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Em clipe manifesto, Bel Baroni mostra como é bom ser sapatão

por   /  19/04/2018  /  13:13

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Cantora, compositora, escritora e artista visual, a carioca Bel Baroni fez um clipe manifesto que mostra como é bom ser sapatão. Sim, assim mesmo, sem rodeios. É tão legal ver a palavra escrita assim, vinda de uma celebração, e não de uma dor, né? A gente tem um longo caminho pela frente, e ver quem tá andando lá na frente desperta curiosidade e admiração.

“É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado”, ela diz nesta #entrevistadonttouch.

Mais um daqueles papos bons, profundos, que nos deixam ainda com mais vontade de ouvir quem está por trás de tantas palavras – e melodias.

Mais Bel: @belbaroni + YouTube

– O que a música representa na tua vida?

Uma constante descoberta. Investigação. A forma através da qual melhor me expressei em toda minha vida. Um lugar de desconforto também, onde me desafio, onde me exponho, me abro toda. Não reconheço em mim muitos talentos natos, os meus caminhos foram traçados nas vivências, nos desejos, nos esforços. Meus pais não eram músicos. Minha mãe veio de uma família nordestina de cantoras, cantava e tocava lindo o violão e o acordeon, mas largou todas as inclinações artísticas e veio para o sudeste em nome do diploma de economia, do emprego fixo, da família e da casa própria. Por mais que sempre tivesse muita música em casa, aulas de piano, canto, grupos de percussão, sei que teve um momento em que a expressão musical tomou um lugar maior na minha vida, que me encontrei com esse processo. Para além da musicalidade, do interesse pelas sonoridades e sensações que elas provocam, tenho uma paixão forte por escrever e fui percebendo que os meus versos me induziam à melodias. E aí foi acontecendo naturalmente, levando som, fazendo bandas, compondo e cantando. Acho que foi isso que me pegou mesmo, a expressão, a comunicação. Poder escrever uma letra, fazer uma música, mostrar pras pessoas e dizer algo de mim com aquilo. Ao mesmo tempo, estou amadurecendo nossa relação, minha e da música. Entendo que trata-se de um trabalho, um ofício como outro qualquer. E as condições de realização são sempre tão informais que muitas vezes sou obrigada a dialogar com essa produção artística de outra forma, tirar do pedestal, secar expectativas, zerar o romance. Tem sido uma relação de magia e resistência.

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– Ser mulher na música significa….

Acho que porque somos mulheres não significa que temos a mesma vivência. Eu posso falar sobre o que é ser mulher cis LGBT, sudestina e branca, e que se encaixa em vários padrões de beleza. O que sinto dentro desse meio musical é o que sinto em qualquer meio machista, ou seja, acho que os desafios são os mesmos em tantas outras profissões. É justamente sobre “ser mulher” antes de ser indivíduo. Te colocam em lugares destinados a você, te enfiam em gavetas. Na música, geralmente tentam nos encaixar num padrão de feminilidade, de diva, de vocalista com voz aguda que nunca desafina. Os boys estão o tempo inteiro duvidando do seu conhecimento, da sua experiência, achando que você não tá entendendo, te explicando como as coisas funcionam. Quase sempre, significa ganhar menos, ser menos convidada pra festivais, trabalhar em meio a uma equipe formada majoritariamente por machos. Significa ser chamada de “diva” enquanto seus colegas músicos são chamados de “gênios”. Mas sabe, acho que já estamos chegando em outro lugar, nos unindo, nos comunicando, nos cuidando, nos organizando e gritando juntas. Toda mudança que tá acontecendo se deve a isso, a nós, ao nosso esforço, à nossa luta. E tudo isso pra que a gente em algum momento não precise mais falar sobre como é ser mulher na música e possa ser livre pra fazer nossa arte, pra falar sobre como é bom ser mulher nesse mundo.

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– No que você tá trabalhando agora? E como é sua trajetória?

