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como encontrar o trabalho da sua vida, por roman krznaric

por   /  18/09/2013  /  10:15

Há quase um ano, troquei a certeza de um emprego com carteira assinada em uma empresa de prestígio pela aventura de me dedicar 100% ao meu próprio negócio – a Contente, empresa de projetos pra internet que faço com a minha amada sócia Luiza Voll há quase três anos.

Sempre achei que fosse fazer duas coisas na vida profissional. Nunca me identifiquei com o discurso de quem falava que tinha encontrado sua vocação e queria se dedicar integralmente a ela pelo resto da vida. Eu pensava: trabalho é trabalho, é todo dia, é repetitivo, eu quero é ter a chance de não me entediar no meio do caminho.

Descobri (e descubro todo dia) na prática o que significa ter uma empresa. Eu e a Lu brincamos que somos tudo: de office boy a secretária, passando por telefonista, vendedora, gerente de crise. E fazemos tudo com um prazer tão grande! As dificuldades aparecem – tantas vezes! As incertezas, também. Mas o que conta muito mais é a alegria de acordar todo dia e trabalhar no que a gente gosta e acredita.

Quando soube que o Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, viria ao Brasil este mês, quis conversar com ele. Afinal, ele é autor do livro “Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida” (ed. Objetiva), título que traduz a vontade de ao menos 80% dos meus amigos e conhecidos no momento.

Todo mundo quer fazer o que ama, mas ainda tem dúvidas se troca o certo pelo incerto, se vai conseguir grana pra pagar as contas, se a saída é apostar no novo mesmo. Vivemos um momento de muita dúvida e de muito questionamento sobre o modelo de trabalho tradicional, em que a lógica do patrão é que você passe ao menos oito horas dando expediente, mesmo que muitos desses momentos sejam de procrastinação no Facebook.

Roman vem ao Brasil neste mês para dar um sermão dentro da programação da The School of Life no Brasil. O primeiro acontece no próximo domingo (22/9), às 11h, no Teatro Augusta, em São Paulo (os ingressos estão esgotados; há lista de espera). No dia 29/9, ele fala no Rio sobre empatia (ainda há ingressos). Ele também aproveita para lançar “Sobre a Arte de Viver” (ed. Zahar).

Em entrevista ao Don’t Touch, o filósofo australiano surpreende ao advogar contra a lógica tradicional de ser muito cuidadoso e fazer um planejamento detalhado antes de chutar o balde pra ir buscar o trabalho dos sonhos. “Em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir e, depois, pensar. Em outras palavras, comece a experimentar tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devemos ser completamente imprudentes e não nos preparar totalmente. Mas, se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.”

Leiam a entrevista completa logo abaixo. Foi um prazer conversar com um cara que tem respostas tão precisas sobre questões que nos rondam tanto! ♥

- Não sei se é porque fiz isso, mas nunca vi tanta gente querendo largar seus empregos tradicionais e querendo investir no trabalho dos sonhos. Esse movimento realmente está acontecendo no mundo?

Completamente. Esse movimento é um das grandes revoluções do nosso tempo. A insatisfação com o trabalho bateu níveis recordes nos Estados Unidos. Na Europa, cerca de 60% dos trabalhadores estão infelizes com seus empregos e gostariam de trocá-los. E isso se espalhou para o Brasil também. Aqui vai uma estatística maravilhosa: em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Hoje esse número aumentou para 56%

- O que as pessoas precisam fazer quando tomam essa decisão? É preciso se preparar antes, fazer uma poupança, por exemplo?

A abordagem tradicional para trocar de emprego é ser muito cuidadoso e fazer muito planejamento. Preparar-se com antecedência, pesquisar possibilidades profissionais, fazer testes de personalidade, poupar dinheiro e procrastinar. Eu sou um defensor da abordagem oposta: em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir primeiro e pensar depois. Em outras palavras, comece a experimentar, tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devamos ser completamente imprudentes e não nos prepar totalmente. Mas se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.

- Outra coisa que percebo é que, hoje em dia, todo mundo tem um projeto paralelo, o que é ótimo, mas como é que esse projeto vai virar um trabalho de verdade, que dê dinheiro para pagar as contas?

Projetos paralelos são uma ótima maneira de trocar de emprego. Existe um mito de que para fazer a mudança a gente precisa entrar no trabalho na segunda de manhã e renunciar dramaticamente. Mas não. Em vez disso, tente manter o seu emprego existente e fazer o que eu chamo de “branching projects” (algo como projetos ramificados, como ensinar ioga em uma tarde de quinta-feira ou fazer um frila de webdesign no fim de semana. E o que você faz é gradualmente passar mais e mais tempo nos projetos paralelos que você gosta até que as duas coisas aconteçam. Uma, você percebe que você consegue ganhar o suficiente para pagar as contas. Dois, você criou a confiança necessária para mudar. Com projetos assim, pequenos passos levam a grandes resultados.

- Aliás, falando em dinheiro… Qual é a importância dele na equação de satisfação com o trabalho?

Ah, dinheiro! O dinheiro foi o maior motivador nos últimos 500 anos. Mas ao menos nas duas últimas décadas pesquisas mostram que ele está se tornando menos importante. Então o que importa para os trabalhadores hoje? Coisas como autonomia (ter liberdade para tomar as próprias decisões no trabalho e como usar o seu tempo) e respeito (sentir que é tratado como um indivíduo valioso, não um engrenagem na máquina). Claro que nós ainda precisamos ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas e alimentar nossos filhos, mas dinheiro está se tornando fora de moda como uma fonte de satisfação no trabalho.

