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A artista está entregue

por   /  19/05/2016  /  10:10

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Marina Abramovic acredita. Ou faz a gente acreditar no que ela acredita. Ao viajar pelo Brasil para investigar rituais ligados à espiritualidade, a artista mistura arte e fé em uma trama envolvente, seja pela diversidade dos rituais de que participa, seja por nos fazer refletir sobre os limites entre performance e misticismo. “Espaço além – Marina Abramovic e o Brasil”, filme de Marco Del Fiol, estreia hoje em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Curitiba.

A ideia para o filme surgiu da vontade da artista sérvia, que em novembro completa 70 anos, de conhecer lugares e pessoas de poder. E nada melhor do que fazer isso no Brasil, onde ela veio pela primeira vez em 1989, e que deu origem ao trabalho “Objetos transitórios para uso humano”.

O filme mostra a viagem que a artista fez em 2012 pelos rincões do Brasil. Ela percorreu seis estados e mais de 6.000 quilômetros. Foi até Abadiânia, em Goiás, para conhecer o médium João de Deus, famoso por fazer operações espirituais, algumas delas até com intervenções físicas – nas cenas desse encontro, fica difícil continuar olhando para tela enquanto se vê um olho sendo raspado com uma faca de cozinha, ou uma barriga sendo aberta. Na Chapada Diamantina, tomou ayahuasca em um ritual xamânico. Na primeira dose, não sentiu nada. Ao ver que as outras pessoas que tinham tomado a mesma quantidade estavam se rastejando, pediu mais. E teve uma das piores experiências de sua vida. (Mas isso não a impediu de tomar ayahuasca em outra ocasião e gostar do processo.)

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Em uma comunidade no Paraná, tomou banho de ervas, purificou-se com cristais, teve o corpo coberto de lama. A certa altura, os xamãs pedem que ela tente quebrar um ovo, que representa os problemas, as angústias e os entraves de sua vida. E é aqui onde acontece um dos momentos mais fortes do filme. A artista está presente – e vulnerável. Ela se doa na tentativa de expurgar as dores pelo fim de um relacionamento. É uma figura forte, que desperta atração e curiosidade. E mais ainda, sabe criar empatia, nos colocando na pele dela, na vontade de buscar força fora da racionalidade para lidar com o que não conseguimos mais carregar. (Isso sem falar no senso de humor que aparece, por exemplo, quando ela sai do roteiro “estou aqui para encontrar a luz” e reclama do gosto de um alho que come cru em nome da saúde)

Marina tem uma vida inteira de entrega à performance. Entre as mais emblemáticas, estão a travessia que ela e o então parceiro Ulay fizeram na Muralha da China, a partir de direções opostas, até se encontrarem para terminar a relação (The Great Wall: Lovers at the Brink). Outra em que Ulay segura um arco e aponta uma flecha para ela, elevando a tensão a um grau absurdo (The Other: Rest Energy). E também a mais famosa, em que ela encara durante mais de 700 horas todas as pessoas que sentam à sua frente no MoMa – Museu de Arte Moderna de Nova York (The Artist Is Present). Foi aí, aliás, que Marina virou pop e viu os questionamentos à força do seu trabalho se alastrarem – o quanto de marketing existe em cada incursão?

A partir do momento em que a artista se coloca nua e entregue na tela, consegue gerar identificação. Também nos faz pensar na coerência de uma vida toda dedicada a olhar para dentro, ao mesmo tempo em que reforça o protagonismo da sua narrativa. Enquanto experimenta diversas formas de lidar com energia nas performances e nos rituais, convida generosamente todos nós a embarcamos na viagem. E nos estimula a manter uma vitalidade de sempre nos investigarmos. Fé ou arte? Fé e arte? Vale qualquer resposta que mexa com a gente.

Mais em > www.thespaceinbetweenfilm.com

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Amores Urbanos, o filme

por   /  17/05/2016  /  18:18

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São Paulo é uma cidade de extremos. Tem quem se apaixone, tem quem se sinta repelido por ela. É um lugar que a gente precisa hackear, tanto pra entender o que fazer e aonde ir, quanto para saber onde colocar as vontades e os afetos. Viver São Paulo é uma eterna construção. É tentativa e frustração, é deslumbre e cansaço, é deslocamento e aconchego.

E fica mais possível, e até fundamental, quando a gente constrói uma nova ideia de família, aquela com quem passamos a sexta-feira à noite fazendo maratona no Netflix, com quem dançamos ao som de “All my friends”, de quem acompanhamos o começo da história de amor em pleno Carnaval. A família do choro e do colo, da euforia e do compartilhamento de cada mínimo aspecto da vida.

Foi essa família de amigos que vi na tela do cinema em “Amores Urbanos”, primeiro longa-metragem da cineasta Vera Egito, que estreia nesta quinta-feira, 19 de maio. O filme retrata a vida de três jovens paulistanos de 30 e poucos, experimentando relacionamentos, festas, decepções, perdas e descobertas. Amigos pra toda hora, vizinhos no mesmo prédio, eles vivem as angústias tão comuns a uma parcela da juventude de hoje em dia, aquela retratada nos seriados “Girls” ou “Broad City”.

Garotos e garotas de classe média, privilegiados, que transitam por uma São Paulo contemporânea, cheia de lugares para se divertir, de trabalhos que parecem dos sonhos, ao menos à primeira vista. A São Paulo da vida com filtro do Instagram, que só dura até a primeira conversa mais sincera, a gente já sabe.

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Na trama, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit), e Micaela (Renata Gaspar) lidam com o fim de um namoro que veio do nada, a relação complicada e quase inexistente com o pai e um namoro lésbico não assumido com uma atriz em ascensão (interpretada pela cantora Ana Cañas), respectivamente. Vivem esses dramas enquanto vão a festas, tentam dar certo em um emprego promissor no mundo da moda, por mais que fazer bolos seja muito mais gostoso. Os amigos estão juntos quase o tempo inteiro, na rua, no celular e principalmente no sofá de casa.

Gosto do filme pelo que ele gera de identificação. É a gente ali. A minha turma, a sua turma – e a prova disso são as risadas da plateia em várias cenas. Os nosso bordões. A nossa necessidade de dar opinião na vida dos outros, quando na nossa própria tantas vezes deixamos de ser críticos. É a gente dizendo umas verdades horríveis pra quem a gente ama, quase rompendo, mas sabendo que a dor amadurece.

A trama do “Amores Urbanos” envolve porque é real e faz poucos julgamentos. Tem hora que você sente raiva de um personagem, pra logo depois entender que aquela limitação dele é totalmente possível em um mundo de gente de verdade. Em outra você pensa: foi assim que aconteceu na minha vida. E foi mesmo. A realidade é maior que a ficção, ou os filmes de nossas vidas são menos inéditos do que desejamos.

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Conversando com a Vera em uma noite de abril em São Paulo, ela contou o quanto dela e dos amigos existe no filme. Às vezes uma situação, em outras os diálogos. Amigos estão na tela, como o cantor Thiago Pethit, que ela dirigiu no clipe “Nightwalker”, a cantora Ana Cañas, que ela filmou em “Urubu rei”, e a estilista Emanuelle Junqueira, que assinou o figurino do programa “Calada noite”, da Sarah Oliveira, que ela dirigiu.

“O que eu queria com esse filme? Tem várias respostas. Tem desde uma coisa muito pessoal, de ‘eu preciso fazer um filme’. O último curta lancei em 2009. Fiz mais de 30 publicidades, videoclipe, dirigi programa de TV, tive uma filha, fiz um monte de coisa, mas não fiz cinema. Aí em algum momento eu falei: eu preciso fazer um filme já. Escrevi o roteiro, fiz leitura com a galera em março (2014), em setembro estava filmando. ‘O que a gente tá fazendo que não tá fazendo um filme?’, perguntei. Isso atingiu a equipe toda. A gente filmou com nada dinheiro. E o fato da gente estar falando da gente mesmo, da nossa turma, das questões amorosas, profissionais, incentivou muito. As pessoas usaram as próprias roupas. Filmamos na minha casa, na festa Javali, no Spot, no Mandíbula. Esse filme é meio uma crônica desses 10 anos de São Paulo, 10 anos de vida independente, adulta”, destrincha.

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Por ser focado em um universo muito específico, esse dos jovens de classe média cheios de oportunidades e ainda assim “perdidos”, o filme pode levantar questionamentos. E a própria Vera pensou: será que é o momento de falar de amor, diante da crise política de representação que vivemos? Ela postou a questão no Facebook e acabou recebendo um feedback tão positivo que optou por lançar o filme sim. “Talvez nossas questões sociais sejam mais urgentes. Mas o que me ressente um pouco é que o retrato da classe média ou tem um julgamento muito mordaz ou uma culpa de classe. O cinema brasileiro se recusa a retratar esse público que paga ingresso.”

