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Inky: música eletrônica com pegada rock made in Brasil

por   /  13/10/2016  /  15:15

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De vez em quando entro numas de ouvir música eletrônica made in Brasil. E gosto bastante, ainda mais quando tem uma pegada de rock. Conheci a Inky com “Parallels”, o primeiro EP, que foi lançado em 2010. De lá pra cá, curti o clipe de “Baião”, vi um show em algum lugar que não lembro e, agora, tenho ouvido “Animania”, o segunda álbum do grupo formado por Luiza Pereira (vocais e sintetizadores), Guilherme Silva (baixo), Stephan Feitsma (guitarra) e Luccas Villela (bateria). A produção é de Guilherme Kastrup, que assina, entre tantos outros, “A mulher do fim do mundo”, de Elza Soares.

Ouçam o disco > https://www.youtube.com/watch?v=j46melKgk_E

Pedi pra Luiza uma playlist com suas principais influências, que vão de PJ Harvey a Savages, passando por Janis Joplin, Pixies e Warpaint. Ouçam!

Aproveitei pra bater um papo rápido com ela, espero que gostem!

Ah, a banda faz show no próximo domingo, em São Paulo. Saiba mais > www.facebook.com/events/1052784464777526

– Conta um pouco da sua história? Como você começou a cantar? Quais foram suas principais influências?

Comecei a fazer aulas de música desde muito pequena, com 4/5 anos. Primeiro iniciação musical e depois aulas de piano. Nessa mesma época comecei a querer cantar me acompanhando no piano e achava mais fácil me expressar assim; a voz é um instrumento muito pessoal, cantar é um processo de autoconhecimento, de desvendar o seu instrumento e se descobrir. Gostava muito do jazz e de cantar standards clássicos. Uns anos depois, descobri o rock, a Björk, o Thom Yorke, a Beth Gibbons (e outros vários) e fui descobrindo minha personalidade artística no meio disso. Já no synth, tive uma grande influencia do “disco punk”, dos anos 80 e do trip hop.

– Como é ser mulher no mercado da música? É um espaço de mais acolhimento ou ainda tem bastante preconceito?

Acho que poucos mercados de trabalho são acolhedores pras mulheres. Salvo aqueles de carreiras consideradas “femininas”. O mercado musical é extremamente masculino. Desde produtores, engenheiros de som, roadies, músicos… E ser mulher nesse mercado é ser constantemente testada, subestimada e desrespeitada. Já ouvi homens questionando se eu sabia ligar meu instrumento, se eu tocava com playback, já fui assediada, já ouvi que eu tava na banda porque “era legal como marketing”, enfim… Ainda tem essa mentalidade de que mulher não tem capacidade e somos reduzidas ao nosso gênero e à nossa aparência. Mas isso tá mudando aos poucos, e fico feliz de ver cada vez mais mulheres trabalhando no mercado e mostrando qualidade e competência.

– Qual caminho você espera seguir com a INKY? Conta como vocês começaram, como estão atualmente e quais os planos pro futuro?

A gente começou a tocar em 2010. O Gui (baixista) tinha um projeto de musica eletrônica com baixo ao vivo e queria que isso virasse uma banda. Na época, eu tinha 17 anos e tinha acabado de comprar um synth e ele me chamou pra fazer um ensaio com outros integrantes e ver no que dava. A INKY nasceu e eu tô na banda desde então 🙂
Lançamos nosso segundo disco, Animania, em agosto desse ano e começamos a fazer os shows desse disco e a absorver essa nova fase. Espero que a gente continue crescendo, tocando pelo Brasil e pelo mundo e podendo trabalhar com pessoas que a gente admira.

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Precisamos falar do assédio

por   /  10/10/2016  /  8:08

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“Precisamos falar do assédio” é um desses filmes-porrada que a gente precisa ver. Reúne depoimentos de mulheres que foram vítimas dos mais diferentes tipos de abuso. É forte, incomoda, agonia e nos mostra o quão necessário é falar dessa triste realidade da qual praticamente toda mulher é vítima.

Durante a semana da mulher, uma van-estúdio parou em nove lugares em São Paulo e no Rio e recolheu depoimentos de mulheres de 15 a 84 anos, de zonas nobres e periféricas. As mulheres ficavam sozinhas na sala improvisada da van. As que não queriam mostrar o rosto, recorriam a uma máscara. Ao todo, 140 decidiram falar. Parte delas está no documentário, dirigido por Paula Sacchetta, com quem conversei sobre o filme.

O filme continua na internet, pra onde qualquer mulher pode mandar seu depoimento > precisamosfalardoassedio.com

Confira os locais onde o filme está em cartaz > facebook.com/precisamosfalardoassedio

O que mais te marcou durante a realização do documentário?

Todo mundo que me entrevista me pergunta isso e acho que cada vez respondo uma coisa de tão doloroso, difícil e ao mesmo tempo bonito que foi esse processo. Acho que o que mais me marcou foi entender o filme – e o processo todo dele, incluindo as filmagens – como esse lugar, apesar da dor e das violências, de encontro e acolhimento. Eu digo e repito que com esse filme eu descobri o sentido mais profundo da palavra acolhimento. Acho que foi olhar para a van como esse lugar de acolhimento, apesar de ser uma van fechada e escura na qual as mulheres ficavam sozinhas dentro, sem nenhum tipo de interlocução ou entrevistador, muitas viram nela a chance de falarem de seus traumas e violências sofridas pela primeira vez. Me marcou muito muito o depoimento de uma menina, que tem 18 anos hoje, que conta de um estupro que sofreu aos trezes. O depoimento dela mostra uma dor profunda e muito muito latente. É o mais dramático do filme em todos os sentidos. Mas mais que isso, o que mais me surpreendeu – e acho que surpreende qualquer um que assista – é que ela diz que está falando daquilo pela primeira vez. Que nunca falou daquilo nem para sua psiquiatra ou psicóloga. O que a fez, de repente, no meio da avenida Paulista, entrar naquela van escura e contar sua história? O projeto e todo esse momento que estamos vivendo acho que têm essa cara: de nos reconhecermos, de olharmos umas as dores das outras e, de alguma forma, nos sentirmos mais fortes para falarmos de coisas até então indizíveis. Pra mim isso é muito grande.

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Qual é a importância de colocar pra fora assédios, traumas e abusos?

