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The Waiters e a celebração de 13 anos de música

por   /  19/02/2016  /  13:13

Matt Love - Lulina

Foi em mais uma véspera melancólica de Natal que ouvi “Christmas lights” pela primeira vez. Lulina mandou a música por email, e eu senti um conforto no coração. Ela também contou que havia feito a música com um amigo virtual que morava nos Estados Unidos, o Matt. Música literalmente feita por computador, que legal! Quando ela fez sua primeira turnê internacional, o Matt também estava lá, articulando lugares para os shows, tocando junto. A amizade dos dois já dura treze anos, se transformou na banda The Waiters e, no ano passado, deu cria: um disco indie lo-fi delicioso.

Conversei com o Matt por email querendo saber mais da relação deles. “Não foi há tanto tempo que nos conhecemos, mas em termos de ciberespaço, foi há séculos. As coisas mudaram tanto!” O ano era 2003, e Matt pesquisava nomes de filmes com o título “Plan _ From Outer Space” (cineastas amadores fazem homenagem ao clássico filme B “Plano 9 do Espaço Sideral”). Quando digitou “Plan 13 From Outer Space”, achou um único link, com a frase solta em um texto em português. “Era o blog de uma mulher incrível. Por sorte, os programas de tradução também tinham começado a existir, e descobri que ela dizia que iria escrever uma música chamada ‘Plan 13 From Outer Space’. Pensei: ok, estou procurando filmes, mas posso procurar músicas também.”

Alguns cliques depois, Matt descobriu o email de Lulina e sua fixação pelo número 13, que ele também compartilhava. “Também descobri que uma das bandas preferidas dela era o Beat Happening. Agora sim eu tinha uma conexão pra dividir! O primeiro show do Beat Happening foi de abertura para a Wimps, minha primeira banda, que também fazia seu primeiro show”, lembra. “Escrevi e pedi pra ela me mandar uma cópia da música quando estivesse gravada. Ela respondeu e disse ‘vamos gravar juntos!’. Lulina tem uma maneira maravilhosa de se relacionar com as pessoas por meio da música, e a ideia de conhecer melhor as pessoas fazendo música com elas também é uma prática que adotei.”

Não por acaso, 13 anos depois do primeiro encontro virtual, Matt e Lulina – e Leo Monstro, artista que é parceiro da cantora há anos – lançaram juntos o primeiro disco do The Waiters. A banda surgiu de uma conversa entre Matt e Leo. O norte-americano, que foi funcionário público por mais de duas décadas e deixou o emprego para virar cuidar dos pais em tempo integral, formou com uns amigos uma banda, a Dweebish, mas acabava tocando pouco. Léo, pernambucano radicado em São Paulo, sentia falta de tocar com mais frequência. Surgia, então, o The Waiters, simplesmente porque eles estavam sempre esperando – inclusive a cantora ter tempo pra se juntar.

O disco, encontro entre Olinda, cidade da infância de Lulina, e Olympia, em Washington, onde Matt vive, é um presente pra todos que passamos os últimos anos da adolescência ouvindo maravilhas indies. “É muito lindo poder registrar essa parceria de 13 anos em um disco”, diz Lulina. “Ele é uma grande celebração dessa amizade musical e envolve muitos amigos que se juntaram a nós ao longo desses anos”, completa ela, que em 2010 fez uma turnê pela costa oeste dos EUA, com shows em Seattle, Olympia, Portland, Wenatchee e Anderson Island, e também por Chicago. “O Matt foi o meu baixista nessa turnê, pois o Zé não conseguiu visto. Foi muito especial, imagina assistir Calvin Johnson [do Beat Happening] dançando na minha frente todo empolgado durante o show?”

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Falando em bandas, Matt, 59 anos, cresceu rodeado por discos de vinil e tinha como hábito ir a uma loja com o irmão a cada sábado escolher um título novo. Entre suas influências, estão Bob Dylan, The Clash, Bad Company, Foreigner, Thompson Twins, Talking Heads, B-52s, XTC, Abba. Da época em que era DJ de uma rádio, relembra algumas pérolas: “O Superman”, de Laurie Anderson, e “Singing in the Rain”, do Just Water. “Passo por períodos na vida em que escuto a mesma música repetidas vezes. ‘Love will tear us apart’, do Joy Division, me manteve vivo após o divórcio com minha primeira mulher. Passei por épocas longas em que ouvia ‘My old school’, do Steely Dan, repetidamente. Sem falar em ‘Strawberry Fields forever’.”

Matt já veio ao Brasil seis vezes, sendo a primeira em 2008, e sempre se impressiona com a recepção. “Daniel Belleza me disse que todo mundo que ele conhece conhece Lulina, e eu vi que isso era verdade. Em toda loja, casa de show que eu ia, falavam ‘Matt está numa banda com Lulina!’. ‘Ah, Lulina!’ Foi uma recepção bem calorosa.”

Enquanto se dedica o quanto pode à música, ele faz planos de gravar um segundo disco do Waiters em um intervalo menor de tempo – e de voltar ao Brasil com a mulher, Anne, e a filha, Olivia, em dezembro deste ano. “Fazer música, ao menos desde Dylan, é um processo indefinido e misterioso, no qual você se joga e lida com insegurança.” Ele conta que já esbarrou em vários becos sem saída por ignorar a “maneira certa” de fazer as coisas, mas se deu conta de que tudo isso vira história – ou música. “Venho de uma cidade pequena, quero voltar para uma cidade pequena, mas a cada dois anos vou para algumas das maiores e mais legais cidades do mundo e brindo a todas essas experiências.”

Lulina celebra a parceria. “O que eu mais admiro nele? A generosidade, o amor que tem pela música e por nós, todos os seus amigos brasileiros, e também a persistência e paciência pra não desistir de continuar compondo e tocando com a gente, mesmo com a distância e o pouco tempo disponível de todos. Ver o Matt no palco é tocante, ele é puro coração ali. É uma felicidade muito grande quando esse grupo está junto, seja compondo, gravando ou fazendo show.” Que venham os próximos encontros.