Eu ainda estou trabalhando bastante na difusão do meu disco, que lancei no ano passado. Já apresentei “Quando brinca” de muitas formas diferentes: solo, duo ou trio; com guitarra e bateria e/ou teclados e/ou baixo; com participações das mais diversas pelas cidades onde passei. Gosto de sentir as músicas vivas, não estacionadas no fonograma, e o nome do disco me veio como um chamado. É exatamente o que eu faço com essas faixas – brinco, bagunço, experimento. Agora tô viajando para tocar em Buenos Aires e em Montevideo, com a ajuda do programa Ibermúsicas 2018, e em companhia de duas pessoas queridas que gravaram esse disco comigo: Larissa Conforto e Guilherme Marques. Estive nessas duas cidades ano passado apresentando um show solo, com loops, guitarra e voz. Troquei muito com a galera, conheci muita gente, mulheres maravilhosas da música, das artes, um movimento lindo de coletivas LGBT. Enfim, felicíssima de voltar e animada para sentir de novo as reverberações da comunidade latinoamericana. Enquanto isso, sigo com as composições novas, mas ainda entendendo quais são meus desejos. Eu só quero conectar cada vez mais a minha música com minha atuação política, com minha identidade e minhas intenções. Os tempos estão sombrios, a gente sabe.

– No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Me dá muita vontade de falar sobre o assunto. Mais uma vez, pra que a gente não precise falar do assunto algum dia. Quem coloca as pessoas acima ou abaixo das outras por conta do gênero é o patriarcado. Mas fingindo que é normal, que é natural. A gente tem mais é que falar sobre isso, jogar as luzes sobre isso, se queremos que as coisas mudem. Precisamos estimular que mais pessoas sejam felizes, se sintam a vontade com sua sexualidade e sejam respeitadas independente do seu desejo sexual, da sua roupa, da sua raça, enfim. Nesse sentido, representatividade sempre importa. É muito óbvio que a sociedade é misógina e lesbofóbica e que promove um apagamento das identidades lésbicas e transmasculinas. Como escrevi aí em cima, as mulheres são cobradas no sentido de servirem feminilidade. Existe um papel designado a você desde o momento em que você nasceu com uma xoxota. A gente vê a ascensão de várixs artistas de identidades gays e transfemininas na mídia e no mainstream, enquanto as sapatonas e transmasculinas seguem sendo invisibilizadas, estereotipadas (vide o termo “sapatão da MPB”), fetichizadas e apagadas. Leci Brandão, por exemplo, essa artista-deputada-sapatão maravilhosa que sempre desconstruiu gênero no samba e, ao meu ver, nunca foi amplamente reconhecida por isso. E cadê as identidades transmasculinas na música brasileira, em um tempo onde artistas como Pablo Vittar e Liniker estão bombando?

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– Aliás, conta sobre seu clipe manifesto?

Vem justamente dessa vontade aí, de me colocar, mas escolhendo falar sobre como é bom ser sapatão. É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado. É o segundo clipe do álbum, e dessa vez eu não só produzi como dirigi também. Foi uma experiência maravilhosa porque juntei uma equipe diversa e amiga, além de 20 lésbicas da cidade do Rio de Janeiro que toparam performar pra uma das cenas, um ritual sapatônico que nunca mais vou esquecer. Na gravação, ocupamos espaços públicos em diferentes zonas da cidade e isso somou muito ao clipe. Também gravamos na Velcro, festa de sapatão aqui do Rio, que frequento. O resultado me encheu de felicidades e confirmações.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre: O Chamado, da Marina Lima. Apaixonada recentemente: Miragem, da Xênia França.

– Ser artista no Brasil hoje, como é?

Muito difícil responder essa pergunta. O que significa ser brasileira, ou morar no Brasil, nesse momento? Num país onde uma mulher presidenta eleita é deposta num golpe de estado, num país onde se instaura uma intervenção militar baseada no genocídio do povo preto da favela, onde se aprova reformas que ferem os direitos das classes trabalhadoras, onde se mata uma mulher parlamentar preta LGBT e quase um mês depois não tem nenhuma notícia sobre as investigações, onde tentam assassinar e conseguem prender um ex-presidente que pela primeira vez nesse país colocou a periferia na universidade, enquanto toda a corja do helicóptero de cocaína segue impune fazendo lucro. Acho que como indivíduos que fazem parte de uma comunidade, temos responsabilidades, nossos gestos reverberam. Em meio a esse “teatro dos vampiros” que se apresenta, o posicionamento político da classe artística é importante, o engajamento e a atuação consciente dentro desse cenário são necessários. Acredito que cada pessoa, diante de seus contextos e suas trajetórias, deve encontrar sua forma de atuar. Acredito que os privilégios precisam ser revistos, e que ao mesmo tempo não devemos nos paralisar. Eu tenho me provocado com relação a isso. Ser artista pra mim é uma coisa, diferente do que é pra outra pessoa. Gosto do caminho que conecta com a sinceridade. Quero estar de mãos dadas com quem tá se movimentando contra isso tudo que tá acontecendo.

“Estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, diz a fotógrafa Naiara Jinkss

por   /  17/04/2018  /  15:15

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A fotografia de Naiara Jinkss tem aquela força de quem conhece completamente o que registra. São cenas e olhares que a gente vê e tem a sensação de quase estar ali junto, tamanha a imersão dela no assunto. Ela fotografa a Belém onde nasceu, o mercado Ver o Peso em que seus avós se conheceram, a realidade de quem muitas vezes é excluído. Aos 27 anos, ela já é gigante, na fotografia e na percepção de mundo. “Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, ela diz em entrevista ao Don’t Touch, que vocês leem logo abaixo.

Conheçam, sigam e prestigiem o trabalho dessa mulher: @nayjinkss

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O que é objeto da tua fotografia?

Busco fazer recortes do que é muitas vezes rejeitado. Quando a gente cria estereótipos a gente acaba segregando grupos, e aquela comunidade, lugar e/ou pessoa que é rejeitada, estereotipada, acaba sendo excluída. Quando fotógrafo busco estreitar ou estabelecer um laço, seja afetivo, seja social entre objeto fotografado e o espectador. “Quando a gente quebra os estereótipos, a gente aproxima as pessoas.”

O que a fotografia representa na sua vida?

Meu trabalho é a extensão do meu pensamento. Me aproxima de todo tipo de pessoa e faz com que eu quebre meus preconceitos também. Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios. Acredito que não posso reter conhecimento, e sim que preciso repassá-los… É como eu tento mudar a realidade de onde eu venho e das pessoas que eu conheço.

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Quantos anos você tem?

Tenho 27, praticamente na terceira idade.

O que cursou na faculdade?

Estudei artes visuais em Belém. E, em seguida, direção cinematográfica no Rio de Janeiro.

A fotografia é teu trabalho 100% hoje?

Sim, é algo bem difícil. Poucas vezes as pessoas ao redor compreendem meu processo de criação e entendem que isso é um trabalho como qualquer outro de carteira assinada.

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Quais são seus planos como fotógrafa: o que sonha em fotografar, onde quer chegar?

Tenho tantos planos, sonho em fotografar tantos lugares. Penso em visitar outros países e conhecer novas culturas. Desejo conhecer pessoas e ouvir suas histórias. Quero poder viver do meu trabalho e poder ajudar as pessoas através dele.

Pretendo fazer um mestrado pra poder dar continuidade aos meus estudos e para dar aula o mais rápido possível, porque acredito que reter conhecimento é egoísmo e ignorância. Penso em dar aula de educação não formal para pessoas de baixa renda ou em situação de risco. Tenho uma imensa vontade de desenvolver alguns projetos educacionais dentro do sistema penitenciário do Pará, vamos ver. Vontade não me falta.

Também gosto muito de fotografar músicos, mas sempre com foco no documental. Espero em algum momento fotografar meus ídolos e quem sabe fazer uma capa, né? Custa nada sonhar…

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Conta da tua relação com o mercado Ver o peso?

Minha relação com o Ver o Peso começou antes mesmo d’eu nascer. Foi lá que meus avós se conheceram, mas só vim saber disso anos depois, fazendo meu TCC.

A primeira foto que fiz do Ver o Peso pensei: Po, isso tá legal hein?!

Me fez pensar se jornalismo era mesmo pra mim (pois era o curso que planejei a vida inteira fazer). Desde aí, fui atrás da graduação que me oferta por mais tempo a disciplina fotografia – e encontrei artes visuais. Não sei o que teria sido de mim sem minha formação de artes.

O Ver o Peso é como uma pessoa. Que me olha, me entende e me dá conselhos. Gosto de chegar de madrugada, ouvir os barcos, as vozes ao fundo. O vento frio da madrugada e o pitiú que vem do Rio.

Sempre estou pelo Ver o Peso, é meu trabalho e meu lazer… Penso que todos deveriam vir aqui um dia.

