Favoritos

Posts da categoria "#minasdonttouch"

Playlist: Mulherão da porra

por   /  17/06/2018  /  12:12

pa

Viciada na música nova da @avarocha, aproveitei e fiz uma playlist chamada Mulherão da porra!⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Olha só o time: com @luedjiluna, essa maravilhosa da foto feita pelo @coletivoiam@elzasoaresoficial@marciacastroart@marinalimax1@mariaberaldo_@leticialetrux@ailamusic, Karina Buhr, Josyara, Larissa Luz, Duda Beat, Luiza Lian, Teto Preto, Alice Caymmi, Illy e Anelis Assumpção.⠀

#minasdonttouch  ·  #trilhadonttouch  ·  amor  ·  especial don't touch  ·  música

Liberdade e leveza nas ilustrações de Marcella Briotto

por   /  29/05/2018  /  9:09

alecrim_A4

É bonito demais ver uma amiga florescer. Sair de um emprego no mercado tradicional para se aventurar no mundo independente, com todas as suas alegrias e seus perrengues também. Vibro com o trabalho da Marcella Briotto, ilustradora cujo traço é cheio de poesia.

Conheçam o trabalho dela: @marcellabriotto

E leiam a entrevista a seguir!

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

 

arruda_A4

– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu fui aquela criança que andava com o caderno e lápis de cor, desenhava o dia todo. Então desde cedo eu sabia que queria fazer algo relacionado a desenho. Mas na hora de escolher profissão achei que design me daria mais oportunidades, comecei trabalhar em revista feminina e sempre que precisava desenhava um passo a passo, até começarem a me dar matérias maiores e, quando vi, estava fazendo matérias de comportamento, que foi onde me encontrei. Em paralelo comecei desenhar o dia a dia, a rotina, os sentimentos que vinham ao olhar para dentro. Gosto dessa conexão entre o material, o espiritual/sentimental e a natureza.

comigo_ninguem_pode_A4
– O que a arte representa na sua vida?

Sempre foi uma válvula de escape do mundo real normalmente tão pesado e um jeito de mostrar o que penso e sinto em relação as coisas. Sempre fui mais retraída, então foi no papel que aprendi a me expressar. Quanto mais caos, mais busco na arte a calmaria – e o contrário também, às vezes nada sai do lugar e precisamos gritar para ver as coisas se movimentando. Quando digo isso não me refiro só a fazer. Por meio da arte em geral a gente se conecta com um mundo novo, uma outra realidade, o que traz novas reflexões, faz a gente pensar e agir diante das coisas. Esse (r)equilíbrio e às vezes esse tapa, rs, que ela proporciona para mim é fundamental, me dá a sensação de liberdade e leveza. Até quando não é leve traz essa sensação porque foi posto para fora, sabe? Foi jogado no mundo.

espada_1

– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que quando fazemos algo que realmente sentimos, as pessoas absorvem aquilo e acabam se identificando.
Quando fiz essa série de desenhos ligados às ervas eu realmente tentava encontrar um equilíbrio entre minhas angústias todas e uma conexão comigo mesma, buscando uma liberdade que de certa forma não estava tendo no meu dia a dia. Fiquei muito tempo afastada do meu lado autoral, muitas vezes vamos deixando o que gostamos de lado por insegurança, por falta de tempo, normalmente somos engolidas pelo mercado de trabalho/capitalismo e vamos nos afastando mais do que a gente é, do que gostamos de fazer. Acho que estou nesse momento de me reencontrar e isso se reflete no meu trabalho.

espada de sao jorge 3

– Como é ser mulher no seu meio?

Na minha bolha, sou mais rodeada de mulheres, tenho mais amigas mulheres, no mercado editorial trabalhei com muitas mulheres, então tenho a sorte de estar rodeada por uma mulherada que eu admiro. Mas lá atrás na época de faculdade, quando eu ia procurar referências de ilustração tinha muito ilustrador homem, era uma ou outra ilustradora, acho que isso está mudando, o que é ótimo. Hoje vejo ilustradoras com trabalhos incríveis conquistando cada vez mais espaço. Tem um movimento de mulheres crescendo forte no mercado da ilustração, acho maravilhoso, ainda mais diante um mundo com patriarcado muito forte. Abordar o universo feminino, desde as sutilezas até as lutas, é fundamental. Ter essa representatividade de mulheres no mercado das artes, desde ilustração até a arte de rua por exemplo, acho que é o mais importante.

comigo ninguem pode_1

– Que mulheres você indica pra eu entrevistar depois?

Vou falar três que trabalham o feminino de formas diferentes: Karen Dolorez , Anna Maeda e Miriam Brugmann.

guine_1 manjericao_1

Mais:

Eva Uviedo

Priscila Barbosa

Brunna Mancuso

“Um coração sem fechadura”, de Silvia Guimarães

por   /  24/05/2018  /  18:00

sil

“As coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sil (@designdebaunilha) é uma dessas amigas que eu mais marco de ver do que encontro de verdade. Ainda assim, estamos há anos nos acompanhando, frequentando uma festinha de aniversário aqui, um show ali, falando nas DMs. A cada ano que passa eu vejo essa amiga desabrochar, se abrir pro mundo, se entender, colocar na vida e no trabalho o tanto que aprende. É tão bonito!

Um dos episódios que marcaram a vida dela é o assunto desse post aqui. Há 8 anos, Sil deu à luz Matias, seu filho caçula. Matias nasceu com uma cardiopatia congênita. E mudou tudo na vida de sua mãe – e de todos ao seu redor.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A história dele é contada no livro “Um coração sem fechadura”, que está em processo de financiamento coletivo. A primeira meta já foi atingida, e a ideia agora é dobrar a meta. Vamos ajudar a espalhar essa história preciosa?

www.catarse.me/umcoracaosemfechadura

sil2

Sil, que também faz o Design de Baunilha, conta sobre o livro:

“Passei a vida ouvindo as pessoas dizendo pras mulheres grávidas “não importa se é menina ou menino, o que importa é que tenha saúde”. Em 2010 eu tive um filho que tinha um problema no coração e pensava nessa frase todo dia, perdida, martelando ‘E agora? O que é que importa?’.

