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Papo de Música com Fabiane Pereira

por   /  19/12/2018  /  13:13

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Sou apaixonada por música, ouço o dia inteiro, faço playlists para cada momento. Adoro descobrir uma banda ou artista novo, entrevistá-los, imaginar o que fez alguém conseguir traduzir tão perfeitamente tanto do que sinto mas ainda não tinha elaborado. Adoro acompanhar o trabalho de quem tem essa paixão também!

E Fabiane Pereira é uma dessas mulheres. Jornalista, escritora, faz o programa de rádio Faro há dez anos – e agora em 2018 estreou seu canal no YouTube, o Papo de Música. Conversei um pouco com ela, espero que gostem!

#trilhadonttouch

– Em 10 anos trabalhando com música, o que mais te encanta nesse meio? E o que te repele?

Eu sou jornalista. Desde pequena sou observadora, faladeira e uma boa ouvinte. Ainda na faculdade, comecei a me aventurar no chamado “jornalismo musical/cultural” mas meu ofício é, essencialmente, o jornalismo. Eu escrevo, entrevisto e ouço muitas histórias sobre gente. Por acaso, há mais de dez anos, essa gente que me atravessa profissionalmente trabalha com música, mas eu continuo fazendo jornalismo. Gosto de deixar isso claro porque minha profissão tem sido muito desvalorizada nos últimos anos graças ao “descuido” de muitas instituições privadas e públicas, políticos, juristas e boa parte da sociedade civil – esta parcela considerável da população brasileira não compreendeu ainda que um país democrático só se faz com uma imprensa livre.

Sou apaixonada por jornalismo e uma privilegiada por ser bem sucedida na escolha que fiz: direcionar meu ofício pra fomentar a música brasileira de diversas maneiras. Num país onde a imensa maioria trabalha exclusivamente para ter um teto onde dormir e comida na mesa, eu trabalho por livre escolha com uma das coisas que mais me dá prazer: conversar com artistas. Essa gente sensível, vanguardista e, às vezes, mal interpretada. Certamente isso é o que mais me estimula a continuar.

Como mulher, meu desafio diário é enfrentar o machismo no dia a dia que vem disfarçado – às vezes, pasme, escancarado – de elogio, piada, desconfiança, esnobismo e autoritarismo.

– Qual é o seu top 10 músicas brasileiras da vida?

Por incrível que pareça… Meu top five não muda há, pelo menos, dez anos. rsrs! Já da sexta a décima posição, acho que, varia ano a ano. A música “Quem te viu, quem te vê” do Chico Buarque é minha top one. Eu gosto de todas as palavras escolhidas por Chico nesta canção. Lembro de perguntar à minha mãe, ainda criança, o que era “cabrocha”.

Já as quatro músicas sequenciais desta playlist não estão por ordem de preferência – gosto igualmente delas: “Tocando em frente”, Almir Sater; “O quereres”, Caetano Veloso; “Folhetim”, Chico Buarque (na voz da Gal Costa) e “Cama e Mesa”, Roberto Carlos.

Pra completar a lista: “Grilos”, Erasmo Carlos; “Sinônimos”, Zé Ramalho; “Pra você dar o nome”, To Brandileone; “Feliz e Ponto”, Silva; “Deusa do Amor”, não sei os compositores mas amo a versão do Moreno Veloso.

– E qual é o top 10 músicas brasileiras atuais?

Vou tentar ser bem eclética porque eu realmente escuto de tudo e adoro os gêneros mais populares. Começaria com “Pitada de Amor” (Fióti) e seguiria com “Banho de Folhas” (Luedji Luna), “Várias Queixas” (Gilson’s), “Mesmo sem estar” (Luan Santana e Sandy), “Partilhar” (Rubel), “Lucro” (Baiana System), “Acanalhado” (Luca Argel), “Canção de Engate” (Filipe Catto), “Bixinho” (Duda Beat) e “Boca de Lobo” (Criolo).

– Como é trabalhar com música no Brasil?

Difícil, cansativo mas na maioria das vezes muito prazeroso. Quando a gente lida com a sensibilidade das pessoas, até uma ariana com ascendente em capricórnio se torna mais sensível.

– Você também escreve, né? Conta mais desse seu lado?

Simmm! Acho que escrevo crônicas porque ela é a mais gentil dos gêneros literários. Ela é coloquial, me ajuda a rir de mim mesma e a prestar atenção aos detalhes que as mazelas das grandes cidades insistem em esconder. Acho que escrevo crônicas porque, de certa forma, ela não me impõe o crédito de escritora. Penso que seria presunçoso demais ter a mesma profissão de Saramago, Clarice e Lygia. Tenho um livro de crônicas lançado chamado “amadorA” e pretendo lançar outro – já batizado de “Cais” – em 2019, com os textos que escrevi durante o período que fiquei na ponte aérea Rio-Lisboa por causa de um mestrado.

– E quais teus planos pro futuro?

Casar, ter três filhos e lançar meu segundo livro de crônicas.

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Especial autocuidado, parte 2

por   /  01/12/2018  /  13:13

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Autocuidado vai além de um cabelo bem arrumado, as unhas feitas, terapia toda semana. “É algo rotineiro, que se materializa em um olhar com atenção para o que eu sinto, para a forma como eu vivo, o cuidado em me comunicar com o meu filho, com o externo. Como é que eu falo comigo? Como é que eu olho para mim?”, questiona Manoela Gonçalves (@soul.crioula), ativista e dona do Bistrô Manô, espaço de culinária no Butantã, em SP.
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Para chegar a essa definição, muita coisa aconteceu. Por cinco anos, Manoela manteve o projeto Casa das Crioulas, um espaço de acolhimento para mulheres periféricas. “Virou a chave da minha vida ter acolhido tantas mulheres. Cada dor e cada cura me transformaram na mulher que eu sou hoje”, diz, emocionada. “Entender o que leva uma mulher a agir da forma que age, mulheres que têm discurso machismo, preconceito, a abusada, a que abandonou o filho, a que matou. Mudou completamente o sentido da minha vida trabalhar com as dores das mulheres.”
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Ela achava que lidar diariamente com a dor a deixaria calejada. Estar na linha de frente, no entanto, doeu. “Tinha uma parte minha que tava completamente machucada, se identificava com as dores alheias e não saia desse ciclo de ficar curando ferida. Eu só queria cuidar. Demorou pra eu conseguir espaço pra mim mesma no meio de tanta pressão, carência, dor.” Demorou para ela criar uma linha imaginária em que só entra quem ela permite. “Aí começou um olhar mais amoroso. Sinto que estar em coletivo é muito bom, fortalecedor, mas é muito importante também o resgate da nossa força individual.”
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Hoje ela tem tomado cuidado ao ouvir histórias. “O que me motiva a não desistir é meu filho, é uma força absurda que tenho. Continuo lutando porque eu odeio injustiça, desigualdade, machismo. Mas também acolho e compreendo. O que me motiva é saber que eu tenho força pra inspirar, pra não desistir.”