Por que então fazer esse filme? Ela deixa a pergunta ainda maior: por que fazer filme? ”Tem milhares de filmes maravilhosos, obras primas que a gente vai passar a existência terrena sem conseguir ver. Quem precisa ver um filme seu? Ninguém. Mas existe uma coisa que é o retrato da contemporaneidade. Ninguém pode parar de escrever, de fazer filme. Porque isso significa parar de falar do tempo presente. E esse tempo tem que ser captado pelo artista para que no futuro se olhe o contexto histórico. Tenho vontade de retratar pessoas que eu nunca vi no cinema. Acho que o filme é uma crônica de geração, um olhar sobre esse microuniverso.”

Nesse microuniverso a realidade é tão possível que a identificação se torna inevitável. E ver um pouquinho da gente (e de nossas alegrias, conflitos, incoerências e vulnerabilidades) na tela do cinema sempre vai ser uma experiência impactante, emocionante – e divertida.

Mais em > Amores Urbanos

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A beleza do inesperado

por   /  25/04/2016  /  8:08

Herbie e Wayne

It’s a lot of fun to negotiate the unexpected

Wayne Shorter

É muito divertido negociar com o inesperado. Com essa frase, o saxofonista Wayne Shorter deu uma resposta à plateia que havia deixado a apresentação que ele fazia com o pianista Herbie Hancock na Sala São Paulo, há algumas semanas. Simplicidade, elegância e uma leve alfinetada em pessoas que pareciam ter ido ali mais porque era uma noite de gala do que pela música em si.

Ouvir duas lendas do jazz ao vivo é um presente – e também um privilégio. Esperar que elas toquem os clássicos pelos quais ficaram consagrados, uma bobagem e talvez uma pista sobre um entendimento esquisito em relação ao estilo musical cuja maior característica é a improvisação.

Lembrei de quando fui ao show de Bob Dylan, alguns anos atrás, e saí de lá incomodada porque demorava em média dois minutos pra reconhecer o que ele cantava. Eu queria o Dylan do “Blonde on blonde”, que virou minha obsessão adolescente, só saciada quando consegui comprar o CD em uma livraria no Rio. Queria cantar junto, me emocionar pelo que tinha vivido ao som dele. Mas não rolou.

Quando soube que o Lou Reed ia fazer um show experimental no Sesc, decidi não ir. Queria o Lou do Velvet, do “Transformer”, e não uma viagem com a qual eu não ia me conectar. Não preciso dizer o quanto me arrependo, né?

Esses três episódios me fizeram pensar em algumas coisas. A primeira é que a gente perde muito quando não se abre para o novo. Dã, frase clichê, obviedade, eu sei. Mas qual foi a última vez que você saiu de casa para ver um show de uma banda que nunca ouviu falar? Nos acostumamos a fazer o que já sabemos fazer, a sair de casa quando sabemos que o programa é garantido. Nos arriscamos pouco – e isso parece tão pouco com a ideia de juventude.

O segundo pensamento me vem quando penso que estamos vivendo o auge da falta de paciência. Um vídeo não carrega imediatamente? Que saco! Não recebo resposta para as mensagens que mandei no Whatsapp, o que será que aconteceu? O cliente pede um relatório às 17h e te liga às 18h cobrando? Normal, agência é assim mesmo. Queremos tudo agora, e isso me lembra uma frase que eu repito há um tempo: a sua urgência não é a minha urgência. E me lembra também um vídeo do Louis CK, em que ele fala como estamos vivendo uma época espetacular, mas ninguém está feliz.

O mundo disputa nossa intenção. A internet, nem se fala. Aliás, se o show tá “ruim” não tem problema sacar o celular com tela gigantesca pra dar uma olhadinha no Face (socorro!). Se não somos atendidos, ficamos agoniados, ou à flor da pele. Se o Herbie Hancock não toca “Rock it” nem o Wayne Shorter alguma que ele tocava com o Miles Davis, não quero ouvir. “Eu não paguei para ouvir esse som cabeçudo”, alguém poderia ter dito, e então saído da sala. Daquela sala linda, uma jóia de São Paulo, um templo em que você ouve exatamente o que os músicos querem que você ouça. Sair sem nem esperar o intervalo entre as músicas.

Que vergonha me deu na hora. Depois ficou só um lamento. A dupla fez um show difícil mesmo, eu demorei pra entrar na vibe sonora que eles propuseram. Quando entrei, foi uma daquelas viagens difíceis e deliciosas, que poucas vezes a gente faz. E ainda fiquei achando fantástico ouvir dois caras com seus 75 e 82 anos apostando até em uma pegada meio eletrônica, que dava vontade de dançar. Pra depois voltar para um fraseado* difícil de classificar. Gente que não parou no tempo, que inova, tenta, se arrisca, surpreende. Discurso que aparece tanto por aí, né? Mas que quando se tem a oportunidade de vê-lo ao vivo e em cores, corre-se o risco de desperdiçar. Ainda bem que eu fiquei até eles voltarem para um ou dois bis.

* Meu entendimento de jazz se limita a gostar e ouvir. Não sei falar dos aspectos técnicos, mas não resisti a usar esse verbo que entreouvi de um cara na platéia que não teve suas expectativas atendidas  :-)

A foto é da Ligia Helena.

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Do seu pai, o livro

por   /  13/04/2016  /  17:17

Do seu pai

Uma vez perguntei ao Pedrinho e à Lua Fonseca se eles não tinham medo de expor a vida na internet – em seus perfis no Instagram e também nos blogs Do Seu Pai e No drama mom, eles falam sobre ser pai e mãe e mostram o dia a dia de João, Irene e Teresa, seus filhos. Eles me deram uma resposta tão autêntica que só pude concordar. Falaram que compartilham porque a cada post se conectam com gente de verdade – e muitos desses contatos são transformadores.

Se vocês olharem os comentários dos perfis , vão perceber rapidamente essa potência. É a internet sendo um lugar especial, de construção, aprendizado, de todo mundo junto compartilhando alegrias e angústias.

Agora o Do Seu Pai está prestes a virar livro. A campanha de crowdfunding está no Catarse, e você pode apoiar com a quantia que quiser. Já garanti o meu! ♡

Mais em > www.catarse.me/doseupai

Abaixo, o convite do Pedrinho.

João, Irene e Teresa:

escrevo como quem engoliu uma brasa e tem no estômago um queimor de medo. A azia desconfortável da incerteza. Não sei se vai dar certo, mas preciso contar-lhes que estou fazendo uma tentativa muito importante, desde que comecei a rascunhar essas cartas aqui para vocês, no blog. Hoje, filhos, começo a pedir a ajuda de gente que vez por outra passa aqui – para ler e ver o que se passa na nossa família – para transformar este blog num livro. Gente que ora aqui, ora ali se reconhece em algum gesto nosso, alguma palavra nossa. O medo de não dar certo está bem aqui, no estômago. Mas nos braços, pernas, cabeça, peito, em todas as outras partes, tenho em mim o que este vídeo aí embaixo foi buscar: coragem. Amor, filhos, é quando o coração da gente bate no peito do outro e, ainda assim, estamos vivos. Para isso, para amar, é preciso coragem. Pois aqui estou: medroso e corajoso. Estou vivo, apesar de sentir meu coração batendo em cada pessoa que pode ajudar a realizar este livro – e sonho.

Do seu pai,
Pedro.

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11 artistas brasileiros para ficar de olho em 2016

por   /  04/04/2016  /  15:00

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Don’t Touch + Glamurama apresentam: 11 artistas brasileiros para ficar de olho em 2016

Quem são os artistas que têm trabalhos impactantes, emocionam, propões reflexões e deixam hoje um legado para a história da arte brasileira? Quais os nomes em que a gente deve ficar de olho? Diante de tantas exposições, museus e galerias, sites, blogs e perfis no Instagram, em que prestar atenção e de quem acompanhar o trabalho? Fiquei com vontade de descobrir isso tudo e convidei dois amigos queridos que são curadores para darem seus palpites.

Ana Maria Maia é curadora de artes visuais e professora de história da arte. Nasceu em Recife em 1984 e vive e trabalha em São Paulo. Foi curadora adjunta do Panorama de Arte Brasileira do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. Recentemente concluiu a pesquisa “Arte veículo”, que vai ser lançada em livro em breve. Diego Matos nasceu em Fortaleza em 1979. É pesquisador, curador e professor nas áreas de artes visuais e arquitetura. Trabalhou com o Vídeo Brasil coordenando o acervo e a pesquisa. Em 2015, fez uma exposição a partir desse material, “Quem nasce para aventura não toma outro rumo”, no Paço das Artes.