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Você fotografa muito lá, né? Por que essa escolha, quais as histórias que mais te marcaram?

Acredito que nem sempre somos nós quem escolhemos algo, às vezes nos escolhem. Tenho tantas histórias que acho que daria um livro… Lembro quando sofri uma tentativa de assalto a mão armada. Gosto quando termino de fotografar e bebo cerveja com meus amigos de lá. Ou fumo. Já vi briga, já vi romance, já vi assalto… As situações se repetem mas mudam os protagonistas.

Quem são suas maiores referências? Tanto de fotografia internacional quanto de gente que você acompanha hoje?

Recentemente conheci um coletivo de fotógrafas chamado Mamana, e elas produzem um trabalho que também exige delas coragem, e aquela sensação de não saber o que está por vir. Mas olha, amo fotografia e o tem muitos outros fotógrafos que me inspiram, mas minha real referência vem da música, dos raps que eu ouço, que falam dos problemas sociais e do quanto não estamos atentos às urgências que exigem nossa atenção.

Quem são os fotógrafos que você admira?

João Ripper foi um dos caras mais especiais na minha formação e ainda é. O modo no qual ele se expressa e fala do seu trabalho e da humanização que as fotos transmitem. Existe sempre um respeito muito grande entre ele e o objeto fotografado, que torna seu trabalho único e sensível.

Também adoro Nan Goldin e Nair Benedicto, são fotógrafas únicas. Sempre após de ver as fotografias produzida por elas, me pergunto como elas conseguiram fazer tal registro.

Também preciso citar o Miguel do Rio Branco, que me ensinou a fotografar não mais pessoas desconhecidas e sim amigos. Se você quer fotografar aquilo que você sonha, você precisa estar seguro do que está fazendo e do lugar que está. Uma vez me disseram o seguinte: é sempre bom conhecer alguém que conhece a malandragem, assim você nunca tá sozinho, tá sempre ligado nas coisas. E é bem isso mesmo…

Tem alguém com quem você adoraria trabalhar?

Égua, tem com certeza. Gosto muito de poder desenvolver meus projetos voltados para fotografia de rua, documental. Mas sou apaixonada por música e cinema também, tenho vontade de produzir videoclipes para artistas no quais eu me identifico.
Tem alguns músicos, como o Elza Soares, Criolo ou Mano Brown.

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No que você tá trabalhando atualmente?

Trabalho com fotografia, me sustento com os freelas que arranjo e com vendas de fotografias também.

E como é o mercado em Belém?

Aqui é muito difícil, é uma selva com poucas opções. O mercado é competitivo e machista muitas vezes. Tive que me especializar fora de Belém por não ter opções de estudo voltadas para fotografia.

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Como é ser mulher nesse meio?

Embora minha família seja grande, admiro duas pessoas em especial, que são: minha mãe e minha avó. O modo no qual fui criada fez com que o fato de ser mulher fosse só um detalhe. Pra mim sempre foi muito nítido que eu precisava ser independente e buscar não depender de ninguém, principalmente de homens. Sempre fui estimulada a meter a cara nas coisas. Minha mãe e minha avó sempre falavam e conheciam Deus e o mundo, então acho que herdei um pouco dessa simpatia.

Mas isso não me livra de sofrer alguns preconceitos, né? Geralmente vindo do próprio meio, no caso de outros fotógrafos. Tem sempre quem diminua seu trabalho, mas acredito que existe espaço para todos. A outra coisa que acontece, mas compreendo e não me incomoda são cantadas, mas converso e tudo fica okay!

Você tem vontade de viver em outros lugares também?

Claro, acho que por tudo estar sempre em constante movimento, nós também precisamos nos movimentar. Conhecer outros hábitos, novas culturas, novas pessoas. Nos dando a oportunidade de crescer e compreender a particularidade de cada indivíduo.

Acha que o eixo Rio/SP é priorizado quando se fala de foto?

Com certeza, são duas metrópoles e muita coisa é produzida por lá. Acho muito competitivo também, mas acredito que existe espaço para todos.

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Talita Avelino: “A música é minha crença”

por   /  10/04/2018  /  12:12

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Ao ouvir “O bom da vida”, de Talita Avelino, comecei a fazer uma playlist intitulada Autocuidado. Ainda não terminei, mas ouço essa música várias vezes, é tão good vibes! Parti pra escutar disco inteiro dela, o “Azul Bahia”, e logo depois fizemos uma entrevista rápida.