Acho que é importante para mostrarmos como acontece muito e sempre e com todas nós. Para nos encontrarmos nesse lugar de acolhimento, fala, escuta, dor e cura e para dizermos, juntas, que não vamos mais aceitar isso. Acho que, por um lado, conscientiza: “amigo, olha só o que acontece todos os dias com a sua amiga, com a sua irmã, com a sua namorada e até com a sua avó”. E por outro, dá força para lutarmos contra: nos reconhecemos, ficamos mais fortes para falar e aí podemos, juntas também, dizer que não vamos mais aceitar. A fala, no centro do filme e em todo esse movimento, tem esse lugar de luta e ao mesmo tempo, de cura.

Conta um pouco da sua trajetória? Temas como esse sempre te interessaram ou foi um despertar que veio dessa primavera feminista?

Eu sou jornalista de formação, mas trabalho há algum tempo como documentarista e acho que, até agora, só fiz documentários e curtas sobre temas pesados. Eu não falaria de coisas que não me movem ou não me comovem, e, de certa forma, mostro o que está errado para tentar mudar as coisas. Eu sempre respondi na rua aos assédios, xinguei, sempre odiei escutar barbaridades e até já apanhei uma vez, por ser respondona. Essa primavera feminista que estamos vivendo só me deu vontade de trabalhar com esse tema agora em um documentário. Comecei a olhar todos aqueles relatos no Facebook e pensei em fazer algo que tirasse esse tema das redes sociais e ampliasse de alguma forma o movimento, ocupando os espaços da cidade com o tema. Por isso a escolha de um estúdio móvel. Eu poderia ter coletado os depoimentos dentro de uma sala fechada na produtora, mas a van adesivada na rua PRECISAMOS FALAR DO ASSÉDIO já trazia luz para o tema, entende?

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O que você espera para o filme, seu impacto, seus desdobramentos?

Eu quero que ele seja visto por mais pessoas possível. Acho que todo mundo que faz um filme quer isso. Mas acho que ele tem que ser visto à exaustão, tem que gerar reflexão e debate. Todo mundo que assiste – homens e mulheres – sai muito impacto, então acho que isso ele já tem por si só. Mas queria que ele rodasse o Brasil e o mundo. No meu mundo ideal, ele seria passado dentro das escolas, a partir, sei lá, dos 13 ou 14 anos (ele pegou 14 na classificação indicativa), para educar mesmo, sabe? Tanto as mulheres a identificarem as violências que muitas vezes naturalizamos, quanto os homens a entenderem o que podem fazer e o que não podem. Já passou da hora de pararmos a ensinar as meninas e se protegerem, a serem “comportadas”, “recatadas” ou a não usarem roupas curtas, por exemplo. Temos que ensinar os meninos a não serem estupradores e assediadores. Temos que ensiná-los a serem respeitosos e ensiná-las e serem livres.

Você já está fazendo outro projeto?

Sim! Alguns dentro da produtora onde foi bolado e realizado o “Precisamos Falar do Assédio”, a Mira Filmes. Estou dirigindo uma série de TV sobre jovens LGBT nas periferias de São Paulo e bolando outros dois longas documentários, um mais leve e solar e outro nem tanto, hehe.

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“1978”, de Gabriela Oliveira

por   /  04/10/2016  /  13:13

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Quando saiu do interior de São Paulo para morar na capital, Gabriela Oliveira foi para um pensionato católico. Tinha 17 anos. Munida de uma câmera herdada do irmão e de alguns rolos de filme, começou a fotografar o cotidiano de jovens como ela que compartilhavam um espaço enquanto começavam a viver uma poderosa etapa da vida.

Os registros dos anos 1970 foram revisitados em quatro décadas depois e, este ano, deram origem ao fotolivro “1978”, editado pela Olhavê, de Alexandre Belém e Georgia Quintas.

Conversei brevemente com a fotógrafa, cujo trabalho me encantou pela aura de mistério, pelas tantas histórias que uma única imagem consegue nos fazer imaginar.

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Desde a infância me interessei por artes visuais e comecei esse trajeto através da pintura. Em 1977, vim para São Paulo cursar o colegial no IADE (Instituto de Artes e Decoração), onde uma das matérias era fotografia, com o fotógrafo Antônio Saggese. O ensaio fotográfico “1978” foi a semente de tudo que tracei em seguida, inclusive a faculdade de artes plásticas na FAAP.

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Sempre fui interessada em reter e deter o tempo, registrando o que se passava ao meu redor, um apelo da memória: fixar a imagem que magicamente se revelava sob a luz vermelha. Essas fotos que fiz aos 17 anos foram meu primeiro contato com a fotografia. Captadas de forma intuitiva, ainda hoje possuem uma carga emocional, base de todo o meu trabalho.

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No processo de edição o que prevaleceu foi o viés poético que Georgia Quintas propôs com a escolha das imagens, além de presentear o trabalho com um lindo poema. Foi um processo muito rico, com confiança total e sobra de competência da Editora Olhavê.

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O objetivo de toda essa soma é simples. Que as pessoas possam apreciar a narrativa proposta, que cada leitor possa acrescentar as próprias histórias e memórias… Sentimentos que expandem todas as possibilidades do olhar.

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Deixa Ela em Paz

por   /  07/09/2016  /  10:10

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O Deixa Ela Em Paz (@deixaelaempaz) é um projeto de intervenção urbana e ativismo digital. Criado por Joana Pires e Manuela Galindo, tem como objetivo discutir o empoderamento de mulheres, enquanto se fortalece, também, como um espaço de formação. Para isso, colocou no ar uma campanha de crowdfunding. A gente pode contribuir com qualquer valor, basta acessar www.benfeitoria.com/deixaelaempaz.

Conversei com Joana sobre o projeto. “Fico pensando aqui em como responder tuas perguntas enquanto o meu juízo tá quase completamente dominado pelos últimos dias no Brasil e tudo o que isso significa e ainda vai significar para a gente, sabe? O Deixa Ela Em Paz é também uma parte desse processo, uma das outras partes, a parte de uma resistência feminina em meio a um mar bravio e duro, que afoga a gente caldo atrás de caldo no ressurgimento de uma onda conservadora na nossa história. E a gente sabe como não é fácil ficar submersa em meio a isso tudo, tentando encher o pulmão de ar. Mas como mar não tem cabelo (adoro essa expressão), o respiro vem das boias que a gente mesmo vai tentando ‘artesanar’. O Deixa Ela Em Paz como intervenção urbana surge assim, da necessidade de falar com mulheres sobre as realidades que dividimos no dia a dia, da minuciosa realidade de violência que todas vivemos e que pode ser vista no relacionamento silenciosamente abusivo, na discriminação salarial, na tentativa de silenciamento da nossa voz no ambiente de trabalho, na violência urbana, na agressão dentro de casa.”

