Favoritos

Posts da categoria "amor"

A armadilha do “Faça o que você ama”

por   /  18/02/2014  /  11:11

Há pouco mais de três semanas, decidimos falar menos, mas trocar mais. Criamos, então, um blog para a Contente > http://contente.vc/blog/

Para nossa surpresa, o feedback foi muito maior do que a gente esperava, o que nos encoraja a continuar pensando cada vez mais na internet que a gente quer.

Semana passada, publicamos uma longa entrevista que fiz com a Bárbara Castro, socióloga, sobre o lema “Faça o que você ama”. Coloco aqui o começo da entrevista. E peço pra que quem se interessar vá lá no blog ler tudo. Foi uma alegria conversar sobre esse tema com alguém tão brilhante. Leiam! > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos sugere com veemência o que devemos fazer para ter uma vida melhor. Seja você mesmo, ame o seu amor, faça o que você ama. Nas paredes das ruas e nos murais da internet, as frases se impõem a todo momento, nos incentivando a sermos mais completos e felizes (muitas delas até já apareceram no nosso projeto Autoajuda do dia, aliás). Mas esse mesmo incentivo, quando feito em excesso, também acaba nos causando uma certa angústia. Afinal, sabemos que a vida é feita também de vulnerabilidade e que ainda vamos falhar muitas vezes, por mais que a gente passe dia após dia em busca dessa satisfação total.

Não tinha idéia de quando o discurso do “Faça o que você ama” tinha começado a aparecer com tanta frequência ao meu redor. Geralmente quando percebo alguma coisa assim, minha primeira reação é achar que todo mundo está sentindo a mesma coisa (ô, pretensão!). Depois costumo fazer o recorte: isso deve ser coisa de nicho, do meu nicho, de gente que faz trabalhos criativos, que consegue inventar sua própria rotina etc. O próximo passo é sair da superficialidade e entender melhor o tema.

Depois de ler uma matéria da Slate que fala sobre como o lema “Do what you love, love what you do”, estampado em pôsteres lindos que compõe a decoração do home office (obrigada por me mandar, Jana!) pode ser uma grande armadilha, encontrei minhas amigas do trainee da Folha para um jantar. Comecei a discutir com uma delas sobre o texto. E qual não foi minha surpresa? A Bárbara tinha passado o segundo semestre de 2013 inteiro dando aulas sobre o assunto!

Fiz uma entrevista com ela. E o que ganhei em troca foi uma aula sobre a história do trabalho. Bárbara Castro é socióloga e doutora em ciências sociais pela Unicamp (Universidade de Campinas). É especialista em discussões sobre trabalho e gênero e atualmente dá aulas no curso do sociopsicologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho”, diz ela na entrevista. “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade.”

A entrevista completa > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

As imagens que ilustram a entrevista são da Ana Luiza Gomes.

amor  ·  contente  ·  design  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  trabalho

Futuros amantes

por   /  13/02/2014  /  18:18

Apaixonar-se por um sistema operacional que habita seu computador e seu telefone é possível – e vai acontecer quando você menos esperar. Simplesmente porque se apaixonar pelo seu sistema operacional parte da mesma premissa de se apaixonar por uma pessoa de carne e osso: um conjunto de interesse, atenção, dedicação e tempo. Se vivemos cada vez mais grudados nas telas que nos cercam, vai ser natural flertar com essa disponibilidade constante (ou ao menos cogitá-la). A vontade de ficar junto e o tesão vão aparecer em seguida. Afinal, o que é o começo do amor se não a escolha de duas pessoas de construírem uma história juntas?

“Ela” é o novo filme de Spike Jonze (“Onde Vivem os Monstros”, “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação”) e conta a história de Theodore, um cara que acabou de se separar do amor da sua vida e que ganha a vida escrevendo cartas de amor para terceiros. Estimulado por uma propaganda que quase promete redenção, o personagem de Joaquin Phoenix compra um novo sistema operacional que não apenas vai organizar toda a sua vida (incluindo seus e-mails e contatos e até um futuro livro, que sonho!) mas evoluir com ele, por meio de troca e intuição. É assim que ele conhece Samantha, que é apenas a voz de Scarlett Johansson – e consegue ser sexy pra caramba.

O filme se passa numa Los Angeles de um futuro incerto. Não dá pra saber se o ano é 2040 ou 2200. Mas dá pra perceber que no futuro não vai existir engarrafamento, o metrô vai te levar até a praia e os aparelhos tecnológicos não vão ser tão high tech, e terão, sim, um ar bem retrô. Suas roupas também. Pode apostar numa calça de cós muito alto, meio desengonçada até. E numa casa extremamente clean e funcional. Na rua, muitos painéis coloridos, de onde sempre vai sair alguma imagem em movimento. Tudo muito bonito e agradável, como se a vida tivesse ganhado um eterno filtro de Instagram.

Em contraste com as mudanças, o amor permanecerá como sempre foi. Vai começar devagarinho e, de repente, vai ter mudado o dia, fazer com que a gente queira ser melhor. E vai tornar a vida mais leve e completa. De repente pode até surgir um ciúme bobo, uma insegurança, um medo de perder aquela conquista que a gente pensa que é replicável, mas percebe que acontece poucas vezes na nossa trajetória. Vem um medo danado, e a racionalidade diz pra gente acabar com tudo. Numa dessas, grandes amores se desfazem. Em outras, se renovam. E, no fundo, a gente entende que passa a vida querendo escapar da solidão para sentir o que tivemos quando o coração foi pleno e feliz.

Criada para evoluir, Samantha começa trazendo conforto e depois apresenta o risco. E nisso ela é como qualquer um de nós. Os questionamentos da relação homem x sistema operacional, também. Conseguimos lidar com as nossas mudanças e a do outro no meio do caminho, sem nos assustarmos? Ou travamos com a incerteza e o medo? A certa altura, quando é indagado pela amiga Amy (Amy Adams) se está apaixonado por um sistema operacional, Theodore hesita. E logo depois é confortado por ela:

Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É uma coisa louca de se fazer, uma forma aceitável de insanidade.

Se fomos e somos insanos, fico achando possível que a gente escute histórias de novas configurações de amor num futuro tão longe e tão perto, ainda mais se elas vierem embaladas pelo filtro de promessa de perfeição. Pra mim, é impossível pensar no amor sem toque e pele, mas vai que pra um monte de gente não é bem assim? Daí lembro da frase de uma amiga querida: a tecnologia vai matar o amor. E pergunto: a tecnologia vai matar o amor ou a tecnologia vai inventar novas formas de amor? Deixem suas apostas nos comentários!

“Ela” entra em cartaz nos cinemas do Brasil nesta sexta-feira (14/2). Aproveitem para ver antes “Her: Love In The Modern Age”, um documentário dirigido por Lance Bangs e que mostra as reflexões de gente como Olivia Wilde, James Murphy e Bret Easton Ellis sobre o filme > http://www.youtube.com/watch?v=ZSfUcWw9zto

* Escrevi este post como um publieditorial da Sony, distribuidora do filme, e do Creators Project/Vice, que fez o documentário. Espero que vocês gostem!

ações  ·  amor  ·  cinema  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet

A festa é minha e eu choro se eu quiser

por   /  22/01/2014  /  8:08

Escreveram o livro que traduz com perfeição várias sensações que experimentamos todos os dias ao usar o Instagram, o Facebook, o Twitter e qualquer outra rede que vier a surgir e que nos faça pensar que, quanto mais mostrarmos nossas vidas perfeitas, mais seremos felizes.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é o primeiro livro de Maria Clara Drummond, escritora e jornalista carioca de 27 anos. Em pouco mais de 80 páginas, ela faz uma crônica do que eu tenho chamado de Vazilândia (talvez fosse mais legal traduzir o termo pro inglês: Emptyland. Mais cool, né? Mas não).

Vazilândia é um universo nada obscuro, do qual qualquer um pode fazer parte. É o mundo da aparência e da falsa conexão, onde importa se vestir a partir das mesmas referências, frequentar os mesmos lugares, viajar para destinos badalados, frequentar estréias e vernissages muito cool, postar o seu dia a dia no Instagram, se alimentar de likes, comentários e número de amigos ou seguidores e chegar em casa e se sentir uma merda. Sozinho, oco, perdido, sem saber o que importa de verdade ou o que quer da vida.

No livro, Maria Clara conta a história de Davi, um jovem cineasta carioca que aceita um emprego em publicidade em São Paulo, passa a frequentar as melhores festas, vai a Cannes e se sente completamente sem rumo, usa drogas legalizadas e outras não pra escapar da dureza que é acordar e não saber porque decidiu atuar com tanta destreza em um filme cujo roteiro está completamente desamarrado. Em certo momento, o personagem diz:

Na verdade, o objetivo disso tudo é: beber durante a noite para tentar esquecer a angústia ou ao menos deixá-la em segundo plano. No dia seguinte, dormir muito e só acordar no meio da tarde. Aí só falta metade do dia em consciência, e logo posso voltar a dormir ou beber. Mas não importa. De tudo o que eu faço o objetivo principal sempre é escapar.

Estamos conectados o tempo todo, viajando na nossa própria viagem de que nossa vida editada uma hora vira vida de verdade. Será? E aí vem outro trecho:

Quanto mais você se aproxima de ser um adulto bem-sucedido mais você se afasta da felicidade. E aí, cara, chega num ponto que não tem mais jeito, babou. Você não vai abrir mão das suas regalias. São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! De pessoas que também são consideradas o máximo e ser exaltado primeiro no microcosmo da Incógnito e, logo depois, no Rio de Janeiro todo, e ouvir que pessoas de São Paulo já sabem quem você é e querem estar sempre por perto, é receber uma proposta de trabalho em São Paulo por um salário muito melhor, em um cargo muito melhor e com muito mais oportunidades de ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mais gente e assim você vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando, porque você sabe que se parar por um minuto você não volta do seu buraco interno jamais.

