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don’t touch entrevista opala

por   /  14/11/2013  /  12:00

Sabe a filha do Tom Jobim? Começou a ouvir muita música eletrônica, se arriscou numas composições, decidiu cantar, se juntou com um amigo produtor e fez uma banda chamada Opala, que eu não paro de ouvir desde que conheci.

Opala é a banda da Maria Luiza Jobim e do Lucas de Paiva e não tem nada a ver com a maravilhosa bossa nova do pai dela, o que é uma alegria neste mercado dominado por cantores que fazem tudo “como nossos pais”.

O som do Opala tá muito mais perto da Grimes, do Knife, do XXYYXX. E é tãaaao bom que resolvi conversar com a Maria Luiza pra saber como eles começaram, do que gostam de ouvir, como é ser comparada com o pai o tempo todo…

Vejam a entrevista no vídeo abaixo! Espero que vocês gostem! ♥

Ouçam o Opala > https://soundcloud.com/maria-luiza-jobim

A foto que ilustra o post é do Jorge Bispo, que gentilmente nos permitiu usá-la!

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os mundos de dom la nena

por   /  27/09/2013  /  15:30

Dom La Nena, que nome diferente! A capa do disco é bonita, tem uma dupla exposição dela, meio embaçada. Vou ouvir. Das 13 músicas, já tenho vontade de ouvir de novo mais da metade quando acaba o disco. Bom sinal. Durante a semana, ouço mais e mais. E, uns dez dias depois, numa noite em que chovia muito no Rio, saio de casa com duas amigas para ver um show dela no Solar de Botafogo.

Uow! Que boa essa menina. Ela não é só mais uma cantora com um repertório óbvio que me deixa com aquela sensação de “quase lá”. É uma artista completa – e por mais que essa frase seja um clichê, é uma alegria quando conseguimos ver uma performance assim ao vivo. É em busca dessa verdade que passo tanto tempo ouvindo música. Viva!

Ela toca violoncelo, ukelele, faz percussão com um chocalho amarrado no pé, coloca uma música antiga em uma vitrolinha para servir de fundo para que ela cante, em português, francês e espanhol, suas letras que falam de deslocamento, de pertencimento e não pertencimento, de amor, dos amigos que nunca mais foi visitar, de ser estrangeira mas sempre sentir que tem uma casa.

Dom La Nena é Dominique Pinto, uma garota de 23 anos que nasceu em Porto Alegre e passou a maior parte da vida pelo mundo. Primeiro, em Paris, para onde foi com a família acompanhar o doutorado em filosofia do pai. Aos 13 anos, mudou-se para Buenos Aires, para onde foi sozinha estudar violoncelo com Christine Walevska, um de seus ídolos no, conhecida como “a deusa do violoncelo”. De volta à França, aos 18 anos, acabou passando dois anos em turnê com a Jane Birkin, musa do Serge Gainsbourg. Também trabalhou com Jeanne Moreau.

La Nena, a pequena, foi incorporado porque ela sempre foi a caçula dos grupos que frequentava. Dom começou a estudar piano aos 5 anos e, aos 8, já se aventurava no violoncelo. “[Ser artista] no meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse ‘ah, sou artista’! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…Fiz teatro, dança, pintura etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje”, conta ela ao Don’t Touch.

Em agosto, Dom La Nena lançou seu disco, “Ela”, no Brasil. Nos Estados Unidos o álbum saiu no começo do ano pela Six Degrees Records e recebeu elogios de veículos importantes, como o New York Times e a Les Inrokuptibles. O disco foi produzido por Dom e Piers Faccini e conta com participações da cantora francesa Camille e dos brasileiros Thiago Pethit, Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup.

“A Dominique é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço. E acho lindo que o nome artístico dela seja esse pequeno apelido, Dom. Porque ‘dom’, em português, representa um pouco dessa habilidade inata e musical dela. Ela é uma garotinha, doce, sensível, delicada mas tem também uma coisa, uma personalidade forte, muito assertiva e direta. E as músicas acabam ganhando essa qualidade”, diz Thiago Pethit.

Embora tenham morado em Buenos Aires a uma quadra um do outro, eles se conheceram em São Paulo, por meio do Vicent Moon, que faz o La Blogotheque com Jerome, marido da cantora. “Depois de todas essas coincidências, foi uma espécie de amor à primeira vista. Fizemos juntos um Som Brasil – TV Globo em homenagem a Assis Valente e na sequência, de volta a São Paulo, ela me convidou para gravar ‘Buenos Aires’. Desde então, temos nos encontrado meio que por acaso em diversos lugares do mundo, Paris, Lisboa, São Paulo, Paris de novo… Da última vez, até cantei no show de estreia dela por lá e foi muito lindo”, completa.

Tendo como referências artistas como Lhasa de Sela, Juana Molina, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e a música brasileira de Dorival Caymmi, Jorge Ben, Chico Buarque e Tom Jobim, Dom La Nena fez um disco de estreia muito consistente, em que sua voz frágil se junta a melodias delicadas (que, por vezes, lembram canções de ninar) e a arranjos dominados por um violoncelo poderoso.

Talvez por ter mudado tanto de país, parece que ela criou um mundo só seu, cheio de nostalgia. Com seu jeito doce, um sorriso no rosto e até um pouco sem jeito, ela nos convida a entrar nele, meio que ainda sem acreditar que suas criações podem encantar mais gente.

Para conhecer mais sobre a história da Dom La Nena, leiam a entrevista que fiz com ela logo abaixo. Antes, assistam aqui à estreia de “Golondrina”, seu novo clipe, dirigido por Jeremiah.

- Quando foi que você se descobriu artista?

No meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse “ah, sou artista”! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…fiz teatro, dança, pintura, etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje. – Como foi sua formação? Minha formação musical é em música clássica. Em Porto Alegre, de onde eu venho, comecei a estudar piano aos 5 anos, e violoncelo aos 8. Logo fui para Paris com meus pais (para o doutorado do meu pai), e continuei estudando lá…Sempre fui muito apaixonada pelos dois instrumentos, mas a partir dos meus 10 anos decidi ficar somente com o cello, e já estava decidida que queria ser violoncelista – e já estudava muitas horas por dia. Fiquei estes 4 anos estudando no Conservatório. Depois continuei estudando em Buenos Aires, também uma formação clássica no Conservatório de Buenos Aires e na academia do lindo Teatro Colón…fiquei lá 5 anos, dos meus 13 aos meus 18. Com 18 voltei a Paris, para continuar estudando na École Normale de Musique onde completei meu ciclo superior.