Para chegar a um recorte, ambos concordaram em reunir artistas que apostam no risco e na construção de suas histórias. “Tenho visto a volta da intuição como uma ferramenta de trabalho para os artistas, depois de uma geração completamente racional, projetual”, aponta Ana Maria. “Talvez esses artistas tenham nascido no momento em que o sistema brasileiro da arte precisou se organizar mais.” Ela fala que o artista tem que afinar o seu discurso, preparar um portfólio que seja mais eficaz, se colocar no mundo de uma maneira mais assertiva. “O risco e a dúvida têm mais espaço, eles sabem onde querem chegar. Esses artistas podem se colocar no olho do furacão de padrão sexual, de trabalho, política, crises, esgotamento de modelos. E é um ato de coragem absurdo fazer isso em um ambiente completamente instável.”

Dos escolhidos, conheço alguns, outros são novidade. Sou apaixonada pelo trabalho da Barbara Wagner, que conheci em “Brasília Teimosa”, série que retrata os frequentadores de uma praia no Recife, bem ao estilo Martin Parr. Adoro como o Cristiano Lenhardt cria narrativas a partir de elementos que a gente não espera. E, no ano passado, a Virgínia de Medeiros entrou para o time do encantamento depois que vi “Sérgio e Simone”, um vídeo em que ela nos apresenta à travesti Simone, que também é o pregador Sérgio.

Conheçam abaixo os 11 artistas!

Mosaico

01. Clara Ianni

Nasceu em São Paulo em 1987

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Vermelho

claraianni.com

Clara Ianni  Beto Riginik for Artsy.

A artista explora de forma incisiva e rigorosa elementos que dizem respeito ao projeto de modernidade brasileiro que foi interrompido com o advento do regime militar. Para além, ela está sempre atenta às consequências desse regime de exceção que durou mais de 20 anos. Dessa forma, não por meio da simples denúncia, Clara evidencia ironicamente histórias e acontecimentos que não tiveram a devida atenção na história recente do país. Tem também investigado a ambiguidade do espaço moderno e arquitetônico brasileiro que teve seu apogeu nas décadas de 1950/1960. Como resultado formal, nos apresenta elegantemente desenhos, gravuras, fotografias ou vídeos que ilustram esse pensamento. Importante lembrar de seu trabalho em parceria com Débora Maria da Silva, um vídeo intitulado “Apelo”, apresentado na 31ª Bienal de São Paulo que retrata a violência promovida pelas forças coercitivas oficiais. (Diego Matos)

02. Cristiano Lenhardt

Nasceu em Itaara (RS) em 1975

Vive e trabalha em Recife

É representado pela Galeria Fortes Villaça

cristianolenhardt.com.br

cristiano foto por barbara wagner

Vejo no Cristiano um artista capaz de lidar amplamente com as armadilhas que o circuito da arte te impõe, justamente desconstruíndo e celebrando valores e intenções que sempre procuramos esconder. Por meio de uma observação aguda do meio urbano brasileiro, por vezes europeizado, por vezes rural, jeca ou cafona, reúne elementos para a construção de uma imagem potente em que as gambiarras ganham vez e a plasticidade das coisas banais ou ordinárias ganham protagonismo e são reconhecidos como entidades da beleza. Basta lembrarmos sua última exposição no Galpão Fortes Vilaça ou no vídeo “Superquadra Saci”, apresentado no 19º Festival de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil. (Diego Matos)

Cristiano Lenhardt - Litomorfose

03. Vitor Cesar

Nasceu em Fortaleza em 1978

Vive e trabalha em São Paulo

vitorcesar.org

VC

Vitor tem como trunfo a capacidade de sintetizar em sua condição de artista as suas reflexões acadêmicas e a sua produção prática como designer, transformando-as em ações artísticas que podem deflagrar ou estimular reflexões acerca do espaço público, bem como formalizar posicionamentos políticos por meio de instrumentos gráficos de rara qualidade plástica. Nos últimos 15 anos, o artista tem conseguido sobreviver ao circuito comercial das artes justamente por meio de uma reflexão que elucida às razões do espaço público ou privado, demonstrando de forma transparente as relações de poder que esses espaços definem. Não foi à toa que no 33º Panorama da Arte Brasileira, ele realizou uma das instalações de maior impacto nos espaços do Museu de Arte Moderna de São Paulo. (Diego Matos)

Vitor Cesar - Real Vitor Cesar new_sempre-algo-entre-nos-02

04. Martha Araújo

Nasceu em Maceió em 1943

Vive e trabalha em Maceió

É representada pela Galeria Jaqueline Martins

Martha Araujo

Martha Araújo pertence à geração 1970 e, mesmo estando em Maceió, de certa forma isolada de um debate que se vinha tendo sobre arte experimental nos centros do Brasil, fez interessantes proposições participativas. Suas instalações, sempre um misto de ambientes arquitetados com roupas e objetos para se vestir, situam a participação e o convívio sociais no meio termo entre algo simultaneamente lúdico e prazeroso, e, por outro lado, desafiador, conflituoso, até opressor em alguns casos. A obra dela ensina que é preciso negociar. Em tempos de revisão das narrativas da história da arte brasileira, o nome de Martha e de tantos outros artistas deve ser observado com toda a atenção. Os motivos para essas omissões podem corresponder a limitações geográficas (artistas em zonas periféricas do circuito), de gênero (ainda hoje grandes exposicões costumam ter mais homens do que mulheres representados, quem dirá nos anos 1970…), linguagem (poéticas experimentais requerem um esforço maior de documentação, além de desafiarem uma crítica apegada a convenções) etc. O fato é que as limitações existem e cabe a nós, hoje em dia, dedicarmos um esforço significativo para revisitar essas histórias consolidadas e identificar falhas/faltas graves, muito mais do que simplesmente ir em frente numa marcha de prospecção desenfreada e irresponsável de novos artistas. Apesar de estar produzindo há mais de 40 anos, Martha Araújo seria ainda uma “novidade” para grande parte da crítica e da história da arte. (Ana Maria Maia)

Martha Araujo

05. Daniel Santiago

Nasceu em Garanhuns (PE) em 1939

Mora em Recife

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Daniel, assim como Martha, fez uma carreira de vanguarda estando nas margens do circuito de arte brasileiro. Trabalha desde os anos 1960 no Recife e, à revelia de uma ausência de museus, mercado e público locais para práticas experimentais, desenvolveu um trabalho em linguagens como poesia visual, arte-classificada, arte-postal, art-door, intervenção urbana, performance e artes gráficas. Foi dupla de Paulo Bruscky na Equipe Bruscky & Santiago, de 1970 a 1990, aproximadamente. A química entre os dois era muito poderosa: Daniel é hábil com as palavras, tem aguçado senso poético além de uma formação de designer gráfico. Paulo traz a ironia e o senso estratégico de quem reconhece e lida muito bem com os circuitos (artísticos, políticos, sociais…) e suas regras do jogo. O convívio foi intenso e os projetos sempre imateriais, deixando muitas vezes apenas projetos e registros. Paulo fez um grande arquivo com essa memória e desde 2008, quando Cristina Freire fez sua retrospectiva no MAC-USP, seu trabalho individual foi consagrado junto a essa história. Daniel não guardou nada nem tem especial destreza com esse trânsito profissional. Talvez por isso tenha demorado um pouco mais para ser reconhecido e estudado. Ainda bem que isso hoje já está acontecendo. Um marco foi a mostra que Cristiana Tejo e Zanna Gilbert fizeram de sua obra no Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães). (Ana Maria Maia)

06. Virginia de Medeiros

Nasceu em Feira de Santana (BA) em 1973

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Nara Roesler

virginiademedeiros.com.br

Virginia de Medeiros - http-::residencyunlimited.org:programs:sergio-simone-a-film-by-virginia-de-medeiros:

O trabalho da Virginia de Medeiros é muito importante, principalmente pelo modo como ela encara situações de alteridade. Ela mergulha em uma relação com figuras cujo universo ela desconhece. É preciso tatear muito pra criar esse elo de confiaça com as travestis, com a turma do sadomasoquismo, com os catadores de lixo. Ela tem coragem de entrar nesses temas-tabu, assumir isso como um estilo de vida. Eu soube que ela está aplicando hormônimo masculino no corpo, como parte do mergulho nessa pesquisa. Ela não sabe o que se isso vai ser, se o que está acontecendo no corpo vai virar parte de um trabalho, mas é um jeito dela viver com verdade. (Ana Maria Maia)

