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A força das mulheres de verdade ilustradas por Priscila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

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Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

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A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

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A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

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Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

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Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

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Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

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Mais:

Brunna Mancuso

Maria Beraldo: “A música só pode me salvar e não me afundar”

por   /  05/04/2018  /  9:00

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Existe algo de hipnotizante quando Maria Beraldo encara a câmera e começa a cantar. Tem força e mistério, como em “Cavala”. E também tem suavidade, uma aproximação de quem liga o computador, pega o violão e se diverte com aquilo que sabe fazer desde criança.

Cantora, compositora, clarinetista e claronista, Maria se prepara para iniciar a carreira solo, aos 29 anos. Vai até domingo (08/04), aliás, a campanha de financiamento de seu disco no Catarse (apoiem!).

Ela faz parte da banda de Arrigo Barnabé em “Claras e Crocodilos” e da Quartabê. Já gravou Moacir Santos, este ano lança um disco a partir da obra de Dorival Caymmi, além de assinar os arranjos de sopros de algumas faixas do novo CD de Elza Soares. Também vai lançar o primeiro álbum do trio Bolerinho.

Na entrevista abaixo falamos de música e de ser mulher, tópicos do nosso maior interesse.

Mais: @mariaberaldobastos_ + facebook.com/beraldomaria

– O que a música representa na tua vida?

Poxa, essa pergunta é coisa muito séria. Tão séria que eu acredito que vou levar a vida descobrindo e transformando uma possível resposta, mas tenho nesse momento uma sensação com relação a ela, que não é exatamente uma resposta.

No processo de produção do meu disco solo – que começou há alguns meses como produção, e como composição há uns 4 anos – eu percebi mais objetivamente a função emocional da música na minha vida. Tem uma coisa física de preenchimento emocional. De cuidar das minhas carências e preencher buracos de uma maneira muito objetiva. Sou muito passional e algumas pessoas são donas do meu humor, ou minha relação com essas pessoas. Descobri nesse processo como minha relação com a música também opera nesse âmbito. Conduz processos emocionais profundos e rasos, pode me salvar e me afundar. E me dar extremo e muito prazer.

Mas isso é uma divagação e pode parecer blablabla. Mas, ora, se não fosse isso eu não dedicaria minha vida a fazê-la – fazer-me.

A música é a maneira que eu tenho de dizer. É como aprendi a me expressar. É uma ferramenta de transformação pessoal muito potente e uma via de condução.

Faço música desde os 6 anos de idade tocando instrumentos e desde a barriga ouvindo e cantando. E vejo na música que faço em cada período da minha vida quem eu era naquele momento. Talvez a via mais transparente de mim.

Nesse sentido acredito que ela só possa me salvar e não me afundar.

Venho estreitando minha relação com ela e comigo.

E isso tudo porque aprendi os afetos em conexão com a música.

Meus pais são músicos, minha irmã também, e mais dois irmãos, todos esses músicos profissionais. Então pra mim muita coisa foi aprendida com essa via, esse meio de comunicação com as outras – que não exclui os homens – e comigo.

Me toca a música dos outros – quando me toca.

Me comunico profundamente através dessa coisa que ela é.

– Ser mulher na música significa….

Adoraria responder que ser mulher na música significa ser uma pessoa na música. Ou que ser mulher na música significa ser mulher na música, mas não chegamos nesse ponto ainda.

Ser mulher na música é uma luta. Me encontro cada vez mais como mulher – a mulher que eu quero ser a cada instante, não a que está descrita nas bulas – e cada vez mais como uma pessoa que se coloca como indivíduo na música – e isso me leva de volta ao coletivo automaticamente.

Acredito que toda mulher que busca sua autonomia na música é uma mulher de luta, e cada uma encontra sua maneira. Eu encontrei uma agressividade muito grande que é minha, combinada com uma doçura, e assim digo o que tenho pra dizer, busco o que tenho pra buscar. Tenho muitos sofrimentos como mulher no meu corpo, e meu corpo é feito de muitas mulheres que sofreram por suas vidas inteiras, e esse sofrimento talvez, de maneira exponencial, é pensando cronologicamente nas gerações de frente para trás. Sinto essa vibração em mim – parece que minha matéria encontra sua potência quando se dispõe a tal conexão com essas pessoas, as do presente que são feitas de muitas outras pelas linhas múltiplas dos tempos. Nada místico, nada premeditado, só foi acontecendo. Fui encontrando minha identidade em uma agressividade que eu não conhecia e que me leva a transformações. A doçura igual, mas ela eu já a conhecia e me cansei um pouco, mas permanece.

Me sinto muito acolhida pelas mulheres. Virei mulher na música num momento de glória – estamos finalmente mais atentas, mais juntas.

As dificuldades, os absurdos, os assassinatos, permanecem, mas sinto que estejamos criando ferramentas para irmos nos levantando. Juntas.

– No que você tá trabalhando agora?

Agora estou mergulhada no meu primeiro disco, “Cavala”. Estou terminando a produção dele junto com o Tó Brandileone, começando a mixar com o Ricardo Mosca e produzindo o clipe do single que antecederá o álbum.

Estou trabalhando muito no meu projeto de financiamento coletivo para este disco, na plataforma do Catarse: catarse.me/mariaberaldo

Estou ensaiando com a Quartabê – banda que tenho com Mariá Portugal, Joana Queiroz e Chicão – o nosso terceiro disco, desta vez a partir da obra de Dorival Caymmi, com apoio da Natura Musical.

Estou em fase de pré-lançamento do álbum do “Bolerinho”, meu trio com Luísa Toller e Marina Beraldo Bastos (sim, minha irmã). O disco já está pronto.
Fora isso existe o trabalho com Arrigo Barnabé para o qual vivo na espreita e o qual muito me nutre.

E para além tenho gravado discos de amigos como Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Rômulo Fróes, Manu Maltez e tenho ido ver meus amigos tocando, o que não é um trabalho mas participa dele.

– “Cavala” fala do encontro de duas mulheres. No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Ser lésbica exige um posicionamento político. Ou você se omite ou você enfrenta a realidade e rompe muitos padrões sociais e sofre preconceitos.

Eu por muito tempo me reprimi muito, por conta de muitos fatores na minha criação, e também graças a essa mesma criação eu tive forças pra perceber e lutar contra essa repressão.

Encontrei muita força nessa luta – de enfrentar o que for preciso pra poder simplesmente ser, o que jamais poderia ser simples.

A música é um canal muito forte pra mim e encontrei na composição e nesse meu trabalho solo uma via de transformação e de libertação totalmente relacionada à minha sexualidade. Então meu trabalho solo fala disso, tem essa força política ligada ao fato de eu ser lésbica e dos sofrimentos que tive e tenho por isso.

Estão nesse trabalho também os prazeres e orgulhos que tenho e fui encontrando cada vez mais através dele.

Preciso afirmar minha sexualidade porque se eu não afirmo sou engolida pela heteronormatividade e isso me fez muito mal por muito tempo, então sai de dentro de mim em forma de grito.

Me sinto muito bem recebida desse jeito.