- Quando falamos em buscar o trabalho dos sonhos, ninguém nos avisa que vai ser preciso encarar burocracias, aprender a fazer um plano de negócios. Você acha que existe mais idealização do que ação?

Você não deve pensar que ter um trabalho dos sonhos necessariamente vai ser fácil e só diversão. Trabalhos dos sonhos são, geralmente, extraordinariamente exigentes. Um século atrás, a cientista franco-polonesa Marie Curie, que ganhou dois prêmios Nobel por seu trabalho, encontrou seu trabalho dos sonhos fazendo pesquisas sobre radiação. Mas ela trabalhou extremamente duro. Hoje, seu trabalho dos sonhos pode exigir que você passe a noite acordado fazendo modelos de negócio. Felizmente, os seres humanos prosperam em desafios.

- Mesmo que seja o trabalho dos sonhos, trabalho é trabalho. O que a gente deve fazer para manter a empolgação sempre no alto?

Um pequeno conselho é tentar maximizar o fluxo na sua experiência. Fluxo é um conceito psicológico que envolve estar completamente presente e completamente absorvido em qualquer coisa que você esteja fazendo. É o que significa para os atletas quando eles dizem que estão “in the zone”. Como você entra nesta zona? Prepare tarefas para você que sejam desafiadoras e criativas, mas não tão desafiadoras que você se preocupe em falhar, e não tão fáceis a ponto de você ficar entediado. A excitação está justamente em ficar fora da sua zona de conforto.

- Existe realmente um trabalho dos sonhos ou temos que aprender a desdobrar nossos interesses para atender às demandas de um mercado que muda tanto e em que as vagas para algumas áreas vão ficando cada vez mais escassas?

Não acredito que exista um único trabalho dos sonhos esperando lá fora para que a gente o descubra. Nós temos múltiplos eus, muitas identidades, e diferentes trabalhos vão satisfazer diferentes partes do que somos em diferentes momentos das nossas vidas. Claro que faz sentido desenvolver habilidades quando o mercado de trabalho está ficando maior, e não menor. Mas depois tudo se resume a saber se você quer trabalhar como um meio para um fim (ganhar dinheiro) ou como um fim em si mesmo (encontrar sentido).

- Alguém da geração que tem 30 anos hoje vai se aposentar tradicionalmente, depois de completar 30 anos de carreira? Ou vai ser mais corriqueiro ver as pessoas saltando de um trabalho para outro?

Meu pai trabalhou para a mesma empresa por 51 anos. Essa era já foi. Os trabalhadores de hoje estão trocando de trabalho, em média, a cada quatro anos. E como a nossa vida de trabalho vai aumentando (as pessoas estão se aposentando mais e mais tarde por conta de restrições financeiras), nós estamos suscetíveis a mudar de emprego várias vezes ao longo da vida.  Essa é mais uma razão para pensar muito sobre as melhores maneiras de fazer isso, e não apenas deixar-nos à deriva através de nossas vidas profissionais.

- O que a gente pode aprender com a história e com a evolução do trabalho?

Obrigada por perguntar isso, é um dos meus temas favoritos! No geral, a grande mudança história é do destino à escolha. Há poucos séculos, a maioria das pessoas tinham que trabalhar por uma questão de necessidade e destino – elas nasceram para ser um agricultor ou eram filhas de um escravo, então estavam destinadas à escravidão também. Hoje em dia, a maioria das pessoas (embora longe de todas) têm muito mais chances à sua frente. Antes do surgimento da industrialização, havia apenas cerca de 30 postos de trabalho padrão. Agora existem websites listando mais de 12.000. O problema é que fazer escolhas pode ser difícil.

- Quais são as perguntas que você mais costuma ouvir em relação ao tema? E aquelas que você adoraria responder, mas nunca te perguntam?

A pergunta que ouço mais frequentemente é se devemos procurar trabalhos pelo dinheiro ou pelo significado. E o que nunca me perguntam? Quase nunca me perguntam sobre o que nós podemos aprender com a história do trabalho. Mas você mudou isso!

- Como você encontrou o trabalho dos seus sonhos?

Tenho abordado minha vida de trabalho como um experimento. Fui um professor universitário, mas deixei de ser para virar um jardineiro profissional. Fui jornalista, mas mudei para tentar carpintaria. Também já atuei como professor de inglês, treinador de tênis e agente comunitário. No momento sou mais um escritor – e me sinto muito realizado fazendo isso. Mas espero ter coragem para mudar de novo – talvez quando meus interesses ou minhas paixões mudarem. Talvez minha visita ao Brasil neste mês vá me inspirar a treinar como um chef especializado em cozinha brasileira!

- Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no processo? E quais as maiores alegrias que você teve e tem até hoje?

O maior obstáculo têm sido as opiniões dos amigos, colegas e pares. Quando eu era um professor universitário, todo mundo que eu conhecia disse: “Como você pode deixar um grande trabalho em uma universidade? Você está louco!”. Quando eu era um jornalista todos disseram a mesma coisa. Mas, felizmente, eu ignorei os conselhos. Nosso grupo de pares forma nossa visão de mundo, e isso pode ser uma luta para mudar nossas mentes e fazer algo inesperado ou aparentemente insensível. Mas é aí que a emoção da vida está – no sentimento maravilhoso que você está fazendo a mudança, aproveitando as oportunidades, quebrando convenções e imerso em um estado radical de vitalidade.

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moon, de thiago pethit

por   /  17/09/2013  /  14:30

Cada vez mais o Thiago Pethit mostra como é um artista completo. Ele não apenas canta e compõe mas também inventa de transformar um videoclipe em um curta-metragem.

