Favoritos

Posts da categoria "#bibliotecaDTMM"

“Um coração sem fechadura”, de Silvia Guimarães

por   /  24/05/2018  /  18:00

sil

“As coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sil (@designdebaunilha) é uma dessas amigas que eu mais marco de ver do que encontro de verdade. Ainda assim, estamos há anos nos acompanhando, frequentando uma festinha de aniversário aqui, um show ali, falando nas DMs. A cada ano que passa eu vejo essa amiga desabrochar, se abrir pro mundo, se entender, colocar na vida e no trabalho o tanto que aprende. É tão bonito!

Um dos episódios que marcaram a vida dela é o assunto desse post aqui. Há 8 anos, Sil deu à luz Matias, seu filho caçula. Matias nasceu com uma cardiopatia congênita. E mudou tudo na vida de sua mãe – e de todos ao seu redor.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A história dele é contada no livro “Um coração sem fechadura”, que está em processo de financiamento coletivo. A primeira meta já foi atingida, e a ideia agora é dobrar a meta. Vamos ajudar a espalhar essa história preciosa?

www.catarse.me/umcoracaosemfechadura

sil2

Sil, que também faz o Design de Baunilha, conta sobre o livro:

“Passei a vida ouvindo as pessoas dizendo pras mulheres grávidas “não importa se é menina ou menino, o que importa é que tenha saúde”. Em 2010 eu tive um filho que tinha um problema no coração e pensava nessa frase todo dia, perdida, martelando ‘E agora? O que é que importa?’.

Meu primeiro passo foi me vitimizar. Passei por esse passo com força e com vontade. Minha segunda frase favorita nessa época era ‘o que é que eu fiz pra merecer isso?’, e tudo o que eu consegui com ela foi passar um ano sem dormir. E o menino lá, se recuperando, sendo feliz, vivendo, e eu sofrendo porque nada daquilo estava sendo como eu tinha imaginado.

E então eu escrevi um livro. Que é um livro pra criança, mas é um livro pra adulto também. Ele fala sobre medo, fala sobre como a gente quer controlar o incontrolável. Fala sobre encontrar dentro da gente a sabedoria de quem já veio pra esse mundo com um passinho na frente, entendendo que fechando o coração pra vida a gente não vai muito longe não.

E o que eu mais quero agora é que esse livro exista, é que essa história chegue nas pessoas. É mostrar que tudo bem ser diferente. Que as coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”

sil3

“Estúpida, eu?”, de Camila Coutinho

por   /  12/05/2018  /  20:20

camila

Acabei de ler “Estúpida, eu?”, livro de estréia da @camilacoutinho. De um fôlego só, em 2 horas de uma tarde de sexta em que eu, como todo dia, queria ser produtiva, fazer mais, cumprir a lista de tarefas… Até que resolvi fazer o que queria: ler um livro escrito por uma blogueira que acompanho desde o começo, uma daquelas pessoas por quem você até tem mixed feelings (pois não fala exatamente dos temas que você diz pra si mesma que tem mais interesse) ao mesmo tempo em que vibra por, tamanho o carisma.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Entre os vários insights que tive, divido um com vocês: ando cansada de julgar tanto tudo e todos. A gente escreve “blogueira” ou “blogueirinha” já colocando o trabalho em um patamar inferior. Eu tenho blog há dez anos, e ele me trouxe tanto. De amigo a crush, até uma sócia! Sou pura hashtag gratidão pelo que a internet me deu e dá.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Faz um tempo, no entanto, que essa internet me angustia na mesma proporção em que me alegra. Questiono demais, observo demais, julgo demais. Tô o tempo todo medindo e analisando a quantidade insana de material que chega aos meus olhos a cada vez que abro o Instagram. Ler esse livro me reconectou com uma Dani adolescente que pediu uma assinatura da Caras, ganhou e passou a acumular um repertório inacreditável sobre celebridades e subcelebridades. Tem uma parte de mim que gosta desse assunto, e tá tudo bem, que bom que somos múltiplos, né?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tenho gostado demais de ouvir o outro, e essa leitura foi ótima. Mostrou como uma ideia simples se tornou um negócio poderoso, que por trás do sucesso existe uma mulher de 30 anos que está sempre dando o próximo passo, se reinventando, fazendo networking, entendendo concorrência como estímulo.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nessa era de feed perfeito e discurso supercoerente, me perco. Poderia postar todo dia, dividir coisas que leio, penso, vejo, sinto. Mas não. Por que? Porque o texto desse post aqui tá cheio de mas e gerúndio, “não pode”. Porque quem vai querer ler? É muita chatice e pouca ação. Enquanto me dividido entre angústia e paralisação, a vida acontece, o tempo passa… Fiquei com vontade de parar com isso. Quem sabe, né?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
#ainternetqueagentequer
#bibliotecadonttouch
#estupidaeu

Autoamor e natureza na fotografia de Ieve Holthausen

por   /  03/04/2018  /  9:09

Ieve Holthausen 3

Gosto de ver como trabalhos de mulheres diferentes se conectam. Conheci o da Ieve Holthausen por meio de uma indicação da Tuane Eggers, que já apareceu por aqui (A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers). Ela também falou da Chana de Moura (Fotografar foi o início de uma liberdade). As três são do Sul – e se conectam com si mesmas e com a natureza para criar imagens em que a gente quer mergulhar, fazer parte.

Conversei com a Ieve sobre seu trabalho. Espero que gostem!

