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#portfoliodonttouch: A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença

por   /  20/07/2015  /  19:00

Bruna Valença 1

Bruna Valença tem 24 anos e fotografa há pelos menos 10, desde que ganhou uma câmera do seu pai. A fotógrafa pernambucana também virou videomaker e acumula um currículo o trabalho em curtas metragens e a cobertura de semanas de moda como as de São Paulo, Paris e Nova York – além do prêmio People’s Choice Award 2011, da See.Me Institution, dos Estados Unidos.

Na entrevista abaixo, ela conta o que a motiva a fotografar e divide também seu processo e mais detalhes de sua trajetória.

Mais em > Fotografia Bruna Valença

Bruna Valença 2

A minha vontade de fotografar vem muito de dentro. Tem dias que eu acordo com a cabeça lotada de ideias, de sonhos, de pensamentos, de vontades súbitas de montar uma imagem.

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Creio que as minhas imagens tenham em comum essa sensação de efemeridade, de linguagem do sonho, do subconsciente, pois a fotografia é realmente uma extensão de tudo que penso, é a melhor maneira que encontro para me expressar.

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A maioria das minhas ideias surgem à noite, e é aí que eu perco o sono mesmo. Escrevo, estudo imagens de referência e já saio marcando nas minhas agendas possíveis datas para projetos específicos. Eu tenho muita agonia se não concretizo uma ideia logo, sabe? Então sempre quando surge alguma, já quero fotografar no dia seguinte, se possível! Às vezes o tema brota mesmo. Por causa de alguma sensação ou sentimento, ou por algum filme que assisto que me inspira. Também acontece de fotografar algo do nada, e isso também é muito gratificante, pois me tira da zona de conforto totalmente.

Bruna Valença 5

Eu sempre gostei muito de observar as coisas, as pessoas ao meu redor. E no fundo, sentia uma necessidade de registrar, interpretar aquilo na minha própria maneira. Comecei a fotografar aos 14 anos com uma câmera compacta que ganhei de aniversário do meu pai e realmente não parei mais. Não me recordo de nenhuma época após em que eu tenha ficado sem fotografar.

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Os temas foram variando com os anos, mas eu sempre me fascinei em fotografar pessoas. Inseridas ou não em algum contexto. Acho que foi aí que a fotografia se tornou algo palpável pra mim. Comecei fotografando em digital, e depois que eu descobri o analógico, o vício se concretizou mesmo. Comecei fotografando shows, fotos para bandas de conhecidos, registrando o meu cotidiano e situações inusitadas da minha turma de amigos, a câmera realmente se tornou uma extensão de mim e a minha forma de dialogar com as pessoas.

Bruna Valença 7

Comecei a trabalhar como videomaker fazendo vídeos para marcas de moda de Recife e logo após fiz uma série autoral de “fashion films” com modelos locais. Uma coisa levou a outra, e naturalmente comecei a conseguir trabalhos a partir da estética que desenvolvi, filmando casamentos e uma série de outros trabalhos com propaganda e videoclipes. Comecei a desenvolver o meu lado autoral com a fotografia analógica, pois é um formato que me dá muita liberdade na hora de clicar.

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Às vezes as respostas vem na hora que eu clico, às vezes dias, anos depois, quando revejo as fotos, quando as revelo, pego na mão e analiso. Muitas vezes sinto a necessidade de colocar uma ideia pra fora e só descubro o que aquilo significou pra mim depois. Mas o que eu sempre busco é a pureza. Quero produzir imagens que me tragam paz, sempre.

Veja os demais posts da série #portfoliodonttouch:

A fotografia sentimental de Juliana Rocha + #retratosanônimostakeover por @rochajuliana

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

#portfoliodonttouch: O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

por   /  01/07/2015  /  9:00

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Cassiana de Haroutiounian faz fotos oníricas, cheias de silêncio e poesia. Em entrevista para o Don’t Touch, ela conta como começou, fala de sua trajetória e divide suas motivações para fotografar.

Leiam abaixo, acompanhando suas belas imagens!

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Acho que em todas as minhas fotos eu tento mostrar uma outra realidade, algo mais perto do onírico, do sonho e de um tempo ausente, suspenso. Todas possuem uma luz muito parecida, não digo em suas formas, mas existe um branco predominante em quase todas elas. É como se o tempo todo eu estivesse sendo cegada por esses clarões.

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A fotografia veio… Nem sei por onde começou… Foi no colégio, eu decidi estudar foto à tarde e foi indo. Era um prazer indescritível. Depois a faculdade, os trabalhos, as referências, os encontros certeiros na vida com pessoas incríveis que só foram me dando mais e mais referências. E essa vontade de transformar em imagens uma sensação. Porque eu vejo uma imagem e isso mexe comigo. Mesmo. Preciso de silêncio, de um tempo sozinha para digerir o que vejo, que logo é o que eu sinto.

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O meu processo com a fotografia passa muito mais pela minha emoção do que só pela técnica. Não busco a luz perfeita, ou o enquadramento perfeito (mas também, o que é o perfeito, né?!). Eu estudei bastante, tenho referências e isso acho que está grudado em mim. E acaba sendo uma coisa meio instintiva, intuitiva. E também preciso estar no mood certo. Se não estiver, rola uma chavinha que trava tudo. Tem que passar por algum brilho nos olhos, por aquele frio na barriga.

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Estudei fotografei e sempre adorei captar esse mundo bem particular. Mas desde que morei na Armênia por 4 meses, em 2014, acho que tenho me libertado bem mais para ver, sentir e clicar. As coisas parecem mais intuitivas (buscando as gavetinhas internas). Com o celular, geralmente são coisas do dia a dia, pequenas sensações e barulhos em imagens. Mas também tenho meus projetos pensados, mais estudados. Agora, por exemplo, estou no processo de edição do meu livro que tratará de mim e dos territórios femininos daquela terra, que deve ser lançado no fim de setembro. Fiz um catálogo de moda recentemente e agora um editorial de moda da Serafina. Tudo com a mesma linguagem.