“MOON” é sua mais nova empreitada. É um clipe e é um filme, dirigido por Heitor Dhalia (de filmes como “À Deriva”, “O Cheiro do Ralo” e “Gone” e do aguardado “Serra Pelada”), com roteiro do próprio Thiago e da Vera Egito.

Filmado em São Paulo, “MOON” conta a história de um jovem casal que vê a paixão dar lugar a surpresa, ciúme e confusão quando a menina descobre que seu namorado é garoto de programa. Cenas quentíssimas se misturam ao submundo paulistano, com figurinos inspirados nos anos 1990 e em ícones como Joe Dallesandro, um dos musos de Andy Warhol.

Vejam o clipe! ♥

Em entrevista ao Don’t Touch, Pethit conta mais sobre “MOON”:

- Como foi que vocês tiveram a idéia pra ele? E como foi ser roteirista também?

Nos encontramos diversas vezes ao longo do ano para conversarmos, eu, Heitor e Vera Egito, sobre o que seria o vídeo-clipe-filme de “MOON”. Primeiro surgiram os lobos. Depois foi a temáticoAdos garotos perdidos e, por fim, a questão do triângulo amoroso e da vida desses meninos. Fomos juntando ideias e cenas nas conversas e, ao fim, escrevi um pequeno conto amarrando tudo isso às mensagens que serviriam de argumento pra Vera reescrever e transformar aquilo num roteiro de verdade.

Não é a primeira vez que me “intrometo” no roteiro, sempre o fiz de algum jeito. Mas, dessa vez, foi mais sério e ainda mais prazeroso.

- Você filmaram onde?

Filmamos em quatro locações diferentes, sempre em busca de fugir dos clichês sobre as história da cidade de SP que já conhecemos. A locação principal foi a entrada do viaduto Minhocão, por debaixo da Praça Roosevelt. Depois, o topo do Edíficio Planalto, um apartamento no mesmo prédio e um motel no centro da cidade.

- E como chegaram nesse casting?

O casting foi uma colaboração dos queridos Edu Piva e Carminha, da ETC Elenco, para construir os personagens coadjuvantes e a maravilhosa atriz Nara Chaib, que interpreta a garota principal do triângulo. Os dois garotos principais, Lucas Veríssimo e Vini Uehara, foram descobertas feitas através do Facebook, por indicações e entre milhares de trocas inbox até o dia da entrevista com o Heitor, que selecionou o elenco, junto com a Kity Féo (a incrível assistente de direção) e eu.

As fotos que ilustram esse post são do Gianfranco Briceño.

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várias vidas na brevida de juliana amato

por   /  21/05/2013  /  17:01

Juliana Amato, 25, escreveu um dos melhores livros de estréia que já li, o “Brevida”. Gosto de surpresa, de não saber o que eu vou encontrar quando viro a página, e ela me deixou sem acreditar no que ia lendo quando inventou Crianço, a Mamãe Biscate, a Assistente Social e depois os juntou em contextos inimagináveis.

O jeito como ela escreve surpreende, incomoda, deixa a gente querendo mais. Se fosse um filme, ia precisar de continuação, por mais que elas sejam sempre arriscadas, na vida e na ficção.

Como o livro é curto, 65 páginas, o fim da leitura deixou aquela sensação de “e agora?”,  logo resolvida com o Google, que me levou ao blog dela, o Microclima.

Depois de devorá-lo, passei a ter o comportamento normal de quem acompanha blogs e fui lendo os posts na medida em que eles apareciam. Surgiram alguns intitulados Diário Aleatório. Um tempo depois, ela falou que o diário seria lançado na Feira Plana, que aconteceu em abril no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

Em vez de papel, desta vez ela fez um site com os trechos do diário, que é “uma coleção de dia estranhos”, desses que a gente entende mais profundamente do que queria.

Ainda na vontade de ler mais coisas que ela escreve, fiz uma entrevista. Espero que vocês leiam e, também, comprem o livro, que é excelente! ♥

- Quando você descobriu que queria escrever?

Juliana Amato: Eu não sei muito bem. Na verdade, fazendo um pouco de charme, rs, acho que ainda nem descobri isso. Mas lembro bem de uma vez que escrevi dois poemas – eu devia ter uns 15 anos – que achei muito bonitos. Eu fiquei muito orgulhosa deles e saí mostrando para alguns amigos. Acho que, depois desses dois poemas – que eu nem sei de onde vieram – eu não parei. Comecei a freqüentar grupos, jornais independentes, cursos.

Antes disso, talvez minha mente escritora já pirava com as Barbies. Eu criava muita historinha.

E minha família sempre diz que, bem antes de saber ler, com um aninho, dois, sei lá, eu pegava os livros e ficava inventando historinhas com base nas figuras. Acho que toda criança faz isso, né? Mas, sabe como é, mãe é mãe.

- Você escreveu o “Brevida” para o concurso da Edith [editora que tem entre seus criadores o escritor Marcelino Freire] ou ele já tava pronto antes?

Já estava pronto. Eu escrevi ele logo que pedi demissão do restaurante [onde foi garçonete]. Daí até chegar o concurso passou, mais ou menos, um ano, um ano e meio. Eu ficava só mandando pra um monte de amigo.

- Você ganhou um concurso disputado, o Só Escritoras [feito pela Edith em 2011]. Imaginava?

Não imaginava. Porque era um concurso para mulheres, e eu não acho assim o “Brevida” muitomulher. Por um lado, pensei: “isso pode me diferenciar”, mas, por outro, achei que o monte de palavrão e o tema, meio delicado, poderiam fazer o “Brevida” ser desclassificado rapidão.

- De onde veio o Crianço?