- Conta um pouquinho da sua trajetória, onde você morou, por quanto tempo?

Nasci em Porto Alegre onde fiquei até meus 8 anos. Depois morei em Paris dos meus 8 aos meus 12, voltei para Porto Alegre alguns meses, e com 13 anos fui morar sozinha em Buenos Aires para estudar violoncelo – onde fiquei até meus 18. Logo voltei para Paris, onde agora estou morando já faz 6 anos…

- Como foi que você foi morar sozinha em Buenos Aires?

Quando eu voltei de Paris para Porto Alegre com meus pais, tinha 12 anos (quase 13) e já estava totalmente decidida a ser violoncelista. Estudava o dia inteiro, assim que chegava da escola ia reto estudar cello. Mas tivemos que voltar para Porto Alegre, pois o doutorado do meu pai tinha acabado, e eu sabia que as possibilidades de ter uma boa formação clássica por lá eram poucas… Voltando para lá entrei em uma grande depressão! Então comecei a pensar em como resolver meu problema… E eu lembrei que uma dos meus ídolos do cello, uma violoncelista americana chamada Christine Walevska, tinha morado em Buenos Aires. Comecei a fuçar na internet para ver se achava mais detalhes sobre se ela dava aulas em algum lugar, e descobri que ela tinha voltado para Nova York. Procurei por ela no guia telefônico de Nova Yorque, e liguei para ela para pedirconselhos. Ela foi um amor, muito acolhedora, e como é casada com um argentino, continua indo muito para Buenos Aires… ela estava indo para lá algumas semanas depois e me propôs de nos encontrarmos para ela me dar aulas e tentar me ajudar a achar um professor com o qual eu pudesse ter mais regularidade em Buenos Aires.. Então eu fui, fiquei lá uma semana, ela me deu aulas incríveis, e me apresentou para um professor francês que dava aula no Conservatório de Buenos Aires e que também me deu algumas aulas naquela semana e me aceitou como aluna na sua classe no Conservatório. Voltei para Porto Alegre na maior alegria, avisando meus pais que já estava tudo resolvido e que me mudaria para Buenos Aires… Só que eu tinha 13 anos ! E obviamente meus pais não podiam se mudar para lá… Mas meus pais sempre me apoiaram muito e dessa vez, é claro, depois de muitas noites angustiantes de reflexões, decidiram me dar essa confiança confiança e deixaram eu ir morar lá alguns meses depois… E essa foi sem dúvida uma das decisões mais importantes da minha vida ! Fiquei 5 anos estudando lá, com vários professores maravilhosos, no conservatório de Buenos Aires, na academia do Teatro Colón, e com a Walevska que ia de 3 em 3 meses para la… Quando fiz 18 anos voltei para Paris estudar.

- Como você aprendeu a tocar tantos instrumentos?

Eu considero que eu toco mesmo só violoncelo… um pouco de piano, do que me lembro de quando criança. Na hora de compor eu uso o violão também, mas sou péssima! Até cheguei a gravar alguns dos violões no meu disco, mas só sei tocar mesmo minhas músicas ! Também estudei um pouquinho de contrabaixo em Buenos Aires, então também sou eu quem toca contrabaixo no disco. Quando gravei, queria poder tocar ao máximo possível todos os instrumentos eu mesma… E é verdade que na maior parte do disco sou eu e o Piers Faccini – que produziu junto comigo, quem toca.. Muitos instrumentos, eu me aventuro a tocar por instinto, não acho que eu saiba realmente tocá-los ! – E como se interessou pelo violoncelo? Meus pais sempre ouviram muita musica clássica em casa, portanto eu já conhecia o instrumento. Eu estudava numa escola de música muito legal quando pequena em Porto Alegre…uma vez fomos para um encontro entre várias escolas do país em Florianópolis, e no ônibus sentei ao lado do professor de violoncelo da escola. A viagem era longa, mas me dei super bem com ele, nos divertimos durante todo o trajeto, adorei ele, e durante o encontro em Floripa comecei a ir assistir as aulas dele e adorei ainda mais o instrumento ! Quando voltei, apresentei-o ao meus pais: “Esse é meu novo professor”. E assim comecei a estudar cello. Decidi realmente a ser violoncelista aos 10 anos de idade em Paris.

- Conta um pouco como é seu processo na hora de compor? De onde vem a inspiração?

Não tenho muita regra, mas geralmente nunca penso “vou falar disso ou daquilo”. Gosto de trabalhar bastante com o inconsciente, acho bem mais interessante. Por vezes vem primeiro uma melodia, com algumas palavras, depois vem o texto, outras vezes é ao contrario… Não há receita fixa.

- Apesar de ter passado tanto tempo fora, a música brasileira influencia muito você, né? Dá pra ver em músicas como “Batuque”, que tem até berimbau. A sua formação proporcionou alguma pesquisa que levou a essa influência, a essas descobertas?

Minha formação é principalmente clássica,  mas desde sempre ouvi muitíssima música brasileira… Cresci com Jorge Ben, Chico, Tom, Caymmi, e eles me acompanham até hoj ! Então com certeza eles também estão muito presentes na minha música. A música brasileira está presente desde sempre para mim, e foi se misturando com tudo o mais que fui escutando… Sempre quis parar para pesquisar mais sobre ela, mas ainda não tive o tempo que do qual precisaria para fazer isso.

- Levando em conta que cada língua possui uma musicalidade diferente, que muda um pouco a própria música, como a gente a ouve, você acha que para o trabalho que você faz hoje a língua portuguesa consegue expressar melhor suas ideias? Ou é assim mesmo que elas surgem, naturalmente?

A escolha da língua também é algo totalmente inconsciente. As coisas vêm assim, eu nunca pensei “vou escrever em português” ou ao contrário “tenho que tentar não escrever em português”… Acho que como é minha língua materna, por mais que no dia a dia não seja a que eu fale mais, termina sendo a que vem mais naturalmente. Mas ultimamente tenho composto muito em espanhol – também não sei explicar por quê.

- E a recepção do público? O que você espera quando coloca sua música no mundo?

É muito impressionante, porque na maioria do tempo, canto para pessoas que não falam nem entendem português… Quando leio artigos, ou depois do show, conversando com o público, me dou conta que eles entendem muito do que eu falo sem mesmo entender as letras! Isso para mim é mais do que gratificante, ver que consigo atravessar esta barreira e transmitir o que eu quero além das palavras!

– Quem são suas principais referências, os artistas que mais admira? E aqueles com quem adoraria dividir o palco?