+ Lulina no Don’t Touch

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Andando na fé de Clarice Freire

por   /  15/02/2016  /  11:11

@claricefreire

Estudei a vida inteira em um colégio católico, coisa que nunca entendi. Meu irmão estudava em uma escola meio intelectual, meio de esquerda, e eu naquela outra que começou sendo exclusiva para boas moças. Fiz primeira comunhão, crisma, até vi Jesus quando voltava de uma atividade no sítio, aquela parte tão distante da sala de aula. Foi uma alucinação coletiva das crianças da segunda série, tamanha era a repetição das palavras da Bíblia no dia a dia. Adolescente, entendi que a religião católica não era a minha. Preferia ouvir outro Deus, outros deuses. Neil Young, Lou Reed, aquelas músicas que diziam mais de mim do que qualquer parte do evangelho.

Corta para muitos anos depois, mais precisamente para março de 2015, e estou em um restaurante delicioso na praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, conhecendo in real life Clarice Freire, a escritora que virou fenômeno com seu Pó de Lua, uma série meio poema, meio desenho que arrebata mais de 1,2 milhão de fãs apenas no Facebook, sem contar os 200 mil no Instagram, e que também conquistou o mercado editorial com seu livro de estreia – vendendo mais de 70 mil cópias.

Clarice estudou naquela mesma escola, e pela primeira vez após a alucinação coletiva eu vi alguém com um background parecido com o meu falar tão apaixonada e verdadeiramente sobre a religião católica. Não que a conversa tenha começado por aí, mas sabe aqueles encontros que duram horas e que transcendem, te mostrando alguém encantador? Foi assim. Vou contar pra vocês.

Bienal do Rio

Clarice nasceu em Recife, tem 27 anos e vem de uma família de artistas. O pai sempre escreveu. A mãe pintava com aquarela. A irmã, Sofia, é cantora e compositora – aliás, ela e Clarice já apareceram antes por aqui, cantando em homenagem aos 25 anos de casamento dos pais. O tio, Marcelino Freire, é escritor, professor, descobridor de talentos literários. “Desde cedo eu era levada para peças de teatro, sarau de poesia. Eu pensava que nunca iria escrever. Me comparava e pensava: não tem como.” Mesmo assim, a herança falou mais forte, e, adolescente, ela começou a escrever, bastante influenciada pelo pai e pelo tio. Os rascunhos ficavam em cadernos escondidos em seu quarto.

Começou a estudar publicidade. Em 2010, aos 21 anos, foi morar em Segóvia, na Espanha, e ali, andando pela cidade, vivendo experiências diferentes, viu que a criatividade fluía mais solta. Quando voltou para Recife, conseguiu um estágio em uma agência. “Passava o dia vendendo sabonete, carro. Entre um job e outro, tinha que esvaziar a cabeça. E isso saía em forma de poesia”, lembra. Ao fim do dia, ela amassava aqueles papéis e os jogava no lixo. Um dia, quando chegou no trabalho, Elisa, sua dupla de criação, havia colocado os papéis em cima da mesa, como se fosse um livro, indagando como ela podia jogar aquilo fora. Foi a amiga quem criou um blog para Clarice, que era zero da internet na época. “Eu não queria, foi uma confusão. Ela acabou me convencendo quando disse que era para eu não perder mais as ideias.”

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

O nome surgiu com a lembrança de um professor que havia perguntado se ela sabia porque a Lua era tão bonita. “Ele me disse: ‘Porque mesmo ela sendo só pó, como eu e você, ela consegue refletir a luz de outro, maior que ela. Por isso as nossas noites não são escuras.’ Aquilo me marcou tanto, eu quis ser como a Lua,  até pela noção que tenho de Deus, da vida, das coisas. Foi tão forte que falei: Pó de Lua.” Com o tempo, ela passou a escrever muito no blog, aquilo virou a parte boa do dia, quando ela podia escrever sobre o que importava de verdade. Durante o dia ela continuava escrevendo, jogando os papéis fora, e os colegas iam juntando tudo. Uma outra amiga a presenteou com um Moleskine, e foi aí que ela passou a escrever e desenhar sem jogar o resultado fora.

Em 2011, o blog começou a fazer sucesso espontaneamente, sem nenhuma estratégia. A cada dia, ela se  impressionava com as respostas dos leitores. Quando ganhou um celular que tirava foto, pensou que finalmente conseguiria mostrar como era seu processo. Criou uma fanpage. “O compartilhamento era muito mais rápido por ali, me impressionava. Mas aquilo era o paralelo, eu mantinha meu trabalho.” Quando se formou, passou dois meses em Buenos Aires fazendo um curso de criatividade. Voltou, e o projeto mudou, cresceu. “Comecei a ter menos medo de brincar, ousar, inventar coisas. A gente não tem que ter medo de criar o que quiser, e eu brincava de dar mil significados para as palavras.” Foi quando fez a poesia do palito de fósforo.

fosforo

“Só o fósforo teve 14.000 compartilhamentos. Pensei: o que aconteceu? Por que as pessoas estão assim por causa de um palito de fósforo?”. Ela acabou lembrando de outro motivo para o nome do blog: o filme “Casa de Areia”, em que as personagens de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres moram em dunas e passam a vida imaginando o que tem na Lua. Um dia, a mais nova chega com a notícia de que o homem pisou pela primeira vez na Lua, ao que a outra pergunta o que tinha lá, e ela responde: areia. “A gente fica procurando o extraordinário na Lua, enquanto ele está no ordinário ao nosso redor. Mas a gente não tem olhos para ver porque está olhando pra Lua. Isso foi uma chave sobre o que eu queria escrever.”

“Eu vi que as pessoas estavam procurando dar sentido às coisas, ver poesia na vida, nas coisas insignificantes. Daí surgiu o conceito: Pó de Lua para diminuir a gravidade das coisas. Percebi que eu queria falar com delicadeza da vida. Por mais que eu falasse de temas duros, como pobreza, dor, solidão, angústia, sempre tinham outros mais lúdicos, como saudade, e outros mais bonitos, como amor. Sempre usando delicadeza. E eu via que isso chegava no coração das pessoas. Eu falo muito do coração. Acho que é por isso que tenho um diálogo tão sincero.” Hoje mais de 1,2 milhão de seguidores acompanham sua poesia pelo Facebook. E claro que esse alcance já rendeu muita história, de gente que se transformou ao ler seus escritores, que fez fã clube, viajou longas distâncias só para pegar um autógrafo e dar um abraço.