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Desde o colégio fiz todos os cursos do Senac de fotografia. Cursei dois anos de cinema na FAAP, me formei em fotografia no Senac, embarquei pra Barcelona para a pós em fotojornalismo na Universidade Autônoma de Barcelona e desde então mais e mais mergulhos na fotografia. Sempre fui apaixonada pela imagem e pelo que ela pode causar e te transformar. Eu sou muito sensorial. Uma trilha sonora me lembra uma imagem, um texto me faz pensar em imagens… E tudo isso são sensações. Meio malucas, meio sei lá o que.

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Sou editora do blog Entretempos junto com o Daigo Oliva. E também editora de foto da revista Serafina há 3 anos. Nunca me desconectei do lado fotógrafa. Acho só que ele está mais silencioso nos últimos anos. Eu adoro estar por trás do trabalho dos outros, editando, criando. Acho que tantos anos olhando imagens, frequentando festivais, mostras de cinema, foram lapidando o meu olhar e hoje posso dizer que tenho uma cara. Quer dizer, que encontrei um caminho e tenho gostado de descobrir e mergulhar nele. Além disso, fiz um documentário sobre a Armênia (“Rapsódia Armênia”), em 2012. Ganhador de 3 prêmios, passado na Mostra e em cartaz por um mês e meio no Reserva Cultural.

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O que espero que as pessoas sintam quando veem as minhas fotos? Que elas sintam?! Que se sintam suspensas por pelo menos um segundo?! Respostas?! Será que tem respostas pras fotos? Não sei…

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Veja os demais posts da série #portfoliodonttouch:

A fotografia sentimental de Juliana Rocha + #retratosanônimostakeover por @rochajuliana

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

 

Aço, de Alessandra Leão

por   /  26/05/2015  /  12:00

Alessandra Leão

Música que vale a pena é aquela que me tira do lugar e me faz ter a sensação de viajar só de fechar os olhos. Toda vez que eu ouço Alessandra Leão sinto isso. Desde a época do Comadre Florzinha, até hoje nos shows no Sesc ou na Casa de Francisca. Ela me leva não para um destino conhecido e esperado, e sim para um lugar novo cheio de encontros e sensações que me acompanham por um bom tempo, até mesmo depois de voltar. A viagem às vezes é pra dentro, pra uma história dela em que vejo uma minha reverberar. Em outras, é para um pedaço de Pernambuco que só conheço de ouvir cantar.

Pra nossa sorte, Alê resolveu nos proporcionar várias viagens. Ela está fazendo uma trilogia de EPs, aqueles álbuns menores do que um CD tradicional, com cinco, seis músicas. Primeiro ela lançou “Pedra de Sal”, que é brilhante e ainda tem a maravilhosa “Tatuzinho”. Agora vem o segundo capítulo, “Aço”. Visceral, rasgado, o disco começa assim: “Cortei a carne até sangrar / E o que sai de dentro dela é aço, é aço”. E o que vem depois segue essa toada.

O Don’t Touch foi escolhido para mostrar “Aço” em primeira mão na internet.

Vamos ouvir juntos?

Abaixo, as respostas dela a uma entrevista que fiz:

A escolha em fazer uma essa trilogia, que chamo de “Língua”, parte de algumas questões de ordens distintas: temporal, financeira e principalmente estética. Ela fala de um mergulho íntimo e pessoal, e cada um dos capítulos se relaciona com uma etapa dessa trajetória. “Pedra de Sal”, lançado no fim do ano passado, fala do princípio da jornada, de quando tomamos ar antes do mergulho, de achar que o ar vai faltar, de seguir adiante e tocar o fundo.

“Aço” é a parte mais visceral e profunda, fala do que me constitui, do que sou feita agora. Pra isso, foi preciso “cortar a carne” e me embrenhar por dentro de mim. O que nem sempre é um caminho fácil, e por isso, a presença de cada um que compartilhou esse tempo comigo, tem sido mais do que fundamental: Luciana Lyra (co-direção artística), Vânia Medeiros (projeto gráfico), Kastrup (bateria), Missionário (sintetizador), Mestre Nico (percussão), Kiko Dinucci (guitarra), Rafa Barreto (guitarra e parceria numa das faixas), Ligia Meneguello e Dora Moreira (produção) e principalmente Caçapa (que assina a produção musical e a maioria dos arranjos, além de dividir duas músicas músicas). Essa parceria com ele vem desde o meu primeiro disco e acho que em “Aço” sinto a presença dele mais pulsante e intensa, esse de fato é um disco muito sobre mim, sobre nós dois, e essa parceria, que se ramifica por tantas partes da nossa vida.

Além dessas pessoas que já trabalham comigo há um tempo, a presença de Odete de Pilar, coquista da Paraíba, foi um dos momentos mais emocionantes dessa parte do mergulho. Foi pra ela que compus “Odete”, música que gravei no meu primeiro disco, não nos conhecíamos pessoalmente e esse encontro foi dos mais bonitos e necessários. Em “Aço”, cantamos “Corpo de Lã” juntas e viramos bicho e voltamos melhores do que chegamos, assim são os bons encontros. Assim, me senti com ela e me sinto com esses meus companheiros todos.

Esse é um processo que eu precisava passar – e acho que precisarei outras vezes ainda, outros mergulhos, pois essa nossa profundidade muda dia a dia, e precisamos voltar a tomar ar, dar novos mergulhos e emergir deles. É um caminho profundamente transformador. Essa sou eu agora.