Ah. Eu sei dizer exatamente de onde veio a Mamãe Biscate, mas o Crianço… Bem, ele veio do nome dele. Um dia eu pensei que o masculino de criança é crianço. Aí, logo em seguida, pensei que esse era um nome muito legal prum personagem. Mas como seria esse personagem chamado Crianço? Aí ele foi vindo…

- E a Mamãe Biscate então?

A Mamãe Biscate veio de observar algumas clientes que frequentavam o restaurante. Sabe aquelas mulheres mais maduras, meio malhadas, com luzes, perfume forte e superchiques, anéis e tal? Então.

Elas iam lá com seus esposos, de camisa polo e mocassins sem meia. Daí olhando para elas um dia eu pensei “Mamãe Biscate”.

- Quais são suas referências e influências? E o que você tá lendo agora?

Acredito que os textos que mais me impressionaram foram “O Monstro” e “As cartas não mentem jamais”, os dois do Sérgio Sant’anna. Acho incrível a atmosfera que ele cria. E Ana Cristina Cesar, e Hilda Hilst. Gosto dessas mulheres intensas e obsessivas com as palavras, com a comunicação.

Agora agora eu estou mais vendo. Descobri que gosto muito de escrever pensando em cenas, em situações – atmosfera. E gosto muito de cinema e de TV. Gosto do Eric Rohmer pelos temas, e pela construção da relação entre os personagens, ambígua. Gosto da Lucrecia Martel pela maneira como ela prende os personagens, como se eles não pudessem estar fazendo outra coisa, ou melhor – como se não houvesse nada a fazer. Gosto do Woody Allen, porque ele é engraçado demais, captando o ridículo de si mesmo, de nós mesmos. Gosto da Lena Dunham (descobri “Girls” e viciei), porque acho ela muito muito sincera. E da Miranda July, pelo inesperado.

De livros, gostei muito do “Hotel Mundo”, da Ali Smith, que li ultimamente. E também do “A Visita cruel do tempo”, da Jennifer Egan. E da Verônica Stigger e da Angélica Freitas. Putz, tudo mulher.

- Já fez outro depois do “Brevida”?

Não. Tenho me juntado com muita gente pra criar coisas junto, e participado de coletâneas e tal. Fiz o Diário Aleatório com a Thany Sanches e um livretinho chamado “Jo Quem Pô para Adultos”, com o Nelson Provazi. Mas tenho outras coisas em andamento, tudo no meio de uma multidãozinha.

Eu até já tenho um livro em mente, que quero muito escrever. Mas acho que ele só vai ficar pronto quando eu tiver uns 50, 60 anos. O tema é muito delicado.

- Qual é?

Não quero falar o tema, porque senão não acontece. Só digo que é sobre: casais – que, ok, já descobri e assumo, é uma leve obsessão.

- E o Diário Aleatório? Como os posts viraram o site?

Eu fui escrevendo dia a dia e ia colocar no Microclima. Mas pensei que eles poderiam se perder muito ali, já que fazem parte de uma coisa só, e o blog não iria reunir essa “coisa só”. Então sentei com a Thany e pensamos nisso. Em não ser linear, cronológico, em juntar com imagens que traduzissem esses textos. Ela foi a responsável por todas as montagens de texto com as fotos, que ficaram lindas. Eu só coloquei minha caligrafia. Lançamos pela cuco, um “coletivo editorial cinematográfico” que estamos montando. Foi bem esquisito ver todo mundo lendo esses textos e “curtindo”, mas foi muito importante escrevê-los.

- Você vive ou espera viver da sua literatura? Nesse meio tempo, você trabalha com literatura de alguma forma? Ou em uma coisa completamente diferente?

Não vivo dela, e não sei se espero viver dela um dia. Ainda não consigo imaginar ainda ficar escrevendo com prazo, com tema, com “compromisso”. Gosto muito de escrever e faço isso sempre que posso, penso em textos o dia todo, e gosto que isso seja um prazer.

No momento eu trabalho com edição de texto, tradução, revisão. E estudo roteiro. Não tem como fugir do texto.

[Juliana se formou em Letras pela USP, em 2010]

- Você escreve mais e/ou melhor quando tá feliz ou triste?

Quando eu estou.

- Quando você coloca um livro no mundo, espera o quê?

Não só com livros, mas qualquer novo texto que eu coloco no Microclima (ou mesmo na timeline do Facebook, rs). Bem, eu espero que as pessoas leiam, que gostem – claro – e que se sintam alguma sensação nova, diferente – que sintam uma possibilidade, talvez.

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as colagens de manuela eichner e zé vicente

por   /  28/02/2013  /  10:39

“Vi teu nome num peixe” é uma série de 13 colagens feitas por Manuela Eichner e Zé Vicente, artistas plásticos lindos e talentosos! ♥

Usando revistas velhas de acervo pessoal e encontradas em sebos, os dois criaram um poema visual. As imagens compõem um mural de 20 metros por 2,10 metros, que também ganhou pinturas dos dois – formas e fundos de cor, como o rosa e o amarelo.

A exposição foi criada para o eStônia, novo espaço do restaurante Ramona, no centro de São Paulo. A abertura acontece no próximo sábado (2/3), a partir das 19h, e eu vou colocar umas músicas por lá! Vamos? https://www.facebook.com/events/268890229909972/

Pra saber mais sobre esses dois queridos e sobre o trabalho que eles apresentam a partir de sábado, fiz uma mini-entrevista, que vocês lêem logo após a foto deles em plena montagem!

- Quando vocês começaram a fazer colagens? E quando se juntaram?

Zé Vicente: Comecei aos 7 anos com figurinhas de chiclet que ilustravam as notícias de um jornal independente. Ironicamente, mais de 20 anos depois, passei a fazer colagens para a Folha de SP.