Ops… Parece que foi você que escreveu isso em um daqueles dias em que está mais pra baixo? Também tive essa sensação. E toda vez que sinto isso, penso: não dá pra achar que o problema é o Instagram ou o Facebook, mas sim as conexões de verdade que a gente deixa de fazer com as pessoas, né? E pra falar disso, seria necessário um outro livro – ou um outro post!

Rápido, preciso e atual, “A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é um livro que fala sobre a bolha de que muitos de nós fazemos parte de vez em quando. Aproveitei pra conversar com a Maria Clara sobre essas coisas todas.

Qual foi o clique que te deu pra escrever esse livro?

Sempre gostei de escrever, mas nunca ficava satisfeita com nada – e olha que eu sempre escrevi obsessivamente. Quando tentava contos, sentia que ficavam frios e sem alma. Também escrevia algo similar a uma prosa poética, mas, na maioria das vezes, tinha alma em excesso e o resultado era muito melodramático – além de ser muito difícil editar textos tão pessoais. Com a carreira de jornalista engatilhada, o sonho de escrever um romance ficava cada vez mais adormecido.

No dia 1º de janeiro, assim que cheguei em casa da minha festa de réveillon, sentei no computador e escrevi: “Cara. Melhor réveillon da minha vida. Mas, mesmo assim, ano que vem passo em casa, quieto.” Era um desabafo, porque de fato eu passo quase todos meus réveillons em casa, dormindo, e este eu passei em uma superfesta na casa de uma amigo, me divertindo horrores. Mas aí, sem muito planejamento, surgiu esse personagem e todo o círculo de amigos dele e suas respectivas personalidades. Escrevi praticamente o capítulo 1 inteiro neste dia, de uma vez só – mas é lógico que, ao longo dos seis meses que passei me dedicando ao romance, ele foi reescrito inúmeras vezes. O livro foi criado espontaneamente – sua estrutura foi sendo desenvolvida na medida que ele ia sendo escrito, na base de muitos testes.

Da série perguntas carregadas de suposição: como foi escrever uma história baseada na vida de 90% dos seus amigos e conhecidos?

Praticamente nada que existe de factual do livro foi baseado na vida de pessoas que eu conheço, somente alguns detalhes que serviam de inspiração para uma ficção nascer dali. Por exemplo, poucos dias antes do réveillon, fui à Comuna (bar que eu e meus amigos frequentamos no Rio) e, no bar, desabafei para um amigo: Não estou aguentando minha existência. Ele pegou a cerveja dele e disse: Ninguém aqui aguenta, tá todo mundo fingindo. E aí ele foi dançar e eu fiquei olhando aquele grupo de pessoas, aparentemente tão alegres. Fiquei com esse diálogo na cabeça (que reproduzi no livro) e dali surgiram várias cenas e pensamentos para a história. Muitas das reflexões foram baseadas em conversas com amigos sobre nossa geração.

Alguém ficou chateado? Ou a reação mais constante foi do tipo: “uow, é exatamente isso! O que a gente faz agora”?

Não, a reação foi positiva. Alguns disseram que ficaram meio perturbados e envergonhados de se identificarem com o Davi, mas foi uma perturbação boa, uma reflexão.

Como é viver em um mundo em as coisas só existem se forem postadas?

Acho que a chave para essa pergunta esta no parágrafo de conclusão do livro: inveja de nós mesmos. Aparentemente todos nós vivemos uma vida incrível, somos bonitos (todo mundo é lindo no selfie), inteligentes, frequentamos festas e exposições. Mas, no fundo, sabemos que não somos tão ~ legais ~ assim e daí vem a crise. Creio que a obrigatoriedade do sucesso que sempre existiu na sociedade norte-americana tenha se globalizado com as redes sociais, a ponto de virar pecado fracassar. Procuramos aparentar sucesso e felicidade, mais do que ser – e quando passamos a vida olhando para fora ao invés de olhar para dentro fica mais e mais difícil alcançar o que seria a felicidade.

Desaprendemos a falar a real uns para os outros em troca dessa exaltação de que somos o máximo o tempo inteiro?

Quando temos amizades verdadeiras, como as de infância, existe esse momento de falar A REAL. No entanto, muitas vezes essas amizades ocupam menos espaço na nossa vida, dando lugar a amizades do trabalho ou que sejam de alguma forma importante para o networking.Em cidades mais cosmopolitas, como São Paulo, isso acontece com frequência: tem uma frase da Tina Brown, que foi editora da Vanity Fair e da New Yorker, que simboliza bem esse espírito: “You don’t make friends, you make contacts”.  No Rio de Janeiro, que é uma cidade bem provinciana, é menos comum. Você encontra seus amigos de infância no Baixo Gávea: um surfista que ainda mora com a mãe, um CEO milionário, um artista hypado… E tá tudo certo.

É difícil para quem cresceu tendo tudo e podendo tudo lidar com frustração?

Sim, com certeza. Isso já foi bem explorado por vários artigos que tentam dissecar os chamados Millennials. Especificamente no Brasil, a minha geração foi criada em um momento econômico bom, o que torna as suas expectativas ainda mais irreais – isso somado à felicidade dos outros mostrada em redes sociais e revistas de lifestyle torna a combinação ainda mais explosiva. Uma frustração normal da vida toma ares de fracasso que só você passa – os outros estão lá, felizes e bem sucedidos.

Depois de escrever o livro, você pensou em tomar uma decisão “drástica”, do tipo ficar longe de redes sociais?

Amo Facebook. Gosto de discutir sobre política e outros temas relevantes com uma gama imensa de pessoas que eu normalmente não conversaria e que tem pontos interessantes a acrescentar – aprendo a partir dos links que os outros postam, sites e assuntos que eu não teria acesso de outra forma. A linguagem de internet é descontraída, mesmo quando o assunto é sério. Isso me agrada. Normalmente, não perco meu tempo vendo vídeos virais, nem tenho muita paciência para humor de internet – de vez em quando surgem uns ótimos e é bom, mas a maioria acho sem graça. Em geral, uso o Facebook como plataforma para fóruns de discussão sobre assuntos variados.

Odeio Instagram. Perdi meu iPhone e tive que ficar dois meses sem o aplicativo e foi ótimo. Me senti bem mais leve. Instagram é superficial e desperta o pior das pessoas: inveja, competitividade, narcisismo. Atualmente uso pouco essa rede social e pretendo usar cada vez menos.

O Instagram não te trouxe nada de bom?

Acho que não. Por vezes acho divertido (estou viajando e estou gostando de tirar fotos e deixá-las mais bonitas), mas tendo a relacionar o Instagram com ansiedade. Ansiedade de se mostrar feliz, de ter a sensação de ser querida, e é uma sensação falsa, porque likes não contabilizam amor. Já ouvi alguém dizer: “acho que ela não é muito querida, ela não tem muitos likes”. Outro dia, falava com uma amiga sobre como me senti mais leve quando estava sem Instagram e ela disse: “mas aí as pessoas podem esquecer que você existe, é ruim para o marketing pessoal” – ela disse isso a sério e creio que muita gente pensa assim.

Às vezes o Instagram pode ser útil para se começar um primeiro contato com alguém que você admira, pois cria-se uma conexão de forma mais leve que no Facebook, onde normalmente você precisa conhecer a pessoa para virar amigo. Dessa forma, fico feliz de ter algum tipo de relação com essas pessoas que não conheço, mas admiro o trabalho (principalmente se essas pessoas me seguirem também), mas como o instagram não permite muitas interações por texto (onde me saio melhor – sou meio ruim com imagens e isso deve influenciar minha implicância com o aplicativo) normalmente esse tipo de contato permanece superficial, na base de likes. Então, sou meio indiferente em relação às benesses do Instagram.

O que a internet te trouxe de mais assustador até hoje?

Acho a internet ótima, o problema é alguns tipos de rede social que fazem com que seja muito tentador se comparar com os outros a partir de critérios aleatórios como likes, seguidores etc. Isso torna as pessoas mais narcisistas, autoconscientes, competitivas e invejosas. Mas nada que um pouco mais de terapia e introspecção não resolva. Qualquer problema do mundo moderno (tanto oriundo das redes sociais ou os que eu trato no livro) pode ser resolvido com uma boa dose de introspecção, silêncio, autoanálise, leitura. Menos selfie, mais Freud e Jung – as pessoas podem até começar a ler sobre esses dois pensadores em um texto de internet para então migrar para um livro.

E de mais surpreendente?

Acho internet ótima para relações pessoais, é mais fácil você se aproximar de pessoas com quem você tenha afinidades. Você tem a chance de ler sobre assuntos que normalmente não leria – eu não tinha o menor interesse sobre feminismo até minha timeline ser inundada por posts dessa espécie e só a partir daí que comecei a pesquisar sobre o assunto. Tem mil ensaios interessantes disponíveis na web. É lógico que um artigo de internet pode ser insuficiente comparado a texto mais extenso que você encontra em um livro, mas é um bom ponto de partida para você começar a desenvolver uma espécie de curadoria intelectual (ex: não me interesso sobre fenomenologia, mas descobri que amo semiótica e vou me aprofundar no assunto).

