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Por uma vida mais off-line

por   /  21/11/2013  /  16:30

David Baker checa email duas vezes por dia, acha extremamente rude manter uma conversa com alguém que não tira os olhos do celular e só conseguiu usar o Facebook por um mês (e odiou a experiência). O comportamento frugal em relação à tecnologia vem da experiência que ele tem na área: há mais de três décadas ele pensa, escreve, faz consultorias e dá aulas sobre o assunto. Por anos foi editor-chefe da versão inglesa da revista Wired, a bíblia da tecnologia, e hoje é professor na The School of Life, a escola criada por Alain de Botton e Roman Kznaric (“Escola da vida” criada em Londres planeja versão brasileira + Como encontrar o trabalho da sua vida)

Nos anos 1980, Baker deixou o emprego em um escritório de relações públicas e teve que aprender duas coisas: como ganhar dinheiro sendo seu próprio empregador e como lidar com o tempo para tirar o melhor proveito dele. “Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais que o necessário”, disse ele ao Don’t Touch.

Em uma época em que o lema era “work hard, play hard”, Baker decidiu não ser um yuppie. “Tomei uma decisão de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita.”

Viver com menos talvez tenha sido o primeiro passo para que Baker começasse a entender que esse comportamento também poderia ser levado para o mundo digital, que funciona em uma velocidade e com um volume de dados impossíveis de acompanhar. “Precisamos reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usar toda a tecnologia disponível pra viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usar a tecnologia como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos”, diz ele.

Conversei com o David na última terça-feira, ao fim do intensivo que ele deu na versão brasileira da The School of Life, em São Paulo. No próximo sábado, às 11h, ele fala sobre “Tecnologia e Humanidade” no sermão da escola, que acontece no Teatro Augusta. Ainda há ingressos, aproveitem > http://www.theschooloflife.com/shop/david-baker-sobre/

O papo foi daqueles demorados e deliciosos, em que a gente vai ouvindo cada frase com total atenção (e com o celular no modo avião, por favor!), aprendendo com a experiência de quem se dedica ao assunto há muito tempo e pegando dicas para incorporar na vida atitudes que levam a um comportamento digital mais saudável.

Espero que vocês gostem! ♥

- Tem um livro que eu gosto que fala que nós esperamos mais da tecnologia do que uns dos outros. O que você acha disso?

Meu tema para este ano, porque eu trabalho para a Wired e porque ensino na School of Life, é tentar investigar o que acontece quando seres humanos e tecnologia colidem. A tecnologia está se tornando cada vez melhor mais rapidamente e isso não vai parar. E isso nos traz problemas. O primeiro é que nós temos expectativas diante da tecnologia que são despropositadas, temos a ilusão de que a tecnologia vai resolver todos os nossos problemas. E não é verdade. Existe um “solucionismo”. Tenho um problema e penso que vai existir uma tecnologia para resolvê-lo. E não é o caso. Tecnologia é ferramenta. O que nós precisamos é reconfigurar nossa relação com a tecnologia. Em vez de usá-la para viver nossas vidas, nós temos que viver as nossas vidas e usá-la como ferramentas extras para isso. Se nós não fizermos isso, nos tornaremos escravos. Isso aconteceu na Revolução Industrial. Quando as indústrias de fábricas cresceram, as vidas de várias pessoas ficaram piores, mesmo com muita gente pensando que aquilo era sinônimo de progresso. Começamos a descobrir coisas como poluição, o som constante das máquinas. Aí mudamos essa relação. A nossa relação com a tecnologia hoje ainda é adolescente e agora estamos começando a nos tornar adultos.

- Por que você acha que nós estamos tão viciados em likes e comentários?

Por duas razões. É realmente excitante quando as pessoas dão like em alguma coisa que nós postamos. É como ser um ator em um filme, é como se fôssemos famosos. Tem uma platéia ali, de maioria de pessoas desconhecidas. “Estranhos gostam do que eu digo? Que bom!”. E nós podemos ter números. Conheço pessoas no Twitter que entram em competições para ver quem tem mais seguidores. Existe uma idéia de que podemos ser melhores por causa dos números. E o que ferramentas como Twitter e Instagram fazem é o que os psicólogos chamam de reforço intermitente. É como um jogo de azar. Vencer é o like, que vem de maneira randômica. Continuo jogando roleta porque a próxima rodada pode me fazer ganhar. Continuo postando pra ver se vem um prêmio. Pessoas que não podem deixar seus telefones de lado têm um problema psicológico.

- Há estudos que dizem que esse vício é químico também. Quando checamos email e tem uma mensagem nova, o cérebro libera dopamina. Ficamos animados e queremos de novo.

Nós temos que entender onde está a dopamina em outras áreas da nossa vida. Não é certo sentir prazer em checar email. É ridículo. Email é uma coisa prática para comunicação. Nós precisamos pensar: por que estou procurando meu prazer aqui, se poderia fazer isso de uma maneira que me preenchesse mais? Eu checo emails duas vezes por dia, geralmente. E minha vida é ok, não é um desastre. No resto do tempo eu espero encontrar prazer em outros lugares.

- E como você chegou a essa dinâmica de checar email duas vezes por dia?

Quando me tornei o editor-chefe da Wired em Londres, comecei a receber centenas de emails. Eu passava o dia lendo emails, e os projetos que eu precisava fazer, como criar uma edição digital, não iam pra frente, pois eu não tinha tempo. Daí decidi reduzir essa exposição. Sou velho o suficiente para lembrar que a comunicação era feita por correios. Quando comecei a trabalhar, a comunicação vinha duas vezes por dia. Recebíamos alguma coisa, pensávamos na resposta, escrevíamos, enviávamos. E o trabalho funcionava do mesmo jeito. Decidi checar email às 11h, depois às 16h. Também desliguei o voicemail do meu telefone, para que as pessoas não pudessem deixar mensagens. Desliguei as notificações do Outlook. Isso mudou a minha vida completamente.

- Queria conseguir fazer isso.

O que falamos aqui na School of Life é de ir experimentando. Tente por um dia, veja o que acontece. Depois por dois e assim por diante.

- Estamos sempre conectados, mas frequentemente nos sentimos sozinhos. Isso é um paradoxo ou é um sentimento que está se tornando real para cada vez mais pessoas? Qual é a importância de saber ficar sozinho?

É irônico, né? Quanto mais conectados, mais nos sentimos sozinhos. O que acontece é a Fomo (fear of missing out), o medo de perder as coisas é um sentimento muito profundo, principalmente para quem vive em grandes cidades. O que acontece é que na internet vivemos em “megalópolis”. Não consigo lembrar quantos membros o Facebook tem, mas vivemos numa população de bilhões. O que a internet promete é conexão e compartilhamento, mas o que entrega é mais uma sensação do que estamos perdendo. Nós pensávamos que a internet iria aumentar a diversidade, mas, em vez disso, as pessoas tendem a se comunicar com quem já conhecem, a criar pequenos grupos. E também não existe fronteira de tempo. Preciso estar conectado. A idéia de estar sempre conectado é ainda mais jovem que a internet, veio com a conexão banda larga. Nós olhamos como um direito que sempre existiu, mas em 1990, 1992, você tinha que ligar para um número, se conectar na internet, fazer seus negócios, se desconectar. Tínhamos uma atitude diferente: vou me conectar, falar com as pessoas, me desconectar. Mas o “always on” nos dá a ilusão de que temos que estar conectados o tempo todo, o que é um problema, porque, quando a conexão cai, a gente enlouquece.

- E qual é a importância de saber ficar sozinho?

Nós geralmente estamos sozinhos e é importante que a gente entenda que isso vem com coisas boas e ruins. No Brasil a palavra é uma só: solidão. Na Inglaterra, temos duas: loneliness e solitude. A primeira é ruim, a segunda é boa. Uma investigação que podemos fazer é como tornamos o sentimento de nos sentirmos solitários em solidão. Ficar sozinho não precisa ser uma coisa ruim. Porque a internet é baseada em conexão, quanto menos você tem parece que é pior. Mas esses momentos quando estamos sozinhos de uma maneira boa são momentos de pensamentos profundos que podem nos levar a descobertas maravilhosas sobre o que somos capazes de fazer. E pra mim estamos aqui na Terra para descobrir o potencial dentro da gente e crescer e aproveitar para fazer as coisas nas quais somos bons, que nos deixam animados e felizes. Algumas vezes a gente precisa ficar sozinho para descobrir isso. E o que acontece com a internet é que ela está sempre lá, nos chamando.

- Tem um outro livro, “The Information Diet”, que diz que nós estamos ficando obesos não apenas nos nossos corpos, mas em nossos cérebros, devido ao lixo de informação que consumimos. O que você acha disso?

Informação hoje na internet tem que gritar para ser ouvida. Acho que a quantidade de dados que trafega na internet em um mês é de 40 exabyte.

- Eu nem sei o que é um exabyte.