Manuela Eichner: Desde que cheguei em São Paulo em 2009, comecei a usar a colagem e nos últimos dois anos tenho me dedicado totalmente a esta
linguagem. Juntos já colaboramos no coletivo de arte Mergulho (2006) em Porto Alegre, e depois nos cruzamos pelo caminho do design gráfico e ilustração da Folha de SP. Neste ano optamos em trabalhar mais com o que amamos e acreditamos e esta série concretiza esta decisão.

- Como é o processo de criar uma colagem? E ainda mais uma mega-colagem? Que materiais vocês usam, de onde vocês pegam, em quem vocês se inspiram?

Manuela Eichner: O processo de seleção de imagem para recortar é uma comunicação de outra ordem. Uma maneira de se deslocar um pouco de uma linguagem já conhecida, tem um quê surrealista. Recortar uma imagem e interferir no dialogo que ela passa a ter com outras é transformador. “Vi teu nome num peixe” foi a primeira experiência de colagem em dupla e em grande dimensão pra ambos, e foi foda! Pensar no tamanho pequeno e grande ao mesmo tempo, protótipo e real, medidas, arranjo, é como montar uma narrativa. E a descoberta de recortar gigante e aplicar as colagens na parede precisaram de muito mais esforço. Usamos revistas de arquivos pessoais e que compramos em sebos da cidade. Procuramos para esta série muita textura de revistas antigas onde encontramos corpos e posturas de outras épocas. O que nos inspirou muito para esta série foi pensar na transformação, no movimento, na paixão, no sentimento de que o fim é iminente e por isto misturamos imagens de pessoas com imagens da natureza, como a de fenômeno bem presente em São Paulo, o Raio.

Zé Vicente: Criar uma colagem em dupla é como compor uma canção (com melodia, harmonia e letra) onde cada um faz um pouco de tudo. A escolha das imagens (em revistas, livros, etc.), como ela é recortada, a associação entre elas. Tudo influencia no resultado final. Depois de “agrupados” e bem posicionados, fotografamos e scaneamos cada recorte. No caso desta obra, optamos por imprimi-las em vinil fosco (adesivo) e pintar fundo e formas de cor.

- E na hora que vocês colocam os trabalhos no mundo, o que vocês esperam?

Instigar, provocar e criar o desejo de enxergar além das formas prontas e fechadas de veiculação de imagens. Esperamos ouvir diferentes interpretacões, visões e sentimentos que as pessoas dividem neste tipo de compartilhamento. Aprender e encontrar novas descobertas para os próximos projetos.

 

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entrevista da contente pra florista

por   /  06/09/2012  /  10:37

Sabe uma daquelas entrevistas que a gente adora responder? Eu e a Lu falamos da Contente e dos nossos projetos para o site d’A Florista, que é bem lindo!

Aqui, um trechinho:

Elas concretizaram o sonho de trabalhar com o que amam e serem felizes. A jornalista pernambucana Daniela Arrais (@daniarrais) e a publicitária mineira Luiza Voll (@luizavoll) são sócias e idealizadoras da Contente, empresa que desenvolve projetos que rapidamente viram hit na internet. Uma das iniciativas de mais sucesso da dupla é o Instamission, projeto colaborativo que utiliza o Instagram e, há pouco mais de um ano, lança semanalmente um desafio para os usuários do aplicativo. Outro projeto dessas meninas empreendedoras é o recém-lançado Autoajuda do Dia, que utiliza o Pinterest como plataforma. “Estamos apaixonadas!” O talento para identificar tendências, transformá-las em projetos fofos, interessantes e, principalmente, capazes de alavancar recursos que já permitem que a Dani e a Lu vivam contentes despertou nossa curiosidade. E para inspirar caminhos criativos aos nossos leitores que querem empreender, se aventurar e se dedicar ao que realmente amam fazer, fomos conversar com as duas. Elas gentilmente compartilharam suas histórias e um monte de dicas boas. Aproveitem!

Leiam a entrevista! > http://www.aflorista.com.br/as-rosas-falam/meninas-contente

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rooney é mara

por   /  02/02/2012  /  10:08

Entrevistei a Rooney Mara, a Lisbeth Salander da trilogia “Millenium”, no ano passado. O texto saiu na Serafina, da Folha de S.Paulo, de janeiro!

Rooney é mara!

Lembra da menina que deu o fora em Mark ZuckerbeRg em “A Rede Social”? Agora ela é Lisbeth Salander, da saga “millenium”, versão Hollywood

Por Daniela Arrais, de Nova York

Um dos grandes prazeres de ler um livro comprado por Hollywood antes de o filme ser lançado é imaginar quem você gostaria de ver em cada papel.

Com o best-seller “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” é ainda mais divertido porque o autor, o sueco Stieg Larsson, inventou tipos como Lisbeth Salander, uma hacker de 24 anos, cheia de piercings e tatuagens, supersexual, vulnerável e vingativa.

Numa manhã de fim de verão, em Nova York, a melhor tradução da Lisbeth Salander do livro se personificou na minha frente, na pele da atriz Rooney Mara, 26. Ainda com o corte de cabelo assimétrico e roupas que pertenceriam facilmente à personagem (menos as sobrancelhas descoloridas), a atriz incorporou a fala, os gestos contidos e os trejeitos de Lisbeth.

“O filme mudou a maneira como eu me visto”, disse. “Antes eu era mais ‘girlie’, romântica, feminina, usava mais vestidos. Mas gostei da praticidade de colocar uma calça, uma bota e uma camiseta. Gostei de ser um menino em 2011.”