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@comum.vc é uma plataforma de florescimento para mulheres. Em parceria com o @instamission, estamos fazendo a #jornadadeautocuidado. Já viu?
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Criadora da Comum, @annahaddad vive uma prática constante de #autocuidado. “Consigo às vezes, e às vezes não. Mas sinto que quando compreendemos essa noção mais ampla e profunda de autocuidado, que está estritamente relacionada à autocompaixão, aprendemos que nem sempre vamos conseguir de fato fazer o que entendemos que seria melhor para nós. Às vezes vamos ficar sem tempo, ser engolidas pelo caos, nos deixar sem cuidados básicos, seguir em relações que nos destroem, e precisamos nos acolher nisso também. O que não tem a ver com sermos condescendentes, autoindulgentes, e sim com nos acolhermos nos erros, nas dificuldades, nos nossos limites, ao invés de seguirmos nos culpando e chibatando.”
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O coletivo é fundamental nesse processo. “Faz muito mais sentido quando a gente se desenvolver sem perder a perspectiva do todo: somos mulheres, e nossas questões são muito individuais sim, mas são coletivas, fazem parte de um contexto de opressão sistêmica, que só vai mudar se tivermos consciência dele e nos movimentarmos.”
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Anna ouve histórias de abusos, abortos, relações abusivas, traumas, vícios e compulsões. “O que fica marcado é a resiliência dessas mulheres. A capacidade incrível que nós temos de viver as narrativas mais complicadas e tristes que alguém poderia viver, e conseguir buscar suporte, se abrir e se expor, encontrar caminhos em meio ao caos e atravessar aquela história. É quase heróico.”
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Empatia e compaixão são ingredientes fundamentais para que essas histórias não pesem. “Caroline Bertolino, psicóloga e especialista no tema da autocompaixão, diz muito isso: a medida de compaixão que temos conosco mesmas é a que vamos ter com os outros ao nosso redor. Se cuidamos da gente, provavelmente vamos ter mais energia e equilíbrio interno para cuidar dos outros. Está tudo interligado.”

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Passar a noite em casa lendo um livro, fazer terapia, se exercitar, comer bem, estar rodeada de pessoas que fazem bem, eliminar relações tóxicas e comportamentos nocivos de uma forma racional, por mais difícil que seja, e conseguir sinceridade em todas as relações. São esses os exercícios que @dandarademorais tenta praticar todos os dias. Essa pernambucana é atriz, diretora de cinema e ativista. Na correria, ela busca equilíbrio, pois sabe que, estando bem, consegue ajudar outras mulheres também.

E essas mulheres ela encontra, principalmente, na internet. “Acho que a internet tem um papel muito forte nessa era que estamos vivendo, porque deu voz a muitas pessoas. Essa conexão que a gente faz, todos os dias, por mais rápida que seja, é o que me move. São esses encontros que me estimulam e confirmam que estou defendendo pelos ideais certos. Poder contar com o coletivo é essencial. Tem momentos que realmente preciso de ajuda, digo de alguém pra me dar a mão, conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que está ao meu lado. Na maioria das vezes quando falo sobre saúde mental, as pessoas não sabem o que dizer, mas eu digo e repito que só de estar lá, oferecer o ombro, uma companhia, já é uma forma de cuidado muito boa.”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Encontrar pessoas que a fazem refletir sobre seu lugar privilegiado ajuda na empatia. “Tem uma canção que a gente canta em protestos que é assim: ‘companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sozinha ando bem, mas com você ando melhor’. Se a gente se preocupa e ajuda uma pessoa que está na nossa frente em alguma situação de risco, então eu sinto que estou fazendo minha parte. Acho ótimo que está se pensando mais em #autocuidado, mas acho uma pena ser comercializado, porque a tendência de se mercantilizar é encarecer algo que é tão essencial.”

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Para @indominus.rita#autocuidado é uma tentativa diária, feita em baby steps. Ela ainda derrapa na questão trabalho/dinheiro, se pega trocando o dia pela noite, trabalhando 3 dias sem dormir, se alimentando mal, se envolvendo em assuntos que são gatilhos mentais horríveis. “Mas em compensação me permito ter um final de semana sem trabalho, me permito assistir um filme ou uma série no final de um dia de trabalho, se adoeço me permito o descanso, algo que a uns meses atrás eu jamais faria.”
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Rindo, ela conta que desiste o tempo todo, mas sempre acaba retomando as lutas porque acredita e quer mudança, igualdade, justiça. “Não vou deixar de ser negra, mulher, gorda, bissexual, é inaceitável que me tratem como um ser de segunda categoria, é inaceitável que eu me veja como um ser de segunda categoria. Vou brigar até o fim dos meus dias com as ferramentas que eu tiver para que nem eu nem ninguém seja tratado, visto ou se veja como alguém de segunda categoria.”
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Programadora e desenvolvedora, ela tem blog desde o começo da internet. Também já fez gestão de blogs coletivos, nos quais questões como sexualidade e racismo vinham à tona. Era forte e importante e, ao mesmo tempo, pesado. “O coletivo me fragilizou, precisei passar um tempo só pra poder me entender, me curar. Falamos muito sobre cuidarmos umas das outras, mas se não colocamos isso no foco dos nossos debates, a luta acaba passando por cima da gente, é complicado conseguir olhar pra alguém com gentileza quando a gente precisa embrutecer todo dia.”
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Ela traz uma questão importante, sobre o autocuidado como mercadoria. “Nem sempre é possível pagar pelo autocuidado, pra muitas de nós não é o nem sempre, é não podemos pagar mesmo. Mas a gente não precisa pagar pra tirar um tempo pra gente, pra um olhar mais gentil sobre as nossas necessidades.”
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Pra encerrar, cita Audre Lorde. “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é autopreservação, e isso é um ato político.” #jornadadeautocuidado

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Autocuidado é um termo muito amplo e a noção dele é muito subjetiva, aponta a psicóloga @luizacravo. “Não é porque ela é ampla que é superficial ou deixa de ser importante. É algo que tem que tá permeando a nossa vida sempre. Você tem que se escutar pra entender o que é autocuidado pra você.”
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Um entrave para entender como o #autocuidado pode entrar na vida é que compramos essa ideia de que temos que produzir o tempo inteiro. “Acho super útil você ter um dia no qual desacelera, faz o que gosta, olha pra dentro, pro corpo. Mas para o cidadão médio isso não entra no conceito do que é válido. A maior parte das pessoas que se queixam de cansaço, exaustão, falta de energia e motivação são pessoas que de fato acabam desprendendo muita energia seja no trabalho, no cuidado da família, na pós-graduação, nesses lugares que a sociedade vai apontando onde devemos investir. Você sente que está sugado, e está mesmo. Você tá dando tudo o que você tem. Mas não são as únicas coisas a serem olhadas. Há toda a outra parte da vida, toda a potência que fica esquecida.”
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Talvez por isso tanta gente tenha resistência contra terapia e análise, como se fosse algo que só pessoas malucas ou muito problemáticas precisassem. “É difícil entrar em contato com certos conteúdos, às vezes vai por essa via mesmo, de não acreditar que necessidades afetivas e emocionais, ou até sinais que o próprio corpo dá, são importantes o suficiente para serem cuidados.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terapia e análise são indispensáveis para lidar com caos emocional. “Essa coisa de não tenho grana/não posso fazer terapia não existe. Existem lugares que oferecem de graça, preço simbólico, baseado no que você ganha. Quem quer fazer pode fazer. Um profissional não resolve sua vida por você, ele te ajuda a traduzir coisas que talvez seja difícil você por si só dar nome e compreender.”

