fratura exposta



fratura exposta, por júlia de carvalho hansen

Celeste, por Júlia de Carvalho Hansen

We can be heroes
Just for one day

David Bowie

São poucos os que atravessam até o Verdadeiro Amor. Lá estão sentados Carlos e Vicente. As vozes assaltam o silêncio. A garota se levanta do caixa de ferro, abre a porta balcão da cozinha. Quando entra, os mosquitos já têm medo dela. Voam pela janela. Não voltam com ela para o salão, tão pouco rondam o café dos clientes. Traz no pratinho branco, circulado de vinho, com o logotipo de coração, a torta de maçã que pediram. Conversam:

– Faz tempo que não ouço falar de uma boa desgraça.
– É verdade, Vincente, eu também.
– Teve aquela da prostituta assassinada porque sabia demais.
– Não disseram que ela sabia demais, só que ela tinha um anel de escaravelho, como o do Jonas Jr tatuado nas costas.
– Ah é, aquele que deu pra ver quando ele comemorou o gol.

Olham pra televisão. Viram-se pra garota do caixa:

– Ô Celeste, não dá pra trocar desse canal?
– Não. Só pega esse. E vai começar o jogo. Não há mais ninguém atravessando os portões.

Confirmam sem olhar pra fora. O Verdadeiro Amor fica ao lado do estádio. Daria pra acompanhar o jogo sem nada além dos ouvidos. Ainda mais em grande dia, é a semi-final do campeonato. Jogam ali o Pertinentes x Arroubo. Quem ganhar vai jogar contra o Couraçados, classificado por pontos já na rodada anterior.

Os jogadores já terminaram de se aquecer. Riem, abatendo a responsabilidade. Pulam um em cima do outro. Cumprimentam a outra equipe. A torcida assobia. Festa só. O mundo é de espelho, vai pro telão. Filmam o dente de ouro do Lázaro, brilhante.

–Esse aí não sei não,… vende a mãe e entrega em casa. – diz a Celeste. Vicente confirma um tanto surpreso, já que ela nunca fala, a não ser quando sorri de olhos baixos depois de espantar as moscas:
–Pipoqueiro, nervosinho.

Lança-se a moeda pra cima, a bola vai rolar. Tocam as trombetas, o juiz apita os astros. No pé do Pertinentes, Lázaro passa pro Camarada. Um pro outro de novo. Está dado o início. É uma verdadeira tentação impossível saber o que vai acontecer. Cheio de furor na primeira tentativa, cara a cara com Garoto, Lázaro chuta pra fora, gargalha e bate palma.

Celeste atravessa o Verdadeiro Amor com um pote de canela nas mãos. Chega na mesa dos rapazes e derrama por cima da torta de maçã que já foi comida. O prato vazio fica todo avermelhado. Vicente e Carlos nem olham, mas dizem:

– Não sei se foi pra Líbia ou pro Tibet que despacharam o Jonas Jr.
– Foi pra Líbia. Depois de perder os milhões em Milão ele ficou ilegal por lá. Ainda tentou argumentar que os italianos ficariam sozinhos com eles próprios. Mas não teve jeito.
– Fazem isso, né? Pegam os imigrantes, botam num barco e mandam pra África.
– É, foi por isso que eu pensei que tivessem mandado ele pro Tibet.

A Celeste olha a televisão, limpando as mãos no avental. Garoto lança a bola num chutão pro meio-campo. Fecha os olhos ainda atiçando a pontaria, vendo se cai com alguém do Arroubo. Os meninos gritam na arquibancada um refrão de décadas.

Foi. Dadá, numa disputa tête-à-tête, fica com a bola. É o homem certo, na hora certa. Dribla um, dribla dois, entra na área e Camarada chuta a canela do craque. É PENAAAAAAAALTY. Dadá fica num estado intransponível. Caiu de cara, pobre Dadá, o nariz sangrando. Levam-no numa maca. Garoto corre até o treinador. Trinta coisas indizíveis. O coração de Celeste dispara, grita!

–Vai, Arroubo!

Os dois rapazes se entreolham e continuam:

– Cinquenta mil chineses mortos na via férrea, irreparável.
– Tudo isso por conta de meia dúzia de carros-fortes. Vamos pedir uma outra torta?
– Vamos. Pelo menos é como dizem, vivemos num mundo sem nazismo.

