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Posts da categoria "amor"

fratura exposta, por cris naumovs

por   /  06/07/2010  /  0:26

Você, por Cris Naumovs

Lembro quando te conheci, você assistindo o ‘Guarani’, digo quando te conheci de fato, quando te olhei e pensei “meu deus, que mulher é essa?”, deve ter sido a vodca que abriu meus olhos pra sua beleza, pro seu charme, pra tudo… Você com aquele vestidinho azul, um lápis enfiado no cabelo e o chaveiro da Minnie pendurado no botão do vestido. E pensei “eis a mulher da minha vida.” Nossa primeira noite de amor. Você falando coisas lindas, se eu faria um filme com você, se eu filmaria a gente transando. Se eu faria tudo com você, mas você com medo que eu tirasse a roupa. E eu com minhas calças vermelhas querendo sentir sua pele. Você em cima de mim, a luz da lua entrando pela janela. Foi, sem dúvida, uma das noites mais especiais da minha vida.

Eu vindo pra São Paulo no dia do meu aniversário, porque quis passá-lo com você, pelo menos a meia noite. Ligando e desligando o telefone milhares de vezes naquela semana. Chegando e gente me dizendo “tem gente que pensa que você sumiu…”, a gente se falando por tel, você na casa do Pilar e eu na cantina do Duílio… A gente jogando com as palavras, a gente não sabia o que era… A gente em São João, a gente brincando no mato, a gente tomando banho de chuva, a gente de mão dada naquele ônibus velho.

A gente vindo pra casa no dia 23 de dezembro, pra esticar o tempo. Eu chegando em casa dia 24 de tarde, quase chegou depois do natal. Nos falamos todos os dias. Fizemos passeios. Fizemos amor. Fizemos sorrisos.

Voltamos pra nossa casa no meio de janeiro, porque queríamos o tempo todo pra nós duas. E tivemos o tempo todo. Até que viemos embora. Quase morri de tristeza e gastamos quase 500 reais de telefone no primeiro mês, nos vimos todos os findis, mais passeios. Amor. Sorrisos.

E começamos a nos perder… Sem perceber. E nos encontramos de novo quando você veio ficar na Nica. E ali percebemos que o cotidiano era o que nos unia. Unidas, nada podia contra nós. E você teve que ir embora de novo. E você me disse que eu já não era o centro da sua vida. Eu perdi o meu centro, porque você era o meu centro. E senti uma dor profunda, de animal ferido. De gente que já foi deixada de lado na vida, por outras pessoas e talvez você não soubesse disso. E eu pensei “nunca vou ser o centro da vida de ninguém”. Tenho que viver com isso.

Mas seus olhos diziam outra coisa. Mas você resolveu endurecer comigo. E eu sem entender nada. Pensava “cadê aquela moça doce que conheci? Que me pedia pra fazer um filme dela?”

E percebi que a gente tinha se perdido pra sempre. Estavámos sendo atropeladas pelo amor que construímos e que cobrava a sua conta. Se não era pra ser perfeito, seria o inferno e teríamos que passar por ele. Você jogou álcool e eu risquei o fósforo, foram as nossas contribuições.

Hoje? Existe um vazio tão grande, mas tão grande que dói quando respiro. Uma cama vazia, que durmo num cantinho, não quero ocupar seu espaço, nem comigo, nem com ninguém. E vai ser assim pra sempre. Claro que passarão outras pessoas, mas nunca será como fazer amor no mato com você. Nada será como você à luz da TV, à luz da lua. Nunca. Ninguém.