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Quando a gente fala de mulheres e #autocuidado, precisamos lembrar do óbvio: somos todas muito diferentes. “Depende de você mora no campo ou na cidade, da sua classe social, da sua idade, da sua escolaridade. Você tem uma série de especificidades que vão dar uma perspectiva do que é autocuidado para você. Eu não diria que tem uma diferença entre mulheres brancas e negras. Acho que as diferenças são muitas, a depender de que lugar específico você ocupa nessa sociedade”, diz Bianca Santana (@biancasantanadelua), socióloga.
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Em comum, talvez, esteja essa percepção de exaustão que parece nos acometer. “Isso é uma cama, mas acho que a principal é a desconexão profunda com quem nós somos”, aponta Bianca. “As nossas dores, feridas, histórias são silenciadas. Parece que é uma vida nas aparências, como se a gente não conseguisse se conectar profundamente nem com a gente nem com as outras pessoas.”
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Falando especialmente sobre o Brasil, ela cita uma violência estruturante de um passado colonial e escravista. “A gente não conseguiu transformar, rever, curar. Isso nos leva para lugares de muita superficialidade. Como se abaixo tivesse um lodo, uma lama profunda, difícil. Então a gente fica ali na superfície, mas gasta muita energia manter aquela lama embaixo.” O momento do Brasil reflete negativamente. “Há uma sensação de insegurança e impotência. Pra mim, especialmente, o assassinato da Marielle Franco foi devastador. Tem uma mensagem muito explícita, de que não é para mulheres negras ocuparem determinados lugares.”
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Uma solução? Cuidar de si antes de tentar cuidar do outro. Lembrando sempre que autocuidado não precisa ser mercadoria. “Lembro da minha avó, uma mulher negra, empregada doméstica, pobre, que todo dia aguava as próprias plantas, conversava, tinha uma relação linda com as ervas, fazia ‘lichás’ pra si, pras pessoas ao redor. Não tinha a ver com mercadoria, dinheiro, e sim com saber ancestral. Acessar nossa memória, compartilhar nossos saberes, acessar algo que pertença a todas as pessoas pode ser anticapitalista.”

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Especial autocuidado, parte 1

por   /  30/11/2018  /  13:13

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Há mais de 6 meses comecei a escrever um especial sobre autocuidado. Estava cansada, insatisfeita com várias coisas. Escrevi um desabafo, comecei a conversar com várias mulheres que admiro e que gostam de pensar sobre o tema. Até hoje não publiquei, apesar de estar quase todo pronto e de várias coisas terem mudado, inclusive a falta de energia, que passou a dividir espaço com alegrias. Não rolou porque teve correria, eleições – e também porque quando uma coisa depende só de mim às vezes ela é a última da lista de tarefas (quem se identifica?). Hoje lançamos a #jornadadeautocuidado no @instamission, em parceria com a @comum.vc. E pensei: agora vai!
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A ideia de falar do tema surgiu depois que li um texto que falava de #autocuidado como estratégia política (vou deixar o link nos stories). O artigo publicado pela revista Sur apontava que várias ativistas que trabalham com direitos humanos enfrentam doenças e não se sentem satisfeitas com o tempo que passam com seus companheiros/companheiras e filhos. E aponta um caminho: “Acreditamos que o autocuidado é uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que não é uma ‘moda’, mas uma estratégia política, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.”
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Gostei desse texto porque ele me deu uma noção expandida sobre o tema. Autocuidado é fazer uma massagem ou tomar um banho à luz de velas? Também. Mas é uma estratégia muito particular de cada um, que deve ser descoberta e aprimorada a partir de necessidades individuais. Cuidando da gente, a gente consegue cuidar do outro. E nos fortalecendo assim, quem sabe a gente não consegue passar melhor por esses tempos turbulentos, né? Afinal é sempre bom lembrar: o pessoal é político. Ao longo dos dias vou publicando aqui as entrevistas que fiz, espero que gostem! Vamos juntos falar desse assunto?
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[A foto ganhei da @divanassar]

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@baldin.debora entendeu que, para se comunicar na internet, é preciso aprender a falar de um outro jeito, para que que cada vez mais pessoas entendam a mensagem. O entendimento vem dos vídeos que ela posta em seu canal no YouTube – e dos outros que publicou quando fazia parte de um canal LGBT. Foi a experiência no canal, aliás, que a levou quase a um esgotamento e a rever suas escolhas e rotina.

“Escutar relatos de mulheres que viveram suas vidas no armário e tiveram que enterrar sua afetividade, podendo ou muitas vezes não, só sair desse lugar muito à frente na vida, foi especialmente difícil. A nossa sexualidade e afetividade são pilares centrais na formação das nossas identidades. Ser uma mulher que ama mulheres é perigoso sim nesse mundo e não vai deixar de ser tão cedo, mas voltar atrás não é uma opção.”

Enquanto dava um tempo do YouTube, Debora continuou se comunicando pelo Instagram. Começou a fazer exercício regularmente, terapia também, buscou apoio no candomblé, que se tornou um pilar em sua vida. Entendeu que só com equilíbrio na própria vida consegue ajudar outras pessoas. “É difícil ser referência quando tá todo mundo perdido, confuso, sem grana, sem seguridade, sem estrutura. Não tô fora desse grupo. É uma sensação de perda de energia mesmo. Mas com o tempo, entendendo que a prioridade tem que ser ajudar essas mulheres a encontrarem instrumentos que as fortaleçam, sejam ideias ou ferramentas, ficou um pouco mais leve.”

Essa conexão com ela mesma a fez voltar para o YouTube com força total durante as eleições – seus vídeos viralizaram. O papel do coletivo ficou ainda mais forte. “Boa parte das demandas que nos afetam, mulheres, não partem de dentro. As angústias que nos afligem, em grande parte, têm origem externa, com o capitalismo sendo um sistema cuja base é a exploração e sendo estruturado pelo patriarcado, racismo e outros pilares. Lidar com elas coletivamente além de tirar um peso dos nossos ombros e ser elemento de identificação, é uma forma de encontrar novas saídas e acolhimento. Mais cabeças pensando sobre as mesmas coisas.”

