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Não existe papo em SP

por   /  10/06/2014  /  17:17

Queridos, desde maio tenho uma coluna na ótima revista VIP!

Super legal, né? Tô animada!

A primeira, intitulada Não existe papo em SP, acabou de ir pro ar e começa assim:

Não existe papo em SP. A não ser que você queira ser fiel à frase de efeito que vendeu para o seu novo editor. Porque na primeira tentativa fora da sua zona de conforto, uma coisa vai ficar muito clara: a contradição está logo ali, na segunda esquina.

Minha tese vem do gosto pela rua (e aí você inclui bares, exposições, achar a festa certa para dançar muito) e perceber o quão difícil é conhecer pessoas novas, sobretudo porque a gente tende a se fechar no maravilhoso grupo de amigos que fizemos ao longo da vida, né? O espaço para o novo fica reduzido, quase inexistente. Até que um dia você resolve convidar uma amiga que tem uma atitude oposta à sua timidez, escolhe um ou dois lugares e começa o trabalho de campo.

Leiam a coluna completa > http://vip.abril.com.br/colunas/comportamento/nao-existe-papo-em-sp/

O mundo pré-selfie da japonesa Hiromix

por   /  12/05/2014  /  9:00

Antes de selfie virar palavra do ano, hit do Oscar e atividade nossa de quase todo dia, a fotógrafa japonesa Hiromix já experimentava documentar todos os detalhes da sua vida.

Ela começou a fotografar aos 17 anos e, aos 19, ganhou a décima primeira edição do New Cosmos Photograhy, concurso da Canon no qual ela recebeu a indicação de Nobuyoshi Araki, uma de suas maiores influências. Foi a deixa para suas fotos da vida íntima ganhassem uma popularidade gigante.

O ano era 1995, e vocês conseguem imaginar o impacto que suas fotografias tiveram na época? Ela adotou um estilo “meu querido diário”, com imagens de flores, discos, gatos, amigos e, claro, muitos auto-retratos. Pode ser comum hoje e todos fazemos, mas há quase 20 anos tinha um outro apelo – e muito frescor.

Aos 24, Hiromix, cujo nome de batismo é Toshikawa Hiromi, já tinha quatro livros publicados, o que mostra não só como sua fotografia gera identificação para uma legião de jovens seguidores quanto dá uma ideia do quanto os projetos fotográficos em livros fazem sucesso o Japão.

Em seu livro de 1998, ela dá uma boa noção da sua arte:

“Youth reflects transparency and beauty. Despite our lack of experience, the world often confronts us with unforgivable situations. We believe, more than anyone, in things that cannot be seen. Many unknown worlds are awaiting us. Surrounded by people and things we love, we smile carefree smiles. It is perhaps because I wanted to keep a record of this, that I take photos of myself.”

O que faz das fotos dela arte é aquela discussão eterna. De minha parte, gosto de ver em detalhes os registros de uma vida auto-centrada, que é tão enaltecida hoje, feita há muito tempo.

Mais em > http://photoguide.jp/txt/HIROMIX

O cotidiano banal de Stephen Shore

por   /  31/03/2014  /  14:00

A capa do livro que reproduz uma guia de revelação de filme analógico me chamou a atenção. Comecei a folhear aquelas páginas e encontrei fotos de um dia a dia sem filtro nem glamour. Pelo contrário: aquelas cenas davam espaço para uma refeição que não apetece aos olhos, um banheiro que acabou de ser usado, uma cama com lençóis sujos.

O livro era “American Surfaces”, de Stephen Shore, 66, fotógrafo norte-americano pioneiro no uso da cor – e um dos primeiros a ter suas fotos de cenas banais do cotidiano reconhecidas pelo mundo da arte.

Ele foi o primeiro fotógrafo vivo (segundo o livro; e o primeiro, segundo a Wikipédia) a ganhar uma exposição individual no Met (Metropolitan Museum of Art). Bem antes disso, Shore já atuava com determinação. Aos 14 anos, telefonou para o então curador do MoMa, Edward Steichen, e conseguiu vender três fotografias. Aos 17, conheceu Andy Warhol, passou a frequentar a Factory e a fotografar seus personagens icônicos.

Em “American Surfaces”, criou um diário visual das road trips que fez pelos Estados Unidos entre 1972 e 1973. O resultado é fascinante porque é muito simples – e nos leva a passar minutos criando histórias para cada uma de suas cenas.

Encontrei uma definição perfeita de Shore sobre o que faz: “Uma frase de que gosto muito chega perto de explicar minha atitude em relação a tirar fotografias. ‘A poesia chinesa raramenta ultrapassa os limites da realidade. Os grandes poetas chineses aceitam o mundo exatamente como eles o encontram em seus termos e sua profunda simplicidade. Eles raramente falam de uma coisa pensando em outra, mas são capazes e seguros o suficiente como artistas para fazerem os termos exatos se tornarem belos termos’.”

Coloco aqui algumas fotografias dele pra gente ver juntos.

Para saber mais sobre o fotógrafo, acessem > http://stephenshore.net/

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A armadilha do “Faça o que você ama”

por   /  18/02/2014  /  11:11

Há pouco mais de três semanas, decidimos falar menos, mas trocar mais. Criamos, então, um blog para a Contente > http://contente.vc/blog/

Para nossa surpresa, o feedback foi muito maior do que a gente esperava, o que nos encoraja a continuar pensando cada vez mais na internet que a gente quer.