Sinto que ajudo muitas mulheres lésbicas com minhas músicas. As pessoas precisam de espelhos, de referências, precisamos saber que não estamos sozinhas porque somos seres de sociedade. Eu cresci sem referência de mulheres lésbicas que eu admirasse e que fossem assumidas. Cresci vendo essas mulheres – que eu admirava e que eram referência pra mim, por exemplo, professoras – omitindo o fato de serem casadas com outras mulheres, ou mesmo sua sexualidade independente de casamento. E isso pra mim sempre foi sofrido. Hoje recebo muitas mensagens nas redes sociais de pessoas que dizem que minha música as ajudou a sair do armário, pessoas totalmente identificadas com minhas músicas, acho que ela tem essa função de espelho, e dá força.

Isso consome muita energia. Para além dos haters que começam a aparecer, e dos amigos que manifestam em forma de preocupações cuidadosas visões que agridem totalmente minha natureza e o posicionamento político que preciso ter para sobreviver nessa sociedade homofóbica (sem perceberem que estão fazendo isso, é claro, mas consumindo muita da minha energia de luta), lido todos os dias com minhas dificuldades pessoais, com a minha remanescente homofobia que às vezes aparece, e me expor tem um custo muito alto, mas não tenho dúvidas de que vale muito à pena.

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– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre “Três Estrelinhas” (Anacleto de Medeiros):

To apaixonada por “Consideration” (Rihanna e SZA):

Mais entrevistas com cantoras brasileiras:

O artivismo fundamental da Aíla

O climão de Letrux no melhor disco do ano

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Autoamor e natureza na fotografia de Ieve Holthausen

por   /  03/04/2018  /  9:09

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Gosto de ver como trabalhos de mulheres diferentes se conectam. Conheci o da Ieve Holthausen por meio de uma indicação da Tuane Eggers, que já apareceu por aqui (A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers). Ela também falou da Chana de Moura (Fotografar foi o início de uma liberdade). As três são do Sul – e se conectam com si mesmas e com a natureza para criar imagens em que a gente quer mergulhar, fazer parte.

Conversei com a Ieve sobre seu trabalho. Espero que gostem!

Mais: @ieveholthausen + ieve.org

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Penso que é o sagrado que é o objeto da minha fotografia. Entendi que de forma mais inconsciente ou intuitiva costumo buscar em meu trabalho fotográfico fazer uma louvação à natureza (que é Deus para mim) e aos sentimentos mais elevados, como o amor. Percebo que minhas fotos falam de conexão consigo ou com a natureza, de meditação, de transcendência, da potência das viagens interiores, buscando lembrar que somos consciência. E também falam de ser mulher, de nossa força, de nossa sensibilidade, da potência da união feminina e do autoamor e da libertação dos nossos corpos de mulheres – os portais que nos trouxeram até aqui.

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Acho que não estou muito inserida no meio da fotografia, visto que não participo de editais, concursos, eventos e não tenho quase nenhum contato com outros fotógrafos (exceto duas amigas) ou qualquer coisa assim. Fico meio escondida e não percebo a muito diferença entre ser homem e ser mulher nessas circunstâncias, embora saiba que exista bastante machismo nesse meio.

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A fotografia representa a linguagem que minha alma aprendeu a usar para se expressar. Tudo aquilo que não consigo expressar por palavras, pintura, desenho ou música. É a maneira de revelar e compartilhar um pouco do meu universo interior.

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As mulheres na ilustração de Brunna Mancuso

por   /  02/04/2018  /  9:09

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Colocando em prática a vontade de falar cada vez mais do trabalho de mulheres – e mulheres brasileiras -, converso hoje com a Brunna Mancuso, ilustradora que tem um traço daqueles que dá vontade de dar print e guardar pra mostrar pra mais gente, sabe?

Mais > @brunnamancuso

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Eu já trabalhava como designer há alguns anos, no meio editorial, quando entrei, em 2012, na faculdade de artes visuais. Aconteceu de eu começar a trabalhar, bem timidamente, com ilustração editorial, ao mesmo tempo que estava na faculdade. Desde o começo eu tinha uma inclinação bem forte para desenhar temas femininos, e só segui minha intuição. Até hoje sigo abordando os mesmo temas, porém com mais técnica e profundidade.

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O universo que eu vivo é bem feminino. Entre meus contatos profissionais e colegas de profissão, há muito mais mulheres do que homens. Sinto um movimento forte dentro da área, sinto mulheres sendo mais procuradas e reconhecidas. Claro, sei que vivo numa bolha e que nem tudo no mercado é assim, tem outras áreas da ilustração (como a de quadrinhos, por exemplo) em que nós mulheres ainda estamos lutando por espaço. Porém não posso reclamar.

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Vivo arte 24h por dia. Nos momentos raros que eu não estou trabalhando, estou planejando novos cursos, novas obras, buscando referências, mesmo quando estou fazendo outras coisas. O cérebro não para, literalmente. Às vezes tenho, inclusive, dificuldade me dormir. Com a maturidade, estou aprendendo a ter uma vida mais equilibrada, pois já tive muitos problemas de estafa mental e física no passado. Hoje sei valorizar os momentos de descanso e ouvir meu corpo, mas pra mim é difícil parar, já que o maior prazer da minha vida é criar.

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Mais:

Priscila Barbosa

O artivismo fundamental de Aíla

por   /  29/03/2018  /  15:15

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Escute “Lesbigay” e prepare-se: a música vai grudar na sua cabeça e vai te fazer querer ouvir muito mais do que Aíla tem para cantar. Ao vê-la ao vivo, a potência impressiona. Ela enche o palco inteiro,  e aí você entende que música boa te faz dançar enquanto fala de algumas das questões fundamentais desse mundo doido em que a gente vive.

Conversei com a cantora paraense em uma extensa entrevista, daquelas que dá vontade de trocar os emails por uma conversa ao vivo, sabe? Espero que gostem!

Mais Aíla: @ailamusic + YouTube + site oficial

As fotos são de Julia Rodrigues.

– Ouvindo seu disco lembrei daquela frase “Se não posso bailar, não é a minha revolução”. Você fez um álbum político do começo ao fim. Conta um pouco sobre ele, sobre como assuntos tão diversos como desmatamento a LGBTfobia te interessam?

De um tempo pra cá, eu senti que precisava falar do hoje, das coisas urgentes que nos cercam, que precisam ser ditas. Eu queria uma poesia mais política. Desde que comecei a idealizar esse novo trabalho, um pensamento que me movia muito era a possibilidade de fazer as pessoas dançarem muito, cantarem alto e refletirem ao mesmo tempo. Sempre imaginei aproximar canções pops, dançantes, desse discurso mais ‘artivista’. Com esse desejo, temas como feminismo, assédio, racismo, homofobia, ocupações, intolerância e resistência ganharam o centro do debate.

Arte é revolução. O maior sentido de fazer arte hoje, pra mim, é transformar o agora, é mover, fazer refletir, cutucar, contra-atacar. Somos responsáveis pela construção de espaços de debates, de diálogos. Apesar de vivermos em um mundo controlado pelo medo, pelo capital, pela repressão, nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade. Esse disco é um grito contra a intolerância, o preconceito, o ódio, o aprisionamento, a exclusão.

– Você cresceu na periferia de Belém. O que isso te deu de bagagem?