“Aço” vai pro mundo, que bom. Agora, que venha “Língua”!

Acompanhem a Alessandra Leão:

www.alessandraleao.com.br

www.facebook.com/alessandraleaooficial

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O que é o amor pra você hoje? A volta!

por   /  17/03/2015  /  20:20

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Em 2009 criei a série O que é o amor pra você hoje?, em que fazia a pergunta para qualquer pessoa que encontrasse por aí.

O primeiro a responder foi o Juscelino, garçom do Balcão. No meio do caminho, tivemos Xico Sá, Dudu Bertholini, Bruna Surfistinha, Thiago Pethit, Clarah Averbuck, Contardo Calligaris, Valesca Popozuda, Lulina, Nina Becker, Soko, Buchecha (sem Claudinho), Ash, Carpinejar e vários anônimos de cidades como São Paulo, Recife e São Franscisco.

Foi lindo demais fazer essa série. Me surpreendi com a generosidade das pessoas de abrirem o coração – em alguns momentos, chorei junto. Depois de um tempo perdi a vontade de fazer a pergunta…

Até a semana passada, quando conheci a Clarice Freire, autora do fenômeno literário Pó de Lua. A Clarice é uma dessas pessoas que transborda amor. Depois de conversar por horas, me emocionar em vários momentos e ainda conhecer com ela refugiadas de guerra (!), tive vontade de fazer a pergunta de novo.

Vocês veem a resposta logo abaixo!

E conseguem relembrar a série aqui > bit.ly/oqueeoamorpravocehoje

Ficou com vontade de responder também? Manda seu vídeo usando a hashtag #oqueeoamorpravocehoje

#portfoliodonttouch: A juventude pelo olhar de Pedro Pinho

por   /  12/03/2015  /  16:16

Captura de Tela 2015-03-11 às 17.25.06

Pedro Pinho fez nossos melhores retratos como pessoa jurídica. Eu e a Lu ficamos impressionadas com a rapidez com que ele faz o trabalho, cheio de leveza e bom humor. Esse rapaz de 24 anos consegue deixar seus retratados completamente à vontade, mesmo quando eles sofrem de vergonha crônica na frente da câmera, como é o meu caso, hehe.

No ano passado, o Pedro passou alguns meses no Texas para estudar fotografia. Aproveitou pra fazer muitos retratos lindos. Coloco alguns aqui, intercalando com uma conversa que tivemos. Espero que vocês gostem!

Acompanhem > www.pedropinho.com + www.pdrpinho.tumblr.com

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Eu nunca gostei de fotografar paisagem, objeto, animal… Meu negócio é e sempre foi gente. É muito difícil pra mim entender os motivos que me levam a fotografar determinadas pessoas, mas sempre acontece. Eu cresci desse jeito, sempre tinha alguém que eu ficava obcecado e fotografava de novo e de novo, de todos os jeitos possíveis. Sei cada ângulo de várias das minhas amigas de infância. Agora, eu cresci e essa obsessão não passou. Alguém sempre me desperta esse desejo de fotografar sem parar. Não sei se é empatia, desejo, ou até medo. De certa forma, me relaciono com essas pessoas através da minha lente, olhando e retratando o que acontece.

Comecei aos 14 e hoje, aos 23, continuo olhando pra juventude como um fio condutor de tudo o que faço. Já não me sinto tão jovem assim, olho pra pessoas mais novas com a sensação de ter acabado de passar por tudo aquilo. Ao mesmo tempo, sou muito novo e ainda não tenho resposta pra nada. É importante pra mim retratar tudo isso enquanto não estou tão distante do meu objeto.

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Cada foto tem que ser vista com a minha presença não-declarada ali. Eu estou dentro desse momento, olhando, pensando, me relacionando. Todos são pessoas que eu conheço, com algum sentimento envolvido. É sempre interessante pra mim olhar as fotos e pensar no que essas pessoas sentem por mim, se estavam confortáveis ou não, se tinham algo no olhar… Da mesma forma que, como fotógrafo, olho para essas pessoas, elas olham de volta, conscientes de que estou ali. Fotografar algo sempre é dar importância e, quando o objeto é uma pessoa, algo acontece entre fotógrafo e fotografado. Alguns se deixam ver de forma mais profunda, talvez por alguma recíproca aos meus sentimentos. São as fotos que eu olho por mais tempo e gosto mais.

Captura de Tela 2015-03-11 às 17.25.52

To Be Young, Texas, 2014 [fotos acima]

Sem querer ser pseudo-poético e falar de coisas abstratas demais, o projeto aborda o que resta em nós após a transformação para a “vida adulta”. As memórias apagadas, os fragmentos das tantas decisões tomadas, as pessoas que teríamos para sempre. As fotos são todas borradas, como memórias. É difícil dizer o que se passa, quais sentimentos flutuam naquele instante, o que essas pessoas estão fazendo. Assim como a juventude, tudo é sentido ao mesmo tempo, de forma extremamente emocional, confusa e difícil de decifrar.

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Eu fui para os Estados Unidos fazer um curso de seis meses na Baylor University, que tem um programa de Fine Art Photography. Por causa de dois trabalhos (To Be Young e Let Me In) fui selecionado pra receber uma bolsa e apresentar meu trabalho na conferência da SPE – Society for Photographic Education. Foi uma experiência muito incrível, ter acesso a todo equipamento do mundo e conviver de perto com um monte de fotógrafos importantes dos Estados Unidos. Também aproveitei pra viajar três meses. Visitei cinco estados e fiz questão de passar a maior parte do tempo sozinho. Me forcei a parar de ser tímido e fotografei um tantão de gente. Algumas vezes era bem estranho e desconfortável. Mas algumas pessoas se abriam um pouco além do normal e eu virava amigo. Foi muito interessante.