Gargalham. Camarada recebe o cartão vermelho e voa pra cima do Garoto. Se encaram fundo. Garoto diz alguma coisa e vira as costas. Na arquibancada ARROUBO ARROUBO. Dentro do Verdadeiro Amor, Vicente chama Celeste:

– Traz uma outra de maçã pra gente?
– Acabou. Não tem mais. Acabou. — diz, horrorizada.
– Assim fica difícil, Celeste. Sempre no futebol porque o botão quebrou e o controle remoto sumiu, agora vai me dizer que não tem torta de maçã porque não fabricam mais maçã? — Celeste avoando, volta:
– Hein? … ah, torta! tem sim. Espera o penalty que vou lá pegar.

Não há dúvida. Sem Dadá, Garoto é o melhor pra isso. É goleiro, conhece o erro alheio. E é dele a bola, é dele o penalty, é dele a torcida.

– Agora ele vai dar a distância numa curva curta, pra bater com a perna esquerda. — repara Celeste baixinho, cheia de dedos frios. — Acabou, acabou. — geme, ternura — Arroubo, Arroubo!

Garoto toma a distância de lado, estoura o pé esquerdo na bola, goleiro prum lado, bola pro outro é GOL! Gooooool! Celeste balbucia em um rodopio: –Arroubo 1, Pertinentes zero!– Vira as costas de alívio, sorriso pra ir pegar a torta dos rapazes, mas fica ainda um segundo, olho na televisão, comovida.

Na comemoração Garoto arranca a camisa, aponta pro peito e diz pra câmera de televisão algo ininteligível. Garoto corre uma vez prum lado, corre outra vez pro outro. A torcida grita GAROTÔÔÔ. Ele retribui, sobe na grade, manda beijos estatelados com a palma da mão. E ainda diz: –Pôôôôrrra!!! – Quando todos começam a acalmar, Garoto dependurado salta a grade pro outro lado, afasta o segurança e abre o portão.

Garoto sai do estádio. Já não podem mais contê-lo, sorrindo, atravessa. Está na porta do Verdadeiro Amor, quando é atingido pelo controle remoto que Celeste lança do balcão. Na cabeça, ele desmaia. Tão feliz que não aguenta.

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Foi a Giuliana Xavier quem mandou o texto e a foto dessa fratura. Ela explica: Júlia de Carvalho Hansen é escritora e tem um livro publicado em edição independente, o Cantos de Estima. Também desenvolveu o projeto 12 exemplares. A foto é de Ilana Lichtenstein

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fratura exposta, por carol nazatto

Eu te amo, por Carol Nazatto

Ele olhou para ela e disse, com a voz macia, que a amava. Ficou olhando para ele, com cara de boba, meio processando a informação, meio achando que era um sonho. Sem que ele percebesse, ela beliscou o braço. E, não, não era um sonho. Suas mãos apertavam as mãos dela. Seus olhos a vigiavam e ela, nervosa, olhava para os pés.

Quando se deu conta, um silêncio constrangedor reinava na sala. Ela olhou rapidamente para cima. Seus olhos encontraram-se com os olhos dele. Sorriu, um sorriso sincero, beijou-lhe os lábios, como nunca havia feito antes. Encostou seu rosto no dele e, num sussurro, declarou-se, também.

- Eu te amo, meu amor. Eu te amo desde que você disse, naquele bar, que nunca havia sentido perfume melhor que o meu. Eu te amo desde que você me pediu um cigarro, naquela noite fria, e disse que fumava o mesmo cigarro que eu. Eu te amo desde quando, na primeira vez que andei no seu carro, tocou aquela música. A música que a gente ouve, até hoje. Eu te amo desde que soube que você gosta de carne mal passada, que você canta no banho. Eu te amo desde que eu vi você dormindo, aqui, aconchegado em meu corpo. Eu te amo desde que ouvi sua voz. Olhei em seus olhos. Passei as mãos em seus cabelos. Encostei minha cabeça em seus ombros. Apertei sua mão. Acordei com você ao meu lado. Eu te amo, meu amor, meio que assim, amor a primeira vista.

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A foto é de Björn-Eric

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fratura exposta, por vinícius moreira

Enfiando o nariz, por Vinícius Moreira

Quando afundava a cara no travesseiro  podia sentir, bem lá no fundo, um cheirinho de fumo. Mas tinha de enfiar mesmo o nariz, para que as poucas moléculas de odor pudessem permear suas parcas células olfativas. Dali, puxava para as entranhas o sumo de uma alma, numa fungada desesperada, como um asmático suga da atmosfera seu sopro de vida em um momento de surto.