Acho que a minha origem, a Terra Firme, que é também um dos bairros mais populosos de Belém, tem total relação com as minhas inquietudes, as minhas lutas, as minhas ideologias, as minhas buscas… Tenho muito orgulho de ter vindo da “TF”, e mais feliz ainda de poder estimular outros artistas da periferia a apostarem nos seus sonhos e acreditarem que a arte pode sim fazer revolução.

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– O que te formou musicalmente? O que te inspira a compor?

Desde sempre, fui estimulada a ouvir todo tipo de música, de todos os cantos. Ainda no Pará, pelos LPs e fitacassetes da minha mãe, Mutantes, Tropicália e Jovem Guarda a todo vapor. Pelas frequências das rádios, chegavam os sons quentes da América Central que se misturavam às referências locais, cumbia, calypso, lambada. Pelos carros-som e festas de aparelhagem, em altíssimo volume, ecoava o brega, o tecnobrega, que é o beat da periferia. Na adolescência, ouvi demais música brasileira e de artistas transgressores também: Elis, Cazuza, Cássia, Marina, Arnaldo. Minha formação musical tem muita relação com esse mix de referências, essa multiplicidade… Nos últimos anos, em busca de inspirações pro novo trabalho, conheci muita coisa nova, imergi na obra de uma banda brasileira de pós-punk da década de 80, chamada As Mercenárias, uma banda só de mulheres, com letras diretas, pops, curtas, e políticas, que muito me influenciou a começar a compor. A música “Rápido”, desse meu novo disco, flerta bastante com essa influência. Adentrei em universos de artistas brasileiros que muito me inspiram hoje, como o pernambucano Siba, a multiartista Karina Buhr, o grande Chico César e o próprio Lucas Santtana, que produziu esse meu disco mais recente. Sou fã de artistas que são agitadores políticos também. Um artista posicionado politicamente, nos tempos de hoje, é necessário, urgente, e faz todo sentido pra mim.

– Voltei de Belém ano passado encantando com o tanto de música maravilhosa que ouvi. Como ser de lá influencia a tua música? Quem são os artistas que te formaram, com quem você já trabalhou, com quem deseja trabalhar, o que a música paraense representa pro Brasil?

Belém é incrível mesmo, e é intensa musicalmente. Meu primeiro disco, o “Trelêlê” (2012), reflete muito o início da minha carreira, os tradicionais festivais de canção que eu participei pelo Pará, o convívio com compositores da região norte e todas as influências que me cercavam: carimbó, lambada, brega, guitarrada… A intenção era a de misturar a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna, muitos discos seguiram esse caminho na época. Naquele momento, tava rolando o “boom tropical” que o Pará viveu e exportou para o resto do Brasil (e exporta até hoje). Aí conheci pessoas queridas, parceiras pra vida toda, como Dona Onete. Fui a primeira cantora a gravar uma música dela, e tenho maior orgulho disso. Meu primeiro videoclipe, lançado em 2013, foi o primeiro videoclipe dela também, “Proposta Indecente”, música que reverberou demais. Em 2015, quando me mudei pra São Paulo, a intenção era de criar novas conexões e fazer circular mais o meu trabalho. Aí novas referências chegaram, novos caminhos. Então veio a vontade de compor sobre o agora… O meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena e fiz o disco “Em Cada Verso Um Contra-Ataque”. Sinto que me encontrei totalmente nesse trabalho, me conectei comigo de vez. Tem o Pará ali ainda, um outro Pará, que faz dançar, mas cutuca, que tem lambada, mas tem punk também. Um Pará que o Brasil precisa conhecer mais.

Nesse processo todo, já me conectei e trabalhei com muitos conterrâneos, como Banda Strobo, Gaby Amarantos, Felipe e Manoel Cordeiro, Mestre Solano, e tenho buscado me aproximar cada vez mais dos artistas da periferia, onde encontro fortes afinidades, como o rapper Pelé do Manifesto, que pouca gente conhece e tem muito a dizer.

São Paulo, SP, BRASIL 26.05.2016 : Aíla. (Foto: Julia Rodrigues)

– O que ser cantora, compositora, artista, melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?


Ser mulher em um país culturalmente machista, em qualquer meio, já trás um peso e uma dificuldade maior pra se alcançar qualquer objetivo, e na música não é diferente. A figura da cantora sempre carregou o estereótipo de “musa”, “diva”, intocável, que só tem que ser “bonita”, cantar “afinada” e ponto. Então pra mim a quebra de padrões já começou daí, fui percebendo que precisava me colocar de outra maneira. Nesse segundo disco, por exemplo, comecei a buscar parceiras mulheres pra compor junto, além de ter também começado a compor as minhas próprias músicas. Em termos visuais, comecei a investir em figurinos mais conceituais, artísticos, esquisitos para alguns, mas que na verdade fogem da imagem “cantora-mulher-sexy”. Eu posso cantar, compor, ser performer, produzir discos, tocar, sei lá, qualquer coisa… Mas as pessoas sempre irão reduzir a minha função somente a “cantora”, isso mostra que não importa a multiplicidade de coisas que uma mulher pode ser, ela sempre será enquadrada na categoria mais aceita pra sociedade machista. Mas sinto que isso tá mudando, e isso tem total relação com a luta feminista, com as nossas mudanças de posturas. Eu, diariamente, luto pelo contrário, seja no palco, ou fora dele, de forma individual ou coletiva, como a ideia de criar o Festival MANA > Mulher, Arte, Narrativas, Ativismo < que aconteceu no ano passado em Belém, um festival de arte e feminismo, idealizado por mim e pela Roberta Carvalho, que é artista visual e minha mulher, e que nasceu com o intuito de debatermos o protagonismo das mulheres nas artes. É isso, precisamos agir pra passar por cima das dificuldades.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Ah, não sei muito o que será de mim (pausa dramática, risos)… Mas acho que estarei sempre cheia de inquietudes, lutando por alguma coisa, cheia de vontade de mudar as coisas pra melhor, e isso irá me mover, com certeza. Sendo mais objetiva agora (meu lado escorpiana), daqui há 5 anos, me vejo com mais 2 discos lançados, uns 20 clipes pela internet, 2 turnês internacionais, uma pela América Latina e outra não sei por onde ainda, e já na minha casa própria. Daqui a 20 anos? Uau, difícil imaginar, mas se eu estiver viva (quero estar!), estarei com 50 anos, e já quero ter aumentado a família, meu amor do lado forever, uns 3 filhos, adotados também, uma fazenda orgânica, com toda nossa alimentação diária vinda de lá, minha mãe do ladinho, cheia de saúde. Uma vida de música a todo vapor. Muitas composições novas, parcerias inéditas. E, através da minha arte, fazendo ARTivismo!

– Ser artista no Brasil hoje é…

Resistência pura, mas é necessário seguir.

Fotografar foi o início de uma liberdade, diz Chana de Moura

por   /  14/03/2018  /  10:10

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Chana de Moura é fotógrafa, gaúcha, tem 29 anos. Faz uso da fotografia para compreender como percebe e interage com os diferentes ambientes à nossa volta. Ela faz isso por meio de várias mídias, como a fotografia em si e também colagens, desenhos, gravuras e objetos. A natureza e o universo místico são duas de suas maiores fontes de inspiração. Em um bate-papo rápido ela mostra a profundidade de suas escolhas.