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“Quando eu e Manuela começamos, buscamos falar com essas mulheres de forma simples e direta, como falávamos uma para a outra, criando espaço para reflexões que pudessem vir a se potencializar mesmo depois que as mulheres deixassem de ter contato direto com o nosso discurso. O primeiro passo era intervir uma pela outra, no espaço da cidade, demandar a paz da outra, num ato de solidariedade, empatia e força mútua. Saímos, primeiro no Rio de Janeiro, onde fizemos a primeira colagem e depois no Recife, com um grupo maior de amigas. Mas a impressão é de que o projeto começou com muito mais gente, porque foi da repercussão e da resposta que a gente recebeu que ele veio a se tornar uma ação continuada e um coletivo”, diz Joana,

“De lá pra cá, o aprendizado tem sido constante, principalmente no sentido de enxergar outras pessoas nas nossas ações. A partir do projeto tenho acesso a outras mulheres, às dimensões complexas do que outras mulheres vivem e que eu não vivo, e o que vivemos em comum. O que surgiu como uma intervenção urbana se tornou ativismo digital e se tornou espaço de formação, através do qual buscamos ajudar no empoderamento de outras mulheres, ao mesmo tempo em que aprofundamos nossas próprias lutas. Nosso grande desejo é poder nos dedicar exclusivamente a isso, ao projeto, a esses temas que nos tocam e tocam as vidas de tantas outras. Fazer mais e falar com cada vez mais pessoas. E fazer isso através da arte é a complementação de tudo. As mulheres estão cada vez mais articuladas, mais firmes na disputa pelos direitos que elas têm e precisam exercer. Esse momento que muitos identificam como uma nova onda do feminismo é a evidência disso. Precisamos abrir espaço para o nosso discurso, para a nossa representatividade e nossa articulação em rede tem sido um instrumento para alcançar essas demandas.”

Acompanhem > facebook.com/deixaelaempaz

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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

por   /  02/09/2016  /  15:15

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Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Trecho de “Guardar”, de Antônio Cícero

Fotografar é guardar. É tentar estancar um momento, uma memória – para depois se debruçar sobre eles na tentativa de ressignificá-los, achar sentidos até então ocultos. É buscar, investigar, analisar. Quase sempre na tentativa de uma vida inteira que é entender a nossa própria narrativa e a de quem é fundamental para nós. Em “Ponte dourada sobre rio noturno”, a fotógrafa Ilana Lichtenstein faz uma costura entre o passado e o presente para criar um elo entre sua mãe e o Japão.

O fotolivro começou a tomar forma quando sua mãe teve um diagnóstico de uma doença sem cura, e a fotógrafa quis levá-la para o outro lado do mundo. “O Japão para mim sempre foi uma pulsão de vida, uma fonte de beleza profunda.” Visitou o país pela primeira vez em 2010. Em 2013, quando morou lá, a artista recebeu uma carta da mãe. “Ela dizia que quando eu tinha morado na França, em 2008, havia surgido entre nós uma paixão à distância. A gente não tinha uma relação muito próxima antes, não era muito harmônica. Mas quando fui morar longe pela primeira vez, a gente se aproximou muito. Na nova ida para o Japão eu confiava nisso. Tinha o sonho que ela conhecesse. Nesse estado de torpor, de letargia, achava que seria ótimo ela ver o outro lado do mundo.”

Não conseguiram ir juntas. Ilana viajou, voltou em dezembro de 2013. Em março do ano seguinte, a mãe foi internada em uma UTI por 81 dias, de onde não saiu – o que deu origem a outro livro, feito pelo seu pai, um diário poético e dolorido desse período. “Ela está, de fato, agora, de um outro lado do mundo que não alcanço. Mas esse trabalho dá de alguma forma materialidade a esse sonho.”

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Ilana passou dois anos trabalhando nas imagens que compõem o fotolivro. “Tempo lento, tempo certo”, diz. Além de suas fotos, feitas entre 2013 e 2015 em Tóquio, Kyoto e Itō, ela também recorre às imagens que seu avô, Joel Goldbaum, registrou nos anos 1960 e 1970. A ligação entre os materiais se dá ora pelas imagens em preto e branco, ora pelas bordas na maioria delas e, principalmente, nas imagens dos asiáticos que se juntam aos traços orientais do rosto da mãe, que passou a vida sendo confundida com japonesa, quando sua origem remete à Polônia. As imagens nos conduzem por uma viagem que remete a sonho, nostalgia e contemplação.Têm um pouco de melancolia e muito de beleza e poesia.

Na trama familiar, o design foi feito por sua irmã, Tamara Lichtenstein, que também costurou cada um dos 300 exemplares. O formato remete a um calendário e tem até linhas pontilhadas que permitem destacar as imagens. “Ouvi de uma senhora que a palavra defunto tem a ver com o significado de difundir. Essas fotografias serem soltas tem tudo a ver.” Pensar na passagem do tempo é inevitável.

No processo, Ilana se deparou não só com luto, mas também com mistério. “Tem coisas que não podem, não querem e não vão ser fotografadas.”, diz Ilana. “Levei minha câmera pra Tóquio, ela quebrou. Comprei outra, o filme rodava, depois soltava e entrava de volta na câmera, o que é estranhíssimo. Tenho várias imagens feitas pra esse livro em que aconteceu isso. Eu chorava, anotava essas imagens no caderno para de alguma forma não perdê-las.” O título do fotolivro, aliás, vem de uma dessas imagens que ela não conseguiu fotografar, sendo também uma metáfora sobre a morte.

O livro será lançado neste sábado, 03/09, data de aniversário da mãe de Ilana, na Doc Galeria (rua Aspicuelta, 145, Vila Madalena), das 12h às 18h.

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“Ponte dourada sobre rio noturno”, de Ilana Lichtenstein

Ipsis

60 pág.

14 x 21 cm

Quanto: R$ 80

www.ilanalichtenstein.com

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A artista está entregue

por   /  19/05/2016  /  10:10

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Marina Abramovic acredita. Ou faz a gente acreditar no que ela acredita. Ao viajar pelo Brasil para investigar rituais ligados à espiritualidade, a artista mistura arte e fé em uma trama envolvente, seja pela diversidade dos rituais de que participa, seja por nos fazer refletir sobre os limites entre performance e misticismo. “Espaço além – Marina Abramovic e o Brasil”, filme de Marco Del Fiol, estreia hoje em cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Curitiba.

A ideia para o filme surgiu da vontade da artista sérvia, que em novembro completa 70 anos, de conhecer lugares e pessoas de poder. E nada melhor do que fazer isso no Brasil, onde ela veio pela primeira vez em 1989, e que deu origem ao trabalho “Objetos transitórios para uso humano”.