Por outro lado ela também tem elementos que me fazem pensar na figura  da artista. Ela é uma mulher extremamente sedutora e bonita, que mexe radicalmente com a sua imagem no momento em que faz uso de hormônios, deixando transfigurar o seu corpo. Ela se torna uma unanimidade: para quem tem interesse em algo programático, ela desenvolve uma pesquisa, um método, mas também tem um lado intuitivo, espontâneo. O trabalho “Sérgio e Simone” ela não sabia o resultado que teria, se seria formalizado em um ou mais filmes. E o resultado é um filme labiríntico, recortado e processual, ora instalativo pra monocanal. (Diego Matos)

Virginia de Medeiros SM Virginia de Medeiros

07. Ana Mazzei

Nasceu em São Paulo em 1980

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Jaqueline Martins

anamazzei.net

Ana Mazzei - http-::cultura.estadao.com.br:noticias:geral,ana-mazzei-oferece-olhares-multiplos-a-um-mundo-que-e-palco-de-encenacoes,1171920

É uma artista da mesma geração de outros com Virginia e Cristiano e que demorou muito a ter o trabalho mostrado em exposições geracionais, a entrar em galeria. Ela faz um trabalho em que experimentação de fato tem um papel. A geração anos 1960/1970 gera pra arte um discurso que celebra a experimentação. O que você fizer sem saber no que vai dar, cometendo risco, já seria louvável a priori. Mas é muito fácil encenar isso como uma coreografia, botar numa ordem de controle o próprio experimento. Recentemente fui ao ateliê de Ana e vejo que ela está cercada de coisas que ela não sabe onde vão dar. A experiência de arranjar um espaço, de relacionar isso com o entorno, é sempre uma experiência de descoberta. Depois de alguns anos trabalhando na sombra e agora com visibilidade, você vê que ela está rodeada por um universo de formas desconhecidas que vai fazendo sentido. Muita marcenaria, construção geométrica. Tenho gostado de vê-la em exposição. Gosto dessa sensação, principalmente com aqueles alunos mais resignados, que dizem que arte contemporânea não é pra ninguém, digo insiste, flerta, constrói um caso de amor com aquilo. O amor nem sempre nasce no primeiro olhar, né? Esses trabalhos que desafiam, que não se abrem direto, são os que a gente tem que voltar. (Ana Maria Maia)

Ana Mazzei Pausa-longa1

09. Daniel Lie

Nasceu em 1988, em São Paulo

Vive e trabalha em São Paulo

É representado pela Casa Triângulo

Daniel Lie

Artista muito jovem, que estudou na Unesp e teve seu trabalho impulsionado pela vivência no espaço da Casa do Povo, no Bom Retiro. Daniel investiga materiais perecíveis e seu apodrecimento. Faz instalações em que planta folhagens e frutas tropicais em sacos plásticos e os suspende com cordas para tomar o pé direito dos espaços expositivos e compartilhar seus estágios de desenvolvimento com o público. O artista não sabe muito bem qual será o resultado das experiências que promove, mas insiste justamente nessa zona cega entre a exuberância inicial e tudo o que pode nascer da mesma: manutenção e até retirada da obra do espaço, outras formas de vida, bichos, fungos, cheiros. Em paralelo às instalações, Dani constrói sua imagem também como um trabalho, recorrendo a maquiagens principalmente. Ele tem essa consciência dos jovens sobre a sua imagem e sobre o alcance da sua imagem nas redes sociais. Na era dos selfies, está lá Daniel fazendo uma espécie de transformismo, que não passa pela questão de gênero necessariamente, ele não é travesti, mas sim pela sua construção como personagem, usando maquiagem, cabelos, roupas estranhas. É um universo bem estranho. Ele agora está fazendo um programa de TV, “Podre show”, em que se mostra apodrecendo. (Ana Maria Maia)

Instagram: instagram.com/liedaniel

Daniel Lie 2

9. Ex-Miss Febem [Aleta Valente]

Nasceu no Rio de Janeiro

Vive e trabalha no Rio de Janeiro

instagram.com/ex_miss_febem

Ex Miss Febem

Há vários avatares de Instagram e Facebook que já não dá pra ignorar como construção de imagem. Não sei o que essas figuras vão fazer com isso, não sei o quanto elas próprias ou outras pessoas vão entender e gerar discurso. Tem uma menina que se intitula @exmissfebem, Aleta Valente, que parece que está se aproximando do circuito da arte através desse perfil. É um Instagram incômodo e ao mesmo tempo muito original, muito forte. De uma menina da periferia do Rio de Janeiro, de Bangu, que exerce uma visão feminista das coisas, provoca, é banida e volta, consegue seguidores. Tudo isso como evento de construir uma imagem, uma pauta, lidar com a recepção, a rejeição, participar de um imaginário coletivo. A princípio não sabia das expectativas de Aretha em relação ao circuito de arte. Logo depois vi que participou de eventos do Capacete, a principal residência artística do Rio de Janeiro, e foi mencionada por Lisette Lagnado em uma entrevista à Select. Independente disso, do início ou não de uma carreira e das chancelas que essa carreira pode vir a ter, tenho gostado de acompanhar o modo como o perfil @ex_miss_febem vem encaixando uma voz crítica e provocativa sobre o interesse coletivo no corpo individual e biográfico de uma garota. Resposta condizente com o fenômeno cultural da hiperexposição nas redes sociais. (Ana Maria Maia)

10. Michel Zózimo

Nasceu em Santa Maria (RS) em 1977

Vive e trabalha em Porto Alegre

michelzozimo.com

Michel Zozimo

Artista do Rio Grande do Sul que já teve certa visibilidade, participou de algumas exposições, do Rumos, da Bienal do Mercosul. Tem um trabalho que lida com a ciência, com a ideia do desconhecido dentro da ciência, como ela pode ser mistificada, inacessível e ao mesmo tempo retratar o onírico, o estapafúrdio. Ele está entre esses dois pólos e tenta explorar isso - foi muito influenciado pela ficção científica. Acho o trabalho bem interessante graficamente, seu uso de fotografia, montagem. Em um primeiro olhar você acha que é um trabalho gráfico, em que tudo é milimetrica e obsessivamente pensado. Por trás tem uma outra pesquisa como, por exemplo o garimpo e pesquisa em cadernos de ciência que vendiam em bancas de revista ou que eram de materiais escolares. Ele pega aquilo, faz um novo arranjo, cruza publicações possíveis. Acho o trabalho muito forte. (Diego Matos)

Tem uma coisa no trabalho dele que eu gosto, como quando ele aponta que a ciência tem misticismo. A gente costuma associar a ciência à verdade. Se o cientista diz que a gente tem que comer ovo, a gente come. Se amanhã não tem que comer, a gente não come. No momento em que a ciência vira misticismo, abre-se um campo para a arte virar verdade. Arte que seria o contrário, que a gente acha que é tudo invenção, arbitrariedade. Você fica com os critérios meio balançados quando vê o trabalho. (Ana Maria Maia)

meteoro

11. Barbara Wagner

Nasceu em Brasília em 1980

Vive e trabalha em Recife

barbarawagner.com.br

Barbara Wagner.

É uma das fotografas mais engajadas em mostrar de fato o Brasil contemporâneo: sem amarras contra o popular, sem distinção entre centro e periferia e sem os tabus sociais de gênero. Ao contrário, ela esgarça todas as fronteiras que nos são culturalmente impostas, basta ver sua última série para a revista ZUM do Instituto Moreira Salles. Ela nos revela o poder do corpo e de seu movimento (a expressão da figura humana comum e popular) dentro de determinados contextos sociais e urbanos. Sendo assim o dado comportamental é escancarado pelas imagens divulgadas por Bárbara e nos oferece um mosaico complexo da realidade cultural brasileira. Recorremos, por exemplo, ao livro “Brasília Teimosa” ou mesmo suas pesquisas recentes acerca de danças populares. (Diego Matos)

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Barbara Wagner

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Os livros preferidos das escritoras

por   /  24/02/2016  /  9:09

Virginia Woolf

Li “A louca da casa”, de Rosa Montero, e fui à casa da Ivana Arruda Leite, amiga querida e escritora de quem sou fã. Falei da Rosa, e claro que ela já tinha lido. A Andrea também, a Bia, idem. Perguntei quais outros livros tinham um poder tão arrebatador, e elas me indicaram “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, que eu devorei em seguida.

Uma dica tão valiosa merece ser compartilhada, e eu acabei perguntando a essas mulheres que eu tanto admiro quais são seus outros livros preferidos. O resultado é precioso – e eu tô aqui querendo ler todos!