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A psicóloga da @gabimoura87 perguntou o que a agrada. “Eu travei. Simplesmente não sabia a resposta”, diz a publicitária. “Eu gosto de várias coisas no universo, mas… O que me agrada? O que me faz feliz? Percebi que passo tanto tempo tentando agradar a todo mundo à minha volta, que não sobra tempo pra única pessoa que está comigo 24h por dia: eu mesma.”

No processo de descobrir o que funciona pra ela, Gabi já se deu conta de que #autocuidado não tem a ver com uma recompensa que a gente se dá de vez em quando. Tem mais a ver com o relacionamento que aprendemos a ter conosco, com nosso corpo, nosso espírito, nossa essência. “Aprender limites, novidades e nos compreender enquanto indivíduos em um mundo maluco e massificado.”

Colocar tudo isso em prática é difícil, ela admite. “Você tem que se policiar pra não se sabotar. Eu ainda estou na tentativa. Às vezes, tenho períodos longos de negligência contra mim mesma, e preciso retomar tudo de novo, do zero. Mais uma vez, é um processo, que precisa ser o mais natural possível, e não uma autoimposição. Senão, vira mais uma pressão na vida, e não é o que precisamos.”

Ela fala no plural porque acredita que a abordagem coletiva em relação ao assunto é fundamental. “Além de sermos seres vivendo em sociedade, nossos problemas nascem de questões coletivas: sociais, familiares, de trabalho, de relacionamentos. São as dinâmicas da nossa vida que moldam nosso jeito de viver, e ignorar isso é um erro. Inclusive porque a sociedade anda bem doente, e a cura não virá individualmente. São coisas diferentes, mas que convergem entre si: você enquanto indivíduo, com necessidades, particularidades, medos, fúrias, desejos, alegrias e excitações muito únicas, e você enquanto parte de um todo, um grupo de pessoas, cada uma com seu universo, mas que juntas formam a sociedade.”

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Na rotina de mãe de duas crianças, publicitária e ativista, @carolpatrocinio se desdobra para encontrar tempo para si. “A gente coloca outras coisas ou pessoas como prioridade. Sendo mãe, então, muitas vezes preciso abrir mão de mim pra cuidar deles. Por outro lado aprendi que se eu não tô bem não tem como eles estarem bem, então é uma equação bem simples. Se eu não cuidar de mim eu não cuido de ninguém.”
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Ao arranjar tempo para se cuidar, ela acaba dividindo suas experiências na internet – e vê na partilha coletiva mais um passo para superarmos fragilidades e obstáculos que colocamos pra nós mesmas. “Olhar pra outras mulheres, aprender com elas, ver como elas lidam com as coisas, tudo isso influencia bastante na maneira como a gente é e como enxergamos as coisas. Estar cercada de outras mulheres, dividir as coisas, compartilhar o que a gente sente faz toda diferença. O primeiro passo do #autocuidado é lembrar que você não tá louca.” Em seu trabalho de militância o acolhimento fica ainda mais palpável. Ele ganha corpo com o Clube do Livro que ela toca na @casa1, centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa. “É um lugar que a gente vai pra ler, discutir e se basear em feminismo, mas a gente tem esse momento de troca, de contar uma pra outra como o livro bateu pra gente, o que fez sentir, lembrar, ali a gente vai compartilhando vivências.”
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“O que me faz não desistir é saber que todos esses esforços, cada texto, conversa, encontro tá realmente transformando a vida de outras mulheres. Cada vez que uma mulher me conta que saiu de um relacionamento ruim, começou a olhar pra ela de outro jeito, que resolveu se cuidar mais, entendeu que não é emagrecer, entrar num padrão de beleza, tudo isso me faz continuar, tomar fôlego, apesar de saber que sempre vai ter gente criticando, falando que não é suficiente. E tudo bem. A gente segue em frente, ignora essas pessoas e ouve as vozes que valem a pena.”

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Sendo mulher e negra, @joanagmendes não descansa. “Como o racismo é um luto que nunca cicatriza, a consequência é que eu nunca estou tranquila emocionalmente, pois cada história pode ser um gatilho para algo que eu achei ter esquecido”, diz a publicitária. “A consequência pode vir em ansiedade, dificuldade para me concentrar, afastamento emocional das pessoas ao meu redor e cansaço constantes, além de levar para casa problemas que não são particularmente meus.”

Joana criou com mais três amigos a @idanimoconsultoria, uma consultoria negra, feminista e LGBT que atende o público em geral e as agências. Agências onde, inclusive, é difícil encontrar pessoas negras. Reflexo do racismo estrutural que o Brasil vive e nem sempre admite. “Em uma palestra na Campus Party, uma menina falou que ela não alisava o cabelo neste trabalho, mas talvez não pudesse deixar de alisar em um próximo trabalho, e eu vi que essa é uma realidade que não me aflige, mas aflige muitas mulheres negras que são submetidas a padrões de beleza que machucam física e psicologicamente para estar inseridas de dentro de um mercado de trabalho opressor e racista.”

O que não a faz desistir? “Eu sou uma mulher negra, nortista e LGBT, se eu parar de lutar, penso que estou desistindo de estar ao lado do meu povo e de pessoas parecidas comigo. Além disso, estou em lugar de privilégio, por ser classe média, então, eu enxergo esse privilégio uma chance para falar e dar voz a mulheres que não falariam.” E ainda acrescenta que acolher nossas fragilidades individual e coletivamente é fundamental na construção de uma sociedade acolhedora e mais justa.

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Amor, feminino, ocupação e crochê: conheçam Karen Dolorez

por   /  17/08/2018  /  9:09

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A arte de Karen Dolorez transborda. Seja em sua nova série com bordados inspirados na poesia do João Cabral de Melo Neto, seja pelas ruas de São Paulo, onde ela faz intervenções potentes. A artista visual encontrou no trabalho uma maneira de criar novos lugres, “lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível.” E a vontade que dá é de morar nesses mundos. Porque eles falam de liberdade, de feminino e feminismo, de amor – e são bonitos demais!

Conversamos em mais uma #entrevistadonttouch, espero que gostem!

Mais Karen > @karendolorezdolorez.com.br

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na arte e o que você mais gosta de fazer?

Eu sou a Karen Dolorez, sou do interior mas moro em São Paulo há 8 anos. Não sei ao certo como ou quando meu encontro com a arte se deu de fato. Eu aprendi a fazer crochê quando era criança e sempre gostei de trabalhos manuais. Quando me mudei pra capital, trabalhei como designer mas senti uma necessidade maior de produção interna e externa. Acho que talvez tenha sido aí onde realmente comecei a desenvolver os trabalhos com essa consciência. As instalações nos muros nas ruas foram de grande importância pra mim, por que foi onde comecei a sentir uma resposta muito imediata das pessoas, me motivando cada vez mais a me comunicar com as pessoas através da arte.

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– O que a arte representa na sua vida?