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Let me In, Texas, 2015 [fotos abaixo]

Nasci em Brasília, uma cidade que considero extremamente fechada e fria, onde cada morador preza pela sua privacidade e por uma distância que deve sempre ser respeitada. De alguma forma, essa herança me leva a inconscientemente questionar a olhar com olhos curiosos a forma como as pessoas abrem suas casas e o processo necessário para alguém passar de um estranho para amigo. Para esse projeto eu fotografei duas casas. Eu não conhecia nenhum dos moradores antes de começar o trabalho e não os visitei sem a câmera nenhuma vez. A cada visita, continuava a fotografar tudo o que eu estava vendo, sem pedir permissão, questionando a barreira do que é aceitável de se fotografar e o que é muito invasivo. As fotos mostram a intimidade de cada uma dessas casas, o seu comportamento e o estranhamento de se ter uma camera presente.

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The best place to be is in love

por   /  11/03/2015  /  16:16

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A internet já me trouxe muitas alegrias – e algumas amizades que não sei viver sem. Com a Jordana foi assim. A gente é amiga do tempo de trocar cartas com envelope colorido e caneta escolhida pra combinar com o papel especial, de ficar horas, muitas horas no telefone, de passar meses sem falar nada e, quando retoma o contato, vê que tudo tá gostoso como tem que ser.

Daí hoje venho contar pra vocês que a Jo criou um projeto lindo pra espalhar amor por aí: @thebestplacetobeisinlove.

Ela manda os adesivos pra quem quiser. O passo seguinte é escolher lugares legais e sair colando, fazer umas fotos e colocá-las no Instagram ou no Facebook usando a hashtag #thebestplacetobeisinlove.

Sigam > www.instagram.com/thebestplacetobeisinlove + www.facebook.com/thebestplacetobeisinlove

Aproveitei pra saber mais do projeto. Leiam abaixo!

@thebestplacetobeisinlove1

- Como foi que surgiu a ideia?

Depois de eu me apaixonar por um projeto americano parecido, o You Are Beautiful (inclusive pedi a “benção” deles por estar fazendo adesivos com um design parecido – recebi a resposta mais fofa do universo). Então tive a idéia da frase e pensei “porque eu não posso fazer algo parecido com uma coisa que eu gostei tanto”? Mandei fazer 300 adesivos e fui espalhando por aí. Naquela época eu usava o Flickr, e algumas pessoas viram e pediram uns adesivos, que eu prontamente enviei. Nem todos me mandaram fotos de volta, mas isso não fez a diferença, porque eu queria mesmo era que o amor fosse espalhado pelo mundo.

- Quais foram as respostas mais legais que tu já recebeu até hoje?

Quando uma amiga de Instagram da Dinamarca me contou por email colocando uma foto do adesivo na barriga dela e mandando uma foto dizendo que tinha uma super novidade, que estava esperando gêmeas.

@thebestplacetobeisinlove2

- Você parou com o projeto por um tempo. Por que? E o que fez ter vontade de retomá-lo?

O projeto nunca parou, o que parou foi a conta do Flickr e o recebimento das fotos. Porém desde 2006 até 2014 tem gente espalhando o amor pelo mundo. A vontade de retomar foi porque minha vida em 2014 passou por uma GRANDE mudança, que exigiu que eu saísse da minha zona de conforto e também tivesse coragem para recomeçar e fazer algumas coisas diferentes de como eu vinha fazendo. Então resolvi criar uma página no facebook (que bem ou mal a tiazinha velha aqui ainda acho que é uma das ferramentas mais usadas pelas pessoas) e mostrar o projeto para o mundo de novo. Funcionou super bem até agora, desde que a página foi criada já enviei adesivos para um monte de estados do país e pelo menos seis países diferentes. Aguardo ansiosamente as fotos, hehe. Já recebi algumas, mas espero muito mais por vir.

@thebestplacetobeisinlove3

- O que tu espera quando coloca essa ideia pro mundo?

É bem simples: eu acredito no amor. E sempre foi assim. Acredito naquele amor por pequenas coisas, por grandes gestos ou por algo que simplesmente me mova, me inspire ou seja belo aos meus olhos. E isso é o que eu gostaria de dividir com o mundo. Assim a gente cria uma “gangue do amor” e deixa as pessoas perceberem que o amor não se resume a dividir seu sentimento com outra pessoa.

@thebestplacetobeisinlove6

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Desenhar para estimular a criatividade

por   /  21/01/2015  /  16:30

Paulo von Poser 2

Sempre fui do tipo que faz mil coisas ao mesmo tempo. Sonho em ser monotasker, enquanto na maior parte do tempo ainda me desdobro para dar conta do que invento fazer. Uma das poucas vezes na vida em que entrei em um estado de concentração absoluta aconteceu quando fiz aula de desenho com o Dudi Maia Rosa. Passei alguns bons minutos me perdendo na tentativa de desenhar umas pedras que ele tinha recolhido do parque. Eu, que me arrisco no máximo a fazer boneco de palitinho, me vi pela primeira vez no flow, tentando expressar alguma coisa pela imagem. Foi demais!

Dia desses, o pessoal da Remix Social Ideas me perguntou se eu queria em fazer uma entrevista com o Paulo von Poser, um dos professores do curso Intensivo da The School of Life, que acontece a partir deste próximo fim de semana. Quando vi que o Paulo é desenhista, artista plástico e arquiteto, lembrei da aula e mandei umas perguntas pra ele.