Meu primeiro passo foi me vitimizar. Passei por esse passo com força e com vontade. Minha segunda frase favorita nessa época era ‘o que é que eu fiz pra merecer isso?’, e tudo o que eu consegui com ela foi passar um ano sem dormir. E o menino lá, se recuperando, sendo feliz, vivendo, e eu sofrendo porque nada daquilo estava sendo como eu tinha imaginado.

E então eu escrevi um livro. Que é um livro pra criança, mas é um livro pra adulto também. Ele fala sobre medo, fala sobre como a gente quer controlar o incontrolável. Fala sobre encontrar dentro da gente a sabedoria de quem já veio pra esse mundo com um passinho na frente, entendendo que fechando o coração pra vida a gente não vai muito longe não.

E o que eu mais quero agora é que esse livro exista, é que essa história chegue nas pessoas. É mostrar que tudo bem ser diferente. Que as coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”

sil3

Mulheres, seres do mar e sentimentos na profundidade dos desenhos de Eva Uviedo

por   /  22/05/2018  /  12:12

846a4058803929.5abdc01eb9865

Conheço a Eva Uviedo de quando a internet ainda era pouco povoada. E ali ela já se destacava com seus desenhos e ilustrações tão característicos, que foram ganhando ainda mais força ao longo dos anos. O talento dela sempre me encantou, e acho demais vê-lo materializado em quadros, livros, roupas. Descobrir mais da trajetória dela foi uma dessas alegrias que o Don’t Touch me dá. Espero que gostem do bate papo!

Mais Eva: @evauviedo e www.evauviedo.com.br

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

3

Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Nasci na Argentina, em família de artistas (pai diretor de teatro, mãe cantora) que precisaram fugir da ditadura, e moro em São Paulo desde a adolescência. Nessa época comecei a ver que tinha jeito pra desenhar, mas era o início da MTV e o grande barato era videoclipes, vídeoarte. Por conta disso entrei para o meio do audiovisual, e acabei indo pra área de documentários, especialmente os ligados a direitos humanos, LGBT e feminismo, o que foi uma experiência muito enriquecedora. Alternava o curso de comunicação com aulas de desenho e pintura, e também direção de arte e design, que me levou para a internet. Aí passei 15 anos como responsável pela área na Trip Editora – o que foi sensacional porque juntava tudo, arte visual, vídeo e jornalismo – e ia desenhando como hobby e postando no Flickr, até que comecei a receber convites para ilustrar profissionalmente. Em 2008 fiz um curso com os ilustradores Fernando Vilela e Odilon Moraes, que tem uma abordagem incrível dessa arte, e passei a ver isso como uma profissão real oficial, com todas suas características e desafios próprios. Em 2014 saí da Trip e desde então me dedico integralmente à ilustração, seja para o mercado editorial, publicidade ou em projetos autorais.

peixe-beta_v2_eva_uviedo

Gosto muito de desenhar mulheres, e desde 2007 venho desenvolvendo uma série chamada “Sobre Amor & Outros Peixes”, onde relaciono seres do mar com sentimentos e tipos de relacionamentos. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a dinâmicas das relações humanas, e por aí foi se desenvolvendo um universo pictórico de simbolismo próprio. O tubarão, ao mesmo tempo suave e feroz. A arraia, um animal manso que pode ser letal. Os peixes Beta, de briga; o baiacu, que infla pra se defender. O polvo, com seus tentáculos envolventes, que aparece em diversas representações com características sensuais. E a água, que envolve tudo em um estado alterado como quando a gente está apaixonado. E por aí vai, a lista é enorme e é aberta para interpretações de cada um.

Essa série já se desdobrou em diversos trabalhos e parcerias, como os livros “Nossa Senhora da Pequena Morte” [Ed. do Bispo, 2008] e T”oureando o Diabo” [Independente, 2016], em parceria com a escritora Clara Averbuck; apareceram em “Mnemomáquina”, de Ronaldo Bressane [Demônio Negro, 2014], capas de discos, como o das cantoras Pitty e Elza Soares, e outros trabalhos.

Também gosto muito de desenhar sobre viagens, em forma de mapas, travelbooks, guidebooks e afins, tenho vários trabalhos nessa área. E toda viagem que faço rende um caderninho com as impressões da viagem e desenhos.

220fb458803929.5abdc01ec2e76

– O que a arte representa na sua vida?

Vejo a arte como uma frequência diferente de comunicação entre as pessoas. É como se houvessem coisas das quais só dá pra falar, e entender, através da arte. Muitas vezes faço um desenho que eu mesma não sei exatamente o que ele significa, mas veio de um sentimento que não consegui colocar em palavras. Aí muitas pessoas vêm e falam: “esse desenho me tocou, me fez chorar, mexeu comigo de um jeito que não sei explicar”. É porque a gente compartilhou algo, só que em outra sintonia. Às vezes tenho vontade de perguntar: “mas o que foi que você entendeu?”. Mas acho que isso quebraria essa magia. E a mesma coisa acontece de volta com as artes que eu gosto.

16ec2758803929.5abdc01dd04e9

– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que o que faz o trabalho reverberar é que ele fala de sentimentos de um jeito aberto para que as pessoas ponham nele suas próprias vivências e interpretações. Os temas que gosto de abordar são as relações entre as pessoas, sendo o personagem principal uma mulher (que pode ser representada de várias maneiras, épocas, e com várias idades), pois o desenho é autobiográfico, e o sentimento, o ser do mar.