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A foto é de Bruno Torturra

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

fratura exposta, por ilana reznik

por   /  05/07/2010  /  9:32

A explicação que eu daria a uma criança, por Ilana Reznik

Primeiro, você pega uma caixinha pequena, do tamanho de um dia feliz – a alegria sempre pode ser maior – uma caixinha pequena e lisa, que é pra você enfeitar do jeito que for mais seu. Você forra a caixa por dentro, com todo cuidado, se possível, com o tecido mais delicado que encontrar. É importante que a casa do seu sorriso seja confortável. Então você começa a preencher o espaço. Comece pelos abraços. Coloque dentro da caixa todos os abraços que você já deu, quer dizer, todos não, só aqueles em que o cheiro da outra pessoa tenha ficado na sua roupa depois, os mais longos e apertados. Em seguida, coloque a sua comida preferida. Pode ser doce. Deve ser doce. Mas pode ter sal também. Duas ou três fotos que você mesmo tenha tirado. Das nuvens, do jardim e das crianças. A sua flor preferida, a sua cor preferida, o casaco mais confortável que você tiver. Coloque a cena mais bonita, do filme mais emocionante, com ou sem beijo, mas com muita verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Mas nenhuma que possa machucar. Não se esqueça da música. Uma caixinha tão delicada precisa de música, pra dançar, inclusive. Aquele álbum raro, da melhor banda de todos os tempos, precisa estar lá. Coloque carinhos no cabelo, cheiros de mar, poemas curtos, receitas de bolos, gargalhadas na grama. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”. Você coloca o que você tem de melhor dentro dela e chega até a se perguntar como coube tanta coisa em uma caixa deste tamanho. Ela supriria um filho cuja mãe estivesse ausente, ela alimentaria toda uma civilização escondida no topo de uma montanha, ela detonaria fogos de artifício em um deserto. Mas não. O que você quer é entregá-la a uma só pessoa. E o nome disso é amor.

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A foto é de Mario Antonio Herrero Machado

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fratura exposta, por júlia medeiros

por   /  04/07/2010  /  19:02

Final infeliz, por Júlia Medeiros

daqui vejo o amor escorrer silencioso. e por mais que faça isso sem alardes, meus poros sentem sua partida. veneno vagaroso. cortante, ardente, escaldante. e nada sangra mais que essa paz de trincheiras. nada mata mais que essa sua guerra fria. antes me atravessasse o cinete às entranhas. antes me torturasse com mil crueldades. me bata! se zangue! o amor evapora, fumaça, neblina e você nem se move. e nada fere mais que esse riso vazio. um frio me rasga a espinha ao vê-lo amável e passivo. antes fosse cínico, rude, covarde. antes urrasse e me estilhassasse assim em milhares de partes. e mesmo que você não tentasse encontra-las eu teria ouvido o seu grito de guerra, seu coração em disparate. o amor se esvaindo, o amor desvanecendo, o amor… indo. e mesmo que ele morresse, não seria letal: se você lutasse. bandeira branca. amor, descanse em paz. só não me olhe como se lamentasse.

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A foto é de Viola Cangi

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fratura exposta, por sabiá

por   /  03/07/2010  /  11:03

Fratura Exposta, por Sabiá*

O Don’t Touch faz parte de um momento da minha vida em que me habituei a ler blogs, a acompanhar séries e a escrever compulsivamente. Aqui uma explicação: sempre escrevi, a diferença é que, nessa época, adotei a compulsão. Os três “novos” hábitos (e mais dois que citarei adiante para evitar impressionar o leitor negativamente) são frutos da razão que me traz aqui hoje: fratura exposta.

Desde que conheci o blog espero surgir uma oportunidade para colaborar com ele. Como minhas visitas se iniciaram, nesse período do qual não levo muitas lembranças boas, pensei em fazer meu vídeo respondendo “o que é o amor hoje?”. A resposta era algo assim:

– Absolutamente o contrário de tudo que vocês já leram nesse blog. Por isso, vem comigo: tira esse colorido da mente, esse sorriso do rosto, desliga a música suave dos ouvidos, esquece do perfume que parece acariciar, interioriza um beijo amargo e por um instante acredite que beijo na nuca dá câncer. Conseguiu? Isso é o amor para mim hoje.

Quem conhece o blog deve imaginar porque eu nunca mandei meu vídeo. Achei que podia destoar um pouco desta atmosfera azul, das belas fotos de gente sexy e amorosa. Dei-me por satisfeita em ser apenas mais uma leitora anônima.

Eis que hoje tudo mudou. Surge uma sessão chamada “fratura exposta”. Pensei: minha chance de escrever. Ao longo do dia tentei imaginar como contar minha história. Não consegui avançar. É uma história antiga, de cinco anos atrás. Dei a volta por cima, como se diz. Comecei de novo. Tenho outro amor. Mas assim mesmo, quando li o tema, foi inevitável não ter vontade de escrever.