A convite da editora Intrínseca, o Pó de Lua virou livro, em 2014. “A minha literatura é a junção de várias coisas. Ela é desenho, caligrafia, ilustração. Tem poesia, tem prosa”, define. Ela sabe que o que faz é diferente – e se existem milhões de seguidores, sempre aparecem alguns detratores. “Muita gente tem preconceito, diz que é literatura de Facebook.” Ela contesta: “É literatura, e ela usa da plataforma que quiser para existir. O mundo está em transformação, por que a literatura não?” Para fazer o livro, Clarice escolheu metade das poesias que as pessoas queriam ter nas mãos (aquelas que mais faziam sucesso no Facebook) e fez a outra metade inédita. Viajou pelo Brasil inteiro para divulgar o livro, ouviu centenas de histórias emocionantes, conheceu leitores que a acompanhavam desde o comecinho no blog. “Foi surreal, acho que nunca vou esquecer na minha vida.”

Comunidade dos Viventes 3

Com Gabriel Marquim, da Comunidade dos Viventes

Hoje Clarice é escritora em tempo integral. Quando conversamos, ela preparava o segundo volume do livro do Pó de Lua, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano. Ela também se dedica à Comunidade dos Viventes e ao Projeto Vincular, em Recife. Há oito anos, o amigo Gabriel Marquim chegou para Clarice perguntando qual era o sonho dela. “Falei que era ser publicitária. Ele respondeu: ‘Isso é um projeto muito bonito, mas qual é teu sonho?’ Tentei procurar alguma coisa mais nobre, falei casar. Ele disse que era outro projeto belíssimo. ‘Que meus filhos sejam pessoas muitos boas?’. Outro projeto lindo, cara, mas qual é seu sonho? Eu percebi que não tinha um. Comecei a questionar: o que é um sonho? Por que sonho é diferente de projeto? Aquilo deu um nó na minha cabeça.”

Nas conversas com o amigo, ele perguntava: pelo que você daria a sua vida, pelo que nossa geração seria capaz de dar a vida? “Ele me apresentou ao evangelho, a um Jesus muito diferente que eu estava acostumada a ver, aquele que coloca a mão no seu coração, que cura seus problemas, faz milagre, corre com você em um campo florido vestido de branco. Eu nunca tive paciência pra isso. Naquele momento conheci um homem revolucionário, que fez uma revolução através do amor. E que falou de eternidade, de um amor que não é sentimento, mas amor-decisão. Aquilo me transpassou. Eu vi que o amor-sentimento é frágil, passa, mas o amor-decisão, que é ‘eu decido viver o amor na minha vida, como força e direção’, faz qualquer criatura se sentir honrada, criando um vínculo profundo com tudo.”

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

E foi aí que a Clarice se apaixonou – e é aqui que vocês fazem o link com o começo desse texto. “Comecei a ler o evangelho como quem lê um romance, a conhecer a personalidade daquele homem, aquele amor capaz de ir até o fim, até as últimas consequências pelo outro”, diz ela, que não foi criada em uma família católica. “Minha vida virou de ponta de cabeça. Eu tropecei em Deus, acho que ele me queria muito, por algum motivo que ainda estou descobrindo qual é.” Com Gabriel e mais outros amigos, formou a Comunidade dos Viventes, que reúne voluntários para desenvolver atividades educativas, esportivas, culturais e de saúde. Na prática, eles promovem de oficinas de desenho e capoeira a modelos de casas populares, e ainda articulam doações, conseguem bolsas de estudo etc. “Eu aprendi, principalmente no meio artístico, que ter uma espiritualidade, e ainda mais se dizer católica, é o mesmo que dizer que é alienado. E isso é um baita de um preconceito. Eu tenho pena de quem se fecha para essa beleza”, dispara.

Clarice faz questão de ficar de olhos abertos para a beleza, diariamente. Inspira-se em Adriana Falcão, Clarice Lispector, Cecília Meirelles (paixão antiga), Manoel de Barros. gosta de ver filme, ouvir música, escrever, ficar com o namorado, viajar. E aproveita o silêncio das madrugadas para criar. “Tenho um privilégio muito grande. Isso tudo é o que eu amo na vida, e hoje é o que eu faço pra viver. É muito prazeroso, muitas vezes nem me sinto trabalhando.” Sobre o futuro, não se arrisca. “É muito difícil me ver daqui a dez anos, porque em seis meses minha vida mudou tanto! E eu gosto disso, porque gosto de estar aberta ao que a vida pode me apresentar.” Duas certezas ela divide com a gente: “Eu quero continuar escrevendo e publicando e quero estar com bem menos tempo, porque quero estar cuidando de mais gente.” Amém.

TEDx Recife

Leia a carta de Clarice para o Minha Carta de Amorwww.instagram.com/p/0NpMd4MDEp

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Bowie, muito obrigada por tudo

por   /  11/01/2016  /  10:10

David Bowie

Ele apareceu pela primeira vez na minha vida em “Christiane F.” – e ficou no repeat, de tanto que eu assistia ao filme e sonhava em ter aquela jaqueta que a Natja Brunckhorst usava pra ir ao show na Berlim dos anos 1980.

Depois veio em vários CDs-R que Tomaz gravou pra mim, imprimiu a capinha colorida e me entregou no curso de inglês. Mal existia internet, e desbravar aqueles mundos era abrir milhões de possibilidades, era buscar as referências dele, era querer entender tudo, ouvir tudo, porque o portal já tinha sido aberto, e não tinha mais volta.

Em um aniversário meu, há uns dois anos, por uma dessas coisas de sincronicidade, revi na fila da inesquecível exposição do MIS o mesmo Tomaz que tinha sido meu Rdio antes de o Napster existir.