Quem você quer que te leia? Vale fazer uma citação genérica do tipo “jovens de 30 anos que moram em São Paulo” ou nominal: “aquele cara que tem a família perfeita no Instagram”.

Imagino que meu livro seja mais atraente para jovens (de qualquer canto do mundo), entre 20 e 35 anos, mas nada impede que um adulto de 55 anos leia e se identifique com o Davi.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser”, de Maria Clara Drummond

Editora Guarda-Chuva

Mais em > https://www.facebook.com/pages/A-festa-%C3%A9-minha-e-eu-choro-se-eu-quiser/1387164904851450

Crédito das imagens: divulgação + Pinterest + Pinterest

amor  ·  auto-ajuda  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  literatura  ·  vida  ·  vídeo

Entrevista com o Devendra Banhart

por   /  19/12/2013  /  9:09

Em novembro, a Ana Bean me convidou para entrevistar o Devendra Banhart para a Beltrano Musical, que faz o Popload Gig. Foi rápido e inusitado!

Reproduzo o texto da Beltrano:

Tem uma coisa que não sai da cabeça do Devendra Banhart. Não importa se ele está em um karaokê, ou pensando em um poema: tem sempre essa obsessão no caminho. O que será?

Que música ele gosta de cantar com os amigos? Qual a sua banda preferida que ninguém desconfia? E com quais músicos brasileiros ele gostaria de fazer uma parceria um dia?

A Beltrano Musical foi até o Cine Joia, no dia 13 de novembro, e conversou com o cantor e com os fãs. Pelo jeito, ninguém sabia dessa paixão secreta do Devendra…

Assistam ao vídeo! ♥

amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música

Por uma vida mais off-line

por   /  21/11/2013  /  16:30

David Baker checa email duas vezes por dia, acha extremamente rude manter uma conversa com alguém que não tira os olhos do celular e só conseguiu usar o Facebook por um mês (e odiou a experiência). O comportamento frugal em relação à tecnologia vem da experiência que ele tem na área: há mais de três décadas ele pensa, escreve, faz consultorias e dá aulas sobre o assunto. Por anos foi editor-chefe da versão inglesa da revista Wired, a bíblia da tecnologia, e hoje é professor na The School of Life, a escola criada por Alain de Botton e Roman Kznaric (“Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira + Como encontrar o trabalho da sua vida)

Nos anos 1980, Baker deixou o emprego em um escritório de relações públicas e teve que aprender duas coisas: como ganhar dinheiro sendo seu próprio empregador e como lidar com o tempo para tirar o melhor proveito dele. “Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais que o necessário”, disse ele ao Don’t Touch.

Em uma época em que o lema era “work hard, play hard”, Baker decidiu não ser um yuppie. “Tomei uma decisão de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita.”

Viver com menos talvez tenha sido o primeiro passo para que Baker começasse a entender que esse comportamento também poderia ser levado para o mundo digital, que funciona em uma velocidade e com um volume de dados impossíveis de acompanhar. “Precisamos reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usar toda a tecnologia disponível pra viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usar a tecnologia como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos”, diz ele.

Conversei com o David na última terça-feira, ao fim do intensivo que ele deu na versão brasileira da The School of Life, em São Paulo. No próximo sábado, às 11h, ele fala sobre “Tecnologia e Humanidade” no sermão da escola, que acontece no Teatro Augusta. Ainda há ingressos, aproveitem > http://www.theschooloflife.com/shop/david-baker-sobre/

O papo foi daqueles demorados e deliciosos, em que a gente vai ouvindo cada frase com total atenção (e com o celular no modo avião, por favor!), aprendendo com a experiência de quem se dedica ao assunto há muito tempo e pegando dicas para incorporar na vida atitudes que levam a um comportamento digital mais saudável.

Espero que vocês gostem! ♥

- Tem um livro que eu gosto que fala que nós esperamos mais da tecnologia do que uns dos outros. O que você acha disso?

Meu tema para este ano, porque eu trabalho para a Wired e porque ensino na School of Life, é tentar investigar o que acontece quando seres humanos e tecnologia colidem. A tecnologia está se tornando cada vez melhor mais rapidamente e isso não vai parar. E isso nos traz problemas. O primeiro é que nós temos expectativas diante da tecnologia que são despropositadas, temos a ilusão de que a tecnologia vai resolver todos os nossos problemas. E não é verdade. Existe um “solucionismo”. Tenho um problema e penso que vai existir uma tecnologia para resolvê-lo. E não é o caso. Tecnologia é ferramenta. O que nós precisamos é reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usá-la para viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usá-la como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos. Isso aconteceu na Revolução Industrial. Quando as indústrias de fábricas cresceram, as vidas de várias pessoas ficaram piores, mesmo com muita gente pensando que aquilo era sinônimo de progresso. Começamos a descobrir coisas como poluição, o som constante das máquinas. Aí mudamos essa relação. A nossa relação com a tecnologia hoje ainda é adolescente e agora estamos começando a nos tornar adultos.

- Por que você acha que nós estamos tão viciados em likes e comentários?

Por duas razões. É realmente excitante quando as pessoas dão like em alguma coisa que nós postamos. É como ser um ator em um filme, é como se fôssemos famosos. Tem uma platéia ali, de maioria de pessoas desconhecidas. “Estranhos gostam do que eu digo? Que bom!”. E nós podemos ter números. Conheço pessoas no Twitter que entram em competições para ver quem tem mais seguidores. Existe uma idéia de que podemos ser melhores por causa dos números. E o que ferramentas como Twitter e Instagram fazem é o que os psicólogos chamam de reforço intermitente. É como um jogo de azar. Vencer é o like, que vem de maneira randômica. Continuo jogando roleta porque a próxima rodada pode me fazer ganhar. Continuo postando pra ver se vem um prêmio. Pessoas que não podem deixar seus telefones de lado têm um problema psicológico.

- Há estudos que dizem que esse vício é químico também. Quando checamos email e tem uma mensagem nova, o cérebro libera dopamina. Ficamos animados e queremos de novo.

Nós temos que entender onde está a dopamina em outras áreas da nossa vida. Não é certo sentir prazer em checar email. É ridículo. Email é uma coisa prática para comunicação. Nós precisamos pensar: por que estou procurando meu prazer aqui, se poderia fazer isso de uma maneira que me preenchesse mais? Eu checo emails duas vezes por dia, geralmente. E minha vida é ok, não é um desastre. No resto do tempo eu espero encontrar prazer em outros lugares.

- E como você chegou a essa dinâmica de checar email duas vezes por dia?

Quando me tornei o editor-chefe da Wired em Londres, comecei a receber centenas de emails. Eu passava o dia lendo emails, e os projetos que eu precisava fazer, como criar uma edição digital, não iam pra frente, pois eu não tinha tempo. Daí decidi reduzir essa exposição. Sou velho o suficiente para lembrar que a comunicação era feita por correios. Quando comecei a trabalhar, a comunicação vinha duas vezes por dia. Recebíamos alguma coisa, pensávamos na resposta, escrevíamos, enviávamos. E o trabalho funcionava do mesmo jeito. Decidi checar email às 11h, depois às 16h. Também desliguei o voicemail do meu telefone, para que as pessoas não pudessem deixar mensagens. Desliguei as notificações do Outlook. Isso mudou a minha vida completamente.

- Queria conseguir fazer isso.

O que falamos aqui na School of Life é de ir experimentando. Tente por um dia, veja o que acontece. Depois por dois e assim por diante.

- Estamos sempre conectados, mas frequentemente nos sentimos sozinhos. Isso é um paradoxo ou é um sentimento que está se tornando real para cada vez mais pessoas? Qual é a importância de saber ficar sozinho?

É irônico, né? Quanto mais conectados, mais nos sentimos sozinhos. O que acontece é a Fomo (fear of missing out), o medo de perder as coisas é um sentimento muito profundo, principalmente para quem vive em grandes cidades. O que acontece é que na internet vivemos em “megalópolis”. Não consigo lembrar quantos membros o Facebook tem, mas vivemos numa população de bilhões. O que a internet promete é conexão e compartilhamento, mas o que entrega é mais uma sensação do que estamos perdendo. Nós pensávamos que a internet iria aumentar a diversidade, mas, em vez disso, as pessoas tendem a se comunicar com quem já conhecem, a criar pequenos grupos. E também não existe fronteira de tempo. Preciso estar conectado. A idéia de estar sempre conectado é ainda mais jovem que a internet, veio com a conexão banda larga. Nós olhamos como um direito que sempre existiu, mas em 1990, 1992, você tinha que ligar para um número, se conectar na internet, fazer seus negócios, se desconectar. Tínhamos uma atitude diferente: vou me conectar, falar com as pessoas, me desconectar. Mas o “always on” nos dá a ilusão de que temos que estar conectados o tempo todo, o que é um problema, porque, quando a conexão cai, a gente enlouquece.

- E qual é a importância de saber ficar sozinho?

Nós geralmente estamos sozinhos e é importante que a gente entenda que isso vem com coisas boas e ruins. No Brasil a palavra é uma só: solidão. Na Inglaterra, temos duas: loneliness e solitude. A primeira é ruim, a segunda é boa. Uma investigação que podemos fazer é como tornamos o sentimento de nos sentirmos solitários em solidão. Ficar sozinho não precisa ser uma coisa ruim. Porque a internet é baseada em conexão, quanto menos você tem parece que é pior. Mas esses momentos quando estamos sozinhos de uma maneira boa são momentos de pensamentos profundos que podem nos levar a descobertas maravilhosas sobre o que somos capazes de fazer. E pra mim estamos aqui na Terra para descobrir o potencial dentro da gente e crescer e aproveitar para fazer as coisas nas quais somos bons, que nos deixam animados e felizes. Algumas vezes a gente precisa ficar sozinho para descobrir isso. E o que acontece com a internet é que ela está sempre lá, nos chamando.