São muitíssimas… E ainda por cima já tive a sorte de poder dividir o palco com muitas delas! Jane Birkin, Jeanne Moreau, Camille, Piers Faccini, por exemplo, são referências de longa data para mim e, às vezes, custo a acreditar que já estive no palco com eles! Ultimamente tenho escutado muitíssimo Lhasa de Sela (mas infelizmente ela já faleceu) e a cantora argentina Juana Molina – adoraria fazer algo com ela um dia. Também bastante Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e obviamente, como falei antes, muita música brasileira…

- Aliás, como você foi parar na banda da Jane Birkin? E o que aprendeu de mais legal com ela?

Eu conhecia a produtora musical do ultimo disco da Jane (“Enfants d’hiver”), e ela me chamou para tocar no disco. No início seriam apenas algumas músicas, mas foi tão legal que no fim toquei em quase todas! A Jane estava sempre no estúdio com a gente, ela adorou, nos demos super bem… Então ela me convidou para formar parte da banda da turnê do disco (éramos 4: piano, cello, contrabaixo e guitarra). Foram dois anos de viagens incríveis, pelo mundo inteiro… Uma das coisas que mais me marcou da Jane era a força que ela tirava de dentro de si na hora de entrar no palco. Como viajávamos muito e ela já estava com a idade avançando e com a saúde um pouco frágil, era muito cansativo para ela o ritmo de turnê, promoção, além dos filmes que ela fazia nos dias livres. Às vezes ela passava o dia inteiro exausta, cansadíssima, mas na hora de entrar no palco era outra mulher, se transformava totalmente e transbordava de energia!

- Quando foi que você decidiu lançar um disco? E como foi o processo de criá-lo?

Não foi realmente uma decisão… Quando eu comecei a compor, não tinha a menor pretensão de lançar um disco, fazer turnê etc… Queria mesmo fazer as músicas para mim, para ver no que dava, por diversão. Comecei a gravar em casa, a fazer os arranjos e foi dando vontade de ouvi-las mais elaboradas, mais bonitas… Procurei a melhor maneira de gravar. Gravei, e o Piers Faccini mandou para a gravadora dele nos Estados Unidos, que adorou, e as coisas foram indo. Nada foi muito calculado, as coisas foram acontecendo e acho que isso foi uma coisa muito importante para mim no processo criativo e de gravação do disco. Fiz tudo do jeito que eu queria ouvir mesmo, sem me deixar influenciar por nenhuma pressão de gravadora ou outros, usei todo o tempo necessário até estar totalmente satisfeita… Acho que, se na hora de gravar já tivesse na mente “vou lançar meu primeiro disco, vamos lá”, teria sido muita pressão e talvez as coisas não tivessem sido tão fluídas.

- Você produziu o disco também, né? Fala um pouco sobre isso?

Eu produzi o disco junto com o Piers Faccini, que é um cantor inglês que mora na França, que já tem 4 discos incríveis lançados e que é respeitadíssimo na Europa. Eu escuto a música dele desde que era adolescente em Buenos Aires, e ele sempre foi uma referência para mim. Por acaso, ele trabalha há muitos anos com meu marido, então nos conhecemos há alguns anos e, desde então, ficamos bons amigos e temos tocado muito juntos. O Piers tem um estúdio em casa que é um sonho: ele mora no sul da França, no meio das montanhas, e no fundo do jardim dele tem uma casinha onde ele fez este estúdio – simples, mas com excelente material de som e vários instrumentos. Quando comecei a gravar já tinha pré-feito em casa a maior parte dos arranjos… Fiquei uma semana sozinha, passando tudo a limpo, experimentando novas coisas, trabalhando no som – trabalhei sem técnico de som, todos os takes foram feitos por mim mesma. Logo deixei todos os arquivos para o Piers, que começou a fazer a parte dele dos arranjos. E íamos trabalhando assim, por blocos de períodos em que eu gravava sozinha, depois ele, depois nos enviávamos as músicas, até o disco ficar pronto. Para mim era muito importante poder ter a direção da produção…Não poderia imaginar ter feito este disco com alguém fazendo todos os arranjos e a produção, seria impossível para mim trabalhar assim!

- Como é trabalhar com seu marido?

Eu não consigo nem imaginar trabalhar sem ele. Sou totalmente fã do trabalho dele, é quase impossível para mim pensar em ter outra pessoa fazendo minhas fotos, meus vídeos, me aconselhando para arte… E como eu não sou das mais à vontade com câmeras, isso facilita muito, porque geralmente não tenho o sentimento de estar posando, de estar fazendo algo a propósito. O Jeremiah tem o dom de mostrar a beleza nas coisas simples do cotidiano… Somente ele conseguiria tornar bonito um vídeo onde há apenas imagens minhas dormindo (como em “Anjo Gabriel”)! Ou filmar um show somente com uma câmera, no meio do público, de maneira simples e poética (como em “Golondrina”). E ele tem tanta experiência em trabalhar com músicos (já fez filmes, vídeos, clipes para o REM, a Camille, o Erik Truffaz, para a Blogothèque durante anos) que até nas questões musicais, de show, de eleição de repertório, de estratégia ele me ajuda demais. Ele é quase como se fosse minha segunda cabeça!

- Como têm sido os shows, a turnê?

Desde que eu lancei o disco em janeiro, minha vida tem sido um turbilhão… Muitos shows, principalmente na França, Estados Unidos e Canadá… Também estive tocando bastante em Portugal, na Suíça e na Bélgica e mês que vem faço os primeiros shows na Inglaterra. Agora que lançamos o álbum no Brasil, estou começando a tocar mais por aí! Tem sido incrível poder levar minha música para todos estes lugares  E muito interessante ver a diferença de público de país em país ou até de cidade em cidade!

- Como é ficar sozinha no palco, preenchendo os lugares com um som tão encorpado?

Tocar sozinha hoje em dia é o que eu prefiro no palco. Tentei ter banda, ter quarteto de cordas, ter uma violinista, enfim, tentei varias fórmulas… Mas cheguei à conclusão de que me sinto mais à vontade quando toco sozinha. É um risco enorme, pois ainda por cima estou no cello, que é um instrumento mil vezes mais complicado do que o violão para a afinação e que, ainda por cima, não é nem um pouco feito para ser instrumento harmônico. Mas eu adoro estar assim, “nua”, 100% eu, acho bem mais interessante a relação com o público! Não há como esconder nada, tudo está em estado bruto… Às vezes é mais fácil, às vezes mais difícil, mas geralmente sempre termina sendo bem mais gratificante estabelecer esta cumplicidade, esta proximidade com as pessoas.