6d137b58803929.5abdc017c9966

– Como é ser mulher no seu meio?

Por um lado é muito bacana, porque está se formando um sentimento de comunidade real, muito sincera e naturalmente, coisa que não existia anos atrás. O fato das mulheres se juntarem para montar exposições e coletivos femininos é necessário para ganhar força e visibilidade neste momento; então é ótimo que isso esteja acontecendo. Mas penso que o ideal seria uma equiparação real de gênero em todas as oportunidades e projetos.

Já como artista, me incomoda quando dizem que tenho um estilo “delicado / feminino”, como se fossem coisas naturalmente associadas. Existem trabalhos feitos por mulheres que são super agressivos, transgressores, e tem artistas como o espanhol Conrad Roset, que retrata mulheres com um trabalho super delicado (e não trabalha só para marcas femininas).

Essa associação dá a impressão de que faço um tipo de arte que SÓ pode ser apreciado por mulheres, o que não é real: muitos dos que compram meu trabalho são homens. Mas na última feira que participei teve um cara que se recusou a ficar PERTO dos meus desenhos enquanto a mulher dele escolhia, fez questão de falar e mostrar que ele não queria opinar sobre aquilo, que era “coisa de mulher”. Tipo depreciando mesmo. Por que eu preciso passar por esse tipo de coisa?

livro Como viver em SP sem carro

livro 50 Brasileiras Incríveis para conhecer antes de crescer

Mais:

Priscila Barbosa

Brunna Mancuso

#galeriadonttouch  ·  #minasdonttouch  ·  amor  ·  arte  ·  especial don't touch

“Amora”, de Natalia Borges Polesso

por   /  17/05/2018  /  20:20

amora

Nunca tinha lido um livro 100% lésbico, até passar o domingo na companhia de “Amora”, de Natalia Borges Polesso (@tia_brigida). Mais uma vez me vem à cabeça aquela palavra tão importante e que já é quase lugar comum (tomara mesmo que se torne): representatividade. Das inúmeras histórias de amor que você passou a vida vendo, lendo, ouvindo, quantas são protagonizadas por duas mulheres?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A literatura nos expande. E, tantas vezes, nos mostra que somos mais parecidos do que antagônicos. Afinal, nos apaixonamos, levamos pé na bunda, nos metemos em confusão, celebramos acordar todo dia ao lado da mesma pessoa, casamos, travamos DRs, às vezes separamos e começamos tudo outra vez. Tem tudo isso no livro, que é sobre amor e descoberta e, por isso, interessa a qualquer um que goste dos temas. De diferente ele tem camadas de silenciamento e preconceito. Duras e doloridas, sempre, mas que bom vê-las visíveis na literatura, né?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
#bibliotecadonttouch
#minasdonttouch

Em clipe manifesto, Bel Baroni mostra como é bom ser sapatão

por   /  19/04/2018  /  13:13

Bel

Cantora, compositora, escritora e artista visual, a carioca Bel Baroni fez um clipe manifesto que mostra como é bom ser sapatão. Sim, assim mesmo, sem rodeios. É tão legal ver a palavra escrita assim, vinda de uma celebração, e não de uma dor, né? A gente tem um longo caminho pela frente, e ver quem tá andando lá na frente desperta curiosidade e admiração.

“É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado”, ela diz nesta #entrevistadonttouch.

Mais um daqueles papos bons, profundos, que nos deixam ainda com mais vontade de ouvir quem está por trás de tantas palavras – e melodias.

Mais Bel: @belbaroni + YouTube

– O que a música representa na tua vida?

Uma constante descoberta. Investigação. A forma através da qual melhor me expressei em toda minha vida. Um lugar de desconforto também, onde me desafio, onde me exponho, me abro toda. Não reconheço em mim muitos talentos natos, os meus caminhos foram traçados nas vivências, nos desejos, nos esforços. Meus pais não eram músicos. Minha mãe veio de uma família nordestina de cantoras, cantava e tocava lindo o violão e o acordeon, mas largou todas as inclinações artísticas e veio para o sudeste em nome do diploma de economia, do emprego fixo, da família e da casa própria. Por mais que sempre tivesse muita música em casa, aulas de piano, canto, grupos de percussão, sei que teve um momento em que a expressão musical tomou um lugar maior na minha vida, que me encontrei com esse processo. Para além da musicalidade, do interesse pelas sonoridades e sensações que elas provocam, tenho uma paixão forte por escrever e fui percebendo que os meus versos me induziam à melodias. E aí foi acontecendo naturalmente, levando som, fazendo bandas, compondo e cantando. Acho que foi isso que me pegou mesmo, a expressão, a comunicação. Poder escrever uma letra, fazer uma música, mostrar pras pessoas e dizer algo de mim com aquilo. Ao mesmo tempo, estou amadurecendo nossa relação, minha e da música. Entendo que trata-se de um trabalho, um ofício como outro qualquer. E as condições de realização são sempre tão informais que muitas vezes sou obrigada a dialogar com essa produção artística de outra forma, tirar do pedestal, secar expectativas, zerar o romance. Tem sido uma relação de magia e resistência.

fsc_7515_1

– Ser mulher na música significa….