Semana passada, publicamos uma longa entrevista que fiz com a Bárbara Castro, socióloga, sobre o lema “Faça o que você ama”. Coloco aqui o começo da entrevista. E peço pra que quem se interessar vá lá no blog ler tudo. Foi uma alegria conversar sobre esse tema com alguém tão brilhante. Leiam! > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

Vivemos em um mundo imperativo que a toda hora nos sugere com veemência o que devemos fazer para ter uma vida melhor. Seja você mesmo, ame o seu amor, faça o que você ama. Nas paredes das ruas e nos murais da internet, as frases se impõem a todo momento, nos incentivando a sermos mais completos e felizes (muitas delas até já apareceram no nosso projeto Autoajuda do dia, aliás). Mas esse mesmo incentivo, quando feito em excesso, também acaba nos causando uma certa angústia. Afinal, sabemos que a vida é feita também de vulnerabilidade e que ainda vamos falhar muitas vezes, por mais que a gente passe dia após dia em busca dessa satisfação total.

Não tinha idéia de quando o discurso do “Faça o que você ama” tinha começado a aparecer com tanta frequência ao meu redor. Geralmente quando percebo alguma coisa assim, minha primeira reação é achar que todo mundo está sentindo a mesma coisa (ô, pretensão!). Depois costumo fazer o recorte: isso deve ser coisa de nicho, do meu nicho, de gente que faz trabalhos criativos, que consegue inventar sua própria rotina etc. O próximo passo é sair da superficialidade e entender melhor o tema.

Depois de ler uma matéria da Slate que fala sobre como o lema “Do what you love, love what you do”, estampado em pôsteres lindos que compõe a decoração do home office (obrigada por me mandar, Jana!) pode ser uma grande armadilha, encontrei minhas amigas do trainee da Folha para um jantar. Comecei a discutir com uma delas sobre o texto. E qual não foi minha surpresa? A Bárbara tinha passado o segundo semestre de 2013 inteiro dando aulas sobre o assunto!

Fiz uma entrevista com ela. E o que ganhei em troca foi uma aula sobre a história do trabalho. Bárbara Castro é socióloga e doutora em ciências sociais pela Unicamp (Universidade de Campinas). É especialista em discussões sobre trabalho e gênero e atualmente dá aulas no curso do sociopsicologia da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho”, diz ela na entrevista. “O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado. Porque amar o que você faz sempre vem acompanhado de ter dinheiro, morar em uma cidade incrível e cara e ser bem-sucedido. É um discurso de felicidade que, além de irreal pra maioria das pessoas, que não vivem de trabalhos criativos que podem ser feitos fora de uma empresa, traz um modelo de felicidade hermético. E acho que o que a gente precisa discutir de verdade é o que existe no trabalho tal como ele é organizado hoje, que nos faz abrir esse flanco entre produção e felicidade.”

A entrevista completa > http://contente.vc/blog/a-armadilha-do-faca-o-que-voce-ama/

As imagens que ilustram a entrevista são da Ana Luiza Gomes.

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Futuros amantes

por   /  13/02/2014  /  18:18

Apaixonar-se por um sistema operacional que habita seu computador e seu telefone é possível – e vai acontecer quando você menos esperar. Simplesmente porque se apaixonar pelo seu sistema operacional parte da mesma premissa de se apaixonar por uma pessoa de carne e osso: um conjunto de interesse, atenção, dedicação e tempo. Se vivemos cada vez mais grudados nas telas que nos cercam, vai ser natural flertar com essa disponibilidade constante (ou ao menos cogitá-la). A vontade de ficar junto e o tesão vão aparecer em seguida. Afinal, o que é o começo do amor se não a escolha de duas pessoas de construírem uma história juntas?

“Ela” é o novo filme de Spike Jonze (“Onde Vivem os Monstros”, “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação”) e conta a história de Theodore, um cara que acabou de se separar do amor da sua vida e que ganha a vida escrevendo cartas de amor para terceiros. Estimulado por uma propaganda que quase promete redenção, o personagem de Joaquin Phoenix compra um novo sistema operacional que não apenas vai organizar toda a sua vida (incluindo seus e-mails e contatos e até um futuro livro, que sonho!) mas evoluir com ele, por meio de troca e intuição. É assim que ele conhece Samantha, que é apenas a voz de Scarlett Johansson – e consegue ser sexy pra caramba.

O filme se passa numa Los Angeles de um futuro incerto. Não dá pra saber se o ano é 2040 ou 2200. Mas dá pra perceber que no futuro não vai existir engarrafamento, o metrô vai te levar até a praia e os aparelhos tecnológicos não vão ser tão high tech, e terão, sim, um ar bem retrô. Suas roupas também. Pode apostar numa calça de cós muito alto, meio desengonçada até. E numa casa extremamente clean e funcional. Na rua, muitos painéis coloridos, de onde sempre vai sair alguma imagem em movimento. Tudo muito bonito e agradável, como se a vida tivesse ganhado um eterno filtro de Instagram.

Em contraste com as mudanças, o amor permanecerá como sempre foi. Vai começar devagarinho e, de repente, vai ter mudado o dia, fazer com que a gente queira ser melhor. E vai tornar a vida mais leve e completa. De repente pode até surgir um ciúme bobo, uma insegurança, um medo de perder aquela conquista que a gente pensa que é replicável, mas percebe que acontece poucas vezes na nossa trajetória. Vem um medo danado, e a racionalidade diz pra gente acabar com tudo. Numa dessas, grandes amores se desfazem. Em outras, se renovam. E, no fundo, a gente entende que passa a vida querendo escapar da solidão para sentir o que tivemos quando o coração foi pleno e feliz.