- Tem um outro livro, “The Information Diet”, que diz que nós estamos ficando obesos não apenas nos nossos corpos, mas em nossos cérebros, devido ao lixo de informação que consumimos. O que você acha disso?

Informação hoje na internet tem que gritar para ser ouvida. Acho que a quantidade de dados que trafega na internet em um mês é de 40 exabyte.

- Eu nem sei o que é um exabyte.

Exatamente. O interessante é que 5 exabytes é número total de palavras ditas pelos seres humanos em toda a história. Oito vezes isso circula na internet todo mês. É astronômico. Para ser ouvido, as coisas precisam gritar. Não é diferente do mundo, onde tem milhões de pessoas que nunca vamos conhecer. O cérebro funciona como uma banda larga doméstica. Não temos como lidar com todos esses dados. Popularizam-se coisas como vídeos de gatos, que são brilhantes. Parece que tudo é muito efêmero. Como eu cultivo solidão na minha vida? A internet é incapaz de responder isso. A velocidade da internet nos desencoraja a pensar mais lentamente. Agora o relógio nos faz pensar em resultados instantâneos. O Google nos dá resultados em frações de segundos. Nós somos encorajados a consumir os dados ruins, mas também a não pausar e resistir e ir procurar outro tipo.

- Me parece que estamos preguiçosos, vivemos numa época em que parece que tudo é o Buzzfeed. Amo o Buzzfeed, mas ninguém lê um texto grande na internet.

Quando lançamos a Wired em Londres, uma publicação impressa, decidimos escrever textos longos, com 4 mil palavras. Eu achava que não ia dar certo, mas se tornou muito popular. A gente queria que as pessoas parassem por 20, 30 minutos e contemplassem, aprendessem alguma coisa. A velocidade também nos deixa preguiçosos para a especulação. Conhecimento vem da especulação, da conversa. Se eu falo pra você que o Azerbaijão é maior que o Cazaquistão, e você diz que não, temos uma conversa. Hoje vamos ao Google e resolvemos a questão muito rapidamente. Paramos de trocar as informações que tínhamos. Podemos até não chegar na resposta, mas na jornada para a resposta, aumentamos nosso conhecimento. Com o Google a gente tem a resposta, mas vamos esquecer no outro dia ou não vamos ter aumentado nosso conhecimento. Sinto falta disso. Quero ser um evangelista da especulação. Quero que as pessoas deixem o Google de lado e investiguem o que têm em suas cabeças.

- Como nós podemos tirar o máximo da internet, de uma boa maneira? Quais são os sites que você costuma checar diariamente?

Não tem nada que eu veja todo dia. O Google eu uso todo dia. Adoro todas as ferramentas deles. Fico muito feliz em dar todos os meus dados para eles em troca dessas ferramentas gratuitas. GDocs, Gmail são coisas incríveis. Eles me ajudaram a pensar melhor, a me organizar, a lidar com colegas. Obrigada, Google! Além disso, amo o Gawker, leio por entretenimento. Amo a Wikipédia, acredito muito nela. O que tento fazer é usar a internet sem usar a internet. Gosto de tirar tempo fora dela, me desconectar. De repente tenho esse tempo incrível em que leio um livro ou uso um pedaço de papel e lápis para colocar meus pensamentos. São sempre tempos melhores.

- Você está no Facebook?

Não. Eu tentei por um mês e detestei. Em princípio não tenho nada contra. Mas velhas informações ficavam aparecendo pra mim, demandando minha atenção. Tenho muitos amigos que eu vejo no mundo real e essas conexões com eles, falando no telefone, indo na casa ou recebendo na minha, são conexões melhores. Eu fazia log in e ficava aterrorizado. Preferi me desconectar, ir pra fora, investigar algo nos meus termos. A ironia é que não fechei minha conta, um pouco tempo depois tive que escrever para um site que estava em beta e eu precisava logar pelo Facebook. Fiz uma página e hoje tenho 0 amigos. Eu sou o loser do Facebook e sou muito feliz com isso.

- Será que temos que criar momentos específicos para usar a internet? Está em tempo de seguirmos uma etiqueta virtual?

Eu odeio quando as pessoas estão olhando para o telefone enquanto estão tendo uma conversa comigo. Eu realmente odeio isso. Parece não apenas rude, mas também meio idiota. Acho que uma das coisas mais bonitas que você pode fazer na vida é dar sua atenção completa a um ser humano, é um ato de amor. E é o que faz a conversa cara a cara tão melhor do que a pelo Skype. Quando estamos na presença de outra pessoa, podemos dar toda a nossa atenção a ela, e eles nos dão de volta. E nós chegamos a um lugar tão mais profundo, que nos preenche, do que quando temos conversas no mundo digital. O que prejudica isso é quando as pessoas são distraídas pelos seus telefones. Um amigo meu lançou uma acampanha em Tel Aviv para deixar os telefones virados pra baixo. Isso está começando a ficar popular por lá. É muito legal pensar: onde está meu telefone agora? O meu está no bolso. E prefiro que as pessoas deixem no bolso ou virado pra baixo, no silencioso. Se não a mensagem fica apitando e você vê os olhos da pessoa procurando. É rude. Sei que pareço um homem velho, mas acho que é rude pra todo mundo, inclusive para um menino de 14 anos. Quando estamos com outra pessoa essa é a pessoa mais importante, não as que estão online.

- Como você organiza sua rotina para dar conta de fazer tudo?

Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais. É o sistema. Nós pagamos as pessoas por hora, dia, mês. Elas não são encorajadas a trabalhar com rapidez, mas sim devagar. Eu trabalho pra mim. Se alguém me pede pra fazer uma coisa, é uma vantagem se eu fizer rapidamente. Quanto mais espaço você tem na sua vida, mais coisas boas acontecem. Eu tomei uma decisão há alguns anos de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita. Como resultado, quando trabalho, faço isso de maneira esperta e satisfatória para mim e para as outras pessoas.

Em casa, meu ritmo. Descobri recentemente que gosto de acodar cedo. Vou para cama às 22h30, acordo às 7h. Sou inglês, preparo um chá, levo meu laptop pra cama, passo umas duas horas, faço o primeiro turno de emails. Escrevo alguma coisa. Está tudo calmo lá fora, não tem ninguém por perto. Como resultado, a maioria das coisas que preciso fazer estão acabadas às 9h. Gosto de, todo dia, estar em um lugar analógico. Gosto de nadar em água fria num lugar aberto. Pego minha bicicleta. Tem água, floresta, pássaros, é o oposto da internet, é analógico. E gosto de passar tempo nesse mundo. Quando volto, faço o segundo turno de emails e o dia chega ao fim. Em escritórios nós perdemos tempo. Não precisamos ser escravos. Especialmente pessoas que todos os dias ficam até tarde no trabalho. Eu não acredito que elas tenham tanto para fazer todos os dias.

- Quem são suas inspirações?

Eu me inspirei em mim mesmo. Trabalhei para duas empresas de relações públicas em Londres, nos anos 1980, numa época yuppie, de “work hard, play hard”. Saí da empresa, tive que entender como funcionava a vida de alguém que se emprega. E me dei conta de que o meu tempo era muito importante. Fiz um trabalho com uma consultoria sobre gerenciamento de tempo. Comecei a pensar em qual é o ponto de estarmos no mundo. E sempre fui atraído por pessoas que vivem de um jeito mais simples, que têm um propósito. Mais do que as pessoas que ostentam. Por necessidade, sem dinheiro, entendi que precisava fazer alguma coisa boa com o meu tempo. E depois se mostrou um valor viver assim. Sou religioso, judeu, tem um profeta que diz: você pergunta o que é ser bom. E eu digo: você deve procurar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o seu Deus. Gosto de andar humildemente.

- Você tem um mantra de vida?

Nunca deixe de ser curioso. Existem coisas maravilhosas lá fora prontas para serem descobertas.

Créditos das imagens: 1) The School of Life; 2) do Pinterest; 3) Julien Mauve; 4) Daniela Arrais; 5) Tim Barber.

Agradecimentos especiais a Cris Naumovs, Carol Almeida, Júlia Veras, Raquel Ferraz e Luiza Voll! ♥

auto-ajuda  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  trabalho

Lulina cheia de Pantim

por   /  20/11/2013  /  11:13

Poderia dizer que conheço Lulina de outros carnavais de Olinda, mas nem é. A gente se conheceu pela internet, compartilhando um amor louco pelo Belle and Sebastian e muitos emails gigantes, daqueles em que a gente conta a vida toda, quase todo dia.

Nos vimos em Recife quando eu ainda morava lá e ela dava umas passadas, vinda de São Paulo. Eu ouvia os discos que ela fazia em casa (e desde então amo várias de suas músicas, principalmente “Do You Remember Laura?” e “Meu Príncipe”), ia em muitos de seus shows. Fazíamos piqueniques e previsões de como seria o próximo ano – e como eu queria encontrar os caderninhos onde a gente anotava dos mais simples aos mais ousados desejos!

Lulina lança agora seu segundo disco gravado em estúdio, o “Pantim”. O show acontece nesta sexta (22/11), às 21h30, no Sesc Belenzinho. Aproveitei pra conversar com ela, fazendo umas perguntas bem atemporais e outras mais focadas na carreira e no novo disco.