O filme mostra a viagem que a artista fez em 2012 pelos rincões do Brasil. Ela percorreu seis estados e mais de 6.000 quilômetros. Foi até Abadiânia, em Goiás, para conhecer o médium João de Deus, famoso por fazer operações espirituais, algumas delas até com intervenções físicas – nas cenas desse encontro, fica difícil continuar olhando para tela enquanto se vê um olho sendo raspado com uma faca de cozinha, ou uma barriga sendo aberta. Na Chapada Diamantina, tomou ayahuasca em um ritual xamânico. Na primeira dose, não sentiu nada. Ao ver que as outras pessoas que tinham tomado a mesma quantidade estavam se rastejando, pediu mais. E teve uma das piores experiências de sua vida. (Mas isso não a impediu de tomar ayahuasca em outra ocasião e gostar do processo.)

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Em uma comunidade no Paraná, tomou banho de ervas, purificou-se com cristais, teve o corpo coberto de lama. A certa altura, os xamãs pedem que ela tente quebrar um ovo, que representa os problemas, as angústias e os entraves de sua vida. E é aqui onde acontece um dos momentos mais fortes do filme. A artista está presente – e vulnerável. Ela se doa na tentativa de expurgar as dores pelo fim de um relacionamento. É uma figura forte, que desperta atração e curiosidade. E mais ainda, sabe criar empatia, nos colocando na pele dela, na vontade de buscar força fora da racionalidade para lidar com o que não conseguimos mais carregar. (Isso sem falar no senso de humor que aparece, por exemplo, quando ela sai do roteiro “estou aqui para encontrar a luz” e reclama do gosto de um alho que come cru em nome da saúde)

Marina tem uma vida inteira de entrega à performance. Entre as mais emblemáticas, estão a travessia que ela e o então parceiro Ulay fizeram na Muralha da China, a partir de direções opostas, até se encontrarem para terminar a relação (The Great Wall: Lovers at the Brink). Outra em que Ulay segura um arco e aponta uma flecha para ela, elevando a tensão a um grau absurdo (The Other: Rest Energy). E também a mais famosa, em que ela encara durante mais de 700 horas todas as pessoas que sentam à sua frente no MoMa – Museu de Arte Moderna de Nova York (The Artist Is Present). Foi aí, aliás, que Marina virou pop e viu os questionamentos à força do seu trabalho se alastrarem – o quanto de marketing existe em cada incursão?

A partir do momento em que a artista se coloca nua e entregue na tela, consegue gerar identificação. Também nos faz pensar na coerência de uma vida toda dedicada a olhar para dentro, ao mesmo tempo em que reforça o protagonismo da sua narrativa. Enquanto experimenta diversas formas de lidar com energia nas performances e nos rituais, convida generosamente todos nós a embarcamos na viagem. E nos estimula a manter uma vitalidade de sempre nos investigarmos. Fé ou arte? Fé e arte? Vale qualquer resposta que mexa com a gente.

Mais em > www.thespaceinbetweenfilm.com

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Amores Urbanos, o filme

por   /  17/05/2016  /  18:18

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São Paulo é uma cidade de extremos. Tem quem se apaixone, tem quem se sinta repelido por ela. É um lugar que a gente precisa hackear, tanto pra entender o que fazer e aonde ir, quanto para saber onde colocar as vontades e os afetos. Viver São Paulo é uma eterna construção. É tentativa e frustração, é deslumbre e cansaço, é deslocamento e aconchego.

E fica mais possível, e até fundamental, quando a gente constrói uma nova ideia de família, aquela com quem passamos a sexta-feira à noite fazendo maratona no Netflix, com quem dançamos ao som de “All my friends”, de quem acompanhamos o começo da história de amor em pleno Carnaval. A família do choro e do colo, da euforia e do compartilhamento de cada mínimo aspecto da vida.

Foi essa família de amigos que vi na tela do cinema em “Amores Urbanos”, primeiro longa-metragem da cineasta Vera Egito, que estreia nesta quinta-feira, 19 de maio. O filme retrata a vida de três jovens paulistanos de 30 e poucos, experimentando relacionamentos, festas, decepções, perdas e descobertas. Amigos pra toda hora, vizinhos no mesmo prédio, eles vivem as angústias tão comuns a uma parcela da juventude de hoje em dia, aquela retratada nos seriados “Girls” ou “Broad City”.

Garotos e garotas de classe média, privilegiados, que transitam por uma São Paulo contemporânea, cheia de lugares para se divertir, de trabalhos que parecem dos sonhos, ao menos à primeira vista. A São Paulo da vida com filtro do Instagram, que só dura até a primeira conversa mais sincera, a gente já sabe.

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Na trama, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit), e Micaela (Renata Gaspar) lidam com o fim de um namoro que veio do nada, a relação complicada e quase inexistente com o pai e um namoro lésbico não assumido com uma atriz em ascensão (interpretada pela cantora Ana Cañas), respectivamente. Vivem esses dramas enquanto vão a festas, tentam dar certo em um emprego promissor no mundo da moda, por mais que fazer bolos seja muito mais gostoso. Os amigos estão juntos quase o tempo inteiro, na rua, no celular e principalmente no sofá de casa.

Gosto do filme pelo que ele gera de identificação. É a gente ali. A minha turma, a sua turma – e a prova disso são as risadas da plateia em várias cenas. Os nosso bordões. A nossa necessidade de dar opinião na vida dos outros, quando na nossa própria tantas vezes deixamos de ser críticos. É a gente dizendo umas verdades horríveis pra quem a gente ama, quase rompendo, mas sabendo que a dor amadurece.

A trama do “Amores Urbanos” envolve porque é real e faz poucos julgamentos. Tem hora que você sente raiva de um personagem, pra logo depois entender que aquela limitação dele é totalmente possível em um mundo de gente de verdade. Em outra você pensa: foi assim que aconteceu na minha vida. E foi mesmo. A realidade é maior que a ficção, ou os filmes de nossas vidas são menos inéditos do que desejamos.

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Conversando com a Vera em uma noite de abril em São Paulo, ela contou o quanto dela e dos amigos existe no filme. Às vezes uma situação, em outras os diálogos. Amigos estão na tela, como o cantor Thiago Pethit, que ela dirigiu no clipe “Nightwalker”, a cantora Ana Cañas, que ela filmou em “Urubu rei”, e a estilista Emanuelle Junqueira, que assinou o figurino do programa “Calada noite”, da Sarah Oliveira, que ela dirigiu.