Criada para evoluir, Samantha começa trazendo conforto e depois apresenta o risco. E nisso ela é como qualquer um de nós. Os questionamentos da relação homem x sistema operacional, também. Conseguimos lidar com as nossas mudanças e a do outro no meio do caminho, sem nos assustarmos? Ou travamos com a incerteza e o medo? A certa altura, quando é indagado pela amiga Amy (Amy Adams) se está apaixonado por um sistema operacional, Theodore hesita. E logo depois é confortado por ela:

Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É uma coisa louca de se fazer, uma forma aceitável de insanidade.

Se fomos e somos insanos, fico achando possível que a gente escute histórias de novas configurações de amor num futuro tão longe e tão perto, ainda mais se elas vierem embaladas pelo filtro de promessa de perfeição. Pra mim, é impossível pensar no amor sem toque e pele, mas vai que pra um monte de gente não é bem assim? Daí lembro da frase de uma amiga querida: a tecnologia vai matar o amor. E pergunto: a tecnologia vai matar o amor ou a tecnologia vai inventar novas formas de amor? Deixem suas apostas nos comentários!

“Ela” entra em cartaz nos cinemas do Brasil nesta sexta-feira (14/2). Aproveitem para ver antes “Her: Love In The Modern Age”, um documentário dirigido por Lance Bangs e que mostra as reflexões de gente como Olivia Wilde, James Murphy e Bret Easton Ellis sobre o filme > http://www.youtube.com/watch?v=ZSfUcWw9zto

* Escrevi este post como um publieditorial da Sony, distribuidora do filme, e do Creators Project/Vice, que fez o documentário. Espero que vocês gostem!

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A festa é minha e eu choro se eu quiser

por   /  22/01/2014  /  8:08

Escreveram o livro que traduz com perfeição várias sensações que experimentamos todos os dias ao usar o Instagram, o Facebook, o Twitter e qualquer outra rede que vier a surgir e que nos faça pensar que, quanto mais mostrarmos nossas vidas perfeitas, mais seremos felizes.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é o primeiro livro de Maria Clara Drummond, escritora e jornalista carioca de 27 anos. Em pouco mais de 80 páginas, ela faz uma crônica do que eu tenho chamado de Vazilândia (talvez fosse mais legal traduzir o termo pro inglês: Emptyland. Mais cool, né? Mas não).

Vazilândia é um universo nada obscuro, do qual qualquer um pode fazer parte. É o mundo da aparência e da falsa conexão, onde importa se vestir a partir das mesmas referências, frequentar os mesmos lugares, viajar para destinos badalados, frequentar estréias e vernissages muito cool, postar o seu dia a dia no Instagram, se alimentar de likes, comentários e número de amigos ou seguidores e chegar em casa e se sentir uma merda. Sozinho, oco, perdido, sem saber o que importa de verdade ou o que quer da vida.

No livro, Maria Clara conta a história de Davi, um jovem cineasta carioca que aceita um emprego em publicidade em São Paulo, passa a frequentar as melhores festas, vai a Cannes e se sente completamente sem rumo, usa drogas legalizadas e outras não pra escapar da dureza que é acordar e não saber porque decidiu atuar com tanta destreza em um filme cujo roteiro está completamente desamarrado. Em certo momento, o personagem diz:

Na verdade, o objetivo disso tudo é: beber durante a noite para tentar esquecer a angústia ou ao menos deixá-la em segundo plano. No dia seguinte, dormir muito e só acordar no meio da tarde. Aí só falta metade do dia em consciência, e logo posso voltar a dormir ou beber. Mas não importa. De tudo o que eu faço o objetivo principal sempre é escapar.

Estamos conectados o tempo todo, viajando na nossa própria viagem de que nossa vida editada uma hora vira vida de verdade. Será? E aí vem outro trecho:

Quanto mais você se aproxima de ser um adulto bem-sucedido mais você se afasta da felicidade. E aí, cara, chega num ponto que não tem mais jeito, babou. Você não vai abrir mão das suas regalias. São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! De pessoas que também são consideradas o máximo e ser exaltado primeiro no microcosmo da Incógnito e, logo depois, no Rio de Janeiro todo, e ouvir que pessoas de São Paulo já sabem quem você é e querem estar sempre por perto, é receber uma proposta de trabalho em São Paulo por um salário muito melhor, em um cargo muito melhor e com muito mais oportunidades de ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mais gente e assim você vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando, porque você sabe que se parar por um minuto você não volta do seu buraco interno jamais.

Ops… Parece que foi você que escreveu isso em um daqueles dias em que está mais pra baixo? Também tive essa sensação. E toda vez que sinto isso, penso: não dá pra achar que o problema é o Instagram ou o Facebook, mas sim as conexões de verdade que a gente deixa de fazer com as pessoas, né? E pra falar disso, seria necessário um outro livro – ou um outro post!

Rápido, preciso e atual, “A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é um livro que fala sobre a bolha de que muitos de nós fazemos parte de vez em quando. Aproveitei pra conversar com a Maria Clara sobre essas coisas todas.

Qual foi o clique que te deu pra escrever esse livro?

