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Posts da categoria "escreve escreve"

de repente

por   /  13/08/2008  /  18:51

quando ela não existe, a gente reclama. quando existiu, o comercial das casas lux ótica ecoa: quem nunca teve não sabe o que é perdê-la. trocando o não teve, é claro, pelo teve (e soube o quanto foi bom). por ela, a gente se desbobra, tenta, inventa, faz um 92 diferente até na véspera do 2009. mesmo que a gente nem saiba direito como ela é, tampouco tenha noção de tudo que pode se encaixar no que cabe nela.

de repente, você começa a desenhar (com a barriga, e não com os olhos), transforma um modelo vivo num monstro que visitou o egito em alguma época da vida. tenta reproduzir, em apenas três minutos, braços pra cima, corpo inclinado, mãos entrelaçadas. ahhhh, não consigo, não consigo. ele chega e diz pra você se soltar. com a barriga, não com os olhos, tentando reproduzir a forma do cabelo preso por um pitó, deixando a mão inventar.

você desenha, desenha, desenha. primeiro, cada pose dura dez minutos. depois, três minutos. e o rabisco às vezes nem se completa, mas você tá ali. e só ali, como não acontecia desde que a vida se tornou essa coisa fragmentada.

e aí você se dá conta do que acabou de chegar: felicidade, o sujeito oculto desse texto. felicidade leve, simples, transbordante, intensificada ou prolongada pela cena de um velhinho tocando “bandeira branca, amor / não posso mais / pela saudade que me invade, eu peço paz”, no sax, na esquina da firma.

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EU ESTOU OK, VOCÊ ESTÁ OK

por   /  07/08/2008  /  18:26

sonho de consumo atual: falar que TÁ TUDO ÓTIMO NÃO PODERIA ESTAR MELHOR TÁ TUDO DANDO CERTO A VIDA SE MOSTRA UMA SURPRESA DIÁRIA CONSIGO ORGANIZAR MEU TEMPO O CORAÇÃO VAI BEM  A CONTA CORRENTE NUNCA TEVE TANTO SALDO CONSIGO COMPRAR TODOS OS SAPATOS QUE QUERO  SOU UMA PESSOA ELEVADA QUE FAZ MEDITAÇÃO E NÃO SE ESTRESSA NEM COM OS DESAFETOS TENHO TEMPO PRA LER TODOS OS LIVROS QUE COMPRO VER TODO MUNDO QUE GOSTO BEBER TODAS AS HEINEKENS QUE MEREÇO E AINDA CONSIGO VIAJAR A CADA MÊS SEMPRE PRA UM LUGAR MELHOR QUE O OUTRO

assim mesmo, em caps lock.

dá pra ajudar, universo? obrigada pela compreensão.

* foto do flickr de little silver boxes

enchantée

por   /  06/08/2008  /  16:05

Um dia uma menina querida me perguntou o que me encanta. Descobri que o encanto vem de coincidências que eu nem sei dizer, só sentir. Não tem regra, nem padrão, não tem roteiro, vivência anterior que dê a dica. É só um encanto. Encanto pelo encanto, essa coisa meio parnasiana.

Encanto é aquilo que enche o coração quando você menos espera. É aquilo que faz os olhos saltarem, se encherem de alegria ou de lágrimas. Lágrimas boas, não aquelas que lavam o desespero e a dor, mas as que transbordam o que o coração já não consegue dar conta.

Encanto, apesar do jogo de palavras, não se encontra em qualquer esquina, em qualquer canto. Mas aparece no diálogo mais banal, na surpresa que você nunca imaginaria, mas que vai lembrar pro resto da vida. Leva tempo pra que duas pessoas descubram seus encantos. O dia a dia tem essa dureza de massacrar a gente, às vezes.

Leva tempo pra que elas saibam o que enche o coração e transborda pelos olhos até se transformar em um beijo, um abraço ou na frase mais simples que diz a maior coisa do mundo, com todo o amor que isso carrega. Mas, às vezes, o encanto se perde de repente. E resta esperar que ele surpreenda de novo.

* a foto é de emma cherry

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entrevista: cecilia giannetti (casino)

por   /  18/07/2008  /  0:22

e daí passei a semana escutando todas as faixas do casino. quando foi hoje, mandei umas perguntas pra cissa, que deu as melhores respostas. e sabe o que eu queria mesmo? que ela gravasse umas músicas novas e mostrasse pra gente…  =)

* quando tu começou a cantar?

eu sempre cantei, desde pequena, e escrevia também. tanto letras de músicas, que não tinha como tocar porque não tinha instrumentos, até livros. fazia capa pra estes, grampeava. todo um showbusiness infantil sem público.

quando consegui ganhar meu primeiro violão, entrei pra aula e não gostei. o que toquei no casino inventei tudo, assim como o christiano menezes fazia na guitarra e no teclado. tanto que hoje esquecemos como se toca. eu não sei mais tocar nenhuma música. não pego num violão desde que comecei a escrever a sério.