Era a mais efetiva maneira que possuía de reviver os tempos idos. Repetia liturgicamente seu ritual, cada vez metendo o nariz mais fundo, puxando os últimos indícios da vida que levara. Sentia a pressão sangüínea como uma corrente marítima, deitava esguio percebendo-se frio. Literalmente frio. Tremia em transe, apesar da alta pressão em suas veias. Seu sangue era mesmo uma corrente, sabia disso. Sentia seu coração gélido como a Antártica, levando sangue aos membros e órgãos, como faz a Corrente de Humboldt, banhando a costa do Chile e do Peru com as águas mais frias do planeta.

Buscava se aquecer, afundava a cabeça no travesseiro mais uma vez. Tentou chorar. Respirou o mais fundo que podia, sorvendo as últimas moléculas de fumo em direção às terminações nervosas de suas narinas. Lembrava-se dos abraços, do sexo, das risadas encancaradas. O cheiro que dali vinha, guardado por semanas em uma gaveta carcomida, penetrava sua alma, ativava suas memórias mais latentes, provocava sua fisiologia, aquecia seu coração de maneira ímpar, causava turbilhões em cada uma de suas células enquanto revivia detalhadamente todo momento bom. Sentia seu sangue enquanto esfregava os pés: era outro sangue. Era quente, como fica a Corrente de Humboldt quando dá lugar ao El Niño. Como se a placidez de tão frias águas fosse objetivamente castigada pela natureza infalível das reações do amor.

Esquecia sempre, em verdade, preferia não lembrar, que essas memórias aconteciam como um estalo, um estampido luzindo num dia chuvoso, e logo estiavam, dando lugar à frieza da realidade sem mentiras, sem dissimulações, dando prosseguimento ao ciclo natural das correntes de seu corpo. Seu coração batia mais devagar. Sentia frio. Voltava à realidade: um homem em seus 35 anos, cabelo e barba displicentemente ignorados pela completa negação de sua vaidade, despido de sensações verdadeiras, perenes, vivendo entre orgasmos de memórias e sofrimentos amnéticos da vida que viveu. Nu, às 21:30 de um domingo, deitado sobre a cama de solteiro que há semanas comportava Irene, seu travesseiro, e suas tragadas pós-orgásmicas de Camel.

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A foto é de Julia Agafonova

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fratura exposta, por isabel araújo

Peripécia, por Isabel Araújo

Eu lembro de um trecho de infância lá em Natal. Para precisar ainda mais: Pirangi do Sul. Numa tarde com cheiro de cenário de filme infernal. Num dia que a gente mais uma vez desafiou toda astúcia de uma mente pré-adolescente: subiu numa mangueira mais alta do que nossa própria ânsia de viver. E lá pelas tantas, depois que os galhos mais baixos ficaram para trás e a gente alcançou altura suficiente pra perscrutar a sombra alaranjada do sol por entre os vãos da árvore sobre o nosso rosto jovem, ouviu-se um PLOFT.  Nem precisamos recorrer ao nosso arquivo de história em quadrinhos para entender a onomatopéia: alguém caiu. E não foi um PLOFT solitário. Veio acompanhado de vários CRÉQUITIS. Inclusive um mais longo e seco, depois do próprio PLOFT. Pronto. Um corpo estatelado no chão. Sem vontade nenhuma de nadica de nada. Sem desejo de nem sequer se levantar. Era o corpo do meu primo.

Quandos descemos pra verificar o que um PLOFT teria feito do corpo dele, vimos: um pedaço imenso dele pra fora, pra um lugar que a nossa mente que tão pouco percorreu não estava acostumada a enxergar. Um osso. Pra fora da pele. Desajeitado. Imenso. Monstruoso. Quem conseguiu olhar constatou de maneira singular: algo de errado há com nosso primo. Quem não conseguiu se virou pela incapacidade de fitar a realidade crua: osso pra fora da pele. E se eu pudesse dizer que senti algo vindo daquele osso chutaria uma felicidade da independência que ele crê possuir. Quase a mesma que senti quando saí a primeira vez a noite, aos 14 anos, com hora marcada pra voltar. Minha irmã, mais nova que eu, sentiu o estômago embrulhar. Juntou as mãos doces e pequeninas pra frente do seu rosto, pra não enxergar o osso independente. Ela se remexeu na cadeira que nem estava sentada. Talvez fosse realidade demais para seus olhos inocentes.

