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“A mulher de pés descalços”, de Scholastique Mukasonga

por   /  03/06/2020  /  9:00

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Scholastique Mukasonga perdeu 37 pessoas da família no genocídio em Ruanda, em 1994. É desse lugar devastador que ela parte para escrever “A mulher de pés descalços” (@editoranosbr), um dos livros de sua trilogia do genocídio. Logo nas primeiras páginas a gente sente a porrada que a leitura provoca: “Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E eu estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”
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A autora escreve sobre fome, violência, estupro, guerra, colonização (“Os brancos pretendiam saber melhor do que nós quem éramos e de onde vínhamos.”), deslocamento. Ao mesmo tempo vai fazendo poesia, lembrando de sua própria história, do pãozinho que a transportava para outros mundos, de sua mãe, Stefania, que vivia inventando esconderijos para as filhas escaparem, enquanto cultivava a terra, preparava comida e ainda atuava como uma espécie de guardiã da cultura do povo tutsi, arranjando até casamentos. É para Stefania que a autora escreve, para os tantos outros que perderam a vida de forma tão brutal (estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de pessoas foram mortas em Ruanda). Scholastique escreve pra proteger a memória, porque quando a gente esquece mata a vítima pela segunda vez, como disse em uma entrevista. Forte demais, tô pronta pra ler os outros dois.
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P.S.: Foi ótimo complementar a leitura com uma incursão no @clubetraca, semana passada. Obrigada pelo contexto e pelas trocas, @clarissag e toda turma!
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#bibliotecadonttouch

“Como o cérebro cria”, de Anthony Brandt e David Eagleman

por   /  25/05/2020  /  9:00

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Gosto de ler sobre criatividade porque conhecer histórias de grandes artistas, inventores, cientistas nos mostra que, para além do sucesso, tem muita tentativa e perrengue também. Estamos acostumados a ler sobre o que deu certo, quem chegou lá, reinventou o mundo. Mas, até conseguirem isso, que jornada. “Uma invenção criativa geralmente requer muitos fracassos. Por causa disso, ao longo da história, novas ideias prosperaram em ambientes em que o erro é tolerado”, escrevem o compositor Anthony Brandt e o neurocientista David Eagleman em “Como o cérebro cria: o poder da criatividade humana para transformar o mundo” (@intrinseca). No livro, os autores vão elencando exemplos de inovação, das viagens espaciais aos smartphones. Me espantou o número de vezes que alguns criadores tentaram até chegar ao produto final. Exemplo: James Dyson, o cara que inventou o primeiro aspirador de pó sem saco, fez 5.127 protótipos ao longo de 15 anos. Chocante, né? Quantas vezes a gente desiste na terceira tentativa? O livro fala como inovação é um requisito, quase um imperativo biológico, que nós seres humanos precisamos de novidade porque temos essa capacidade de imaginar futuros possíveis. E também que criatividade é treino. Tem a ver com entortar o que já existe, quebrar, mesclar, beber da fonte do que já foi feito, não permanecer fiel a uma fórmula por muito tempo. “Quando você esgotar todas as possibilidades, lembre-se disto: elas não se esgotaram.” Leitura leve pra gente se inspirar. Vou complementar com o documentário na Netflix baseado nele, alguém já viu?
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#bibliotecadonttouch #diáriodaquarentena #ficaemcasa