Sempre gostei de escrever, mas nunca ficava satisfeita com nada – e olha que eu sempre escrevi obsessivamente. Quando tentava contos, sentia que ficavam frios e sem alma. Também escrevia algo similar a uma prosa poética, mas, na maioria das vezes, tinha alma em excesso e o resultado era muito melodramático – além de ser muito difícil editar textos tão pessoais. Com a carreira de jornalista engatilhada, o sonho de escrever um romance ficava cada vez mais adormecido.

No dia 1º de janeiro, assim que cheguei em casa da minha festa de réveillon, sentei no computador e escrevi: “Cara. Melhor réveillon da minha vida. Mas, mesmo assim, ano que vem passo em casa, quieto.” Era um desabafo, porque de fato eu passo quase todos meus réveillons em casa, dormindo, e este eu passei em uma superfesta na casa de uma amigo, me divertindo horrores. Mas aí, sem muito planejamento, surgiu esse personagem e todo o círculo de amigos dele e suas respectivas personalidades. Escrevi praticamente o capítulo 1 inteiro neste dia, de uma vez só – mas é lógico que, ao longo dos seis meses que passei me dedicando ao romance, ele foi reescrito inúmeras vezes. O livro foi criado espontaneamente – sua estrutura foi sendo desenvolvida na medida que ele ia sendo escrito, na base de muitos testes.

Da série perguntas carregadas de suposição: como foi escrever uma história baseada na vida de 90% dos seus amigos e conhecidos?

Praticamente nada que existe de factual do livro foi baseado na vida de pessoas que eu conheço, somente alguns detalhes que serviam de inspiração para uma ficção nascer dali. Por exemplo, poucos dias antes do réveillon, fui à Comuna (bar que eu e meus amigos frequentamos no Rio) e, no bar, desabafei para um amigo: Não estou aguentando minha existência. Ele pegou a cerveja dele e disse: Ninguém aqui aguenta, tá todo mundo fingindo. E aí ele foi dançar e eu fiquei olhando aquele grupo de pessoas, aparentemente tão alegres. Fiquei com esse diálogo na cabeça (que reproduzi no livro) e dali surgiram várias cenas e pensamentos para a história. Muitas das reflexões foram baseadas em conversas com amigos sobre nossa geração.

Alguém ficou chateado? Ou a reação mais constante foi do tipo: “uow, é exatamente isso! O que a gente faz agora”?

Não, a reação foi positiva. Alguns disseram que ficaram meio perturbados e envergonhados de se identificarem com o Davi, mas foi uma perturbação boa, uma reflexão.

Como é viver em um mundo em as coisas só existem se forem postadas?

Acho que a chave para essa pergunta esta no parágrafo de conclusão do livro: inveja de nós mesmos. Aparentemente todos nós vivemos uma vida incrível, somos bonitos (todo mundo é lindo no selfie), inteligentes, frequentamos festas e exposições. Mas, no fundo, sabemos que não somos tão ~ legais ~ assim e daí vem a crise. Creio que a obrigatoriedade do sucesso que sempre existiu na sociedade norte-americana tenha se globalizado com as redes sociais, a ponto de virar pecado fracassar. Procuramos aparentar sucesso e felicidade, mais do que ser – e quando passamos a vida olhando para fora ao invés de olhar para dentro fica mais e mais difícil alcançar o que seria a felicidade.

Desaprendemos a falar a real uns para os outros em troca dessa exaltação de que somos o máximo o tempo inteiro?

Quando temos amizades verdadeiras, como as de infância, existe esse momento de falar A REAL. No entanto, muitas vezes essas amizades ocupam menos espaço na nossa vida, dando lugar a amizades do trabalho ou que sejam de alguma forma importante para o networking.Em cidades mais cosmopolitas, como São Paulo, isso acontece com frequência: tem uma frase da Tina Brown, que foi editora da Vanity Fair e da New Yorker, que simboliza bem esse espírito: “You don’t make friends, you make contacts”.  No Rio de Janeiro, que é uma cidade bem provinciana, é menos comum. Você encontra seus amigos de infância no Baixo Gávea: um surfista que ainda mora com a mãe, um CEO milionário, um artista hypado… E tá tudo certo.

É difícil para quem cresceu tendo tudo e podendo tudo lidar com frustração?

Sim, com certeza. Isso já foi bem explorado por vários artigos que tentam dissecar os chamados Millennials. Especificamente no Brasil, a minha geração foi criada em um momento econômico bom, o que torna as suas expectativas ainda mais irreais – isso somado à felicidade dos outros mostrada em redes sociais e revistas de lifestyle torna a combinação ainda mais explosiva. Uma frustração normal da vida toma ares de fracasso que só você passa – os outros estão lá, felizes e bem sucedidos.

Depois de escrever o livro, você pensou em tomar uma decisão “drástica”, do tipo ficar longe de redes sociais?

Amo Facebook. Gosto de discutir sobre política e outros temas relevantes com uma gama imensa de pessoas que eu normalmente não conversaria e que tem pontos interessantes a acrescentar – aprendo a partir dos links que os outros postam, sites e assuntos que eu não teria acesso de outra forma. A linguagem de internet é descontraída, mesmo quando o assunto é sério. Isso me agrada. Normalmente, não perco meu tempo vendo vídeos virais, nem tenho muita paciência para humor de internet – de vez em quando surgem uns ótimos e é bom, mas a maioria acho sem graça. Em geral, uso o Facebook como plataforma para fóruns de discussão sobre assuntos variados.