Exatamente. O interessante é que 5 exabytes é número total de palavras ditas pelos seres humanos em toda a história. Oito vezes isso circula na internet todo mês. É astronômico. Para ser ouvido, as coisas precisam gritar. Não é diferente do mundo, onde tem milhões de pessoas que nunca vamos conhecer. O cérebro funciona como uma banda larga doméstica. Não temos como lidar com todos esses dados. Popularizam-se coisas como vídeos de gatos, que são brilhantes. Parece que tudo é muito efêmero. Como eu cultivo solidão na minha vida? A internet é incapaz de responder isso. A velocidade da internet nos desencoraja a pensar mais lentamente. Agora o relógio nos faz pensar em resultados instantâneos. O Google nos dá resultados em frações de segundos. Nós somos encorajados a consumir os dados ruins, mas também a não pausar e resistir e ir procurar outro tipo.

- Me parece que estamos preguiçosos, vivemos numa época em que parece que tudo é o Buzzfeed. Amo o Buzzfeed, mas ninguém lê um texto grande na internet.

Quando lançamos a Wired em Londres, uma publicação impressa, decidimos escrever textos longos, com 4 mil palavras. Eu achava que não ia dar certo, mas se tornou muito popular. A gente queria que as pessoas parassem por 20, 30 minutos e contemplassem, aprendessem alguma coisa. A velocidade também nos deixa preguiçosos para a especulação. Conhecimento vem da especulação, da conversa. Se eu falo pra você que o Azerbaijão é maior que o Cazaquistão, e você diz que não, temos uma conversa. Hoje vamos ao Google e resolvemos a questão muito rapidamente. Paramos de trocar as informações que tínhamos. Podemos até não chegar na resposta, mas na jornada para a resposta, aumentamos nosso conhecimento. Com o Google a gente tem a resposta, mas vamos esquecer no outro dia ou não vamos ter aumentado nosso conhecimento. Sinto falta disso. Quero ser um evangelista da especulação. Quero que as pessoas deixem o Google de lado e investiguem o que têm em suas cabeças.

- Como nós podemos tirar o máximo da internet, de uma boa maneira? Quais são os sites que você costuma checar diariamente?

Não tem nada que eu veja todo dia. O Google eu uso todo dia. Adoro todas as ferramentas deles. Fico muito feliz em dar todos os meus dados para eles em troca dessas ferramentas gratuitas. GDocs, Gmail são coisas incríveis. Eles me ajudaram a pensar melhor, a me organizar, a lidar com colegas. Obrigada, Google! Além disso, amo o Gawker, leio por entretenimento. Amo a Wikipédia, acredito muito nela. O que tento fazer é usar a internet sem usar a internet. Gosto de tirar tempo fora dela, me desconectar. De repente tenho esse tempo incrível em que leio um livro ou uso um pedaço de papel e lápis para colocar meus pensamentos. São sempre tempos melhores.

- Você está no Facebook?

Não. Eu tentei por um mês e detestei. Em princípio não tenho nada contra. Mas velhas informações ficavam aparecendo pra mim, demandando minha atenção. Tenho muitos amigos que eu vejo no mundo real e essas conexões com eles, falando no telefone, indo na casa ou recebendo na minha, são conexões melhores. Eu fazia log in e ficava aterrorizado. Preferi me desconectar, ir pra fora, investigar algo nos meus termos. A ironia é que não fechei minha conta, um pouco tempo depois tive que escrever para um site que estava em beta e eu precisava logar pelo Facebook. Fiz uma página e hoje tenho 0 amigos. Eu sou o loser do Facebook e sou muito feliz com isso.

- Será que temos que criar momentos específicos para usar a internet? Está em tempo de seguirmos uma etiqueta virtual?

Eu odeio quando as pessoas estão olhando para o telefone enquanto estão tendo uma conversa comigo. Eu realmente odeio isso. Parece não apenas rude, mas também meio idiota. Acho que uma das coisas mais bonitas que você pode fazer na vida é dar sua atenção completa a um ser humano, é um ato de amor. E é o que faz a conversa cara a cara tão melhor do que a pelo Skype. Quando estamos na presença de outra pessoa, podemos dar toda a nossa atenção a ela, e eles nos dão de volta. E nós chegamos a um lugar tão mais profundo, que nos preenche, do que quando temos conversas no mundo digital. O que prejudica isso é quando as pessoas são distraídas pelos seus telefones. Um amigo meu lançou uma acampanha em Tel Aviv para deixar os telefones virados pra baixo. Isso está começando a ficar popular por lá. É muito legal pensar: onde está meu telefone agora? O meu está no bolso. E prefiro que as pessoas deixem no bolso ou virado pra baixo, no silencioso. Se não a mensagem fica apitando e você vê os olhos da pessoa procurando. É rude. Sei que pareço um homem velho, mas acho que é rude pra todo mundo, inclusive para um menino de 14 anos. Quando estamos com outra pessoa essa é a pessoa mais importante, não as que estão online.

- Como você organiza sua rotina para dar conta de fazer tudo?

Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais. É o sistema. Nós pagamos as pessoas por hora, dia, mês. Elas não são encorajadas a trabalhar com rapidez, mas sim devagar. Eu trabalho pra mim. Se alguém me pede pra fazer uma coisa, é uma vantagem se eu fizer rapidamente. Quanto mais espaço você tem na sua vida, mais coisas boas acontecem. Eu tomei uma decisão há alguns anos de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita. Como resultado, quando trabalho, faço isso de maneira esperta e satisfatória para mim e para as outras pessoas.

Em casa, meu ritmo. Descobri recentemente que gosto de acodar cedo. Vou para cama às 22h30, acordo às 7h. Sou inglês, preparo um chá, levo meu laptop pra cama, passo umas duas horas, faço o primeiro turno de emails. Escrevo alguma coisa. Está tudo calmo lá fora, não tem ninguém por perto. Como resultado, a maioria das coisas que preciso fazer estão acabadas às 9h. Gosto de, todo dia, estar em um lugar analógico. Gosto de nadar em água fria num lugar aberto. Pego minha bicicleta. Tem água, floresta, pássaros, é o oposto da internet, é analógico. E gosto de passar tempo nesse mundo. Quando volto, faço o segundo turno de emails e o dia chega ao fim. Em escritórios nós perdemos tempo. Não precisamos ser escravos. Especialmente pessoas que todos os dias ficam até tarde no trabalho. Eu não acredito que elas tenham tanto para fazer todos os dias.

- Quem são suas inspirações?

Eu me inspirei em mim mesmo. Trabalhei para duas empresas de relações públicas em Londres, nos anos 1980, numa época yuppie, de “work hard, play hard”. Saí da empresa, tive que entender como funcionava a vida de alguém que se emprega. E me dei conta de que o meu tempo era muito importante. Fiz um trabalho com uma consultoria sobre gerenciamento de tempo. Comecei a pensar em qual é o ponto de estarmos no mundo. E sempre fui atraído por pessoas que vivem de um jeito mais simples, que têm um propósito. Mais do que as pessoas que ostentam. Por necessidade, sem dinheiro, entendi que precisava fazer alguma coisa boa com o meu tempo. E depois se mostrou um valor viver assim. Sou religioso, judeu, tem um profeta que diz: você pergunta o que é ser bom. E eu digo: você deve procurar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o seu Deus. Gosto de andar humildemente.

- Você tem um mantra de vida?

Nunca deixe de ser curioso. Existem coisas maravilhosas lá fora prontas para serem descobertas.

Créditos das imagens: 1) The School of Life; 2) do Pinterest; 3) Julien Mauve; 4) Daniela Arrais; 5) Tim Barber.

Agradecimentos especiais a Cris Naumovs, Carol Almeida, Júlia Veras, Raquel Ferraz e Luiza Voll! ♥

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Lulina cheia de Pantim

por   /  20/11/2013  /  11:13

Poderia dizer que conheço Lulina de outros carnavais de Olinda, mas nem é. A gente se conheceu pela internet, compartilhando um amor louco pelo Belle and Sebastian e muitos emails gigantes, daqueles em que a gente conta a vida toda, quase todo dia.

Nos vimos em Recife quando eu ainda morava lá e ela dava umas passadas, vinda de São Paulo. Eu ouvia os discos que ela fazia em casa (e desde então amo várias de suas músicas, principalmente “Do You Remember Laura?” e “Meu Príncipe”), ia em muitos de seus shows. Fazíamos piqueniques e previsões de como seria o próximo ano – e como eu queria encontrar os caderninhos onde a gente anotava dos mais simples aos mais ousados desejos!

Lulina lança agora seu segundo disco gravado em estúdio, o “Pantim”. O show acontece nesta sexta (22/11), às 21h30, no Sesc Belenzinho. Aproveitei pra conversar com ela, fazendo umas perguntas bem atemporais e outras mais focadas na carreira e no novo disco.

Espero que vocês gostem da conversa! ♥

- Qual é a música que mudou a sua vida?

Não diria uma música, mas uma banda. Velvet Underground. Muitas músicas de Lou Reed fizeram a diferença na minha vida.

- E qual música sua você ouve e entende como algo poderoso, que vai mudar a vida de alguém?