A comparação constante das redes sociais

por   /  22/05/2020  /  9:00

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Chega a ser quase impossível manter constantes o gás e a confiança se você passa duas horas navegando aleatoriamente no Instagram, dando uma passadinha em cada uma das 20 lives que estão acontecendo por volta das 19h, olhando IGTVs e dezenas de posts. Parece que tá todo mundo fazendo muita coisa, agora que aprendemos a conviver um pouco com a pandemia (sem deixarmos de nos espantar diariamente com tudo, claro). As redes sociais são plataformas de comparação constante. A gente já sabe disso, mas não é doido que isso nos afete em dias que largamos um pouco o navegar com consciência e passamos minutos aleatórios rolando a tela? Dá para entender porque muita gente ainda resiste em se expressar por aqui. Há um tempo venho falando pra uma amiga que ela devia postar no feed, mostrar o que tá fazendo, criar seu canal de comunicação. Recentemente, ela deu esse passo. Não sem antes duvidar se tinha algo pra falar, se iam gostar, se ela iria conseguir manter frequência. Fico pensando como nos sentiríamos se houvesse aqui um mecanismo diferente, se as redes não operassem com base em volume, frequência e comparação. Ainda não sei dizer como, mas fiquei pensando que se até o Jornal Nacional muda e faz com que o William Bonner quase conduza uma meditação guiada um dia e no outro clame para que ninguém deixe de prestar atenção às vidas perdidas é porque estamos precisando de lembretes na hora de ver informação, né? Entre um post e outro poderíamos ser impactados por mensagens do tipo: “você só está vendo uma parte da história”; “pare de comparar sua vida a de quem você adora stalkear, mesmo que não admire tanto”; “cuida do seu caminho, é isso que importa”; “lembra de respirar”. Eu ia gostar de ter essa experiência, seria muito #ainternetqueagentequer.

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Produtividade na pandemia

por   /  07/05/2020  /  9:00

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É possível produzir com qualidade em meio ao medo? Qual a relação entre a sensação generalizada atual e nossa capacidade criativa? Com essas perguntas a revista @claudiaonline me convidou pra escrever um texto pra edição deste mês. Escrevi sobre como não estava conseguindo ser “produtiva” – e que talvez mais do que ser produtivo a gente tenha que questionar essa urgência de fazer sempre mais. O mundo parou, se não agora, quando a gente vai repensar a forma como estávamos vivendo? A gente que pode fazer isso, claro. Estamos em meio a uma pandemia, e a “oportunidade” que existe nisso é continuarmos vivos e cuidarmos uns dos outros. Falo disso citando Byung-Chul Han e Julia Cameron, autores que me ajudam, respectivamente, a repensar essa aceleração do capitalismo e a nutrir a criatividade diariamente. Convido vocês a lerem. Orgulho de ter um texto meu em uma revista que faz uma capa valorizando profissionais de saúde, viu? Obrigada pelo espaço, @isadercole! ⠀⠀⠀

Aqui o texto completo: https://claudia.abril.com.br/carreira/produtividade-na-pandemia/⠀

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“O amanhã não está à venda”, de Ailton Krenak

por   /  02/05/2020  /  9:00

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Leituras para adiar o fim do mundo: Ailton Krenak em “O amanhã não está à venda”. Curtinho e certeiro, desses que a gente consegue ler mesmo quando a concentração tá baixa, o livro recém-lançado fala sobre como o momento que vivemos requer cuidado e coragem. ⠀⠀⠀⠀
Um trecho que grifaria mil vezes é esse aqui: “Governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa de quem acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. Não podemos pagar o preço que estamos pagando e seguir insistindo nos erros.” ⠀⠀⠀⠀
Sobre “o novo normal”, expressão já tão usada e que particularmente acho nada a ver, ele diz: “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.” Que bom ter a perspectiva de um gigante num momento assim.
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“Vida querida”, de Alice Munro

por   /  25/04/2020  /  9:00

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Obrigada, Alice Munro. Você foi a única que conseguiu fisgar minha atenção e me fazer terminar um livro depois de semanas com concentração em níveis baixíssimos. Sempre achei que se estivesse confinada em casa leria um monte. Mas não contava com o fato de que uma pandemia, entre tantas variáveis, ainda “sequestra” nossas mentes. Mal consigo ver um filme ou um seriado (só tá rolando BBB mesmo). Mas fui aos pouquinhos, de página em página, um capítulo por vez, tentando. Porque me faz bem demais mergulhar em mundos diferentes do meu, ainda mais agora.
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“Vida querida” reúne contos dessa autora canadense que ganhou o Nobel de Literatura em 2013. Ela é capaz de criar histórias que vão nos surpreendendo aos poucos, a partir daquelas viradas na vida que vêm de maneira sutil e transformam tudo, sabe? É tudo tão bem colocado, alguns parágrafos iniciais me fizeram escrever na página: isso aqui é bom demais. Adorei cada história. Como é bom ter a companhia de um livro, né?
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#escrevescreve #bibliotecadonttouch #diáriodaquarentena #ficaemcasa