Acho que porque somos mulheres não significa que temos a mesma vivência. Eu posso falar sobre o que é ser mulher cis LGBT, sudestina e branca, e que se encaixa em vários padrões de beleza. O que sinto dentro desse meio musical é o que sinto em qualquer meio machista, ou seja, acho que os desafios são os mesmos em tantas outras profissões. É justamente sobre “ser mulher” antes de ser indivíduo. Te colocam em lugares destinados a você, te enfiam em gavetas. Na música, geralmente tentam nos encaixar num padrão de feminilidade, de diva, de vocalista com voz aguda que nunca desafina. Os boys estão o tempo inteiro duvidando do seu conhecimento, da sua experiência, achando que você não tá entendendo, te explicando como as coisas funcionam. Quase sempre, significa ganhar menos, ser menos convidada pra festivais, trabalhar em meio a uma equipe formada majoritariamente por machos. Significa ser chamada de “diva” enquanto seus colegas músicos são chamados de “gênios”. Mas sabe, acho que já estamos chegando em outro lugar, nos unindo, nos comunicando, nos cuidando, nos organizando e gritando juntas. Toda mudança que tá acontecendo se deve a isso, a nós, ao nosso esforço, à nossa luta. E tudo isso pra que a gente em algum momento não precise mais falar sobre como é ser mulher na música e possa ser livre pra fazer nossa arte, pra falar sobre como é bom ser mulher nesse mundo.

476367_3729516472322_676275666_o

– No que você tá trabalhando agora? E como é sua trajetória?

Eu ainda estou trabalhando bastante na difusão do meu disco, que lancei no ano passado. Já apresentei “Quando brinca” de muitas formas diferentes: solo, duo ou trio; com guitarra e bateria e/ou teclados e/ou baixo; com participações das mais diversas pelas cidades onde passei. Gosto de sentir as músicas vivas, não estacionadas no fonograma, e o nome do disco me veio como um chamado. É exatamente o que eu faço com essas faixas – brinco, bagunço, experimento. Agora tô viajando para tocar em Buenos Aires e em Montevideo, com a ajuda do programa Ibermúsicas 2018, e em companhia de duas pessoas queridas que gravaram esse disco comigo: Larissa Conforto e Guilherme Marques. Estive nessas duas cidades ano passado apresentando um show solo, com loops, guitarra e voz. Troquei muito com a galera, conheci muita gente, mulheres maravilhosas da música, das artes, um movimento lindo de coletivas LGBT. Enfim, felicíssima de voltar e animada para sentir de novo as reverberações da comunidade latinoamericana. Enquanto isso, sigo com as composições novas, mas ainda entendendo quais são meus desejos. Eu só quero conectar cada vez mais a minha música com minha atuação política, com minha identidade e minhas intenções. Os tempos estão sombrios, a gente sabe.

– No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Me dá muita vontade de falar sobre o assunto. Mais uma vez, pra que a gente não precise falar do assunto algum dia. Quem coloca as pessoas acima ou abaixo das outras por conta do gênero é o patriarcado. Mas fingindo que é normal, que é natural. A gente tem mais é que falar sobre isso, jogar as luzes sobre isso, se queremos que as coisas mudem. Precisamos estimular que mais pessoas sejam felizes, se sintam a vontade com sua sexualidade e sejam respeitadas independente do seu desejo sexual, da sua roupa, da sua raça, enfim. Nesse sentido, representatividade sempre importa. É muito óbvio que a sociedade é misógina e lesbofóbica e que promove um apagamento das identidades lésbicas e transmasculinas. Como escrevi aí em cima, as mulheres são cobradas no sentido de servirem feminilidade. Existe um papel designado a você desde o momento em que você nasceu com uma xoxota. A gente vê a ascensão de várixs artistas de identidades gays e transfemininas na mídia e no mainstream, enquanto as sapatonas e transmasculinas seguem sendo invisibilizadas, estereotipadas (vide o termo “sapatão da MPB”), fetichizadas e apagadas. Leci Brandão, por exemplo, essa artista-deputada-sapatão maravilhosa que sempre desconstruiu gênero no samba e, ao meu ver, nunca foi amplamente reconhecida por isso. E cadê as identidades transmasculinas na música brasileira, em um tempo onde artistas como Pablo Vittar e Liniker estão bombando?

BEL-Esse-Calor-1-1

– Aliás, conta sobre seu clipe manifesto?

Vem justamente dessa vontade aí, de me colocar, mas escolhendo falar sobre como é bom ser sapatão. É muito comum que as narrativas LGBT carreguem sofrimento, histórias de opressão e violência, e por isso quis trazer essa outra perspectiva: que prazer eu tenho em conhecer minha sexualidade, em afirmá-la, em vivê-la plenamente. O refrão da música diz: “vou usar esse calor a meu favor”. Se querem acender a fogueira, saibam que a gente não vai queimar, não, a gente vai suar, dançar, se esfregar e celebrar a nossa existência. Não há nada que me faça voltar atrás no meu prazer, esse é o recado. É o segundo clipe do álbum, e dessa vez eu não só produzi como dirigi também. Foi uma experiência maravilhosa porque juntei uma equipe diversa e amiga, além de 20 lésbicas da cidade do Rio de Janeiro que toparam performar pra uma das cenas, um ritual sapatônico que nunca mais vou esquecer. Na gravação, ocupamos espaços públicos em diferentes zonas da cidade e isso somou muito ao clipe. Também gravamos na Velcro, festa de sapatão aqui do Rio, que frequento. O resultado me encheu de felicidades e confirmações.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre: O Chamado, da Marina Lima. Apaixonada recentemente: Miragem, da Xênia França.

– Ser artista no Brasil hoje, como é?