É muito difícil acertar que música teria esse poder, pois nem todo mundo consegue ser tocado pelas mesmas palavras e melodias. Acho que só quem pode responder a essa pergunta é quem está na platéia. Do disco novo, muitas pessoas comentaram comigo sobre duas canções que as tinham tocado profundamente: “Prometeu sem cadeado” e “Areia”.

- Conta um pouco sobre sua trajetória? Quando você se descobriu artista, quando começou, quando tocou pela primeira vez, como começou a ser reconhecida?

Não tenho uma formação musical tradicional, comecei a compor oficialmente aos 15 anos (apesar de já gostar de criar músicas desde uns 9 anos) e tive como professor na adolescência Raul Seixas, através das revistinhas de cifras que eu comprava em Olinda. Comecei a gravar discos em casa em 2001 e nos anos seguintes, a fazer shows com uma banda formada por amigos, em Recife. Ao me mudar para São Paulo, recebi o convite da Yb para gravar meu primeiro disco oficial, depois que ouviram os discos caseiros que eu costumava gravar antes. Nessa época, eu já fazia bastante show no circuito indie de São Paulo. “Cristalina” (2009, Yb) é ao mesmo tempo o meu primeiro disco oficial e também um “the best of” dos 6 discos caseiros gravados anteriormente. O disco foi muito bem recebido por crítica e público, e comecei a fazer shows maiores e a me dedicar cada vez mais à carreira artística. Agora estou lançando o “Pantim”, meu segundo disco pela gravadora Yb, ao mesmo tempo meu 12˚ disco, se eu contar com as produções caseiras, e ao mesmo tempo meu primeiro disco realmente novo (já que o “Cristalina” era uma compilação).É tudo meio fora do padrão mesmo, seguindo o flow da vida e do que dá vontade de compor e lançar.

- Como você define a sua música?

Não sei. Esses dias ouvi um cara definir como “ressaca em dia de sol”. Acho que é isso mesmo. Por sinal, ressaca é um dos momentos mais criativos para mim – fico mais sensível e, se deixar, componho um disco inteiro em um dia de ressaca.

- O que inspira você a criar? O que você quer dizer com o que faz?

Acontecimentos da vida e também a morte me inspiram a criar. A música acaba sendo um diálogo que mantenho comigo mesma e que divido com quem mais se interessar pelo assunto. Não tenho nenhuma intenção específica ao fazer música, apenas é uma atividade que amo, que é tão natural quanto falar, e que me deixa feliz muito mais pelo fazer em si do que pelo resultado que dá. Mas gosto de torcer para que a música que eu faço seja ao menos uma boa companhia, quem sabe um bom amigo, para quem ouve.

- Você cresceu sendo influenciada pelo que? E quais são suas principais referências hoje?

Cresci influenciada por Super Nintendo, Playmobis, revista Mad – foi musicando um texto da revista Mad que compus uma das minhas primeiras canções, por volta dos 10 anos de idade -, literatura russa, festas da família regadas à cerveja, arrumadinho e cozido, Rita Lee e Elton John na vitrola da minha mãe em Olinda, Nirvana e NBA na adolescência, Velvet Underground, Mutantes e Yo La Tengo na faculdade, e nos últimos anos, Tom Zé, Erasmo, Connan Mockasin, Will Oldham, escritores como Philip Roth e David Foster Wallace, Tibete.


- Tem alguma frase que seja seu lema?

Uma frase que a minha vó repetia pra mim, sempre que me via correndo de um lado pro outro, aperriada com trabalho ou com outras preocupações: “A vida é mais importante”.

- E conta sobre o “Pantim”? É seu segundo disco em estúdio. O que a gente vai ouvir? Um disco influenciado pelo que, com participação de quem, que diz o que sobre esse seu momento de vida?

“Pantim” contém músicas compostas em 2011 e 2012 e que parecem ter como fio condutor uma discussão sobre o egocentrismo e o buraco negro que ele provoca. A palavra pantim quer dizer dar chilique, espernear, e é mais usada no Nordeste. O disco tenta buscar algum sentido em tudo o que fazemos e conquistamos, com uma linguagem mais direta, numa gravação com toda a banda ao vivo, praticamente. É diferente do “Cristalina” na forma, mas é muito parecido com ele no conteúdo – se antes as metáforas e o humor escrachado disfarçavam os questionamentos, agora eles são colocados de forma direta, com algum humor, mas sem ironia e sem rodeios. Os mesmos assuntos, antes tratados de um jeito escapista, agora vêm à tona de um jeito mais realista.

As fotos de Lulina foram feitas pela Ana Shiokawa.

Lulina faz show nesta sexta, às 21h30, no Sesc Belenzinho. Mais em > http://www.sescsp.org.br/programacao/15722_LULINA

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os mundos de dom la nena

por   /  27/09/2013  /  15:30

Dom La Nena, que nome diferente! A capa do disco é bonita, tem uma dupla exposição dela, meio embaçada. Vou ouvir. Das 13 músicas, já tenho vontade de ouvir de novo mais da metade quando acaba o disco. Bom sinal. Durante a semana, ouço mais e mais. E, uns dez dias depois, numa noite em que chovia muito no Rio, saio de casa com duas amigas para ver um show dela no Solar de Botafogo.

Uow! Que boa essa menina. Ela não é só mais uma cantora com um repertório óbvio que me deixa com aquela sensação de “quase lá”. É uma artista completa – e por mais que essa frase seja um clichê, é uma alegria quando conseguimos ver uma performance assim ao vivo. É em busca dessa verdade que passo tanto tempo ouvindo música. Viva!

Ela toca violoncelo, ukelele, faz percussão com um chocalho amarrado no pé, coloca uma música antiga em uma vitrolinha para servir de fundo para que ela cante, em português, francês e espanhol, suas letras que falam de deslocamento, de pertencimento e não pertencimento, de amor, dos amigos que nunca mais foi visitar, de ser estrangeira mas sempre sentir que tem uma casa.

Dom La Nena é Dominique Pinto, uma garota de 23 anos que nasceu em Porto Alegre e passou a maior parte da vida pelo mundo. Primeiro, em Paris, para onde foi com a família acompanhar o doutorado em filosofia do pai. Aos 13 anos, mudou-se para Buenos Aires, para onde foi sozinha estudar violoncelo com Christine Walevska, um de seus ídolos no, conhecida como “a deusa do violoncelo”. De volta à França, aos 18 anos, acabou passando dois anos em turnê com a Jane Birkin, musa do Serge Gainsbourg. Também trabalhou com Jeanne Moreau.

La Nena, a pequena, foi incorporado porque ela sempre foi a caçula dos grupos que frequentava. Dom começou a estudar piano aos 5 anos e, aos 8, já se aventurava no violoncelo. “[Ser artista] no meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse ‘ah, sou artista’! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…Fiz teatro, dança, pintura etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje”, conta ela ao Don’t Touch.

Em agosto, Dom La Nena lançou seu disco, “Ela”, no Brasil. Nos Estados Unidos o álbum saiu no começo do ano pela Six Degrees Records e recebeu elogios de veículos importantes, como o New York Times e a Les Inrokuptibles. O disco foi produzido por Dom e Piers Faccini e conta com participações da cantora francesa Camille e dos brasileiros Thiago Pethit, Kiko Dinucci e Guilherme Kastrup.

“A Dominique é uma das pessoas mais talentosas que eu conheço. E acho lindo que o nome artístico dela seja esse pequeno apelido, Dom. Porque ‘dom’, em português, representa um pouco dessa habilidade inata e musical dela. Ela é uma garotinha, doce, sensível, delicada mas tem também uma coisa, uma personalidade forte, muito assertiva e direta. E as músicas acabam ganhando essa qualidade”, diz Thiago Pethit.

Embora tenham morado em Buenos Aires a uma quadra um do outro, eles se conheceram em São Paulo, por meio do Vicent Moon, que faz o La Blogotheque com Jerome, marido da cantora. “Depois de todas essas coincidências, foi uma espécie de amor à primeira vista. Fizemos juntos um Som Brasil – TV Globo em homenagem a Assis Valente e na sequência, de volta a São Paulo, ela me convidou para gravar ‘Buenos Aires’. Desde então, temos nos encontrado meio que por acaso em diversos lugares do mundo, Paris, Lisboa, São Paulo, Paris de novo… Da última vez, até cantei no show de estreia dela por lá e foi muito lindo”, completa.

Tendo como referências artistas como Lhasa de Sela, Juana Molina, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e a música brasileira de Dorival Caymmi, Jorge Ben, Chico Buarque e Tom Jobim, Dom La Nena fez um disco de estreia muito consistente, em que sua voz frágil se junta a melodias delicadas (que, por vezes, lembram canções de ninar) e a arranjos dominados por um violoncelo poderoso.

Talvez por ter mudado tanto de país, parece que ela criou um mundo só seu, cheio de nostalgia. Com seu jeito doce, um sorriso no rosto e até um pouco sem jeito, ela nos convida a entrar nele, meio que ainda sem acreditar que suas criações podem encantar mais gente.