Ser Lisbeth Salander significa não só uma mudança no visual, que a atriz vai ter que carregar por alguns anos (a Sony Pictures divulgou que fará outros dois filmes), mas em sua carreira. Até então,

Rooney Mara tinha participado de um remake de “A Hora do Pesadelo”, fez um papel pequeno em “A Rede Social” e só. Foi aí que conheceu o diretor David Fincher (“Zodíaco”), de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”.

Ser praticamente desconhecida a favoreceu. “Uma das razões pelas quais as pessoas gostam tanto dessa personagem é porque ela é um mistério, um enigma”, aposta a intérprete.

SUCESSO PÓSTUMO

O filme é a adaptação para o cinema do primeiro livro da trilogia “Millenium” (nome da revista editada pelo protagonista Mikael Blomkvist), escrita por Stieg Larsson. Ele morreu de infarto aos 50 anos, em novembro de 2004, sem desfrutar do sucesso dos livros -o primeiro, “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, foi publicado em 2005. A trilogia tem ainda os títulos “A Menina Que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar” e já vendeu mais de 50 milhões de exemplares no mundo todo, 338 mil deles no Brasil.

A história começa nos anos 1960, quando a sobrinha de um empresário rico desaparece. O corpo nunca é encontrado e o tio acredita que o crime foi cometido por alguém da família. Contrata o jornalista Mikael Blomkvist (vivido por Daniel Craig), para a investigação.

Mikael se alia a Lisbeth, uma hacker reclusa, bissexual e muito arredia, que esconde por trás do jeito punk de adolescente uma inteligência e uma frieza fora do comum. Entre muito suspense e violência, começa um romance entre os dois investigadores de ocasião.

DRAGÃO TATUADO

A trilogia “Millenium” fez de Stieg Larsson um dos autores mais vendidos do mundo, e a saga do jornalista e da hacker viraram filmes e seriado de TV na Suécia antes de Hollywood pegar carona.

Na versão europeia, o título do primeiro livro foi mantido, “A Garota com Tatuagem de Dragão”, e a atriz sueca Noomi Rapace fez o papel de Lisbeth. Sua interpretação é considerada um dos pontos altos dos filmes. “Stieg foi corajoso, escreveu sobre assuntos que gostamos de ignorar. Na Suécia, todo mundo tem essa superfície perfeita, é educado e controla seus sentimentos”, disse Noomi ao jornal inglês “Daily Telegraph”.

Assim que surgiu a notícia sobre o remake hollywoodiano com novo elenco, Noomi Rapace foi fina: “David Fincher é um grande diretor, deve ter feito uma boa escolha”, afirmou ao jornal “LA Times”.

A nova adaptação é ambiciosa. A ideia é que vire um sucesso como a série “Harry Potter” ou a saga “Crepúsculo”, mas voltada para adultos com estômago forte. “Acho que vai ter muita controvérsia, mas isso não é ruim”, diz Rooney.

Na vida real, o drama continua. A viúva do escritor, Eva Gabrielsson, 57, anunciou que possui mais de 200 páginas inéditas de um quarto volume da série. Ela disputa na Justiça os direitos sobre a obra do marido, um milionário póstumo. Pelas leis da Suécia, como ela não era legalmente casada com o escritor, não recebe nada. Sem testamento nem filhos, os direitos acabam indo para o pai e para o irmão do autor, que tentam um acordo com ela.

Eva escreveu um livro de memórias, “Millennium, Stieg and Me” (Millenium, Stieg e eu), em que diz que “Lisbeth se liberta aos poucos de seus fantasmas e inimigos”. Em entrevistas, afirma que pode terminar o quarto volume, já que frequentemente escrevia com o marido.

UMA VIDA MENOS ORDINÁRIA

Em Nova York, Rooney conta que, desde que começou a treinar para viver Lisbeth Salander, sua vida parece cada vez menos real. “Me senti sugada física e emocionalmente.”

Antes de atuar no cinema, a garota nascida em Bedford, Nova York, em uma família milionária, dona de dois times de futebol americano (entre eles o New York Giants), estudou psicologia, fez cursos sobre organizações sem fins lucrativos e viajou pelo mundo. “É bom ter outras coisas na vida pela qual você é apaixonado.”

E, apesar da pouca experiência sob os holofotes, já sabe que o melhor lugar para uma atriz é longe deles. “Quanto menos as pessoas sabem sobre um intérprete, mais acreditam nos personagens que ele escolhe.”

Até aqui, pelo menos, a atriz parece estar no caminho certo para conquistar os fãs de uma dose de mistério.

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don’t touch no jornal o tempo

por   /  15/12/2011  /  9:00

Saiu uma matéria sobre o Don’t Touch no jornal O Tempo!

Sabe aquele blog tão bacana que dá vontade de ter igual? Que quando o autor dá um tempo nos posts, você tem ímpetos de enviar um e-mail ou comentário pedindo “volta, vem viver outra vez ao meu lado?”. Pois se há uma página que cumpre esses requisitos é a Don´t touch my Moleskine (http://donttouchmymoleskine.com).

A descrição já prende o internauta acostumado em abrir e fechar janelas pela rede. “O Don’t Touch My Moleskine é um blog sobre amor, arte, design, fotografia, música e o que mais der na telha. Surgiu em setembro de 2007 e, desde então, reúne em posts diários tudo aquilo que é capaz de encher os olhos e o coração”.

A autora, Daniela Arrais, pernambucana radicada em São Paulo, tem um texto leve e gostoso de ler; além disso, pinça imagens lindas e inspiradoras. Ela indica outros blogs, flickrs e tumblrs que merecem ser favoritados. Ao contrário da negativa que o título possa sugerir, Dani divide com os internautas grandes ideias de seu moleskine.

