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Posts da categoria "amor"

fratura exposta, por sabrina travassos

por   /  07/02/2013  /  10:21

Melhor erro, por Sabrina Travassos

Você chegou numa sexta-feira de Carnaval, eu tinha acabado de levar um fora e de repente vou curar a carência nos seus braços. Já conhecia sua fama de canalha, mas era Carnaval, não ia fazer mal, era só diversão, ninguém ia sofrer, você afirmou, mentiu, eu acreditei.

Há 12 anos que a quarta-feira de cinzas nos acompanha. Há 12 anos que a sua sinceridade me ilude. Há 12 anos que escuto as palavras mágicas: saudade e tesão, tento em vão lembrar quando foi que obrigado e por favor foram substituídas e fizeram um estrago sem tamanho no meu coração.

Não, não foi tudo tragédia… Com você eu vivi os melhores momentos da minha vida, ao seu lado eu esquecia da vida, era tudo uma loucura, intenso demais para uma relação comum.

Não foi só paixão e sexo, foi  amor, só que um amor mal administrado, por isso que foi bom.

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A foto é de Alexis Mire.

fratura exposta, por tita de paula

por   /  03/02/2013  /  15:55

Turbilhão, por Tita de Paula

Tentou se saciar como um louco, mas pela sede que ficou, percebeu que foi pouco. Num turbilhão, pensou na línguas que se tocavam, nos pelos na nuca trêmula, na respiração. Difícil renúncia. O óbvio que se fez de rogado, hoje lateja na carne e na mente insana. De solidão, emudeceu, sem explicações. Tentando se livrar do martírio das ações, mais uma vez emudeceu diante do momento desregrado. Naquele lugar, nada o pertencia, só um amor inerente. Então, pediu que tirassem o seu retrato. Pediu que fizessem um registro das suas formas, do seu rosto inerte e dos raios de felicidade que ainda continham nele. Queria esse registro. Era preciso estancar a luz que ainda tinha em seus olhos, sem maquiagem nem verbos. Congelou o sorrisoo
. E a carne do lábio insistia em tremer. Cada vez mais convencido da imagem que via, o intelecto não resolveu a questão. Como não sentir o chão se abrir como um pesadelo? Não negava a rejeição, mas também não sucumbia aos olhares alheios, viris, pelejantesE, assim, procurou os seus vários eus, ficou nu de vaidade, cheio de flashes. Perdidos como um dia de cão. Suados, a cada movimento. Sóbrios, como um velho sentimento. E o amor? Vive a morrer… De amor.
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A foto é de Damien Rayuela.

fratura exposta, por guilherme lamenha

por   /  31/01/2013  /  7:08

Samba canção, por Guilherme Lamenha

Se disser que eu desafino, amor, pode ter certeza que vou deixar de cantar perto de você. Eu brinco com os instrumentos enquanto você cozinha. Toco pandeiro enquanto você tempera o peixe. Sua casa é tão limpa que assusta. Asséptica, quase hospitalar. Penso, enquanto tento tirar um som qualquer do violão. Acendo um cigarro, você manda apagar, fala do cheiro, abre a janela com rispidez. Não olha nos meus olhos nem quando está com raiva.

Apuro meus sentidos, buscando o aroma que foge da cozinha para a sala. Você continua indiferente, com a saia estampada de flores miudinhas na altura do joelho. Sempre gostei dos seus joelhos.

Queria que me visse por dentro, agora. Mas toda sua concentração vai parar na porta da geladeira, quando pego uma cerveja e você tira a latinha da minha mão, dizendo que vamos tomar vinho branco no almoço.

Minto. Invento uma desculpa esfarrapada e saio do apartamento. Na calçada, pessoas sobem e descem a Augusta movimentada nesse sábado que poderia ser tão agradável se nós não.

Lembro quando você fazia planos de ter filhos comigo e cortava meu cabelo no banheiro, com tanto carinho. Quase sinto o toque que sua mão tinha antes. Suave, quente.

Mas agora daria tudo por um amor expresso, desses que a gente embala pra viagem. Não me engano mais com sua boca bem delineada pelo batom caro comprado com a grana da bolsa de “doutoranda”, como faz questão de frisar quando lembra a minha falta de dinheiro e de futuro.