Ivana

Ivana Arruda Leite

Sempre me embanano quando pedem meu livro preferido. Então vou falar alguns.
Aos 18 anos, “Antes do Baile Verde” – Lygia Fagundes Telles
Aos 30 anos, “Morangos mofados” - Caio Fernando Abreu
Aos 35 anos, “Jogo da amarelinha” – Júlio Cortazar
Aos 40 anos, “Além do bem e do mal” – Friedrich Nietzche
Aos 50 anos, “A caixa preta” – Amós Oz
Aos 55 anos, “Patrimônio” – Philip Roth
Aos 60 anos, “Sábado” – Ian Mcewan; “Elizabeth Costello” – J. M. Coetzee.
Aos 64 anos – “Antes do baile verde” – Lygia Fagundes Telles.

Lá na época (2004?), nenhum livro me pareceu tão meu quanto “O passado”, do Alan Pauls.

Andrea 2

Andrea del Fuego

Vou citar meu assombro atual: Vergílio Ferreira com o romance “Aparição”. No atacado, todos do Ian McEwan, todos do Philip Roth, todos (poucos) da Sylvia Plath.

“Um teto todo seu” é Bíblia.

Bia

Beatriz Antunes

Depois de “Um teto todo seu”, nada mais me virou do avesso.

Eu leio muito mais não-ficção… Acho que “Hiroshima” é meu livro favorito (John Hersey). Mas é isso, reportagem. E desgraça. Não tem combinação melhor.

“Stasilandia” - Anna Funder é foda também. E “O demônio do meio-dia” - Andrew Solomon.

AH! Tem um livro muuuuuito bom. Tipo m u i t o fucking bom. “A menina sem estrela”, do Nelson Rodrigues. Uma espécie de autobiografia dele.

[Na foto da Bia, a ilustração é do Renato Moriconi para o livro “Telefone sem fio”, escrito em parceria com o Ilan Brenman (Companhia das Letrinhas). “Como eu amo essa ilustração, quero até tatuá-la, eu tenho um postalzinho na minha sala, para me inspirar quando trabalho”, diz. “E essa caixa com cara de homem é uma revista literária maravilhosa, chamada McSweeney’s. Cada edição da revista vem num projeto gráfico diferente, e essa é uma caixa cheia de contos e quadrinhos e coisinhas lindas dentro, com encadernações as mais diversas. Acho que é de 2010. Mas a caixa é muito engraçada, isso que importa.]

A louca da casa, de Rosa Montero

por   /  22/02/2016  /  9:09

A louca da casa 2

Se o livro que estamos lendo não nos acorda como se fosse um punho batendo em nosso crânio, para que lê-lo?

Kafka

Existem livros que nos fazem repensar a relação com a literatura. São aqueles que transformam uma biblioteca imensa em um amontoado de papel e te deixam com vontade de fazer uma faxina e só manter títulos que despertem tamanho entusiasmo. “A louca da casa”, da autora espanhola Rosa Montero, tem esse efeito.

Mistura de autobiografia e exercício sobre o que é escrever, o livro é um desses que você grifa do começo ao fim. Livro lido, livro gasto, livro com história, sabe? Do jeito que eu gosto. Rosa é espanhola, tem 65 anos e já escreveu mais de 15 romances. Também é jornalista, e eu conheci o trabalho dela quando li um perfil seu sobre John e Yoko, em uma xerox que ganhei em alguma aula na época da Folha.

Por alguns anos, os livros dela ficaram na estante sem me chamar a atenção. Talvez por conta das capas, que não me diziam muito. Até que no fim de 2015 resolvi ler “Histórias de mulheres”, uma série de perfis de mulheres das artes, da literatura, de áreas diversas como antropologia. Mulheres marcantes, cujas trajetórias e seus feitos foram resumidos em poucas páginas por uma Rosa apaixonada por cada uma delas, leitora ávida de biografias, feminista, eternamente incomodada com o silêncio a que somos submetidas desde sempre. Deu vontade de ler tudo que Georges Sand, Agatha Christie, Simone de Beauvoir, Frida Kahlo escreveram, ou ao menos mais um pouco do que escreveram sobre elas.

Na sequência, peguei “A louca da casa”. Li nos primeiros dias do ano, em uma paradisíaca praia no Ceará, o que deve ter contribuido para a perfeição do momento. Virava cada página com aquela ansiedade de quem espera mais uma descoberta, mais um insight poderoso, mais um trecho que resume tão bem o que já me passou pela cabeça, ou o que eu nem sabia direito que pensava mas logo fez todo sentido.

Rosa nos conduz por uma investigação sobre o ato de escrever, misturando suas histórias e percepções com fragmentos da vida de escritores do cânone e as ideias deles sobre o ofício. “Quero dizer que escrevemos na escuridão, sem mapas, sem bússola, sem sinais reconhecíveis do caminho. Escrever é flutuar no vazio”, diz.

Ela também fala das armadilhas da literatura, como a busca pelo sucesso. Fala de travar e achar que jamais será capaz de escrever outra linha novamente. Fala de vidas destruídas pela literatura e de outras salvas pelo mesmo motivo. Fala de viver não para colocar as experiências no papel, que aí o caminho é fácil demais, mas de entender que “o imaginário reaviva a imaginação, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária.”

Com maestria, ela ainda brinca com o poder da palavra. Conta uma história de sua vida, e a gente acha que aquilo aconteceu, até que somos surpreendidos por mudanças no roteiro, uma, duas, três vezes. Não basta apenas falar do que a palavra é capaz, mas sim mostrar isso brilhantemente nas páginas que se seguem. Rosa encanta porque é frágil, vulnerável, tem medo e dúvida, às vezes trava, às vezes quer ser reconhecida. E principalmente porque nos faz entender que deixar a imaginação, essa tal louca da casa, solta (e ser bastante fiel à disciplina) é o que faz com que as histórias que ela nem sabe que existem continuem a surgir de dentro dela. Que sorte a nossa.

+++++

Separei alguns trechos pra dividir com vocês!

A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas.

Acho que a vida é um mistério descomunal do qual só arranhamos a casquinha, apesar de nossas pretensões de grandes cérebros. Na verdade não sabemos de quase nada; e a pequena luz dos nossos conhecimentos é rodeada (ou melhor, sitiada, como diria Conrad) por um tumulto de agitadas trevas. Também acredito, e continuo com Conrad, na linha de sombra que separa a luz da escuridão; em margens confusas e fronteiras incertas. Em coisas inexplicáveis que nos parecem mágicas só porque somos ignorantes. O romance se dá numa região turva e escorregadia, em torno de um romance sempre acontecem as coisas mais estranhas.  

Seja como for, não é preciso morrer, nem se tornar um doido oficial e ser trancado num manicômio, nem se drogar feito o junkie mais decadente, para ter vislumbres do paraíso. Em todo processo criativo, por exemplo, você chega à beira dessa visão descomunal e alucinante. E também entra em contato com a loucura primordial toda vez que se apaixona loucamente. (…) Porque a paixão talvez seja o exercício criativo mais comum da Terra (quase todos nós inventamos algum dia um amor) e porque é a nossa via mais habitual de conexão com a loucura. Em geral os seres humanos não se permitem outros delírios, mas aceitam o amoroso. A alienação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida. É uma válvula de escape que nos permite continuar sendo equilibrados com todo o resto.

Manter a distância exata do que conta é a maior sabedoria de um escritor; você tem que fazer com que aquilo que narra o represente, como ser humano, de uma maneira simbólica e profunda, da mesma maneira que os sonhos; mas tudo isso não deve ter nada a ver com o episódio de sua pequena vida.

A literatura é uma felicidade inata e uma dificuldade adquirida. [Irmãos Goncourt]

- Sei lá. Às vezes a gente evita começar o trabalho. É uma coisa esquisita.
- Por preguiça?
- Não, não.
- Por quê?
- Por medo.

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The Waiters e a celebração de 13 anos de música

por   /  19/02/2016  /  13:13

Matt Love - Lulina

Foi em mais uma véspera melancólica de Natal que ouvi “Christmas lights” pela primeira vez. Lulina mandou a música por email, e eu senti um conforto no coração. Ela também contou que havia feito a música com um amigo virtual que morava nos Estados Unidos, o Matt. Música literalmente feita por computador, que legal! Quando ela fez sua primeira turnê internacional, o Matt também estava lá, articulando lugares para os shows, tocando junto. A amizade dos dois já dura treze anos, se transformou na banda The Waiters e, no ano passado, deu cria: um disco indie lo-fi delicioso.