Na primeira vez que fui a Berlim, cheguei morrendo de tristeza e, quando estava fazendo as malas pra ir embora, coloquei o “Low”, o “Heroes” e o “Lodger” pra tocar. Chorei de felicidade, querendo ficar mais, entendendo tanto de mim, da vida, da impermanência e das transformações.

Bowie, você é Deus na minha religião. Muito obrigada por tudo.

Vai lá encontrar o Lou. Aproveita e manda um beijo, tá? 

A foto é de Lynn Goldsmith e foi tirada em 1973

Pra ficar ouvindo ele o dia inteiro: BBC 6

Não dá pra imaginar um mundo sem David Bowie, texto lindo do Alexandre Matias

David Bowie’s life and career – in pictures

Bowie in quotes: ‘I wouldn’t like to make singing a full-time occupation’

David Bowie Answers the Famous Proust Questionnaire

Babydoll de nylon com Bowie e Mick Jagger

David Bowie dead: long-serving producer Tony Visconti discusses the ‘parting gift’ that was Blackstar

David Bowie’s 7 Sexiest Music Videos Celebrate His 69th Birthday

David Bowie’s must-read books revealed

David Bowie: five essential films

How David Bowie told us he was dying in the ‘Lazarus’ video

My David Bowie, alive forever

Bowie e Paul by Linda 1985

“Very sad news to wake up to on this raining morning. David was a great star and I treasure the moments we had together. His music played a very strong part in British musical history and I’m proud to think of the huge influence he has had on people all around the world. I send my deepest sympathies to his family and will always remember the great laughs we had through the years. His star will shine in the sky forever.” Paul McCartney

“David’s death came as a complete surprise, as did nearly everything else about him. I feel a huge gap now. We knew each other for over 40 years, in a friendship that was always tinged by echoes of [comic characters] Pete and Dud. Over the last few years – with him living in New York and me in London – our connection was by email,” Eno continued. “We signed off with invented names: some of his were mr showbiz, milton keynes, rhoda borrocks and the duke of ear. I received an email from him seven days ago. It was as funny as always, and as surreal, looping through word games and allusions and all the usual stuff we did. It ended with this sentence: ‘Thank you for our good times, brian. they will never rot’. And it was signed ‘Dawn’. I realise now he was saying goodbye.” Brian Eno

“Dearest David, wherever you are now, I miss you. Not only do I miss you but my heart is broken. You were my idol, then you became my mentor and my friend. I learnt so much from you, just by being in your presence, the conversations we had and, of course, watching you perform. You always had time for me. My band and I were tiny when we first met. Nonetheless , you took us under your wing. You believed in us and gifted us with so many fantastic opportunities. Without you, your tutelage and your wisdom, I don’t think I would be where I am today, as an artist but also as a person. For that I will be eternally grateful. Float around the ether, David. Bounce gracefully off planets light-years away as you become one with the Universe, as you dive into the Great Unknown. My sincere and heartfelt condolences to Iman, Lexi and Duncan, whose hearts I know are far more broken than mine. As for me, I will treasure every memory of every moment we spent together. Dear David, beautiful man and force of nature, you are immortal. You live beyond the veil of the big sleep. Ong Namo Guru Dev Namo. Namaste.” Brian Molko

John and David respected each other. They were well matched in intellect and talent. As John and I had very few friends we felt David was as close as family. After John died, David was always there for Sean and me. When Sean was at boarding school in Switzerland, David would pick him up and take him on trips to museums and let Sean hang out at his recording studio in Geneva. For Sean this is losing another father figure. It will be hard for him, I know. But we have some sweet memories which will stay with us forever. Yoko Ono

“david bowie começou pelo futuro. de algum modo, o seu tempo ainda não chegou. talvez, por isso mesmo, nos aguarde mais adiante. nem que seja apenas para o abraçarmos e dizer-lhe: muito, muito obrigado.” Valter Hugo Mãe

“David’s friendship was the light of my life. I never met such a brilliant person. He was the best there is.” Iggy Pop

“It feels like we lost something elemental, as if an entire color is gone.” Carrie Brownstein

I’m devastated.
David Bowie changed the course of my life forever. I never felt like I fit in growing up in Michigan. Like an oddball or a freak. I went to see him in concert at Cobo Arena in Detroit. It was the first concert I’d ever been too. I snuck out of the house with my girlfriend wearing a cape.
We got caught after and I was grounded for the summer. I didn’t care.
I already had many of his records and was so inspired by the way he played with gender confusion .
Was both masculine and feminine.
Funny and serious.
Clever and wise.
His lyrics were witty ironic and mysterious.
At the time he was the thin white Duke and he had mime artists on stage with him and very specific choreography
And I saw how he created a persona and used different art forms within the arena of rock and Roll to create entertainment.
I found him so inspiring and innovative.
Unique and provocative. A real Genius.
his music was always inspiring but seeing him live set me off on a journey that for me I hope will never end.
His photographs are hanging all over my house today.
He was so chic and beautiful and elegant.
So ahead of his time.
Thank you David Bowie.
I owe you a lot. .
The world will miss you.
Love
Madonna

“No caso dessas duas entidades, uma despedida apenas física, porque cada música é uma lembrança de que continuam vivos e consigo sentir ainda mais forte a presença deles, como se agora fossem o espaço ao redor, o ar que sustenta a propagação do som. A tristeza então cede lugar ao agradecimento, admiração e inspiração. Ontem quase levei pra cama o livrão que eu tenho do Bowie, mas que é tão grande e pesado que desisti, já estava tarde também, precisava acordar cedo. Até as últimas horas de ontem eu não queria largá-lo. Hoje, a notícia. Conexões que só a música explica.” Lulina

“David was always an inspiration to me and a true original. He was wonderfully shameless in his work. We had so many good times together. He was my friend, I will never forget him.” Mick Jagger

mick

berlin

Duncan Jones

“Very sorry and sad to say it’s true. I’ll be offline for a while. Love to all.” Duncan Jones

30 gifs do David Bowie para assistir ininterruptamente

“Dos vivos, o mais genial. Dos mortos, o mais inesquecível”, diz Rita Lee sobre Bowie

What David Bowie meant to me and multiple generations

One Of The Real Major Toms Even Covered David Bowie From Space

David Bowie é flagrado entrando em disco voador para voltar à sua terra natal

David Bowie Helden, German version of Heroes

Tilda Swinton on David Bowie: He ‘Looked Like Someone From the Same Planet as I Did’

David Bowie: share your memories

Cosas que debemos contar a nuestros hijos sobre David Bowie

Radio Soulwax: Our homage to the man whose ability to change whilst remaining himself has been a massive influence on us. There are many legends in the music industry but for us, there is no greater than the mighty Dave. We’ve included all things Bowie, whether that is original songs, covers, backing vocals, production work or reworks we made, to attempt to give you the full scope of the man’s genius.