Ouçam essa cantora paulistana radicada em Salvador que fala de amor e ancestralidade.

Mais: @taliavelino

– O que a música representa na tua vida?

A música representa muita coisa. A música é minha crença, minha forma de viver, meu manifesto . Todos os dias eu ouço uma canção, toco um instrumento, faço música. É como se fosse uma necessidade absurda pra viver, a minha respiração. Tenho a impressão que através da música eu me comunico melhor do que quando falo.

– Ser mulher na música significa….

Resistência, voz, amor, delicadeza. Significa tanto e tanta coisa. Significa cantar suas dores, conquistas, revelar seu feminino e sua força. Revelar nossos potenciais que são fortes e preciosos. A voz feminina é algo único dentro de uma música. Fora as mulheres instrumentistas com sua sensibilidade .

– No que você tá trabalhando agora?

Atualmente , estou divulgando e circulando o meu disco “Azul Bahia”, recentemente lançado pelo Natura Musical. Estamos divulgando e firmando o público em Salvador. Segundo semestre pretendo circular em algumas capitais do Brasil com esse novo som.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Tem musicas que a gente se apaixona e desapaixona , já tem outras que sempre farão parte da nossa playlist. Uma canção que sempre me acompanha é “Da Maior Importância” de Caetano.

E uma canção que tenho escutado apaixonadamente nos últimos dias é “Dorival”, da banda pernambucana Academia da Berlinda.

A força das mulheres de verdade ilustradas por Prisicila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

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Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

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A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

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A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

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Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

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Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

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Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

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Mais:

Brunna Mancuso

Maria Beraldo: “A música só pode me salvar e não me afundar”

por   /  05/04/2018  /  9:00

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Existe algo de hipnotizante quando Maria Beraldo encara a câmera e começa a cantar. Tem força e mistério, como em “Cavala”. E também tem suavidade, uma aproximação de quem liga o computador, pega o violão e se diverte com aquilo que sabe fazer desde criança.

Cantora, compositora, clarinetista e claronista, Maria se prepara para iniciar a carreira solo, aos 29 anos. Vai até domingo (08/04), aliás, a campanha de financiamento de seu disco no Catarse (apoiem!).

Ela faz parte da banda de Arrigo Barnabé em “Claras e Crocodilos” e da Quartabê. Já gravou Moacir Santos, este ano lança um disco a partir da obra de Dorival Caymmi, além de assinar os arranjos de sopros de algumas faixas do novo CD de Elza Soares. Também vai lançar o primeiro álbum do trio Bolerinho.

Na entrevista abaixo falamos de música e de ser mulher, tópicos do nosso maior interesse.

Mais: @mariaberaldobastos_ + facebook.com/beraldomaria

– O que a música representa na tua vida?

Poxa, essa pergunta é coisa muito séria. Tão séria que eu acredito que vou levar a vida descobrindo e transformando uma possível resposta, mas tenho nesse momento uma sensação com relação a ela, que não é exatamente uma resposta.

No processo de produção do meu disco solo – que começou há alguns meses como produção, e como composição há uns 4 anos – eu percebi mais objetivamente a função emocional da música na minha vida. Tem uma coisa física de preenchimento emocional. De cuidar das minhas carências e preencher buracos de uma maneira muito objetiva. Sou muito passional e algumas pessoas são donas do meu humor, ou minha relação com essas pessoas. Descobri nesse processo como minha relação com a música também opera nesse âmbito. Conduz processos emocionais profundos e rasos, pode me salvar e me afundar. E me dar extremo e muito prazer.

Mas isso é uma divagação e pode parecer blablabla. Mas, ora, se não fosse isso eu não dedicaria minha vida a fazê-la – fazer-me.

A música é a maneira que eu tenho de dizer. É como aprendi a me expressar. É uma ferramenta de transformação pessoal muito potente e uma via de condução.

Faço música desde os 6 anos de idade tocando instrumentos e desde a barriga ouvindo e cantando. E vejo na música que faço em cada período da minha vida quem eu era naquele momento. Talvez a via mais transparente de mim.

Nesse sentido acredito que ela só possa me salvar e não me afundar.