Odeio Instagram. Perdi meu iPhone e tive que ficar dois meses sem o aplicativo e foi ótimo. Me senti bem mais leve. Instagram é superficial e desperta o pior das pessoas: inveja, competitividade, narcisismo. Atualmente uso pouco essa rede social e pretendo usar cada vez menos.

O Instagram não te trouxe nada de bom?

Acho que não. Por vezes acho divertido (estou viajando e estou gostando de tirar fotos e deixá-las mais bonitas), mas tendo a relacionar o Instagram com ansiedade. Ansiedade de se mostrar feliz, de ter a sensação de ser querida, e é uma sensação falsa, porque likes não contabilizam amor. Já ouvi alguém dizer: “acho que ela não é muito querida, ela não tem muitos likes”. Outro dia, falava com uma amiga sobre como me senti mais leve quando estava sem Instagram e ela disse: “mas aí as pessoas podem esquecer que você existe, é ruim para o marketing pessoal” – ela disse isso a sério e creio que muita gente pensa assim.

Às vezes o Instagram pode ser útil para se começar um primeiro contato com alguém que você admira, pois cria-se uma conexão de forma mais leve que no Facebook, onde normalmente você precisa conhecer a pessoa para virar amigo. Dessa forma, fico feliz de ter algum tipo de relação com essas pessoas que não conheço, mas admiro o trabalho (principalmente se essas pessoas me seguirem também), mas como o instagram não permite muitas interações por texto (onde me saio melhor – sou meio ruim com imagens e isso deve influenciar minha implicância com o aplicativo) normalmente esse tipo de contato permanece superficial, na base de likes. Então, sou meio indiferente em relação às benesses do Instagram.

O que a internet te trouxe de mais assustador até hoje?

Acho a internet ótima, o problema é alguns tipos de rede social que fazem com que seja muito tentador se comparar com os outros a partir de critérios aleatórios como likes, seguidores etc. Isso torna as pessoas mais narcisistas, autoconscientes, competitivas e invejosas. Mas nada que um pouco mais de terapia e introspecção não resolva. Qualquer problema do mundo moderno (tanto oriundo das redes sociais ou os que eu trato no livro) pode ser resolvido com uma boa dose de introspecção, silêncio, autoanálise, leitura. Menos selfie, mais Freud e Jung – as pessoas podem até começar a ler sobre esses dois pensadores em um texto de internet para então migrar para um livro.

E de mais surpreendente?

Acho internet ótima para relações pessoais, é mais fácil você se aproximar de pessoas com quem você tenha afinidades. Você tem a chance de ler sobre assuntos que normalmente não leria – eu não tinha o menor interesse sobre feminismo até minha timeline ser inundada por posts dessa espécie e só a partir daí que comecei a pesquisar sobre o assunto. Tem mil ensaios interessantes disponíveis na web. É lógico que um artigo de internet pode ser insuficiente comparado a texto mais extenso que você encontra em um livro, mas é um bom ponto de partida para você começar a desenvolver uma espécie de curadoria intelectual (ex: não me interesso sobre fenomenologia, mas descobri que amo semiótica e vou me aprofundar no assunto).

Quem você quer que te leia? Vale fazer uma citação genérica do tipo “jovens de 30 anos que moram em São Paulo” ou nominal: “aquele cara que tem a família perfeita no Instagram”.

Imagino que meu livro seja mais atraente para jovens (de qualquer canto do mundo), entre 20 e 35 anos, mas nada impede que um adulto de 55 anos leia e se identifique com o Davi.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser”, de Maria Clara Drummond

Editora Guarda-Chuva

Mais em > https://www.facebook.com/pages/A-festa-%C3%A9-minha-e-eu-choro-se-eu-quiser/1387164904851450

Crédito das imagens: divulgação + Pinterest + Pinterest

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As melhores leituras de 2013

por   /  19/12/2013  /  15:15

A Confeitaria perguntou aos seus autores quais foram seus livros preferidos de 2013. ♥

Os meus foram: This Is How You Lose Her, de Junot Díaz. O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe. Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos. You and I, do Ryan McGinley. Divórcio, de Ricardo Lísias. Todos Nós Adorávamos Caubóis, de Carol Bensimon.

E os seus, quais foram?

Vejam a lista completa e inspirem-se! > http://confeitariamag.com/fabianesecches/as-melhores-leituras-de-2013/

Verão na revista Noize

por   /  19/12/2013  /  8:08

Tenho uma coluna na revista Noize, e na nova edição fiz uma seleção de fotos de verão!

Os escolhidos foram Justin Jernigan, Filipe Redondo e Joe Nigel Coleman.

Gostaram? ♥

A edição conta também com Tom Zé, Arcade Fire, King Krule, Arnaldo Antunes, Kelela, Little Dragon, Joey Ramone e mais.