Conversei com o Matt por email querendo saber mais da relação deles. “Não foi há tanto tempo que nos conhecemos, mas em termos de ciberespaço, foi há séculos. As coisas mudaram tanto!” O ano era 2003, e Matt pesquisava nomes de filmes com o título “Plan _ From Outer Space” (cineastas amadores fazem homenagem ao clássico filme B “Plano 9 do Espaço Sideral”). Quando digitou “Plan 13 From Outer Space”, achou um único link, com a frase solta em um texto em português. “Era o blog de uma mulher incrível. Por sorte, os programas de tradução também tinham começado a existir, e descobri que ela dizia que iria escrever uma música chamada ‘Plan 13 From Outer Space’. Pensei: ok, estou procurando filmes, mas posso procurar músicas também.”

Alguns cliques depois, Matt descobriu o email de Lulina e sua fixação pelo número 13, que ele também compartilhava. “Também descobri que uma das bandas preferidas dela era o Beat Happening. Agora sim eu tinha uma conexão pra dividir! O primeiro show do Beat Happening foi de abertura para a Wimps, minha primeira banda, que também fazia seu primeiro show”, lembra. “Escrevi e pedi pra ela me mandar uma cópia da música quando estivesse gravada. Ela respondeu e disse ‘vamos gravar juntos!’. Lulina tem uma maneira maravilhosa de se relacionar com as pessoas por meio da música, e a ideia de conhecer melhor as pessoas fazendo música com elas também é uma prática que adotei.”

Não por acaso, 13 anos depois do primeiro encontro virtual, Matt e Lulina – e Leo Monstro, artista que é parceiro da cantora há anos – lançaram juntos o primeiro disco do The Waiters. A banda surgiu de uma conversa entre Matt e Leo. O norte-americano, que foi funcionário público por mais de duas décadas e deixou o emprego para virar cuidar dos pais em tempo integral, formou com uns amigos uma banda, a Dweebish, mas acabava tocando pouco. Léo, pernambucano radicado em São Paulo, sentia falta de tocar com mais frequência. Surgia, então, o The Waiters, simplesmente porque eles estavam sempre esperando – inclusive a cantora ter tempo pra se juntar.

O disco, encontro entre Olinda, cidade da infância de Lulina, e Olympia, em Washington, onde Matt vive, é um presente pra todos que passamos os últimos anos da adolescência ouvindo maravilhas indies. “É muito lindo poder registrar essa parceria de 13 anos em um disco”, diz Lulina. “Ele é uma grande celebração dessa amizade musical e envolve muitos amigos que se juntaram a nós ao longo desses anos”, completa ela, que em 2010 fez uma turnê pela costa oeste dos EUA, com shows em Seattle, Olympia, Portland, Wenatchee e Anderson Island, e também por Chicago. “O Matt foi o meu baixista nessa turnê, pois o Zé não conseguiu visto. Foi muito especial, imagina assistir Calvin Johnson [do Beat Happening] dançando na minha frente todo empolgado durante o show?”

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Falando em bandas, Matt, 59 anos, cresceu rodeado por discos de vinil e tinha como hábito ir a uma loja com o irmão a cada sábado escolher um título novo. Entre suas influências, estão Bob Dylan, The Clash, Bad Company, Foreigner, Thompson Twins, Talking Heads, B-52s, XTC, Abba. Da época em que era DJ de uma rádio, relembra algumas pérolas: “O Superman”, de Laurie Anderson, e “Singing in the Rain”, do Just Water. “Passo por períodos na vida em que escuto a mesma música repetidas vezes. ‘Love will tear us apart’, do Joy Division, me manteve vivo após o divórcio com minha primeira mulher. Passei por épocas longas em que ouvia ‘My old school’, do Steely Dan, repetidamente. Sem falar em ‘Strawberry Fields forever’.”

Matt já veio ao Brasil seis vezes, sendo a primeira em 2008, e sempre se impressiona com a recepção. “Daniel Belleza me disse que todo mundo que ele conhece conhece Lulina, e eu vi que isso era verdade. Em toda loja, casa de show que eu ia, falavam ‘Matt está numa banda com Lulina!’. ‘Ah, Lulina!’ Foi uma recepção bem calorosa.”

Enquanto se dedica o quanto pode à música, ele faz planos de gravar um segundo disco do Waiters em um intervalo menor de tempo – e de voltar ao Brasil com a mulher, Anne, e a filha, Olivia, em dezembro deste ano. “Fazer música, ao menos desde Dylan, é um processo indefinido e misterioso, no qual você se joga e lida com insegurança.” Ele conta que já esbarrou em vários becos sem saída por ignorar a “maneira certa” de fazer as coisas, mas se deu conta de que tudo isso vira história – ou música. “Venho de uma cidade pequena, quero voltar para uma cidade pequena, mas a cada dois anos vou para algumas das maiores e mais legais cidades do mundo e brindo a todas essas experiências.”

Lulina celebra a parceria. “O que eu mais admiro nele? A generosidade, o amor que tem pela música e por nós, todos os seus amigos brasileiros, e também a persistência e paciência pra não desistir de continuar compondo e tocando com a gente, mesmo com a distância e o pouco tempo disponível de todos. Ver o Matt no palco é tocante, ele é puro coração ali. É uma felicidade muito grande quando esse grupo está junto, seja compondo, gravando ou fazendo show.” Que venham os próximos encontros.

+ Lulina no Don’t Touch

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Andando na fé de Clarice Freire

por   /  15/02/2016  /  11:11

@claricefreire

Estudei a vida inteira em um colégio católico, coisa que nunca entendi. Meu irmão estudava em uma escola meio intelectual, meio de esquerda, e eu naquela outra que começou sendo exclusiva para boas moças. Fiz primeira comunhão, crisma, até vi Jesus quando voltava de uma atividade no sítio, aquela parte tão distante da sala de aula. Foi uma alucinação coletiva das crianças da segunda série, tamanha era a repetição das palavras da Bíblia no dia a dia. Adolescente, entendi que a religião católica não era a minha. Preferia ouvir outro Deus, outros deuses. Neil Young, Lou Reed, aquelas músicas que diziam mais de mim do que qualquer parte do evangelho.

Corta para muitos anos depois, mais precisamente para março de 2015, e estou em um restaurante delicioso na praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, conhecendo in real life Clarice Freire, a escritora que virou fenômeno com seu Pó de Lua, uma série meio poema, meio desenho que arrebata mais de 1,2 milhão de fãs apenas no Facebook, sem contar os 200 mil no Instagram, e que também conquistou o mercado editorial com seu livro de estreia – vendendo mais de 70 mil cópias.

Clarice estudou naquela mesma escola, e pela primeira vez após a alucinação coletiva eu vi alguém com um background parecido com o meu falar tão apaixonada e verdadeiramente sobre a religião católica. Não que a conversa tenha começado por aí, mas sabe aqueles encontros que duram horas e que transcendem, te mostrando alguém encantador? Foi assim. Vou contar pra vocês.

Bienal do Rio

Clarice nasceu em Recife, tem 27 anos e vem de uma família de artistas. O pai sempre escreveu. A mãe pintava com aquarela. A irmã, Sofia, é cantora e compositora - aliás, ela e Clarice já apareceram antes por aqui, cantando em homenagem aos 25 anos de casamento dos pais. O tio, Marcelino Freire, é escritor, professor, descobridor de talentos literários. “Desde cedo eu era levada para peças de teatro, sarau de poesia. Eu pensava que nunca iria escrever. Me comparava e pensava: não tem como.” Mesmo assim, a herança falou mais forte, e, adolescente, ela começou a escrever, bastante influenciada pelo pai e pelo tio. Os rascunhos ficavam em cadernos escondidos em seu quarto.

Começou a estudar publicidade. Em 2010, aos 21 anos, foi morar em Segóvia, na Espanha, e ali, andando pela cidade, vivendo experiências diferentes, viu que a criatividade fluía mais solta. Quando voltou para Recife, conseguiu um estágio em uma agência. “Passava o dia vendendo sabonete, carro. Entre um job e outro, tinha que esvaziar a cabeça. E isso saía em forma de poesia”, lembra. Ao fim do dia, ela amassava aqueles papéis e os jogava no lixo. Um dia, quando chegou no trabalho, Elisa, sua dupla de criação, havia colocado os papéis em cima da mesa, como se fosse um livro, indagando como ela podia jogar aquilo fora. Foi a amiga quem criou um blog para Clarice, que era zero da internet na época. “Eu não queria, foi uma confusão. Ela acabou me convencendo quando disse que era para eu não perder mais as ideias.”