Para conhecer mais sobre a história da Dom La Nena, leiam a entrevista que fiz com ela logo abaixo. Antes, assistam aqui à estreia de “Golondrina”, seu novo clipe, dirigido por Jeremiah.

- Quando foi que você se descobriu artista?

No meu caso foi um processo evolutivo, que foi crescendo desde muito pequena. Não foi algo que de um ano para o outro eu disse “ah, sou artista”! Comecei estudando música aos 4, e sempre adorei todas as disciplinas artísticas…fiz teatro, dança, pintura, etc. Mais tarde fui ficando somente com a música, mas com certeza todo o resto que fiz quando criança me ajudou muito para o que eu faço hoje. – Como foi sua formação? Minha formação musical é em música clássica. Em Porto Alegre, de onde eu venho, comecei a estudar piano aos 5 anos, e violoncelo aos 8. Logo fui para Paris com meus pais (para o doutorado do meu pai), e continuei estudando lá…Sempre fui muito apaixonada pelos dois instrumentos, mas a partir dos meus 10 anos decidi ficar somente com o cello, e já estava decidida que queria ser violoncelista – e já estudava muitas horas por dia. Fiquei estes 4 anos estudando no Conservatório. Depois continuei estudando em Buenos Aires, também uma formação clássica no Conservatório de Buenos Aires e na academia do lindo Teatro Colón…fiquei lá 5 anos, dos meus 13 aos meus 18. Com 18 voltei a Paris, para continuar estudando na École Normale de Musique onde completei meu ciclo superior.

- Conta um pouquinho da sua trajetória, onde você morou, por quanto tempo?

Nasci em Porto Alegre onde fiquei até meus 8 anos. Depois morei em Paris dos meus 8 aos meus 12, voltei para Porto Alegre alguns meses, e com 13 anos fui morar sozinha em Buenos Aires para estudar violoncelo – onde fiquei até meus 18. Logo voltei para Paris, onde agora estou morando já faz 6 anos…

- Como foi que você foi morar sozinha em Buenos Aires?

Quando eu voltei de Paris para Porto Alegre com meus pais, tinha 12 anos (quase 13) e já estava totalmente decidida a ser violoncelista. Estudava o dia inteiro, assim que chegava da escola ia reto estudar cello. Mas tivemos que voltar para Porto Alegre, pois o doutorado do meu pai tinha acabado, e eu sabia que as possibilidades de ter uma boa formação clássica por lá eram poucas… Voltando para lá entrei em uma grande depressão! Então comecei a pensar em como resolver meu problema… E eu lembrei que uma dos meus ídolos do cello, uma violoncelista americana chamada Christine Walevska, tinha morado em Buenos Aires. Comecei a fuçar na internet para ver se achava mais detalhes sobre se ela dava aulas em algum lugar, e descobri que ela tinha voltado para Nova York. Procurei por ela no guia telefônico de Nova Yorque, e liguei para ela para pedirconselhos. Ela foi um amor, muito acolhedora, e como é casada com um argentino, continua indo muito para Buenos Aires… ela estava indo para lá algumas semanas depois e me propôs de nos encontrarmos para ela me dar aulas e tentar me ajudar a achar um professor com o qual eu pudesse ter mais regularidade em Buenos Aires.. Então eu fui, fiquei lá uma semana, ela me deu aulas incríveis, e me apresentou para um professor francês que dava aula no Conservatório de Buenos Aires e que também me deu algumas aulas naquela semana e me aceitou como aluna na sua classe no Conservatório. Voltei para Porto Alegre na maior alegria, avisando meus pais que já estava tudo resolvido e que me mudaria para Buenos Aires… Só que eu tinha 13 anos ! E obviamente meus pais não podiam se mudar para lá… Mas meus pais sempre me apoiaram muito e dessa vez, é claro, depois de muitas noites angustiantes de reflexões, decidiram me dar essa confiança confiança e deixaram eu ir morar lá alguns meses depois… E essa foi sem dúvida uma das decisões mais importantes da minha vida ! Fiquei 5 anos estudando lá, com vários professores maravilhosos, no conservatório de Buenos Aires, na academia do Teatro Colón, e com a Walevska que ia de 3 em 3 meses para la… Quando fiz 18 anos voltei para Paris estudar.

- Como você aprendeu a tocar tantos instrumentos?

Eu considero que eu toco mesmo só violoncelo… um pouco de piano, do que me lembro de quando criança. Na hora de compor eu uso o violão também, mas sou péssima! Até cheguei a gravar alguns dos violões no meu disco, mas só sei tocar mesmo minhas músicas ! Também estudei um pouquinho de contrabaixo em Buenos Aires, então também sou eu quem toca contrabaixo no disco. Quando gravei, queria poder tocar ao máximo possível todos os instrumentos eu mesma… E é verdade que na maior parte do disco sou eu e o Piers Faccini – que produziu junto comigo, quem toca.. Muitos instrumentos, eu me aventuro a tocar por instinto, não acho que eu saiba realmente tocá-los ! – E como se interessou pelo violoncelo? Meus pais sempre ouviram muita musica clássica em casa, portanto eu já conhecia o instrumento. Eu estudava numa escola de música muito legal quando pequena em Porto Alegre…uma vez fomos para um encontro entre várias escolas do país em Florianópolis, e no ônibus sentei ao lado do professor de violoncelo da escola. A viagem era longa, mas me dei super bem com ele, nos divertimos durante todo o trajeto, adorei ele, e durante o encontro em Floripa comecei a ir assistir as aulas dele e adorei ainda mais o instrumento ! Quando voltei, apresentei-o ao meus pais: “Esse é meu novo professor”. E assim comecei a estudar cello. Decidi realmente a ser violoncelista aos 10 anos de idade em Paris.

- Conta um pouco como é seu processo na hora de compor? De onde vem a inspiração?

Não tenho muita regra, mas geralmente nunca penso “vou falar disso ou daquilo”. Gosto de trabalhar bastante com o inconsciente, acho bem mais interessante. Por vezes vem primeiro uma melodia, com algumas palavras, depois vem o texto, outras vezes é ao contrario… Não há receita fixa.

- Apesar de ter passado tanto tempo fora, a música brasileira influencia muito você, né? Dá pra ver em músicas como “Batuque”, que tem até berimbau. A sua formação proporcionou alguma pesquisa que levou a essa influência, a essas descobertas?

Minha formação é principalmente clássica,  mas desde sempre ouvi muitíssima música brasileira… Cresci com Jorge Ben, Chico, Tom, Caymmi, e eles me acompanham até hoj ! Então com certeza eles também estão muito presentes na minha música. A música brasileira está presente desde sempre para mim, e foi se misturando com tudo o mais que fui escutando… Sempre quis parar para pesquisar mais sobre ela, mas ainda não tive o tempo que do qual precisaria para fazer isso.

- Levando em conta que cada língua possui uma musicalidade diferente, que muda um pouco a própria música, como a gente a ouve, você acha que para o trabalho que você faz hoje a língua portuguesa consegue expressar melhor suas ideias? Ou é assim mesmo que elas surgem, naturalmente?

A escolha da língua também é algo totalmente inconsciente. As coisas vêm assim, eu nunca pensei “vou escrever em português” ou ao contrário “tenho que tentar não escrever em português”… Acho que como é minha língua materna, por mais que no dia a dia não seja a que eu fale mais, termina sendo a que vem mais naturalmente. Mas ultimamente tenho composto muito em espanhol – também não sei explicar por quê.

- E a recepção do público? O que você espera quando coloca sua música no mundo?

É muito impressionante, porque na maioria do tempo, canto para pessoas que não falam nem entendem português… Quando leio artigos, ou depois do show, conversando com o público, me dou conta que eles entendem muito do que eu falo sem mesmo entender as letras! Isso para mim é mais do que gratificante, ver que consigo atravessar esta barreira e transmitir o que eu quero além das palavras!

– Quem são suas principais referências, os artistas que mais admira? E aqueles com quem adoraria dividir o palco?

São muitíssimas… E ainda por cima já tive a sorte de poder dividir o palco com muitas delas! Jane Birkin, Jeanne Moreau, Camille, Piers Faccini, por exemplo, são referências de longa data para mim e, às vezes, custo a acreditar que já estive no palco com eles! Ultimamente tenho escutado muitíssimo Lhasa de Sela (mas infelizmente ela já faleceu) e a cantora argentina Juana Molina – adoraria fazer algo com ela um dia. Também bastante Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Cat Power e obviamente, como falei antes, muita música brasileira…

- Aliás, como você foi parar na banda da Jane Birkin? E o que aprendeu de mais legal com ela?

Eu conhecia a produtora musical do ultimo disco da Jane (“Enfants d’hiver”), e ela me chamou para tocar no disco. No início seriam apenas algumas músicas, mas foi tão legal que no fim toquei em quase todas! A Jane estava sempre no estúdio com a gente, ela adorou, nos demos super bem… Então ela me convidou para formar parte da banda da turnê do disco (éramos 4: piano, cello, contrabaixo e guitarra). Foram dois anos de viagens incríveis, pelo mundo inteiro… Uma das coisas que mais me marcou da Jane era a força que ela tirava de dentro de si na hora de entrar no palco. Como viajávamos muito e ela já estava com a idade avançando e com a saúde um pouco frágil, era muito cansativo para ela o ritmo de turnê, promoção, além dos filmes que ela fazia nos dias livres. Às vezes ela passava o dia inteiro exausta, cansadíssima, mas na hora de entrar no palco era outra mulher, se transformava totalmente e transbordava de energia!