Leiam a revista toda! > http://issuu.com/noize/docs/noize64_dez_jan_fev_2014

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Por uma vida mais off-line

por   /  21/11/2013  /  16:30

David Baker checa email duas vezes por dia, acha extremamente rude manter uma conversa com alguém que não tira os olhos do celular e só conseguiu usar o Facebook por um mês (e odiou a experiência). O comportamento frugal em relação à tecnologia vem da experiência que ele tem na área: há mais de três décadas ele pensa, escreve, faz consultorias e dá aulas sobre o assunto. Por anos foi editor-chefe da versão inglesa da revista Wired, a bíblia da tecnologia, e hoje é professor na The School of Life, a escola criada por Alain de Botton e Roman Kznaric (“Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira + Como encontrar o trabalho da sua vida)

Nos anos 1980, Baker deixou o emprego em um escritório de relações públicas e teve que aprender duas coisas: como ganhar dinheiro sendo seu próprio empregador e como lidar com o tempo para tirar o melhor proveito dele. “Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais que o necessário”, disse ele ao Don’t Touch.

Em uma época em que o lema era “work hard, play hard”, Baker decidiu não ser um yuppie. “Tomei uma decisão de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita.”

Viver com menos talvez tenha sido o primeiro passo para que Baker começasse a entender que esse comportamento também poderia ser levado para o mundo digital, que funciona em uma velocidade e com um volume de dados impossíveis de acompanhar. “Precisamos reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usar toda a tecnologia disponível pra viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usar a tecnologia como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos”, diz ele.

Conversei com o David na última terça-feira, ao fim do intensivo que ele deu na versão brasileira da The School of Life, em São Paulo. No próximo sábado, às 11h, ele fala sobre “Tecnologia e Humanidade” no sermão da escola, que acontece no Teatro Augusta. Ainda há ingressos, aproveitem > http://www.theschooloflife.com/shop/david-baker-sobre/

O papo foi daqueles demorados e deliciosos, em que a gente vai ouvindo cada frase com total atenção (e com o celular no modo avião, por favor!), aprendendo com a experiência de quem se dedica ao assunto há muito tempo e pegando dicas para incorporar na vida atitudes que levam a um comportamento digital mais saudável.

Espero que vocês gostem! ♥

- Tem um livro que eu gosto que fala que nós esperamos mais da tecnologia do que uns dos outros. O que você acha disso?

Meu tema para este ano, porque eu trabalho para a Wired e porque ensino na School of Life, é tentar investigar o que acontece quando seres humanos e tecnologia colidem. A tecnologia está se tornando cada vez melhor mais rapidamente e isso não vai parar. E isso nos traz problemas. O primeiro é que nós temos expectativas diante da tecnologia que são despropositadas, temos a ilusão de que a tecnologia vai resolver todos os nossos problemas. E não é verdade. Existe um “solucionismo”. Tenho um problema e penso que vai existir uma tecnologia para resolvê-lo. E não é o caso. Tecnologia é ferramenta. O que nós precisamos é reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usá-la para viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usá-la como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos. Isso aconteceu na Revolução Industrial. Quando as indústrias de fábricas cresceram, as vidas de várias pessoas ficaram piores, mesmo com muita gente pensando que aquilo era sinônimo de progresso. Começamos a descobrir coisas como poluição, o som constante das máquinas. Aí mudamos essa relação. A nossa relação com a tecnologia hoje ainda é adolescente e agora estamos começando a nos tornar adultos.

- Por que você acha que nós estamos tão viciados em likes e comentários?

Por duas razões. É realmente excitante quando as pessoas dão like em alguma coisa que nós postamos. É como ser um ator em um filme, é como se fôssemos famosos. Tem uma platéia ali, de maioria de pessoas desconhecidas. “Estranhos gostam do que eu digo? Que bom!”. E nós podemos ter números. Conheço pessoas no Twitter que entram em competições para ver quem tem mais seguidores. Existe uma idéia de que podemos ser melhores por causa dos números. E o que ferramentas como Twitter e Instagram fazem é o que os psicólogos chamam de reforço intermitente. É como um jogo de azar. Vencer é o like, que vem de maneira randômica. Continuo jogando roleta porque a próxima rodada pode me fazer ganhar. Continuo postando pra ver se vem um prêmio. Pessoas que não podem deixar seus telefones de lado têm um problema psicológico.

- Há estudos que dizem que esse vício é químico também. Quando checamos email e tem uma mensagem nova, o cérebro libera dopamina. Ficamos animados e queremos de novo.

Nós temos que entender onde está a dopamina em outras áreas da nossa vida. Não é certo sentir prazer em checar email. É ridículo. Email é uma coisa prática para comunicação. Nós precisamos pensar: por que estou procurando meu prazer aqui, se poderia fazer isso de uma maneira que me preenchesse mais? Eu checo emails duas vezes por dia, geralmente. E minha vida é ok, não é um desastre. No resto do tempo eu espero encontrar prazer em outros lugares.

- E como você chegou a essa dinâmica de checar email duas vezes por dia?

Quando me tornei o editor-chefe da Wired em Londres, comecei a receber centenas de emails. Eu passava o dia lendo emails, e os projetos que eu precisava fazer, como criar uma edição digital, não iam pra frente, pois eu não tinha tempo. Daí decidi reduzir essa exposição. Sou velho o suficiente para lembrar que a comunicação era feita por correios. Quando comecei a trabalhar, a comunicação vinha duas vezes por dia. Recebíamos alguma coisa, pensávamos na resposta, escrevíamos, enviávamos. E o trabalho funcionava do mesmo jeito. Decidi checar email às 11h, depois às 16h. Também desliguei o voicemail do meu telefone, para que as pessoas não pudessem deixar mensagens. Desliguei as notificações do Outlook. Isso mudou a minha vida completamente.

- Queria conseguir fazer isso.