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como encontrar o trabalho da sua vida, por roman krznaric

por   /  18/09/2013  /  10:15

Há quase um ano, troquei a certeza de um emprego com carteira assinada em uma empresa de prestígio pela aventura de me dedicar 100% ao meu próprio negócio – a Contente, empresa de projetos pra internet que faço com a minha amada sócia Luiza Voll há quase três anos.

Sempre achei que fosse fazer duas coisas na vida profissional. Nunca me identifiquei com o discurso de quem falava que tinha encontrado sua vocação e queria se dedicar integralmente a ela pelo resto da vida. Eu pensava: trabalho é trabalho, é todo dia, é repetitivo, eu quero é ter a chance de não me entediar no meio do caminho.

Descobri (e descubro todo dia) na prática o que significa ter uma empresa. Eu e a Lu brincamos que somos tudo: de office boy a secretária, passando por telefonista, vendedora, gerente de crise. E fazemos tudo com um prazer tão grande! As dificuldades aparecem – tantas vezes! As incertezas, também. Mas o que conta muito mais é a alegria de acordar todo dia e trabalhar no que a gente gosta e acredita.

Quando soube que o Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, viria ao Brasil este mês, quis conversar com ele. Afinal, ele é autor do livro “Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida” (ed. Objetiva), título que traduz a vontade de ao menos 80% dos meus amigos e conhecidos no momento.

Todo mundo quer fazer o que ama, mas ainda tem dúvidas se troca o certo pelo incerto, se vai conseguir grana pra pagar as contas, se a saída é apostar no novo mesmo. Vivemos um momento de muita dúvida e de muito questionamento sobre o modelo de trabalho tradicional, em que a lógica do patrão é que você passe ao menos oito horas dando expediente, mesmo que muitos desses momentos sejam de procrastinação no Facebook.

Roman vem ao Brasil neste mês para dar um sermão dentro da programação da The School of Life no Brasil. O primeiro acontece no próximo domingo (22/9), às 11h, no Teatro Augusta, em São Paulo (os ingressos estão esgotados; há lista de espera). No dia 29/9, ele fala no Rio sobre empatia (ainda há ingressos). Ele também aproveita para lançar “Sobre a Arte de Viver” (ed. Zahar).

Em entrevista ao Don’t Touch, o filósofo australiano surpreende ao advogar contra a lógica tradicional de ser muito cuidadoso e fazer um planejamento detalhado antes de chutar o balde pra ir buscar o trabalho dos sonhos. “Em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir e, depois, pensar. Em outras palavras, comece a experimentar tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devemos ser completamente imprudentes e não nos preparar totalmente. Mas, se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.”

Leiam a entrevista completa logo abaixo. Foi um prazer conversar com um cara que tem respostas tão precisas sobre questões que nos rondam tanto! ♥

- Não sei se é porque fiz isso, mas nunca vi tanta gente querendo largar seus empregos tradicionais e querendo investir no trabalho dos sonhos. Esse movimento realmente está acontecendo no mundo?

Completamente. Esse movimento é um das grandes revoluções do nosso tempo. A insatisfação com o trabalho bateu níveis recordes nos Estados Unidos. Na Europa, cerca de 60% dos trabalhadores estão infelizes com seus empregos e gostariam de trocá-los. E isso se espalhou para o Brasil também. Aqui vai uma estatística maravilhosa: em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Hoje esse número aumentou para 56%

- O que as pessoas precisam fazer quando tomam essa decisão? É preciso se preparar antes, fazer uma poupança, por exemplo?

A abordagem tradicional para trocar de emprego é ser muito cuidadoso e fazer muito planejamento. Preparar-se com antecedência, pesquisar possibilidades profissionais, fazer testes de personalidade, poupar dinheiro e procrastinar. Eu sou um defensor da abordagem oposta: em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir primeiro e pensar depois. Em outras palavras, comece a experimentar, tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devamos ser completamente imprudentes e não nos prepar totalmente. Mas se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.

- Outra coisa que percebo é que, hoje em dia, todo mundo tem um projeto paralelo, o que é ótimo, mas como é que esse projeto vai virar um trabalho de verdade, que dê dinheiro para pagar as contas?

Projetos paralelos são uma ótima maneira de trocar de emprego. Existe um mito de que para fazer a mudança a gente precisa entrar no trabalho na segunda de manhã e renunciar dramaticamente. Mas não. Em vez disso, tente manter o seu emprego existente e fazer o que eu chamo de “branching projects” (algo como projetos ramificados, como ensinar ioga em uma tarde de quinta-feira ou fazer um frila de webdesign no fim de semana. E o que você faz é gradualmente passar mais e mais tempo nos projetos paralelos que você gosta até que as duas coisas aconteçam. Uma, você percebe que você consegue ganhar o suficiente para pagar as contas. Dois, você criou a confiança necessária para mudar. Com projetos assim, pequenos passos levam a grandes resultados.

- Aliás, falando em dinheiro… Qual é a importância dele na equação de satisfação com o trabalho?

Ah, dinheiro! O dinheiro foi o maior motivador nos últimos 500 anos. Mas ao menos nas duas últimas décadas pesquisas mostram que ele está se tornando menos importante. Então o que importa para os trabalhadores hoje? Coisas como autonomia (ter liberdade para tomar as próprias decisões no trabalho e como usar o seu tempo) e respeito (sentir que é tratado como um indivíduo valioso, não um engrenagem na máquina). Claro que nós ainda precisamos ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas e alimentar nossos filhos, mas dinheiro está se tornando fora de moda como uma fonte de satisfação no trabalho.

- Quando falamos em buscar o trabalho dos sonhos, ninguém nos avisa que vai ser preciso encarar burocracias, aprender a fazer um plano de negócios. Você acha que existe mais idealização do que ação?

Você não deve pensar que ter um trabalho dos sonhos necessariamente vai ser fácil e só diversão. Trabalhos dos sonhos são, geralmente, extraordinariamente exigentes. Um século atrás, a cientista franco-polonesa Marie Curie, que ganhou dois prêmios Nobel por seu trabalho, encontrou seu trabalho dos sonhos fazendo pesquisas sobre radiação. Mas ela trabalhou extremamente duro. Hoje, seu trabalho dos sonhos pode exigir que você passe a noite acordado fazendo modelos de negócio. Felizmente, os seres humanos prosperam em desafios.

- Mesmo que seja o trabalho dos sonhos, trabalho é trabalho. O que a gente deve fazer para manter a empolgação sempre no alto?