Espero que vocês gostem da conversa! ♥

- Qual é a música que mudou a sua vida?

Não diria uma música, mas uma banda. Velvet Underground. Muitas músicas de Lou Reed fizeram a diferença na minha vida.

- E qual música sua você ouve e entende como algo poderoso, que vai mudar a vida de alguém?

É muito difícil acertar que música teria esse poder, pois nem todo mundo consegue ser tocado pelas mesmas palavras e melodias. Acho que só quem pode responder a essa pergunta é quem está na platéia. Do disco novo, muitas pessoas comentaram comigo sobre duas canções que as tinham tocado profundamente: “Prometeu sem cadeado” e “Areia”.

- Conta um pouco sobre sua trajetória? Quando você se descobriu artista, quando começou, quando tocou pela primeira vez, como começou a ser reconhecida?

Não tenho uma formação musical tradicional, comecei a compor oficialmente aos 15 anos (apesar de já gostar de criar músicas desde uns 9 anos) e tive como professor na adolescência Raul Seixas, através das revistinhas de cifras que eu comprava em Olinda. Comecei a gravar discos em casa em 2001 e nos anos seguintes, a fazer shows com uma banda formada por amigos, em Recife. Ao me mudar para São Paulo, recebi o convite da Yb para gravar meu primeiro disco oficial, depois que ouviram os discos caseiros que eu costumava gravar antes. Nessa época, eu já fazia bastante show no circuito indie de São Paulo. “Cristalina” (2009, Yb) é ao mesmo tempo o meu primeiro disco oficial e também um “the best of” dos 6 discos caseiros gravados anteriormente. O disco foi muito bem recebido por crítica e público, e comecei a fazer shows maiores e a me dedicar cada vez mais à carreira artística. Agora estou lançando o “Pantim”, meu segundo disco pela gravadora Yb, ao mesmo tempo meu 12˚ disco, se eu contar com as produções caseiras, e ao mesmo tempo meu primeiro disco realmente novo (já que o “Cristalina” era uma compilação).É tudo meio fora do padrão mesmo, seguindo o flow da vida e do que dá vontade de compor e lançar.

- Como você define a sua música?

Não sei. Esses dias ouvi um cara definir como “ressaca em dia de sol”. Acho que é isso mesmo. Por sinal, ressaca é um dos momentos mais criativos para mim – fico mais sensível e, se deixar, componho um disco inteiro em um dia de ressaca.

- O que inspira você a criar? O que você quer dizer com o que faz?

Acontecimentos da vida e também a morte me inspiram a criar. A música acaba sendo um diálogo que mantenho comigo mesma e que divido com quem mais se interessar pelo assunto. Não tenho nenhuma intenção específica ao fazer música, apenas é uma atividade que amo, que é tão natural quanto falar, e que me deixa feliz muito mais pelo fazer em si do que pelo resultado que dá. Mas gosto de torcer para que a música que eu faço seja ao menos uma boa companhia, quem sabe um bom amigo, para quem ouve.

- Você cresceu sendo influenciada pelo que? E quais são suas principais referências hoje?

Cresci influenciada por Super Nintendo, Playmobis, revista Mad – foi musicando um texto da revista Mad que compus uma das minhas primeiras canções, por volta dos 10 anos de idade -, literatura russa, festas da família regadas à cerveja, arrumadinho e cozido, Rita Lee e Elton John na vitrola da minha mãe em Olinda, Nirvana e NBA na adolescência, Velvet Underground, Mutantes e Yo La Tengo na faculdade, e nos últimos anos, Tom Zé, Erasmo, Connan Mockasin, Will Oldham, escritores como Philip Roth e David Foster Wallace, Tibete.


- Tem alguma frase que seja seu lema?

Uma frase que a minha vó repetia pra mim, sempre que me via correndo de um lado pro outro, aperriada com trabalho ou com outras preocupações: “A vida é mais importante”.

- E conta sobre o “Pantim”? É seu segundo disco em estúdio. O que a gente vai ouvir? Um disco influenciado pelo que, com participação de quem, que diz o que sobre esse seu momento de vida?

“Pantim” contém músicas compostas em 2011 e 2012 e que parecem ter como fio condutor uma discussão sobre o egocentrismo e o buraco negro que ele provoca. A palavra pantim quer dizer dar chilique, espernear, e é mais usada no Nordeste. O disco tenta buscar algum sentido em tudo o que fazemos e conquistamos, com uma linguagem mais direta, numa gravação com toda a banda ao vivo, praticamente. É diferente do “Cristalina” na forma, mas é muito parecido com ele no conteúdo – se antes as metáforas e o humor escrachado disfarçavam os questionamentos, agora eles são colocados de forma direta, com algum humor, mas sem ironia e sem rodeios. Os mesmos assuntos, antes tratados de um jeito escapista, agora vêm à tona de um jeito mais realista.

As fotos de Lulina foram feitas pela Ana Shiokawa.

Lulina faz show nesta sexta, às 21h30, no Sesc Belenzinho. Mais em > http://www.sescsp.org.br/programacao/15722_LULINA

amor  ·  arte  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música

don’t touch entrevista opala

por   /  14/11/2013  /  12:00

Sabe a filha do Tom Jobim? Começou a ouvir muita música eletrônica, se arriscou numas composições, decidiu cantar, se juntou com um amigo produtor e fez uma banda chamada Opala, que eu não paro de ouvir desde que conheci.

Opala é a banda da Maria Luiza Jobim e do Lucas de Paiva e não tem nada a ver com a maravilhosa bossa nova do pai dela, o que é uma alegria neste mercado dominado por cantores que fazem tudo “como nossos pais”.

O som do Opala tá muito mais perto da Grimes, do Knife, do XXYYXX. E é tãaaao bom que resolvi conversar com a Maria Luiza pra saber como eles começaram, do que gostam de ouvir, como é ser comparada com o pai o tempo todo…

Vejam a entrevista no vídeo abaixo! Espero que vocês gostem! ♥

Ouçam o Opala > https://soundcloud.com/maria-luiza-jobim

A foto que ilustra o post é do Jorge Bispo, que gentilmente nos permitiu usá-la!

don't touch my tv  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música  ·  vídeo

os mundos de dom la nena

por   /  27/09/2013  /  15:30

Dom La Nena, que nome diferente! A capa do disco é bonita, tem uma dupla exposição dela, meio embaçada. Vou ouvir. Das 13 músicas, já tenho vontade de ouvir de novo mais da metade quando acaba o disco. Bom sinal. Durante a semana, ouço mais e mais. E, uns dez dias depois, numa noite em que chovia muito no Rio, saio de casa com duas amigas para ver um show dela no Solar de Botafogo.

Uow! Que boa essa menina. Ela não é só mais uma cantora com um repertório óbvio que me deixa com aquela sensação de “quase lá”. É uma artista completa – e por mais que essa frase seja um clichê, é uma alegria quando conseguimos ver uma performance assim ao vivo. É em busca dessa verdade que passo tanto tempo ouvindo música. Viva!

Ela toca violoncelo, ukelele, faz percussão com um chocalho amarrado no pé, coloca uma música antiga em uma vitrolinha para servir de fundo para que ela cante, em português, francês e espanhol, suas letras que falam de deslocamento, de pertencimento e não pertencimento, de amor, dos amigos que nunca mais foi visitar, de ser estrangeira mas sempre sentir que tem uma casa.

Dom La Nena é Dominique Pinto, uma garota de 23 anos que nasceu em Porto Alegre e passou a maior parte da vida pelo mundo. Primeiro, em Paris, para onde foi com a família acompanhar o doutorado em filosofia do pai. Aos 13 anos, mudou-se para Buenos Aires, para onde foi sozinha estudar violoncelo com Christine Walevska, um de seus ídolos no, conhecida como “a deusa do violoncelo”. De volta à França, aos 18 anos, acabou passando dois anos em turnê com a Jane Birkin, musa do Serge Gainsbourg. Também trabalhou com Jeanne Moreau.

La Nena, a pequena, foi incorporado porque ela sempre foi a caçula dos grupos que frequentava. Dom começou a estudar piano aos 5 anos e, aos 8, já se aventurava no violoncelo. “[Ser artista] no meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse ‘ah, sou artista’! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…Fiz teatro, dança, pintura etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje”, conta ela ao Don’t Touch.

Em agosto, Dom La Nena lançou seu disco, “Ela”, no Brasil. Nos Estados Unidos o álbum saiu no começo do ano pela Six Degrees Records e recebeu elogios de veículos importantes, como o New York Times e a Les Inrokuptibles. O disco foi produzido por Dom e Piers Faccini e conta com participações da cantora francesa Camille e dos brasileiros Thiago Pethit, Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup.

“A Dominique é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço. E acho lindo que o nome artístico dela seja esse pequeno apelido, Dom. Porque ‘dom’, em português, representa um pouco dessa habilidade inata e musical dela. Ela é uma garotinha, doce, sensível, delicada mas tem também uma coisa, uma personalidade forte, muito assertiva e direta. E as músicas acabam ganhando essa qualidade”, diz Thiago Pethit.

Embora tenham morado em Buenos Aires a uma quadra um do outro, eles se conheceram em São Paulo, por meio do Vicent Moon, que faz o La Blogotheque com Jerome, marido da cantora. “Depois de todas essas coincidências, foi uma espécie de amor à primeira vista. Fizemos juntos um Som Brasil – TV Globo em homenagem a Assis Valente e na sequência, de volta a São Paulo, ela me convidou para gravar ‘Buenos Aires’. Desde então, temos nos encontrado meio que por acaso em diversos lugares do mundo, Paris, Lisboa, São Paulo, Paris de novo… Da última vez, até cantei no show de estreia dela por lá e foi muito lindo”, completa.