Mais: @ieveholthausen + ieve.org

Ieve Holthausen 1

Penso que é o sagrado que é o objeto da minha fotografia. Entendi que de forma mais inconsciente ou intuitiva costumo buscar em meu trabalho fotográfico fazer uma louvação à natureza (que é Deus para mim) e aos sentimentos mais elevados, como o amor. Percebo que minhas fotos falam de conexão consigo ou com a natureza, de meditação, de transcendência, da potência das viagens interiores, buscando lembrar que somos consciência. E também falam de ser mulher, de nossa força, de nossa sensibilidade, da potência da união feminina e do autoamor e da libertação dos nossos corpos de mulheres – os portais que nos trouxeram até aqui.

ieve

Acho que não estou muito inserida no meio da fotografia, visto que não participo de editais, concursos, eventos e não tenho quase nenhum contato com outros fotógrafos (exceto duas amigas) ou qualquer coisa assim. Fico meio escondida e não percebo a muito diferença entre ser homem e ser mulher nessas circunstâncias, embora saiba que exista bastante machismo nesse meio.

ieve11

A fotografia representa a linguagem que minha alma aprendeu a usar para se expressar. Tudo aquilo que não consigo expressar por palavras, pintura, desenho ou música. É a maneira de revelar e compartilhar um pouco do meu universo interior.

ieve2ieve0 Ieve Holthausen 4 Ieve Holthausen 5

 

O artivismo fundamental de Aíla

por   /  29/03/2018  /  15:15

DE7CBE81-B5A3-4567-BE68-AE2A27797A9C

Escute “Lesbigay” e prepare-se: a música vai grudar na sua cabeça e vai te fazer querer ouvir muito mais do que Aíla tem para cantar. Ao vê-la ao vivo, a potência impressiona. Ela enche o palco inteiro,  e aí você entende que música boa te faz dançar enquanto fala de algumas das questões fundamentais desse mundo doido em que a gente vive.

Conversei com a cantora paraense em uma extensa entrevista, daquelas que dá vontade de trocar os emails por uma conversa ao vivo, sabe? Espero que gostem!

Mais Aíla: @ailamusic + YouTube + site oficial

As fotos são de Julia Rodrigues.

– Ouvindo seu disco lembrei daquela frase “Se não posso bailar, não é a minha revolução”. Você fez um álbum político do começo ao fim. Conta um pouco sobre ele, sobre como assuntos tão diversos como desmatamento a LGBTfobia te interessam?

De um tempo pra cá, eu senti que precisava falar do hoje, das coisas urgentes que nos cercam, que precisam ser ditas. Eu queria uma poesia mais política. Desde que comecei a idealizar esse novo trabalho, um pensamento que me movia muito era a possibilidade de fazer as pessoas dançarem muito, cantarem alto e refletirem ao mesmo tempo. Sempre imaginei aproximar canções pops, dançantes, desse discurso mais ‘artivista’. Com esse desejo, temas como feminismo, assédio, racismo, homofobia, ocupações, intolerância e resistência ganharam o centro do debate.

Arte é revolução. O maior sentido de fazer arte hoje, pra mim, é transformar o agora, é mover, fazer refletir, cutucar, contra-atacar. Somos responsáveis pela construção de espaços de debates, de diálogos. Apesar de vivermos em um mundo controlado pelo medo, pelo capital, pela repressão, nossa arte precisa ser um sopro de resistência e liberdade. Esse disco é um grito contra a intolerância, o preconceito, o ódio, o aprisionamento, a exclusão.

– Você cresceu na periferia de Belém. O que isso te deu de bagagem?

Acho que a minha origem, a Terra Firme, que é também um dos bairros mais populosos de Belém, tem total relação com as minhas inquietudes, as minhas lutas, as minhas ideologias, as minhas buscas… Tenho muito orgulho de ter vindo da “TF”, e mais feliz ainda de poder estimular outros artistas da periferia a apostarem nos seus sonhos e acreditarem que a arte pode sim fazer revolução.

Foto 2 Julia Rodrigues

– O que te formou musicalmente? O que te inspira a compor?

Desde sempre, fui estimulada a ouvir todo tipo de música, de todos os cantos. Ainda no Pará, pelos LPs e fitacassetes da minha mãe, Mutantes, Tropicália e Jovem Guarda a todo vapor. Pelas frequências das rádios, chegavam os sons quentes da América Central que se misturavam às referências locais, cumbia, calypso, lambada. Pelos carros-som e festas de aparelhagem, em altíssimo volume, ecoava o brega, o tecnobrega, que é o beat da periferia. Na adolescência, ouvi demais música brasileira e de artistas transgressores também: Elis, Cazuza, Cássia, Marina, Arnaldo. Minha formação musical tem muita relação com esse mix de referências, essa multiplicidade… Nos últimos anos, em busca de inspirações pro novo trabalho, conheci muita coisa nova, imergi na obra de uma banda brasileira de pós-punk da década de 80, chamada As Mercenárias, uma banda só de mulheres, com letras diretas, pops, curtas, e políticas, que muito me influenciou a começar a compor. A música “Rápido”, desse meu novo disco, flerta bastante com essa influência. Adentrei em universos de artistas brasileiros que muito me inspiram hoje, como o pernambucano Siba, a multiartista Karina Buhr, o grande Chico César e o próprio Lucas Santtana, que produziu esse meu disco mais recente. Sou fã de artistas que são agitadores políticos também. Um artista posicionado politicamente, nos tempos de hoje, é necessário, urgente, e faz todo sentido pra mim.

– Voltei de Belém ano passado encantando com o tanto de música maravilhosa que ouvi. Como ser de lá influencia a tua música? Quem são os artistas que te formaram, com quem você já trabalhou, com quem deseja trabalhar, o que a música paraense representa pro Brasil?