Um pequeno conselho é tentar maximizar o fluxo na sua experiência. Fluxo é um conceito psicológico que envolve estar completamente presente e completamente absorvido em qualquer coisa que você esteja fazendo. É o que significa para os atletas quando eles dizem que estão “in the zone”. Como você entra nesta zona? Prepare tarefas para você que sejam desafiadoras e criativas, mas não tão desafiadoras que você se preocupe em falhar, e não tão fáceis a ponto de você ficar entediado. A excitação está justamente em ficar fora da sua zona de conforto.

- Existe realmente um trabalho dos sonhos ou temos que aprender a desdobrar nossos interesses para atender às demandas de um mercado que muda tanto e em que as vagas para algumas áreas vão ficando cada vez mais escassas?

Não acredito que exista um único trabalho dos sonhos esperando lá fora para que a gente o descubra. Nós temos múltiplos eus, muitas identidades, e diferentes trabalhos vão satisfazer diferentes partes do que somos em diferentes momentos das nossas vidas. Claro que faz sentido desenvolver habilidades quando o mercado de trabalho está ficando maior, e não menor. Mas depois tudo se resume a saber se você quer trabalhar como um meio para um fim (ganhar dinheiro) ou como um fim em si mesmo (encontrar sentido).

- Alguém da geração que tem 30 anos hoje vai se aposentar tradicionalmente, depois de completar 30 anos de carreira? Ou vai ser mais corriqueiro ver as pessoas saltando de um trabalho para outro?

Meu pai trabalhou para a mesma empresa por 51 anos. Essa era já foi. Os trabalhadores de hoje estão trocando de trabalho, em média, a cada quatro anos. E como a nossa vida de trabalho vai aumentando (as pessoas estão se aposentando mais e mais tarde por conta de restrições financeiras), nós estamos suscetíveis a mudar de emprego várias vezes ao longo da vida.  Essa é mais uma razão para pensar muito sobre as melhores maneiras de fazer isso, e não apenas deixar-nos à deriva através de nossas vidas profissionais.

- O que a gente pode aprender com a história e com a evolução do trabalho?

Obrigada por perguntar isso, é um dos meus temas favoritos! No geral, a grande mudança história é do destino à escolha. Há poucos séculos, a maioria das pessoas tinham que trabalhar por uma questão de necessidade e destino – elas nasceram para ser um agricultor ou eram filhas de um escravo, então estavam destinadas à escravidão também. Hoje em dia, a maioria das pessoas (embora longe de todas) têm muito mais chances à sua frente. Antes do surgimento da industrialização, havia apenas cerca de 30 postos de trabalho padrão. Agora existem websites listando mais de 12.000. O problema é que fazer escolhas pode ser difícil.

- Quais são as perguntas que você mais costuma ouvir em relação ao tema? E aquelas que você adoraria responder, mas nunca te perguntam?

A pergunta que ouço mais frequentemente é se devemos procurar trabalhos pelo dinheiro ou pelo significado. E o que nunca me perguntam? Quase nunca me perguntam sobre o que nós podemos aprender com a história do trabalho. Mas você mudou isso!

- Como você encontrou o trabalho dos seus sonhos?

Tenho abordado minha vida de trabalho como um experimento. Fui um professor universitário, mas deixei de ser para virar um jardineiro profissional. Fui jornalista, mas mudei para tentar carpintaria. Também já atuei como professor de inglês, treinador de tênis e agente comunitário. No momento sou mais um escritor – e me sinto muito realizado fazendo isso. Mas espero ter coragem para mudar de novo – talvez quando meus interesses ou minhas paixões mudarem. Talvez minha visita ao Brasil neste mês vá me inspirar a treinar como um chef especializado em cozinha brasileira!

- Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no processo? E quais as maiores alegrias que você teve e tem até hoje?

O maior obstáculo têm sido as opiniões dos amigos, colegas e pares. Quando eu era um professor universitário, todo mundo que eu conhecia disse: “Como você pode deixar um grande trabalho em uma universidade? Você está louco!”. Quando eu era um jornalista todos disseram a mesma coisa. Mas, felizmente, eu ignorei os conselhos. Nosso grupo de pares forma nossa visão de mundo, e isso pode ser uma luta para mudar nossas mentes e fazer algo inesperado ou aparentemente insensível. Mas é aí que a emoção da vida está – no sentimento maravilhoso que você está fazendo a mudança, aproveitando as oportunidades, quebrando convenções e imerso em um estado radical de vitalidade.

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moon, de thiago pethit

por   /  17/09/2013  /  14:30

Cada vez mais o Thiago Pethit mostra como é um artista completo. Ele não apenas canta e compõe mas também inventa de transformar um videoclipe em um curta-metragem.

“MOON” é sua mais nova empreitada. É um clipe e é um filme, dirigido por Heitor Dhalia (de filmes como “À Deriva”, “O Cheiro do Ralo” e “Gone” e do aguardado “Serra Pelada”), com roteiro do próprio Thiago e da Vera Egito.

Filmado em São Paulo, “MOON” conta a história de um jovem casal que vê a paixão dar lugar a surpresa, ciúme e confusão quando a menina descobre que seu namorado é garoto de programa. Cenas quentíssimas se misturam ao submundo paulistano, com figurinos inspirados nos anos 1990 e em ícones como Joe Dallesandro, um dos musos de Andy Warhol.

Vejam o clipe! ♥

Em entrevista ao Don’t Touch, Pethit conta mais sobre “MOON”:

- Como foi que vocês tiveram a idéia pra ele? E como foi ser roteirista também?

Nos encontramos diversas vezes ao longo do ano para conversarmos, eu, Heitor e Vera Egito, sobre o que seria o vídeo-clipe-filme de “MOON”. Primeiro surgiram os lobos. Depois foi a temáticoAdos garotos perdidos e, por fim, a questão do triângulo amoroso e da vida desses meninos. Fomos juntando ideias e cenas nas conversas e, ao fim, escrevi um pequeno conto amarrando tudo isso às mensagens que serviriam de argumento pra Vera reescrever e transformar aquilo num roteiro de verdade.

Não é a primeira vez que me “intrometo” no roteiro, sempre o fiz de algum jeito. Mas, dessa vez, foi mais sério e ainda mais prazeroso.

- Você filmaram onde?

Filmamos em quatro locações diferentes, sempre em busca de fugir dos clichês sobre as história da cidade de SP que já conhecemos. A locação principal foi a entrada do viaduto Minhocão, por debaixo da Praça Roosevelt. Depois, o topo do Edíficio Planalto, um apartamento no mesmo prédio e um motel no centro da cidade.