Mais: chanademoura.com.br e @chanademoura

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[Minha fotografia fala de] Reintegração. Creio que hoje em dia possuo um objetivo fotográfico mais definido do que o ato de fotografar significa em minha vida. Antes, pulsava em mim uma vontade louca de sair fotografando, de inventar cenas, procurar cenários e produzir um momento fotográfico. Hoje, eu fotografo elementos bem mais pontuais. Penso antes de fazer uma foto. Busco, através das imagens, compreender como é que eu e as outras pessoas percebem e interagem com os diferentes ambientes à nossa volta.

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Anseio compreender qual o papel da natureza e da paisagem em nossas vidas e porque agimos como se não fôssemos parte do mundo natural. Fotografo para expressar uma idéia ou, como no caso dos autorretratos recentes, pelo desejo de compreender-me enquanto um ser que habita este espaço comum com diversos outros seres de distintas espécies. Quando penso nisso, sempre lembro de uma fala de Sagan, nela ele ressalta a importância de sermos humildes. Veja bem: nós, humanos, surgimos no planeta quando 99,9% da terra já estava completa praticamente do jeito que a conhecemos hoje. Isso quer dizer que surgimos num último instante cósmico, que somos uma parte muito ínfima de um todo que veio antes de nós.

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Quando fotografo, principalmente os autorretratos, os quais chamo de “Mecanismos de reinserção”, busco justamente essa reintegração. Desejo um lampejo do que seria a vida se a humanidade não tivesse se afastado tanto do poder primordial, do que conhecemos como a natureza. Não é que eu romantize a ideia de natureza, achando que esta não se trata de um império hostil, é só que na natureza parece haver uma coerência de vida, algo que acredito ser impossível de encontrar vivendo na estrutura em que nós, pessoas, vivemos hoje. Sei que esse afastamento é, afinal de contas, um processo natural, que não quer dizer que também não sejamos natureza por termos nos afastado em determinados aspectos, apenas creio que a fotografia pode ser uma maneira de percebermos o mundo no qual estamos inseridos e também de interagirmos com o mesmo. Quando tento me “reintegrar”, na verdade estou buscando quase uma utopia de experienciar a vida como se nada jamais tivesse sido rompido.

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[Ser mulher neste meio] É maravilhoso! Sou eternamente grata ao universo por ter nascido mulher, essa condição é algo que permeia muito meu pensamento criativo. Sei que há situações bem complicadas em outros meios, mas no meio da arte que conheço, não presencio muita distinção por gênero. Sei que no cinema e que em outros ramos da fotografia é mais delicada a questão de ser mulher. Claro, essa é apenas minha experiência de vida… Já ouvi de amigas que passaram por situações bem severas: muitos homens assumem compreender mais do que as mulheres, principalmente as competências técnicas. Mas acredito meu caminho é um pouco paralelo: eu gosto muito de experimentar em fotografia, não me encaixo muito bem nas especificidades das questões técnicas, gosto delas para subvertê-las.  Por isso, possivelmente, nunca passei pela situação de alguém querendo me ensinar algo que eu já sei.

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A fotografia em minha vida representa uma grande constelação de apreensão de mundo. Fotografar foi o início de uma liberdade, uma forma de se opor à realidade objetiva (mas sem desconsiderá-la). Hoje ainda é um sinônimo de liberdade, mas também é um meio de estender as emoções, reorganizar o mundo, repensar estados do corpo e do espírito. É um método de voltar-me para fora e voltar-me para dentro, é um comunicar-se com o futuro e um comunicar-se com o passado. Também é uma forma de des-frustrar-me com o presente.  Ou seja, entender pelo reflexo e pela apropriação da vida, ser espelho: apreender em si e devolver ao mundo.

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Quando a vida é uma euforia: o Carnaval de Joana Lira

por   /  23/01/2018  /  12:00

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Joana Lira é o Carnaval. Uma artista gráfica que personifica, no trabalho e na vida, a paixão pela maior de todas as festas. Ela é amor, suor, brilho e euforia. Euforia esta que é traduzida em suas aparições por Olinda. E que, por 10 anos, foi o fio condutor para que ela “vestisse” a folia do Recife com suas criações.

Sou apaixonada pelo Carnaval de Joana Lira muito antes de conhecê-la. Ao atravessar as pontes do Recife em meio a seus bonecos gigantes, vendo a cidade em outra dimensão, com um colorido de encantar. Ao olhar Joana de longe pelos blocos de Olinda, sempre maravilhosa em suas fantasias. Há poucos anos, nos encontramos em uma prévia do Eu Acho é Pouco ao som da bateria e de Lala K. Brincamos o dia todo com um espelho. E o que era admiração de longe se tornou um bloco de amor – de Carnaval e dia a dia.

Com muita alegria e um trabalho de seis anos pra colocar tudo de pé, Joana materializa seu legado com a exposição “Quando a vida é uma euforia”, que será aberta hoje no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Com curadoria de Mamé Shimabukuro, a mostra mistura obras documentais e imersivas sobre histórias e personagens da festa. Que sentimentos e emoções esses quatro dias suscitam? É o que a gente vai descobrir logo mais à noite. Convido vocês a conhecerem do Carnaval que é uma explosão para tantos de nós.

Antes disso, uma conversa com essa musa.

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2010_JOSIVAN RODRIGUES_1 Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_4

– Conta um pouco da tua relação com o Carnaval? Qual é a memória mais antiga que tu tem dessa festa na tua vida? E a mais inesquecível?

O Carnaval funciona pra mim como um combustível, uma injeção de vida. Mas não é qualquer Carnaval, tem que ser o carnaval de Pernambuco. Minha memória mais antiga é de ir pro Galo da Madrugada, ainda muito pequena, com meu pai. Sempre amei me fantasiar e sempre tive muitas fantasias, até hoje… rs. Tenho muitas memórias lindas, mas uma que me fez chorar foi me deparar, por puro acaso, numa noite já voltando pra casa, com o exuberante desfile do bloco Elefante de Olinda e poder ver de muito perto todo seu cortejo elegante e mágico. Parecia um sonho.

– Conta um pouco da tua trajetória como artista? Aquela coisa de se apresentar pra quem ainda não te conhece.

Nasci numa família cheia de dons artísticos e com gosto estético bem aguçado. Me formei em design gráfico em Recife em 1997, mesmo ano que fiz minha primeira exposição individual. Trabalhei com suportes diversos e pra mim isso sempre foi um encanto: estamparia, cerâmica, ilustrações de livros. Em 1999 me mudei pra São Paulo. Três anos depois, estava fazendo parte da equipe que criava a cenografia do carnaval do Recife, trabalho que desenvolvi por 10 anos e me jogou para o mundo. Com dele, lancei livro e participei de exposições dentro e fora do país. Fui convidada por grandes empresas a fazer linhas de produtos assinados de várias naturezas. Parcerias que conservo até hoje e que inclusive me apoiaram para eu poder realizar esta exposição. Já há algum tempo tenho repensado minha trajetória e tenho tido desejo de voltar a realizar meus projetos de artes visuais. Inclusive já comecei pôr em prática.