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

O nome surgiu com a lembrança de um professor que havia perguntado se ela sabia porque a Lua era tão bonita. “Ele me disse: ‘Porque mesmo ela sendo só pó, como eu e você, ela consegue refletir a luz de outro, maior que ela. Por isso as nossas noites não são escuras.’ Aquilo me marcou tanto, eu quis ser como a Lua,  até pela noção que tenho de Deus, da vida, das coisas. Foi tão forte que falei: Pó de Lua.” Com o tempo, ela passou a escrever muito no blog, aquilo virou a parte boa do dia, quando ela podia escrever sobre o que importava de verdade. Durante o dia ela continuava escrevendo, jogando os papéis fora, e os colegas iam juntando tudo. Uma outra amiga a presenteou com um Moleskine, e foi aí que ela passou a escrever e desenhar sem jogar o resultado fora.

Em 2011, o blog começou a fazer sucesso espontaneamente, sem nenhuma estratégia. A cada dia, ela se  impressionava com as respostas dos leitores. Quando ganhou um celular que tirava foto, pensou que finalmente conseguiria mostrar como era seu processo. Criou uma fanpage. “O compartilhamento era muito mais rápido por ali, me impressionava. Mas aquilo era o paralelo, eu mantinha meu trabalho.” Quando se formou, passou dois meses em Buenos Aires fazendo um curso de criatividade. Voltou, e o projeto mudou, cresceu. “Comecei a ter menos medo de brincar, ousar, inventar coisas. A gente não tem que ter medo de criar o que quiser, e eu brincava de dar mil significados para as palavras.” Foi quando fez a poesia do palito de fósforo.

fosforo

“Só o fósforo teve 14.000 compartilhamentos. Pensei: o que aconteceu? Por que as pessoas estão assim por causa de um palito de fósforo?”. Ela acabou lembrando de outro motivo para o nome do blog: o filme “Casa de Areia”, em que as personagens de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres moram em dunas e passam a vida imaginando o que tem na Lua. Um dia, a mais nova chega com a notícia de que o homem pisou pela primeira vez na Lua, ao que a outra pergunta o que tinha lá, e ela responde: areia. “A gente fica procurando o extraordinário na Lua, enquanto ele está no ordinário ao nosso redor. Mas a gente não tem olhos para ver porque está olhando pra Lua. Isso foi uma chave sobre o que eu queria escrever.”

“Eu vi que as pessoas estavam procurando dar sentido às coisas, ver poesia na vida, nas coisas insignificantes. Daí surgiu o conceito: Pó de Lua para diminuir a gravidade das coisas. Percebi que eu queria falar com delicadeza da vida. Por mais que eu falasse de temas duros, como pobreza, dor, solidão, angústia, sempre tinham outros mais lúdicos, como saudade, e outros mais bonitos, como amor. Sempre usando delicadeza. E eu via que isso chegava no coração das pessoas. Eu falo muito do coração. Acho que é por isso que tenho um diálogo tão sincero.” Hoje mais de 1,2 milhão de seguidores acompanham sua poesia pelo Facebook. E claro que esse alcance já rendeu muita história, de gente que se transformou ao ler seus escritores, que fez fã clube, viajou longas distâncias só para pegar um autógrafo e dar um abraço.

A convite da editora Intrínseca, o Pó de Lua virou livro, em 2014. “A minha literatura é a junção de várias coisas. Ela é desenho, caligrafia, ilustração. Tem poesia, tem prosa”, define. Ela sabe que o que faz é diferente – e se existem milhões de seguidores, sempre aparecem alguns detratores. “Muita gente tem preconceito, diz que é literatura de Facebook.” Ela contesta: “É literatura, e ela usa da plataforma que quiser para existir. O mundo está em transformação, por que a literatura não?” Para fazer o livro, Clarice escolheu metade das poesias que as pessoas queriam ter nas mãos (aquelas que mais faziam sucesso no Facebook) e fez a outra metade inédita. Viajou pelo Brasil inteiro para divulgar o livro, ouviu centenas de histórias emocionantes, conheceu leitores que a acompanhavam desde o comecinho no blog. “Foi surreal, acho que nunca vou esquecer na minha vida.”

Comunidade dos Viventes 3

Com Gabriel Marquim, da Comunidade dos Viventes

Hoje Clarice é escritora em tempo integral. Quando conversamos, ela preparava o segundo volume do livro do Pó de Lua, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano. Ela também se dedica à Comunidade dos Viventes e ao Projeto Vincular, em Recife. Há oito anos, o amigo Gabriel Marquim chegou para Clarice perguntando qual era o sonho dela. “Falei que era ser publicitária. Ele respondeu: ‘Isso é um projeto muito bonito, mas qual é teu sonho?’ Tentei procurar alguma coisa mais nobre, falei casar. Ele disse que era outro projeto belíssimo. ‘Que meus filhos sejam pessoas muitos boas?’. Outro projeto lindo, cara, mas qual é seu sonho? Eu percebi que não tinha um. Comecei a questionar: o que é um sonho? Por que sonho é diferente de projeto? Aquilo deu um nó na minha cabeça.”

Nas conversas com o amigo, ele perguntava: pelo que você daria a sua vida, pelo que nossa geração seria capaz de dar a vida? “Ele me apresentou ao evangelho, a um Jesus muito diferente que eu estava acostumada a ver, aquele que coloca a mão no seu coração, que cura seus problemas, faz milagre, corre com você em um campo florido vestido de branco. Eu nunca tive paciência pra isso. Naquele momento conheci um homem revolucionário, que fez uma revolução através do amor. E que falou de eternidade, de um amor que não é sentimento, mas amor-decisão. Aquilo me transpassou. Eu vi que o amor-sentimento é frágil, passa, mas o amor-decisão, que é ‘eu decido viver o amor na minha vida, como força e direção’, faz qualquer criatura se sentir honrada, criando um vínculo profundo com tudo.”

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

E foi aí que a Clarice se apaixonou – e é aqui que vocês fazem o link com o começo desse texto. “Comecei a ler o evangelho como quem lê um romance, a conhecer a personalidade daquele homem, aquele amor capaz de ir até o fim, até as últimas consequências pelo outro”, diz ela, que não foi criada em uma família católica. “Minha vida virou de ponta de cabeça. Eu tropecei em Deus, acho que ele me queria muito, por algum motivo que ainda estou descobrindo qual é.” Com Gabriel e mais outros amigos, formou a Comunidade dos Viventes, que reúne voluntários para desenvolver atividades educativas, esportivas, culturais e de saúde. Na prática, eles promovem de oficinas de desenho e capoeira a modelos de casas populares, e ainda articulam doações, conseguem bolsas de estudo etc. “Eu aprendi, principalmente no meio artístico, que ter uma espiritualidade, e ainda mais se dizer católica, é o mesmo que dizer que é alienado. E isso é um baita de um preconceito. Eu tenho pena de quem se fecha para essa beleza”, dispara.

Clarice faz questão de ficar de olhos abertos para a beleza, diariamente. Inspira-se em Adriana Falcão, Clarice Lispector, Cecília Meirelles (paixão antiga), Manoel de Barros. gosta de ver filme, ouvir música, escrever, ficar com o namorado, viajar. E aproveita o silêncio das madrugadas para criar. “Tenho um privilégio muito grande. Isso tudo é o que eu amo na vida, e hoje é o que eu faço pra viver. É muito prazeroso, muitas vezes nem me sinto trabalhando.” Sobre o futuro, não se arrisca. “É muito difícil me ver daqui a dez anos, porque em seis meses minha vida mudou tanto! E eu gosto disso, porque gosto de estar aberta ao que a vida pode me apresentar.” Duas certezas ela divide com a gente: “Eu quero continuar escrevendo e publicando e quero estar com bem menos tempo, porque quero estar cuidando de mais gente.” Amém.

TEDx Recife

Leia a carta de Clarice para o Minha Carta de Amorwww.instagram.com/p/0NpMd4MDEp

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Bowie, muito obrigada por tudo

por   /  11/01/2016  /  10:10

David Bowie

Ele apareceu pela primeira vez na minha vida em “Christiane F.” – e ficou no repeat, de tanto que eu assistia ao filme e sonhava em ter aquela jaqueta que a Natja Brunckhorst usava pra ir ao show na Berlim dos anos 1980.

Depois veio em vários CDs-R que Tomaz gravou pra mim, imprimiu a capinha colorida e me entregou no curso de inglês. Mal existia internet, e desbravar aqueles mundos era abrir milhões de possibilidades, era buscar as referências dele, era querer entender tudo, ouvir tudo, porque o portal já tinha sido aberto, e não tinha mais volta.

Em um aniversário meu, há uns dois anos, por uma dessas coisas de sincronicidade, revi na fila da inesquecível exposição do MIS o mesmo Tomaz que tinha sido meu Rdio antes de o Napster existir.