Bem-vinda ao clube, você sofre de síndrome da impostora

por   /  23/04/2020  /  9:00

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Quem aí já deixou de fazer algo porque achou que não estava pronta? Que nunca tremeu de medo antes de subir em um palco? Quem, aliás, já desejou uma chuva forte pra não conseguir chegar a tempo de uma apresentação? Quem acha que deveria fazer um mestrado antes de sair falando por aí de determinado assunto? Bem-vinda ao clube, você sofre de síndrome da impostora. Um comportamento que acomete em sua maioria mulheres que sempre acabam não se achando o suficiente, mesmo que suas trajetórias de vida digam o contrário. Parece que foi sorte, sabe? E que alguém vai descobrir a “fraude” que nós somos. Quando aprendi sobre isso, um portal se abriu. Primeiro porque o que eu sentia tinha nome. Depois porque eu não estava sozinha. Comecei a estudar o assunto, a escrever sobre ele e, principalmente, a conversar com outras mulheres. Todas tão talentosas e preparadas, e ainda assim tão inseguras como eu. Caminho sem volta. Parece que falar é começo de cura, né?
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Essa semana postei nos stories o link pro podcast @chacomaimpostora, da @terrinha, com produção da @doravantepodcasts. Tive a honra de ser a primeira convidada, e a conversa foi tão boa que achei que merecia o feed também. Até porque as trocas que começaram a surgir da DM reforçam a ideia de que a gente precisa muito falar sobre esse assunto. Vou deixar o link nos stories!
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Pra ilustrar, uma foto que dificilmente eu postaria para além dos stories. Mas é tentativa de deixar de lado essa coisa de ficar sempre em dúvida, né? Selfie com macacão lindo que ganhei da @flaviaaranha_.
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#escrevescreve #síndromedaimpostora

“A quietude é a chave”, de Ryan Holiday

por   /  08/03/2020  /  9:00

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Tem uns livros que caem nas nossas mãos quando precisamos. “A quietude é a chave” (@intrinseca) é um desses. Escrito pelo filósofo Ryan Holiday, tem como mote nos ensinar sobre a habilidade de desacelerar e encontrar um lugar de paz em nós mesmos. Em uma era de distrações, como a gente faz pra se conectar com o que importa? Uma frase de Sêneca resume bem: “Podes estar seguro de que estás em paz contigo mesmo quando nenhum ruído chega a ti, quando nenhuma palavra te arranca de ti, seja ela lisonja ou ameaça, ou meramente um som vazio zumbindo à tua volta com um barulho sem sentido.” Outra do autor também: “Construa uma vida da qual você não precise fugir”.
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Um dos grandes desafios da minha vida é entender o tempo. O que faço com o meu? Como posso viver sem tanta ansiedade? Como posso não encarar a vida como uma eterna lista de tarefas? Ou como posso entender que a lista não tem fim e relaxar? Holiday fala da importância da presença, da limitação de estímulos, de cultivar o silêncio, manter um diário, dormir bem, aprender a lidar com a raiva, escolher estar em um relacionamento, encontrar um hobby, caminhar, aprender a dizer não (para poder dizer sim para o que importa), construir uma rotina que vire ritual, buscar solitude, entre outras coisas. Sempre com base em ensinamentos de nomes como Confúcio, Thich Nhat Hanh, Nietzsche, além de exemplos de figuras, como Churchill, que se beneficiaram desse caminho.
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“Nós não vivemos neste momento. Nós, na realidade, tentamos desesperadamente sair dele – pensando, fazendo, falando, nos preocupando, lembrando, esperando, seja o que for. Pagamos somas enormes para ter em nosso bolso um aparelho que garanta que nunca fiquemos entediados. Inscrevemo-nos em inúmeras atividades e assumimos um sem-fim de obrigações, corremos atrás de dinheiro e realizações, tudo com a crença ingênua de que no fim disso haverá felicidade.” E a gente sabe que não é isso, né? Quando a gente tá feliz é tudo tão mais simples. O que temos basta, a vida flui. Aprender a cultivar esses espaços parece ser a busca de uma vida toda. E esse tipo de leitura dá uma animada na missão. #bibliotecadonttouch