Percebo que há muito não queria mais receber seus telefonemas, cada vez mais raros.

Mas acabo sem ter onde passar o fim de semana nessa cidade que nunca foi minha. Vou ao seu apartamento, onde encontro os instrumentos deixados no canto da sala pelo teu mais novo ex-qualquer-coisa. Como sou fraco, nessas horas. Me habituei a essa comédia de erros em que se transformou nossa relação desde o ponto final (ou as reticências?).

Conferi se a carteira estava no bolso. Parei o primeiro ônibus que passava no ponto em frente ao seu prédio. Vou ficar longe da sua limpeza, das suas frases feitas, da sua superioridade em relação a nós e também desse peixe cheio de ervas e futilidades. Vou procurar, daqui por diante, nunca mais me perder de novo. Preciso andar.

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A foto é de Marina Sobral.

fratura exposta, por ingrid bezerra

por   /  30/01/2013  /  9:36

Ventura, por Ingrid Bezerra

Eu detesto o jeito que você escreve. Todas aquelas abreviações e as trocas de s por c. Eu não gosto de como você queima a pele do rosto por pura preguiça de protegê-lo de um sol de quarenta e tantos graus, fazendo as sardas mais lindas do mundo se unirem e formarem uma sombra que em nada diminui a beleza, mas me rouba o prazer de contar os pontinhos que eu amo. Não é o sexo o principal, só que eu não paro de lembrar cada volta do teu corpo, das tuas coxas branquinhas. Cada vez que penso em te esquecer mandas mais uma mensagem daquelas contando tua última meia hora. Eu fico quase louca porque pensando em te esquecer já estou lembrando de ti, e o barulhinho do celular só reforça o que eu já sei. Eu não quero te prender aqui, apenas torço para que você sinta o bem que faz ao mundo com este coração. Você não acabaria com as pragas do Egito, mas eu reconstruiria meu país quantas vezes fossem necessárias para que você morasse nele.

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A foto é de Thiago Ramos.

fratura exposta, por b.

por   /  28/01/2013  /  10:26

Dois-em-um, por B.

Eu te perdi numa semana dessas depois do Carnaval. Te perdi pro mundo. Mas você merece o mundo, não podia desperdiçar essa chance. Eu sei disso, todo mundo sabe disso, mas queria que você tivesse ficado aqui comigo. 

Eu te ganhei numa dessas festas que ia pra aliviar a cabeça de um amor perdido depois do Carnaval. E foi tão forte que fiquei tonta. Te ganhei assim de surpresa, no impulso. Quando dei por mim, não sabia mais o que fazia com tanto carinho e tanto cuidado. Então resolvi ser sua de verdade. 
 
Mas como ser dele se eu ainda sou sua? Se é por você que ainda tocam algumas músicas minhas? Como ser dele se você ainda é meu? Eu queria poder ignorar todos esses anos e todas as nossas conversas e dizer que somos só amigos e que isso passa, que é só acostumar. Mas não acredito mais que é questão de tempo. 
 
Foi em questão de tempo que me deixei apaixonar. Hoje não sei mais ser sem você. Sem sua delicadeza, sem seus abraços (são os melhores do mundo, acredite). Não sei mais viver sem sua verdade. Você salvou minha vida e talvez não saiba. Você me devolveu a esperança e me fez enxergar, de novo, o amor. 
 
Pouco me importa se você não acredita, mas amo os dois ao mesmo tempo, de jeitos diferentes e muito inteiros. Pouco importa, porque você não sabe o que se passa comigo, nem nunca vai saber. Ficam só as lágrimas e sorrisos e alguns rabiscos a serem revelados. Fica só o vazio da incerteza e o cheio do coração. Essas coisas de amor são deveras complicadas, devia era ter acreditado na minha vó desde o início. 
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A foto é da Kelly Carpenter.

fratura exposta, por carolina couto

por   /  23/01/2013  /  11:19

Sumir pra valer, por Carolina Couto

De novo você sumiu e deixou a minha saudade sem notícia. Que consegue ser pior do que a saudade contada nos constantes emails me falando que você continua a passar muito bem, obrigado. Sempre com esse obrigado, com essa educação excessiva e quase irritante que só alguém tão longe daqui poderia ter.