O Lama Padma Samten (mestre budista) diz que a arte é a manifestação livre da mente, como uma experiência da realidade onde a dimensão interna se mostra de uma maneira mais visível – aquilo que se é criado também é realidade: a gente enxerga na matéria a essência da obra. Acho que hoje é difícil olhar pra arte como algo separado da minha vida. Por mais que exista o lado profissional envolvido, acho que eu acabo entendendo tudo como coisas que surgem juntas: minha vida se reflete no meu trabalho e meu trabalho acaba se refletindo diretamente na minha vida também.

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– Quem são suas principais referências?

Referências são sempre difíceis, eu tenho muitas e nunca lembro de todas! Mas vou citar alguns artistas que gosto demais e tenho acompanhado bastante ultimamente: Ines Longevial, Olek, Erin Riley, Gleo, Guimtio, Acidum Project, Alexandre Herberte… Fora isso tenho muitas referências de artistas contemporâneos, escritores e músicos também.

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– Como é um dia na sua vida?

Posso dizer que nos últimos meses cada dia da minha vida tem sido bem diferente um do outro e talvez um pouco imprevisível rs. Muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo. Mas basicamente eu costumo passar o dia no atelier produzindo. Meu atelier fica em um casarão onde outros artistas de diversas áreas compartilham salas e por isso tem uma troca diária muito gostosa. Tem sido muito importante para o meu processo estar nesse ambiente criativo todos os dias.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que as pequenas vivências do processo nas ruas que tive no início e o feedback após cada obra finalizada, me proporcionaram entender a potência desse trabalho, sabe? As pessoas passaram a se comunicar comigo, seja respondendo as mensagens e/ou desenhos que colocava nas ruas, seja simplesmente repostando nas redes sociais ou vindo falar diretamente comigo. Acho que por se tratar de um material e técnica que remetem a uma memória afetiva, essas mensagens conseguem atingir algumas pessoas que de repente não atingiria em outros formatos.

Acredito que as pessoas se comunicam de diversas maneiras, se manifestam, protestam… Cada um encontra seu jeito de se expressar. Eu sinto que o meu trabalho foi a maneira que encontrei pra me manifestar também, pra falar de coisas que me incomodam e que me deixam mal, mas também de coisas que me motivam e que podem motivar outras pessoas. Acho que o mais importante nessa comunicação é sempre criar novos “lugares” em paralelo, lugares onde a gente inicia os mundos novos que a gente tanto acredita e acha possível. Penso que quando falo sobre direitos da mulher, liberdade individual de se expressar, de agir, de escolher e de só ser, é mais ou menos esse mundo que estou tentando criar.

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– Como é ser mulher no seu meio?

É complicado em todo meio, né? A mulher não tem muito espaço nas ruas, nem na arte, nem nos museus. As meninas do Guerrilla Girls tem uma pesquisa muito linda a respeito da representatividade feminina nesses espaços artísticos – exposta recentemente no MASP, inclusive. Mas como disse anteriormente, acho que precisamos criar esses novos lugares onde podemos estar e circular livremente. Acho que é muito importante cada vez mais incluirmos os homens nas nossas conversas também. Trazê-los pra perto é a melhor forma de quebrar as segregações. A mulher precisa sim do lugar de fala, de protagonismo, mas é importante demais que a gente abra esses diálogos com eles, afinal se eles não estiverem presentes, como vão aprender também?

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Aaah, acho que uma das coisas legais de se dizer de repente também tem a ver com minha nova fase mesmo, desde que aluguei o espaço pro ateliê entrei nessa nova fase, criando trabalhos mais internos e saindo um pouco das instalações na rua. Foi bem importante pro meu processo criativo ter um espaço voltado somente para o trabalho sabe? Consegui desenvolver novas obras e dentre elas essa série sobre o amor. São 3 retratos que simbolizam alguns momentos da minha vida. Me inspirei na poesia do João Cabral de Melo Neto para os títulos, Os Três Mal Amados: “Quando o amor comeu a minha paz e a minha guerra”, “Quando o amor comeu o meu dia e a minha noite” e “Quando o amor comeu o meu medo da morte”.

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“Transformo o que não aceito”, diz Cris Pagnoncelli em seus letterings

por   /  09/08/2018  /  8:08

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Quando trabalho e vida se misturam e se materializam em ilustrações, designs e letterings. Assim é o trabalho de Cris Pagnoncelli, que vocês conhecem mais na entrevista a seguir!

Acompanhem > @crispagnoncelli

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Sou designer, artista visual e profissional independente desde 2010. Me formei em design gráfico em Curitiba, e depois de 4 anos atuando em agências de design e publicidade, naquela correria insana, senti que havia perdido o que havia de mais original e prazeroso do processo: as técnicas manuais. Em 2009, armei uma fuga (talvez de mim mesma, talvez do que me prendia) e mudei para Barcelona, onde cursei uma pós em ‘Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual’, mas acredito que não só o curso, e sim a vivência em outro país, foi o que me permitiu redescobrir outras coisas sobre mim. Sinto que nessa fase meu trabalho teve uma grande mudança não só visual, mas de propósito mesmo. Eu queria ter prazer e me enxergar no que eu tava fazendo / criando / colocando no mundo. Na época eu estava com 24 anos. E os anos seguintes foram de muita busca. Experimentei técnicas novas, estudei coisas diferentes, me conheci melhor. Não digo que foi fácil – talvez os anos mais difíceis da minha vida, mas sem dúvida, o autoconhecimento foi essencial pra estar na fase que me encontro hoje: um pouco mais em paz com tudo o que faço e feliz de colocar minha voz no mundo, talvez por isso eu tenha encontrado no lettering um caminho que gosto de explorar em várias mídias e formatos. Eu gosto de desenhar coisas novas, de me desafiar, de estar sempre me reinventando.

Cris Pagnocelli 1

A arte é a forma mais sincera da nossa liberdade de expressão e coragem. Escolher abordar um tema nas nossas criações exige que a gente se posicione, acredite em algo e defenda até o fim (ou pelo menos, até ser convencido do contrário). Sou muito aberta a novas ideias e estou sempre buscando o equilíbrio das coisas à minha volta. Acredito que através das minhas ilustrações, designs e letterings eu posso comunicar e principalmente transformar aquilo que não aceito. Sei que não posso mudar tudo, mas até o momento que eu puder, vou utilizar a arte e o design como um veículo de informação das pautas que acredito.

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Nos últimos anos coloquei muito da minha vivência pessoal em meu trabalho. Foi algo muito natural. Ao pedalar na rua, e perceber a falta de respeito e espaço com os ciclistas, passei a defender e falar mais sobre bicicleta. Ao perceber o quanto me calei e aceitei coisas que antes pensava serem normais no mundo de agência, entendi que poderia ir ainda mais além sendo independente e traçando meu próprio caminho. E sempre falei sobre isso. Acho que as pessoas se identificam. Trabalhar sozinha nunca foi fácil, mas encontrei belas parcerias no meio do caminho e isso com certeza foi o que me fortaleceu. E acredito que essa coragem de falar sobre o que eu queria falar, de me abrir, de compartilhar, ensinar e aprender com outras pessoas autônomas me trouxeram ainda mais visibilidade. Em tempos de tanta individualidade, acho bem importante bater nessa tecla de que sozinhos a gente não chega tão longe quanto estando lado a lado com quem nos inspira e fortalece.