Especial autocuidado, parte 2

por   /  01/12/2018  /  13:13

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Autocuidado vai além de um cabelo bem arrumado, as unhas feitas, terapia toda semana. “É algo rotineiro, que se materializa em um olhar com atenção para o que eu sinto, para a forma como eu vivo, o cuidado em me comunicar com o meu filho, com o externo. Como é que eu falo comigo? Como é que eu olho para mim?”, questiona Manoela Gonçalves (@soul.crioula), ativista e dona do Bistrô Manô, espaço de culinária no Butantã, em SP.
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Para chegar a essa definição, muita coisa aconteceu. Por cinco anos, Manoela manteve o projeto Casa das Crioulas, um espaço de acolhimento para mulheres periféricas. “Virou a chave da minha vida ter acolhido tantas mulheres. Cada dor e cada cura me transformaram na mulher que eu sou hoje”, diz, emocionada. “Entender o que leva uma mulher a agir da forma que age, mulheres que têm discurso machismo, preconceito, a abusada, a que abandonou o filho, a que matou. Mudou completamente o sentido da minha vida trabalhar com as dores das mulheres.”
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Ela achava que lidar diariamente com a dor a deixaria calejada. Estar na linha de frente, no entanto, doeu. “Tinha uma parte minha que tava completamente machucada, se identificava com as dores alheias e não saia desse ciclo de ficar curando ferida. Eu só queria cuidar. Demorou pra eu conseguir espaço pra mim mesma no meio de tanta pressão, carência, dor.” Demorou para ela criar uma linha imaginária em que só entra quem ela permite. “Aí começou um olhar mais amoroso. Sinto que estar em coletivo é muito bom, fortalecedor, mas é muito importante também o resgate da nossa força individual.”
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Hoje ela tem tomado cuidado ao ouvir histórias. “O que me motiva a não desistir é meu filho, é uma força absurda que tenho. Continuo lutando porque eu odeio injustiça, desigualdade, machismo. Mas também acolho e compreendo. O que me motiva é saber que eu tenho força pra inspirar, pra não desistir.”

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@comum.vc é uma plataforma de florescimento para mulheres. Em parceria com o @instamission, estamos fazendo a #jornadadeautocuidado. Já viu?
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Criadora da Comum, @annahaddad vive uma prática constante de #autocuidado. “Consigo às vezes, e às vezes não. Mas sinto que quando compreendemos essa noção mais ampla e profunda de autocuidado, que está estritamente relacionada à autocompaixão, aprendemos que nem sempre vamos conseguir de fato fazer o que entendemos que seria melhor para nós. Às vezes vamos ficar sem tempo, ser engolidas pelo caos, nos deixar sem cuidados básicos, seguir em relações que nos destroem, e precisamos nos acolher nisso também. O que não tem a ver com sermos condescendentes, autoindulgentes, e sim com nos acolhermos nos erros, nas dificuldades, nos nossos limites, ao invés de seguirmos nos culpando e chibatando.”
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O coletivo é fundamental nesse processo. “Faz muito mais sentido quando a gente se desenvolver sem perder a perspectiva do todo: somos mulheres, e nossas questões são muito individuais sim, mas são coletivas, fazem parte de um contexto de opressão sistêmica, que só vai mudar se tivermos consciência dele e nos movimentarmos.”
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Anna ouve histórias de abusos, abortos, relações abusivas, traumas, vícios e compulsões. “O que fica marcado é a resiliência dessas mulheres. A capacidade incrível que nós temos de viver as narrativas mais complicadas e tristes que alguém poderia viver, e conseguir buscar suporte, se abrir e se expor, encontrar caminhos em meio ao caos e atravessar aquela história. É quase heróico.”
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Empatia e compaixão são ingredientes fundamentais para que essas histórias não pesem. “Caroline Bertolino, psicóloga e especialista no tema da autocompaixão, diz muito isso: a medida de compaixão que temos conosco mesmas é a que vamos ter com os outros ao nosso redor. Se cuidamos da gente, provavelmente vamos ter mais energia e equilíbrio interno para cuidar dos outros. Está tudo interligado.”

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Passar a noite em casa lendo um livro, fazer terapia, se exercitar, comer bem, estar rodeada de pessoas que fazem bem, eliminar relações tóxicas e comportamentos nocivos de uma forma racional, por mais difícil que seja, e conseguir sinceridade em todas as relações. São esses os exercícios que @dandarademorais tenta praticar todos os dias. Essa pernambucana é atriz, diretora de cinema e ativista. Na correria, ela busca equilíbrio, pois sabe que, estando bem, consegue ajudar outras mulheres também.