Belém é incrível mesmo, e é intensa musicalmente. Meu primeiro disco, o “Trelêlê” (2012), reflete muito o início da minha carreira, os tradicionais festivais de canção que eu participei pelo Pará, o convívio com compositores da região norte e todas as influências que me cercavam: carimbó, lambada, brega, guitarrada… A intenção era a de misturar a tradição popular musical do Pará com uma sonoridade mais moderna, muitos discos seguiram esse caminho na época. Naquele momento, tava rolando o “boom tropical” que o Pará viveu e exportou para o resto do Brasil (e exporta até hoje). Aí conheci pessoas queridas, parceiras pra vida toda, como Dona Onete. Fui a primeira cantora a gravar uma música dela, e tenho maior orgulho disso. Meu primeiro videoclipe, lançado em 2013, foi o primeiro videoclipe dela também, “Proposta Indecente”, música que reverberou demais. Em 2015, quando me mudei pra São Paulo, a intenção era de criar novas conexões e fazer circular mais o meu trabalho. Aí novas referências chegaram, novos caminhos. Então veio a vontade de compor sobre o agora… O meu lado ativista e inquieto acabou roubando a cena e fiz o disco “Em Cada Verso Um Contra-Ataque”. Sinto que me encontrei totalmente nesse trabalho, me conectei comigo de vez. Tem o Pará ali ainda, um outro Pará, que faz dançar, mas cutuca, que tem lambada, mas tem punk também. Um Pará que o Brasil precisa conhecer mais.

Nesse processo todo, já me conectei e trabalhei com muitos conterrâneos, como Banda Strobo, Gaby Amarantos, Felipe e Manoel Cordeiro, Mestre Solano, e tenho buscado me aproximar cada vez mais dos artistas da periferia, onde encontro fortes afinidades, como o rapper Pelé do Manifesto, que pouca gente conhece e tem muito a dizer.

São Paulo, SP, BRASIL 26.05.2016 : Aíla. (Foto: Julia Rodrigues)

– O que ser cantora, compositora, artista, melhor te ensinou e ensina sobre a vida? E quais foram as maiores dificuldades no caminho?


Ser mulher em um país culturalmente machista, em qualquer meio, já trás um peso e uma dificuldade maior pra se alcançar qualquer objetivo, e na música não é diferente. A figura da cantora sempre carregou o estereótipo de “musa”, “diva”, intocável, que só tem que ser “bonita”, cantar “afinada” e ponto. Então pra mim a quebra de padrões já começou daí, fui percebendo que precisava me colocar de outra maneira. Nesse segundo disco, por exemplo, comecei a buscar parceiras mulheres pra compor junto, além de ter também começado a compor as minhas próprias músicas. Em termos visuais, comecei a investir em figurinos mais conceituais, artísticos, esquisitos para alguns, mas que na verdade fogem da imagem “cantora-mulher-sexy”. Eu posso cantar, compor, ser performer, produzir discos, tocar, sei lá, qualquer coisa… Mas as pessoas sempre irão reduzir a minha função somente a “cantora”, isso mostra que não importa a multiplicidade de coisas que uma mulher pode ser, ela sempre será enquadrada na categoria mais aceita pra sociedade machista. Mas sinto que isso tá mudando, e isso tem total relação com a luta feminista, com as nossas mudanças de posturas. Eu, diariamente, luto pelo contrário, seja no palco, ou fora dele, de forma individual ou coletiva, como a ideia de criar o Festival MANA > Mulher, Arte, Narrativas, Ativismo < que aconteceu no ano passado em Belém, um festival de arte e feminismo, idealizado por mim e pela Roberta Carvalho, que é artista visual e minha mulher, e que nasceu com o intuito de debatermos o protagonismo das mulheres nas artes. É isso, precisamos agir pra passar por cima das dificuldades.

– Agora pausa pra uma pergunta de RH: como você se vê daqui a cinco anos? E daqui a 20? O que você quer fazer que ainda não fez?

Ah, não sei muito o que será de mim (pausa dramática, risos)… Mas acho que estarei sempre cheia de inquietudes, lutando por alguma coisa, cheia de vontade de mudar as coisas pra melhor, e isso irá me mover, com certeza. Sendo mais objetiva agora (meu lado escorpiana), daqui há 5 anos, me vejo com mais 2 discos lançados, uns 20 clipes pela internet, 2 turnês internacionais, uma pela América Latina e outra não sei por onde ainda, e já na minha casa própria. Daqui a 20 anos? Uau, difícil imaginar, mas se eu estiver viva (quero estar!), estarei com 50 anos, e já quero ter aumentado a família, meu amor do lado forever, uns 3 filhos, adotados também, uma fazenda orgânica, com toda nossa alimentação diária vinda de lá, minha mãe do ladinho, cheia de saúde. Uma vida de música a todo vapor. Muitas composições novas, parcerias inéditas. E, através da minha arte, fazendo ARTivismo!

– Ser artista no Brasil hoje é…

Resistência pura, mas é necessário seguir.

Por que não se fala da história de amor de Marielle?

por   /  17/03/2018  /  14:59

Captura de Tela 2018-03-17 às 12.38.56

Desde que soube da execução da Marielle, entrei em um looping de ler tudo, em todos os lugares. E de pensar em sua companheira. Que não teve sua dor estampada no jornal. A dor de uma mulher lésbica não sai no jornal.

Conversas com amigos e 2 posts me fizeram atentar pra essa questão. “Esse processo (…) reflete a lesbofobia presente nas relações sociais e na forma como nos percebem como abjeções, como vidas que não importam e que não têm o direito sequer de serem reconhecidas como legítimas e, portanto, podemos também ser apagadas, exterminadas. Ademais, ninguém fala da dor da sua companheira Mônica, ela não é ouvida, mas silenciada. É como se os nossos relacionamentos fossem nada, nossas dores fossem nada, o nosso amor fosse nada”, escreveu Simone Brandão Souza.