Na primeira vez que fui a Berlim, cheguei morrendo de tristeza e, quando estava fazendo as malas pra ir embora, coloquei o “Low”, o “Heroes” e o “Lodger” pra tocar. Chorei de felicidade, querendo ficar mais, entendendo tanto de mim, da vida, da impermanência e das transformações.

Bowie, você é Deus na minha religião. Muito obrigada por tudo.

Vai lá encontrar o Lou. Aproveita e manda um beijo, tá? 

A foto é de Lynn Goldsmith e foi tirada em 1973

Pra ficar ouvindo ele o dia inteiro: BBC 6

Não dá pra imaginar um mundo sem David Bowie, texto lindo do Alexandre Matias

David Bowie’s life and career – in pictures

Bowie in quotes: ‘I wouldn’t like to make singing a full-time occupation’

David Bowie Answers the Famous Proust Questionnaire

Babydoll de nylon com Bowie e Mick Jagger

David Bowie dead: long-serving producer Tony Visconti discusses the ‘parting gift’ that was Blackstar

David Bowie’s 7 Sexiest Music Videos Celebrate His 69th Birthday

David Bowie’s must-read books revealed

David Bowie: five essential films

How David Bowie told us he was dying in the ‘Lazarus’ video

My David Bowie, alive forever

Bowie e Paul by Linda 1985

“Very sad news to wake up to on this raining morning. David was a great star and I treasure the moments we had together. His music played a very strong part in British musical history and I’m proud to think of the huge influence he has had on people all around the world. I send my deepest sympathies to his family and will always remember the great laughs we had through the years. His star will shine in the sky forever.” Paul McCartney

“David’s death came as a complete surprise, as did nearly everything else about him. I feel a huge gap now. We knew each other for over 40 years, in a friendship that was always tinged by echoes of [comic characters] Pete and Dud. Over the last few years – with him living in New York and me in London – our connection was by email,” Eno continued. “We signed off with invented names: some of his were mr showbiz, milton keynes, rhoda borrocks and the duke of ear. I received an email from him seven days ago. It was as funny as always, and as surreal, looping through word games and allusions and all the usual stuff we did. It ended with this sentence: ‘Thank you for our good times, brian. they will never rot’. And it was signed ‘Dawn’. I realise now he was saying goodbye.” Brian Eno

“Dearest David, wherever you are now, I miss you. Not only do I miss you but my heart is broken. You were my idol, then you became my mentor and my friend. I learnt so much from you, just by being in your presence, the conversations we had and, of course, watching you perform. You always had time for me. My band and I were tiny when we first met. Nonetheless , you took us under your wing. You believed in us and gifted us with so many fantastic opportunities. Without you, your tutelage and your wisdom, I don’t think I would be where I am today, as an artist but also as a person. For that I will be eternally grateful. Float around the ether, David. Bounce gracefully off planets light-years away as you become one with the Universe, as you dive into the Great Unknown. My sincere and heartfelt condolences to Iman, Lexi and Duncan, whose hearts I know are far more broken than mine. As for me, I will treasure every memory of every moment we spent together. Dear David, beautiful man and force of nature, you are immortal. You live beyond the veil of the big sleep. Ong Namo Guru Dev Namo. Namaste.” Brian Molko

John and David respected each other. They were well matched in intellect and talent. As John and I had very few friends we felt David was as close as family. After John died, David was always there for Sean and me. When Sean was at boarding school in Switzerland, David would pick him up and take him on trips to museums and let Sean hang out at his recording studio in Geneva. For Sean this is losing another father figure. It will be hard for him, I know. But we have some sweet memories which will stay with us forever. Yoko Ono

“david bowie começou pelo futuro. de algum modo, o seu tempo ainda não chegou. talvez, por isso mesmo, nos aguarde mais adiante. nem que seja apenas para o abraçarmos e dizer-lhe: muito, muito obrigado.” Valter Hugo Mãe

“David’s friendship was the light of my life. I never met such a brilliant person. He was the best there is.” Iggy Pop

“It feels like we lost something elemental, as if an entire color is gone.” Carrie Brownstein

I’m devastated.
David Bowie changed the course of my life forever. I never felt like I fit in growing up in Michigan. Like an oddball or a freak. I went to see him in concert at Cobo Arena in Detroit. It was the first concert I’d ever been too. I snuck out of the house with my girlfriend wearing a cape.
We got caught after and I was grounded for the summer. I didn’t care.
I already had many of his records and was so inspired by the way he played with gender confusion .
Was both masculine and feminine.
Funny and serious.
Clever and wise.
His lyrics were witty ironic and mysterious.
At the time he was the thin white Duke and he had mime artists on stage with him and very specific choreography
And I saw how he created a persona and used different art forms within the arena of rock and Roll to create entertainment.
I found him so inspiring and innovative.
Unique and provocative. A real Genius.
his music was always inspiring but seeing him live set me off on a journey that for me I hope will never end.
His photographs are hanging all over my house today.
He was so chic and beautiful and elegant.
So ahead of his time.
Thank you David Bowie.
I owe you a lot. .
The world will miss you.
Love
Madonna

“No caso dessas duas entidades, uma despedida apenas física, porque cada música é uma lembrança de que continuam vivos e consigo sentir ainda mais forte a presença deles, como se agora fossem o espaço ao redor, o ar que sustenta a propagação do som. A tristeza então cede lugar ao agradecimento, admiração e inspiração. Ontem quase levei pra cama o livrão que eu tenho do Bowie, mas que é tão grande e pesado que desisti, já estava tarde também, precisava acordar cedo. Até as últimas horas de ontem eu não queria largá-lo. Hoje, a notícia. Conexões que só a música explica.” Lulina

“David was always an inspiration to me and a true original. He was wonderfully shameless in his work. We had so many good times together. He was my friend, I will never forget him.” Mick Jagger

mick

berlin

Duncan Jones

“Very sorry and sad to say it’s true. I’ll be offline for a while. Love to all.” Duncan Jones

30 gifs do David Bowie para assistir ininterruptamente

“Dos vivos, o mais genial. Dos mortos, o mais inesquecível”, diz Rita Lee sobre Bowie

What David Bowie meant to me and multiple generations

One Of The Real Major Toms Even Covered David Bowie From Space

David Bowie é flagrado entrando em disco voador para voltar à sua terra natal

David Bowie Helden, German version of Heroes

Tilda Swinton on David Bowie: He ‘Looked Like Someone From the Same Planet as I Did’

David Bowie: share your memories

Cosas que debemos contar a nuestros hijos sobre David Bowie

Radio Soulwax: Our homage to the man whose ability to change whilst remaining himself has been a massive influence on us. There are many legends in the music industry but for us, there is no greater than the mighty Dave. We’ve included all things Bowie, whether that is original songs, covers, backing vocals, production work or reworks we made, to attempt to give you the full scope of the man’s genius.

Chris Clarke para o The Guardian via @anabean

Arte do Chris Clarke (via @anabeanjean)

db

Dancing out in space. As the world remembers musician David Bowie, a mile-wide space rock named in his honor orbits serenely in the main asteroid belt between the orbits of Mars and Jupiter. NASA (via Manu Colla)

David Bowie Dies at 69; He Transcended Music, Art and Fashion

É difícil entender que não tenho mais 20 anos, disse Bowie sobre envelhecer

Arquivo aberto: o esmalte de David Bowie

David Bowie Dead at 69

ny

De Benjamin Schwartz para a New Yorker

“Though they had exchanged only a few words, Bowie asked for her phone number and then called her that night at exactly 3:00 a.m. “He said, ‘The first thing I want you to know is that you’re not crazy—don’t let anybody tell you you’re crazy, because where you’re coming from, there are very few of us out there.’ For a month, he called her every night and they would talk for hours. Finally, he paid a visit”.

De Bowie para Nina Simone, qdo ela tava numa bad.

“He’s got more sense than anybody I’ve ever known,” she said. “It’s not human—David ain’t from here.

Nina Simone sobre Bowie. (via Vivi Whitman)

David Bowie: the man who thrilled the world

Beat Godfather Meets Glitter Mainman

Na América do Sul, ricos e pobres não se ajudam, afirmou Bowie à Folha

Worldwide tributes to David Bowie: ‘His death was a work of art’

50 David Bowie moments

Brian May tells how David Bowie and Queen wrote the legendary track Under Pressure

As faces de David Bowie

David Bowie se foi. Aqui estão frases que ilustram seu legado

Exit Bowie, discreetly: ‘He thought it honourable to become invisible’

David Bowie: He wrote his own requiem – he was always a lap ahead

bw

gi bowie gif

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