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Nunca foi fácil ser mulher em qualquer meio. E o meio da comunicação é bastante machista e predominantemente masculino. Sempre trabalhei e convivi com muitos homens. Mas talvez por ter minha mãe como referência eu nunca me senti inferior ou incapaz sendo minoria. Eu cresci acreditando que eu poderia ser o que eu quisesse. E minha mãe sempre foi uma grande líder. Uma vez ouvi de um superior que eu nunca seria uma (líder), pois era emotiva demais, chorava fácil (e choro até hoje). Guardei isso e toda vez que lembro dessa frase, tenho a certeza de que me tornei a mulher que eu já sabia que queria ser, que não necessariamente queria ser líder de alguém mas que saberia e gostaria de liderar. E sigo nesse processo. Construindo espaços de fala, lutando ao lado de outras mulheres e homens que admiro, resistindo. Para que um dia todas nós tenhamos a mesma força e auto estima dos homens. A gente não foi criada pra se impor, pra liderar (muito pelo contrário), mas a mudança está acontecendo e somos parte dela.

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Corpo que vivem, sentem e se relacionam nas maravilhosas pinturas de Jade Marra

por   /  06/08/2018  /  8:08

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Desde a primeira vez que vi o trabalho de Jade Marra fiquei encantada pelas cores, pela textura, pelos corpos ali desenhados. Fui conversar com ela pra entender de onde vem tanta beleza e consistência, e como resultado agora quero ter uma obra dela na parede! Espero que gostem da entrevista.

Acompanhem a Jade > @dejadejadejadejadeja e jademarra.com

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na arte e o que você mais gosta de pintar?

Sou a Jade, tenho 25 anos e vivo em Belo Horizonte. Em 2014 comecei a cursar artes plásticas na Escola Guignard, onde iniciei meu contato com a pintura. No segundo semestre de 2015, tive o privilégio de receber uma bolsa de um ano do programa Ciências sem Fronteiras para estudar artes visuais na Alemanha, o que foi determinante no meu amadurecimento como artista. Durante esse período, pude me dedicar integralmente a experimentar e entender meu lugar na arte, e foi também quando desenvolvi a série “Toque”, que considero meu primeiro trabalho com maior consistência artística.

A experiência de distância e ausência que vivi durante esse período me colocou em contato com sentimentos muito intensos e com a possibilidade de incorporá-los no meu trabalho. Aprendi aí a encontrar nos meus afetos pessoais a potência do que eu quero criar.

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– O que a arte representa na sua vida?

A arte, de um ponto de vista purista e ideal, representa a possibilidade de comunicação num plano sensível. A possibilidade de enxergar o mundo a partir da perspectiva do outro, de ter acesso a novas ideias e experiências. Por outro lado, a arte pode também representar um circuito extremamente restrito e elitista baseado em relações opressoras de poder.

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– Quem são suas principais referências?

Francesca Woodman

Pina Bausch

Felix Gonzalez-Torres

Paula Rego

Guerrilla Girls

Regina Parra

Leonilson

Ana Mendieta

Emilio Vilalba

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– Como é um dia na sua vida?

Ontem eu acordei, tomei café, atualizei meu portfólio, respondi e-mails, liguei pra minha mãe, fui ao banco, fui ao supermercado, li coisas diversas, procurei editais, desenhei, paguei meu aluguel, fiz uma torta de maçã, jantei, vi um filme e dormi. Zero glamour, muita vida real.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Eu trabalho a relação de afeto entre o corpo da minha companheira Luíza e o meu próprio corpo. Acredito que o afeto seja esse elemento que reverbera, cria identificação e empatia. Além disso, vale ressaltar que estou falando do afeto entre duas mulheres. O corpo da mulher lésbica existe socialmente em duas margens extremas: ou é apagado por não estar conforme o padrão de feminilidade, ou objetificado e fetichizado em função do prazer masculino. Considero meu trabalho político à medida que, trazer minha relação pessoal para a minha pesquisa artística, coloca o corpo lésbico em posição de protagonista e de propositor. Quem estabelece contato com o meu trabalho passa a ter contato também com um corpo que vive, sente e se relaciona como qualquer ser humano dotado de sensibilidade.

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– Como é ser mulher no seu meio?

Outro dia saiu o resultado de um edital ao qual eu estava concorrendo. Dos 9 selecionados, uma mulher. Existem camadas veladas de misoginia nas mais diversas esferas da arte, é vergonhoso. Precisamos estar atentas e conscientes e ajudarmos umas as outras a conquistar respeito e reconhecimento.

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Esse trabalho joga com uma inversão de perspectiva. Uma mesma imagem apresentada ora em uma orientação, ora em outra, permite uma alternância entre símbolos associados a visões de mundo contrastantes. Quando o mesmo elemento visual é capaz de representar sujeitos antagônicos, cria-se uma sensação de similaridade capaz de questionar a efetiva oposição entre categorias que podem estar relacionadas a estes sujeitos. 

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@estarmorta, quadrinhos sarcásticos sobre a vida da jovem mulher branca de classe média

por   /  30/07/2018  /  9:09

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O @estarmorta é um desses perfis que quando aparecem na timeline você agradece pelos posts traduzirem vários aspectos da vida mulher de 30 e poucos vivendo na cidade grande enfrentando diversos tipos de dilema e se valendo do humor e do sarcasmo para lidar com várias análises sobre o mundo.

A autora não revela a identidade, o que deixa a história ainda mais legal. Conversei com ela sobre esses desenhos e textos que me fazem ter uns momentos de “é isso, traduziram o que eu penso!”. Foi demais o papo, espero que vocês gostem!

Acompanhem > @estarmorta

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– Conta um pouco sobre você, sobre seus quadrinhos/ilustrações e o que você mais gosta de desenhar e falar?

Vou tentar resumir. Eu sou jornalista. De economia. É isso que paga o meu aluguel e até gosto. Mas eu tinha 4 anos e queria ser estilista. Passava o dia todo desenhando mulheres com roupas bregas! Só que a minha mãe sempre me desestimulou, até porque eu não era nem um pouco boa nisso, nem em nada que envolvesse trabalhos manuais. Ela preferiu estimular meu jeito com números e linguagem – não à toa virei jornalista de economia. Eu reprimi totalmente meu lado artístico durante anos, nem sabia que tinha um. Amava apreciar arte em museu, mas nunca achei que pudesse fazer. Mas aí ano passado eu fique deprimida, tipo, lido com depressão há anos, mas a do ano passado eu achei que fosse morrer – não à toa o nome é “estar morta”. Assim como Lana del Rey eu queria estar morta. Mas não morri, entrei na terapia e a terapeuta deu aquele velho conselho de fazer arte. Mas ela foi específica: faz quadrinhos, já que você é boa em linguagem. Comecei a fazer, meus amigos começaram a gostar. Aí quando eu criei um personagem chamado PANIQUINHO, que é basicamente uma personificação das minhas crises de ansiedade, outras pessoas começaram a seguir. Percebi que tem muita gente sofrendo no mundo.
Eu passo metade da minha vida lendo sobre doença, principalmente as psiquiátricas. Meus pais tinham uma farmácia, só falavam disso. Como doença mental esteve na minha vida desde cedo, esse virou um dos meus temas centrais – e também é um tema que conquistou muita gente. Mas eu também gosto de falar sobre outras coisas: feminismo, lacração, relacionamentos, sexo, amizades, bebidas, drogas, trabalho – enfim, a vida de uma jovem mulher em 2018.