Imagina perder a mulher da sua vida em uma execução que mudou o Brasil e ninguém te citar? Ah, isso desvia o foco? Falar do amor de Marielle não desvia o foco. É mais uma violência. Não falar do amor de Marielle diminui inclusive a luta que a própria travava. Ela defendia a visibilidade lésbica – tema que lhe motivou a apresentar um projeto de lei na Câmara do Rio.

Por que não se fala da sexualidade de Marielle, se ela estava estampada nos posts, aos quais qualquer um facilmente tem acesso? Entrei no Instagram dela na quarta, quando o número era de 7.000 seguidores. Hoje, são mais de 70.000. Ninguém viu ali a matéria pronta? “A história de amor de Marielle em 10 fotos do Instagram”?. Faço por aqui mesmo.

“Muita gente ainda não entende que negar o nosso amor passa uma mensagem de que não somos tão dignas. Que a dor da companheira dela não é legítima como de outra esposa. Invisibilizar quem a gente é dói. Não reconhecer que existia uma amor tão real ali, como qualquer outro, é mais uma violência”, me diz uma amiga querida.

Mulher, negra, mãe, periférica, lésbica ou bissexual, quinta vereadora mais votada do Rio, socióloga, mestre em administração, defensora dos direitos humanos. Marielle é tudo isso. Marielle é um mundo inteiro. E a gente não pode nunca deixar de falar de amor. Toda forma de amor.

#mariellepresente

amor  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  feminismo

Fotografar foi o início de uma liberdade, diz Chana de Moura

por   /  14/03/2018  /  10:10

Mecanismos reinserção 1

Chana de Moura é fotógrafa, gaúcha, tem 29 anos. Faz uso da fotografia para compreender como percebe e interage com os diferentes ambientes à nossa volta. Ela faz isso por meio de várias mídias, como a fotografia em si e também colagens, desenhos, gravuras e objetos. A natureza e o universo místico são duas de suas maiores fontes de inspiração. Em um bate-papo rápido ela mostra a profundidade de suas escolhas.

Mais: chanademoura.com.br e @chanademoura

61330022-2

[Minha fotografia fala de] Reintegração. Creio que hoje em dia possuo um objetivo fotográfico mais definido do que o ato de fotografar significa em minha vida. Antes, pulsava em mim uma vontade louca de sair fotografando, de inventar cenas, procurar cenários e produzir um momento fotográfico. Hoje, eu fotografo elementos bem mais pontuais. Penso antes de fazer uma foto. Busco, através das imagens, compreender como é que eu e as outras pessoas percebem e interagem com os diferentes ambientes à nossa volta.

chana

Anseio compreender qual o papel da natureza e da paisagem em nossas vidas e porque agimos como se não fôssemos parte do mundo natural. Fotografo para expressar uma idéia ou, como no caso dos autorretratos recentes, pelo desejo de compreender-me enquanto um ser que habita este espaço comum com diversos outros seres de distintas espécies. Quando penso nisso, sempre lembro de uma fala de Sagan, nela ele ressalta a importância de sermos humildes. Veja bem: nós, humanos, surgimos no planeta quando 99,9% da terra já estava completa praticamente do jeito que a conhecemos hoje. Isso quer dizer que surgimos num último instante cósmico, que somos uma parte muito ínfima de um todo que veio antes de nós.

tumblr_lqrq2yED5M1qahm0xo1_1280

Quando fotografo, principalmente os autorretratos, os quais chamo de “Mecanismos de reinserção”, busco justamente essa reintegração. Desejo um lampejo do que seria a vida se a humanidade não tivesse se afastado tanto do poder primordial, do que conhecemos como a natureza. Não é que eu romantize a ideia de natureza, achando que esta não se trata de um império hostil, é só que na natureza parece haver uma coerência de vida, algo que acredito ser impossível de encontrar vivendo na estrutura em que nós, pessoas, vivemos hoje. Sei que esse afastamento é, afinal de contas, um processo natural, que não quer dizer que também não sejamos natureza por termos nos afastado em determinados aspectos, apenas creio que a fotografia pode ser uma maneira de percebermos o mundo no qual estamos inseridos e também de interagirmos com o mesmo. Quando tento me “reintegrar”, na verdade estou buscando quase uma utopia de experienciar a vida como se nada jamais tivesse sido rompido.

br2

[Ser mulher neste meio] É maravilhoso! Sou eternamente grata ao universo por ter nascido mulher, essa condição é algo que permeia muito meu pensamento criativo. Sei que há situações bem complicadas em outros meios, mas no meio da arte que conheço, não presencio muita distinção por gênero. Sei que no cinema e que em outros ramos da fotografia é mais delicada a questão de ser mulher. Claro, essa é apenas minha experiência de vida… Já ouvi de amigas que passaram por situações bem severas: muitos homens assumem compreender mais do que as mulheres, principalmente as competências técnicas. Mas acredito meu caminho é um pouco paralelo: eu gosto muito de experimentar em fotografia, não me encaixo muito bem nas especificidades das questões técnicas, gosto delas para subvertê-las.  Por isso, possivelmente, nunca passei pela situação de alguém querendo me ensinar algo que eu já sei.

Chana de Moura 2

A fotografia em minha vida representa uma grande constelação de apreensão de mundo. Fotografar foi o início de uma liberdade, uma forma de se opor à realidade objetiva (mas sem desconsiderá-la). Hoje ainda é um sinônimo de liberdade, mas também é um meio de estender as emoções, reorganizar o mundo, repensar estados do corpo e do espírito. É um método de voltar-me para fora e voltar-me para dentro, é um comunicar-se com o futuro e um comunicar-se com o passado. Também é uma forma de des-frustrar-me com o presente.  Ou seja, entender pelo reflexo e pela apropriação da vida, ser espelho: apreender em si e devolver ao mundo.