- Quando foi que você decidiu lançar um disco? E como foi o processo de criá-lo?

Não foi realmente uma decisão… Quando eu comecei a compor, não tinha a menor pretensão de lançar um disco, fazer turnê etc… Queria mesmo fazer as músicas para mim, para ver no que dava, por diversão. Comecei a gravar em casa, a fazer os arranjos e foi dando vontade de ouvi-las mais elaboradas, mais bonitas… Procurei a melhor maneira de gravar. Gravei, e o Piers Faccini mandou para a gravadora dele nos Estados Unidos, que adorou, e as coisas foram indo. Nada foi muito calculado, as coisas foram acontecendo e acho que isso foi uma coisa muito importante para mim no processo criativo e de gravação do disco. Fiz tudo do jeito que eu queria ouvir mesmo, sem me deixar influenciar por nenhuma pressão de gravadora ou outros, usei todo o tempo necessário até estar totalmente satisfeita… Acho que, se na hora de gravar já tivesse na mente “vou lançar meu primeiro disco, vamos lá”, teria sido muita pressão e talvez as coisas não tivessem sido tão fluídas.

- Você produziu o disco também, né? Fala um pouco sobre isso?

Eu produzi o disco junto com o Piers Faccini, que é um cantor inglês que mora na França, que já tem 4 discos incríveis lançados e que é respeitadíssimo na Europa. Eu escuto a música dele desde que era adolescente em Buenos Aires, e ele sempre foi uma referência para mim. Por acaso, ele trabalha há muitos anos com meu marido, então nos conhecemos há alguns anos e, desde então, ficamos bons amigos e temos tocado muito juntos. O Piers tem um estúdio em casa que é um sonho: ele mora no sul da França, no meio das montanhas, e no fundo do jardim dele tem uma casinha onde ele fez este estúdio – simples, mas com excelente material de som e vários instrumentos. Quando comecei a gravar já tinha pré-feito em casa a maior parte dos arranjos… Fiquei uma semana sozinha, passando tudo a limpo, experimentando novas coisas, trabalhando no som – trabalhei sem técnico de som, todos os takes foram feitos por mim mesma. Logo deixei todos os arquivos para o Piers, que começou a fazer a parte dele dos arranjos. E íamos trabalhando assim, por blocos de períodos em que eu gravava sozinha, depois ele, depois nos enviávamos as músicas, até o disco ficar pronto. Para mim era muito importante poder ter a direção da produção…Não poderia imaginar ter feito este disco com alguém fazendo todos os arranjos e a produção, seria impossível para mim trabalhar assim!

- Como é trabalhar com seu marido?

Eu não consigo nem imaginar trabalhar sem ele. Sou totalmente fã do trabalho dele, é quase impossível para mim pensar em ter outra pessoa fazendo minhas fotos, meus vídeos, me aconselhando para arte… E como eu não sou das mais à vontade com câmeras, isso facilita muito, porque geralmente não tenho o sentimento de estar posando, de estar fazendo algo a propósito. O Jeremiah tem o dom de mostrar a beleza nas coisas simples do cotidiano… Somente ele conseguiria tornar bonito um vídeo onde há apenas imagens minhas dormindo (como em “Anjo Gabriel”)! Ou filmar um show somente com uma câmera, no meio do público, de maneira simples e poética (como em “Golondrina”). E ele tem tanta experiência em trabalhar com músicos (já fez filmes, vídeos, clipes para o REM, a Camille, o Erik Truffaz, para a Blogothèque durante anos) que até nas questões musicais, de show, de eleição de repertório, de estratégia ele me ajuda demais. Ele é quase como se fosse minha segunda cabeça!

- Como têm sido os shows, a turnê?

Desde que eu lancei o disco em janeiro, minha vida tem sido um turbilhão… Muitos shows, principalmente na França, Estados Unidos e Canadá… Também estive tocando bastante em Portugal, na Suíça e na Bélgica e mês que vem faço os primeiros shows na Inglaterra. Agora que lançamos o álbum no Brasil, estou começando a tocar mais por aí! Tem sido incrível poder levar minha música para todos estes lugares  E muito interessante ver a diferença de público de país em país ou até de cidade em cidade!

- Como é ficar sozinha no palco, preenchendo os lugares com um som tão encorpado?

Tocar sozinha hoje em dia é o que eu prefiro no palco. Tentei ter banda, ter quarteto de cordas, ter uma violinista, enfim, tentei varias fórmulas… Mas cheguei à conclusão de que me sinto mais à vontade quando toco sozinha. É um risco enorme, pois ainda por cima estou no cello, que é um instrumento mil vezes mais complicado do que o violão para a afinação e que, ainda por cima, não é nem um pouco feito para ser instrumento harmônico. Mas eu adoro estar assim, “nua”, 100% eu, acho bem mais interessante a relação com o público! Não há como esconder nada, tudo está em estado bruto… Às vezes é mais fácil, às vezes mais difícil, mas geralmente sempre termina sendo bem mais gratificante estabelecer esta cumplicidade, esta proximidade com as pessoas.

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como encontrar o trabalho da sua vida, por roman krznaric

por   /  18/09/2013  /  10:15

Há quase um ano, troquei a certeza de um emprego com carteira assinada em uma empresa de prestígio pela aventura de me dedicar 100% ao meu próprio negócio – a Contente, empresa de projetos pra internet que faço com a minha amada sócia Luiza Voll há quase três anos.

Sempre achei que fosse fazer duas coisas na vida profissional. Nunca me identifiquei com o discurso de quem falava que tinha encontrado sua vocação e queria se dedicar integralmente a ela pelo resto da vida. Eu pensava: trabalho é trabalho, é todo dia, é repetitivo, eu quero é ter a chance de não me entediar no meio do caminho.

Descobri (e descubro todo dia) na prática o que significa ter uma empresa. Eu e a Lu brincamos que somos tudo: de office boy a secretária, passando por telefonista, vendedora, gerente de crise. E fazemos tudo com um prazer tão grande! As dificuldades aparecem – tantas vezes! As incertezas, também. Mas o que conta muito mais é a alegria de acordar todo dia e trabalhar no que a gente gosta e acredita.

Quando soube que o Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, viria ao Brasil este mês, quis conversar com ele. Afinal, ele é autor do livro “Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida” (ed. Objetiva), título que traduz a vontade de ao menos 80% dos meus amigos e conhecidos no momento.

Todo mundo quer fazer o que ama, mas ainda tem dúvidas se troca o certo pelo incerto, se vai conseguir grana pra pagar as contas, se a saída é apostar no novo mesmo. Vivemos um momento de muita dúvida e de muito questionamento sobre o modelo de trabalho tradicional, em que a lógica do patrão é que você passe ao menos oito horas dando expediente, mesmo que muitos desses momentos sejam de procrastinação no Facebook.

Roman vem ao Brasil neste mês para dar um sermão dentro da programação da The School of Life no Brasil. O primeiro acontece no próximo domingo (22/9), às 11h, no Teatro Augusta, em São Paulo (os ingressos estão esgotados; há lista de espera). No dia 29/9, ele fala no Rio sobre empatia (ainda há ingressos). Ele também aproveita para lançar “Sobre a Arte de Viver” (ed. Zahar).

Em entrevista ao Don’t Touch, o filósofo australiano surpreende ao advogar contra a lógica tradicional de ser muito cuidadoso e fazer um planejamento detalhado antes de chutar o balde pra ir buscar o trabalho dos sonhos. “Em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir e, depois, pensar. Em outras palavras, comece a experimentar tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devemos ser completamente imprudentes e não nos preparar totalmente. Mas, se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.”

Leiam a entrevista completa logo abaixo. Foi um prazer conversar com um cara que tem respostas tão precisas sobre questões que nos rondam tanto! ♥

- Não sei se é porque fiz isso, mas nunca vi tanta gente querendo largar seus empregos tradicionais e querendo investir no trabalho dos sonhos. Esse movimento realmente está acontecendo no mundo?

Completamente. Esse movimento é um das grandes revoluções do nosso tempo. A insatisfação com o trabalho bateu níveis recordes nos Estados Unidos. Na Europa, cerca de 60% dos trabalhadores estão infelizes com seus empregos e gostariam de trocá-los. E isso se espalhou para o Brasil também. Aqui vai uma estatística maravilhosa: em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Hoje esse número aumentou para 56%

- O que as pessoas precisam fazer quando tomam essa decisão? É preciso se preparar antes, fazer uma poupança, por exemplo?