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Joana carnavalesca - foto Gilvan Barreto 1_low Joana carnavalesca - foto Gilvan Barreto 2_low

– E fazer o Carnaval do Recife por tantos anos, como foi a experiência? O que de mais precioso tu guarda disso?

Foi um aprendizado imenso, e ainda é, mesmo depois de já passados 7 anos que parei de fazer. Tem percepções que acontecem com a maturidade da vida e com o tempo. Antes eu acreditava que a maior mudança que este trabalho havia me dado era a de perceber que a força de um desenho é imensurável. Já hoje percebo que o que foi mais importante de verdade foi ter a oportunidade de criar obras onde pessoas de todas as classes sociais podiam ter acesso.

– Carnaval é euforia, mas também renovação e um monte de coisa mais. O que o Carnaval te ensinou e ensina?

Carnaval é tanto, né? É brincadeira, é transformação, é cultura, é todo mundo junto, é extravaso, é autoestima, é persona e personagem, é gastança de energia, é beijo na boca, é suor, é alma, é encontro, é riso, é cor, é aperto, é dor nas pernas, é reafirmação, é choro, é se deixar, é brilho, é paixão no talo, é comichão, é entender a dança da multidão… Como definir tanta emoção e aprendizado?

– Qual é seu roteiro imperdível em Olinda?

Faz anos que repito o mesmo roteiro. Este ano quero mesmo é me perder na multidão pra me achar de verdade.

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_1

Exposição: Quando a vida é uma euforia

Instituto Tomie Ohtake (rua Coropés, 88, Pinheiros, SP)

Abertura: 23/01, às 20h

Até 04/03 – grátis

De terça a domingo, das 11h às 20h (fechado no Carnaval do dia 10 ao dia 14 de fevereiro, ao meio-dia)

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Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_BETO FIGUEROA_3

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2007_TIAGO LUBAMBO_2

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2008_TIAGO LUBAMBO_3

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_BETO FIGUEROA_1

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_BETO FIGUEROA_2

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_3

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2010_JOSIVAN RODRIGUES_1

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2010_JOSIVAN RODRIGUES_2

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2010_JOSIVAN RODRIGUES_3

Joana Lira, exposição “Quando a vida é uma euforia”, carnaval 2009_JOSIVAN RODRIGUES_3

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“Treta”, um disco de Marcia Castro para o corpo – e a pista

por   /  13/11/2017  /  15:15

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Gosto de pensar na importância da gente construir um repertório de pista baseado em músicas novas – e não só nas maravilhosas que nos acompanham há 10, 30, 40 anos (como “Cartaz”, de Fagner, “Todo dia era dia de índio”, de Baby do Brasil, e todas aquelas que recheiam o som nas festas de música brasileira, sabe?). Então gosto quando artistas de hoje se propõem a criar músicas pra gente dançar – e suar, colocar o corpo em movimento.

Ao ouvir “Treta”, da Marcia Castro, pensei nisso. Que bom! Foi então que deu vontade de fazer mais uma dessas entrevistas longas, em que a gente tenta conhecer mais da artista, sabe? Espero que gostem!

Pedi playlist pra ela também. Tá uma delícia, ouçam!

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

– Depois de ouvir “Treta” pela primeira vez, pensei: a Márcia Castro quer ser a Anitta, e isso é maravilhoso! Como se deu essa mudança de sair de uma carreira na MPB para algo tão sexy e pop?

Quando comecei a produzir esse trabalho, não tinha idéia onde isso daria, estética e pessoalmente. A única coisa que sabia era que queria produzir um som eletrônico, eu queria dançar com o meu som. Há alguns anos eu vinha fazendo em Salvador um projeto de verão chamado Pipoca Moderna, onde aconteciam encontros bem alegres entre diversos artistas da música brasileira, como Otto, Caetano, Gil Zeca Baleiro etc. Sentia falta de uma música minha que representasse esse espírito de celebração, de dança. Daí vi que fazer um som eletrônico dançante poderia ser um desafio muito enriquecedor para mim, para minha carreira, para esse desejo. Convidei o Rafa Dias (DJ e produtor baiano) para iniciar esse processo comigo, mergulhei no eletrônico de cabeça, nas referências que vinham a partir de Rafa, que já tinha ali um filtro do que poderia me interessar mais, pois o mundo eletrônico é muito vasto. Foi um ano inteiro de processo, desde começar a finalizar o vídeo. E muitas tretas e mudanças pelo meio do caminho. O que se revelou foi a vontade de produzir um som mais pop, que se comunicasse diretamente com as pessoas, e com muitas pessoas. As letras, melodias, os timbres, tudo isso foi definido por esse desejo. E tom sexy se estabeleceu por conta de minha vida pessoal, de novas experiências com o meu corpo. Tudo acontecendo enquanto eu fazia o disco. A música revelou minha vida.

– O disco marca uma fase de transformação na sua vida. Conta sobre ela?

Eu era casada por 9 anos. Em 2016, meu casamento chegou ao fim, me apaixonei por uma pessoa. Tudo que era estável e encaixado em minha vida se estremeceu. Perdi meus lugares de permanência, lugares afetivos, sociais…. Em contrapartida, conquistei novas experiências que só são possíveis a partir do furacão de uma paixão. Todo esse território de instabilidade e novidade foi fundamental para me fazer nessa nova etapa. Não foi fácil, porque a crise estava ali, com todo sofrimento que acompanha toda crise, e em meio a isso havia a responsabilidade de colocar um trabalho novo no universo. Chegado ao fim, parece que você viveu uma longa ressaca. E depois o alívio de ter sobrevivido e construído coisas tão importantes, como esse disco.

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– O disco é do corpo, da pista, cama. O corpo é quase um instrumento nele. Faz sentido?

Faz todo sentido. Há alguns anos comecei a me relacionar de um jeito novo com meu corpo. Mudei minha alimentação, comecei a fazer exercícios intensos regularmente, acendi uma vaidade que estava escondida. Daí o corpo acendeu junto. E foi acendendo faíscas, contaminando quem estava ao redor. E tudo foi acontecendo….

– O que um casamento duradouro trouxe de aprendizados? E para o que uma nova paixão te despertou?

Meu casamento foi longo, 9 anos de relação. São muitos aprendizados. O maior talvez se refere a alteridade. Você perceber o outro a partir dele, ser generoso, saber ceder, saber dividir. Nenhum relacionamento dura tanto tempo de um modo saudável se você não consegue desenvolver esses sentimentos numa relação. Amadureci muito nesse período, como se estivesse mais preparada hoje para viver comigo, dentro e fora de uma relação. A paixão, por outro lado, lhe faz descobrir a intensidade dos desejos, a urgência dos sentimentos, o carnal, o sexo, o frescor da admiração, coisas que, se você não cuida numa relação, vão se perdendo e minando esse território estável. É necessário a gente estar sempre atento para manter a faísca da paixão acesa numa relação. Isso é possível.

– De quem você se cercou para fazer o disco? Não só os compositores e produtores (quero saber dessas escolhas), mas também o que foi referência pra você durante o processo?