Então, eu compreendi que “fratura exposta” é uma definição adequada justamente por isso. Fraturas expostas saram, cicatrizam, mas nunca somem. Tenho uma no joelho esquerdo. A pele fica sensível. Como quando quebramos o pé e nas primeiras semanas é muito estranho andar de novo. Até hoje, quando passo a mão no joelho esquerdo sinto um arrepio de leve. É assim com Ele, o bípede, candidato a gordinho mais sexy que já passou por essas bandas e que me deixou escrevendo compulsivamente, viciada em séries, blogs, calmantes e cerveja (pronto, contei os outros dois hábitos: uso drogas de tarja preta e rótulo de pinguim).

Vamos encurtar para não cansar o simpático leitor: eu morava aqui e ele lá – longe! Vi a primeira vez. Na segunda dei um livro de tirinhas do Henfil de presente – a última tirinha tinha um personagem com seu nome. Na terceira vez, dividimos uma cama: como amigos. Mais um ano. Uns quatro encontros. Um deles na minha cidade, onde paguei três vezes o preço do ingresso para garantir que ele entrasse comigo no show da banda da adolescência que descobrimos em comum. Um outro encontro relevante: viagem de última hora e uma dívida de respeito no cartão de crédito como resultado. Ainda bem que a companhia aérea extraviou minha bagagem. Com a indenização paguei o cartão.

Dois anos, muito telefone, overdose de MSN, algumas centenas de e-mails, os quais contêm algumas dezenas de “eu te amo” e um coro quase uníssono ao nosso redor que bradava a impossibilidade de não estarmos juntos. Apenas uma voz dissonante: Ele. Ele que me disse que entendi mal o fato de dormirmos abraçados. Ele que me disse que diz “eu te amo” [pelo menos uma vez por semana, suspeito] para suas amigas. Ele que me pedia que falasse qualquer coisa em italiano para que dormisse. Ele, o beijo amargo e canceroso que quebrou ossos, esmigalhou costelas e rompeu ligamentos.

Fratura exposta é ler um blog há anos esperando o dia de contar sua história nele – algo em mim dizia que ia chegar. Fratura exposta é não dar nomes e mudar detalhes na tentativa covarde de que o namorado novo, dependente do meu Google Reader, não me descubra aqui. Não pelo exercício de mentir, apenas na esperança de que os anos de fisioterapia e terapia não sejam jogados fora.

* Sabiá não se chama Sabiá e acredita no amor, na psicanálise e em antiflamatórios à base de Nutella

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As fotos são de Kubra Kactioglu

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fratura exposta, por ivana arruda leite

por   /  02/07/2010  /  16:35

Gente, e a honra e a felicidade que é ter um texto da maravilhosa escritora Ivana Arruda Leite nesta seção?

A fratura do rabino, por Ivana Arruda Leite

Desde menina sempre tive paixão por fraturas. O menor indício de trincamento numa parede ou onde quer que fosse, era suficiente para distrair-me horas a fio tentando o conserto. Como acredito que a vida segue o rumo que o coração ordena, cedo me decidi pela ortopedia.

Já na residência, nada me dava mais prazer do que chegar ao PS e ver dezenas de braços, pernas, rótulas e clavículas esperando por reparação.

Osso é algo que quebra mas se recompõe. A menos que se engesse errado. Daí fica torto para sempre.

Meus colegas diziam que eu tinha olhos de raio X. Descobria fraturas onde ninguém supunha haver. Aliás, fraturas há de toda espécie e a maneira de repará-las nem sempre é a que aprendemos nos livros.

Por isso quando o jovem rabino chegou logo vi que, por trás da úlcera que ele dizia ser o motivo que o levara ao PS àquela hora da madrugada, havia uma fratura não exposta. Ele não entendeu nada quando encaminhei-o à ortopedia e não à gastro como seria de se esperar.

Eu ainda tentei explicar ao rabininho que as fraturas da alma são as piores, mas ele não quis saber de me ouvir e ao me ver tirando o avental e pulando na cama em cima dele, pôs-se a gritar feito um maluco.