A abordagem tradicional para trocar de emprego é ser muito cuidadoso e fazer muito planejamento. Preparar-se com antecedência, pesquisar possibilidades profissionais, fazer testes de personalidade, poupar dinheiro e procrastinar. Eu sou um defensor da abordagem oposta: em vez de pensar pensar e agir, primeiro você precisa agir primeiro e pensar depois. Em outras palavras, comece a experimentar, tentando outras carreiras, sendo voluntário, um estagiário se você puder, para tentar sentir um gosto de realidade. Claro que não estou dizendo que nós devamos ser completamente imprudentes e não nos prepar totalmente. Mas se você está procurando um trabalho que o preencha, todas as evidências dizem para agir primeiro e pensar depois.

- Outra coisa que percebo é que, hoje em dia, todo mundo tem um projeto paralelo, o que é ótimo, mas como é que esse projeto vai virar um trabalho de verdade, que dê dinheiro para pagar as contas?

Projetos paralelos são uma ótima maneira de trocar de emprego. Existe um mito de que para fazer a mudança a gente precisa entrar no trabalho na segunda de manhã e renunciar dramaticamente. Mas não. Em vez disso, tente manter o seu emprego existente e fazer o que eu chamo de “branching projects” (algo como projetos ramificados, como ensinar ioga em uma tarde de quinta-feira ou fazer um frila de webdesign no fim de semana. E o que você faz é gradualmente passar mais e mais tempo nos projetos paralelos que você gosta até que as duas coisas aconteçam. Uma, você percebe que você consegue ganhar o suficiente para pagar as contas. Dois, você criou a confiança necessária para mudar. Com projetos assim, pequenos passos levam a grandes resultados.

- Aliás, falando em dinheiro… Qual é a importância dele na equação de satisfação com o trabalho?

Ah, dinheiro! O dinheiro foi o maior motivador nos últimos 500 anos. Mas ao menos nas duas últimas décadas pesquisas mostram que ele está se tornando menos importante. Então o que importa para os trabalhadores hoje? Coisas como autonomia (ter liberdade para tomar as próprias decisões no trabalho e como usar o seu tempo) e respeito (sentir que é tratado como um indivíduo valioso, não um engrenagem na máquina). Claro que nós ainda precisamos ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas e alimentar nossos filhos, mas dinheiro está se tornando fora de moda como uma fonte de satisfação no trabalho.

- Quando falamos em buscar o trabalho dos sonhos, ninguém nos avisa que vai ser preciso encarar burocracias, aprender a fazer um plano de negócios. Você acha que existe mais idealização do que ação?

Você não deve pensar que ter um trabalho dos sonhos necessariamente vai ser fácil e só diversão. Trabalhos dos sonhos são, geralmente, extraordinariamente exigentes. Um século atrás, a cientista franco-polonesa Marie Curie, que ganhou dois prêmios Nobel por seu trabalho, encontrou seu trabalho dos sonhos fazendo pesquisas sobre radiação. Mas ela trabalhou extremamente duro. Hoje, seu trabalho dos sonhos pode exigir que você passe a noite acordado fazendo modelos de negócio. Felizmente, os seres humanos prosperam em desafios.

- Mesmo que seja o trabalho dos sonhos, trabalho é trabalho. O que a gente deve fazer para manter a empolgação sempre no alto?

Um pequeno conselho é tentar maximizar o fluxo na sua experiência. Fluxo é um conceito psicológico que envolve estar completamente presente e completamente absorvido em qualquer coisa que você esteja fazendo. É o que significa para os atletas quando eles dizem que estão “in the zone”. Como você entra nesta zona? Prepare tarefas para você que sejam desafiadoras e criativas, mas não tão desafiadoras que você se preocupe em falhar, e não tão fáceis a ponto de você ficar entediado. A excitação está justamente em ficar fora da sua zona de conforto.

- Existe realmente um trabalho dos sonhos ou temos que aprender a desdobrar nossos interesses para atender às demandas de um mercado que muda tanto e em que as vagas para algumas áreas vão ficando cada vez mais escassas?

Não acredito que exista um único trabalho dos sonhos esperando lá fora para que a gente o descubra. Nós temos múltiplos eus, muitas identidades, e diferentes trabalhos vão satisfazer diferentes partes do que somos em diferentes momentos das nossas vidas. Claro que faz sentido desenvolver habilidades quando o mercado de trabalho está ficando maior, e não menor. Mas depois tudo se resume a saber se você quer trabalhar como um meio para um fim (ganhar dinheiro) ou como um fim em si mesmo (encontrar sentido).

- Alguém da geração que tem 30 anos hoje vai se aposentar tradicionalmente, depois de completar 30 anos de carreira? Ou vai ser mais corriqueiro ver as pessoas saltando de um trabalho para outro?

Meu pai trabalhou para a mesma empresa por 51 anos. Essa era já foi. Os trabalhadores de hoje estão trocando de trabalho, em média, a cada quatro anos. E como a nossa vida de trabalho vai aumentando (as pessoas estão se aposentando mais e mais tarde por conta de restrições financeiras), nós estamos suscetíveis a mudar de emprego várias vezes ao longo da vida.  Essa é mais uma razão para pensar muito sobre as melhores maneiras de fazer isso, e não apenas deixar-nos à deriva através de nossas vidas profissionais.

- O que a gente pode aprender com a história e com a evolução do trabalho?

Obrigada por perguntar isso, é um dos meus temas favoritos! No geral, a grande mudança história é do destino à escolha. Há poucos séculos, a maioria das pessoas tinham que trabalhar por uma questão de necessidade e destino – elas nasceram para ser um agricultor ou eram filhas de um escravo, então estavam destinadas à escravidão também. Hoje em dia, a maioria das pessoas (embora longe de todas) têm muito mais chances à sua frente. Antes do surgimento da industrialização, havia apenas cerca de 30 postos de trabalho padrão. Agora existem websites listando mais de 12.000. O problema é que fazer escolhas pode ser difícil.

- Quais são as perguntas que você mais costuma ouvir em relação ao tema? E aquelas que você adoraria responder, mas nunca te perguntam?

A pergunta que ouço mais frequentemente é se devemos procurar trabalhos pelo dinheiro ou pelo significado. E o que nunca me perguntam? Quase nunca me perguntam sobre o que nós podemos aprender com a história do trabalho. Mas você mudou isso!

- Como você encontrou o trabalho dos seus sonhos?

Tenho abordado minha vida de trabalho como um experimento. Fui um professor universitário, mas deixei de ser para virar um jardineiro profissional. Fui jornalista, mas mudei para tentar carpintaria. Também já atuei como professor de inglês, treinador de tênis e agente comunitário. No momento sou mais um escritor – e me sinto muito realizado fazendo isso. Mas espero ter coragem para mudar de novo – talvez quando meus interesses ou minhas paixões mudarem. Talvez minha visita ao Brasil neste mês vá me inspirar a treinar como um chef especializado em cozinha brasileira!

- Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no processo? E quais as maiores alegrias que você teve e tem até hoje?

O maior obstáculo têm sido as opiniões dos amigos, colegas e pares. Quando eu era um professor universitário, todo mundo que eu conhecia disse: “Como você pode deixar um grande trabalho em uma universidade? Você está louco!”. Quando eu era um jornalista todos disseram a mesma coisa. Mas, felizmente, eu ignorei os conselhos. Nosso grupo de pares forma nossa visão de mundo, e isso pode ser uma luta para mudar nossas mentes e fazer algo inesperado ou aparentemente insensível. Mas é aí que a emoção da vida está – no sentimento maravilhoso que você está fazendo a mudança, aproveitando as oportunidades, quebrando convenções e imerso em um estado radical de vitalidade.

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o melhor da art rio

por   /  06/09/2013  /  14:45

Nunca tinha ido a uma feira de arte e confesso que achei difícil apreciar as obras naquele esquema. Mas eis os meus preferidos da Art Rio 2013, que acontece no Rio de Janeiro até o próximo domingo (8/9).

Pra começar, um trabalho de Dan Flavin dedicado a Henri Matisse. Não sei quando foi que alguma coisa mudou em mim, mas ultimamente tenho gostado tanto de coisas que eu não gostava antes… Essa obra é um exemplo. Poderiam ser só umas lâmpadas fluorescentes coloridas, mas tem algo a mais, que eu não sei explicar, mas que me faz passar uns bons minutos olhando, contemplando… Acho lindo como essas luzes parecem uma pintura! ♥

Já o Norman Parkinson fez uma foto que, desde sempre, eu iria gostar muito. Adoro o menino de branco olhando pra gente, a mãe maravilhosa, dona de si, procurando alguém, a casinha verde que me lembra uma de Playmobil que meu irmão tinha quando a gente era pequeno. Demais!

Gosto muito ver os desenhos do Picasso, longe da fase cubista, que aprecio, mas já vi tanto na vida… Gosto da simplicidade dos traços, das cores. E de ter lembrado da música dos Modern Lovers > http://www.youtube.com/watch?v=Kc2iLAubras

Volpi é sempre bonito. E achei engraçado quando duas amigas disseram seguidamente: “queria uns dois desses pra pôr lá em casa”.