Chris Clarke para o The Guardian via @anabean

Arte do Chris Clarke (via @anabeanjean)

db

Dancing out in space. As the world remembers musician David Bowie, a mile-wide space rock named in his honor orbits serenely in the main asteroid belt between the orbits of Mars and Jupiter. NASA (via Manu Colla)

David Bowie Dies at 69; He Transcended Music, Art and Fashion

É difícil entender que não tenho mais 20 anos, disse Bowie sobre envelhecer

Arquivo aberto: o esmalte de David Bowie

David Bowie Dead at 69

ny

De Benjamin Schwartz para a New Yorker

“Though they had exchanged only a few words, Bowie asked for her phone number and then called her that night at exactly 3:00 a.m. “He said, ‘The first thing I want you to know is that you’re not crazy—don’t let anybody tell you you’re crazy, because where you’re coming from, there are very few of us out there.’ For a month, he called her every night and they would talk for hours. Finally, he paid a visit”.

De Bowie para Nina Simone, qdo ela tava numa bad.

“He’s got more sense than anybody I’ve ever known,” she said. “It’s not human—David ain’t from here.

Nina Simone sobre Bowie. (via Vivi Whitman)

David Bowie: the man who thrilled the world

Beat Godfather Meets Glitter Mainman

Na América do Sul, ricos e pobres não se ajudam, afirmou Bowie à Folha

Worldwide tributes to David Bowie: ‘His death was a work of art’

50 David Bowie moments

Brian May tells how David Bowie and Queen wrote the legendary track Under Pressure

As faces de David Bowie

David Bowie se foi. Aqui estão frases que ilustram seu legado

Exit Bowie, discreetly: ‘He thought it honourable to become invisible’

David Bowie: He wrote his own requiem – he was always a lap ahead

bw

gi bowie gif

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#portfoliodonttouch: A fotografia sentimental de Juliana Rocha

por   /  30/10/2015  /  11:00

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Juliana Rocha trocou Fortaleza pelo Rio de Janeiro para fazer jornalismo. Ainda na faculdade, se deu conta de que palavras não seriam suficientes para contar tudo o que ela queria. Encantou-se pela fotografia. Quando decidiu fazer fotos de sua Copacabana Sentimental para o Instagram, viu o número de seguidores ultrapassar os 20.000. A série também virou livro.

Agora, ela investiga o nu e todas as suas possibilidades. Quando junta o novo tema ao antigo, cria cenas idílicas, que nos fazem imaginar histórias para seus personagens. Sua vontade é envolver gente na mágica desse negócio que é fotografar. “É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo”, diz ela em entrevista ao Don’t Touch.

Na entrevista abaixo, ela conta como começou a se expressar pela fotografia, como é seu processo criativo e muito mais.

Para acompanhar o trabalho dela > www.instagram.com/rochajuliana

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Eu entendo a fotografia como um buraco negro, rs. Pra mim, a mágica na fotografia é esse poder de se descolar do espaço e do tempo, é como criar uma nova realidade, um novo universo. Aí eu acho que vou me afundando nessa vontade de mostrar/descolar esses universos escondidos, de contar histórias misteriosas, de falar sobre a existência, sobre o medo, sobre as coisas que a gente não fala. Tem uma coisa de introspecção e delicadeza, de feminino e força, não sei. Provavelmente quem vê as fotos tem um olhar muito diferente.

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Eu adoro sair com a câmera por ai e poder fotografar o que me aparecer pela frente, se eu quiser. Mas às vezes algumas ideias pipocam na minha cabecinha e eu começo a pensar esteticamente em projetos e depois vou entendendo o que aquelas ideias significam e o que eu tô querendo dizer com aquilo. Parece um processo meio trocado, mas minha imaginação tem existência própria e ela supera todas as minhas intenções teóricas. Então sei lá, eu sigo obedecendo.

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Acho que eu me apaixonei pela ideia de poder dizer alguma coisa através de um clique. Não parece – eu acho –, mas eu sou muito tímida com minhas investidas artísticas, então acho que eu embuti na fotografia uma vontade reprimida de ser escritora. Aí eu sinto que tô sempre querendo contar uma história quando eu penso numa foto, mas eu realmente não me importo que a história seja clara, quanto mais misteriosa e inacabada, melhor.

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E tem uma mágica nesse negócio de fotografar, vai envolvendo a gente. É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo.

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Sou de Fortaleza e foi lá que eu vivi até os 18. Mudei pro Rio pra fazer faculdade, cursei jornalismo na UFRJ. Mas no meio disso eu entendi que escrever sobre a realidade não daria conta dos meus anseios criativos, ai comecei a fotografar… No meio disso eu conheci o RIOetc,  no Carnaval de 2010 e é onde eu trabalho desde então. Hoje sou sócia e editora. E foi lá que eu aprendi quase tudo, como ser cara de pau pra pedir foto, transformar uma cena corriqueira da cidade em algo singular, pensar em enquadramentos e associar a cidade com as pessoas na velocidade da luz.