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– Você tem um humor ácido maravilhoso. No que você se inspira, quem são suas referências? Em quem você quer que cheguem essas mensagens?

Sou gaúcha – o que quer dizer que cresci cercada por gente meio grossa, sarcástica e que adora humor negro. Não caí longe do pé, né? Sempre gostei de Monty Python, que tem uma coisa meio nonsense; Agatha Christie, que todo mundo só vê como escritora de mistério, mas tinha um humor ótimo; e piada com coisas sobre as quais não se deve brincar. É que sempre acreditei que humor era a melhor maneira de lidar com coisas ruins (continuo achando que é, mas meu psiquiatra disse pra eu parar de usar sarcasmo para mascarar sentimentos e tenho tentado). Mas minha musa inspiradora, tanto no traço como no estilo de texto é uma ilustradora americana chamada Julie Houts (JooLeeLoren, no insta). Os desenhos dela falam muito com a estilista que eu QUERIA ser e não fui e ela consegue expor certas angústias de mulheres (brancas de classe média) de uma forma muito afiada. No Brasil, gosto muito do Ricardo Coimbra, Bruno Maron, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai e da Chiquinha – achei ótimo uma mulher começar a publicar todo dia na Folha.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Depressão e ansiedade foram os temas que atraíram pessoas pro perfil e continuam sendo um tema frequente – e uma demanda das seguidoras e seguidores, inclusive. Tenho inclusive vontade de fazer um site com mais informação sobre saúde mental. Depressão deve ser a doença mais comum atualmente, e percebo que as pessoas se sentem bem de saber que não estão sozinhas nessa, que o que elas sentem é comum. O meu post que mais “viralizou” até hoje é um que fala sobre a pressão para ter “autoestima” lá no alto – esse feminismo de consumo rápido, sabe? Achei que fosse me ferrar criticando o feminismo da lacração, mas espantosamente muita gente se identificou e concordou.

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– O que a arte representa na sua vida?

Transcendência – é isso que eu sempre achei mais legal na arte. Pelo menos pra mim, apreciar e mais recentemente produzir arte é uma coisa que me permite sair do “eu”. Deprimido e ansioso passa muito tempo dentro da própria cabeça e acho apreciação e criação de arte ótimas maneiras de sair de lá. Não à toa quase todo psicólogo e psiquiatra indica trabalhos artísticos, artesanais, manuais, como uma via de tratamento.

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– Como é ser mulher no seu meio?

No jornalismo econômico francamente acho bem tranquilo – mulheres são maioria, várias em cargo de chefia. Tem machista? Até tem, claro, mas acho que menos que em outras profissões até pela grande presença feminina. Entrevisto muita gente do mundo dos negócios, executivos, etc e a maioria é homem, quase todos muito respeitosos e educados. Eles fazem mansplaining? Fazem, mas jornalista adora gente que fala demais, então podem continuar fazendo. O que mais me incomoda em entrevistar tanto homem é que eu queria ver mais mulheres na posição de poder. Sou novata em quadrinhos ou arte, mas tenho um pouco essa impressão também, de que faltam mulheres em “posição de poder”, tipo, mais mulheres quadrinistas publicando em jornal diário, lançando livros, sabe? Mas também acho que isso vem mudando, fiquei muito feliz que a Chiquinha começou a publicar na folha e cada vez mais vejo mulheres ganhando visibilidade.

Por fim, também tenho impressão que ter sucesso em arte é uma coisa que depende de networking (vc viu “Nanette”? Ela fala disso) e homens são historicamente bons nisso, pois mais tempo tendo poder e tendo contato com poderosos, né? Acho que a gente tem que aprender a não só criar redes de mulheres mas também entrar nas redes deles – acho que o feminismo e as mulheres perdem se se isolarem apenas em clubes de mulheres e ficarem chamando os homens de machista o tempo todo.

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A potência das fotografias de Helen Salomão

por   /  25/07/2018  /  7:30

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Muito impactada pelo trabalho da Helen Salomão, puxei uma conversa pra conhecê-la mais.

Acompanhem esta mulher! > @helesalomao

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Sempre fui apaixonada por arte, mas as pessoas diziam que a arte não era para mim, e eu levei essa afirmação muito a sério. Só decidi que iria me dedicar a ela quando me decepcionei com a profissão que eu almejava. Meu sonho era ser advogada, até eu entrar para estagiar como Jovem Aprendiz no fórum da minha cidade e perceber que naquele momento eu seria infeliz se escolhesse essa profissão. E então decidi me dedicar à arte.

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Comecei a estudar para passa na faculdade pública para cursar design. Nesse meio tempo já tinha comprado uma máquina semiprofissional e estudava sozinha fotografia. Comprei a máquina sem pretensões, só queria me aproximar da arte. Sem conseguir passa em design, entrei num curso de arte e tecnologia. Foi nesse curso que me tornei artista e me dediquei inteiramente à fotografia. E descobri que ela seria minha aliada para mostrar e discutir minhas ideologias, para ser uma artivista e poder ser o meio para que outras pessoas pudessem se mostrar e contar suas histórias.

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Minha fotografia é muito sentimento, é o momento que passo, junto com o espaço ou pessoa que compõe a foto. Minhas referências: a rua, as pessoas, a minha família.

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Abordo aquilo que está no meu cotidiano e a minha vida. Acredito que é importante retratar para além de um tema, sempre penso em mostrar o que me toca, o que pode ajudar o outro, a autoestima, a felicidade, o poder e por aí vai.

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Do Projeto Fotopoético Casa Corpo Pele Parede, que conta vivências de mulheres, focando nas experiências do seu corpo, marcadas na pele.

Débora Ester, 22 .
“Minha pele tem tendência a manchar por qualquer eventualidade. Seja uma espinha, cravo ou ferimento. Futucada ou não, ela sempre marca. Eu não tinha estrias, porém, durante a gravidez, elas começaram a aparecer. A pele em volta da barriga esticou bastante, além de aparecer aquela famosa listra negra fazendo divisão. Quando minha bebê nasceu, a barriga diminuiu, ficando bem flácida, mole e escura. Aos poucos, ela está voltando para o lugar e clareando. Ainda tenho vergonha de algumas manchas e, agora, das estrias, mas estou trabalhando minha autoestima para lidar e me aceitar. Faz 40 dias que minha Maria nasceu e o corpo está normalizando bem, a barriga murchou bastante e as estrias estão sumindo. Com tudo que aconteceu, amo demais meu corpo e amo ser eu, amo residir no corpo em que estou e aprender com as mudanças que acontecem nele.”