Graciela Sacco foi a melhor descoberta do dia! A fotógrafa usa suportes muito diferentes pra colocar suas fotos. É uma alegria ver fotografia sem ser naquelas molduras enormes, suntuosas, com cara de que foram escolhida pra combinar com o sofá… Adorei o jogo de esconde-esconde que ela fez no trabalho acima, em que os retratados aparecem por trás de uma janela iluminada.

Outra que adorei foi a Sandra Gamarra, uma artista peruana faz pinturas belas e um tanto sombrias.

E, pra terminar, uma belezinha perfeita para fazer vídeo no Instagram! A obra é do Juan Fontanive.

Ah, as fotos do post fui eu que tirei.

Mais em > http://www.artrio.art.br/

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encontros de arte, forma e flexibilidade

por   /  05/09/2013  /  14:15

Os movimentos naturais do corpo servem de inspiração para a exposição “Natureza Amplificada”, que a Nike exibe no Rio de Janeiro até o próximo domingo (8/9), na programação paralela da Art Rio 2013. Explorando conceitos como forma, flexibilidade e liberdade, a marca exibe objetos, vídeos e instalações desenvolvidas pelos brasileiros Gisela Motta e Leandro Lima, pelo estúdio inglês Universal Everything e pela dupla italiana Quayola + Sinigaglia.

Ao entrar no Armazém da Utopia – nome temporário para o armazém 6 do Cais do Porto do Rio de Janeiro -, o visitante se depara com uma linha de evolução dos tênis da Nike, acompanhada por um esqueleto enorme.

Ao dobrar à direita, uma imensidão azul surpreende o olhar. “Zero hidrográfico”, da dupla paulistana Gisela Motta e Leandro Lima, busca inspiração nas ondas do mar, no biomimetismo [área que estuda a biologia e as suas funções, procurando imitar a natureza em áreas da ciência e da tecnologia] delas. Os artistas buscaram criar uma referência instável sobre o mar, fazendo relação com o conceito de flexibilidade, a partir de um objeto formado por lâmpadas azuis fluorescentes.

A obra reproduz aquela sensação de calmaria de quando contemplamos o mar, ao mesmo tempo em que intriga por suscitar isso a partir de um material resistente como uma lâmpada, oposto à fluidez da água. Dá para passar vários minutos olhando para as ondas mecânicas, se imaginando em vários lugares distantes dali.

Zero hidrográfico, explicam, é o nível do mar relativo, que varia de acordo com o clima e sofre alterações com o aquecimento global e o desgelo. “A gente criou um mecanismo com 36 hastes que movem os vértices desse grid e, a partir do caos, gera um movimento orgânico”, diz Leandro. “Quando a gente instala o trabalho, ele está totalmente reto, em um plano. Uma pequena resistência, uma voltagem, um parafuso mais apertado ou não acaba criando uma diferença de sincronia, gerando um movimento caótico, que está acontecendo naquele momento”, diz Gisela. “E ele não se repete, porque não está escrito, programado, e sim analógico. Apesar de ser extremamente mecânico é totalmente vivo”, completa.

Já o estúdio inglês Universal Everything criou uma daquelas obras que fazem a gente se misturar com o que vê. “Fit” é uma série de quatro vídeos que só acontecem se o espectador interagir com eles. Funciona assim: você se posiciona diante do vídeo e começa a fazer movimentos, que estimulam os elementos que compõem a instalação. O resultado é que sua silhueta se transforma em linhas coloridíssimas, que ganham mais vida quanto mais você se esforçar na sua performance.

Dá pra passar vários minutos explorando as mudanças que o corpo da gente provoca na tela. Você vai criando uma dança que mistura seus movimentos à espécie de espelho coloridíssimo que aparece na tela. Em certos momentos, o corpo forma pontos coloridos que parecem uma centrífuga, puxando você praquele arco-íris em movimento. Em outros, os pontos parecem risquinhos, que se movem rapidamente ao seu redor. Uma bela viagem para os sentidos!

A terceira obra que completa a exposição foi criada pela dupla italiana Quayola + Sinigaglia e traduz os conceitos de elasticidade e liberdade. Intitulada “Flexure”, a vídeo instalação é descrita como “uma escultura digital atemporal”.

Traduzindo, é uma tela gigante que não pára de se transformar, explorando as conexões entre som e imagem. Você vê as imagens se transformando em retângulo, espiral e cilindros bem rapidamente, enquanto o som vai mudando também. Em alguns momentos, parece que o som traduz com precisão uma imagem “se rasgando”. Bem interessante!

 

“Natureza Amplificada: A Arte + Ciência da Forma, Flexibilidade + Liberdade”

Armazém da Utopia (av. Rodriguês Alves – Armazém 6, Cais do Porto, Rio de Janeiro)

Até domingo 8/9

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O Don’t Touch My Moleskine viajou a convite da Nike.

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belle and sebastian, anos depois

por   /  18/07/2013  /  8:48

Vi o Belle and Sebastian ao vivo de novo e chorei três vezes, quase sem querer.

Talvez porque a banda de abertura foi o Yo La Tengo, que eu amo, talvez porque o local do show foi o Prospect Park, no Brooklyn (que é lindo demais), talvez porque tem dias em que uma coisa corriqueira na minha vida como ver um show vira um desses momentos grandiosos.

Do meu lado tinha uma menina de pouco mais de 20 anos, e ela falava oh my god o tempo todo, tentava tirar foto e só fazia tremer (praticamente uma versão minha de 2001). Do outro lado, tinha um nerdzinho fofo, que cantava tudo e ria muito de tudo que o Stuart Murdoch falava. Aliás, como tinha homem nesse show! No Brasil é tão mais banda de menina, né?

Sabendo que a platéia deles é a mesma há anos, a banda misturou músicas mais recentes com clássicos, principalmente do “Tigermilk” e do “If you’re feeling sinister”.

Quando começou “Starks of track and field”, chorei, fiz um vídeo pra dividir com vocês, lembrei de quem eu era há 12 anos e tive um flashback de quase tudo que aconteceu na minha vida.

Foi importante e tão bonito.

Obrigada sempre, B&S! ♥

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coitadinha bem feito

por   /  17/07/2013  /  9:25

A primeira vez que ouvi Angela Ro Ro de verdade foi numa fossa. Eu chorava um dia, me lamentava no outro, vivia de sofrer. Um amigo querido, o Ronaldo Evangelista, virou pra mim e disse: você tem que ouvir o melhor disco da Angela Ro Ro, de 1979. Aquelas músicas eram a trilha sonora perfeita. O disco virou um clássico do meu iPod.

Quando ouvi falar do disco “Coitadinha Bem Feito”, um tributo idealizado pelo DJ Zé Pedro e pelo jornalista Marcus Preto, fiquei curiosa. Ainda mais pelo fato das músicas do tributo serem interpretadas por homens.

“Era uma ideia antiga. Sempre achei que o discurso de Angela caberia bem na voz desses meninos de hoje”, disse Zé Pedro ao Don’t Touch.

O disco, que vocês encontram no iTunes e em lojas físicas, reúne 17 intérpretes. “O critério foi escolher os cantores mais inquietos e criativos da nova música pop brasileira”, completa o DJ, cuja música preferida da cantora é “A mim e a mais ninguém”.

As minhas faixas preferidas do disco são as interpretadas por Thiago Pethit, Romulo Froes, Lucas Santtana e Adriano Cintra. Fiz as mesmas perguntas para cada um deles.

Thiago Pethit

- Qual é a sua história com “Mares da Espanha”? E como você chegou na versão?

Eu descobri o som da Angela Ro Ro através de “Mares da Espanha”. Depois veio “Escândalo” e “Amor meu grande amor” e aos poucos fui conhecendo tudo. Cada descoberta dessas levava pelo menos três semanas pra parar de tocar na minha vitrola, trancado no escurinho do meu quarto, quando eu ainda era adolescente e curtia uma fossa, uma boa lama de amor mal resolvido. haha Acho que foi por esse motivo que eu escolhi “Mares da Espanha”. Era uma música que me transportava pra essa primeira impressão sobre o trabalho dela.

Uma coisa que chama muito atenção nas versões originais dela é o jeito “enlameado” e rasgadamente dramático com que ela interpreta e compõe. E é lindo, porque é uma dor tão verdadeira, tão legítima. Eu não queria “copiar” ou simular essa característica da Angela na minha versão. Escolhi olhar pra canção e pra própria figura da autora sob outro aspecto. E como eu sou fascinado por esse universo feminino com densidades mais fortes e violentas do que delicadas, mais das bacantes que das ninfas, me inspirei no lado mais libidinoso da canção e das palavras. Há lendas que dizem que Mar da Espanha era uma boate carioca. É também uma cidade em Minas Gerais. Seja onde for, a imagem marítima é muito sensual e feminina. A frase mais maravilhosa da canção e mais sexy é justamente “Você navegando nos mares da Espanha, tecendo pra outra seu corpo com manha, você navegando o vazio da Espanha”. Então busquei sentido nessa outra Angela. Não a que soa tantas vezes triste, mas a que é também violenta e sexy como uma gata no cio. E reconstruí a canção em cima do blues que ela propõe. E tentei encontrar uma voz de ressaca, ora rouca e adoecida, ora afetada e agressiva como uma ressaca dos mares.