Dessa vez eu cheguei a me pegar pensando que talvez pela primeira vez eu quisesse de fato te esquecer. Pensei que ia ser doído, mas melhor do que continuar a viver aqui, nesse meio do caminho.

Aí a noite cai e as coisas a noite sempre parecem muito piores. Que se foda o que é melhor ou não, só queria encontrar notícias tuas de surpresa numa manhã qualquer.

Você roubou tanta coisa. Tantas músicas, tantos lugares. Roubou minha memória pra ocupar com lembranças só tuas, e olha que não são muitas. Mas eu fico aqui vivendo em um eterno looping do passado.

Você roubou meu presente. Porque várias vezes é simplesmente impossível estar aqui. Eu to sempre lá. Imaginando todo o cenário a minha volta modificado caso houvesse sua presença. Até alguém aparecer com uma cerveja e me fazer engolir esse outro mundo que não existe.

Eu sei que se algum dia eu saísse na rua e encontrasse alguém que me olhasse do jeito como você me olhou naquele dia – passando todo afobado com mil equipamentos em baixo do braço – então tudo estaria certo de novo. Mas isso nunca mais aconteceu e só o que faço é provar pra mim mesma que ninguém é suficiente. E essa situação também não é.

Não sei como vai ser. Não sei como eu vou resolver. Pelo menos uma vez por dia eu lembro da mesma cena: nós dois deitados na cama depois de toda aquela comida que você preparou no jantar. Uma latinha de cerveja na mão de cada um.

E o que me faz voltar pra esse exato momento sempre é a sensação. Eu não me lembro de ter me sentido tão bem, tão feliz e principalmente tão confortável com mais ninguém em muito tempo. Será que tava chovendo lá fora?

A gente só ficou lá, junto, sentado meio bebado e conversando sobre todas as coisas do mundo, como a gente sempre costuma conversar. Meus pés estendidos por cima das suas pernas. Eu vestida com sua camiseta verde e velha e os jeans da tua irmã. E o Dodger aparecendo vez ou outra pra tornar a espalhar pelo e tomar o lugar dele.

Minha partida era no dia seguinte, logo pela manhã. Mas não tinha espaço pra pensar nisso. Nunca teve. Tudo o que tava ali era tão suficiente que não sobrou tempo pra nada que não fosse bom.

Se for pra sumir dessa vez, então faz isso pra valer, por favor. Pra me dar uma nova chance de poder me apaixonar pelo cachorro velho e peludo de outra pessoa.

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A foto achei aqui.

fratura exposta, por antonio la carne

por   /  21/01/2013  /  14:10

Amante babaca, por Antonio La Carne

Plantei a florzinha da paixão guardada no peito e você veio de mansinho e cortou o mal pela raiz, como se eu fosse um vilão de novela, ou um robô de sentimento plastificado. Aí não curei a mágoa do coração aos pedaços. Enchi a cara de cerveja e te liguei quando tudo era tão tarde, quando a noite foi a melhor amiga. Amanheci ao léu de mim mesmo, cutuquei onça com vara curta, aluguei os amigos com os dramas da solteirice e o choro preso na garganta. Surtei de segunda a segunda. Exagerei no cigarro, marquei um pacto com a solidão, me tranquei no banheiro, dediquei 14 noites ao baixo astral que não me salvou de você: tão babaca e sem um pingo de sensibilidade. Então 2013 deu o ar da graça e pude então traçar planos, pensar em mim como sobrevivente do amor que não deu certo. Acordei livre do passado e dos arranhões. Aquele lance do “quando casar, sara”. Mas eu só queria uma coisa, que você me amasse pra caralho.

fratura exposta, por lila

por   /  10/01/2013  /  9:07

O amor pode ser um silêncio, por Lila

Eu ainda gosto ou, pelo menos, insisto, em olhar nossas fotografias. O álbum de casamento saiu do armário da sala, foi escondido no quarto de hóspedes e, de vez em quando, eu, corajosa, resolvo jogá-lo fora. Último estágio dessa separação.