E essas mulheres ela encontra, principalmente, na internet. “Acho que a internet tem um papel muito forte nessa era que estamos vivendo, porque deu voz a muitas pessoas. Essa conexão que a gente faz, todos os dias, por mais rápida que seja, é o que me move. São esses encontros que me estimulam e confirmam que estou defendendo pelos ideais certos. Poder contar com o coletivo é essencial. Tem momentos que realmente preciso de ajuda, digo de alguém pra me dar a mão, conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que está ao meu lado. Na maioria das vezes quando falo sobre saúde mental, as pessoas não sabem o que dizer, mas eu digo e repito que só de estar lá, oferecer o ombro, uma companhia, já é uma forma de cuidado muito boa.”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Encontrar pessoas que a fazem refletir sobre seu lugar privilegiado ajuda na empatia. “Tem uma canção que a gente canta em protestos que é assim: ‘companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sozinha ando bem, mas com você ando melhor’. Se a gente se preocupa e ajuda uma pessoa que está na nossa frente em alguma situação de risco, então eu sinto que estou fazendo minha parte. Acho ótimo que está se pensando mais em #autocuidado, mas acho uma pena ser comercializado, porque a tendência de se mercantilizar é encarecer algo que é tão essencial.”

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Para @indominus.rita#autocuidado é uma tentativa diária, feita em baby steps. Ela ainda derrapa na questão trabalho/dinheiro, se pega trocando o dia pela noite, trabalhando 3 dias sem dormir, se alimentando mal, se envolvendo em assuntos que são gatilhos mentais horríveis. “Mas em compensação me permito ter um final de semana sem trabalho, me permito assistir um filme ou uma série no final de um dia de trabalho, se adoeço me permito o descanso, algo que a uns meses atrás eu jamais faria.”
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Rindo, ela conta que desiste o tempo todo, mas sempre acaba retomando as lutas porque acredita e quer mudança, igualdade, justiça. “Não vou deixar de ser negra, mulher, gorda, bissexual, é inaceitável que me tratem como um ser de segunda categoria, é inaceitável que eu me veja como um ser de segunda categoria. Vou brigar até o fim dos meus dias com as ferramentas que eu tiver para que nem eu nem ninguém seja tratado, visto ou se veja como alguém de segunda categoria.”
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Programadora e desenvolvedora, ela tem blog desde o começo da internet. Também já fez gestão de blogs coletivos, nos quais questões como sexualidade e racismo vinham à tona. Era forte e importante e, ao mesmo tempo, pesado. “O coletivo me fragilizou, precisei passar um tempo só pra poder me entender, me curar. Falamos muito sobre cuidarmos umas das outras, mas se não colocamos isso no foco dos nossos debates, a luta acaba passando por cima da gente, é complicado conseguir olhar pra alguém com gentileza quando a gente precisa embrutecer todo dia.”
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Ela traz uma questão importante, sobre o autocuidado como mercadoria. “Nem sempre é possível pagar pelo autocuidado, pra muitas de nós não é o nem sempre, é não podemos pagar mesmo. Mas a gente não precisa pagar pra tirar um tempo pra gente, pra um olhar mais gentil sobre as nossas necessidades.”
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Pra encerrar, cita Audre Lorde. “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é autopreservação, e isso é um ato político.” #jornadadeautocuidado