Romulo Fróes

- Qual é a sua história com “Só nos resta viver”? E como você chegou na versão?

Minha história com “Só nos resta viver” é minha história com o rádio, na década de 1980, na minha adolescência. Essa música fez um estrondoso sucesso, tocava sem parar e ainda que eu não prestasse atenção na Ângela Ro Ro, tava mais ocupado com as bandas de Manchester, rsrsrs, era impossível não conhecer essa música. Tanto que quando eu soube que seria ela a minha faixa, eu cantei de cor sem nem pestanejar e olha que já não a houvia há pelo menos 20 anos! Isso pra mim demonstra a força dessa canção!

A Ângela tem um lado passional, rasgado, confessional, que é o oposto de mim e do meu trabalho, mas que eu não queria fugir, apelar pra um caminho mais fácil pra mim e fazer uma versão cool da canção. É impossível cantar de modo contido versos como “quem dera pudesse, a dor que entristece, fazer compreender os fracos de alma, sem paz e sem calma, ajudasse a ver, que a vida é bela e só nos resta viver”. Foi muito enriquecedor para mim como intérprete sair desse registro mais contido com o qual estou acostumado. Mas como eu sou eu (risos), uma vez que a faixa esbarrou numa certa cafonice que me deixou incômodo, chamei o grande Luca Raele pra envenenar um pouco a música com um naipe de clarinetes soando entre o jazz e a música erudita e que fez a Ângela Ro Ro lembrar de Miles Davis, na primeira audição que ela fez do disco! Eu acho que a Ângela pode ser definida um pouco desse jeito, uma artista com cabeça de vanguarda e alma de bolero! Minha versão foi por esse caminho!

Lucas Santtana

- Qual é a sua história com “Amor, meu grande amor”? E como você chegou na versão?

A da maioria das pessoas que escutaram ela quando pintou nas rádios, com aquela voz rouca e totalmente sedutora aos ouvidos. Essa letra é atemporal e com essa melodia irresistível. Me inspirei no cinema, sou fã de som ambiente, às vezes vejo um filme duas vezes só para me concentrar nessa camada da história. A minha versão começou com aquele ambiente e a minha voz solitária no meio da multidão, aí depois as outras coisas foram pintando. Ou foram pedindo para entrar, a gente nunca sabe bem ao certo o limite disso.

Adriano Cintra

- Qual é a sua história com “Gota de sangue”? E como você chegou na versão?

Eu nunca havia prestado muita atenção nessa música, meu disco preferido da Angela é o “Escândalo”. Quando o Marcus me convidou para participar e me mandou a faixa, fiquei em primeiro lugar apavorado de ter que mexer naquela música, como todas as músicas da Angela, é muito, muito pessoal e a interpretação dela é insuperável. Fiquei ouvindo a faixa sem parar por uns três dias seguidos.

Eu fiz a minha versão da música. Eu não ousaria fazer uma releitura minimamente fiel à faixa. Eu desossei, peguei o formato da canção e fui pondo minhas coisas, toquei uma bateria à la “Ashes to Ashes”, do Bowie, toquei meu baixo, fiz uma guitarra do jeito que eu sei fazer, sassaricando pelas notas, pus uns pads, um piano bem do Ace of Base… Fiz um solo de saxofone bem sem vergonha nas notas que eu sei tocar. E na hora de cantar, optei por fazer um coro.. Nunca encontraria uma interpretação que abraçasse aquele drama de forma digna. Como estrupiei a música e a travesti, achei que o coro serviu bem.

- Você tatuou o nome do disco! Como foi isso?

Tatuei sem pensar, estava na Galeria do Rock, entrei no tatuador e expliquei: “Olha, eu tenho essas tatuagens horrorosas no meu braço que eu fiz nos anos 1990 e eu queria contextualizar elas com essa frase Coitadinha Bem Feito. Ele me olhou meio sarcástico e falou: “Você não é aquele cara daquela banda Cansei de Ser Sexy? Diz aí, isso é uma mensagem praquela japonesa cantora da banda né?” (Marcus Preto estava lá e presenciou essa cena). Eu quase morri quando ele falou isso porque o Coitadinha Bem Feito era para conversar com as tatuagens ridículas, não havia a pretensão dessa frase ser nada mais do que uma explicação dos desenhos abaixo dela. Mas não temos como controlar o entendimento alheio, então cada um entenda como quiser… Até porque todos nós precisamos ouvir um Coitadinha Bem Feito em alto e bom tom vez ou outra nessa vida. Eu que o diga…

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os malabaristas de david hockney

por   /  10/07/2013  /  8:35

Aos 75 anos, David Hockney não para de experimentar. Em 2010, ele saiu em defesa da arte digital feita em iPads. “Você pode fazer um desenho do sol nascendo às 6h30 da manhã e mandá-lo para as pessoas às 7h”, disse ele à BBC, na ocasião da exposição que ele fez em Paris com desenhos, principalmente de flores.

Desde maio deste ano, o artista, um dos ícones da pop art, exibe no Whitney Museum, em Nova York, uma vídeo-instalação intitulada “The Jugglers, June 24th 2012″.

É a primeira vez que o artista inglês trabalha com vídeo. Usando 18 câmeras fixas, ele filmou um grupo de malabaristas em ação. Vestidos de preto e brincando com objetos coloridos, eles se movimentavam em frente a uma parede rosa/vermelha, que contrasta com o piso azul. Na instalação, Hockney usa 18 telas para mostrar o movimento contínuo dos malabaristas.

O mais curioso é que não existe sombra em parte alguma. A imagem é precisa, vibrante, quase como se fosse um de seus quadros icônicos (e um dos meus preferidos é A big splash), mas em movimento.

“David Hockney nos surpreende mais uma vez, explorando como as múltiplas perspectivas podem transformar a nossa experiência da imagem em movimento“, disse Chrissie Iles, curadora do Whitney Museum. “Os tons vívidos de ‘Jugglers’ evoca a cor intensa dos filmes Technicolor de Hollywood, enquanto os movimentos lúdicos dos malabaristas ecoam as ações simples de filmes mudos. Hockney mina as histórias do cinema e da pintura através da lente da tecnologia, para criar uma nova forma de ver.”

David Hockney: The Jugglers

Whitney Musem (945 Madison Avenue com 75th St)

Até 1/9

Mais > http://whitney.org/Exhibitions/DavidHockney

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a luz de james turrell

por   /  26/06/2013  /  14:25

O Guggenheim Museum é famoso por seu projeto arquitetônico, assinado por Frank Lloyd Wright. James Turrell se adaptou ao formato cilíndrico do espaço para instalar a inédita “Aten Reign”, uma obra hiperbólica que ganha força quanto mais o espectador a contempla.

“Aten Reign” é a primeira grande mostra de Turrell em Nova York em 30 anos. O artista norte-americano de 70 anos também faz atualmente mais mais duas exposições, uma no Los Angeles County Museum of Art e outra no Museum of Fine Arts, em Houston.

Composta por cinco anéis elípticos, o coração de “Aten Reign” é a luz natural que vem da abertura do teto. Para fazer isso, o artista envolveu a espiral do museu em um tecido branco fino e esticado.

A luz muda de acordo com a hora do dia, o tempo e as luzes no exterior da construção. Pela primeira vez, o Guggenheim deve ser observado apenas do térreo, o que o transforma em um ambiente lúdico, contemplativo e etéreo, que mais parece o céu – ou uma nave espacial.

Um dos expoentes do movimento Light and Space, que surgiu no sul da Califórnia nos anos 1960, Turrell usa a luz como meio para descobrir como a nossa percepção funciona. Uma de suas frases famosas é:

Primeiro, eu estou lidando com nenhum objeto. A percepção é o objeto. Em segundo lugar, estou lidando com nenhuma imagem, porque eu quero evitar o pensamento associativo, simbólico. Em terceiro lugar, eu estou lidando com nenhum foco ou lugar particular para olhar. Com nenhum objeto, nenhuma imagem e sem foco, o que você está olhando? Você está olhando para você olhando.

Dos primeiros segundos para os últimos minutos de observação, o mesmo lugar se transforma. O que antes é quase que apenas uma cor forte, com variações de tons, vai mudando à medida que você mistura os tons, tem a impressão de ver as bordas da espiral se mexerem e entra em um estágio mental de deleite e contemplação.

Ver os visitantes do museu sentados ou deitados por longos minutos observando todo o espectro de cores de Turrell é uma cena que deixa a obra ainda deslumbrante – e não deixa de ser a obra em si. “Meu trabalho não é tanto sobre a minha visão, minha arte é sobre a sua visão“, já disse Turrell. “Não há ninguém entre você e a sua experiência.”

James Turrell

Guggenheim Museu (1071 5th Avenue)

Até 25/9

Mais > http://www.guggenheim.org/new-york/exhibitions/on-view/james-turrell

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