédio” é um desses filmes-porrada que a gente precisa ver. Reúne depoimentos de mulheres que foram vítimas dos mais diferentes tipos de abuso. É forte, incomoda, agonia e nos mostra o quão necessário é falar dessa triste realidade da qual praticamente toda mulher é vítima.

Durante a semana da mulher, uma van-estúdio parou em nove lugares em São Paulo e no Rio e recolheu depoimentos de mulheres de 15 a 84 anos, de zonas nobres e periféricas. As mulheres ficavam sozinhas na sala improvisada da van. As que não queriam mostrar o rosto, recorriam a uma máscara. Ao todo, 140 decidiram falar. Parte delas está no documentário, dirigido por Paula Sacchetta, com quem conversei sobre o filme.

O filme continua na internet, pra onde qualquer mulher pode mandar seu depoimento > precisamosfalardoassedio.com

Confira os locais onde o filme está em cartaz > facebook.com/precisamosfalardoassedio

O que mais te marcou durante a realização do documentário?

Todo mundo que me entrevista me pergunta isso e acho que cada vez respondo uma coisa de tão doloroso, difícil e ao mesmo tempo bonito que foi esse processo. Acho que o que mais me marcou foi entender o filme – e o processo todo dele, incluindo as filmagens – como esse lugar, apesar da dor e das violências, de encontro e acolhimento. Eu digo e repito que com esse filme eu descobri o sentido mais profundo da palavra acolhimento. Acho que foi olhar para a van como esse lugar de acolhimento, apesar de ser uma van fechada e escura na qual as mulheres ficavam sozinhas dentro, sem nenhum tipo de interlocução ou entrevistador, muitas viram nela a chance de falarem de seus traumas e violências sofridas pela primeira vez. Me marcou muito muito o depoimento de uma menina, que tem 18 anos hoje, que conta de um estupro que sofreu aos trezes. O depoimento dela mostra uma dor profunda e muito muito latente. É o mais dramático do filme em todos os sentidos. Mas mais que isso, o que mais me surpreendeu – e acho que surpreende qualquer um que assista – é que ela diz que está falando daquilo pela primeira vez. Que nunca falou daquilo nem para sua psiquiatra ou psicóloga. O que a fez, de repente, no meio da avenida Paulista, entrar naquela van escura e contar sua história? O projeto e todo esse momento que estamos vivendo acho que têm essa cara: de nos reconhecermos, de olharmos umas as dores das outras e, de alguma forma, nos sentirmos mais fortes para falarmos de coisas até então indizíveis. Pra mim isso é muito grande.

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Qual é a importância de colocar pra fora assédios, traumas e abusos?

Acho que é importante para mostrarmos como acontece muito e sempre e com todas nós. Para nos encontrarmos nesse lugar de acolhimento, fala, escuta, dor e cura e para dizermos, juntas, que não vamos mais aceitar isso. Acho que, por um lado, conscientiza: “amigo, olha só o que acontece todos os dias com a sua amiga, com a sua irmã, com a sua namorada e até com a sua avó”. E por outro, dá força para lutarmos contra: nos reconhecemos, ficamos mais fortes para falar e aí podemos, juntas também, dizer que não vamos mais aceitar. A fala, no centro do filme e em todo esse movimento, tem esse lugar de luta e ao mesmo tempo, de cura.

Conta um pouco da sua trajetória? Temas como esse sempre te interessaram ou foi um despertar que veio dessa primavera feminista?

Eu sou jornalista de formação, mas trabalho há algum tempo como documentarista e acho que, até agora, só fiz documentários e curtas sobre temas pesados. Eu não falaria de coisas que não me movem ou não me comovem, e, de certa forma, mostro o que está errado para tentar mudar as coisas. Eu sempre respondi na rua aos assédios, xinguei, sempre odiei escutar barbaridades e até já apanhei uma vez, por ser respondona. Essa primavera feminista que estamos vivendo só me deu vontade de trabalhar com esse tema agora em um documentário. Comecei a olhar todos aqueles relatos no Facebook e pensei em fazer algo que tirasse esse tema das redes sociais e ampliasse de alguma forma o movimento, ocupando os espaços da cidade com o tema. Por isso a escolha de um estúdio móvel. Eu poderia ter coletado os depoimentos dentro de uma sala fechada na produtora, mas a van adesivada na rua PRECISAMOS FALAR DO ASSÉDIO já trazia luz para o tema, entende?