Eu nao saí do lugar. Me mantive de frente pro meu primo. E mal pude entender o que via: um misto de mim queria extinguir-se um outro queria consumir toda aquela ferida. Antes aquele osso estivesse quebrado dentro do corpo. Fora do alcance dos nossos olhos. Só o meu primo poderia falar da dor que sente, de um troço fora do lugar que deve estar. Nós no máximo tentaríamos traduzir. No final nos restaria assistir, não o osso, mas o olhar sofredor dele. Da ponta que quase saiu pra fora, mas se manteve calada. Quieta. Morna dentro do corpo. Foi só porque a pele rasgou pra deixar o que dói em evidência que pudemos sentir com ele essa dor. E ele também. Seja pelo próprio olhar incrédulo dele enxergando a si mesmo, seja pelo olhar de horror de quem assiste ou do que os dois puderam perceber: a clara atestação de nossa impotência, de nossa fragilidade. Foi o corte que rasgou a pele, que mostrou o osso, independente do corpo, que fez a minha irmã botar a mão no rosto e eu enxergar a dor (e a alegria) do que somos. Fosse ele não exposto, eu ainda estaria tentando interpretar.

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A foto é de Amalia Sieber

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fratura exposta, por guilherme athayde

Fratura exposta, por Guilherme Athayde

E ali estávamos, depois de tudo. Talvez eu não tivesse me dado conta ainda do que era, mas não era a mesma merda de antes. Não era nada de antes: bom ou ruim. Nem era estranho. Até que nos abraçamos, aí eu lembrei que era cumplicidade. Que era amor, que esse não acaba, nem mesmo “na epifania da pretensão ridícula dos bigodes”. E fui embora sem pensar nessas coisas, sem pensar em outras também. O passado dissolveu, e eu fui seguindo pela rua, o caminho que eu tinha e que era o agora. E quando eu entrei no elevador e ele fechou a grade, a vida nova reapareceu e lembrou: é onde eu estou, o melhor lugar do mundo.

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A foto é do próprio Guilherme > http://www.flickr.com/photos/furore/4376793971/

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fratura exposta, por tatiane r. lima

Bisa, por Tatiane R. Lima

Quem sabe dizer que fratura dói mais? A causada pelo namorado que partiu? Pela solidão que fica? Ou a do adeus a alguém importante na sua vida?

Para mim, esse último é o mais difícil de sarar. Dói no verão, dói no inverno, dói de dia, de noite, em datas que seriam especiais…

Minha garganta ainda fecha quando encontro a foto do último Natal e lembro da sensação que tive ao revelá-la. Algo tinha mudado. Foi a mesma sensação daquela última terça-feira. O brilho dela tinha mudado. Estava mais fraco, se apagando.

Arrependo-me de não ter sido a primeira a dizer o orgulho que sentia em tê-la na minha vida. Que prazer eu sentia ao atender seus desejos, sempre tão singulares, tão seus.

Que alento eu sentia ao me espremer na cama dela para ver novela e ainda ganhar um cafuné na cabeça. Quanta graça eu achava nas suas manias – dos lenços escondidos ao caderno repleto com nome de celebridades.

Eu queria ter sido mais paciente. Queria ter dado mais alegrias, mais um beijo e um abraço. Queria ter dito, mais vezes, como ela era, é importante para mim – e é tanto que me surpreendo, descubro aos poucos.

Irônica é essa vida: uma fratura tirou ela de nós; uma fratura deixa a ausência dela mais dolorida, mais difícil.

Do fundo do meu coração eu espero não ser tarde demais. Espero que você saiba que você, bisa, que, com tantos erros e acertos, você foi um exemplo. O Meu exemplo de paixão pela vida.