Há sessões fixas que podem ser lidas e relidas, basta seguir pelas tags. Algumas das mais bacanas: “O que é o amor pra você hoje?” – uma série de vídeos sobre o tema -, as entrevistas descontraídas do “Cafofo Sessions”, “Mixtapes”.

O Don´t touch my Moleskine tem fan page no Facebook e o perfil da autora (@daniarrais ) também pode ser seguido livremente no Twitter.

Vão lá > http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=187875,OTE&IdCanal=4

as grandes perguntas que formam um guru

por   /  17/11/2011  /  12:15

Escrevi sobre o Deepak Chopra para o delicioso Suplemento Pernambuco! > http://www.suplementope.com.br/

As grandes perguntas que formam um guru

Daniela Arrais

Em uma rápida pesquisa sobre Deepak Chopra na internet, o usuário Fidodido lança a pergunta em um fórum: “O que acham de Deepak Chopra? Gênio ou charlatão?” As respostas surgem rapidamente. Alguém que escolheu o apelido de Kracman diz que o guru é “um Paulo Coelho sofisticado”. Ao que Sai.ram retruca dizendo que ele “sabe das coisas”. Tabacof sobe o tom: “Alguém que propaga uma ideia completamente retardada como a da cura quântica perde toda a credibilidade”.

Deepak Chopra, o guru indiano que fez fama e fortuna ao exaltar a meditação como passaporte para uma vida melhor, é tudo, menos uma unanimidade. Para quem lê seus livros e segue seus ensinamentos, ele é responsável por mudanças no rumo da vida. Para quem faz um raio-x de sua atuação, que vai de palestras pelo mundo à música feita em parceria com Madonna (Bittersweet), ele é o retrato da autoajuda travestida de religião.

Alguns números talvez sirvam para que Deepak flutue acima de qualquer questionamento. Desde 1998, ele já vendeu mais de 30 milhões de livros, segundo a revista Forbes. Seu império engloba da venda de chás a programas de perda de peso. As 40 palestras que costuma dar a cada ano rendiam, em 2007, mais de US$ 2 milhões. Em um programa de TV de comédia, ele chegou a brincar, dizendo que não era um “profeta”, mas um “lucro” – a piada faz sentido em inglês, em que as palavras “prophet” e “profit” têm pronúncia semelhante.

Mas, como bom guru espiritual, Deepak Chopra paira acima dessa questão tão mundana que é o dinheiro. Em uma entrevista ao The Guardian, relativizou o alcance de sua fortuna. “Eu cheguei aos Estados Unidos, vindo da Índia, com 22 anos e US$ 8. Tenho 61 anos agora [2008] e, obviamente, conquistei um monte. Mas as pessoas superestimam minha riqueza.” E continua: “Eu não a acumulei em um sentido tradicional. Mas me considero extremamente rico porque isso é um estado de consciência. Se você tem bilhões de dólares mas está sempre pensando em dinheiro, você não é um homem rico.” Ponto para ele, que consegue ser rico nos planos material e espiritual.

O que importa aqui, no entanto, não é riqueza de conta bancária, mas aquela que você alcança quando encara os problemas da vida com serenidade – e, logicamente, consegue resolvê-los. Desta vez, mais uma vez, Deepak Chopra tem o que ensinar, baseando-se em sua própria trajetória. “Na minha vida, nada dá errado. Quando as coisas parecem não atender às minhas expectativas, eu as deixo ir, como acho que elas devem ser. É uma questão de não ter apego a qualquer resultado fixo.”

Talvez seja por isso que seus livros vendam tanto. Para aqueles que já tentaram algumas sessões de análise, outras tantas idas a igrejas, mais algum aconselhamento espiritual, livros de autoajuda funcionam como mais uma tentativa. Afinal, a questão é não ter apego a qualquer resultado fixo. Vale tentar de tudo para ser alguém melhor, para ter uma vida mais feliz.

Para mostrar como o desapego é uma palavra que surgiu cedo em sua vida, Deepak Chopra deixou de lado a carreira de médico para se dedicar à cura dos males da mente e do espírito. Quando encontrou um manual de meditação transcendental em um sebo em Boston, nos idos dos anos 1980, viu sua vida se transformar: largou a rotina de chefe de equipe em um grande hospital e foi se conectar ao mundo transcendental. Descobriu um filão e tanto.

Hoje, é dono de um império. Ao The New York Times definiu sua atuação: “Eu fui treinado como médico. Eu fui à escola médica porque queria fazer as grandes perguntas. Nós temos uma alma? Deus existe? O que acontece depois da morte?”.

Foi em busca de resposta a essas e a outras questões da humanidade, que Márcia de Luca, 59, foi visitar a Índia pela primeira vez, há 27 anos. Foi ali que a hoje professora de ioga começou a entrar em contato com a ayurveda, o sistema de medicina indiana criado há mais de seis mil anos. “Andando pela cidade, via muitos livros do Deepak e sobre a ayurveda. Fui estudando com ele”, lembra.

Depois de assistir a uma reportagem no Fantástico sobre o guru, decidiu visitar o centro que ele tem em La Roya, na Califórnia. Lá, os problemas da mente e do espírito ganham tratamento cinco estrelas. Marcia passou três anos estudando com Deepak Chopra, na ponte aérea Califórnia-São Paulo. “Foi maravilhoso. Eu estudava, fazia lição de casa, não só com ele, mas com vários outros mestres. Descobri a paixão da minha vida”, conta ela.