Musicalmente, me cerquei de poucas pessoas, porque o trabalho eletrônico é mais enxuto, são menos profissionais necessários para fazer a coisa andar. Iniciei o processo com o baiano Rafa Dias, que foi fundamental para me lançar na história eletrônica. Tínhamos imersões mensais no trampo, aprendi muito nessa fase inicial. Depois, Marcos Vaz se juntou ao trabalho trazendo novas referências e muita experiência, pois há muitos anos ele desenvolve uma pesquisa nesse território eletrônico. Os compositores Ozz, Raoni, Luciano Salvador Bahia, Jurema Paes, Ava Rocha, que conversaram comigo no processo e enviaram músicas e versos a partir dessa minha demanda. Os músicos baianos Juninho Costa (guitarrista), Chibatinha (guitarrista) e Gustavo DiDalva (percussionista) foram precisos para pontuar definitivamente o jeito do som. Por fim, a contribuição do francês Mr. Gib, que mixou o trabalho, foi essencial para chegarmos no resultado de som que desejamos no início. Além dessas pessoas que trabalharam diretamente na música, teve o incentivo absoluto do DJ Zé Pedro, dono do selo Jóia Moderna, que lançou o trabalho. Teve a contribuição valiosa e generosa do diretor criativo Giovanni Bianco, que realizou toda concepção gráfica do trabalho. Enfim, me considero sortuda por ter encontrado a mão de cada uma dessas pessoas disponível para somar ao trabalho. E de referências, no inicio ouvia muito o Stromae, o Buraka, a MIA, Bomba Stereo, Die Antwoord.. Depois comecei a ouvir o pop de Beyonce, Timberland, Rihanna, Drake, Kanye West, Kendrick Lamar… Depois, ouvi muito funk….. E por aí vai…..

– Aliás, o que te formou musicalmente?

Minha formação musical primeira está ligada à música brasileira e ao jazz por conta do meu pai, que me dava todas essas referências para eu escutar. De Elis Regina, passando por Caetano, Tom Jobim e indo até Billie Holiday, Chet Baker etc. Mas eu sempre absorvi muita coisa. Tudo que me soa novo, eu experimento. E daí, acabo absorvendo muita coisa. Não existe um estilo que eu não escute. Talvez, o pagode paulista seja a coisa mais distante de mim. No mais, ouço e acompanho quase tudo. Sou curiosa.

– O que te inspira a compor?

Minha vida, minhas experiências pessoais. Aí mora toda minha inspiração.

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– Conta brevemente sua trajetória?

Comecei a cantar profissionalmente aos 16 anos, em bares de Salvador. Fiquei fazendo isso por uns cinco anos. Eu tinha meu próprio equipamento de som, fazia eventos, comecei a ganhar meus primeiros cachês assim, mas já estava enfadada de fazer barzinho, eu sentia e sabia que tinha minha mensagem para reverberar por aí. Foi então que conquistei o Prêmio Braskem de Cultura e Arte para gravar o meu primeiro disco, “Pecadinho”. Com ele, me mudei para São Paulo, pois sabia que precisa de um terreno onde espalhar minha música fosse mais possível. Na sequência vieram os discos “De pés no chão” e “Das coisas que surgem”. No meio desse caminho, toquei o projeto Pipoca Moderna em Salvador, que me deu bastante visibilidade e despertou o desejo de fazer um disco de dança, de corpo, que chegou agora com o “TRETA”.

© Erivan Morais

© Erivan Morais

– O que ser cantora, compositora, artista melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?

Ser artista me faz ser mais sensível ao outro, me faz ser aberta ao encontro, me desperta a curiosidade, a generosidade. E sou artista porque essas coisas todas já me pertencem. Sinto que sou uma pessoa melhor por ser artista. A arte me melhora, me espiritualiza. Foram muitas dificuldades no caminho, que ainda existem. Não é fácil ser artista e viver de arte nesse mundo, porque se você não está no topo como artista, o trabalho é pouco valorizado, em todos os sentidos. E precisamos sobreviver. Mas nenhuma dificuldade até aqui sucumbiu o desejo de fazer arte. Vivemos agora um período muito crítico. Depois de anos de conquista, onde vimos pela primeira vez a música independente brasileira se estabelecer de modo mais digno, temos uma crise profunda no mercado musical. E quem mais sofre essa crise somos nós, os pequenos e independentes. Mas estamos aí. Crescemos na crise. Agora é uma questão de administrar.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Não tenho idéia… rs. Eu mudo muito o tempo todo. Tenho vontade fazer um curso de nutrição, me interesso por alimentação. Acredito em nas curas emocionais e físicas a partir dela. Tenho vontade de morar em Portugal. Tenho vontade de morar numa casa no campo. Tenho vontade de ter filhos. Tenho vontade de fazer música para sempre, mas aos poucos a gente vai mudando a expectativa. Sinto cada vez mais que faço para mim, por mim. Em tudo que me vejo fazendo, existe o desejo de me tornar uma pessoa que contribua para a evolução desse mundo, de modo que as pessoas possam viver mais plenas, inclusive eu. É um desafio constante. É uma prática diária.

– Ser artista no Brasil hoje é…

Uma novidade a cada dia…

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O climão do Letrux no melhor disco do ano

por   /  24/10/2017  /  10:10

Foto: Vitor Jorge

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Letrux é a nova alcunha de Letícia Novaes, artista carioca que lançou uma pérola este ano – e hoje concorre a melhor álbum no Prêmio Multishow, ao lado de Chico Buarque e Rincon Sapiência. “Letrux em noite de climão” é, sem dúvida, o melhor disco do ano. Ouço várias vezes por dia, e, a cada vez, uma música diferente me pega. Tem amor, tem sofrência, tem melancolia,tem hit pra pista – muitos, aliás. Ela passeia por tantas histórias e tantos moods…

Ao vivo, suas músicas ganham ainda mais força, uma vez que a Letícia é de um carisma absoluto, dona de um timing perfeito para interagir com a plateia. No show o disco faz ainda mais sentido. É forte, potente, divertido. É uau, sabe? Como é bom ouvir música que é feita com verdade, sem ser para soar de um jeito (que vai agradar mais, vender mais).

Costumo dizer que, se não tem algum sofrimento na história, as músicas ficam naquele estágio de quase lá. Música boa é feita de arrebatamento, né?  – e, tenha ela sofrido ou não, a real é que fez um disco genial (que em vários momentos me lembra Rita Lee dos anos 1970, pensa que delícia?).

Como já deu pra perceber, acho ela foda (já apareceu aqui algumas vezes). Conversamos sobre música, vida, processos, essa coisa de ser artista no Brasil.

Pra completar, a Letícia fez uma playlist com suas músicas de amor.

Ah, ela faz shows no Rio (Circo Voador) e em São Paulo (Sesc Vila Mariana) em novembro. Vamos?

#asmúsicasdeamor + #trilhadonttouch

Mais: www.facebook.com/letruxletrux +@leticialetrux

– Eu tô apaixonada pelo Letrux, ouço todo dia, várias vezes por dia, aliás. Quando não ouço, dá uma abstinência. Conta como foi o processo de criação desse disco? Como ele se insere na sua carreira depois dos outros trabalhos?