O que falamos aqui na School of Life é de ir experimentando. Tente por um dia, veja o que acontece. Depois por dois e assim por diante.

- Estamos sempre conectados, mas frequentemente nos sentimos sozinhos. Isso é um paradoxo ou é um sentimento que está se tornando real para cada vez mais pessoas? Qual é a importância de saber ficar sozinho?

É irônico, né? Quanto mais conectados, mais nos sentimos sozinhos. O que acontece é a Fomo (fear of missing out), o medo de perder as coisas é um sentimento muito profundo, principalmente para quem vive em grandes cidades. O que acontece é que na internet vivemos em “megalópolis”. Não consigo lembrar quantos membros o Facebook tem, mas vivemos numa população de bilhões. O que a internet promete é conexão e compartilhamento, mas o que entrega é mais uma sensação do que estamos perdendo. Nós pensávamos que a internet iria aumentar a diversidade, mas, em vez disso, as pessoas tendem a se comunicar com quem já conhecem, a criar pequenos grupos. E também não existe fronteira de tempo. Preciso estar conectado. A idéia de estar sempre conectado é ainda mais jovem que a internet, veio com a conexão banda larga. Nós olhamos como um direito que sempre existiu, mas em 1990, 1992, você tinha que ligar para um número, se conectar na internet, fazer seus negócios, se desconectar. Tínhamos uma atitude diferente: vou me conectar, falar com as pessoas, me desconectar. Mas o “always on” nos dá a ilusão de que temos que estar conectados o tempo todo, o que é um problema, porque, quando a conexão cai, a gente enlouquece.

- E qual é a importância de saber ficar sozinho?

Nós geralmente estamos sozinhos e é importante que a gente entenda que isso vem com coisas boas e ruins. No Brasil a palavra é uma só: solidão. Na Inglaterra, temos duas: loneliness e solitude. A primeira é ruim, a segunda é boa. Uma investigação que podemos fazer é como tornamos o sentimento de nos sentirmos solitários em solidão. Ficar sozinho não precisa ser uma coisa ruim. Porque a internet é baseada em conexão, quanto menos você tem parece que é pior. Mas esses momentos quando estamos sozinhos de uma maneira boa são momentos de pensamentos profundos que podem nos levar a descobertas maravilhosas sobre o que somos capazes de fazer. E pra mim estamos aqui na Terra para descobrir o potencial dentro da gente e crescer e aproveitar para fazer as coisas nas quais somos bons, que nos deixam animados e felizes. Algumas vezes a gente precisa ficar sozinho para descobrir isso. E o que acontece com a internet é que ela está sempre lá, nos chamando.

- Tem um outro livro, “The Information Diet”, que diz que nós estamos ficando obesos não apenas nos nossos corpos, mas em nossos cérebros, devido ao lixo de informação que consumimos. O que você acha disso?

Informação hoje na internet tem que gritar para ser ouvida. Acho que a quantidade de dados que trafega na internet em um mês é de 40 exabyte.

- Eu nem sei o que é um exabyte.

Exatamente. O interessante é que 5 exabytes é número total de palavras ditas pelos seres humanos em toda a história. Oito vezes isso circula na internet todo mês. É astronômico. Para ser ouvido, as coisas precisam gritar. Não é diferente do mundo, onde tem milhões de pessoas que nunca vamos conhecer. O cérebro funciona como uma banda larga doméstica. Não temos como lidar com todos esses dados. Popularizam-se coisas como vídeos de gatos, que são brilhantes. Parece que tudo é muito efêmero. Como eu cultivo solidão na minha vida? A internet é incapaz de responder isso. A velocidade da internet nos desencoraja a pensar mais lentamente. Agora o relógio nos faz pensar em resultados instantâneos. O Google nos dá resultados em frações de segundos. Nós somos encorajados a consumir os dados ruins, mas também a não pausar e resistir e ir procurar outro tipo.

- Me parece que estamos preguiçosos, vivemos numa época em que parece que tudo é o Buzzfeed. Amo o Buzzfeed, mas ninguém lê um texto grande na internet.

Quando lançamos a Wired em Londres, uma publicação impressa, decidimos escrever textos longos, com 4 mil palavras. Eu achava que não ia dar certo, mas se tornou muito popular. A gente queria que as pessoas parassem por 20, 30 minutos e contemplassem, aprendessem alguma coisa. A velocidade também nos deixa preguiçosos para a especulação. Conhecimento vem da especulação, da conversa. Se eu falo pra você que o Azerbaijão é maior que o Cazaquistão, e você diz que não, temos uma conversa. Hoje vamos ao Google e resolvemos a questão muito rapidamente. Paramos de trocar as informações que tínhamos. Podemos até não chegar na resposta, mas na jornada para a resposta, aumentamos nosso conhecimento. Com o Google a gente tem a resposta, mas vamos esquecer no outro dia ou não vamos ter aumentado nosso conhecimento. Sinto falta disso. Quero ser um evangelista da especulação. Quero que as pessoas deixem o Google de lado e investiguem o que têm em suas cabeças.

- Como nós podemos tirar o máximo da internet, de uma boa maneira? Quais são os sites que você costuma checar diariamente?