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A foto é de Manuel Cristaldi

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fratura exposta, por gabriela guerra

Para o menino do cabelo arrepiado, por Gabriela Guerra

Eu passeava pela casa escovando os dentes, arrumando um porta-retrato meio torto na estante, um copo caído na pia. Entrei no quarto e, antes de levar mais alguma roupa suja para o cesto, parei em frente à minha cama. Juro que te enxerguei ali, com a cara de sono mais linda que já vi alguém ter. E antes que você pudesse dizer qualquer coisa, qualquer reclamação besta sobre aquela minha necessidade de organização às duas da manhã, eu ia te pedir em um tom muito sério para você não bagunçar minhas almofadas, por favor, já era a trigésima vez que eu tinha que repetir aquilo. Eu ia me esforçar o máximo para que todos os músculos do meu rosto fizessem aquela cara de criança só pra você rir mais lindo ainda da minha seriedade avoada, falando com a espuma da pasta na boca.

Eu fazia questão de escovar os dentes na sua frente com displicência, de esquecer o corretivo nas olheiras em alguns encontros, de me passar por mal-educada e não cumprimentar as pessoas no elevador que era pra você perceber, de algum jeito, que eu não sou tão perfeita quanto você dizia. Eu fazia questão de reclamar do seu cabelo, daquela bermuda laranja horrorosa e da sua paciência no trânsito só pra você pensar que não era tão perfeito quanto na verdade é.

Não doeu quando tirei suas fotos do móbile, joguei fora a escova de dente e renomeei seus contatos na agenda do celular. Acho que existe tanto de você neste apartamento que umas coisas ou outras não fariam muita diferença. O sofá da sala é todinho seu. Você nunca dividiu ele comigo, nem mesmo em dias de jogo do Náutico quando você não parava quieto e andava pra lá e pra cá, nervoso com os agouros dos vizinhos. Também não pude me desfazer do travesseirinho de cetim azul que a sua avó me deu. É que existem nele mais lágrimas minhas, gritos abafados e apertos do que aquele seu perfume Paco Rabbane. E o meu Nounouse-sem-nome também não saberia dormir em outro lugar.

Outras mudanças foram feitas em silêncio, como se a casa inteira ainda precisasse se acostumar à sua ausência. A faca de cozinha, por exemplo, voltou para o esconderijo secreto (é que agora eu tenho certeza absoluta de que os ladrões tentam arrombar a porta de casa pelo menos umas três vezes por noite). Na semana passada, comi biscoito recheado no jantar quase todos os dias porque eu sabia que você não ia reclamar. E por isso, ganhei os dois quilos que você não vai ver para dizer que, agora sim, aparento meus quase vinte e um anos. Mas, olha, eu me sinto muito bem em ter que enfrentar a escuridão do corredor sozinha, em ter que aprender o que danado é um radiador para o carinha do posto não me enrolar mais, em aprender a fazer uma feira de supermercado sozinha – e em ficar feliz com isso.

Porque foi de tanto olhar pra esses dois mundinhos verde-claro que você carrega no meio do rosto, de tanto enxergar as coisas através deles que eu vi que um monte de outras coisas podiam ser bem bonitas também. Mas só porque eu vi por eles primeiro é que hoje consigo ver com muito mais calma por esse meu amarelo-estranho. E agora, toda vez que encontro minha cama vazia, com as almofadas milimetricamente organizadas, sinto uma alegria involuntária de quem sabe que só podia ter sido com você, só podia ter sido você.

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A foto é de Nastya Vasileva

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fratura exposta, por rodrigo levino

Bruna, por Rodrigo Levino

Ser o mais alto da classe aos oito anos de idade significa que você é desengonçado. Bruna era desengonçada e meio boba, ria alto e por qualquer coisa, embora à época eu achasse isso muito próximo do que fui saber anos depois tratar-se de imponência. O seu andar molengo e a voz estridente ornavam com o perfeito caimento dos cabelos loiros.

Eu estava saindo de um caso complicado de se entender, a paixão pela professora de português que se tornou dolorosa quando percebi que dificilmente poderíamos levar o meu plano – que envolvia casamento e filhos – adiante por tratar-se de uma mulher muito velha e que certamente não iria querer brincar comigo quando eu cansasse de beijá-la. Bruna tornou-se com o passar dos dias, e um olhar mais atento, uma outra paixão possível.

Mantive-me em silêncio, embora publicamente abobalhado com o que ela dizia, fazia, o jeito que sorria tentando esconder os dentes meio tortos e como desengonçava tudo ao redor com seus braços maiores que o tronco e as pernas cambaleantes. Na hora do recreio eu sentava na escada do pátio e a observava de longe abrindo a lancheira cor-de-rosa da Barbie com o cuidado que têm as donas-de-casa e as mães e reiterava o meu desejo, outrora relacionado à professora, de casar, ter filhos e brincar de casinha, médico e esconde-esconde. Tudo junto.