Tendo como referências artistas como Lhasa de Sela, Juana Molina, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e a música brasileira de Dorival Caymmi, Jorge Ben, Chico Buarque e Tom Jobim, Dom La Nena fez um disco de estreia muito consistente, em que sua voz frágil se junta a melodias delicadas (que, por vezes, lembram canções de ninar) e a arranjos dominados por um violoncelo poderoso.

Talvez por ter mudado tanto de país, parece que ela criou um mundo só seu, cheio de nostalgia. Com seu jeito doce, um sorriso no rosto e até um pouco sem jeito, ela nos convida a entrar nele, meio que ainda sem acreditar que suas criações podem encantar mais gente.

Para conhecer mais sobre a história da Dom La Nena, leiam a entrevista que fiz com ela logo abaixo. Antes, assistam aqui à estreia de “Golondrina”, seu novo clipe, dirigido por Jeremiah.

- Quando foi que você se descobriu artista?

No meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse “ah, sou artista”! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…fiz teatro, dança, pintura, etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje. – Como foi sua formação? Minha formação musical é em música clássica. Em Porto Alegre, de onde eu venho, comecei a estudar piano aos 5 anos, e violoncelo aos 8. Logo fui para Paris com meus pais (para o doutorado do meu pai), e continuei estudando lá…Sempre fui muito apaixonada pelos dois instrumentos, mas a partir dos meus 10 anos decidi ficar somente com o cello, e já estava decidida que queria ser violoncelista – e já estudava muitas horas por dia. Fiquei estes 4 anos estudando no Conservatório. Depois continuei estudando em Buenos Aires, também uma formação clássica no Conservatório de Buenos Aires e na academia do lindo Teatro Colón…fiquei lá 5 anos, dos meus 13 aos meus 18. Com 18 voltei a Paris, para continuar estudando na École Normale de Musique onde completei meu ciclo superior.

- Conta um pouquinho da sua trajetória, onde você morou, por quanto tempo?

Nasci em Porto Alegre onde fiquei até meus 8 anos. Depois morei em Paris dos meus 8 aos meus 12, voltei para Porto Alegre alguns meses, e com 13 anos fui morar sozinha em Buenos Aires para estudar violoncelo – onde fiquei até meus 18. Logo voltei para Paris, onde agora estou morando já faz 6 anos…

- Como foi que você foi morar sozinha em Buenos Aires?

Quando eu voltei de Paris para Porto Alegre com meus pais, tinha 12 anos (quase 13) e já estava totalmente decidida a ser violoncelista. Estudava o dia inteiro, assim que chegava da escola ia reto estudar cello. Mas tivemos que voltar para Porto Alegre, pois o doutorado do meu pai tinha acabado, e eu sabia que as possibilidades de ter uma boa formação clássica por lá eram poucas… Voltando para lá entrei em uma grande depressão! Então comecei a pensar em como resolver meu problema… E eu lembrei que uma dos meus ídolos do cello, uma violoncelista americana chamada Christine Walevska, tinha morado em Buenos Aires. Comecei a fuçar na internet para ver se achava mais detalhes sobre se ela dava aulas em algum lugar, e descobri que ela tinha voltado para Nova York. Procurei por ela no guia telefônico de Nova Yorque, e liguei para ela para pedirconselhos. Ela foi um amor, muito acolhedora, e como é casada com um argentino, continua indo muito para Buenos Aires… ela estava indo para lá algumas semanas depois e me propôs de nos encontrarmos para ela me dar aulas e tentar me ajudar a achar um professor com o qual eu pudesse ter mais regularidade em Buenos Aires.. Então eu fui, fiquei lá uma semana, ela me deu aulas incríveis, e me apresentou para um professor francês que dava aula no Conservatório de Buenos Aires e que também me deu algumas aulas naquela semana e me aceitou como aluna na sua classe no Conservatório. Voltei para Porto Alegre na maior alegria, avisando meus pais que já estava tudo resolvido e que me mudaria para Buenos Aires… Só que eu tinha 13 anos ! E obviamente meus pais não podiam se mudar para lá… Mas meus pais sempre me apoiaram muito e dessa vez, é claro, depois de muitas noites angustiantes de reflexões, decidiram me dar essa confiança confiança e deixaram eu ir morar lá alguns meses depois… E essa foi sem dúvida uma das decisões mais importantes da minha vida ! Fiquei 5 anos estudando lá, com vários professores maravilhosos, no conservatório de Buenos Aires, na academia do Teatro Colón, e com a Walevska que ia de 3 em 3 meses para la… Quando fiz 18 anos voltei para Paris estudar.

- Como você aprendeu a tocar tantos instrumentos?

Eu considero que eu toco mesmo só violoncelo… um pouco de piano, do que me lembro de quando criança. Na hora de compor eu uso o violão também, mas sou péssima! Até cheguei a gravar alguns dos violões no meu disco, mas só sei tocar mesmo minhas músicas ! Também estudei um pouquinho de contrabaixo em Buenos Aires, então também sou eu quem toca contrabaixo no disco. Quando gravei, queria poder tocar ao máximo possível todos os instrumentos eu mesma… E é verdade que na maior parte do disco sou eu e o Piers Faccini – que produziu junto comigo, quem toca.. Muitos instrumentos, eu me aventuro a tocar por instinto, não acho que eu saiba realmente tocá-los ! – E como se interessou pelo violoncelo? Meus pais sempre ouviram muita musica clássica em casa, portanto eu já conhecia o instrumento. Eu estudava numa escola de música muito legal quando pequena em Porto Alegre…uma vez fomos para um encontro entre várias escolas do país em Florianópolis, e no ônibus sentei ao lado do professor de violoncelo da escola. A viagem era longa, mas me dei super bem com ele, nos divertimos durante todo o trajeto, adorei ele, e durante o encontro em Floripa comecei a ir assistir as aulas dele e adorei ainda mais o instrumento ! Quando voltei, apresentei-o ao meus pais: “Esse é meu novo professor”. E assim comecei a estudar cello. Decidi realmente a ser violoncelista aos 10 anos de idade em Paris.

- Conta um pouco como é seu processo na hora de compor? De onde vem a inspiração?

Não tenho muita regra, mas geralmente nunca penso “vou falar disso ou daquilo”. Gosto de trabalhar bastante com o inconsciente, acho bem mais interessante. Por vezes vem primeiro uma melodia, com algumas palavras, depois vem o texto, outras vezes é ao contrario… Não há receita fixa.

- Apesar de ter passado tanto tempo fora, a música brasileira influencia muito você, né? Dá pra ver em músicas como “Batuque”, que tem até berimbau. A sua formação proporcionou alguma pesquisa que levou a essa influência, a essas descobertas?

Minha formação é principalmente clássica,  mas desde sempre ouvi muitíssima música brasileira… Cresci com Jorge Ben, Chico, Tom, Caymmi, e eles me acompanham até hoj ! Então com certeza eles também estão muito presentes na minha música. A música brasileira está presente desde sempre para mim, e foi se misturando com tudo o mais que fui escutando… Sempre quis parar para pesquisar mais sobre ela, mas ainda não tive o tempo que do qual precisaria para fazer isso.

- Levando em conta que cada língua possui uma musicalidade diferente, que muda um pouco a própria música, como a gente a ouve, você acha que para o trabalho que você faz hoje a língua portuguesa consegue expressar melhor suas ideias? Ou é assim mesmo que elas surgem, naturalmente?

A escolha da língua também é algo totalmente inconsciente. As coisas vêm assim, eu nunca pensei “vou escrever em português” ou ao contrário “tenho que tentar não escrever em português”… Acho que como é minha língua materna, por mais que no dia a dia não seja a que eu fale mais, termina sendo a que vem mais naturalmente. Mas ultimamente tenho composto muito em espanhol – também não sei explicar por quê.

- E a recepção do público? O que você espera quando coloca sua música no mundo?

É muito impressionante, porque na maioria do tempo, canto para pessoas que não falam nem entendem português… Quando leio artigos, ou depois do show, conversando com o público, me dou conta que eles entendem muito do que eu falo sem mesmo entender as letras! Isso para mim é mais do que gratificante, ver que consigo atravessar esta barreira e transmitir o que eu quero além das palavras!

– Quem são suas principais referências, os artistas que mais admira? E aqueles com quem adoraria dividir o palco?

São muitíssimas… E ainda por cima já tive a sorte de poder dividir o palco com muitas delas! Jane Birkin, Jeanne Moreau, Camille, Piers Faccini, por exemplo, são referências de longa data para mim e, às vezes, custo a acreditar que já estive no palco com eles! Ultimamente tenho escutado muitíssimo Lhasa de Sela (mas infelizmente ela já faleceu) e a cantora argentina Juana Molina – adoraria fazer algo com ela um dia. Também bastante Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e obviamente, como falei antes, muita música brasileira…

- Aliás, como você foi parar na banda da Jane Birkin? E o que aprendeu de mais legal com ela?

Eu conhecia a produtora musical do ultimo disco da Jane (“Enfants d’hiver”), e ela me chamou para tocar no disco. No início seriam apenas algumas músicas, mas foi tão legal que no fim toquei em quase todas! A Jane estava sempre no estúdio com a gente, ela adorou, nos demos super bem… Então ela me convidou para formar parte da banda da turnê do disco (éramos 4: piano, cello, contrabaixo e guitarra). Foram dois anos de viagens incríveis, pelo mundo inteiro… Uma das coisas que mais me marcou da Jane era a força que ela tirava de dentro de si na hora de entrar no palco. Como viajávamos muito e ela já estava com a idade avançando e com a saúde um pouco frágil, era muito cansativo para ela o ritmo de turnê, promoção, além dos filmes que ela fazia nos dias livres. Às vezes ela passava o dia inteiro exausta, cansadíssima, mas na hora de entrar no palco era outra mulher, se transformava totalmente e transbordava de energia!