Venho estreitando minha relação com ela e comigo.

E isso tudo porque aprendi os afetos em conexão com a música.

Meus pais são músicos, minha irmã também, e mais dois irmãos, todos esses músicos profissionais. Então pra mim muita coisa foi aprendida com essa via, esse meio de comunicação com as outras – que não exclui os homens – e comigo.

Me toca a música dos outros – quando me toca.

Me comunico profundamente através dessa coisa que ela é.

– Ser mulher na música significa….

Adoraria responder que ser mulher na música significa ser uma pessoa na música. Ou que ser mulher na música significa ser mulher na música, mas não chegamos nesse ponto ainda.

Ser mulher na música é uma luta. Me encontro cada vez mais como mulher – a mulher que eu quero ser a cada instante, não a que está descrita nas bulas – e cada vez mais como uma pessoa que se coloca como indivíduo na música – e isso me leva de volta ao coletivo automaticamente.

Acredito que toda mulher que busca sua autonomia na música é uma mulher de luta, e cada uma encontra sua maneira. Eu encontrei uma agressividade muito grande que é minha, combinada com uma doçura, e assim digo o que tenho pra dizer, busco o que tenho pra buscar. Tenho muitos sofrimentos como mulher no meu corpo, e meu corpo é feito de muitas mulheres que sofreram por suas vidas inteiras, e esse sofrimento talvez, de maneira exponencial, é pensando cronologicamente nas gerações de frente para trás. Sinto essa vibração em mim – parece que minha matéria encontra sua potência quando se dispõe a tal conexão com essas pessoas, as do presente que são feitas de muitas outras pelas linhas múltiplas dos tempos. Nada místico, nada premeditado, só foi acontecendo. Fui encontrando minha identidade em uma agressividade que eu não conhecia e que me leva a transformações. A doçura igual, mas ela eu já a conhecia e me cansei um pouco, mas permanece.

Me sinto muito acolhida pelas mulheres. Virei mulher na música num momento de glória – estamos finalmente mais atentas, mais juntas.

As dificuldades, os absurdos, os assassinatos, permanecem, mas sinto que estejamos criando ferramentas para irmos nos levantando. Juntas.

– No que você tá trabalhando agora?

Agora estou mergulhada no meu primeiro disco, “Cavala”. Estou terminando a produção dele junto com o Tó Brandileone, começando a mixar com o Ricardo Mosca e produzindo o clipe do single que antecederá o álbum.

Estou trabalhando muito no meu projeto de financiamento coletivo para este disco, na plataforma do Catarse: catarse.me/mariaberaldo

Estou ensaiando com a Quartabê – banda que tenho com Mariá Portugal, Joana Queiroz e Chicão – o nosso terceiro disco, desta vez a partir da obra de Dorival Caymmi, com apoio da Natura Musical.

Estou em fase de pré-lançamento do álbum do “Bolerinho”, meu trio com Luísa Toller e Marina Beraldo Bastos (sim, minha irmã). O disco já está pronto.
Fora isso existe o trabalho com Arrigo Barnabé para o qual vivo na espreita e o qual muito me nutre.

E para além tenho gravado discos de amigos como Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Rômulo Fróes, Manu Maltez e tenho ido ver meus amigos tocando, o que não é um trabalho mas participa dele.

– “Cavala” fala do encontro de duas mulheres. No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Ser lésbica exige um posicionamento político. Ou você se omite ou você enfrenta a realidade e rompe muitos padrões sociais e sofre preconceitos.

Eu por muito tempo me reprimi muito, por conta de muitos fatores na minha criação, e também graças a essa mesma criação eu tive forças pra perceber e lutar contra essa repressão.

Encontrei muita força nessa luta – de enfrentar o que for preciso pra poder simplesmente ser, o que jamais poderia ser simples.

A música é um canal muito forte pra mim e encontrei na composição e nesse meu trabalho solo uma via de transformação e de libertação totalmente relacionada à minha sexualidade. Então meu trabalho solo fala disso, tem essa força política ligada ao fato de eu ser lésbica e dos sofrimentos que tive e tenho por isso.

Estão nesse trabalho também os prazeres e orgulhos que tenho e fui encontrando cada vez mais através dele.

Preciso afirmar minha sexualidade porque se eu não afirmo sou engolida pela heteronormatividade e isso me fez muito mal por muito tempo, então sai de dentro de mim em forma de grito.