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O que você espera para o filme, seu impacto, seus desdobramentos?

Eu quero que ele seja visto por mais pessoas possível. Acho que todo mundo que faz um filme quer isso. Mas acho que ele tem que ser visto à exaustão, tem que gerar reflexão e debate. Todo mundo que assiste – homens e mulheres – sai muito impacto, então acho que isso ele já tem por si só. Mas queria que ele rodasse o Brasil e o mundo. No meu mundo ideal, ele seria passado dentro das escolas, a partir, sei lá, dos 13 ou 14 anos (ele pegou 14 na classificação indicativa), para educar mesmo, sabe? Tanto as mulheres a identificarem as violências que muitas vezes naturalizamos, quanto os homens a entenderem o que podem fazer e o que não podem. Já passou da hora de pararmos a ensinar as meninas e se protegerem, a serem “comportadas”, “recatadas” ou a não usarem roupas curtas, por exemplo. Temos que ensinar os meninos a não serem estupradores e assediadores. Temos que ensiná-los a serem respeitosos e ensiná-las e serem livres.

Você já está fazendo outro projeto?

Sim! Alguns dentro da produtora onde foi bolado e realizado o “Precisamos Falar do Assédio”, a Mira Filmes. Estou dirigindo uma série de TV sobre jovens LGBT nas periferias de São Paulo e bolando outros dois longas documentários, um mais leve e solar e outro nem tanto, hehe.

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“1978”, de Gabriela Oliveira

por   /  04/10/2016  /  13:13

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Quando saiu do interior de São Paulo para morar na capital, Gabriela Oliveira foi para um pensionato católico. Tinha 17 anos. Munida de uma câmera herdada do irmão e de alguns rolos de filme, começou a fotografar o cotidiano de jovens como ela que compartilhavam um espaço enquanto começavam a viver uma poderosa etapa da vida.

Os registros dos anos 1970 foram revisitados em quatro décadas depois e, este ano, deram origem ao fotolivro “1978”, editado pela Olhavê, de Alexandre Belém e Georgia Quintas.

Conversei brevemente com a fotógrafa, cujo trabalho me encantou pela aura de mistério, pelas tantas histórias que uma única imagem consegue nos fazer imaginar.

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Desde a infância me interessei por artes visuais e comecei esse trajeto através da pintura. Em 1977, vim para São Paulo cursar o colegial no IADE (Instituto de Artes e Decoração), onde uma das matérias era fotografia, com o fotógrafo Antônio Saggese. O ensaio fotográfico “1978” foi a semente de tudo que tracei em seguida, inclusive a faculdade de artes plásticas na FAAP.

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Sempre fui interessada em reter e deter o tempo, registrando o que se passava ao meu redor, um apelo da memória: fixar a imagem que magicamente se revelava sob a luz vermelha. Essas fotos que fiz aos 17 anos foram meu primeiro contato com a fotografia. Captadas de forma intuitiva, ainda hoje possuem uma carga emocional, base de todo o meu trabalho.

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No processo de edição o que prevaleceu foi o viés poético que Georgia Quintas propôs com a escolha das imagens, além de presentear o trabalho com um lindo poema. Foi um processo muito rico, com confiança total e sobra de competência da Editora Olhavê.

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O objetivo de toda essa soma é simples. Que as pessoas possam apreciar a narrativa proposta, que cada leitor possa acrescentar as próprias histórias e memórias… Sentimentos que expandem todas as possibilidades do olhar.

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