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[O que faz o seu trabalho reverberar?] É a minha verdade junto ao que retrato.

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[Ser mulher no meio da fotografia] É perceber que alguns homens ainda continuam falando e mostrando nossas particularidades sem nenhum cuidado, vendo os homens ainda fazendo mais jobs que nós e sentindo na pele o desrespeito por simplesmente ser mulher.

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Dona Maria.
Você é boa.
Você é bonita.
Você é importante.
Você é inteligente.
#historiasquenaoestavamnoslivros

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Os bordados “desajeitados” de Nani Broderie

por   /  20/07/2018  /  14:14

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Adoro quando alguém chega por DM e apresenta o que faz. A Ana Maria Copetti fez isso, e cá estamos para falar do trabalho dela e mostrá-lo um pouco!

Mais > @nani_broderie

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Bom, me chamo Ana Maria, sou bordadeira e designer, e meu apelido em casa é Nani. Sempre tive gosto pelas artes manuais, praticava de tudo quando pequena, desde aquarela a marcenaria, e hoje sigo experimentando. O design como profissão contribui para o meu pensamento criativo, mas, mesmo amando muito, sempre existiu aquele receio de expor minhas criações e também uma falta de trabalhar com o manual (fico geralmente mais de 8h por dia no computador). Foi através do bordado que encontrei uma forma própria de expressão, que consegui me identificar e ter maior confiança nos meus trabalhos, riscos e identidade. Comecei a bordar em 2014, quando fiz por acaso uma oficina da técnica em um evento de design em Buenos Aires – e desde então não parei mais.

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Hoje tenho a marca de bordados Nani, com bordados desajeitados e feitos à mão em um processo 100% autoral; mas continuo descobrindo outras manualidades também, faço cerâmica e tenho um grupo que compartilha conhecimento manuais: o Clube das Miçangas. Então, sobre o que eu gosto de fazer, acho que a resposta é um pouco de tudo. Em relação ao bordado, bordo o que eu vejo ao redor e o que eu sinto, vejo meu trabalho como a materialização de sentimentos e, por isso, busco sempre inspirações no universo feminino, com sua delicadeza, suas curvas e sua força.

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Acho que a arte representa uma forma de dizer aquilo que muitas vezes eu não sabia como me expressar. Também representa uma forma de ver a vida e o que nos cerca e uma forma de comunicar, uma troca e um compartilhamento dos sentimentos.

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Meu trabalho trata do feminino e da delicadeza e da força da mulher de uma forma simples e natural, e isso sem dúvidas é algo que as mulheres se identificam. Gosto de trabalhar a relação das mulheres e da sororidade, da união e do estar presente pela outra. E também a relação mulher x natureza, através dos animais e das plantas.

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Ser mulher no Brasil é horrível, mas acredito que a pergunta seja específica em relação ao trabalho com o manual. Eu percebo que ser artista, independente do gênero, já venha com toda uma carga de desvalorização do manual no Brasil. Agora, ser artesã e mulher é ainda mais difícil pois já carrega um significado que a sociedade traz do olhar insignificante ou ordinário sobre o trabalho. O bordado acaba muitas vezes sendo tratado mais como um artesanato básico e medíocre do que como arte profissional em si. O tempo de produção, que é altíssimo, acaba sendototalmente  menosprezado, e o valor sobre a peça diminuído. E nesse sentido eu já percebi que há uma diferença de tratamento de quando a arte do bordado é feita por homens, pois eles já são mais vistos como de fato “artistas”.

Porém, me sinto bastante privilegiada em relação ao meu trabalho, pois nunca senti um preconceito direto em relação a exercer meu trabalho. Mas já passei por situações desconfortáveis de receber comentários da família sobre certos bordados “mais ousados”, comentários machistas e homofóbicos em posts dos meus trabalhos e comentários bizarros no transporte público de homens enquanto eu bordava, perguntando se “sobrava tempo para cuidar da casa”, tipo oi?

Por outro lado, como ponto positivo, eu vejo toda uma cultura de valorização do pequeno nascendo. No Brasil pelo fato da maioria das microempresas serem coordenadas por mulheres, todo esses negócios acabam sendo muito inspiradores. E quem se dedica às artes manuais acaba achando uma rede de apoio bem grande e muito querida de artistas.

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Sirlanney e seus ótimos quadrinhos feministas

por   /  06/07/2018  /  8:00

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A Sirlanney faz aquele tipo de quadrinho que você lê e se identifica na hora. Ela fala de pensar em mandar uma mensagem de amor a cada 5 minutos, de ser stalker, de trabalhar sob pressão, de destruir o patriarcado. Suas histórias são ácidas e certeiras, e é muito legal acompanhar seu perfil no Instagram. (Aliás, obrigada, @instadage, pela indicação!)

Na entrevista abaixo vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que nasceu no interior do Ceará em 1984 e publica seus textos e desenhos na internet, em zines e revistas há 15 anos.

Mais > @sirlanney + www.sirlanney.com

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu adorava desenhar quando era criança, como todo mundo, mas não parei de deseenhar quando cresci. Era algo que sempre me deixava satisfeita… Ver que eu podia fazer minha própria interpretação do mundo no papel. Mas o que eu amo fazer é contar histórias, escrever mesmo. Ilustração é só uma parte do que eu faço, porque o que eu acho que faço mais é contar histórias através dos desenhos. Então eu estudei artes plásticas, aprendi diferentes técnicas, li os grandes mestres e os nem tão grandes assim… E continuo estudando todos os dias, é um trabalho sem fim.

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– O que a arte representa na sua vida?

A arte é o ponto central da minha vida, é o que eu escolhi fazer agora e no futuro. Mas antes já era o que embalava meu coração frágil, desde que eu posso lembrar. A arte sempre foi o que eu podia me agarrar enquanto buscava o sentido da vida.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Geralmente é o que mais me incomoda. Aquele assunto que tá mal resolvido para mim ou para o mundo. Patriarcado, política, direita, esquerda, capitalismo, ego, altruismo, nova era, minha falta de habilidade com o Excel… Qualquer coisa que fique martelando na minha cabeça! Aí eu preciso parir um quadrinho para arrancar isso de mim.

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– Como é ser mulher no seu meio?

Já foi pior, mas ainda é chato. Não posso negar o salto que demos nos últimos anos no sentido de sermos consideradas, sermos lidas e termos obrigado a sociedade enxergar que somos top. Mas sempre que pego uma revista ou qualquer publicação sobre quadrinhos ou ilustração e vejo lá o clube do bolinha, ainda firme e forte, reviro os olhos.

Sy

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