Me sinto muito bem recebida desse jeito.

Sinto que ajudo muitas mulheres lésbicas com minhas músicas. As pessoas precisam de espelhos, de referências, precisamos saber que não estamos sozinhas porque somos seres de sociedade. Eu cresci sem referência de mulheres lésbicas que eu admirasse e que fossem assumidas. Cresci vendo essas mulheres – que eu admirava e que eram referência pra mim, por exemplo, professoras – omitindo o fato de serem casadas com outras mulheres, ou mesmo sua sexualidade independente de casamento. E isso pra mim sempre foi sofrido. Hoje recebo muitas mensagens nas redes sociais de pessoas que dizem que minha música as ajudou a sair do armário, pessoas totalmente identificadas com minhas músicas, acho que ela tem essa função de espelho, e dá força.

Isso consome muita energia. Para além dos haters que começam a aparecer, e dos amigos que manifestam em forma de preocupações cuidadosas visões que agridem totalmente minha natureza e o posicionamento político que preciso ter para sobreviver nessa sociedade homofóbica (sem perceberem que estão fazendo isso, é claro, mas consumindo muita da minha energia de luta), lido todos os dias com minhas dificuldades pessoais, com a minha remanescente homofobia que às vezes aparece, e me expor tem um custo muito alto, mas não tenho dúvidas de que vale muito à pena.

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– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre “Três Estrelinhas” (Anacleto de Medeiros):

To apaixonada por “Consideration” (Rihanna e SZA):

Mais entrevistas com cantoras brasileiras:

O artivismo fundamental da Aíla

O climão de Letrux no melhor disco do ano

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Projeto I’m Tired fala do impacto das microagressões cotidianas

por   /  03/04/2018  /  10:10

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O projeto I’m Tired (@theimtiredproject) “utiliza a fotografia, o corpo humano e as palavras escritas como ferramentas para falar do impacto duradouro que microagressões cotidianas, suposições e estereótipos causam em nossas vidas”. Criado por Paula Akpan e Harriet Evans, tem como objetivo tirar camadas de discriminação para relevar pensamentos e sentimentos que geralmente não são expressados, seja por medo de reação, seja por dúvida se outras pessoas também passam por isso. Forte, né?

Mais: theimtiredproject.com

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#minasdonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  ativismo  ·  fotografia

Autoamor e natureza na fotografia de Ieve Holthausen

por   /  03/04/2018  /  9:09

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Gosto de ver como trabalhos de mulheres diferentes se conectam. Conheci o da Ieve Holthausen por meio de uma indicação da Tuane Eggers, que já apareceu por aqui (A fotografia de sonhar acordado de Tuane Eggers). Ela também falou da Chana de Moura (Fotografar foi o início de uma liberdade). As três são do Sul – e se conectam com si mesmas e com a natureza para criar imagens em que a gente quer mergulhar, fazer parte.

Conversei com a Ieve sobre seu trabalho. Espero que gostem!

Mais: @ieveholthausen + ieve.org

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Penso que é o sagrado que é o objeto da minha fotografia. Entendi que de forma mais inconsciente ou intuitiva costumo buscar em meu trabalho fotográfico fazer uma louvação à natureza (que é Deus para mim) e aos sentimentos mais elevados, como o amor. Percebo que minhas fotos falam de conexão consigo ou com a natureza, de meditação, de transcendência, da potência das viagens interiores, buscando lembrar que somos consciência. E também falam de ser mulher, de nossa força, de nossa sensibilidade, da potência da união feminina e do autoamor e da libertação dos nossos corpos de mulheres – os portais que nos trouxeram até aqui.

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Acho que não estou muito inserida no meio da fotografia, visto que não participo de editais, concursos, eventos e não tenho quase nenhum contato com outros fotógrafos (exceto duas amigas) ou qualquer coisa assim. Fico meio escondida e não percebo a muito diferença entre ser homem e ser mulher nessas circunstâncias, embora saiba que exista bastante machismo nesse meio.

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A fotografia representa a linguagem que minha alma aprendeu a usar para se expressar. Tudo aquilo que não consigo expressar por palavras, pintura, desenho ou música. É a maneira de revelar e compartilhar um pouco do meu universo interior.

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