Muito difícil responder essa pergunta. O que significa ser brasileira, ou morar no Brasil, nesse momento? Num país onde uma mulher presidenta eleita é deposta num golpe de estado, num país onde se instaura uma intervenção militar baseada no genocídio do povo negro da favela, onde se aprova reformas que ferem os direitos das classes trabalhadoras, onde se mata uma mulher parlamentar negra LGBT e quase um mês depois não tem nenhuma notícia sobre as investigações, onde tentam assassinar e conseguem prender um ex-presidente que pela primeira vez nesse país colocou a periferia na universidade, enquanto toda a corja do helicóptero de cocaína segue impune fazendo lucro. Acho que como indivíduos que fazem parte de uma comunidade, temos responsabilidades, nossos gestos reverberam. Em meio a esse “teatro dos vampiros” que se apresenta, o posicionamento político da classe artística é importante, o engajamento e a atuação consciente dentro desse cenário são necessários. Acredito que cada pessoa, diante de seus contextos e suas trajetórias, deve encontrar sua forma de atuar. Acredito que os privilégios precisam ser revistos, e que ao mesmo tempo não devemos nos paralisar. Eu tenho me provocado com relação a isso. Ser artista pra mim é uma coisa, diferente do que é pra outra pessoa. Gosto do caminho que conecta com a sinceridade. Quero estar de mãos dadas com quem tá se movimentando contra isso tudo que tá acontecendo.

“Estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, diz a fotógrafa Naiara Jinkss

por   /  17/04/2018  /  15:15

IMG_1381

A fotografia de Naiara Jinkss tem aquela força de quem conhece completamente o que registra. São cenas e olhares que a gente vê e tem a sensação de quase estar ali junto, tamanha a imersão dela no assunto. Ela fotografa a Belém onde nasceu, o mercado Ver o Peso em que seus avós se conheceram, a realidade de quem muitas vezes é excluído. Aos 27 anos, ela já é gigante, na fotografia e na percepção de mundo. “Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios”, ela diz em entrevista ao Don’t Touch, que vocês leem logo abaixo.

Conheçam, sigam e prestigiem o trabalho dessa mulher: @nayjinkss

IMG_3616

O que é objeto da tua fotografia?

Busco fazer recortes do que é muitas vezes rejeitado. Quando a gente cria estereótipos a gente acaba segregando grupos, e aquela comunidade, lugar e/ou pessoa que é rejeitada, estereotipada, acaba sendo excluída. Quando fotógrafo busco estreitar ou estabelecer um laço, seja afetivo, seja social entre objeto fotografado e o espectador. “Quando a gente quebra os estereótipos, a gente aproxima as pessoas.”

O que a fotografia representa na sua vida?

Meu trabalho é a extensão do meu pensamento. Me aproxima de todo tipo de pessoa e faz com que eu quebre meus preconceitos também. Acredito que a arte transforma vidas e que todos estamos aqui pra evoluir e rever nossos privilégios. Acredito que não posso reter conhecimento, e sim que preciso repassá-los… É como eu tento mudar a realidade de onde eu venho e das pessoas que eu conheço.

@nayjinknss@nayjinknss3

Quantos anos você tem?

Tenho 27, praticamente na terceira idade.

O que cursou na faculdade?

Estudei artes visuais em Belém. E, em seguida, direção cinematográfica no Rio de Janeiro.

A fotografia é teu trabalho 100% hoje?

Sim, é algo bem difícil. Poucas vezes as pessoas ao redor compreendem meu processo de criação e entendem que isso é um trabalho como qualquer outro de carteira assinada.

19_1

Quais são seus planos como fotógrafa: o que sonha em fotografar, onde quer chegar?

Tenho tantos planos, sonho em fotografar tantos lugares. Penso em visitar outros países e conhecer novas culturas. Desejo conhecer pessoas e ouvir suas histórias. Quero poder viver do meu trabalho e poder ajudar as pessoas através dele.

Pretendo fazer um mestrado pra poder dar continuidade aos meus estudos e para dar aula o mais rápido possível, porque acredito que reter conhecimento é egoísmo e ignorância. Penso em dar aula de educação não formal para pessoas de baixa renda ou em situação de risco. Tenho uma imensa vontade de desenvolver alguns projetos educacionais dentro do sistema penitenciário do Pará, vamos ver. Vontade não me falta.

Também gosto muito de fotografar músicos, mas sempre com foco no documental. Espero em algum momento fotografar meus ídolos e quem sabe fazer uma capa, né? Custa nada sonhar…

9_1

Conta da tua relação com o mercado Ver o peso?

Minha relação com o Ver o Peso começou antes mesmo d’eu nascer. Foi lá que meus avós se conheceram, mas só vim saber disso anos depois, fazendo meu TCC.

A primeira foto que fiz do Ver o Peso pensei: Po, isso tá legal hein?!

Me fez pensar se jornalismo era mesmo pra mim (pois era o curso que planejei a vida inteira fazer). Desde aí, fui atrás da graduação que me oferta por mais tempo a disciplina fotografia – e encontrei artes visuais. Não sei o que teria sido de mim sem minha formação de artes.

O Ver o Peso é como uma pessoa. Que me olha, me entende e me dá conselhos. Gosto de chegar de madrugada, ouvir os barcos, as vozes ao fundo. O vento frio da madrugada e o pitiú que vem do Rio.

Sempre estou pelo Ver o Peso, é meu trabalho e meu lazer… Penso que todos deveriam vir aqui um dia.

12_1

Você fotografa muito lá, né? Por que essa escolha, quais as histórias que mais te marcaram?

Acredito que nem sempre somos nós quem escolhemos algo, às vezes nos escolhem. Tenho tantas histórias que acho que daria um livro… Lembro quando sofri uma tentativa de assalto a mão armada. Gosto quando termino de fotografar e bebo cerveja com meus amigos de lá. Ou fumo. Já vi briga, já vi romance, já vi assalto… As situações se repetem mas mudam os protagonistas.

Quem são suas maiores referências? Tanto de fotografia internacional quanto de gente que você acompanha hoje?

Recentemente conheci um coletivo de fotógrafas chamado Mamana, e elas produzem um trabalho que também exige delas coragem, e aquela sensação de não saber o que está por vir. Mas olha, amo fotografia e o tem muitos outros fotógrafos que me inspiram, mas minha real referência vem da música, dos raps que eu ouço, que falam dos problemas sociais e do quanto não estamos atentos às urgências que exigem nossa atenção.