Sem nenhum traquejo para revelar o sentimento, enxerguei no último dia de aula a chance inescapável de fazer saber ao mundo tanto amor. No sorteio do amigo oculto da turma, uma semana antes do fim das aulas e início do limbo de três meses de férias que nos afastaria até o recomeço do ano letivo, o coração veio à boca quando as letras desenharam o nome no papel dobrado, retirado de um copinho de plástico. B R U N A, Bruna, eu repetia, “BRU-NA”.

“Você gosta dela, né?”, perguntou minha mãe à queima-roupa numa das oito vezes num só dia em que eu tentava convencê-la de que o limite de alguns poucos cruzeiros era baixo demais para tudo que Bruna merecia, que o presente deveria ser grande e que ela era linda. ‘”Linda” desencadeou a inquirição da qual não pude fugir. Eu disse sim e a coragem de admitir levou minha mãe, compadecida, a bater perna comigo nas lojas do centro da cidade em busca do presente perfeito que se revelou no terceiro dia um urso de pelúcia enorme e perfumado ao custo dos olhos da cara e de acordo com o que eu julgava justo.

Por sorteio, eu fui o primeiro e entregar o presente e entendi isso como um inexorável sinal divino. Nosso destino foi traçado na sala de aula. Pronunciei o nome enquanto andava em sua direção, ” Bruna”, ao que ela riu, pegou, desembrulhou, gritou de felicidade um “ai, que lindo!” e abraçou o urso como deveria fazer comigo, que embasbacado mal ouvi a classe inteira fazer coro de alguma coisa que impingia em nós a condição de amantes. “Eu também tirei você!”.

Teria sido melhor não. Um Resta Um fuleiro, de plástico azul, que eu recebi acabrunhado e medindo ali tudo que eu valia para ela; o limite do preço estabelecido pela professora, o tamanho do amor que ela dedicava. Correr e chorar me pareceram as únicas atitudes possíveis e foi o que fiz, antes de encerrar a questão jogando o regalo no lixo.

Entramos em férias e nunca mais vi Bruna. Até hoje espero o recomeço das aulas, um pedido de desculpa, a chance de dizer que “tudo bem, a gente pode ser feliz mesmo assim, esquece o que passou, me dá um beijo e vamos para o pátio lanchar juntos”, qualquer coisa que cure a fratura exposta, à mostra, à vista como o choro, o tabuleiro azul do Resta Um, os pinos vermelhos e todo amor do mundo, do tamanho de um urso enorme e perfumado.

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A foto é de Mary Robinson

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fratura exposta, por yéssica klein mori

Fata morgana, por Yéssica Klein Mori

Para ler ouvindo So I Thought – Flyleaf

Antes de eu conhecer os prazos, a rotina, a pressão, as contas – antes disso tudo veio o Pedro, marxista e contraditório, ensinando coisas bonitas como a eudaimonia de Aristóteles. Tinha uma simplicidade encantadora e apaixonável.

Assim: simples, encantador, apaixonável.

Às vezes ele me levava pra casa dos pais dele na praia e me acordava de madrugada, vem, vamos ver o sol nascer.

Eu ia, todas aquelas cores e aquele mar que era tão como eu, assim inconstante e indo e vindo e aquela canção que era sempre a mesma e não terminava nunca. Não havia gente vendendo sorvetes baratos e a areia não me irritava.

Outras vezes a gente passeava de mãos dadas pela Oscar Freire e ele parafraseava Gandhi – todas essas coisas que eu não preciso – e eu retrucava, como assim, aquela sapatilha é tão linda. A gente escolhia um barzinho e falava de filosofia e literatura. Você pedia cerveja – a única coisa que você bebia era cerveja – e eu acompanhava. E pensar que hoje, Pedro, eu só tomo drinks destilados com nomes em inglês, cercada de pessoas que eu nem me esforço para lembrar o nome. Todas vestindo sapatilhas da Oscar Freire.