“O que eu queria com esse filme? Tem várias respostas. Tem desde uma coisa muito pessoal, de ‘eu preciso fazer um filme’. O último curta lancei em 2009. Fiz mais de 30 publicidades, videoclipe, dirigi programa de TV, tive uma filha, fiz um monte de coisa, mas não fiz cinema. Aí em algum momento eu falei: eu preciso fazer um filme já. Escrevi o roteiro, fiz leitura com a galera em março (2014), em setembro estava filmando. ‘O que a gente tá fazendo que não tá fazendo um filme?’, perguntei. Isso atingiu a equipe toda. A gente filmou com nada dinheiro. E o fato da gente estar falando da gente mesmo, da nossa turma, das questões amorosas, profissionais, incentivou muito. As pessoas usaram as próprias roupas. Filmamos na minha casa, na festa Javali, no Spot, no Mandíbula. Esse filme é meio uma crônica desses 10 anos de São Paulo, 10 anos de vida independente, adulta”, destrincha.

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Por ser focado em um universo muito específico, esse dos jovens de classe média cheios de oportunidades e ainda assim “perdidos”, o filme pode levantar questionamentos. E a própria Vera pensou: será que é o momento de falar de amor, diante da crise política de representação que vivemos? Ela postou a questão no Facebook e acabou recebendo um feedback tão positivo que optou por lançar o filme sim. “Talvez nossas questões sociais sejam mais urgentes. Mas o que me ressente um pouco é que o retrato da classe média ou tem um julgamento muito mordaz ou uma culpa de classe. O cinema brasileiro se recusa a retratar esse público que paga ingresso.”

Por que então fazer esse filme? Ela deixa a pergunta ainda maior: por que fazer filme? ”Tem milhares de filmes maravilhosos, obras primas que a gente vai passar a existência terrena sem conseguir ver. Quem precisa ver um filme seu? Ninguém. Mas existe uma coisa que é o retrato da contemporaneidade. Ninguém pode parar de escrever, de fazer filme. Porque isso significa parar de falar do tempo presente. E esse tempo tem que ser captado pelo artista para que no futuro se olhe o contexto histórico. Tenho vontade de retratar pessoas que eu nunca vi no cinema. Acho que o filme é uma crônica de geração, um olhar sobre esse microuniverso.”

Nesse microuniverso a realidade é tão possível que a identificação se torna inevitável. E ver um pouquinho da gente (e de nossas alegrias, conflitos, incoerências e vulnerabilidades) na tela do cinema sempre vai ser uma experiência impactante, emocionante – e divertida.

Mais em > Amores Urbanos

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A beleza do inesperado

por   /  25/04/2016  /  8:08

Herbie e Wayne

It’s a lot of fun to negotiate the unexpected

Wayne Shorter

É muito divertido negociar com o inesperado. Com essa frase, o saxofonista Wayne Shorter deu uma resposta à plateia que havia deixado a apresentação que ele fazia com o pianista Herbie Hancock na Sala São Paulo, há algumas semanas. Simplicidade, elegância e uma leve alfinetada em pessoas que pareciam ter ido ali mais porque era uma noite de gala do que pela música em si.

Ouvir duas lendas do jazz ao vivo é um presente – e também um privilégio. Esperar que elas toquem os clássicos pelos quais ficaram consagrados, uma bobagem e talvez uma pista sobre um entendimento esquisito em relação ao estilo musical cuja maior característica é a improvisação.

Lembrei de quando fui ao show de Bob Dylan, alguns anos atrás, e saí de lá incomodada porque demorava em média dois minutos pra reconhecer o que ele cantava. Eu queria o Dylan do “Blonde on blonde”, que virou minha obsessão adolescente, só saciada quando consegui comprar o CD em uma livraria no Rio. Queria cantar junto, me emocionar pelo que tinha vivido ao som dele. Mas não rolou.

Quando soube que o Lou Reed ia fazer um show experimental no Sesc, decidi não ir. Queria o Lou do Velvet, do “Transformer”, e não uma viagem com a qual eu não ia me conectar. Não preciso dizer o quanto me arrependo, né?

Esses três episódios me fizeram pensar em algumas coisas. A primeira é que a gente perde muito quando não se abre para o novo. Dã, frase clichê, obviedade, eu sei. Mas qual foi a última vez que você saiu de casa para ver um show de uma banda que nunca ouviu falar? Nos acostumamos a fazer o que já sabemos fazer, a sair de casa quando sabemos que o programa é garantido. Nos arriscamos pouco – e isso parece tão pouco com a ideia de juventude.

O segundo pensamento me vem quando penso que estamos vivendo o auge da falta de paciência. Um vídeo não carrega imediatamente? Que saco! Não recebo resposta para as mensagens que mandei no Whatsapp, o que será que aconteceu? O cliente pede um relatório às 17h e te liga às 18h cobrando? Normal, agência é assim mesmo. Queremos tudo agora, e isso me lembra uma frase que eu repito há um tempo: a sua urgência não é a minha urgência. E me lembra também um vídeo do Louis CK, em que ele fala como estamos vivendo uma época espetacular, mas ninguém está feliz.

O mundo disputa nossa intenção. A internet, nem se fala. Aliás, se o show tá “ruim” não tem problema sacar o celular com tela gigantesca pra dar uma olhadinha no Face (socorro!). Se não somos atendidos, ficamos agoniados, ou à flor da pele. Se o Herbie Hancock não toca “Rock it” nem o Wayne Shorter alguma que ele tocava com o Miles Davis, não quero ouvir. “Eu não paguei para ouvir esse som cabeçudo”, alguém poderia ter dito, e então saído da sala. Daquela sala linda, uma jóia de São Paulo, um templo em que você ouve exatamente o que os músicos querem que você ouça. Sair sem nem esperar o intervalo entre as músicas.

Que vergonha me deu na hora. Depois ficou só um lamento. A dupla fez um show difícil mesmo, eu demorei pra entrar na vibe sonora que eles propuseram. Quando entrei, foi uma daquelas viagens difíceis e deliciosas, que poucas vezes a gente faz. E ainda fiquei achando fantástico ouvir dois caras com seus 75 e 82 anos apostando até em uma pegada meio eletrônica, que dava vontade de dançar. Pra depois voltar para um fraseado* difícil de classificar. Gente que não parou no tempo, que inova, tenta, se arrisca, surpreende. Discurso que aparece tanto por aí, né? Mas que quando se tem a oportunidade de vê-lo ao vivo e em cores, corre-se o risco de desperdiçar. Ainda bem que eu fiquei até eles voltarem para um ou dois bis.

* Meu entendimento de jazz se limita a gostar e ouvir. Não sei falar dos aspectos técnicos, mas não resisti a usar esse verbo que entreouvi de um cara na platéia que não teve suas expectativas atendidas  🙂

A foto é da Ligia Helena.