BR

Chana de Moura 1 Chana de Moura 4 Chana de Moura

br5

br8 br9 IMG_02 (4)-2 Mecanismos reinserção 3 Mecanismos reinserção 5 Mergulho PT tumblr_mq6rynTEE21qahm0xo1_1280 Untitled-4-2 Untitled-6-2

#galeriadonttouch  ·  #portfoliodonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia

Uma viagem pelo México

por   /  14/11/2017  /  8:08

Graciela Iturbide 1

Fizemos recentemente missões super especiais no @instamission para promover a cultura mexicana. A ideia era falar do Taco Tuesday, movimento gastronômico que tem como desejo trazer a cultura mexicana para São Paulo. Como eles fazem isso? Oferecendo tacos e margaritas em dobro às terças-feiras entre setembro e dezembro. Nossa proposta contemplava uma missão cujo prêmio é uma viagem para o México, uma missão com influenciadores, um guia no @vailasp, além de uma breve pincelada sobre a arte mexicana aqui no @donttouchmymoleskine.

Pra começar, temos playlist. E aqui preciso contar da primeira vez que fui ao México, há uns 6, 7 anos. Fui pela Folha cobrir um evento do Google. Nos intervalos, bati perna, comi todas as delícias, vi uma lucha libre. Passando por uma loja de CDs, adorei a capa de um. Era da Paquita la del Barrio. Um CD triplo, que ouvi muito. Foi ela o ponto de partida dessa trilha, que é composta majoritariamente de mulheres mexicanas – ou que moraram lá, têm alguma relação. Há alguns homens também, porque “Amorcito corazón” é outra música que me acompanha há um tempo.

Vamos ouvir?

Agora vamos conhecer algumas maravilhosas fotógrafas mexicanas?

– Graciela Iturbide

“Aonde quer que nós vamos, queremos encontrar o tema que carregamos dentro de nós mesmos.” A frase é de Graciela Iturbide, um dos maiores nomes da fotografia mexicana. Nascida em 1942, ela percorreu o país para fotografar o papel e as condições das mulheres mexicanas na sociedade. Também fotografou a intimidade de Frida Kahlo em “El baño de Frida”, refugiados na Colômbia e no México, uma vendedora de iguanas que compôs uma imagem tão forte que virou icônica. “A câmera é só um pretexto para conhecer o mundo.”

Sobre Frida, ela disse em entrevista para o LA Times: “Foi muito intenso. O banheiro tinha sido fechado por ordem de Diego Rivera, certamente porque continha todas as coisas dela. E, de fato, havia cartas e outros objetos pessoais. Era muito interessante. Foi como entrar em um espaço proibido, congelado no tempo – com alguns cheiros terríveis. Imagine um banheiro fechado há 50 anos. Eu não era uma Frida-maníaca, nem o sou agora. Hoje em dia ela é praticamente ‘Santa Frida’. Mas lá eu aprendi que ela era uma mulher maravilhosa que suportava muita dor. Eu tenho uma imagem do Demerol – a morfina que ela costumava tomar. Ela teve muita dor. Mas ela continuou pintando. A pintura era sua terapia. Sinto que tenho que conhecê-la melhor.”

Mais em: gracielaiturbide.org

Graciela Iturbide 3102 (1)Graciela Iturbide 2 la-1500395815-21eecjmot2-snap-image

Graciela Iturbide 4 Graciela Iturbide

– Eunice Adorno

Começamos com Eunice Adoro, nascida em 1982, jornalista e dona de um trabalho que mergulha na intimidade de mulheres das comunidades de Nuevo Ideal, Durango e Onda Zacatecas que abriram as portas de suas casas, deixando-a fotografar  seus espaços íntimos e seus eventos diários. “A cumplicidade mútua e os relacionamentos emocionais que se formam entre elas são parte dessa série de imagens em que a vida cotidiana nos distrai da ideia dominante da vida conservadora dessas mulheres. Essas comunidades isoladas foram, para mim, vidas extraordinárias. O mundo dessas mulheres parece fascinante, enigmático. Essa viagem foi para mim, em que eu mesma me isolei do meu mundo cotidiano e, partindo por estradas empoeiradas, encontrei a minha própria história”, diz ela sobre o projeto “Mujeres flores”.

Mais em: euniceadorno.com/work/works/mujeres-flores

Eunice Adorno 4Eunice Adorno 2 Eunice Adorno 3 Eunice AdornoEunice

– Mariela Sancari

Mariela nasceu na Argentina em 1976, mas desde 1997 vive no México. Seu trabalho parte de investigações pessoais para desenvolver seus trabalhos. Aqui mostramos “Moisés”, uma série em que ela busca em desconhecidos a figura do seu pai, que se matou quando ela e a irmã gêmea tinham 14 anos. As adolescentes não chegaram a ver o corpo, era como se ele tivesse desaparecido. Restou só o silêncio. As irmãs entraram em negação e procuravam o pai pelas ruas. “Imaginávamos ele com uma nova família, ou como um homem sem casa, vivendo na rua. Eventualmente, decidi fazer essas fantasias virarem realidade”, disse ao Guardian.