Quem são os fotógrafos que você admira?

João Ripper foi um dos caras mais especiais na minha formação e ainda é. O modo no qual ele se expressa e fala do seu trabalho e da humanização que as fotos transmitem. Existe sempre um respeito muito grande entre ele e o objeto fotografado, que torna seu trabalho único e sensível.

Também adoro Nan Goldin e Nair Benedicto, são fotógrafas únicas. Sempre após de ver as fotografias produzida por elas, me pergunto como elas conseguiram fazer tal registro.

Também preciso citar o Miguel do Rio Branco, que me ensinou a fotografar não mais pessoas desconhecidas e sim amigos. Se você quer fotografar aquilo que você sonha, você precisa estar seguro do que está fazendo e do lugar que está. Uma vez me disseram o seguinte: é sempre bom conhecer alguém que conhece a malandragem, assim você nunca tá sozinho, tá sempre ligado nas coisas. E é bem isso mesmo…

Tem alguém com quem você adoraria trabalhar?

Égua, tem com certeza. Gosto muito de poder desenvolver meus projetos voltados para fotografia de rua, documental. Mas sou apaixonada por música e cinema também, tenho vontade de produzir videoclipes para artistas no quais eu me identifico.
Tem alguns músicos, como o Elza Soares, Criolo ou Mano Brown.

IMG_1178IMG_1179IMG_1180

No que você tá trabalhando atualmente?

Trabalho com fotografia, me sustento com os freelas que arranjo e com vendas de fotografias também.

E como é o mercado em Belém?

Aqui é muito difícil, é uma selva com poucas opções. O mercado é competitivo e machista muitas vezes. Tive que me especializar fora de Belém por não ter opções de estudo voltadas para fotografia.

IMG_2397IMG_2396

Como é ser mulher nesse meio?

Embora minha família seja grande, admiro duas pessoas em especial, que são: minha mãe e minha avó. O modo no qual fui criada fez com que o fato de ser mulher fosse só um detalhe. Pra mim sempre foi muito nítido que eu precisava ser independente e buscar não depender de ninguém, principalmente de homens. Sempre fui estimulada a meter a cara nas coisas. Minha mãe e minha avó sempre falavam e conheciam Deus e o mundo, então acho que herdei um pouco dessa simpatia.

Mas isso não me livra de sofrer alguns preconceitos, né? Geralmente vindo do próprio meio, no caso de outros fotógrafos. Tem sempre quem diminua seu trabalho, mas acredito que existe espaço para todos. A outra coisa que acontece, mas compreendo e não me incomoda são cantadas, mas converso e tudo fica okay!

Você tem vontade de viver em outros lugares também?

Claro, acho que por tudo estar sempre em constante movimento, nós também precisamos nos movimentar. Conhecer outros hábitos, novas culturas, novas pessoas. Nos dando a oportunidade de crescer e compreender a particularidade de cada indivíduo.

Acha que o eixo Rio/SP é priorizado quando se fala de foto?

Com certeza, são duas metrópoles e muita coisa é produzida por lá. Acho muito competitivo também, mas acredito que existe espaço para todos.

IMG_1384 IMG_1835 IMG_2066 IMG_2314 IMG_3126 IMG_3616 IMG_3708

Processed with MOLDIV

IMG_3841 IMG_3842 IMG_5024 IMG_5090 IMG_5145 IMG_5783 IMG_7184 IMG_7634

Processed with MOLDIV

IMG_8418 IMG_9190 IMG_9627

Talita Avelino: “A música é minha crença”

por   /  10/04/2018  /  12:12

talita

Ao ouvir “O bom da vida”, de Talita Avelino, comecei a fazer uma playlist intitulada Autocuidado. Ainda não terminei, mas ouço essa música várias vezes, é tão good vibes! Parti pra escutar disco inteiro dela, o “Azul Bahia”, e logo depois fizemos uma entrevista rápida.

Ouçam essa cantora paulistana radicada em Salvador que fala de amor e ancestralidade.

Mais: @taliavelino

– O que a música representa na tua vida?

A música representa muita coisa. A música é minha crença, minha forma de viver, meu manifesto . Todos os dias eu ouço uma canção, toco um instrumento, faço música. É como se fosse uma necessidade absurda pra viver, a minha respiração. Tenho a impressão que através da música eu me comunico melhor do que quando falo.

– Ser mulher na música significa….

Resistência, voz, amor, delicadeza. Significa tanto e tanta coisa. Significa cantar suas dores, conquistas, revelar seu feminino e sua força. Revelar nossos potenciais que são fortes e preciosos. A voz feminina é algo único dentro de uma música. Fora as mulheres instrumentistas com sua sensibilidade .

– No que você tá trabalhando agora?

Atualmente , estou divulgando e circulando o meu disco “Azul Bahia”, recentemente lançado pelo Natura Musical. Estamos divulgando e firmando o público em Salvador. Segundo semestre pretendo circular em algumas capitais do Brasil com esse novo som.

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Tem musicas que a gente se apaixona e desapaixona , já tem outras que sempre farão parte da nossa playlist. Uma canção que sempre me acompanha é “Da Maior Importância” de Caetano.

E uma canção que tenho escutado apaixonadamente nos últimos dias é “Dorival”, da banda pernambucana Academia da Berlinda.

A força das mulheres de verdade ilustradas por Priscila Barbosa

por   /  09/04/2018  /  18:31

pri000

Priscila Barbosa é ilustradora e nos presenteia a cada post com seus desenhos de mulheres de verdade. E o mais legal é que, além de compartilhar o processo do seu trabalho, ela também divide leituras, sensações e pensamentos, o que ajuda a tornar ainda mais forte o que ela coloca no mundo.