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Do seu pai, o livro

por   /  13/04/2016  /  17:17

Do seu pai

Uma vez perguntei ao Pedrinho e à Lua Fonseca se eles não tinham medo de expor a vida na internet – em seus perfis no Instagram e também nos blogs Do Seu Pai e No drama mom, eles falam sobre ser pai e mãe e mostram o dia a dia de João, Irene e Teresa, seus filhos. Eles me deram uma resposta tão autêntica que só pude concordar. Falaram que compartilham porque a cada post se conectam com gente de verdade – e muitos desses contatos são transformadores.

Se vocês olharem os comentários dos perfis , vão perceber rapidamente essa potência. É a internet sendo um lugar especial, de construção, aprendizado, de todo mundo junto compartilhando alegrias e angústias.

Agora o Do Seu Pai está prestes a virar livro. A campanha de crowdfunding está no Catarse, e você pode apoiar com a quantia que quiser. Já garanti o meu! ♡

Mais em > www.catarse.me/doseupai

Abaixo, o convite do Pedrinho.

João, Irene e Teresa:

escrevo como quem engoliu uma brasa e tem no estômago um queimor de medo. A azia desconfortável da incerteza. Não sei se vai dar certo, mas preciso contar-lhes que estou fazendo uma tentativa muito importante, desde que comecei a rascunhar essas cartas aqui para vocês, no blog. Hoje, filhos, começo a pedir a ajuda de gente que vez por outra passa aqui – para ler e ver o que se passa na nossa família – para transformar este blog num livro. Gente que ora aqui, ora ali se reconhece em algum gesto nosso, alguma palavra nossa. O medo de não dar certo está bem aqui, no estômago. Mas nos braços, pernas, cabeça, peito, em todas as outras partes, tenho em mim o que este vídeo aí embaixo foi buscar: coragem. Amor, filhos, é quando o coração da gente bate no peito do outro e, ainda assim, estamos vivos. Para isso, para amar, é preciso coragem. Pois aqui estou: medroso e corajoso. Estou vivo, apesar de sentir meu coração batendo em cada pessoa que pode ajudar a realizar este livro – e sonho.

Do seu pai,
Pedro.

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11 artistas brasileiros para ficar de olho em 2016

por   /  04/04/2016  /  15:00

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Don’t Touch + Glamurama apresentam: 11 artistas brasileiros para ficar de olho em 2016

Quem são os artistas que têm trabalhos impactantes, emocionam, propões reflexões e deixam hoje um legado para a história da arte brasileira? Quais os nomes em que a gente deve ficar de olho? Diante de tantas exposições, museus e galerias, sites, blogs e perfis no Instagram, em que prestar atenção e de quem acompanhar o trabalho? Fiquei com vontade de descobrir isso tudo e convidei dois amigos queridos que são curadores para darem seus palpites.

Ana Maria Maia é curadora de artes visuais e professora de história da arte. Nasceu em Recife em 1984 e vive e trabalha em São Paulo. Foi curadora adjunta do Panorama de Arte Brasileira do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. Recentemente concluiu a pesquisa “Arte veículo”, que vai ser lançada em livro em breve. Diego Matos nasceu em Fortaleza em 1979. É pesquisador, curador e professor nas áreas de artes visuais e arquitetura. Trabalhou com o Vídeo Brasil coordenando o acervo e a pesquisa. Em 2015, fez uma exposição a partir desse material, “Quem nasce para aventura não toma outro rumo”, no Paço das Artes.

Para chegar a um recorte, ambos concordaram em reunir artistas que apostam no risco e na construção de suas histórias. “Tenho visto a volta da intuição como uma ferramenta de trabalho para os artistas, depois de uma geração completamente racional, projetual”, aponta Ana Maria. “Talvez esses artistas tenham nascido no momento em que o sistema brasileiro da arte precisou se organizar mais.” Ela fala que o artista tem que afinar o seu discurso, preparar um portfólio que seja mais eficaz, se colocar no mundo de uma maneira mais assertiva. “O risco e a dúvida têm mais espaço, eles sabem onde querem chegar. Esses artistas podem se colocar no olho do furacão de padrão sexual, de trabalho, política, crises, esgotamento de modelos. E é um ato de coragem absurdo fazer isso em um ambiente completamente instável.”

Dos escolhidos, conheço alguns, outros são novidade. Sou apaixonada pelo trabalho da Barbara Wagner, que conheci em “Brasília Teimosa”, série que retrata os frequentadores de uma praia no Recife, bem ao estilo Martin Parr. Adoro como o Cristiano Lenhardt cria narrativas a partir de elementos que a gente não espera. E, no ano passado, a Virgínia de Medeiros entrou para o time do encantamento depois que vi “Sérgio e Simone”, um vídeo em que ela nos apresenta à travesti Simone, que também é o pregador Sérgio.

Conheçam abaixo os 11 artistas!

Mosaico

01. Clara Ianni

Nasceu em São Paulo em 1987

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Vermelho

claraianni.com

Clara Ianni  Beto Riginik for Artsy.

A artista explora de forma incisiva e rigorosa elementos que dizem respeito ao projeto de modernidade brasileiro que foi interrompido com o advento do regime militar. Para além, ela está sempre atenta às consequências desse regime de exceção que durou mais de 20 anos. Dessa forma, não por meio da simples denúncia, Clara evidencia ironicamente histórias e acontecimentos que não tiveram a devida atenção na história recente do país. Tem também investigado a ambiguidade do espaço moderno e arquitetônico brasileiro que teve seu apogeu nas décadas de 1950/1960. Como resultado formal, nos apresenta elegantemente desenhos, gravuras, fotografias ou vídeos que ilustram esse pensamento. Importante lembrar de seu trabalho em parceria com Débora Maria da Silva, um vídeo intitulado “Apelo”, apresentado na 31ª Bienal de São Paulo que retrata a violência promovida pelas forças coercitivas oficiais. (Diego Matos)

02. Cristiano Lenhardt

Nasceu em Itaara (RS) em 1975

Vive e trabalha em Recife

É representado pela Galeria Fortes Villaça

cristianolenhardt.com.br

cristiano foto por barbara wagner

Vejo no Cristiano um artista capaz de lidar amplamente com as armadilhas que o circuito da arte te impõe, justamente desconstruíndo e celebrando valores e intenções que sempre procuramos esconder. Por meio de uma observação aguda do meio urbano brasileiro, por vezes europeizado, por vezes rural, jeca ou cafona, reúne elementos para a construção de uma imagem potente em que as gambiarras ganham vez e a plasticidade das coisas banais ou ordinárias ganham protagonismo e são reconhecidos como entidades da beleza. Basta lembrarmos sua última exposição no Galpão Fortes Vilaça ou no vídeo “Superquadra Saci”, apresentado no 19º Festival de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil. (Diego Matos)

