
Celeste, por Júlia de Carvalho Hansen
We can be heroes
Just for one day
David Bowie
São poucos os que atravessam até o Verdadeiro Amor. Lá estão sentados Carlos e Vicente. As vozes assaltam o silêncio. A garota se levanta do caixa de ferro, abre a porta balcão da cozinha. Quando entra, os mosquitos já têm medo dela. Voam pela janela. Não voltam com ela para o salão, tão pouco rondam o café dos clientes. Traz no pratinho branco, circulado de vinho, com o logotipo de coração, a torta de maçã que pediram. Conversam:
– Faz tempo que não ouço falar de uma boa desgraça.
– É verdade, Vincente, eu também.
– Teve aquela da prostituta assassinada porque sabia demais.
– Não disseram que ela sabia demais, só que ela tinha um anel de escaravelho, como o do Jonas Jr tatuado nas costas.
– Ah é, aquele que deu pra ver quando ele comemorou o gol.
Olham pra televisão. Viram-se pra garota do caixa:
– Ô Celeste, não dá pra trocar desse canal?
– Não. Só pega esse. E vai começar o jogo. Não há mais ninguém atravessando os portões.
Confirmam sem olhar pra fora. O Verdadeiro Amor fica ao lado do estádio. Daria pra acompanhar o jogo sem nada além dos ouvidos. Ainda mais em grande dia, é a semi-final do campeonato. Jogam ali o Pertinentes x Arroubo. Quem ganhar vai jogar contra o Couraçados, classificado por pontos já na rodada anterior.
Os jogadores já terminaram de se aquecer. Riem, abatendo a responsabilidade. Pulam um em cima do outro. Cumprimentam a outra equipe. A torcida assobia. Festa só. O mundo é de espelho, vai pro telão. Filmam o dente de ouro do Lázaro, brilhante.
–Esse aí não sei não,… vende a mãe e entrega em casa. – diz a Celeste. Vicente confirma um tanto surpreso, já que ela nunca fala, a não ser quando sorri de olhos baixos depois de espantar as moscas:
–Pipoqueiro, nervosinho.
Lança-se a moeda pra cima, a bola vai rolar. Tocam as trombetas, o juiz apita os astros. No pé do Pertinentes, Lázaro passa pro Camarada. Um pro outro de novo. Está dado o início. É uma verdadeira tentação impossível saber o que vai acontecer. Cheio de furor na primeira tentativa, cara a cara com Garoto, Lázaro chuta pra fora, gargalha e bate palma.
Celeste atravessa o Verdadeiro Amor com um pote de canela nas mãos. Chega na mesa dos rapazes e derrama por cima da torta de maçã que já foi comida. O prato vazio fica todo avermelhado. Vicente e Carlos nem olham, mas dizem:
– Não sei se foi pra Líbia ou pro Tibet que despacharam o Jonas Jr.
– Foi pra Líbia. Depois de perder os milhões em Milão ele ficou ilegal por lá. Ainda tentou argumentar que os italianos ficariam sozinhos com eles próprios. Mas não teve jeito.
– Fazem isso, né? Pegam os imigrantes, botam num barco e mandam pra África.
– É, foi por isso que eu pensei que tivessem mandado ele pro Tibet.
A Celeste olha a televisão, limpando as mãos no avental. Garoto lança a bola num chutão pro meio-campo. Fecha os olhos ainda atiçando a pontaria, vendo se cai com alguém do Arroubo. Os meninos gritam na arquibancada um refrão de décadas.
Foi. Dadá, numa disputa tête-à-tête, fica com a bola. É o homem certo, na hora certa. Dribla um, dribla dois, entra na área e Camarada chuta a canela do craque. É PENAAAAAAAALTY. Dadá fica num estado intransponível. Caiu de cara, pobre Dadá, o nariz sangrando. Levam-no numa maca. Garoto corre até o treinador. Trinta coisas indizíveis. O coração de Celeste dispara, grita!
–Vai, Arroubo!
Os dois rapazes se entreolham e continuam:
– Cinquenta mil chineses mortos na via férrea, irreparável.
– Tudo isso por conta de meia dúzia de carros-fortes. Vamos pedir uma outra torta?
– Vamos. Pelo menos é como dizem, vivemos num mundo sem nazismo.
Gargalham. Camarada recebe o cartão vermelho e voa pra cima do Garoto. Se encaram fundo. Garoto diz alguma coisa e vira as costas. Na arquibancada ARROUBO ARROUBO. Dentro do Verdadeiro Amor, Vicente chama Celeste:
– Traz uma outra de maçã pra gente?
– Acabou. Não tem mais. Acabou. — diz, horrorizada.
– Assim fica difícil, Celeste. Sempre no futebol porque o botão quebrou e o controle remoto sumiu, agora vai me dizer que não tem torta de maçã porque não fabricam mais maçã? — Celeste avoando, volta:
– Hein? … ah, torta! tem sim. Espera o penalty que vou lá pegar.
Não há dúvida. Sem Dadá, Garoto é o melhor pra isso. É goleiro, conhece o erro alheio. E é dele a bola, é dele o penalty, é dele a torcida.
– Agora ele vai dar a distância numa curva curta, pra bater com a perna esquerda. — repara Celeste baixinho, cheia de dedos frios. — Acabou, acabou. — geme, ternura — Arroubo, Arroubo!
Garoto toma a distância de lado, estoura o pé esquerdo na bola, goleiro prum lado, bola pro outro é GOL! Gooooool! Celeste balbucia em um rodopio: –Arroubo 1, Pertinentes zero!– Vira as costas de alívio, sorriso pra ir pegar a torta dos rapazes, mas fica ainda um segundo, olho na televisão, comovida.
Na comemoração Garoto arranca a camisa, aponta pro peito e diz pra câmera de televisão algo ininteligível. Garoto corre uma vez prum lado, corre outra vez pro outro. A torcida grita GAROTÔÔÔ. Ele retribui, sobe na grade, manda beijos estatelados com a palma da mão. E ainda diz: –Pôôôôrrra!!! – Quando todos começam a acalmar, Garoto dependurado salta a grade pro outro lado, afasta o segurança e abre o portão.
Garoto sai do estádio. Já não podem mais contê-lo, sorrindo, atravessa. Está na porta do Verdadeiro Amor, quando é atingido pelo controle remoto que Celeste lança do balcão. Na cabeça, ele desmaia. Tão feliz que não aguenta.
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Foi a Giuliana Xavier quem mandou o texto e a foto dessa fratura. Ela explica: Júlia de Carvalho Hansen é escritora e tem um livro publicado em edição independente, o Cantos de Estima. Também desenvolveu o projeto 12 exemplares. A foto é de Ilana Lichtenstein
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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com