Pra começar, perguntei qual é o primeiro passo que se deve dar deixar de dizer “mas eu não sei desenhar, só faço boneco de palitinho!”. E ele disse: Rabiscar violentamente, observando a respiração e o som do desenho, identificar o bloqueio crítico de controle e julgamento que te deixa irritado e frustrado ao desenhar, abandonar os modelos pré-estabelecidos, conhecer museus e ‘curtir’ a história da arte. É fundamental adquirir o hábito de anotar tudo e carregar sempre uma caderneta”.

Não é preciso se preocupar em desenhar bem, achar um estilo. “A letra de cada um já é um desenho, nossa identidade é o desenho das nossas impressões digitais.” Talvez por entender isso intuitivamente, Paulo começou a desenhar brincando com a comida que sobrava no prato nos almoços de família. Formou-se em arquitetura e também virou ceramista, ilustrador e professor. Completou 30 anos de carreira em 2012, com retrospectiva no Museu Brasileiro de Escultura e exposição no Museu de Arte Sacra.

Quando olha para sua trajetória, percebe que o desenho o ensinou a ensinar. “A beleza do desenho é sua incompletude e a abertura para o outro. Quem vê um desenho meu desenha também”, diz.

Para ele, desenhar estimula a criatividade. “Sentir e ‘sair’ do tempo pode ser um jogo interessante. Você pode desenhar em segundos ou demorar anos sem acabar, mesmo assim sua maior qualidade ainda é a síntese.” Ainda mais nesses tempos acelerados em que vivemos. “Estamos pressionados hoje: temos que ser responsáveis, bem sucedidos, ser saudáveis, conscientes e sustentáveis. Estamos exaustos de nós mesmos. Ser diletante pode ser revigorante, pois te esvazia e te prepara para novos propósitos.”

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Paulo von Poser é um dos professores no curso Intensivo que a The School of Life realiza em São Paulo entre os dias 23 e 27/01. Para saber mais > http://bit.ly/183FQ0t

Outro convidado é o David Baker, que já entrevistei por aqui > http://bit.ly/1bV4Ogn

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As lições de Tina Roth Eisenberg

por   /  26/11/2014  /  8:08

Tina

Foi fazer um sabático sem clientes e nunca mais voltou pra eles. Em entrevista para o blog da Contente, a trajetória de Tina Roth Eisenberg, criadora do swissmiss, da Tattly, do CreativeMornings e uma das nossas maiores inspirações!

Leiam em > http://contente.vc/blog/as-licoes-de-quem-tirou-um-sabatico-sem-clientes-e-nunca-mais-voltou-pra-eles/

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Precisamos falar sobre o feminismo

por   /  31/10/2014  /  15:15

chimamanda

Não tinha me dado conta de como o feminismo deve ser uma questão cotidiana*, até o dia em que fazia uma aula de alongamento na academia e três caras entraram para fazer um serviço no ar-condicionado e ficaram secando as mulheres da turma. Foi uma situação desconfortável, pra não dizer nojenta, e eu me senti invadida. Uma parte ficou no deixa disso, eu resolvi reclamar com a coordenação, que prontamente falou que aquilo não ia mais acontecer. Passei o resto do dia pensando nesse tipo de armadilha que tantas vezes cruza o nosso caminho, em como a gente pode cair facilmente (do tipo se achar gostosa porque o cara tá olhando) e, principalmente, no quanto a gente precisa entender melhor várias questões e aprender a se afirmar cada vez mais.

Faz pouco mais de seis meses que voltei para o Facebook, depois de ficar um ano longe. Para não ficar saturada, decidi por menos ruído, mais informação. Entrei em alguns poucos grupos, número suficiente para que eu acompanhe as discussões que acontecem neles. Vi minha relação com a rede mudar. Feminismo era um assunto que me interessava pelas bordas, eventualmente. Depois que entrei no grupo Talk Olga, isso mudou. Comecei a acompanhar as histórias que as garotas postam, a ler um monte. Passei a usar com frequência a palavra empoderamento – e a vibrar cada vez em que ouço uma história desse tipo.

Jamais achei que um grupo no Facebook fosse capaz desse tipo de transformação. Por isso, decidi entrevistar a Juliana de Faria, jornalista, criadora da Olga, um dos melhores sites feministas que você vai encontrar na internet, e moderadora desse grupo no Facebook que é capaz de fazer mudanças na vida de várias mulheres. A entrevista é longa, do jeito que eu gosto. Espero que vocês gostem também! E, desde já, sugiro que acompanhem os canais: www.thinkolga.com e www.facebook.com/groups/talkolga

* Isso soa bobo, eu sei, me deixou com receio de postar, mas foi essa situação que aconteceu recentemente que me despertou com mais intensidade pro movimento. Já tinha passado por outras situações opressoras, tinha me incomodado e sentido nojo, claro, mas foi nesse dia que a questão deixou de ser uma coisa que vem e vai e se firmou mesmo. Pra não ficar com uma abertura rasa, deixo vocês com outra pessoa que entende muito do assunto, a Aline Valek, que fez um compilado sobre o que as feministas defendem e um FAQ feminista.

ju faria

Qual é a primeira lembrança que você tem em relação ao feminismo?

Sempre compartilhei da luta do feminismo se partimos do significado básico do termo (do Aurélio, movimento com o intuito de conquistar a equiparação dos direitos políticos e sociais de ambos os sexos). Lembro até de defender o direito ao aborto em discussões com colegas de escola, quando ainda era pré-adolescente. Mas por muito tempo reneguei a credencial de feminista por acreditar que o feminismo me renegava. Na minha ignorância, acreditava que algumas das minhas ações, como me interessar por moda e beleza e ter me casado no papel, já me excluíam do movimento. Foi graças a debates na internet que me aprofundei no assunto, entendendo então que feminismo também significa liberdade e empoderamento. Criei uma definição do meu feminismo: lutar para ampliar o leque de opções das mulheres. E que elas possam tomar suas próprias decisões, livres de pressões externas, sem ter que pedir desculpas pelos caminhos que escolherem.