Cristiano Lenhardt - Litomorfose

03. Vitor Cesar

Nasceu em Fortaleza em 1978

Vive e trabalha em São Paulo

vitorcesar.org

VC

Vitor tem como trunfo a capacidade de sintetizar em sua condição de artista as suas reflexões acadêmicas e a sua produção prática como designer, transformando-as em ações artísticas que podem deflagrar ou estimular reflexões acerca do espaço público, bem como formalizar posicionamentos políticos por meio de instrumentos gráficos de rara qualidade plástica. Nos últimos 15 anos, o artista tem conseguido sobreviver ao circuito comercial das artes justamente por meio de uma reflexão que elucida às razões do espaço público ou privado, demonstrando de forma transparente as relações de poder que esses espaços definem. Não foi à toa que no 33º Panorama da Arte Brasileira, ele realizou uma das instalações de maior impacto nos espaços do Museu de Arte Moderna de São Paulo. (Diego Matos)

Vitor Cesar - Real Vitor Cesar new_sempre-algo-entre-nos-02

04. Martha Araújo

Nasceu em Maceió em 1943

Vive e trabalha em Maceió

É representada pela Galeria Jaqueline Martins

Martha Araujo

Martha Araújo pertence à geração 1970 e, mesmo estando em Maceió, de certa forma isolada de um debate que se vinha tendo sobre arte experimental nos centros do Brasil, fez interessantes proposições participativas. Suas instalações, sempre um misto de ambientes arquitetados com roupas e objetos para se vestir, situam a participação e o convívio sociais no meio termo entre algo simultaneamente lúdico e prazeroso, e, por outro lado, desafiador, conflituoso, até opressor em alguns casos. A obra dela ensina que é preciso negociar. Em tempos de revisão das narrativas da história da arte brasileira, o nome de Martha e de tantos outros artistas deve ser observado com toda a atenção. Os motivos para essas omissões podem corresponder a limitações geográficas (artistas em zonas periféricas do circuito), de gênero (ainda hoje grandes exposicões costumam ter mais homens do que mulheres representados, quem dirá nos anos 1970…), linguagem (poéticas experimentais requerem um esforço maior de documentação, além de desafiarem uma crítica apegada a convenções) etc. O fato é que as limitações existem e cabe a nós, hoje em dia, dedicarmos um esforço significativo para revisitar essas histórias consolidadas e identificar falhas/faltas graves, muito mais do que simplesmente ir em frente numa marcha de prospecção desenfreada e irresponsável de novos artistas. Apesar de estar produzindo há mais de 40 anos, Martha Araújo seria ainda uma “novidade” para grande parte da crítica e da história da arte. (Ana Maria Maia)

Martha Araujo

05. Daniel Santiago

Nasceu em Garanhuns (PE) em 1939

Mora em Recife

DanielSantiago-int

Daniel, assim como Martha, fez uma carreira de vanguarda estando nas margens do circuito de arte brasileiro. Trabalha desde os anos 1960 no Recife e, à revelia de uma ausência de museus, mercado e público locais para práticas experimentais, desenvolveu um trabalho em linguagens como poesia visual, arte-classificada, arte-postal, art-door, intervenção urbana, performance e artes gráficas. Foi dupla de Paulo Bruscky na Equipe Bruscky & Santiago, de 1970 a 1990, aproximadamente. A química entre os dois era muito poderosa: Daniel é hábil com as palavras, tem aguçado senso poético além de uma formação de designer gráfico. Paulo traz a ironia e o senso estratégico de quem reconhece e lida muito bem com os circuitos (artísticos, políticos, sociais…) e suas regras do jogo. O convívio foi intenso e os projetos sempre imateriais, deixando muitas vezes apenas projetos e registros. Paulo fez um grande arquivo com essa memória e desde 2008, quando Cristina Freire fez sua retrospectiva no MAC-USP, seu trabalho individual foi consagrado junto a essa história. Daniel não guardou nada nem tem especial destreza com esse trânsito profissional. Talvez por isso tenha demorado um pouco mais para ser reconhecido e estudado. Ainda bem que isso hoje já está acontecendo. Um marco foi a mostra que Cristiana Tejo e Zanna Gilbert fizeram de sua obra no Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães). (Ana Maria Maia)

06. Virginia de Medeiros

Nasceu em Feira de Santana (BA) em 1973

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Nara Roesler

virginiademedeiros.com.br

Virginia de Medeiros - http-::residencyunlimited.org:programs:sergio-simone-a-film-by-virginia-de-medeiros:

O trabalho da Virginia de Medeiros é muito importante, principalmente pelo modo como ela encara situações de alteridade. Ela mergulha em uma relação com figuras cujo universo ela desconhece. É preciso tatear muito pra criar esse elo de confiaça com as travestis, com a turma do sadomasoquismo, com os catadores de lixo. Ela tem coragem de entrar nesses temas-tabu, assumir isso como um estilo de vida. Eu soube que ela está aplicando hormônimo masculino no corpo, como parte do mergulho nessa pesquisa. Ela não sabe o que se isso vai ser, se o que está acontecendo no corpo vai virar parte de um trabalho, mas é um jeito dela viver com verdade. (Ana Maria Maia)

Por outro lado ela também tem elementos que me fazem pensar na figura  da artista. Ela é uma mulher extremamente sedutora e bonita, que mexe radicalmente com a sua imagem no momento em que faz uso de hormônios, deixando transfigurar o seu corpo. Ela se torna uma unanimidade: para quem tem interesse em algo programático, ela desenvolve uma pesquisa, um método, mas também tem um lado intuitivo, espontâneo. O trabalho “Sérgio e Simone” ela não sabia o resultado que teria, se seria formalizado em um ou mais filmes. E o resultado é um filme labiríntico, recortado e processual, ora instalativo pra monocanal. (Diego Matos)

Virginia de Medeiros SM Virginia de Medeiros

07. Ana Mazzei

Nasceu em São Paulo em 1980

Vive e trabalha em São Paulo

É representada pela Galeria Jaqueline Martins

anamazzei.net

Ana Mazzei - http-::cultura.estadao.com.br:noticias:geral,ana-mazzei-oferece-olhares-multiplos-a-um-mundo-que-e-palco-de-encenacoes,1171920