Só me lembro das enfermeiras entrando correndo e me arrancando à força de cima dele.

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* O conto é o primeiro do livro “Histórias da Mulher do Fim do Século”, que será relançado no segundo semestre

A foto é de Jolie Ma

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fratura exposta, por cáren nakashima

por   /  02/07/2010  /  9:58

Semana 0, por Cáren Nakashima

Ele me abraçou (muito forte) na garagem reservada do prédio estilo anos 50 – uma preciosidade nos dias atuais – e após uma breve pausa deixou sair um choro engasgado, sentido, como há tempos não o via expressar. O abraço aconteceu depois de duas viagens de elevador com quatro malas estilo sacola compradas às pressas no Wal Mart, cheias de todas as roupas que eu tinha. Cada uma que fora usada em uma ocasião especial e duas ou três peças que ele havia me dado de presente nos últimos tempos, e acertado.

Na tarde anterior à despedida – pra mim a última de todas as outras que poderiam existir – fui atrás de coisas que guardassem a vida que havia construído ao lado dele no apartamento 91 do número 408 da Minas Gerais “No último quarteirão antes de virar a Doutor Arnaldo”, como a gente costumava explicar para quem vinha nos visitar, enquanto éramos felizes. Guardei também aquilo que acumulei em outros endereços que moramos separados, porém sempre juntos, inseparáveis. Fui atrás de malas ou sacolas que fossem iguais, porque o fato de ficar sem um armário para guardar as minhas roupas me aterrorizava; fui atrás de caixas de papelão desmontáveis, fita lacre para que nada se perdesse no caminho, embora o que me era mais precioso já havia escorrido para o nada… Comprei também uma caneta piloto para anotar o que estaria contido nas caixas fechadas e, para minha surpresa, o meu presente e a promessa de uma vida feliz pra sempre (enquanto durasse), foi parar em um pacote nomeado “passado”.

Foi uma tarde dura. Ao mesmo tempo que acontecera cheia de sofrimento, foi extremamente libertadora. Cada pedaço de papel que colocava nos sacos de lixo tornou-se prova da capacidade humana (que eu até então não sabia que tinha) de se desvencilhar de algo que não serve mais, e dar espaço para o novo, mesmo que seja um novo que você não exatamente deseja. Mas ainda assim as lágrimas caiam pesadas, manchando o craft. Aquela tarde de quarta-feira se seguiu de três dias de tentativa de dividir o teto – a tentativa de permanecer na “nossa casa” para então partir para a “minha casa”, que ainda não existia ao certo, apenas em planos apressados de quem procura um apartamento às cegas porque quem dividia o lar e a vida com você acordou e disse: “acabou”. Com a propriedade de quem é dono do apartamento. Com a propriedade de quem realmente esgotou todas as possibilidades e com um vácuo no olhar e no espaço que nos divide, que me fez ter a certeza de que ali não havia mais nada. Nem resquício de cada risada partilhada no mesmo ambiente. Nem uma memória de um tempo no qual éramos amigos e nem imaginávamos que viraria (um curto) amor. Não tinha mais nada ali. E ele vinha sinalizando que havia muito pouco alguns meses antes…

O primeiro dia dos três que se seguiram a quarta-feira na qual parti completou uma semana desde o anúncio do fim. Em um domingo voltei para a “nossa casa” – numa tentativa estúpida de morar juntos mesmo separados – depois de uma semana de total pânico. Sete dias antes ele acordou depois de uma festa de casamento em que fomos um dos casais de padrinhos e me esperou no sofá da sala. O sofá que fora dado metade pelos meus pais e metade pelos pais dele quando a gente se mudou, há cerca de 10 meses antes daquele dia fatídico. Sentado ali, ele falou muito pouco. Primeiro se justificou. “Estou sentindo coisas que não gostaria de estar sentindo”. E então não precisou falar muita coisa. Eu me adiantei, e já sabendo a resposta perguntei se havia acabado. E havia.