Quando você tinha preguiça de dirigir e a gente resolvia ir pra Jundiaí de trem, você segurava minha cintura enquanto a gente tentava não se desequilibrar no meio de toda aquela gente. Eu lembro como eu adorava quando outro trem passava no trilho do lado e a lufada de vento bagunçava meu cabelo, como se o tempo tivesse parado. Eu não me importava com os bebês chorando e os velhos tossindo. À tardinha o sol deixava os vagões meio tingidos de dourado e eu suspirava, é, Pedro, neste exato minuto eu amo você para sempre. Hoje eu lembro de tudo o que você me ensinou sobre auto-engano, mas a verdade é que naquele minuto eu amei você para sempre.

Eu dizia, Pedro – soltando a fumaça do meu Nat Sherman Fantasia cor de rosa – Pedro, você é bom demais para existir. Não bonzinho do tipo ingênuo, você é cheio de bondade, uma bondade tipo Jesus Cristo. Você não existe, mas vai ser crucificado.

Ele ria, exibindo a covinha na bochecha esquerda e falando que eu levava as coisas a sério demais. Pedro era mais velho que eu e tinha a leveza de uma criança.

Às vezes eu passava a noite no apartamento dele e ele me acordava de madrugada, vem na varanda ver o sol nascer. Pedro, pára com isso e me deixa dormir, eu tenho que trabalhar amanhã. Às vezes eu implicava com algo idiota só para ver você gritando e batendo a porta, só para ver que você também podia odiar. Depois eu chorava, frustrada.

Pedro sempre voltava, todo carpe diem, fugere urbem e outras expressões em latim, enquanto eu era a própria filha de Sartre, o Mal do Século, querendo coisas só porque eu não podia tê-las. Eu me arrastei durante os anos e Pedro sempre explodia, sorrindo, me jogando na piscina mesmo sabendo que eu não tinha roupa pra trocar, insistindo para eu tomar sol, não, Pedro, eu gosto de ser branquinha.

Pedro cheio de moralismos, Pedro que me abraçava forte antes de eu viajar, Pedro ouvindo Queens Of The Stone Age alto demais, Pedro e sua mania de andar descalço, Pedro e aquelas pintinhas no rosto. Pedro era o frio na barriga antes da montanha-russa, era o gosto daquele doce esquecido na infância.

Pedro, como todas as coisas boas, ficou para trás – penso eu, enquanto acendo outro Nat Sherman Fantasia azul -, Pedro ficou para trás quando eu gritei chega e bati a porta. Chorei, frustrada, ele é bonzinho demais pra existir e eu vou ser crucificada. Não voltei.

Pedro foi só um engano.

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A foto é de Margaret Durow

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fratura exposta, por bruna maia amorim

180 dias, por Bruna Maia Amorim

Dançando ele me beijou, jurei, mesmo sem ele pedir, não contar pra ninguém, foi de repente, inesperado, estremecedor e proibido parecia que era, até hoje eu não sei.  Dormi pensando que tinha mudado tudo, que a partir daquele momento tudo seria diferente, pensando que levaria só comigo pra sempre aquele segredo e ponto.O que ele pensava, não sei. Sei que não me deixou, não me deixou esquecer, não me deixou esconder, não me deixou ir sozinha, sei porque tentei muito ir, e ele não deixava de jeito nenhum, mudei tudo, fiz uma reviravolta, enfrentei olhares furiosos, decepcionantes, inquisitivos. Tive medo de pular e então ele ficava me puxando, até que mergulhei, mergulhei fundo, tão fundo que eu quase não lembro, de ter dezessete anos, de descobrir o sexo, o amor, a dor, de as vezes não saber o que tava fazendo, de não saber o motivo e de pensar que não tinha como ser mais feliz.

Três anos, uma sms estranha, o fim que não foi, as revelações mordazes, minha prima, a secretária dele e não sei mais quem. Por que. Porque então ele não me deixava ir, eu pedia, eu implorava, e ele implorava pra eu ficar. No último dia eu sabia dizer bem o que eu sentia, uma faca, dilacerando meu coração, não era só entrando, entrava e remexia lá dentro, cutucava, tirava, entrava, saía e voltava de novo, não párava, doía. Ele ligou durante cento e oitenta dias seguidos, todos os dia. Eu não atendia e doía. Eu dormia, acordava e doía. Eu fazia de conta que tava seguindo com a vida e doía.

Mudei de cidade, faz tempo. A ferida fechou, mas a cicatriz não me deixa mentir, nem esquecer.

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A foto é de Damien Rudd

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