É uma artista da mesma geração de outros com Virginia e Cristiano e que demorou muito a ter o trabalho mostrado em exposições geracionais, a entrar em galeria. Ela faz um trabalho em que experimentação de fato tem um papel. A geração anos 1960/1970 gera pra arte um discurso que celebra a experimentação. O que você fizer sem saber no que vai dar, cometendo risco, já seria louvável a priori. Mas é muito fácil encenar isso como uma coreografia, botar numa ordem de controle o próprio experimento. Recentemente fui ao ateliê de Ana e vejo que ela está cercada de coisas que ela não sabe onde vão dar. A experiência de arranjar um espaço, de relacionar isso com o entorno, é sempre uma experiência de descoberta. Depois de alguns anos trabalhando na sombra e agora com visibilidade, você vê que ela está rodeada por um universo de formas desconhecidas que vai fazendo sentido. Muita marcenaria, construção geométrica. Tenho gostado de vê-la em exposição. Gosto dessa sensação, principalmente com aqueles alunos mais resignados, que dizem que arte contemporânea não é pra ninguém, digo insiste, flerta, constrói um caso de amor com aquilo. O amor nem sempre nasce no primeiro olhar, né? Esses trabalhos que desafiam, que não se abrem direto, são os que a gente tem que voltar. (Ana Maria Maia)

Ana Mazzei Pausa-longa1

09. Daniel Lie

Nasceu em 1988, em São Paulo

Vive e trabalha em São Paulo

É representado pela Casa Triângulo

Daniel Lie

Artista muito jovem, que estudou na Unesp e teve seu trabalho impulsionado pela vivência no espaço da Casa do Povo, no Bom Retiro. Daniel investiga materiais perecíveis e seu apodrecimento. Faz instalações em que planta folhagens e frutas tropicais em sacos plásticos e os suspende com cordas para tomar o pé direito dos espaços expositivos e compartilhar seus estágios de desenvolvimento com o público. O artista não sabe muito bem qual será o resultado das experiências que promove, mas insiste justamente nessa zona cega entre a exuberância inicial e tudo o que pode nascer da mesma: manutenção e até retirada da obra do espaço, outras formas de vida, bichos, fungos, cheiros. Em paralelo às instalações, Dani constrói sua imagem também como um trabalho, recorrendo a maquiagens principalmente. Ele tem essa consciência dos jovens sobre a sua imagem e sobre o alcance da sua imagem nas redes sociais. Na era dos selfies, está lá Daniel fazendo uma espécie de transformismo, que não passa pela questão de gênero necessariamente, ele não é travesti, mas sim pela sua construção como personagem, usando maquiagem, cabelos, roupas estranhas. É um universo bem estranho. Ele agora está fazendo um programa de TV, “Podre show”, em que se mostra apodrecendo. (Ana Maria Maia)

Instagram: instagram.com/liedaniel

Daniel Lie 2

9. Ex-Miss Febem [Aleta Valente]

Nasceu no Rio de Janeiro

Vive e trabalha no Rio de Janeiro

instagram.com/ex_miss_febem

Ex Miss Febem

Há vários avatares de Instagram e Facebook que já não dá pra ignorar como construção de imagem. Não sei o que essas figuras vão fazer com isso, não sei o quanto elas próprias ou outras pessoas vão entender e gerar discurso. Tem uma menina que se intitula @exmissfebem, Aleta Valente, que parece que está se aproximando do circuito da arte através desse perfil. É um Instagram incômodo e ao mesmo tempo muito original, muito forte. De uma menina da periferia do Rio de Janeiro, de Bangu, que exerce uma visão feminista das coisas, provoca, é banida e volta, consegue seguidores. Tudo isso como evento de construir uma imagem, uma pauta, lidar com a recepção, a rejeição, participar de um imaginário coletivo. A princípio não sabia das expectativas de Aretha em relação ao circuito de arte. Logo depois vi que participou de eventos do Capacete, a principal residência artística do Rio de Janeiro, e foi mencionada por Lisette Lagnado em uma entrevista à Select. Independente disso, do início ou não de uma carreira e das chancelas que essa carreira pode vir a ter, tenho gostado de acompanhar o modo como o perfil @ex_miss_febem vem encaixando uma voz crítica e provocativa sobre o interesse coletivo no corpo individual e biográfico de uma garota. Resposta condizente com o fenômeno cultural da hiperexposição nas redes sociais. (Ana Maria Maia)

10. Michel Zózimo

Nasceu em Santa Maria (RS) em 1977

Vive e trabalha em Porto Alegre

michelzozimo.com

Michel Zozimo

Artista do Rio Grande do Sul que já teve certa visibilidade, participou de algumas exposições, do Rumos, da Bienal do Mercosul. Tem um trabalho que lida com a ciência, com a ideia do desconhecido dentro da ciência, como ela pode ser mistificada, inacessível e ao mesmo tempo retratar o onírico, o estapafúrdio. Ele está entre esses dois pólos e tenta explorar isso – foi muito influenciado pela ficção científica. Acho o trabalho bem interessante graficamente, seu uso de fotografia, montagem. Em um primeiro olhar você acha que é um trabalho gráfico, em que tudo é milimetrica e obsessivamente pensado. Por trás tem uma outra pesquisa como, por exemplo o garimpo e pesquisa em cadernos de ciência que vendiam em bancas de revista ou que eram de materiais escolares. Ele pega aquilo, faz um novo arranjo, cruza publicações possíveis. Acho o trabalho muito forte. (Diego Matos)

Tem uma coisa no trabalho dele que eu gosto, como quando ele aponta que a ciência tem misticismo. A gente costuma associar a ciência à verdade. Se o cientista diz que a gente tem que comer ovo, a gente come. Se amanhã não tem que comer, a gente não come. No momento em que a ciência vira misticismo, abre-se um campo para a arte virar verdade. Arte que seria o contrário, que a gente acha que é tudo invenção, arbitrariedade. Você fica com os critérios meio balançados quando vê o trabalho. (Ana Maria Maia)

meteoro

11. Barbara Wagner

Nasceu em Brasília em 1980

Vive e trabalha em Recife

barbarawagner.com.br

Barbara Wagner.

É uma das fotografas mais engajadas em mostrar de fato o Brasil contemporâneo: sem amarras contra o popular, sem distinção entre centro e periferia e sem os tabus sociais de gênero. Ao contrário, ela esgarça todas as fronteiras que nos são culturalmente impostas, basta ver sua última série para a revista ZUM do Instituto Moreira Salles. Ela nos revela o poder do corpo e de seu movimento (a expressão da figura humana comum e popular) dentro de determinados contextos sociais e urbanos. Sendo assim o dado comportamental é escancarado pelas imagens divulgadas por Bárbara e nos oferece um mosaico complexo da realidade cultural brasileira. Recorremos, por exemplo, ao livro “Brasília Teimosa” ou mesmo suas pesquisas recentes acerca de danças populares. (Diego Matos)

bw

Barbara Wagner

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