Mais em: marielasancari.com

Mariela Sancari 1 Mariela Sancari 2 Mariela Sancari 3 Mariela Sancari 4

– Ruth Pietro Arenas

Ruth Pietro Arenas conta as histórias de mulheres que migraram do México para os Estados Unidos na série “Safe heaven”. Ela fotografa intimidade, usa muita cor e faz um retrato de uma das questões mais importantes da contemporaneidade. “O que acontece uma vez que você atravessa a fronteira? Essas mulheres são corajosas. Com a situação social no México, a pobreza, essas mulheres decidiram atravessar, dizendo: ‘Se eu morrer, morro.’ Quando eles não têm mais nada a perder, elas conseguem a força para cruzar. E, uma vez que eles estão aqui, eles têm que ter grande força de vontade de cuidar de tudo.” Forte.

Mais em: lens.blogs.nytimes.com/2013/05/09/across-the-border-live-and-in-color

Ruth Pietro Arenas 0Ruth Pietro Arenas 6Ruth Pietro Arenas 1 Ruth Pietro Arenas 2 Ruth Pietro Arenas 3 Ruth Pietro Arenas 4 Ruth Pietro Arenas 5

#trilhadonttouch  ·  amor  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  instamission  ·  música  ·  viva méxico!

IMS Paulista, uma nova paixão para São Paulo

por   /  14/09/2017  /  11:11

IMS9 unnamed (1)

São Paulo ganhará no próximo dia 20/09 o Instituto Moreira Salles da avenida Paulista. Depois de 4 anos de obras e de expectativa, a cidade recebe um presente – e o público, um lugar maravilhoso para apreciar fotografia, arte, música, cinema. Ontem, na apresentação para a imprensa, fizemos uma visita guiada pelo prédio e suas exposições. E posso dizer sem dúvida: nasce um novo hit na cidade. Um daqueles lugares que vão ficar apinhados de gente, ainda mais com a Paulista aberta aos domingos.

unnamed (4)

O IMS Paulista começa com cinco exposições, além da célebre videoinstalação “The Clock”, de Christian Marclay, que recebeu o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, em 2011, tem 24 horas de duração e conta com milhares de cenas de TV e cinema que fazem referência ao horário do dia.

“Você sempre tem uma tensão em relação ao tempo. Quando você vai ao cinema, relaxa e sabe que vai sentar e ficar ali por duas horas. Aqui não. Você está sempre pensando no tempo de alguma maneira. O que cria essas pequenas narrativas que são sempre interrompidas é o som”, diz Heloísa Espada, coordenadora de artes visuais e curadora dessa exposição.

IMS1

O IMS exibe pela primeira vez no Brasil “Os americanos”, de Robert Frank, um dos ícones da fotografia. A série faz parte do repertório de quem ama fotografia, e ver ao vivo as 83 imagens que compõem o livro é um deslumbre. Entre 1955 e 1957, Frank percorreu os Estados Unidos para fazer retratos de todo tipo de gente. Fez mais de 28 mil fotos, que são um verdadeiro retrato da América profunda.

IMS8

Com auxílio do célebre fotógrafo Walker Evans, a viagem também rendeu um livro, que ganha versão brasileira publicada pelo IMS, em parceria com a editora alemã Steidl, celebrada por seu acervo de fotografia. “Pra mim é um verdadeiro curto circuito temporal. Me sinto devolvido para os anos 1950 nos Estados Unidos e, no momento seguinte, me sinto devolvido para esse presente tão conturbado, misturado, confuso que é agora dos Estados Unidos, mas também é do Brasil – e dessa própria avenida”, diz Samuel Titan Jr., um dos curadores da exposição.

IMS7

A mostra conta também com fotos inéditas que Frank fez em Manaus. Ele estava em uma viagem pelo Peru, que também originou um livro, e deu um pulo no Brasil. “A relação que ele estabelece com Brasil naquele momento. E também em 1956, que inclui fotos do Pierre Verger”, diz Sérgio Burgi, coordenador de fotografia e curador da exposição.

A mostra conta ainda com uma série de fotos de 24 livros de Frank impressas em formato banner, tomando a parede. Frames de filmes, várias edições do livro célebre e de mais outros. O IMS também vai exibir uma retrospectiva da filmografia de Frank, com 25 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. É emocionante ver as imagens de Frank ao vivo. Elas viraram referência de fotografia de rua, em que a técnica importa menos do que a expressão de quem é retratado, o momento que diz tanto ao ser congelado.

Brasil

“Corpo a corpo” mostra sete trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos brasileiros em parceria com Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do IMS e editor da revista Zum. Os artistas foram convidados a pensar como as imagens podem nos ajudar a enxergar os conflitos sociais que emergiram no Brasil nos últimos anos. “O mote da exposição é o uso do corpo como um elemento de representação social e atuação política – seja pela presença física e simbólica nos espaços públicos, seja como o veículo condutor da câmera, seja como lugar de expressão da individualidade, que aproxima e separa os indivíduos”, diz o IMS.

IMS5

Pra mim os destaques são os trabalhos de Bárbara Wagner. Em “À procura do quinto elemento”, ela retrata os candidatos de um concurso de MCs de uma famosa produtora de funk de São Paulo. São 52 fotografias e um vídeo que nos fazem pensar na música como passaporte para uma vida radicalmente da que eles têm.

Em “Terremoto Santo”, ela e o parceiro Benajmin de Burca fazem uma espécie de musical sobre cortadores de cana da zona da mata de Pernambuco que sonham em gravar um videoclipe gospel. É sensacional!

IMS4

“Eu, mestiço”, de Jonathas de Andrade, parte de uma pesquisa dos anos 1950 da Unesco em que fotografias de pessoas com diferentes tons de pele eram usadas como base de um questionário sobre quem parecia mais bonito, rico ou inteligente. O artista fez uma série de retratos com gente de diferentes partes do país para pensar sobre a relação que estabelecemos com a imagem.