Foi então que acabou a minha vida como eu conhecia. Não adiantava eu argumentar, questionar, pedir uma chance. O olhar dele era muito claro. A expressão de quem realmente não queria mais algo, não deixava dúvidas. Ali, naquele domingo de manhã, eu comecei a morrer. E era uma morte lenta e dolorosa.

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A foto é de Steven Beckly

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fratura exposta, por tânia oda

por   /  01/07/2010  /  10:27

Quadrilha, por Tânia Oda

João parece não estar nem aí prá Lili.

Lili então chuta o pau da barraca e fica com o Antonio.

Lili fica feliz e prova prá si mesma que o João não lhe merecia.

João classifica Lili como “vaca” e pega a Tereza.

Antonio e Lili; João e Tereza, logo terminam e voltam a freqüentar os mesmos lugares, em busca do tal do Amor. Ou de sexo.

Lili gosta mesmo é do João e João, de Lili.

Mas o João, sem querer mesmo, esquece sempre das coisas. E a Lili não tolera ser uma das “coisas” esquecidas. Ainda mais depois que o vizinho gordinho e punheteiro riu da sua cara quando a viu chorando, vestida de cinta-liga e lingerie vermelha, depois do João ter se esquecido do jantar.

Tereza também gosta do Antonio, e o Antonio da Tereza.

Mas tanto a Tereza, quanto o Antonio, não entendem essa fixação que ela tem por traí-lo só com mulheres. Ela diz que é a “diversidade”, que é prá apimentar a relação. E ele já cansou de afirmar que não importa o sexo, é chifre.

A Lili sabe que, no fundo, ela só deu pro Antonio prá provar prá si mesma que o João era qualquer um. O João ficou puto, mas também sabe que a Lili só faz essas coisas prá provar prá ele que tem algum valor.

A Tereza e o Antonio finalmente foram prá terapia.

Desde que o Antonio largou o emprego prá ser dono-de-casa e fazer compotas, a crise lésbica da Tereza era regular e freqüente.

A Lili sabia que queria mesmo era ficar com o João.

Mas depois que passou o pano nas últimas lágrimas do chão, já não sabia mais nada.

O João queria ficar com a Lili, mas ele queria tantas outras coisas também.

No final, ele queria mesmo era que a Lili aceitasse as suas desculpas. E ele passou a ficar puto quando ela deixou de aceitá-las.

O Raimundo voltou da Europa e a Lili voltou prá ele. O José terminou o namoro com a Joana e reatou o caso com a Lili. A Giulia e o J. P. continuam se amando, mas ele e a Lili também voltaram a amar se encontrar nas madrugadas. E a Lili de vez em quando também conhece um Paulo, um Rodrigo, um Carlos por aí.

O João conheceu a Carla e ela passou o último sábado chorando, vestida de cinta-liga e lingerie vermelha. O Luiz, vizinho da Carla, é bem legal. Ele é apaixonado por ela há alguns anos e é a pessoa mais fofa do mundo, toda vez que algum cara a faz chorar. Ele só não sabe que os caras fofos nunca comem ninguém.

A Tereza e o Antonio estão felizes. Eles largaram a terapia e mudaram para o interior. O Antonio agora vende compotas pela internet e a Tereza faz jóias de cobre vitrificado. Ela continua saindo com mulheres, mas agora o Antonio a acompanha.

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A foto é de Mala Marija

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fratura exposta, por beatriz antunes

por   /  30/06/2010  /  18:23

Sério, Beatriz Antunes tem um dos melhores textos do Brasil!

Maçã verde

Meu único osso quebrado não era meu. A vítima, meu irmão, nunca soube de quem era a culpa por ter colocado a corrente alto demais para que ele pulasse, na verdade para que ele não tentasse pular e assim eu vencesse as olimpíadas caseiras. Aconteceu muito de repente, quando vi ele estava gritando de dor e minha mãe parecia nem me ver mais, toda cuidados com ele. A cena seguinte é ele com o braço engessado, sem dor, com o cabelo muito preto (até hoje é assim) e os dentes muito brancos (de leite) saindo do hospital. A versão oficial, estabelecida naquele dia, foi que a corda estava alta por engano, descuido, qualquer coisa menos pela minha vontade de vencer a competição.