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Autocuidado é um termo muito amplo e a noção dele é muito subjetiva, aponta a psicóloga @luizacravo. “Não é porque ela é ampla que é superficial ou deixa de ser importante. É algo que tem que tá permeando a nossa vida sempre. Você tem que se escutar pra entender o que é autocuidado pra você.”
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Um entrave para entender como o #autocuidado pode entrar na vida é que compramos essa ideia de que temos que produzir o tempo inteiro. “Acho super útil você ter um dia no qual desacelera, faz o que gosta, olha pra dentro, pro corpo. Mas para o cidadão médio isso não entra no conceito do que é válido. A maior parte das pessoas que se queixam de cansaço, exaustão, falta de energia e motivação são pessoas que de fato acabam desprendendo muita energia seja no trabalho, no cuidado da família, na pós-graduação, nesses lugares que a sociedade vai apontando onde devemos investir. Você sente que está sugado, e está mesmo. Você tá dando tudo o que você tem. Mas não são as únicas coisas a serem olhadas. Há toda a outra parte da vida, toda a potência que fica esquecida.”
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Talvez por isso tanta gente tenha resistência contra terapia e análise, como se fosse algo que só pessoas malucas ou muito problemáticas precisassem. “É difícil entrar em contato com certos conteúdos, às vezes vai por essa via mesmo, de não acreditar que necessidades afetivas e emocionais, ou até sinais que o próprio corpo dá, são importantes o suficiente para serem cuidados.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terapia e análise são indispensáveis para lidar com caos emocional. “Essa coisa de não tenho grana/não posso fazer terapia não existe. Existem lugares que oferecem de graça, preço simbólico, baseado no que você ganha. Quem quer fazer pode fazer. Um profissional não resolve sua vida por você, ele te ajuda a traduzir coisas que talvez seja difícil você por si só dar nome e compreender.”

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Quando a gente fala de mulheres e #autocuidado, precisamos lembrar do óbvio: somos todas muito diferentes. “Depende de você mora no campo ou na cidade, da sua classe social, da sua idade, da sua escolaridade. Você tem uma série de especificidades que vão dar uma perspectiva do que é autocuidado para você. Eu não diria que tem uma diferença entre mulheres brancas e negras. Acho que as diferenças são muitas, a depender de que lugar específico você ocupa nessa sociedade”, diz Bianca Santana (@biancasantanadelua), socióloga.
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Em comum, talvez, esteja essa percepção de exaustão que parece nos acometer. “Isso é uma cama, mas acho que a principal é a desconexão profunda com quem nós somos”, aponta Bianca. “As nossas dores, feridas, histórias são silenciadas. Parece que é uma vida nas aparências, como se a gente não conseguisse se conectar profundamente nem com a gente nem com as outras pessoas.”
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Falando especialmente sobre o Brasil, ela cita uma violência estruturante de um passado colonial e escravista. “A gente não conseguiu transformar, rever, curar. Isso nos leva para lugares de muita superficialidade. Como se abaixo tivesse um lodo, uma lama profunda, difícil. Então a gente fica ali na superfície, mas gasta muita energia manter aquela lama embaixo.” O momento do Brasil reflete negativamente. “Há uma sensação de insegurança e impotência. Pra mim, especialmente, o assassinato da Marielle Franco foi devastador. Tem uma mensagem muito explícita, de que não é para mulheres negras ocuparem determinados lugares.”
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Uma solução? Cuidar de si antes de tentar cuidar do outro. Lembrando sempre que autocuidado não precisa ser mercadoria. “Lembro da minha avó, uma mulher negra, empregada doméstica, pobre, que todo dia aguava as próprias plantas, conversava, tinha uma relação linda com as ervas, fazia ‘lichás’ pra si, pras pessoas ao redor. Não tinha a ver com mercadoria, dinheiro, e sim com saber ancestral. Acessar nossa memória, compartilhar nossos saberes, acessar algo que pertença a todas as pessoas pode ser anticapitalista.”

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Especial autocuidado, parte 1

por   /  30/11/2018  /  13:13

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Há mais de 6 meses comecei a escrever um especial sobre autocuidado. Estava cansada, insatisfeita com várias coisas. Escrevi um desabafo, comecei a conversar com várias mulheres que admiro e que gostam de pensar sobre o tema. Até hoje não publiquei, apesar de estar quase todo pronto e de várias coisas terem mudado, inclusive a falta de energia, que passou a dividir espaço com alegrias. Não rolou porque teve correria, eleições – e também porque quando uma coisa depende só de mim às vezes ela é a última da lista de tarefas (quem se identifica?). Hoje lançamos a #jornadadeautocuidado no @instamission, em parceria com a @comum.vc. E pensei: agora vai!
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A ideia de falar do tema surgiu depois que li um texto que falava de #autocuidado como estratégia política (vou deixar o link nos stories). O artigo publicado pela revista Sur apontava que várias ativistas que trabalham com direitos humanos enfrentam doenças e não se sentem satisfeitas com o tempo que passam com seus companheiros/companheiras e filhos. E aponta um caminho: “Acreditamos que o autocuidado é uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que não é uma ‘moda’, mas uma estratégia política, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.”
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Gostei desse texto porque ele me deu uma noção expandida sobre o tema. Autocuidado é fazer uma massagem ou tomar um banho à luz de velas? Também. Mas é uma estratégia muito particular de cada um, que deve ser descoberta e aprimorada a partir de necessidades individuais. Cuidando da gente, a gente consegue cuidar do outro. E nos fortalecendo assim, quem sabe a gente não consegue passar melhor por esses tempos turbulentos, né? Afinal é sempre bom lembrar: o pessoal é político. Ao longo dos dias vou publicando aqui as entrevistas que fiz, espero que gostem! Vamos juntos falar desse assunto?
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[A foto ganhei da @divanassar]