Conversei com ela pra saber mais disso tudo, logo abaixo!

Mais: @priii_barbosapriscilabarbosa.iluria.com

#entrevistadonttouch
#galeriadonttouch
#minasdonttouch

pri00

A ilustração sempre foi minha paixão, mas durante alguns anos ela foi colocada de lado por diversas inseguranças. Demorou pra eu perceber que ilustrar era justamente uma das maneiras de lidar com essas inseguranças. A partir do momento que me dei conta disso, comecei a explorar alguns assuntos que tinham impacto direto na minha vida e na maneira como eu me via, o que coincidiu justamente com o início da vida adulta e com um processo de independência. Então, acabo ilustrando tudo o que passa pela minha cabeça e deixa alguma pergunta. No momento tem sido a relação das mulheres com seus corpos e isso, claro, me inclui. Tenho tentado olhar meu corpo com a gentileza com que olho o das outras mulheres e é um processo bem complexo, mas incrível. Talvez por isso meu assunto preferido de ilustrar tem sido anatomia.

pri2

A arte representa estar viva, que não é só coração batendo e respirar. E digo arte não só no sentido de produzir arte, mas de absorver a arte de outras pessoas também e conhecer diferentes pontos de vista. A arte me dá diversas sacodidas, sabe? Me força a pensar em coisa que estão fora da minha vivência, a enfrentar e confrontar também.

pri3

Acho que a maior força que um trabalho pode ter é você mesma acreditar nele. Ele significar muito pra ti. Daí essa potência fica visível pro outro e reverbera nele também, o que vira um ciclo de retroalimentação poética.

pri10

Arte é sempre política, essa sempre foi minha visão. Considerando que nossos corpos também são políticos, e nossas relações mais ainda, considero que o mais importante é se posicionar através das criações e incentivar esse processo no outro, cada vez mais é o que tento fazer.

pri4

Eu estive em cargos superiores trabalhando com design e ilustração e ser firme sempre foi uma das minhas características. Mas é isso, tu tem que ser firme o tempo todo, mesmo quando não quer. Me questiono muito sobre a necessidade disso existir por eu ser mulher. Hoje, como freelancer, infelizmente o desafio é fugir de outras mulheres que usam o discurso feminista e girl power como uma maneira de se aproveitar disso pra ganho pessoal. Isso é desanimador, mostra a total desvalorização das profissionais de arte e da própria causa.

pri12

pri5

pri6

pri8

pri14

Mais:

Brunna Mancuso

Maria Beraldo: “A música só pode me salvar e não me afundar”

por   /  05/04/2018  /  9:00

maxresdefault

Existe algo de hipnotizante quando Maria Beraldo encara a câmera e começa a cantar. Tem força e mistério, como em “Cavala”. E também tem suavidade, uma aproximação de quem liga o computador, pega o violão e se diverte com aquilo que sabe fazer desde criança.

Cantora, compositora, clarinetista e claronista, Maria se prepara para iniciar a carreira solo, aos 29 anos. Vai até domingo (08/04), aliás, a campanha de financiamento de seu disco no Catarse (apoiem!).

Ela faz parte da banda de Arrigo Barnabé em “Claras e Crocodilos” e da Quartabê. Já gravou Moacir Santos, este ano lança um disco a partir da obra de Dorival Caymmi, além de assinar os arranjos de sopros de algumas faixas do novo CD de Elza Soares. Também vai lançar o primeiro álbum do trio Bolerinho.

Na entrevista abaixo falamos de música e de ser mulher, tópicos do nosso maior interesse.

Mais: @mariaberaldobastos_ + facebook.com/beraldomaria

– O que a música representa na tua vida?

Poxa, essa pergunta é coisa muito séria. Tão séria que eu acredito que vou levar a vida descobrindo e transformando uma possível resposta, mas tenho nesse momento uma sensação com relação a ela, que não é exatamente uma resposta.

No processo de produção do meu disco solo – que começou há alguns meses como produção, e como composição há uns 4 anos – eu percebi mais objetivamente a função emocional da música na minha vida. Tem uma coisa física de preenchimento emocional. De cuidar das minhas carências e preencher buracos de uma maneira muito objetiva. Sou muito passional e algumas pessoas são donas do meu humor, ou minha relação com essas pessoas. Descobri nesse processo como minha relação com a música também opera nesse âmbito. Conduz processos emocionais profundos e rasos, pode me salvar e me afundar. E me dar extremo e muito prazer.

Mas isso é uma divagação e pode parecer blablabla. Mas, ora, se não fosse isso eu não dedicaria minha vida a fazê-la – fazer-me.

A música é a maneira que eu tenho de dizer. É como aprendi a me expressar. É uma ferramenta de transformação pessoal muito potente e uma via de condução.

Faço música desde os 6 anos de idade tocando instrumentos e desde a barriga ouvindo e cantando. E vejo na música que faço em cada período da minha vida quem eu era naquele momento. Talvez a via mais transparente de mim.

Nesse sentido acredito que ela só possa me salvar e não me afundar.

Venho estreitando minha relação com ela e comigo.

E isso tudo porque aprendi os afetos em conexão com a música.

Meus pais são músicos, minha irmã também, e mais dois irmãos, todos esses músicos profissionais. Então pra mim muita coisa foi aprendida com essa via, esse meio de comunicação com as outras – que não exclui os homens – e comigo.

Me toca a música dos outros – quando me toca.

Me comunico profundamente através dessa coisa que ela é.

– Ser mulher na música significa….

Adoraria responder que ser mulher na música significa ser uma pessoa na música. Ou que ser mulher na música significa ser mulher na música, mas não chegamos nesse ponto ainda.