 Mas ele volta pro quarto. E eu nem gosto daquelas fotografias. Fotógrafo ótimo, sem dúvida. Muito bem escolhido, você sempre gostou do melhor, ou de mostrar que gostava do melhor, não sei bem. Sim, ótimo fotógrafo, já eu, gorda, com o cabelo e a maquiagem que desmancharam antes de acabar a cerimônia. Talvez já fosse um sinal e, pensando e olhando as fotografias, tenho certeza das escolhas erradas, a gente só foi piorando, percebe?

Nós dois, no final, éramos dois trapos, duas partes. Lembro-me de olhar no espelho depois do divórcio e pensar, como eu cheguei aqui? e de te encontrar em seguida e pensar a mesma coisa, como eu não cuidei desse cara? Porque a gente se fez tão mal.

Também no fundo do armário, estão os filmes da nossa última viagem juntos. Estamos lá, ainda horrorosos, só alguns pedaços da gente. Mas a gente ri, um do outro e vê o pôr-do-sol. A gente que não tem a menor paciência pra natureza olha o pôr-do-sol e ri.

E eu falo que preciso beber alguma coisa. Você some do filme e aparece trazendo água com gás, sem gelo, sem limão. Você sabe que o que eu quero beber é água com gás. E você busca, simples, como tudo que era da gente.

A gente se olha e não ri mais. O resto do filme em silêncio. Acho que a gente não percebe que não desligou a câmera. O nosso silêncio, a minha parte preferida do filme, a minha parte preferida de tudo, a maior intimidade que eu já tive com alguém.

 O nosso olhar em silêncio e o garçom trazendo outra água com gás.

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A foto é do maravilhoso Martin Parr.

fratura exposta, por mayra fonseca

por   /  09/01/2013  /  10:02

Cicatrizes, por Mayra Fonseca

Você estava acordado ou foi sonho meu?

Eu falei sobre meu desapego e minha necessidade de viajar para não ter nada que desperte a minha memória. Contei que acho as pessoas interessantes, vejo mais fraqueza do que maldade nos olhares das minha fotos. Compreendo mais a dor do que a ironia, você entendeu essa parte?

Falei que admiro as bruxas por sua capacidade de voar? Você percebeu que eu larguei a música por não querer carregar meu piano?

Viu no meu olhar desconfiado que eu aprendi que não posso pedir colo? Reparou que até meu sorriso é de lado, pela metade, porque me ensinaram a duvidar da alegria? Ficou claro que eu não tenho postura de quem sabe o que é carinho e que escolho as palavras duras por total falta de experiência em doce? Que não perco o controle porque nunca tive alguém que pudesse me amparar?

Se foi sonho, eu nem preciso procurar minhas malas tão gastas. E talvez eu consiga continuar frequentando o mesmo supermercado.

Não quero nada de você, perceba. Eu só preciso saber se mostrei que sou vulnerável.

Se você estava acordado, se ouviu a fragilidade que eu sussurrava pedindo cuidado… E se, ainda assim, é normal ter me feito acreditar em laços para me deixar embaralhada em nós… Então estas tuas esquinas também não são para quem tem cicatrizes. E o sonho errado é o de pertencer a este lugar.

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A foto é da Mayra também!

fratura exposta, por rafaela rios feitosa

por   /  08/01/2013  /  14:45

Antes de o amor se mostrar, por Rafaela Rios Feitosa

Eu vi ele me olhando. Enquanto eu, deitada, abraçava carinhosamente a coxa dele, sentado.

Ele não viu que eu vi. Continuou roçando os dedos entre os fios dos meus cabelos num movimento lento. Tinha ritmo. Dedos subiam, dedos desciam.

Ele me olhava enquanto eu fingia que não olhava, mas retribuía com beijos suaves nas coxas. As abraçava com uma força absurdamente leve e com um pouco de medo de saber quanto tempo aquilo ia durar. Talvez ficasse ali, um segredo guardado entre as quatro paredes daquele quarto quente.

E eu que tinha prometido a mim mesma que nunca mais tentaria reconhecer o amor antes que ele resolvesse se mostrar pra mim.

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A foto é da Chloé McLennan.