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@baldin.debora entendeu que, para se comunicar na internet, é preciso aprender a falar de um outro jeito, para que que cada vez mais pessoas entendam a mensagem. O entendimento vem dos vídeos que ela posta em seu canal no YouTube – e dos outros que publicou quando fazia parte de um canal LGBT. Foi a experiência no canal, aliás, que a levou quase a um esgotamento e a rever suas escolhas e rotina.

“Escutar relatos de mulheres que viveram suas vidas no armário e tiveram que enterrar sua afetividade, podendo ou muitas vezes não, só sair desse lugar muito à frente na vida, foi especialmente difícil. A nossa sexualidade e afetividade são pilares centrais na formação das nossas identidades. Ser uma mulher que ama mulheres é perigoso sim nesse mundo e não vai deixar de ser tão cedo, mas voltar atrás não é uma opção.”

Enquanto dava um tempo do YouTube, Debora continuou se comunicando pelo Instagram. Começou a fazer exercício regularmente, terapia também, buscou apoio no candomblé, que se tornou um pilar em sua vida. Entendeu que só com equilíbrio na própria vida consegue ajudar outras pessoas. “É difícil ser referência quando tá todo mundo perdido, confuso, sem grana, sem seguridade, sem estrutura. Não tô fora desse grupo. É uma sensação de perda de energia mesmo. Mas com o tempo, entendendo que a prioridade tem que ser ajudar essas mulheres a encontrarem instrumentos que as fortaleçam, sejam ideias ou ferramentas, ficou um pouco mais leve.”

Essa conexão com ela mesma a fez voltar para o YouTube com força total durante as eleições – seus vídeos viralizaram. O papel do coletivo ficou ainda mais forte. “Boa parte das demandas que nos afetam, mulheres, não partem de dentro. As angústias que nos afligem, em grande parte, têm origem externa, com o capitalismo sendo um sistema cuja base é a exploração e sendo estruturado pelo patriarcado, racismo e outros pilares. Lidar com elas coletivamente além de tirar um peso dos nossos ombros e ser elemento de identificação, é uma forma de encontrar novas saídas e acolhimento. Mais cabeças pensando sobre as mesmas coisas.”

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A psicóloga da @gabimoura87 perguntou o que a agrada. “Eu travei. Simplesmente não sabia a resposta”, diz a publicitária. “Eu gosto de várias coisas no universo, mas… O que me agrada? O que me faz feliz? Percebi que passo tanto tempo tentando agradar a todo mundo à minha volta, que não sobra tempo pra única pessoa que está comigo 24h por dia: eu mesma.”

No processo de descobrir o que funciona pra ela, Gabi já se deu conta de que #autocuidado não tem a ver com uma recompensa que a gente se dá de vez em quando. Tem mais a ver com o relacionamento que aprendemos a ter conosco, com nosso corpo, nosso espírito, nossa essência. “Aprender limites, novidades e nos compreender enquanto indivíduos em um mundo maluco e massificado.”

Colocar tudo isso em prática é difícil, ela admite. “Você tem que se policiar pra não se sabotar. Eu ainda estou na tentativa. Às vezes, tenho períodos longos de negligência contra mim mesma, e preciso retomar tudo de novo, do zero. Mais uma vez, é um processo, que precisa ser o mais natural possível, e não uma autoimposição. Senão, vira mais uma pressão na vida, e não é o que precisamos.”