- E como chegaram nesse casting?

O casting foi uma colaboração dos queridos Edu Piva e Carminha, da ETC Elenco, para construir os personagens coadjuvantes e a maravilhosa atriz Nara Chaib, que interpreta a garota principal do triângulo. Os dois garotos principais, Lucas Veríssimo e Vini Uehara, foram descobertas feitas através do Facebook, por indicações e entre milhares de trocas inbox até o dia da entrevista com o Heitor, que selecionou o elenco, junto com a Kity Féo (a incrível assistente de direção) e eu.

As fotos que ilustram esse post são do Gianfranco Briceño.

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várias vidas na brevida de juliana amato

por   /  21/05/2013  /  17:01

Juliana Amato, 25, escreveu um dos melhores livros de estréia que já li, o “Brevida”. Gosto de surpresa, de não saber o que eu vou encontrar quando viro a página, e ela me deixou sem acreditar no que ia lendo quando inventou Crianço, a Mamãe Biscate, a Assistente Social e depois os juntou em contextos inimagináveis.

O jeito como ela escreve surpreende, incomoda, deixa a gente querendo mais. Se fosse um filme, ia precisar de continuação, por mais que elas sejam sempre arriscadas, na vida e na ficção.

Como o livro é curto, 65 páginas, o fim da leitura deixou aquela sensação de “e agora?”,  logo resolvida com o Google, que me levou ao blog dela, o Microclima.

Depois de devorá-lo, passei a ter o comportamento normal de quem acompanha blogs e fui lendo os posts na medida em que eles apareciam. Surgiram alguns intitulados Diário Aleatório. Um tempo depois, ela falou que o diário seria lançado na Feira Plana, que aconteceu em abril no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

Em vez de papel, desta vez ela fez um site com os trechos do diário, que é “uma coleção de dia estranhos”, desses que a gente entende mais profundamente do que queria.

Ainda na vontade de ler mais coisas que ela escreve, fiz uma entrevista. Espero que vocês leiam e, também, comprem o livro, que é excelente! ♥

- Quando você descobriu que queria escrever?

Juliana Amato: Eu não sei muito bem. Na verdade, fazendo um pouco de charme, rs, acho que ainda nem descobri isso. Mas lembro bem de uma vez que escrevi dois poemas – eu devia ter uns 15 anos – que achei muito bonitos. Eu fiquei muito orgulhosa deles e saí mostrando para alguns amigos. Acho que, depois desses dois poemas – que eu nem sei de onde vieram – eu não parei. Comecei a freqüentar grupos, jornais independentes, cursos.

Antes disso, talvez minha mente escritora já pirava com as Barbies. Eu criava muita historinha.

E minha família sempre diz que, bem antes de saber ler, com um aninho, dois, sei lá, eu pegava os livros e ficava inventando historinhas com base nas figuras. Acho que toda criança faz isso, né? Mas, sabe como é, mãe é mãe.

- Você escreveu o “Brevida” para o concurso da Edith [editora que tem entre seus criadores o escritor Marcelino Freire] ou ele já tava pronto antes?

Já estava pronto. Eu escrevi ele logo que pedi demissão do restaurante [onde foi garçonete]. Daí até chegar o concurso passou, mais ou menos, um ano, um ano e meio. Eu ficava só mandando pra um monte de amigo.

- Você ganhou um concurso disputado, o Só Escritoras [feito pela Edith em 2011]. Imaginava?

Não imaginava. Porque era um concurso para mulheres, e eu não acho assim o “Brevida” muitomulher. Por um lado, pensei: “isso pode me diferenciar”, mas, por outro, achei que o monte de palavrão e o tema, meio delicado, poderiam fazer o “Brevida” ser desclassificado rapidão.

- De onde veio o Crianço?

Ah. Eu sei dizer exatamente de onde veio a Mamãe Biscate, mas o Crianço… Bem, ele veio do nome dele. Um dia eu pensei que o masculino de criança é crianço. Aí, logo em seguida, pensei que esse era um nome muito legal prum personagem. Mas como seria esse personagem chamado Crianço? Aí ele foi vindo…

- E a Mamãe Biscate então?

A Mamãe Biscate veio de observar algumas clientes que frequentavam o restaurante. Sabe aquelas mulheres mais maduras, meio malhadas, com luzes, perfume forte e superchiques, anéis e tal? Então.

Elas iam lá com seus esposos, de camisa polo e mocassins sem meia. Daí olhando para elas um dia eu pensei “Mamãe Biscate”.

- Quais são suas referências e influências? E o que você tá lendo agora?

Acredito que os textos que mais me impressionaram foram “O Monstro” e “As cartas não mentem jamais”, os dois do Sérgio Sant’anna. Acho incrível a atmosfera que ele cria. E Ana Cristina Cesar, e Hilda Hilst. Gosto dessas mulheres intensas e obsessivas com as palavras, com a comunicação.

Agora agora eu estou mais vendo. Descobri que gosto muito de escrever pensando em cenas, em situações – atmosfera. E gosto muito de cinema e de TV. Gosto do Eric Rohmer pelos temas, e pela construção da relação entre os personagens, ambígua. Gosto da Lucrecia Martel pela maneira como ela prende os personagens, como se eles não pudessem estar fazendo outra coisa, ou melhor – como se não houvesse nada a fazer. Gosto do Woody Allen, porque ele é engraçado demais, captando o ridículo de si mesmo, de nós mesmos. Gosto da Lena Dunham (descobri “Girls” e viciei), porque acho ela muito muito sincera. E da Miranda July, pelo inesperado.

De livros, gostei muito do “Hotel Mundo”, da Ali Smith, que li ultimamente. E também do “A Visita cruel do tempo”, da Jennifer Egan. E da Verônica Stigger e da Angélica Freitas. Putz, tudo mulher.

- Já fez outro depois do “Brevida”?

Não. Tenho me juntado com muita gente pra criar coisas junto, e participado de coletâneas e tal. Fiz o Diário Aleatório com a Thany Sanches e um livretinho chamado “Jo Quem Pô para Adultos”, com o Nelson Provazi. Mas tenho outras coisas em andamento, tudo no meio de uma multidãozinha.

Eu até já tenho um livro em mente, que quero muito escrever. Mas acho que ele só vai ficar pronto quando eu tiver uns 50, 60 anos. O tema é muito delicado.

- Qual é?

Não quero falar o tema, porque senão não acontece. Só digo que é sobre: casais – que, ok, já descobri e assumo, é uma leve obsessão.