E como e quando o feminismo virou uma causa para você?

Eu estudei jornalismo e, depois de cansar de fazer matérias sobre qualquer assunto que caía no meu colo, decidi me especializar em uma área. Estudei moda, em Londres. Fiz dois cursos na Central Saint Martin’s, de marketing de moda e styling. Este último me fez perceber que eu não tinha o menor jeito com roupas (haha). Lembro de uma aula em que tínhamos que reconhecer os tecidos pelo toque e, nossa, eu tinha uma dificuldade para distinguir o que era seda e do que era sintético (haha). Claro que me perguntava se eu estava fazendo a escolha certa. Mas tão logo entendi que moda é uma coisa ampla, e a parte social e antropológica dela era o que me interessava. Por isso que digo que sempre gostei mais de mais falar sobre as mulheres que vestem as roupas do que as roupas que vestem as mulheres. A partir daí, comecei a trabalhar em redações de revistas femininas. Conheci mulheres inspiradoras, apaixonadas pelo que faziam e aprendi muito. Mas também senti que meu interesse pelo feminino ultrapassava a barreira dessas publicações. Notei que minhas sugestões de pautas já não faziam mais sentido para aquele espaço. Muitas delas eram rejeitadas por não conversar com a linha editorial das revistas. Um exemplo era a minha vontade de falar sobre assédio sexual. Decidi criar meu próprio projeto. Se não poderia escrever sobre o que me interessava nessas revistas, criaria um blog próprio, onde teria mais liberdade. E poderia também ser uma opção de leitura para outras pessoas, caso houvesse esse interesse. E o feminismo pautou muito a criação desse espaço, que é a OLGA, e a escolha dos assuntos que eu trataria. Ali, fui desconstruindo um monte de conceitos que oprimem as mulheres, pressões sociais que deixam nossa vida mais difícil. Assim como criando campanhas e projetos cujo objetivo é empoderar mulheres em diversos áreas — de violência de gênero à liderança no trabalho. Não foi um projeto que nasceu com um conceito totalmente pronto. Aprendi e ainda aprendo muito sobre feminismo conforme vou caminhando. Mas a essência dele, de querer criar conexões mais verdadeiras com as mulheres, será sempre a mesma.

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Você trabalhou em revistas femininas, espaços que não costumam oferecer uma visão mais completa e complexa da mulher. O que mais te incomodava nessa época?

A limitação de assuntos. As revistas femininas não deveriam ser chamadas assim porque suas páginas trazem matérias sobre moda, beleza e sexo. Isso é dizer que mulher só se interessa por esses assuntos. Na minha visão, essas publicações deveriam tratar de todos os assuntos — política, economia, cinema, música, arquitetura, carros, futebol — mas com um viés feminino e feminista. Já temos exemplo de publicações que fazem isso muito bem. Lá fora, Rookie Mag, Libertine, Frankie Mag, The Gentlewomen. Aqui, gosto de citar a revista digital Capitolina, que é voltada para adolescentes e não restringe seu conteúdo a boyband e virgindade. Elas falam sobre crise de ansiedade, ciência, homossexualidade, roubos em museus (!), medo da morte, violência doméstica, fantasias sexuais, racismo, quadrinhos, ditadura. Eu acho que as femininas estão no caminho da mudança. Muito vem sendo feito, de verdade, como a capa da Nova com a Preta Gil. De novo, a Nova apoiou a campanha Não Mereço Ser Estuprada, o que foi muito legal também. Mas elas ainda pagam um preço pelo seu histórico — e também pelas chamadas de capa, que insistem na fórmula antiga da “barriga chapada” e “as formas como enlouquecer seu homem”.

Você conseguia de alguma forma driblar as limitações e falar de temas que te interessavam, que mostravam um pouco daquilo em que você acredita?

Eu trabalhei no Modaspot, o extinto portal de moda da Editora Abril, e a diretora de redação era a Eliana Sanches, uma chefe muito incrível que me dava carta branca para pirar. Por ser um site, havia mais espaço (literalmente) para escrevermos sobre o que quiséssemos. Fazia sim o feijão com arroz (tendências, passarelas, o look do dia da celebridade), mas tive também a oportunidade de escrever matérias que debatiam o transgênero, por exemplo. Também criticamos a exposição das crianças no mundo da moda. Mas faço a mea culpa: já escrevi sim coisas das quais me envergonho por pura automatização da reprodução de discursos machistas. Por isso brigo muito para que nós, jornalistas, paremos para refletir sobre a mensagem que colocamos para o mundo. As palavras têm força e temos que tomar cuidado com a escolha de cada uma delas. Quando dizemos que uma atriz foi FLAGRADA sem maquiagem, o termo traz um peso de que ela estava cometendo um crime, sabe? Outra coisa: temos que escutar as leitoras, mas escutar para valer e não atrás de uma janela de vidro, durante uma pesquisa de mercado feita pelo marketing. A conversa entre criador de conteúdo e consumidor de conteúdo precisa ser horizontal e não vertical.

Foi quando suas pautas começaram a ser rejeitadas que você decidiu criar um blog, né? Conta como surgiu o Think Olga?

Sim, exato. A OLGA nasceu dessa vontade de poder criar um conteúdo sobre mulheres, para mulheres, que não fosse condescendente, baseado em clichês. Além disso, queria que fosse um espaço para evidenciar as desigualdades de gêneros — do gap salarial à baixa participação das mulheres como fontes em matérias — e criar soluções para elas. É um sonho e uma responsabilidade imensa, que não vem acompanhada de apoio financeiro.