Foi um processo muito natural, mas ainda assim cósmico e caótico, risos. Desde 2012 fui guardando umas melodias, letras, músicas, coisas que não entraram no Letuce. Eu escrevo quase todo dia, não necessariamente muito, mas uma frase, algo, tô sempre anotando. Em 2015, Arthur (um dos produtores do disco) e eu, inventamos que meu disco chamaria Em Noite de Climão, por conta de uma piada besta, somos muito amigos, rimos, guardamos essa informação, esquecemos. Daí a piada foi ganhando força, o conceito foi se ampliando, veio o golpe, veio que eu não passei em nenhum edital, fiz o 3 crowdfunding da minha vida, em pleno ano de crise, ui! Mas aconteceu, as pessoas me salvaram geral! Além do Arthur, chamei a Natália Carrera, guitarrista maravilhosa, pra produzir também. Éramos um trio bem diferente, mas isso foi muito curioso, saber ouvir, saber mesclar as vontades. Depois dos meus outros trabalhos como cantora, seja Letuce ou outros projetos que também participei, Letrux em Noite de Climão foi um processo de cura, de renascimento, foi meu jeito de contar uma saga, uma trajetória romântica desastrosa, mas ao mesmo tempo curiosa, divertida.

– E como tem sido a recepção dele? Aliás, no show no CCSP fiquei impressionada como você tá formando um público que inclui adolescente (e isso é tão legal!). Como foi essa construção? Como é ser artista no Brasil? Como é ser artista tendo a internet como grande meio de disseminação?

Tento não criar expectativa, pois sou um ser ansioso. A recepção ultrapassou tudo que eu esperava, é muito forte, é email, é carta, é foto, é vídeo, é gente falando comigo no metrô, um troço muito forte, porque não é “Oi, Letícia, sou sua fã”. Não. Acho que como eu tenho uma certa intensidade, as pessoas vem com a mesma pra mim, é muito doido. Mensagens profundas, maravilhosas. Sim, meu público mais jovem aumentou, ao passo que o mais adulto também, achei muito importante isso. Consegui atingir os pólos. A construção foi boca a boca. Claro que meu assessor é maravilhoso e saímos em matérias e sites interessantes, mas todo dia no twitter é alguém dizendo “meu deus me indicaram isso aqui e já não consigo parar”! Ser artista no Brasil é bem brabo. Não vou mentir, não vou recomendar, risos e choros. Só sou porque é o que me move, o que me emociona, o que amo fazer, o que me transforma, me alucina, me deixa viva. A internet ajuda um bocado, visto que somos artistas independentes, então, sem ela não estaria rolando esse bafafá todo, né? Ufa!

– Muitas vezes eu ouço uns discos e penso: “tinha que rolar um pouco de sofrimento para essas músicas serem boas de verdade”. Sofrer por amor, aquela coisa de filme de Hollywood de ter que chegar num ponto treta pra dar a volta por cima. Você acha que um pouco de dor influencia o seu trabalho? Como o amor molda sua arte, sua escrita, suas canções?

Eu lido bem com o eixo “amor & dor”, “tragédia & comédia”, deve haver uma explicação psiquiátrica, risos. Mas caminho do meio não vai ser nessa vida. Tenho dias que entro no buraquinho e vou lá no cerne e choro a vida e sinto tudo muito. Mas sou sempre salva pela graça, impressionante. Sou capaz de estar aos prantos, destruída e fazer uma piadinha leve, pra começar a me reerguer. Aí vou rindo, vou voltando. Então essa montanha russa me influencia um bocado. Eu gosto do amor, tenho sol em capricórnio mas é na casa 5 (que entre tantos significados, é a casa “do amor” na astrologia). Gosto do passeio amoroso, por mais alucinante que seja, gosto.

– O que te faz subir no palco e performar brilhantemente? O que você entrega quando está ali, o que você espera receber, se é que espera?

Outro dia eu pensei uma coisa que é a seguinte: eu estava a 5 minutos de entrar no palco e sei lá, eu fico numa concentração tão louca, que minha cabeça esvazia, eu tentei lembrar de uma letra, e eu mesma me censurei, fiquei “não se programa, não se programa”. Tento deixar acontecer naturalmente. Claro que falo algumas coisas duas, três vezes, mas as entrelinhas eu deixo pra sentir a dinâmica da noite. Eu tenho muito medo de palco, cago sempre antes de entrar, de tão louca minha barriga fica. Mas nunca deixei esse medo me controlar, eu controlo ele, e acho que isso me excita. Então eu domo o palco e fico “arrá!”. Eu espero receber atenção, apenas. Não gosto quando ficam à espreita da queda alheia. Já fiz alguns shows com gente me olhando de maneira estranha. Eu canto de olho aberto, eu olho para as pessoas, então às vezes não gosto do que vejo, é raro, mas acontece. Por mais que você não esteja gostando, tem alguém na sua frente (no caso eu) em carne viva quase, tenha alguma empatia, sabe? Não faça cara de cu. Mas foi raro isso ocorrer. Mas aconteceu e às vezes me desconcentra, daí viro a cabeça e olho para os querides que estão me doando atenção e seu tempo. Eu não sei exatamente o que eu entrego quando estou no palco, talvez meu entusiasmo em estar viva. Não sei.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Daqui a 5 anos terei 40, me vejo com mais um livro publicado, uma peça escrita e encenada, mais um disco Letrux, um dvd talvez, risos. Me vejo já tendo lido os 5 livros que estão na minha fila. Acho que já conheci a Grécia e talvez a Itália. Filhos não sei, ainda é uma questão. Me vejo viajando por aí, cantando. Um livro pra crianças, sim. Daqui a 20, uau. Me vejo indo à praia, talvez entrei no vôlei de praia sênior, acho que já fiz a travessia do mar de Copacabana. Passei um ano fora. Na Bahia ou na Grécia mesmo. Sei mais sobre mitologia e sobre a umbanda, talvez já tenha incorporado. Tenho netos, não sei como, mas tenho. Tenho um amor que me acompanhou nessa trajetória insana. Viajamos. Lemos, rimos. Evoluí no violão e no piano, felizmente. Fiz um disco só de baladas, risos. O que eu queria fazer que ainda não fiz é virar mergulhadora profissional, acho.

– O que ser cantora, compositora, artista melhor te ensinou sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?

Aprendi que cantar é forte. Vira para qualquer pessoa na rua e fala “Canta aí”, as pessoas têm vergonha. Ninguém fala “gente, deixa eu cantar aqui rapidinho”. Então se você tem coragem de cantar, saiba que você é forte. Envolve muita força, muita entrega, muita divindade. Ser artista me ensinou que a maneira que eu vejo as coisas não é a mesma maneira que todo mundo vê, e isso parece bobo mas me valeu a vida. As maiores dificuldades foram conciliar as expectativas, entender os desejos dos amados pais que só querem o seu bem, amansar o medo do futuro e da falta de grana. A auto estima que por vezes te julga e te faz pensar que você é uma mentira, que está apenas “brincando” de arte e que já passou da hora de fazer um concurso público. Tem muita dificuldade no caminho, não vou mentir.

– Conta brevemente sua trajetória? Aquela coisa de se apresentar pra quem ainda não te conhece, ou pra quem quer relembrar?