A mostra conta ainda com trabalhos do coletivo Mídia Ninja, que exibe transmissões feitas entre 2013 e 2017 de vários protestos no país; “A máscara, o gesto, o papel”, de Sofia Borges, que mistura bocas e gestos de políticos do Congresso Nacianal; “Postais para Charles Lynch”, do coletivo Garapa, que surgiu a partir de notícias sobre linchamentos no Brasil e pesquisa de vídeos no Youtube sobre o tema.

Biblioteca

Pra completar, o IMS Paulista conta, ainda, com uma biblioteca maravilhosa dedicada à fotografia. Começa com 6.000 títulos, deve dobrar de capacidade em breve e tem espaço para 30 mil. Além de aquisições e doações, o acervo conta com coleções especiais de nomes como Stefania Bril, uma das primeiras críticas de fotografia do Brasil, Thomaz Farkas Iatã Cannabrava, Paulo Leite. Gerhard Steidl doou um conjunto completo de livros produzidos por sua prestigiada editora.

unnamed (2)

O IMS conta ainda com ateliês e laboratório para cursos, workshops e oficinas, cinema, livraria e o restaurante Balaio, do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. O prédio de 7 andares fica entre as ruas Consolação e Bela Cintra. Sua obra custou R$ 150 milhões. O IMS foi fundado em 1992 pelo banqueiro Walther Moreira Salles. É uma entidade civil sem fins lucrativos, vive de um fundo e não se vale de incentivos fiscais e patrocínio.

IMS3

IMS Paulista

Avenida Paulista, 2424

De terça a domingo, das 10h às 20h. Às quintas, até 22h

Entrada gratuita

ims.com.br

arte  ·  cinema  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  literatura  ·  música  ·  são paulo

Trilha: Inky, música eletrônica com pegada rock made in Brasil

por   /  13/10/2016  /  15:15

luiza-i

De vez em quando entro numas de ouvir música eletrônica made in Brasil. E gosto bastante, ainda mais quando tem uma pegada de rock. Conheci a Inky com “Parallels”, o primeiro EP, que foi lançado em 2010. De lá pra cá, curti o clipe de “Baião”, vi um show em algum lugar que não lembro e, agora, tenho ouvido “Animania”, o segunda álbum do grupo formado por Luiza Pereira (vocais e sintetizadores), Guilherme Silva (baixo), Stephan Feitsma (guitarra) e Luccas Villela (bateria). A produção é de Guilherme Kastrup, que assina, entre tantos outros, “A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares.

Ouçam o disco > https://www.youtube.com/watch?v=j46melKgk_E

Pedi pra Luiza uma playlist com suas principais influências, que vão de PJ Harvey a Savages, passando por Janis Joplin, Pixies e Warpaint. Ouçam!

Aproveitei pra bater um papo rápido com ela, espero que gostem!

Ah, a banda faz show no próximo domingo, em São Paulo. Saiba mais > www.facebook.com/events/1052784464777526

– Conta um pouco da sua história? Como você começou a cantar? Quais foram suas principais influências?

Comecei a fazer aulas de música desde muito pequena, com 4/5 anos. Primeiro iniciação musical e depois aulas de piano. Nessa mesma época comecei a querer cantar me acompanhando no piano e achava mais fácil me expressar assim; a voz é um instrumento muito pessoal, cantar é um processo de autoconhecimento, de desvendar o seu instrumento e se descobrir. Gostava muito do jazz e de cantar standards clássicos. Uns anos depois, descobri o rock, a Björk, o Thom Yorke, a Beth Gibbons (e outros vários) e fui descobrindo minha personalidade artística no meio disso. Já no synth, tive uma grande influencia do “disco punk”, dos anos 80 e do trip hop.

– Como é ser mulher no mercado da música? É um espaço de mais acolhimento ou ainda tem bastante preconceito?

Acho que poucos mercados de trabalho são acolhedores pras mulheres. Salvo aqueles de carreiras consideradas “femininas”. O mercado musical é extremamente masculino. Desde produtores, engenheiros de som, roadies, músicos… E ser mulher nesse mercado é ser constantemente testada, subestimada e desrespeitada. Já ouvi homens questionando se eu sabia ligar meu instrumento, se eu tocava com playback, já fui assediada, já ouvi que eu tava na banda porque “era legal como marketing”, enfim… Ainda tem essa mentalidade de que mulher não tem capacidade e somos reduzidas ao nosso gênero e à nossa aparência. Mas isso tá mudando aos poucos, e fico feliz de ver cada vez mais mulheres trabalhando no mercado e mostrando qualidade e competência.

– Qual caminho você espera seguir com a INKY? Conta como vocês começaram, como estão atualmente e quais os planos pro futuro?

A gente começou a tocar em 2010. O Gui (baixista) tinha um projeto de musica eletrônica com baixo ao vivo e queria que isso virasse uma banda. Na época, eu tinha 17 anos e tinha acabado de comprar um synth e ele me chamou pra fazer um ensaio com outros integrantes e ver no que dava. A INKY nasceu e eu tô na banda desde então 🙂
Lançamos nosso segundo disco, Animania, em agosto desse ano e começamos a fazer os shows desse disco e a absorver essa nova fase. Espero que a gente continue crescendo, tocando pelo Brasil e pelo mundo e podendo trabalhar com pessoas que a gente admira.

unnamed

entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  mixtapes  ·  música

Precisamos falar do assédio

por   /  10/10/2016  /  8:08

unspecified

“Precisamos falar do assédio” é um desses filmes-porrada que a gente precisa ver. Reúne depoimentos de mulheres que foram vítimas dos mais diferentes tipos de abuso. É forte, incomoda, agonia e nos mostra o quão necessário é falar dessa triste realidade da qual praticamente toda mulher é vítima.