Falar com a mulher de uma maneira livre de estereótipos é uma das premissas do projeto. Quais são as outras?

Gosto da frase da jornalista e ícone feminista Gloria Steinem: “A verdade vai te libertar. Mas antes vai te irritar”. E o feminismo é a conquista de poder pela informação. Uma mulher bem informada – dos seus direitos, das suas possibilidades e principalmente de realidades tristes e injustas – é uma mulher com mais força para lutar e para buscar alternativas e mudanças. E a OLGA nasceu a partir desse desejo de criar uma conversa mais honesta, mais acessível com as mulheres. De criar conteúdo livre de estereótipo, de linguagem paternalista e pressões sociais. O projeto acabou indo além e se desdobrando em diversos outros braços: workshops, encontros, palestras, exposições, projetos colaborativos, um grupo de debate com mais de dois mil membros e até um ebook. Trabalho em diversas plataformas, mas sempre com o mesmo objetivo: empoderar mulheres pela informação.

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Como você articula a rede de mulheres que fazem pesquisas, escrevem textos e ilustram os posts?

Temos algumas colaboradoras voluntárias fixas, como a advogada Gisele Truzzi, que responde dúvidas judiciais das leitoras e até fez um FAQ sobre violência e assédio online (www.thinkolga.com/2014/04/01/f-a-q-juridico-violencia-virtual/).

A Bárbara Castro, socióloga e doutora em Ciências Sociais, é conselheira do projeto e traz a visão acadêmica para dentro do projeto [ela já foi entrevistada para o blog da Contente; A armadilha do faça o que você ama]. A Luíse Bello, também diretora de comunicação da Olga, e a Gabriela Loureiro têm uma presença se alternam na criação de conteúdo. Esse é o núcleo duro. Mas como a maioria dos nossos projetos, a Olga também funciona de forma colaborativa. Publicamos quadrinhos, ilustrações e textos de quem quiser colaborar. As portas estão abertas!

A internet é recheada de textos que dizem como a gente deve ser, o que fazer. Como despertar a atenção para um conteúdo que é diferente disso – sempre mais aprofundado, falando de temas “difíceis”?

Acho que se eu tivesse uma fórmula, seria mais um dos textos que dizem o que a gente deve fazer e ser para atingir o sucesso. Hehe. Não sei, Dani, mas acredito que a internet abraça todo tipo de pessoa, inclusive quem dá preferência para textos mais aprofundados e complexos. Não tenho regras para despertar a atenção do público: apenas vou lá e faço o que acredito estar certo. A Chega de Fiu Fiu, por exemplo, foi rejeitada quando ofereci como pauta para uma revista. Mas quando a coloquei na internet, sem qualquer trabalho de assessoria de imprensa ou de relações públicas, ela viralizou. Felizmente, existiam várias outras pessoas que queriam ler, falar, discutir sobre o assunto. É claro que nunca terei a mesma audiência do Buzzfeed, afinal, meu conteúdo fala com um nicho. Mas vejo vantagens em falar com nicho — os leitores são muito mais engajados e participativos. Trabalhei vários anos em redações e recebi meia dúzia de e-mails de leitores. Na Olga, tenho um contato frequente e direto com o público, o que fortalece meu trabalho, me dá direções de onde devo mirar. É importante ter esse feedback instantâneo, principalmente para sabermos onde erramos e como podemos acertar numa próxima vez.

Você já tem um modelo de negócios? Como vê a Olga crescendo?

A Olga não é uma empresa. Ela é um movimento cujo objetivo é empoderar mulheres e o ativismo é a sua base. Ou seja, sinto que mudamos o mundo de fora (mobilizando pessoas) para dentro (criando pressão social em órgãos públicos, empresas privadas etc) com ações sem fins lucrativos. Mas debaixo do guarda-chuva da Olga pretendo sim lançar um braço que incentive mudanças e transformações feitas de dentro para fora também. Ou seja, buscar parcerias com marcas, empresas e agências que estão na liderança de produção de produtos para as mulheres e assim poder, por meio de consultorias, criar conexões mais humanas com o feminino.

Por que o feminismo ainda é um tema que não interessa a tanta gente? Quais são as armadilhas que travam as mulheres em relação ao feminismo?

Na verdade, acredito que o feminismo nunca foi tão popular. Nunca vimos tantas celebridades — pessoas imersas em uma indústria ainda muito machista que fatura em cima de padrões de beleza — se declarando feministas. A internet está repleta de produtores de conteúdo feminista de qualidade. E até mesmo jornalistões das antigas e meios de comunicação conservadores já não hesitam mais em usar o termo “feminismo”. Fico feliz em notar que ultrapassamos a barreira do medo de falar sobre o assunto. Mas, sim, acredito que existam ainda armadilhas que travam as mulheres em relação ao movimento. Basta ver campanhas como “mulheres contra o feminismo”. E acredito que essa aversão nasce da ignorância do que é o feminismo. Há muitas estereótipos e informações equivocadas sobre o movimento, muitas delas espalhadas por páginas machistas, com o objetivo de minar o ativismo. O feminismo busca simplesmente oportunidades iguais para homens e mulheres. Como alguém pode ser contra isso?

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Beyoncé citar o feminismo ajuda a mudar um pouco isso? Quais outras iniciativas do tipo você gostaria de ver como notícia?