Não tem nada que eu veja todo dia. O Google eu uso todo dia. Adoro todas as ferramentas deles. Fico muito feliz em dar todos os meus dados para eles em troca dessas ferramentas gratuitas. GDocs, Gmail são coisas incríveis. Eles me ajudaram a pensar melhor, a me organizar, a lidar com colegas. Obrigada, Google! Além disso, amo o Gawker, leio por entretenimento. Amo a Wikipédia, acredito muito nela. O que tento fazer é usar a internet sem usar a internet. Gosto de tirar tempo fora dela, me desconectar. De repente tenho esse tempo incrível em que leio um livro ou uso um pedaço de papel e lápis para colocar meus pensamentos. São sempre tempos melhores.

- Você está no Facebook?

Não. Eu tentei por um mês e detestei. Em princípio não tenho nada contra. Mas velhas informações ficavam aparecendo pra mim, demandando minha atenção. Tenho muitos amigos que eu vejo no mundo real e essas conexões com eles, falando no telefone, indo na casa ou recebendo na minha, são conexões melhores. Eu fazia log in e ficava aterrorizado. Preferi me desconectar, ir pra fora, investigar algo nos meus termos. A ironia é que não fechei minha conta, um pouco tempo depois tive que escrever para um site que estava em beta e eu precisava logar pelo Facebook. Fiz uma página e hoje tenho 0 amigos. Eu sou o loser do Facebook e sou muito feliz com isso.

- Será que temos que criar momentos específicos para usar a internet? Está em tempo de seguirmos uma etiqueta virtual?

Eu odeio quando as pessoas estão olhando para o telefone enquanto estão tendo uma conversa comigo. Eu realmente odeio isso. Parece não apenas rude, mas também meio idiota. Acho que uma das coisas mais bonitas que você pode fazer na vida é dar sua atenção completa a um ser humano, é um ato de amor. E é o que faz a conversa cara a cara tão melhor do que a pelo Skype. Quando estamos na presença de outra pessoa, podemos dar toda a nossa atenção a ela, e eles nos dão de volta. E nós chegamos a um lugar tão mais profundo, que nos preenche, do que quando temos conversas no mundo digital. O que prejudica isso é quando as pessoas são distraídas pelos seus telefones. Um amigo meu lançou uma acampanha em Tel Aviv para deixar os telefones virados pra baixo. Isso está começando a ficar popular por lá. É muito legal pensar: onde está meu telefone agora? O meu está no bolso. E prefiro que as pessoas deixem no bolso ou virado pra baixo, no silencioso. Se não a mensagem fica apitando e você vê os olhos da pessoa procurando. É rude. Sei que pareço um homem velho, mas acho que é rude pra todo mundo, inclusive para um menino de 14 anos. Quando estamos com outra pessoa essa é a pessoa mais importante, não as que estão online.

- Como você organiza sua rotina para dar conta de fazer tudo?

Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais. É o sistema. Nós pagamos as pessoas por hora, dia, mês. Elas não são encorajadas a trabalhar com rapidez, mas sim devagar. Eu trabalho pra mim. Se alguém me pede pra fazer uma coisa, é uma vantagem se eu fizer rapidamente. Quanto mais espaço você tem na sua vida, mais coisas boas acontecem. Eu tomei uma decisão há alguns anos de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita. Como resultado, quando trabalho, faço isso de maneira esperta e satisfatória para mim e para as outras pessoas.

Em casa, meu ritmo. Descobri recentemente que gosto de acodar cedo. Vou para cama às 22h30, acordo às 7h. Sou inglês, preparo um chá, levo meu laptop pra cama, passo umas duas horas, faço o primeiro turno de emails. Escrevo alguma coisa. Está tudo calmo lá fora, não tem ninguém por perto. Como resultado, a maioria das coisas que preciso fazer estão acabadas às 9h. Gosto de, todo dia, estar em um lugar analógico. Gosto de nadar em água fria num lugar aberto. Pego minha bicicleta. Tem água, floresta, pássaros, é o oposto da internet, é analógico. E gosto de passar tempo nesse mundo. Quando volto, faço o segundo turno de emails e o dia chega ao fim. Em escritórios nós perdemos tempo. Não precisamos ser escravos. Especialmente pessoas que todos os dias ficam até tarde no trabalho. Eu não acredito que elas tenham tanto para fazer todos os dias.

- Quem são suas inspirações?

Eu me inspirei em mim mesmo. Trabalhei para duas empresas de relações públicas em Londres, nos anos 1980, numa época yuppie, de “work hard, play hard”. Saí da empresa, tive que entender como funcionava a vida de alguém que se emprega. E me dei conta de que o meu tempo era muito importante. Fiz um trabalho com uma consultoria sobre gerenciamento de tempo. Comecei a pensar em qual é o ponto de estarmos no mundo. E sempre fui atraído por pessoas que vivem de um jeito mais simples, que têm um propósito. Mais do que as pessoas que ostentam. Por necessidade, sem dinheiro, entendi que precisava fazer alguma coisa boa com o meu tempo. E depois se mostrou um valor viver assim. Sou religioso, judeu, tem um profeta que diz: você pergunta o que é ser bom. E eu digo: você deve procurar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o seu Deus. Gosto de andar humildemente.

- Você tem um mantra de vida?

Nunca deixe de ser curioso. Existem coisas maravilhosas lá fora prontas para serem descobertas.

Créditos das imagens: 1) The School of Life; 2) do Pinterest; 3) Julien Mauve; 4) Daniela Arrais; 5) Tim Barber.

Agradecimentos especiais a Cris Naumovs, Carol Almeida, Júlia Veras, Raquel Ferraz e Luiza Voll! ♥

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