- Quando foi que você decidiu lançar um disco? E como foi o processo de criá-lo?

Não foi realmente uma decisão… Quando eu comecei a compor, não tinha a menor pretensão de lançar um disco, fazer turnê etc… Queria mesmo fazer as músicas para mim, para ver no que dava, por diversão. Comecei a gravar em casa, a fazer os arranjos e foi dando vontade de ouvi-las mais elaboradas, mais bonitas… Procurei a melhor maneira de gravar. Gravei, e o Piers Faccini mandou para a gravadora dele nos Estados Unidos, que adorou, e as coisas foram indo. Nada foi muito calculado, as coisas foram acontecendo e acho que isso foi uma coisa muito importante para mim no processo criativo e de gravação do disco. Fiz tudo do jeito que eu queria ouvir mesmo, sem me deixar influenciar por nenhuma pressão de gravadora ou outros, usei todo o tempo necessário até estar totalmente satisfeita… Acho que, se na hora de gravar já tivesse na mente “vou lançar meu primeiro disco, vamos lá”, teria sido muita pressão e talvez as coisas não tivessem sido tão fluídas.

- Você produziu o disco também, né? Fala um pouco sobre isso?

Eu produzi o disco junto com o Piers Faccini, que é um cantor inglês que mora na França, que já tem 4 discos incríveis lançados e que é respeitadíssimo na Europa. Eu escuto a música dele desde que era adolescente em Buenos Aires, e ele sempre foi uma referência para mim. Por acaso, ele trabalha há muitos anos com meu marido, então nos conhecemos há alguns anos e, desde então, ficamos bons amigos e temos tocado muito juntos. O Piers tem um estúdio em casa que é um sonho: ele mora no sul da França, no meio das montanhas, e no fundo do jardim dele tem uma casinha onde ele fez este estúdio – simples, mas com excelente material de som e vários instrumentos. Quando comecei a gravar já tinha pré-feito em casa a maior parte dos arranjos… Fiquei uma semana sozinha, passando tudo a limpo, experimentando novas coisas, trabalhando no som – trabalhei sem técnico de som, todos os takes foram feitos por mim mesma. Logo deixei todos os arquivos para o Piers, que começou a fazer a parte dele dos arranjos. E íamos trabalhando assim, por blocos de períodos em que eu gravava sozinha, depois ele, depois nos enviávamos as músicas, até o disco ficar pronto. Para mim era muito importante poder ter a direção da produção…Não poderia imaginar ter feito este disco com alguém fazendo todos os arranjos e a produção, seria impossível para mim trabalhar assim!

- Como é trabalhar com seu marido?

Eu não consigo nem imaginar trabalhar sem ele. Sou totalmente fã do trabalho dele, é quase impossível para mim pensar em ter outra pessoa fazendo minhas fotos, meus vídeos, me aconselhando para arte… E como eu não sou das mais à vontade com câmeras, isso facilita muito, porque geralmente não tenho o sentimento de estar posando, de estar fazendo algo a propósito. O Jeremiah tem o dom de mostrar a beleza nas coisas simples do cotidiano… Somente ele conseguiria tornar bonito um vídeo onde há apenas imagens minhas dormindo (como em “Anjo Gabriel”)! Ou filmar um show somente com uma câmera, no meio do público, de maneira simples e poética (como em “Golondrina”). E ele tem tanta experiência em trabalhar com músicos (já fez filmes, vídeos, clipes para o REM, a Camille, o Erik Truffaz, para a Blogothèque durante anos) que até nas questões musicais, de show, de eleição de repertório, de estratégia ele me ajuda demais. Ele é quase como se fosse minha segunda cabeça!

- Como têm sido os shows, a turnê?

Desde que eu lancei o disco em janeiro, minha vida tem sido um turbilhão… Muitos shows, principalmente na França, Estados Unidos e Canadá… Também estive tocando bastante em Portugal, na Suíça e na Bélgica e mês que vem faço os primeiros shows na Inglaterra. Agora que lançamos o álbum no Brasil, estou começando a tocar mais por aí! Tem sido incrível poder levar minha música para todos estes lugares  E muito interessante ver a diferença de público de país em país ou até de cidade em cidade!

- Como é ficar sozinha no palco, preenchendo os lugares com um som tão encorpado?

Tocar sozinha hoje em dia é o que eu prefiro no palco. Tentei ter banda, ter quarteto de cordas, ter uma violinista, enfim, tentei varias fórmulas… Mas cheguei à conclusão de que me sinto mais à vontade quando toco sozinha. É um risco enorme, pois ainda por cima estou no cello, que é um instrumento mil vezes mais complicado do que o violão para a afinação e que, ainda por cima, não é nem um pouco feito para ser instrumento harmônico. Mas eu adoro estar assim, “nua”, 100% eu, acho bem mais interessante a relação com o público! Não há como esconder nada, tudo está em estado bruto… Às vezes é mais fácil, às vezes mais difícil, mas geralmente sempre termina sendo bem mais gratificante estabelecer esta cumplicidade, esta proximidade com as pessoas.

amor  ·  arte  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música  ·  vídeo

como encontrar o trabalho da sua vida, por roman krznaric

por   /  18/09/2013  /  10:15

Há quase um ano, troquei a certeza de um emprego com carteira assinada em uma empresa de prestígio pela aventura de me dedicar 100% ao meu próprio negócio – a Contente, empresa de projetos pra internet que faço com a minha amada sócia Luiza Voll há quase três anos.

Sempre achei que fosse fazer duas coisas na vida profissional. Nunca me identifiquei com o discurso de quem falava que tinha encontrado sua vocação e queria se dedicar integralmente a ela pelo resto da vida. Eu pensava: trabalho é trabalho, é todo dia, é repetitivo, eu quero é ter a chance de não me entediar no meio do caminho.

Descobri (e descubro todo dia) na prática o que significa ter uma empresa. Eu e a Lu brincamos que somos tudo: de office boy a secretária, passando por telefonista, vendedora, gerente de crise. E fazemos tudo com um prazer tão grande! As dificuldades aparecem – tantas vezes! As incertezas, também. Mas o que conta muito mais é a alegria de acordar todo dia e trabalhar no que a gente gosta e acredita.

Quando soube que o Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, viria ao Brasil este mês, quis conversar com ele. Afinal, ele é autor do livro “Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida” (ed. Objetiva), título que traduz a vontade de ao menos 80% dos meus amigos e conhecidos no momento.

Todo mundo quer fazer o que ama, mas ainda tem dúvidas se troca o certo pelo incerto, se vai conseguir grana pra pagar as contas, se a saída é apostar no novo mesmo. Vivemos um momento de muita dúvida e de muito questionamento sobre o modelo de trabalho tradicional, em que a lógica do patrão é que você passe ao menos oito horas dando expediente, mesmo que muitos desses momentos sejam de procrastinação no Facebook.

Roman vem ao Brasil neste mês para dar um sermão dentro da programação da The School of Life no Brasil. O primeiro acontece no próximo domingo (22/9), às 11h, no Teatro Augusta, em São Paulo (os ingressos estão esgotados; há lista de espera). No dia 29/9, ele fala no Rio sobre empatia (ainda há ingressos). Ele também aproveita para lançar “Sobre a Arte de Viver” (ed. Zahar).

Em entrevista ao Don’t Touch, o filósofo australiano surpreende ao advogar contra a lógica tradicional de ser muito cuidadoso e fazer um planejamento detalhado antes de chutar o balde pra ir buscar o trabalho dos sonhos. “Em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir e, depois, pensar. Em outras palavras, comece a experimentar tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devemos ser completamente imprudentes e não nos preparar totalmente. Mas, se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.”

Leiam a entrevista completa logo abaixo. Foi um prazer conversar com um cara que tem respostas tão precisas sobre questões que nos rondam tanto! ♥

- Não sei se é porque fiz isso, mas nunca vi tanta gente querendo largar seus empregos tradicionais e querendo investir no trabalho dos sonhos. Esse movimento realmente está acontecendo no mundo?

Completamente. Esse movimento é um das grandes revoluções do nosso tempo. A insatisfação com o trabalho bateu níveis recordes nos Estados Unidos. Na Europa, cerca de 60% dos trabalhadores estão infelizes com seus empregos e gostariam de trocá-los. E isso se espalhou para o Brasil também. Aqui vai uma estatística maravilhosa: em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Hoje esse número aumentou para 56%

- O que as pessoas precisam fazer quando tomam essa decisão? É preciso se preparar antes, fazer uma poupança, por exemplo?

A abordagem tradicional para trocar de emprego é ser muito cuidadoso e fazer muito planejamento. Preparar-se com antecedência, pesquisar possibilidades profissionais, fazer testes de personalidade, poupar dinheiro e procrastinar. Eu sou um defensor da abordagem oposta: em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir primeiro e pensar depois. Em outras palavras, comece a experimentar, tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devamos ser completamente imprudentes e não nos prepar totalmente. Mas se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.

- Outra coisa que percebo é que, hoje em dia, todo mundo tem um projeto paralelo, o que é ótimo, mas como é que esse projeto vai virar um trabalho de verdade, que dê dinheiro para pagar as contas?