Ajuda muito. Existem algumas pessoas que acreditam que existe “feminismo certo” e “feminismo errado”. Mas como podemos julgar o ativismo alheio se o movimento não tem mesmo nada de absoluto? Publicamos um texto chamado Flawed: Uma feminista Imperfeita (www.thinkolga.com/2014/08/28/flawed-uma-feminista-imperfeita/), da Fabi Secches, em que ela analisa as críticas às ações da Beyoncé. Ela diz: “O feminismo é um conceito em formação e transformação e estamos nos formando e transformando junto com ele.” E ela aplaude o ode que Beyoncé faz à escritora Chimamanda Ngozie Adichie. “Se as críticas dizem que Beyoncé é privilegiada demais, certamente Chimamanda Ngozi Adichie não é. Negra, nascida em um país pobre como a Nigéria, a escritora precisou enfrentar um mundo machista, racista e com recursos limitados para se tornar a autora premiada e consagrada de hoje. Ainda assim, poucos a conhecem. Especialmente se compararmos a quem conhece e acompanha o trabalho de Beyoncé. Portanto, ter levado a voz de Adichie a pessoas e ambientes onde ela provavelmente jamais chegaria, para mim, já é algo para se aplaudir de pé.” Então sim, ver um telão gigante escrito FEMINIST no palco do VMA, da MTV, é uma grande conquista. Queria eu, quando jovem, ver meus ídolos se declarando feministas assim abertamente. Isso me ajudaria a ter contato ainda mais cedo com um movimento que luta contra desigualdades. E ok, o universo pop está superando o medo da palavra. O próximo passo é ver essas celebridades registrarem ainda mais apoio às lutas do feminismo, como aborto, a luta contra a violência de gênero, o gender gap. E é algo que, aos poucos, estamos vendo — de Sheryl Sandberg falando de mulheres na liderança de empresas à Emma Watson representando a ONU Mulheres.

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Você já tinha sofrido assédio bem antes da Olga. Com a repercussão das campanhas, também. O que mais te enoja em tudo isso e quais providências você costuma tomar?

O assédio é uma violência que humilha, traumatiza e amedronta a mulher. Ele não surge da valorização e sim das relações de poder de gênero, da necessidade de impor na mulher um desejo sexual independente de consentimento. Acho aterrorizante perceber como não temos direito aos espaços públicos, mas nossos corpos são sim vistos como públicos. Como se qualquer homem tivesse o direito a usá-lo da forma que bem entender, em qualquer lugar, a qualquer hora. É lamentável o fato de que nós, mulheres, não podemos experimentar cidade da mesma forma que homens — temos medo de ir a certos espaços à noite, de passar em frente a locais com grande concentração de homens, que pensamos duas ou três vezes nas roupas que vamos usar para escapar dessa violência. Jamais, na história da sociedade, um homem precisou ter essas mesmas preocupações. Sempre tive muito medo de responder a assédios — mesmo porque eles começaram quando eu ainda era criança, aos 11 anos. E não foram apenas assédios verbais (que considero uma violência também bastante dolorida para a mulher). Aos 13, um desconhecido na rua puxou meu braço e me empurrou na parede, dizendo que “eu era muito bonita e que queria me comer”. Por sorte, ele estava bastante bêbado, então tive forças para me desvencilhar. Mas e se não tivesse forças? Nós nunca sabemos quando um assédio pode virar estupro ou até mesmo um outro tipo de violência. Quem nunca respondeu a um assédio e, em seguida, ouviu um xingamento ou até mesmo sofreu uma violência física? Mas sinto que graças a campanhas contra o assédio, as mulheres se sentem mais corajosas para responder, buscar ajuda, denunciar para policiais. E também convido a todas que quiserem denunciar qualquer violência contra a mulher a entrar no mapa Chega de Fiu Fiu (www.chegadefiufiu.com.br) e compartilhar sua história. Nossa proposta com a ferramente é de registrar os locais problemáticos do Brasil. E ao conhecer esses pontos críticos, podemos entender o motivo que os levam a assim ser: é uma rua com iluminação escassa? É uma casa noturna com segurança falha? Somente compreendendo tais questões é que podemos buscar mudanças – e não apenas no setor privado, mas também no público.

Quais as histórias mais difíceis que você já ouviu depois de ter aberto esse espaço?

Antes do mapa, abri um espaço na própria Olga para publicar depoimentos de mulheres vítimas de assédio sexual. O recorte era esse. Mas rapidamente as denúncias já se ampliaram para outros tipos de violência de gênero: violência doméstica, machismo no trabalho, gaslighting (www.papodehomem.com.br/porque-as-mulheres-nao-estao-loucas/), racismo, gordofobia, homofobia, abuso sexual na infância e estupro. Foi um espaço em que elas acharam para poder relatar o que sofriam, botar pro mundo os horrores que viviam. Já recebi milhares de depoimentos sobre violência contra a mulher. No grupo de discussão da Olga, também tenho contato com muitas histórias de partir o coração. Confesso que até hoje eu me emociono com esses depoimento, choro, passo raiva, sinto meu coração acelerar. Vivo alternando entre o otimismo (pois acho que estamos avançando muito na conversa sobre violência contra a mulher) e o pessimismo (pois às vezes acho que a única solução para um mundo que permite que mulheres sejam abusadas desde a infância é explodi-lo em milhões de pedacinhos).

Você se dá conta de como ajuda a transformar a vida de várias mulheres?

Espero que a OLGA esteja mesmo cumprindo com o que se pretende, que é empoderar mulheres. E faço também a pergunta ao contrário: será que essas mulheres se dão conta de como me ajudam a transformar a minha vida?

Daqui a 10 anos, o que espera para você, para a Olga, para a causa?

Espero que as mulheres passem a ser tratadas como seres humanos — por revistas, pela publicidade, pela política, pelos homens. Seres humanos de direitos, de desejos e vontades próprias. Será que é querer muito? :-)

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