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Mas o RIOetc também não deu conta de meus anseios criativos, e aí eu comecei a fotografar a praia onde eu corria, com o objetivo de fazer uma série engraçadinha no Insta. Assim nasceu o Copacabana Sentimental, que virou um livro no fim do ano passado. Mas nasceu também uma vontade de extrair poesia dos momentos ‘perdidos’ dos nossos dias, dos momentos em que nós mergulhamos no ambiente e formamos um quadro maior, extrapolando nossos corpos… Sabe? Nasceu uma vontade de sempre estar contando uma história, ou de pelo menos estar sugerindo uma história. Hoje eu sinto que se eu parar de fazer isso, eu vou parar de amar o que eu faço. Nesse ano eu comecei a fotografar em filme e já consegui fazer uma pequena exposição com alguns estudos de nu. Foi no Complex Esquina 111 e eu chamei de ‘Beira’. Eu tô completamente apaixonada pelo mistério e pelo processo de voltar pro analógico e pretendo ser fiel.

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Eu adoraria que minhas fotos tivessem o poder acender qualquer chaminha nas pessoas, fazê-las mergulhar um pouco em si próprias, sentir alguma coisa, evocar alguma memória… Tenho medo de entrar na categoria ‘do que é bonito’, prefiro que o significado supere a estética, ou melhor, que a estética engrandeça o significado. Quando eu tava fografando a praia de Copacabana, essa era uma missão bem difícil, e as pessoas entendiam como foto de paisagem, mas nunca foi isso. Hoje, que eu fotografo coisas estranhas e uns nus estranhos, ficou mais claro, hahaha!

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Vejam todos os posts da série:

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

O machismo disfarcado naquela piadinha do whatsapp

por   /  28/10/2015  /  11:00

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Já contei pra vocês que tenho uma coluna no portal MdeMulher? \o/

Meu texto mais recente é um relato de uma situação péssima que aconteceu enquanto eu fazia um curso. Escrever foi difícil, mas acabou servindo para várias coisas: primeiro, para desabafar, colocar pra fora o que ficou preso na garganta; segundo, pra descobrir centenas de pessoas que se identificaram com a situação e que não aguentam mais; terceiro, pra me dar certeza de que o silêncio nunca mais vai ser uma opção.

Espero que vocês gostem!

Para ler > O machismo disfarçado naquela piadinha do Whatsapp

Entrevista: Rafael Mantesso, autor do “A dog named Jimmy”

por   /  06/10/2015  /  13:13

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Rafael Mantesso tem um desses perfis de Instagram (@rafaelmantesso) que nos fazem disparar  onomatopeias a cada post. Ele criou a conta depois de se divorciar da ex-mulher. Na separação de bens, ela ficou com os móveis e quase todo o resto. Ele, com o cachorro, que leva o nome da marca de sapatos preferidas dela: Jimmy Choo. Olhando diariamente o focinho expressivo do cão e dando vazão à sua vontade de desenhar, ele começou um passatempo que virou um perfil blockbuster, com quase 400.000 seguidores. Em setembro, os posts viraram livro, “A dog named Jimmy”, reunindo cenas clássicas e imagens inéditas- e já é um best-seller na Amazon.

“Comecei o perfil por conta do blog que eu tinha na época (Marketing na Cozinha). Na época a ideia era ter mais um canal além de Twitter e Facebook pra divulgar o site. Quando eu comecei a fazer fotos do Jimmy o objetivo era mostrar em primeiro lugar que aquele perfil era de uma pessoa de verdade (as pessoas achavam que eu pegava foto de internet e que era tudo fake) e em segundo mostrar que a raça bull terrier é incrivel”, lembra ele em entrevista ao Don’t Touch.

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Ele não imaginava, entanto, que o perfil do cão no Instagram seria um divisor de águas na sua vida – e até para a raça. “Nunca um bull terrier teve tanta visibilidade. Eu recebi ano passado um email do presidente do Kennel Club de Londres, que criou a raça há séculos, me agradecendo pelo trabalho, dizendo que eu inverti a curva da raça na Inglaterra ano passado. Isso não tem preço.”

O segredo para ter um perfil com 394.000 seguidores? Fazer com vontade. “E não pensar muito nos seguidores. Ser original também conta. Existem 100 milhões de perfis de cachorro, de bull terrier uns 500 mil. Se for pra fazer o que alguém já faz prefiro não fazer nada.” As alegrias são diárias e chegam por e-mails e comentários, em fotos de outros cachorros e até de tatuagens que fazem com as ilustrações do Rafael. “Esse sorriso que as pessoas dão do outro lado é a maior recompensa.” Apesar do sucesso estrondoso, Rafael não vive exclusivamente do perfil. Faz o festival Fartura Gastronomia e cuida da comunicação do Instituto Ata, do qual é cofundador. “O Jimmy é a melhor parte do meu dia”, confessa.

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#portfoliodonttouch: A noite sem filtros de Luara Calvi Anic

por   /  03/08/2015  /  19:00

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Antes do Instagram, existia o Flickr. Uma comunidade de apaixonados por fotografia, com dinâmica e estética próprias. Lugar perfeito para você se perder clicando de foto em foto e descobrindo mundos tão diferentes do seu. Em uma madrugada no Gtalk com o Claudio Silvano, o Flickr serviu de inspiração para mostrarmos pra mais gente porque aquele apanhado de “foto errada” nos parecia tão interessante. Surgia então o Oh Oh, zine filho único de pais separados, cujas fotos me pareciam tão lindas em 2010 quanto hoje > donttouchmymoleskine.com/oh-oh-zine.

Ver as fotos da Luara Calvi Anic me lembrou dessa época em que eu não largava o Flickr por nada. Ao mostrar sua casa, seus amigos e, principalmente, a noite paulistana com música boa de verdade – tocada pelos DJs da Selvagem (aqui tem uma mixtape deles feita especialmente pro Don’t Touch!), ela cria um mundo de desbunde e de ressaca, de tédio e fantasia.

Luara tem 32 anos, é jornalista, trabalha na revista Claudia, onde edita cultura e comportamento, e já passou por Trip, Tpm e Lola. Também toca a editora independente picnic anic. Na entrevista a seguir, ela conta sobre sua fotografia, 100% analógica.