Nasci no Rio, caçula, tenho 2 irmãos homens, meus pais são seres humanos iluminados, tive uma infância muito lúdica, cheia de livros e filmes por parte da minha mãe que era professora de francês e com muita música e piscina, por parte do meu pai que é geminiano, risos. Fiz teatro no colégio e achei que era só um passatempo, mas já sentia minha cara ficar quente. Fiz faculdade de letras porque eu amava escrever, mas achei o ambiente acadêmico muito opressor em 2000. Daí fui fazer teatro na CAL, e ali minha vida mudou, fiz amigos profundos, descobri o violão, comecei a compor, foi uma fase muito rica da minha vida. Montei minha primeira banda, comecei a tomar gosto pela coisa. Conheci Lucas em 2007, nos apaixonamos, fizemos a banda Letuce, lançamos 3 discos, viajamos muito, tivemos muitas pirações e momentos lindos. Ano passado quis encerrar a banda, eu e ele já separados e tudo lindo e natural, e aí quis lançar esse disco solo, essa maluquice de Letrux em Noite de Climão. Ah, também já lancei um livro que chama “Zaralha – abri minha pasta” e também já participei de um filme meio blockbusterzão “Qualquer gato vira lata”, o 1 e o 2. Muito divertido fazer. E outras mil coisinhas malucas que já fiz, e ainda farei, certamente.

– Ser artista no Brasil hoje é…

Resistir.

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A tecnoguitarrada de Lucas Estrela

por   /  20/10/2017  /  9:00

Lucas

Ouvi o disco do Lucas Estrela e quis me transportar pro Pará. Que música boa, que vontade de dançar! O músico lançou recentemente “Farol”, seu segundo álbum, e a gente aproveitou pra conversar.

Mais: @lucas.estrela

#trilhadonttouch

Pra completar, ele fez uma playlist especial pro blog!

Minha história na música começou com uns 8 anos de idade. Minha família não é de músicos, mas meus pais amavam música, então recebi toda essa influência deles, principalmente da música instrumental e da lambada, que eles gostavam muito. Eles me deram o primeiro violão de presente e fui aprendendo sozinho, naquelas revistinhas de cifras que vendiam em bancas na época. Mas um ano depois, quando fiz 9, meu pai faleceu e acabei abandonando o instrumento por um tempo. Só depois de alguns anos que fui estudar música mesmo. Com 15 montei a primeira banda e aos 16 já tava começando a tocar na noite. Foi nessa passagem dos 16 pros 18, quando ainda era barrado na porta das casas quando ia tocar, que descobri que queria ser artista, haha.

Tem um disco chamado “Tecnoguitarradas” do Pio Lobato de 2007. Pio é guitarrista, compositor e produtor musical daqui de Belém, hoje ele é o produtor musical da Dona Onete. Então, esse disco que completa 10 anos agora em 2017 mudou minha vida. Quando ouvi o “Tecnoguitarradas” pela primeira vez, a ideia de música instrumental, eletrônica e de música experimental se ampliaram na minha cabeça e no meu jeito de tocar e produzir música. O Pio conseguiu juntar a linguagem tradicional da guitarrada com os elementos do tecnobrega e essa coisa mais contemporânea da música eletrônica. Loops, efeitos, samples, tudo isso gravado no home studio do Pio em 2007, quando o acesso aos equipamentos de estúdio de baixo custo ainda não era tão fácil.

Depois te tanto ouvir esse disco, fui atrás dele. Só então que descobri que ele tinha sido responsável por vários outros trabalhos importantes pra cultura popular paraense, inclusive os “Mestres da Guitarrada” (2001). Trabalho que promoveu essa difusão da guitarrada pelo Brasil. Nessa época, acho que tinha uns 18, já produzia em casa e comecei a mandar coisas pro Pio. Certo dia ele disse que tava produzindo o novo disco e queria que eu fizesse a base eletrônica pra uma música chamada “2×2”. Me mandou algumas trilhas de guitarra e fiz a base. A faixa entrou pro disco dele e nossa parceria de composição surgiu aí. O Pio foi um dos responsáveis pelo meu primeiro álbum. A outra pessoa igualmente responsável foi o Waldo Squash (Gang do Eletro), um dos maiores produtores de música eletrônica que tive o prazer de conhecer. Waldo produziu comigo as bases do “Sal ou Moscou”.

O processo de produção do primeiro foi bem diferente do segundo disco. No primeiro, passei uns 2, 3 anos gravando sozinho em casa, sampleando as bases do Waldo até chegar num álbum. Tentei dar uma unidade a esse trabalho, usando praticamente os mesmos timbres de bumbo, caixa, synths e guitarras nas faixas. Algo bem característico do tecnobrega.

No “Farol” (2017), o processo foi totalmente diferente. Chamei vários amigos pra esse disco, tem muitas participações. Gravamos em 3 meses no estúdio Casarão Floresta Sonora, chamei um grande amigo pra fazer a direção artística, o Felipe Cordeiro, e gravei algumas versões instrumentais nesse disco, coisa que não fiz no disco anterior, em que todas as composições eram minhas. Sem falar na sonoridade, que já caminha por outros lugares também. Do carimbó digital à cumbia. Essa experimentação no estúdio só foi possível graças ao patrocínio do Natura Musical que acreditou nessa união da música tradicional e contemporânea feita no Pará.

Bom, tenho 25 anos, nasci em Belém/PA e acho que só fiz coisas ligadas à música até hoje, haha. Nessa época que comecei a tocar na noite, com uns 16 anos, pensava em fazer arquitetura. Tentei o vestibular por dois anos e não passei. Aí foi quando decidi seguir a carreira da música mesmo. Mas também fiz trabalhos ligados à música em outras áreas, como câmera e editor de vídeo em uma produtora audiovisual em Belém por uns bons anos, editando shows e videoclipes (outras grandes paixões: o cinema e audiovisual). Também já fui roadie da Gaby Amarantos e do Felipe Cordeiro por um tempo, depois passei três anos em São Paulo trabalhando na EMESP (Escola de Música do Estado) como técnico de gravação. Fiz o “Cine Concerto Arboreal”, um média metragem de paisagens sonoras que gravei em várias cidades e tocava a trilha sonora do filme ao vivo. Apresentei em alguns festivais em Belém e São Paulo. Em 2015 voltei pra Belém pra finalizar e lançar ainda o primeiro disco e tô aqui desde então.

É bem difícil a gente tentar definir a música que faz, ainda mais sendo instrumental. As influências são tantas que definindo alguma coisa acabaria excluindo outra sem querer. Mas como gosto tanto desse termo criado pelo Pio Lobato e pela cineasta Jorane Castro, eu diria que é tecnoguitarrada.

O “Farol” foi só mais um experimento juntando essas duas linguagens, a tradicional e a experimental. Minha vontade é continuar fazendo música e espero que as pessoas também tenham o intuito de continuar com a produção musical paraense. De ir atrás da história da nossa música, do Mestre Vieira, da guitarrada, do carimbó, do tecnobrega, até chegar nesse momento atual tão legal que a gente tá vivendo. A cidade cheia de novos artistas fazendo música. Isso é bonito demais!