Não sinto culpa, não me arrependo, não tenho nenhum sentimento estranho com relação a esse episódio da infância. Se falo dele é primeiro porque tinha que escrever alguma coisa e, segundo, porque pretendia fazer uma analogia entre fraturas e amores mal curados ― analogia que não é minha, mas da Dani Arrais [nota da editora: os créditos vão para Yana Parente e Alberto Lins, que criaram o maravilhoso conceito], muito bem observada por sinal. Amores que fraturam qualquer coisa imaterial na gente. E o difícil é achar um que não tenha sido assim. De que amor saí incólume? Não lembro. Minha memória é bastante melhor quando se trata de coisa ruim: o que fizeram contra mim, o que deixaram de pagar. De maneira que a analogia, tão simpática, não serve para muita coisa no meu caso. Sei muito de fratura espiritual, mas nada de ligamentos e ossos rachados. Na verdade, meu primeiro parágrafo nem precisava existir para eu me lembrar como fiquei sem força nas pernas quando Tarso, o Loiro não dispensou o videogame na hora certa.

Era aniversário dele e, embora ninguém soubesse, não me pareceu despropositado agir como se fosse uma coisa natural levar um presente caro para um coleguinha de rua, presente que deveria, além de presentear, transmitir o recado de que eu era completamente apaixonada. Aos 8 anos, o completamente se escrevia em maiúsculas na minha mente e o apaixonada eu sussurrava no banheiro, com medo de alguém ouvir. Como o trato lá em casa era dinheiro mediante serviços prestados, lavei carro com aspiração do estofamento (que era mais caro) por algumas semanas até juntar dinheiro suficiente para a compra do artigo luxuoso que tinha em mente. Guardadas as devidas proporções, era como planejar a compra de uma joia. Não podia ser qualquer presente e não seria.

O Shopping Eldorado era respeitável naquele final da década de oitenta e, melhor ainda, perto de casa. Minha mãe me levou sem suspeitar de nada. Depois de fazer compras no Sé (o supermercado onde os carrinhos tinham calculadoras acopladas, estando nós em plena astronomia inflacionária), pedi para visitar a Pakalolo. Meus caros, a Pakalolo era um negócio. Tudo fosforescente, muito laranja, letras garrafais que davam a volta na camiseta, pulseirinha pra cá, tiara acolchoada pra lá. E mais importante que tudo: chaveiros infláveis no formato de maçã verde. A joia que eu tinha reservado para Tarso. Sendo o objeto unissex, e sendo também dona de uma extensa coleção de chaveiros, não levantei suspeitas comprando o chaveirinho. E como já naquela época eu era a embaladora oficial dos presentes da família (na época de Natal eu trabalhava bastante), sabia dar um laço bonito e não amassava JAMAIS uma folha de papel espelho, a dificuldade toda recaiu em como explicar à minha mãe que queria um embrulho da loja. Ora não é pra coleção? Ora, não é você que prefere fazer os enfeites em casa? Como eu ia explicar que, sendo aquele chaveiro um presente para o meu amor, a quem nada importava tanto como uma marca, um logotipo endinheirado e uma aparência rica, era preciso estar escrito PAKALOLO no papel? A solução ficou por conta do destino: minha mãe se lembrou do aniversário não sei de quem e sumiu com a vendedora atrás dos moletons nas araras. Escolhi, paguei, mandei embrulhar e escondi o presente na mochila em questão de minutos, e logo tudo estava resolvido e minha mãe já estava fazendo sinais com os olhos para mim, indignada com o preço de uma calça.

Chegou o grande dia. Meu coração acelerou já no ensaio geral, dentro do quarto. “Vou tocar a campainha, aí quando a empregada uniformizada atender, deixo o pacote com ela e saio correndo. Fico uns dias sem aparecer na rua, e daí um dia ele vai tocar a minha campainha e dizer que foi o presente mais lindo que ele ganhou”, plano 1. “Não. Ridículo. Vou bater lá e dizer pra empregada pra chamar ele, entrego o presente e nos beijamos infinitamente”, plano 2, um pouco distante ainda. Eis que finalmente me decido a sair, presente na mão, chave do portão na outra – chave essa que no dia pareceu pesada, desajeitada, barulhenta, não cabia no bolso, não cabia na mão, um nervosismo horroroso, aquele metal ali – e caminhei até a casa. Portão branco, Escort XR3 vermelho na frente, cachorro de marca latindo. A empregada não apareceu, como planejado, mas a mãe dele me disse para entrar, ofereceu um Toddy gelado e depois se voltou para a pia, como quem recebe alguém de casa, acostumado. “Sobe, sobe lá, Bia!”, ela disse depois. Então aconteceu.