Mais em > www.instagram.com/luaracalvianic + www.flickr.com/photos/luaracalvianic + www.facebook.com/picnicanicdog

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A primeira coisa que elas têm em comum é o fato de serem feitas com filme, o que traz uma tonalidade particular. Uso filme não por nostalgia, mas porque tenho a mesma câmera desde os 18 anos e gosto do quanto eu conheço seu funcionamento. Já tentei fotografar com digital, e certamente vou fazer isso de novo, mas essa possibilidade de clicar a mesma imagem 350 vezes, ou mais, me dá traz um certo desinteresse de editar e organizar aquele HD lotado. Com o filme tiro duas fotos da mesma imagem para garantir, quando chego nas 36 poses mando revelar, fico ansiosa com o resultado, e é uma sensação ótima quando vejo o que saiu.

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As fotos também têm em comum o fato de trazerem uma parte do meu cotidiano. Tem a festa Selvagem, que fotografo desde o começo (2011), meus amigos, tem algumas viagens, a minha casa.

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Conforme vou fotografando percebo que as fotos se agrupam de alguma forma. Aí vou criando categorias particulares na minha cabeça. Deve vir do jornalismo essa mania de agrupar as coisas para dar algum sentido à elas. Depois, transformo esses grupos em fotolivros que publico pela picnic anic, minha mini editora de mim mesma. Por exemplo, um deles tem apenas fotos da Selvagem, um outro chama Blue Velvet, que são fotos com uma tonalidade azulada. Agora estou preparando um com fotos que fiz na Croácia, de onde vieram parte dos meus antepassados.

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Eu comecei a fotografar quando comprei essa minha câmera. Na época, 2002, eu trabalhava na loja de artes da Livraria Cultura. Dava bastante tempo de olhar os livros, conversar com os clientes. Lá, eu tive contato com a maioria dos fotógrafos que gosto até hoje. Demorou para eu pegar a técnica, saiam aquelas fotos completamente desfocadas que no começo eu até achava legal mas depois começou a me incomodar a falta de domínio, não as fotos sem foco. Dessas eu continuei gostando. As coisas ficaram mais claras quando eu grudei em amigos fotógrafos para aprender um pouco de técnica.

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Como sou também jornalista, e diariamente preciso ter clareza para comunicar, com as fotos é o oposto: não pretendo comunicar nada específico. O que faço não é fotojornalismo. Então acho divertido quando quem vê fica intrigado. Por exemplo, essa foto do braço em uma cama é um homem ou uma mulher? Essa pessoa está no hospital? Sei lá, no jornalismo eu pesquiso, pergunto, tento entender e explicar da maneira mais clara possível. Na fotografia, não preciso explicar nada.

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Veja os demais posts da série #portfoliodonttouch:

A fotografia sentimental de Juliana Rocha + #retratosanônimostakeover por @rochajuliana

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

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A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian

#portfoliodonttouch: Corpo em deslocamento na fotografia de Patrícia Araújo

por   /  27/07/2015  /  19:00

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Patrícia Araújo busca desvendar o universo da intimidade. A fotógrafa cearense, radicada em São Paulo desde 2009, dedica-se a pesquisas em arte contemporânea e “investiga as relações do corpo diante de situações de borda (situações de fronteira) em contextos de viagens e deslocamentos”.

A série Patagônia, destaque deste post, mostra bem isso ao inserir pedaços de um corpo, ou de vários, em meio a cenas em que a natureza surge pronta para ser contemplada. Quais histórias emergem desse encontro?

Em entrevista para o Don’t Touch, a fotógrafa fala sobre a sua trajetória e o seu encantamento pela fotografia.

Mais em > patriciaaraujo.net + situacaodeborda.tumblr.com + edicoesaderiva.org

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Há algum tempo a fotografia vem tomando outro rumo no meu trabalho. Me dedico a pesquisas em arte contemporânea e cada vez mais venho trabalhando com outros suportes: vídeo, desenho, cartaz, performance, texto. A fotografia caminha lado a lado à essa produção como companheira do dia adia, registrando meu mundo afetivo, quase como um diário. Geralmente depois de alguns processos intensos de produção para algum trabalho eu também paro para olhar as fotos que foram feitas naquele período. Edito, entendo a história que desejo contar e transformo esses registros em pequenas publicações que costumo chamar de livros-diário.

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Comecei a fotografar “de cara” na redação de um jornal em Fortaleza. Passei 3 anos lá atuando como fotojornalista. Transitava da editoria de polícia a cultura e essa experiência foi muito importante para o meu amadurecimento como pessoa dentro desse mundo louco. Mudei para São Paulo em 2009 e aqui passei 2 anos na Folha de S. Paulo (na revista da Folha). Foi quando comecei a me dedicar quase 100% a retratos – que amo fazer!

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No mesmo período entrei no mestrado em artes visuais na ECA e resolvi me dedicar mais a pesquisa que estava fazendo. Hoje desenvolvo projetos em arte contemporânea em que investigo as relações do corpo diante de situações de borda (situações de fronteira) em contextos de viagens e deslocamentos. Desde 2010 me afastei um pouco do fotojornalismo “hard”, mas continuei e continuo atuando como freelancer na área de fotografia e vídeo. Hoje toco a Aterro Filmes, uma produtora de vídeo e foto, em parceria com o videomaker Raphael Villar. Também lancei este ano em parceria com o artista Haroldo Saboia a Edições à Deriva, uma editora de publicações independente.

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[Sobre a série Patagônia] Esse trabalho é um conjunto de fotografias trocadas por dois amantes apaixonados. Como cartas, eles trocavam fotografias em viagens e se fotografavam quando juntos. O livro é de autoria mista com fotografias minhas e outras apropriadas. Conta a história de um lugar que nunca existiu, do encontro de dois corpos em segredo e sussurros.

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[Sobre o que espera de resposta para suas fotos] Respostas, reações – sejam elas de que natureza for. A ausência de reação, a impossibilidade de troca ou embate é que me frustra. 



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Veja os demais posts da série #portfoliodonttouch:

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A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

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Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir

por   /  02/07/2015  /  11:00

Simone de Beauvoir

“Mal-entendido em Moscou” é um livro de Simone de Beauvoir até então inédito no Brasil. Fala de amor e de envelhecimento. De estar com alguém, sentir plena cumplicidade e, por uma coisa mínima, pensar em jogar tudo fora – o que contribui pra um pensamento que eu tenho de vez em quando, de que não mudamos tanto assim com o passar do tempo. Temos angústias, medos e questionamentos que se repetem, são cíclicos, e nos assemelham a uma adolescente de 13 anos, não importa se já passamos dos 60.