Durante a semana da mulher, uma van-estúdio parou em nove lugares em São Paulo e no Rio e recolheu depoimentos de mulheres de 15 a 84 anos, de zonas nobres e periféricas. As mulheres ficavam sozinhas na sala improvisada da van. As que não queriam mostrar o rosto, recorriam a uma máscara. Ao todo, 140 decidiram falar. Parte delas está no documentário, dirigido por Paula Sacchetta, com quem conversei sobre o filme.

O filme continua na internet, pra onde qualquer mulher pode mandar seu depoimento > precisamosfalardoassedio.com

Confira os locais onde o filme está em cartaz > facebook.com/precisamosfalardoassedio

O que mais te marcou durante a realização do documentário?

Todo mundo que me entrevista me pergunta isso e acho que cada vez respondo uma coisa de tão doloroso, difícil e ao mesmo tempo bonito que foi esse processo. Acho que o que mais me marcou foi entender o filme – e o processo todo dele, incluindo as filmagens – como esse lugar, apesar da dor e das violências, de encontro e acolhimento. Eu digo e repito que com esse filme eu descobri o sentido mais profundo da palavra acolhimento. Acho que foi olhar para a van como esse lugar de acolhimento, apesar de ser uma van fechada e escura na qual as mulheres ficavam sozinhas dentro, sem nenhum tipo de interlocução ou entrevistador, muitas viram nela a chance de falarem de seus traumas e violências sofridas pela primeira vez. Me marcou muito muito o depoimento de uma menina, que tem 18 anos hoje, que conta de um estupro que sofreu aos trezes. O depoimento dela mostra uma dor profunda e muito muito latente. É o mais dramático do filme em todos os sentidos. Mas mais que isso, o que mais me surpreendeu – e acho que surpreende qualquer um que assista – é que ela diz que está falando daquilo pela primeira vez. Que nunca falou daquilo nem para sua psiquiatra ou psicóloga. O que a fez, de repente, no meio da avenida Paulista, entrar naquela van escura e contar sua história? O projeto e todo esse momento que estamos vivendo acho que têm essa cara: de nos reconhecermos, de olharmos umas as dores das outras e, de alguma forma, nos sentirmos mais fortes para falarmos de coisas até então indizíveis. Pra mim isso é muito grande.

unspecified4

Qual é a importância de colocar pra fora assédios, traumas e abusos?

Acho que é importante para mostrarmos como acontece muito e sempre e com todas nós. Para nos encontrarmos nesse lugar de acolhimento, fala, escuta, dor e cura e para dizermos, juntas, que não vamos mais aceitar isso. Acho que, por um lado, conscientiza: “amigo, olha só o que acontece todos os dias com a sua amiga, com a sua irmã, com a sua namorada e até com a sua avó”. E por outro, dá força para lutarmos contra: nos reconhecemos, ficamos mais fortes para falar e aí podemos, juntas também, dizer que não vamos mais aceitar. A fala, no centro do filme e em todo esse movimento, tem esse lugar de luta e ao mesmo tempo, de cura.

Conta um pouco da sua trajetória? Temas como esse sempre te interessaram ou foi um despertar que veio dessa primavera feminista?

Eu sou jornalista de formação, mas trabalho há algum tempo como documentarista e acho que, até agora, só fiz documentários e curtas sobre temas pesados. Eu não falaria de coisas que não me movem ou não me comovem, e, de certa forma, mostro o que está errado para tentar mudar as coisas. Eu sempre respondi na rua aos assédios, xinguei, sempre odiei escutar barbaridades e até já apanhei uma vez, por ser respondona. Essa primavera feminista que estamos vivendo só me deu vontade de trabalhar com esse tema agora em um documentário. Comecei a olhar todos aqueles relatos no Facebook e pensei em fazer algo que tirasse esse tema das redes sociais e ampliasse de alguma forma o movimento, ocupando os espaços da cidade com o tema. Por isso a escolha de um estúdio móvel. Eu poderia ter coletado os depoimentos dentro de uma sala fechada na produtora, mas a van adesivada na rua PRECISAMOS FALAR DO ASSÉDIO já trazia luz para o tema, entende?

unspecified3

O que você espera para o filme, seu impacto, seus desdobramentos?

Eu quero que ele seja visto por mais pessoas possível. Acho que todo mundo que faz um filme quer isso. Mas acho que ele tem que ser visto à exaustão, tem que gerar reflexão e debate. Todo mundo que assiste – homens e mulheres – sai muito impacto, então acho que isso ele já tem por si só. Mas queria que ele rodasse o Brasil e o mundo. No meu mundo ideal, ele seria passado dentro das escolas, a partir, sei lá, dos 13 ou 14 anos (ele pegou 14 na classificação indicativa), para educar mesmo, sabe? Tanto as mulheres a identificarem as violências que muitas vezes naturalizamos, quanto os homens a entenderem o que podem fazer e o que não podem. Já passou da hora de pararmos a ensinar as meninas e se protegerem, a serem “comportadas”, “recatadas” ou a não usarem roupas curtas, por exemplo. Temos que ensinar os meninos a não serem estupradores e assediadores. Temos que ensiná-los a serem respeitosos e ensiná-las e serem livres.

Você já está fazendo outro projeto?

Sim! Alguns dentro da produtora onde foi bolado e realizado o “Precisamos Falar do Assédio”, a Mira Filmes. Estou dirigindo uma série de TV sobre jovens LGBT nas periferias de São Paulo e bolando outros dois longas documentários, um mais leve e solar e outro nem tanto, hehe.

unspecified5
cinema  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  vídeo