Naquela época, há quase 30 anos, a turma era formada por cerca de dez pessoas. “Ele ainda dava alguma formação. O que aprendi foi diretamente com ele, que era uma pessoa acessível, mas que já estava começando a ficar ocupado.” Hoje, Márcia comanda o Espaço Marcia de Luca, em São Paulo, onde aplica técnicas milenares de ioga, ayurveda e meditação.


SOM PRIMORDIAL

O empresário Luciano Gosuen, 43, ainda não leu livros de Deepak Chopra, mas já pratica seus métodos – em especial, o som primordial. “Não faz muito tempo, mas veio em um momento em que procuro ampliar minha consciência na busca de autoconhecimento e compreensão na minha relação com a divindade que existe dentro de cada um.”

Bom aluno que é, Luciano dá mais detalhes sobre a técnica: “Com o som primordial, partimos do pressuposto que, no seu nível mais básico, tudo no universo é som e vibração. Para podermos promover a união entre ambiente, corpo, mente, alma e espírito (propósito do ioga), utilizamos o som primordial como mantra e veículo para nos levar para dentro dessa jornada. O mantra é individual para cada praticante e identificado, segundo antigos conhecimentos da Índia, pelo som primordial em que o universo vibrava no momento de nosso nascimento.”

A economista e escritora Jhanayna Siqueira, 37, também dá os primeiros passos – ou uivos – para alcançar o som primordial. “A gente aprende que o som que vibrava no universo no momento de nossos nascimentos está diretamente conectado com nossa mente e que estabelecer essa conexão é essencial para atingirmos a paz interior”, diz.


Foi por buscar silêncio que a cineasta Bruna Granucci, 26, conheceu Deepak Chopra. Ela ganhou de presente de um amigo o best-seller As sete leis espirituais do sucesso e dedicou um tempo a pensar sobre a necessidade de ausência de ruído em sua vida. “Não somente o silêncio interior, que nos transporta para um estado de limpeza e calmaria mental, mas a prática do silêncio durante as situações que a gente vive”, explica.

Com Chopra, Bruna aprendeu que a quantidade de energia que alguém perde tentando convencer alguém de uma opinião poderia ser canalizada na busca por coisas que se quer alcançar. “Assim, você consegue essas coisas com mais sucesso.” Ensinamento simples, mas eficaz se colocado em prática. Para ela, toda prática de meditação é “extremamente rica e misteriosa em seus benefícios”. “Acredito que o fato de parar o que se está fazendo, diminuir o ritmo, silenciar-se, voltar-se para dentro e olhar para si não somente influencie a saúde mental, mas também a saúde física de alguém.”

A designer Carol Vinagre, 28 sempre gostou de buscar autoconhecimento pela literatura. “Acho que todo tipo de literatura é um pouco terapêutica, de autoajuda, mesmo quando não é enquadrada nisso”, diz a carioca. O interesse por Deepak Chopra surgiu depois que ela leu uma resenha sobre o livro A realização espontânea do desejo. “Eu estava em busca de mim mesma (uma constante) e de meu lado sombrio. Acabei lendo esse livro e, depois, As sete leis espirituais do sucesso. O que aprendi com esses livros foi a escutar mais a mim mesma e a olhar mais atentamente para o meu corpo, para o lado psicológico e o espiritual de uma maneira mais inteira, e não fragmentada.”

Para ela, Chopra se tornou um fenômeno por usar uma linguagem fácil e aliar ciência e espiritualidade de uma maneira muito interessante. “(A abordagem dele) vem de encontro ao vazio que encontramos atualmente em um mundo exacerbadamente capitalista, fragmentado. Ele sugere como poderíamos juntar esses fragmentos.”

As críticas negativas que o guru recebe são resultado dessa mistura, segundo Carol. “A questão da espiritualidade é colocada, quase sempre, no mesmo pacote da autoajuda. É claro que existe o mercado dessa literatura fácil, de receita de bolo. Os ensinamentos do Dalai Lama são autoajuda? Outros autores de que gosto muito e que escrevem muito bem sobre espiritualidade são o teólogo Leonardo Boff e o monge Anselm Grun. Seriam eles escritores de autoajuda? Para mim, não. Eles refletem sobre a vida e as relações humanas.”

Para Luciano, aquele que começou a buscar o som primordial, os questionamentos em relação a Deepak Chopra podem ser fruto de sua habilidade de “conseguir comunicar para uma cultura ocidental, contemporânea e materialista conceitos que venha de uma cultura milenar oriental espiritualista”. “Penso que existe muita coisa que precisamos conhecer sobre nós e sobre nossa relação com o divino e seu poder de cura. Faz sentido para mim que muitas doenças e desequilíbrios de saúde que vivemos hoje possuam uma origem psicossomática”, atesta.

Mesmo sendo um entusiasta das práticas milenares, Luciano acredita que as críticas são saudáveis. “É do dever de quem se interessa pelo assunto estudar, praticar e discernir sobre o que interessa para cada um.”

Para Bruna, a que faz cinema, “qualquer pessoa que se encoraje a apresentar uma alternativa à maneira de viver da grande maioria das pessoas terá que aguentar um bocado de críticas”.

“Eu sou como uma pessoa que está cantando no banheiro e está se divetindo e algumas pessoas estão ouvindo a música e elas gostam”, já disse o guru, simplificando de maneira perspicaz todo o verbo que gastam com ele. Verdade ou não, melhor a gente se juntar a Bruna, Carol, Luciano, Jhanayna e Márcia – e, claro, Madonna, Demi Moore, Michael Douglas, Winona Ryder e tantos outros – para tentar descobrir se tanta vontade de mudar a vida é suficiente para mudá-la de fato. Se der errado, lembremos do mesmo Deepak Chopra: afinal, cantar debaixo do chuveiro é a maior diversão.