Projetos paralelos são uma ótima maneira de trocar de emprego. Existe um mito de que para fazer a mudança a gente precisa entrar no trabalho na segunda de manhã e renunciar dramaticamente. Mas não. Em vez disso, tente manter o seu emprego existente e fazer o que eu chamo de “branching projects” (algo como projetos ramificados, como ensinar ioga em uma tarde de quinta-feira ou fazer um frila de webdesign no fim de semana. E o que você faz é gradualmente passar mais e mais tempo nos projetos paralelos que você gosta até que as duas coisas aconteçam. Uma, você percebe que você consegue ganhar o suficiente para pagar as contas. Dois, você criou a confiança necessária para mudar. Com projetos assim, pequenos passos levam a grandes resultados.

- Aliás, falando em dinheiro… Qual é a importância dele na equação de satisfação com o trabalho?

Ah, dinheiro! O dinheiro foi o maior motivador nos últimos 500 anos. Mas ao menos nas duas últimas décadas pesquisas mostram que ele está se tornando menos importante. Então o que importa para os trabalhadores hoje? Coisas como autonomia (ter liberdade para tomar as próprias decisões no trabalho e como usar o seu tempo) e respeito (sentir que é tratado como um indivíduo valioso, não um engrenagem na máquina). Claro que nós ainda precisamos ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas e alimentar nossos filhos, mas dinheiro está se tornando fora de moda como uma fonte de satisfação no trabalho.

- Quando falamos em buscar o trabalho dos sonhos, ninguém nos avisa que vai ser preciso encarar burocracias, aprender a fazer um plano de negócios. Você acha que existe mais idealização do que ação?

Você não deve pensar que ter um trabalho dos sonhos necessariamente vai ser fácil e só diversão. Trabalhos dos sonhos são, geralmente, extraordinariamente exigentes. Um século atrás, a cientista franco-polonesa Marie Curie, que ganhou dois prêmios Nobel por seu trabalho, encontrou seu trabalho dos sonhos fazendo pesquisas sobre radiação. Mas ela trabalhou extremamente duro. Hoje, seu trabalho dos sonhos pode exigir que você passe a noite acordado fazendo modelos de negócio. Felizmente, os seres humanos prosperam em desafios.

- Mesmo que seja o trabalho dos sonhos, trabalho é trabalho. O que a gente deve fazer para manter a empolgação sempre no alto?

Um pequeno conselho é tentar maximizar o fluxo na sua experiência. Fluxo é um conceito psicológico que envolve estar completamente presente e completamente absorvido em qualquer coisa que você esteja fazendo. É o que significa para os atletas quando eles dizem que estão “in the zone”. Como você entra nesta zona? Prepare tarefas para você que sejam desafiadoras e criativas, mas não tão desafiadoras que você se preocupe em falhar, e não tão fáceis a ponto de você ficar entediado. A excitação está justamente em ficar fora da sua zona de conforto.

- Existe realmente um trabalho dos sonhos ou temos que aprender a desdobrar nossos interesses para atender às demandas de um mercado que muda tanto e em que as vagas para algumas áreas vão ficando cada vez mais escassas?

Não acredito que exista um único trabalho dos sonhos esperando lá fora para que a gente o descubra. Nós temos múltiplos eus, muitas identidades, e diferentes trabalhos vão satisfazer diferentes partes do que somos em diferentes momentos das nossas vidas. Claro que faz sentido desenvolver habilidades quando o mercado de trabalho está ficando maior, e não menor. Mas depois tudo se resume a saber se você quer trabalhar como um meio para um fim (ganhar dinheiro) ou como um fim em si mesmo (encontrar sentido).

- Alguém da geração que tem 30 anos hoje vai se aposentar tradicionalmente, depois de completar 30 anos de carreira? Ou vai ser mais corriqueiro ver as pessoas saltando de um trabalho para outro?

Meu pai trabalhou para a mesma empresa por 51 anos. Essa era já foi. Os trabalhadores de hoje estão trocando de trabalho, em média, a cada quatro anos. E como a nossa vida de trabalho vai aumentando (as pessoas estão se aposentando mais e mais tarde por conta de restrições financeiras), nós estamos suscetíveis a mudar de emprego várias vezes ao longo da vida.  Essa é mais uma razão para pensar muito sobre as melhores maneiras de fazer isso, e não apenas deixar-nos à deriva através de nossas vidas profissionais.

- O que a gente pode aprender com a história e com a evolução do trabalho?

Obrigada por perguntar isso, é um dos meus temas favoritos! No geral, a grande mudança história é do destino à escolha. Há poucos séculos, a maioria das pessoas tinham que trabalhar por uma questão de necessidade e destino – elas nasceram para ser um agricultor ou eram filhas de um escravo, então estavam destinadas à escravidão também. Hoje em dia, a maioria das pessoas (embora longe de todas) têm muito mais chances à sua frente. Antes do surgimento da industrialização, havia apenas cerca de 30 postos de trabalho padrão. Agora existem websites listando mais de 12.000. O problema é que fazer escolhas pode ser difícil.

- Quais são as perguntas que você mais costuma ouvir em relação ao tema? E aquelas que você adoraria responder, mas nunca te perguntam?

A pergunta que ouço mais frequentemente é se devemos procurar trabalhos pelo dinheiro ou pelo significado. E o que nunca me perguntam? Quase nunca me perguntam sobre o que nós podemos aprender com a história do trabalho. Mas você mudou isso!

- Como você encontrou o trabalho dos seus sonhos?

Tenho abordado minha vida de trabalho como um experimento. Fui um professor universitário, mas deixei de ser para virar um jardineiro profissional. Fui jornalista, mas mudei para tentar carpintaria. Também já atuei como professor de inglês, treinador de tênis e agente comunitário. No momento sou mais um escritor – e me sinto muito realizado fazendo isso. Mas espero ter coragem para mudar de novo – talvez quando meus interesses ou minhas paixões mudarem. Talvez minha visita ao Brasil neste mês vá me inspirar a treinar como um chef especializado em cozinha brasileira!

- Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no processo? E quais as maiores alegrias que você teve e tem até hoje?

O maior obstáculo têm sido as opiniões dos amigos, colegas e pares. Quando eu era um professor universitário, todo mundo que eu conhecia disse: “Como você pode deixar um grande trabalho em uma universidade? Você está louco!”. Quando eu era um jornalista todos disseram a mesma coisa. Mas, felizmente, eu ignorei os conselhos. Nosso grupo de pares forma nossa visão de mundo, e isso pode ser uma luta para mudar nossas mentes e fazer algo inesperado ou aparentemente insensível. Mas é aí que a emoção da vida está – no sentimento maravilhoso que você está fazendo a mudança, aproveitando as oportunidades, quebrando convenções e imerso em um estado radical de vitalidade.

amor  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  trabalho

moon, de thiago pethit

por   /  17/09/2013  /  14:30

Cada vez mais o Thiago Pethit mostra como é um artista completo. Ele não apenas canta e compõe mas também inventa de transformar um videoclipe em um curta-metragem.

“MOON” é sua mais nova empreitada. É um clipe e é um filme, dirigido por Heitor Dhalia (de filmes como “À Deriva”, “O Cheiro do Ralo” e “Gone” e do aguardado “Serra Pelada”), com roteiro do próprio Thiago e da Vera Egito.

Filmado em São Paulo, “MOON” conta a história de um jovem casal que vê a paixão dar lugar a surpresa, ciúme e confusão quando a menina descobre que seu namorado é garoto de programa. Cenas quentíssimas se misturam ao submundo paulistano, com figurinos inspirados nos anos 1990 e em ícones como Joe Dallesandro, um dos musos de Andy Warhol.

Vejam o clipe! ♥

Em entrevista ao Don’t Touch, Pethit conta mais sobre “MOON”:

- Como foi que vocês tiveram a idéia pra ele? E como foi ser roteirista também?

Nos encontramos diversas vezes ao longo do ano para conversarmos, eu, Heitor e Vera Egito, sobre o que seria o vídeo-clipe-filme de “MOON”. Primeiro surgiram os lobos. Depois foi a temáticoAdos garotos perdidos e, por fim, a questão do triângulo amoroso e da vida desses meninos. Fomos juntando ideias e cenas nas conversas e, ao fim, escrevi um pequeno conto amarrando tudo isso às mensagens que serviriam de argumento pra Vera reescrever e transformar aquilo num roteiro de verdade.

Não é a primeira vez que me “intrometo” no roteiro, sempre o fiz de algum jeito. Mas, dessa vez, foi mais sério e ainda mais prazeroso.

- Você filmaram onde?

Filmamos em quatro locações diferentes, sempre em busca de fugir dos clichês sobre as história da cidade de SP que já conhecemos. A locação principal foi a entrada do viaduto Minhocão, por debaixo da Praça Roosevelt. Depois, o topo do Edíficio Planalto, um apartamento no mesmo prédio e um motel no centro da cidade.

- E como chegaram nesse casting?

O casting foi uma colaboração dos queridos Edu Piva e Carminha, da ETC Elenco, para construir os personagens coadjuvantes e a maravilhosa atriz Nara Chaib, que interpreta a garota principal do triângulo. Os dois garotos principais, Lucas Veríssimo e Vini Uehara, foram descobertas feitas através do Facebook, por indicações e entre milhares de trocas inbox até o dia da entrevista com o Heitor, que selecionou o elenco, junto com a Kity Féo (a incrível assistente de direção) e eu.

As fotos que ilustram esse post são do Gianfranco Briceño.

amor  ·  arte  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música  ·  vídeo