- E o Diário Aleatório? Como os posts viraram o site?

Eu fui escrevendo dia a dia e ia colocar no Microclima. Mas pensei que eles poderiam se perder muito ali, já que fazem parte de uma coisa só, e o blog não iria reunir essa “coisa só”. Então sentei com a Thany e pensamos nisso. Em não ser linear, cronológico, em juntar com imagens que traduzissem esses textos. Ela foi a responsável por todas as montagens de texto com as fotos, que ficaram lindas. Eu só coloquei minha caligrafia. Lançamos pela cuco, um “coletivo editorial cinematográfico” que estamos montando. Foi bem esquisito ver todo mundo lendo esses textos e “curtindo”, mas foi muito importante escrevê-los.

- Você vive ou espera viver da sua literatura? Nesse meio tempo, você trabalha com literatura de alguma forma? Ou em uma coisa completamente diferente?

Não vivo dela, e não sei se espero viver dela um dia. Ainda não consigo imaginar ainda ficar escrevendo com prazo, com tema, com “compromisso”. Gosto muito de escrever e faço isso sempre que posso, penso em textos o dia todo, e gosto que isso seja um prazer.

No momento eu trabalho com edição de texto, tradução, revisão. E estudo roteiro. Não tem como fugir do texto.

[Juliana se formou em Letras pela USP, em 2010]

- Você escreve mais e/ou melhor quando tá feliz ou triste?

Quando eu estou.

- Quando você coloca um livro no mundo, espera o quê?

Não só com livros, mas qualquer novo texto que eu coloco no Microclima (ou mesmo na timeline do Facebook, rs). Bem, eu espero que as pessoas leiam, que gostem – claro – e que se sintam alguma sensação nova, diferente – que sintam uma possibilidade, talvez.

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as colagens de manuela eichner e zé vicente

por   /  28/02/2013  /  10:39

“Vi teu nome num peixe” é uma série de 13 colagens feitas por Manuela Eichner e Zé Vicente, artistas plásticos lindos e talentosos! ♥

Usando revistas velhas de acervo pessoal e encontradas em sebos, os dois criaram um poema visual. As imagens compõem um mural de 20 metros por 2,10 metros, que também ganhou pinturas dos dois – formas e fundos de cor, como o rosa e o amarelo.

A exposição foi criada para o eStônia, novo espaço do restaurante Ramona, no centro de São Paulo. A abertura acontece no próximo sábado (2/3), a partir das 19h, e eu vou colocar umas músicas por lá! Vamos? https://www.facebook.com/events/268890229909972/

Pra saber mais sobre esses dois queridos e sobre o trabalho que eles apresentam a partir de sábado, fiz uma mini-entrevista, que vocês lêem logo após a foto deles em plena montagem!

- Quando vocês começaram a fazer colagens? E quando se juntaram?

Zé Vicente: Comecei aos 7 anos com figurinhas de chiclet que ilustravam as notícias de um jornal independente. Ironicamente, mais de 20 anos depois, passei a fazer colagens para a Folha de SP.

Manuela Eichner: Desde que cheguei em São Paulo em 2009, comecei a usar a colagem e nos últimos dois anos tenho me dedicado totalmente a esta
linguagem. Juntos já colaboramos no coletivo de arte Mergulho (2006) em Porto Alegre, e depois nos cruzamos pelo caminho do design gráfico e ilustração da Folha de SP. Neste ano optamos em trabalhar mais com o que amamos e acreditamos e esta série concretiza esta decisão.

- Como é o processo de criar uma colagem? E ainda mais uma mega-colagem? Que materiais vocês usam, de onde vocês pegam, em quem vocês se inspiram?

Manuela Eichner: O processo de seleção de imagem para recortar é uma comunicação de outra ordem. Uma maneira de se deslocar um pouco de uma linguagem já conhecida, tem um quê surrealista. Recortar uma imagem e interferir no dialogo que ela passa a ter com outras é transformador. “Vi teu nome num peixe” foi a primeira experiência de colagem em dupla e em grande dimensão pra ambos, e foi foda! Pensar no tamanho pequeno e grande ao mesmo tempo, protótipo e real, medidas, arranjo, é como montar uma narrativa. E a descoberta de recortar gigante e aplicar as colagens na parede precisaram de muito mais esforço. Usamos revistas de arquivos pessoais e que compramos em sebos da cidade. Procuramos para esta série muita textura de revistas antigas onde encontramos corpos e posturas de outras épocas. O que nos inspirou muito para esta série foi pensar na transformação, no movimento, na paixão, no sentimento de que o fim é iminente e por isto misturamos imagens de pessoas com imagens da natureza, como a de fenômeno bem presente em São Paulo, o Raio.

Zé Vicente: Criar uma colagem em dupla é como compor uma canção (com melodia, harmonia e letra) onde cada um faz um pouco de tudo. A escolha das imagens (em revistas, livros, etc.), como ela é recortada, a associação entre elas. Tudo influencia no resultado final. Depois de “agrupados” e bem posicionados, fotografamos e scaneamos cada recorte. No caso desta obra, optamos por imprimi-las em vinil fosco (adesivo) e pintar fundo e formas de cor.

- E na hora que vocês colocam os trabalhos no mundo, o que vocês esperam?

Instigar, provocar e criar o desejo de enxergar além das formas prontas e fechadas de veiculação de imagens. Esperamos ouvir diferentes interpretacões, visões e sentimentos que as pessoas dividem neste tipo de compartilhamento. Aprender e encontrar novas descobertas para os próximos projetos.

 

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entrevista da contente pra florista

por   /  06/09/2012  /  10:37

Sabe uma daquelas entrevistas que a gente adora responder? Eu e a Lu falamos da Contente e dos nossos projetos para o site d’A Florista, que é bem lindo!

Aqui, um trechinho:

Elas concretizaram o sonho de trabalhar com o que amam e serem felizes. A jornalista pernambucana Daniela Arrais (@daniarrais) e a publicitária mineira Luiza Voll (@luizavoll) são sócias e idealizadoras da Contente, empresa que desenvolve projetos que rapidamente viram hit na internet. Uma das iniciativas de mais sucesso da dupla é o Instamission, projeto colaborativo que utiliza o Instagram e, há pouco mais de um ano, lança semanalmente um desafio para os usuários do aplicativo. Outro projeto dessas meninas empreendedoras é o recém-lançado Autoajuda do Dia, que utiliza o Pinterest como plataforma. “Estamos apaixonadas!” O talento para identificar tendências, transformá-las em projetos fofos, interessantes e, principalmente, capazes de alavancar recursos que já permitem que a Dani e a Lu vivam contentes despertou nossa curiosidade. E para inspirar caminhos criativos aos nossos leitores que querem empreender, se aventurar e se dedicar ao que realmente amam fazer, fomos conversar com as duas. Elas gentilmente compartilharam suas histórias e um monte de dicas boas. Aproveitem!