Ela fala no plural porque acredita que a abordagem coletiva em relação ao assunto é fundamental. “Além de sermos seres vivendo em sociedade, nossos problemas nascem de questões coletivas: sociais, familiares, de trabalho, de relacionamentos. São as dinâmicas da nossa vida que moldam nosso jeito de viver, e ignorar isso é um erro. Inclusive porque a sociedade anda bem doente, e a cura não virá individualmente. São coisas diferentes, mas que convergem entre si: você enquanto indivíduo, com necessidades, particularidades, medos, fúrias, desejos, alegrias e excitações muito únicas, e você enquanto parte de um todo, um grupo de pessoas, cada uma com seu universo, mas que juntas formam a sociedade.”

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Na rotina de mãe de duas crianças, publicitária e ativista, @carolpatrocinio se desdobra para encontrar tempo para si. “A gente coloca outras coisas ou pessoas como prioridade. Sendo mãe, então, muitas vezes preciso abrir mão de mim pra cuidar deles. Por outro lado aprendi que se eu não tô bem não tem como eles estarem bem, então é uma equação bem simples. Se eu não cuidar de mim eu não cuido de ninguém.”
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Ao arranjar tempo para se cuidar, ela acaba dividindo suas experiências na internet – e vê na partilha coletiva mais um passo para superarmos fragilidades e obstáculos que colocamos pra nós mesmas. “Olhar pra outras mulheres, aprender com elas, ver como elas lidam com as coisas, tudo isso influencia bastante na maneira como a gente é e como enxergamos as coisas. Estar cercada de outras mulheres, dividir as coisas, compartilhar o que a gente sente faz toda diferença. O primeiro passo do #autocuidado é lembrar que você não tá louca.” Em seu trabalho de militância o acolhimento fica ainda mais palpável. Ele ganha corpo com o Clube do Livro que ela toca na @casa1, centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa. “É um lugar que a gente vai pra ler, discutir e se basear em feminismo, mas a gente tem esse momento de troca, de contar uma pra outra como o livro bateu pra gente, o que fez sentir, lembrar, ali a gente vai compartilhando vivências.”
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“O que me faz não desistir é saber que todos esses esforços, cada texto, conversa, encontro tá realmente transformando a vida de outras mulheres. Cada vez que uma mulher me conta que saiu de um relacionamento ruim, começou a olhar pra ela de outro jeito, que resolveu se cuidar mais, entendeu que não é emagrecer, entrar num padrão de beleza, tudo isso me faz continuar, tomar fôlego, apesar de saber que sempre vai ter gente criticando, falando que não é suficiente. E tudo bem. A gente segue em frente, ignora essas pessoas e ouve as vozes que valem a pena.”

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Sendo mulher e negra, @joanagmendes não descansa. “Como o racismo é um luto que nunca cicatriza, a consequência é que eu nunca estou tranquila emocionalmente, pois cada história pode ser um gatilho para algo que eu achei ter esquecido”, diz a publicitária. “A consequência pode vir em ansiedade, dificuldade para me concentrar, afastamento emocional das pessoas ao meu redor e cansaço constantes, além de levar para casa problemas que não são particularmente meus.”

Joana criou com mais três amigos a @idanimoconsultoria, uma consultoria negra, feminista e LGBT que atende o público em geral e as agências. Agências onde, inclusive, é difícil encontrar pessoas negras. Reflexo do racismo estrutural que o Brasil vive e nem sempre admite. “Em uma palestra na Campus Party, uma menina falou que ela não alisava o cabelo neste trabalho, mas talvez não pudesse deixar de alisar em um próximo trabalho, e eu vi que essa é uma realidade que não me aflige, mas aflige muitas mulheres negras que são submetidas a padrões de beleza que machucam física e psicologicamente para estar inseridas de dentro de um mercado de trabalho opressor e racista.”

O que não a faz desistir? “Eu sou uma mulher negra, nortista e LGBT, se eu parar de lutar, penso que estou desistindo de estar ao lado do meu povo e de pessoas parecidas comigo. Além disso, estou em lugar de privilégio, por ser classe média, então, eu enxergo esse privilégio uma chance para falar e dar voz a mulheres que não falariam.” E ainda acrescenta que acolher nossas fragilidades individual e coletivamente é fundamental na construção de uma sociedade acolhedora e mais justa.

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