O livro é um companheiro, desses que deixam saudade quando vão embora. Como as vozes dos narradores se intercalam, a gente consegue sentir bem o quanto o que nos aflige tantas vezes é exatamente igual ao que perturba o outro. Pena que na vida real a gente nem sempre consiga aprofundar tanto assim. Se você quiser acrescentar novas nuances à sua própria crise existencial, corra pra livraria e aproveite.

Deixo vocês com uns trechos:

Diziam isto constantemente: a senhora tem um ar jovem, vocês são jovens. Elogios ambíguos que anunciam futuros penoso. Manter a vitalidade, a alegria e a presença de espírito é continuar jovem. Logo, são próprios da velhice a rotina, a melancolia, a caduquice. Dizem: a velhice não existe, não é nada; ou então: é muito bonita, muito tocante; mas, quando a encontram, fantasiam-na em palavras mentirosas.

Seria lindo, pensava ele constantemente, se o passado fosse uma paisagem na qual se pudesse passear a seu bel-prazer, descobrindo pouco a pouco todos meandros e recantos. Mas não era o caso.

Ela disse a si mesma: “Vou ter tempo, todo o tempo do mundo para mim, que sorte!” Mas não é uma sorte quando não se encontra nada para fazer. E, além disso, ela se dava conta, a abundância de lazer nos empobrece.

Em Paris, somos ligados por uma rede de hábitos tão estreita que não sobra espaço para nenhuma interrogação. Mas, debaixo dessa carapaça, o que sobra entre nós de verdadeiro e vivo? Saber o que ele é para mim não me diz o que sou para ele.

Nicole se encontrava de mãos vazias, sem ter nada no mundo além de André, que de repente ela não tinha mais. Contradição atroz da raiva nascida do amor e que mata o amor.

Para saber mais sobre o livro, vale ler este texto do Estadão > O desencanto de Simone de Beauvoir está em livro inédito no Brasil

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Aço, de Alessandra Leão

por   /  26/05/2015  /  12:00

Alessandra Leão

Música que vale a pena é aquela que me tira do lugar e me faz ter a sensação de viajar só de fechar os olhos. Toda vez que eu ouço Alessandra Leão sinto isso. Desde a época do Comadre Florzinha, até hoje nos shows no Sesc ou na Casa de Francisca. Ela me leva não para um destino conhecido e esperado, e sim para um lugar novo cheio de encontros e sensações que me acompanham por um bom tempo, até mesmo depois de voltar. A viagem às vezes é pra dentro, pra uma história dela em que vejo uma minha reverberar. Em outras, é para um pedaço de Pernambuco que só conheço de ouvir cantar.

Pra nossa sorte, Alê resolveu nos proporcionar várias viagens. Ela está fazendo uma trilogia de EPs, aqueles álbuns menores do que um CD tradicional, com cinco, seis músicas. Primeiro ela lançou “Pedra de Sal”, que é brilhante e ainda tem a maravilhosa “Tatuzinho”. Agora vem o segundo capítulo, “Aço”. Visceral, rasgado, o disco começa assim: “Cortei a carne até sangrar / E o que sai de dentro dela é aço, é aço”. E o que vem depois segue essa toada.

O Don’t Touch foi escolhido para mostrar “Aço” em primeira mão na internet.

Vamos ouvir juntos?

Abaixo, as respostas dela a uma entrevista que fiz:

A escolha em fazer uma essa trilogia, que chamo de “Língua”, parte de algumas questões de ordens distintas: temporal, financeira e principalmente estética. Ela fala de um mergulho íntimo e pessoal, e cada um dos capítulos se relaciona com uma etapa dessa trajetória. “Pedra de Sal”, lançado no fim do ano passado, fala do princípio da jornada, de quando tomamos ar antes do mergulho, de achar que o ar vai faltar, de seguir adiante e tocar o fundo.

“Aço” é a parte mais visceral e profunda, fala do que me constitui, do que sou feita agora. Pra isso, foi preciso “cortar a carne” e me embrenhar por dentro de mim. O que nem sempre é um caminho fácil, e por isso, a presença de cada um que compartilhou esse tempo comigo, tem sido mais do que fundamental: Luciana Lyra (co-direção artística), Vânia Medeiros (projeto gráfico), Kastrup (bateria), Missionário (sintetizador), Mestre Nico (percussão), Kiko Dinucci (guitarra), Rafa Barreto (guitarra e parceria numa das faixas), Ligia Meneguello e Dora Moreira (produção) e principalmente Caçapa (que assina a produção musical e a maioria dos arranjos, além de dividir duas músicas músicas). Essa parceria com ele vem desde o meu primeiro disco e acho que em “Aço” sinto a presença dele mais pulsante e intensa, esse de fato é um disco muito sobre mim, sobre nós dois, e essa parceria, que se ramifica por tantas partes da nossa vida.

Além dessas pessoas que já trabalham comigo há um tempo, a presença de Odete de Pilar, coquista da Paraíba, foi um dos momentos mais emocionantes dessa parte do mergulho. Foi pra ela que compus “Odete”, música que gravei no meu primeiro disco, não nos conhecíamos pessoalmente e esse encontro foi dos mais bonitos e necessários. Em “Aço”, cantamos “Corpo de Lã” juntas e viramos bicho e voltamos melhores do que chegamos, assim são os bons encontros. Assim, me senti com ela e me sinto com esses meus companheiros todos.

Esse é um processo que eu precisava passar – e acho que precisarei outras vezes ainda, outros mergulhos, pois essa nossa profundidade muda dia a dia, e precisamos voltar a tomar ar, dar novos mergulhos e emergir deles. É um caminho profundamente transformador. Essa sou eu agora.

“Aço” vai pro mundo, que bom. Agora, que venha “Língua”!

Acompanhem a Alessandra Leão:

www.alessandraleao.com.br

www.facebook.com/alessandraleaooficial

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