Subi o primeiro lance nervosa, no segundo já estava tomada pela ansiedade, e ao chegar na porta aberta do quarto dele pode-se dizer que estava inconsciente. Lembro vagamente de ter dito: “Oi”. Não sei se falei mais alguma coisa, porque de todo modo ele não respondeu, não se mexeu. Continuou jogando videogame de costas para a porta. Até que de repente – ou será que eu falei mais alguma coisa? – ele se virou, não tomou um susto, não levantou sequer uma pálpebra e ficou olhando pra mim. O pacote de presente era um saco de papel parecido com um saco de pão, só que branco, pequeno, e embora cumprindo a especificação de trazer PAKALOLO bem grande, era de todo modo pequeno. E estava amassado. Mas não foi exatamente por isso que naquele dia fraturei alguma coisa sem remédio: a corrente que estenderam alto demais nas olimpíadas improvisadas se chamou, naquele dia, deprezo, e foi com essa fita métrica longuíssima que naquele dia Tarso, o Loiro destruiu o meu coração infantil dizendo “Deixa aí” quando eu acabava de estender o que mais parecia um saquinho de pipoca amassado dizendo “Parabéns, trouxe um presente pra você”.

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A foto é de Volkswitt

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fratura exposta, por yana parente

por   /  30/06/2010  /  10:02

Começa agora mais uma seção do Don’t Touch: Fratura Exposta. Essa vai ser colaborativa. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

Quem começa é Yana Parente, o melhor presente que 2010 me deu!

O conto de Fratura

Toda fratura acontece no corte, no rasgo, na separação entre carne e osso. Neste momento se configura não a simples quebra, mas a conformação de algo muito definitivo, mesmo desprendido; duas coisas que se largam e se firmam ausentes ainda lado a lado. Na terra da literalidade absoluta, a Fratura Exposta rompe a pele evidenciando não só os tecidos, mas aquele espaço que existia pra acomodar, aquele que agora existe só como ausência. Ela é menos o drama de rompimento que a evidência da falta.

Uma maneira de se conhecer Fratura é percebê-la na lacuna, no partido que assim permanece. Não precisa gastar a vista analisando o trauma, prevendo as situações de risco e opções de tratamento… erros comuns. Há quem não seja especialista, olhe com humanidade, admiração até, e apenas diga: Fratura acontece!

Foi num ambiente assim favorável que Fratura Exposta soube a exata gravidade de seu caso. Ela antes era triste porque julgava-se um defeito, uma emergência. E ninguém é feliz na urgência. Ganhando maturidade precoce através de uma saudável aceitação, de repente percebeu que o entorno inteiro, além de suas próprias partes, pararam de lhe cobrar a cura, a junção, e se acostumaram com o fato de existir algo sofrido que anda e funciona. A quebra, antes assustadora, vira a comprovação de que existe o corte para o novo, todo o possível, que mesmo não acontecendo está lá. Com o tempo, Fratura se acomoda de uma forma tão (im)perfeita que nem o sobrenome lhe agrava o caráter… só lhe atesta charmosa dramaticidade.

Finalmente, nada em Fratura pretende esconder o espaço aberto. Ela descobriu com alguma dor que é dele que ela precisa pra viver, e é exposta que ela se mostra para os outros e para si mesma, deixando claro as lamentações e todas as possibilidades de emenda, desejadas ou não. Acomodada num corpo são, dentro de um quarto pequeno, Fratura envelhece como potência de união, mas vive satisfeita com esse vazio que leva adiante.

Para a presença ausente dos primeiros meses de SP.

A foto é de Alexander Rios