Ser mulher na música é uma luta. Me encontro cada vez mais como mulher – a mulher que eu quero ser a cada instante, não a que está descrita nas bulas – e cada vez mais como uma pessoa que se coloca como indivíduo na música – e isso me leva de volta ao coletivo automaticamente.

Acredito que toda mulher que busca sua autonomia na música é uma mulher de luta, e cada uma encontra sua maneira. Eu encontrei uma agressividade muito grande que é minha, combinada com uma doçura, e assim digo o que tenho pra dizer, busco o que tenho pra buscar. Tenho muitos sofrimentos como mulher no meu corpo, e meu corpo é feito de muitas mulheres que sofreram por suas vidas inteiras, e esse sofrimento talvez, de maneira exponencial, é pensando cronologicamente nas gerações de frente para trás. Sinto essa vibração em mim – parece que minha matéria encontra sua potência quando se dispõe a tal conexão com essas pessoas, as do presente que são feitas de muitas outras pelas linhas múltiplas dos tempos. Nada místico, nada premeditado, só foi acontecendo. Fui encontrando minha identidade em uma agressividade que eu não conhecia e que me leva a transformações. A doçura igual, mas ela eu já a conhecia e me cansei um pouco, mas permanece.

Me sinto muito acolhida pelas mulheres. Virei mulher na música num momento de glória – estamos finalmente mais atentas, mais juntas.

As dificuldades, os absurdos, os assassinatos, permanecem, mas sinto que estejamos criando ferramentas para irmos nos levantando. Juntas.

– No que você tá trabalhando agora?

Agora estou mergulhada no meu primeiro disco, “Cavala”. Estou terminando a produção dele junto com o Tó Brandileone, começando a mixar com o Ricardo Mosca e produzindo o clipe do single que antecederá o álbum.

Estou trabalhando muito no meu projeto de financiamento coletivo para este disco, na plataforma do Catarse: catarse.me/mariaberaldo

Estou ensaiando com a Quartabê – banda que tenho com Mariá Portugal, Joana Queiroz e Chicão – o nosso terceiro disco, desta vez a partir da obra de Dorival Caymmi, com apoio da Natura Musical.

Estou em fase de pré-lançamento do álbum do “Bolerinho”, meu trio com Luísa Toller e Marina Beraldo Bastos (sim, minha irmã). O disco já está pronto.
Fora isso existe o trabalho com Arrigo Barnabé para o qual vivo na espreita e o qual muito me nutre.

E para além tenho gravado discos de amigos como Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Rômulo Fróes, Manu Maltez e tenho ido ver meus amigos tocando, o que não é um trabalho mas participa dele.

– “Cavala” fala do encontro de duas mulheres. No mundo da música por muito tempo as grandes cantoras não falavam abertamente sobre sua sexualidade, e hoje a gente começa a ver uma mudança. Te dá vontade de falar sobre o assunto? Como é ser lésbica ou sapatão nesse universo?

Ser lésbica exige um posicionamento político. Ou você se omite ou você enfrenta a realidade e rompe muitos padrões sociais e sofre preconceitos.

Eu por muito tempo me reprimi muito, por conta de muitos fatores na minha criação, e também graças a essa mesma criação eu tive forças pra perceber e lutar contra essa repressão.

Encontrei muita força nessa luta – de enfrentar o que for preciso pra poder simplesmente ser, o que jamais poderia ser simples.

A música é um canal muito forte pra mim e encontrei na composição e nesse meu trabalho solo uma via de transformação e de libertação totalmente relacionada à minha sexualidade. Então meu trabalho solo fala disso, tem essa força política ligada ao fato de eu ser lésbica e dos sofrimentos que tive e tenho por isso.

Estão nesse trabalho também os prazeres e orgulhos que tenho e fui encontrando cada vez mais através dele.

Preciso afirmar minha sexualidade porque se eu não afirmo sou engolida pela heteronormatividade e isso me fez muito mal por muito tempo, então sai de dentro de mim em forma de grito.

Me sinto muito bem recebida desse jeito.

Sinto que ajudo muitas mulheres lésbicas com minhas músicas. As pessoas precisam de espelhos, de referências, precisamos saber que não estamos sozinhas porque somos seres de sociedade. Eu cresci sem referência de mulheres lésbicas que eu admirasse e que fossem assumidas. Cresci vendo essas mulheres – que eu admirava e que eram referência pra mim, por exemplo, professoras – omitindo o fato de serem casadas com outras mulheres, ou mesmo sua sexualidade independente de casamento. E isso pra mim sempre foi sofrido. Hoje recebo muitas mensagens nas redes sociais de pessoas que dizem que minha música as ajudou a sair do armário, pessoas totalmente identificadas com minhas músicas, acho que ela tem essa função de espelho, e dá força.

Isso consome muita energia. Para além dos haters que começam a aparecer, e dos amigos que manifestam em forma de preocupações cuidadosas visões que agridem totalmente minha natureza e o posicionamento político que preciso ter para sobreviver nessa sociedade homofóbica (sem perceberem que estão fazendo isso, é claro, mas consumindo muita da minha energia de luta), lido todos os dias com minhas dificuldades pessoais, com a minha remanescente homofobia que às vezes aparece, e me expor tem um custo muito alto, mas não tenho dúvidas de que vale muito à pena.

mb

– Me indica uma música que você ama desde sempre? E uma que você tá apaixonada recentemente?

Amo desde sempre “Três Estrelinhas” (Anacleto de Medeiros):

To apaixonada por “Consideration” (Rihanna e SZA):

Mais entrevistas com cantoras brasileiras:

O artivismo fundamental da Aíla

O climão de Letrux no melhor disco do ano

#minasdonttouch  ·  #trilhadonttouch  ·  amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  música