Leiam a entrevista! > http://www.aflorista.com.br/as-rosas-falam/meninas-contente

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rooney é mara

por   /  02/02/2012  /  10:08

Entrevistei a Rooney Mara, a Lisbeth Salander da trilogia “Millenium”, no ano passado. O texto saiu na Serafina, da Folha de S.Paulo, de janeiro!

Rooney é mara!

Lembra da menina que deu o fora em Mark ZuckerbeRg em “A Rede Social”? Agora ela é Lisbeth Salander, da saga “millenium”, versão Hollywood

Por Daniela Arrais, de Nova York

Um dos grandes prazeres de ler um livro comprado por Hollywood antes de o filme ser lançado é imaginar quem você gostaria de ver em cada papel.

Com o best-seller “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” é ainda mais divertido porque o autor, o sueco Stieg Larsson, inventou tipos como Lisbeth Salander, uma hacker de 24 anos, cheia de piercings e tatuagens, supersexual, vulnerável e vingativa.

Numa manhã de fim de verão, em Nova York, a melhor tradução da Lisbeth Salander do livro se personificou na minha frente, na pele da atriz Rooney Mara, 26. Ainda com o corte de cabelo assimétrico e roupas que pertenceriam facilmente à personagem (menos as sobrancelhas descoloridas), a atriz incorporou a fala, os gestos contidos e os trejeitos de Lisbeth.

“O filme mudou a maneira como eu me visto”, disse. “Antes eu era mais ‘girlie’, romântica, feminina, usava mais vestidos. Mas gostei da praticidade de colocar uma calça, uma bota e uma camiseta. Gostei de ser um menino em 2011.”

Ser Lisbeth Salander significa não só uma mudança no visual, que a atriz vai ter que carregar por alguns anos (a Sony Pictures divulgou que fará outros dois filmes), mas em sua carreira. Até então,

Rooney Mara tinha participado de um remake de “A Hora do Pesadelo”, fez um papel pequeno em “A Rede Social” e só. Foi aí que conheceu o diretor David Fincher (“Zodíaco”), de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”.

Ser praticamente desconhecida a favoreceu. “Uma das razões pelas quais as pessoas gostam tanto dessa personagem é porque ela é um mistério, um enigma”, aposta a intérprete.

SUCESSO PÓSTUMO

O filme é a adaptação para o cinema do primeiro livro da trilogia “Millenium” (nome da revista editada pelo protagonista Mikael Blomkvist), escrita por Stieg Larsson. Ele morreu de infarto aos 50 anos, em novembro de 2004, sem desfrutar do sucesso dos livros -o primeiro, “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, foi publicado em 2005. A trilogia tem ainda os títulos “A Menina Que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar” e já vendeu mais de 50 milhões de exemplares no mundo todo, 338 mil deles no Brasil.

A história começa nos anos 1960, quando a sobrinha de um empresário rico desaparece. O corpo nunca é encontrado e o tio acredita que o crime foi cometido por alguém da família. Contrata o jornalista Mikael Blomkvist (vivido por Daniel Craig), para a investigação.

Mikael se alia a Lisbeth, uma hacker reclusa, bissexual e muito arredia, que esconde por trás do jeito punk de adolescente uma inteligência e uma frieza fora do comum. Entre muito suspense e violência, começa um romance entre os dois investigadores de ocasião.

DRAGÃO TATUADO

A trilogia “Millenium” fez de Stieg Larsson um dos autores mais vendidos do mundo, e a saga do jornalista e da hacker viraram filmes e seriado de TV na Suécia antes de Hollywood pegar carona.

Na versão europeia, o título do primeiro livro foi mantido, “A Garota com Tatuagem de Dragão”, e a atriz sueca Noomi Rapace fez o papel de Lisbeth. Sua interpretação é considerada um dos pontos altos dos filmes. “Stieg foi corajoso, escreveu sobre assuntos que gostamos de ignorar. Na Suécia, todo mundo tem essa superfície perfeita, é educado e controla seus sentimentos”, disse Noomi ao jornal inglês “Daily Telegraph”.

Assim que surgiu a notícia sobre o remake hollywoodiano com novo elenco, Noomi Rapace foi fina: “David Fincher é um grande diretor, deve ter feito uma boa escolha”, afirmou ao jornal “LA Times”.

A nova adaptação é ambiciosa. A ideia é que vire um sucesso como a série “Harry Potter” ou a saga “Crepúsculo”, mas voltada para adultos com estômago forte. “Acho que vai ter muita controvérsia, mas isso não é ruim”, diz Rooney.

Na vida real, o drama continua. A viúva do escritor, Eva Gabrielsson, 57, anunciou que possui mais de 200 páginas inéditas de um quarto volume da série. Ela disputa na Justiça os direitos sobre a obra do marido, um milionário póstumo. Pelas leis da Suécia, como ela não era legalmente casada com o escritor, não recebe nada. Sem testamento nem filhos, os direitos acabam indo para o pai e para o irmão do autor, que tentam um acordo com ela.

Eva escreveu um livro de memórias, “Millennium, Stieg and Me” (Millenium, Stieg e eu), em que diz que “Lisbeth se liberta aos poucos de seus fantasmas e inimigos”. Em entrevistas, afirma que pode terminar o quarto volume, já que frequentemente escrevia com o marido.

UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

Em Nova York, Rooney conta que, desde que começou a treinar para viver Lisbeth Salander, sua vida parece cada vez menos real. “Me senti sugada física e emocionalmente.”

Antes de atuar no cinema, a garota nascida em Bedford, Nova York, em uma família milionária, dona de dois times de futebol americano (entre eles o New York Giants), estudou psicologia, fez cursos sobre organizações sem fins lucrativos e viajou pelo mundo. “É bom ter outras coisas na vida pela qual você é apaixonado.”

E, apesar da pouca experiência sob os holofotes, já sabe que o melhor lugar para uma atriz é longe deles. “Quanto menos as pessoas sabem sobre um intérprete, mais acreditam nos personagens que ele escolhe.”

Até aqui, pelo menos, a atriz parece estar no caminho certo para conquistar os fãs de uma dose de mistério.

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