* e como foi que surgiu o 4track? e como foi a experiência com a banda, passando pela transformação em casino e tudo mais?

surgiu entre mim e um amigo de infância, o menezes, já citado. ele hoje também não tem tempo pra música. fez a capa e as ilustrações pro meu livro. faz coisas pra programas de tv. todo mundo teve que ir trabalhar. é isso.

4track e casino eram quase a mesma coisa, casino talvez um pouco mais bem ensaiado às vezes.

* e, uow!, vocês abriram pra minha musa cat power. como foi?

num suportava aquela mulher. minha mãe roncou na primeira fila do show dela, eu fiquei lá do lado de fora. cat power não é minha praia.

nosso show, dizem, foi o melhor que já fizemos. eu não sei porque estava fora do meu corpo.

* teu cérebro tem ou tinha um lado pra escrever música e outro pra escrever literatura? ou tu vê tudo como uma coisa só?

escrevia música quando era corna. agora que sou coisa mais grave que isso na cadeia alimentar-coronária, escrevo romance, novela, roteiro, conto.

* quem são tuas divas e gênios musicais da vida?

eu não ouvia muita mulher pra não estragar meu “paladar”. só gostava de imitar homem cantando. tentva imitar, quando tava aprendendo sozinha a cantar, todas as vozes dos Beatles – conseguia alcançar algumas imitações bem idênticas de Paul e até do Ringo na adolescência (não é uma coisa atraente pruma adolescente fazer).

claro que adoro as cantoras de jazz, as icônicas, principais. mas fico com os beatles até hoje. e com elliott smith. uns poucos e bons.

* tu vai voltar a cantar logo, logo?

cantar é fácil. junta um dj e canto em cima. difícil é tempo. cada brincadeira dessas escrevendo se passa fácil dois anos na frente do computador. imagina se há hora pra ensaio?

valeu pela entrevista. que coisa estranha. volta e meia umas músicas do casino voltam a circular… na época que a banda existia, uns desses produtores chamados fodões ouviram e disseram ‘nhe’. acho que faltava laquê em nóis.

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o livro amarelo do terminal

por   /  17/07/2008  /  17:17

conheci o texto de vanessa bárbara há dois anos. eu estava no trainee, quando foi lançada a piauí (rima rica!), cuja primeira edição contava com o genial “bom dia, meu nome é sheila”, sobre operadores de telemarketing. foi engraçado, porque, na época, eu e os amigos-trainees ficamos fascinados com o texto de vb. primeiro porque partiu de uma idéia banal _era a pauta gritando “olha eu aqui”, como nossa querida ana estela falava que acontecia_, mas que só ela tinha percebido. segundo porque ela conduziu tudo com uma precisão e um bom humor que são difíceis de serem encontrados, principalmente juntos.

no final do mesmo ano, fiz, com estêvão, uma matéria pro folhateen sobre novos escritores. tentei falar com ela, mas ela num foi nada receptiva. mulher chata, pensei. metida.

dois anos depois, vb chega às prateleiras com dois livros: “o verão do chibo”, em parceria com emilio fraia, e “o livro amarelo do terminal”, resultado do projeto de conclusão do curso de jornalismo. comprei os dois, mas, até agora, só li o segundo, que é sensacional.

além de ter o projeto gráfico mais bonito que eu já vi em livro nacional (é assinado por elaine ramos e maria carolina sampaio), o livro é daqueles que você lê numa tacada só. tem humor, tem histórias bem pinçadas, tem sarcasmo, tem informação.

o livro é uma grande reportagem, com ecos de literatura, sobre a rodoviária do tietê. em vez de mostrar só o amontoado de gente que passa por lá diariamente, principalmente em feriados e datas festivas, quando o movimento segue acima do normal, o rodízio de veículos é suspenso e o trânsito fica lento nas principais rodovias da cidade, vb conta fragmentos das histórias da recepcionista, do vendedor da le postiche, do funcionário que puxa uma cordinha de sinalização, de motoristas que fazem, há anos, os mesmo caminhos escuros, dos passageiros que partem ou esperam quem chega.

histórias de vida, resumindo. o livro poderia ter apelado para o clichê (coisa do tipo “por trás desse balcão de informações, há uma pessoa com coração, desejos e sonhos”), mas não. vai além. no meio de um lugar tulmutuado, para onde muita gente vai apenas por necessidade, vb encontra poesia. e faz, mais uma vez, uma excelente mistura entre jornalismo, literatura, informação e bom humor.

e é por isso que “o livro amarelo do terminal” vai direto pra minha nunca elaborada lista de favoritos. corram na livraria mais próxima e comprem o seu!

be sure to wear some flowers in your hair

por   /  13/07/2008  /  23:51

pelo caminho, ficou uma vontade. naquela esquina em que a gente sempre passava, ficou só a lembrança. e quando a vida se faz mais passado, o presente pára, fica em suspenso.

de vez em quando, compro uma carteira de cigarro e sigo a mesma mandinga: viro um, faço um pedido e o coloco de volta, geralmente na última fileira. acho que tenho com o maço a mesma relação que tinha com deus quando estudava em colégio católico e achava que, se pedisse qualquer coisa, ele me daria. me enganei naquelas vezes, me engano com a brincadeira do cigarro.

e, também, com a do avião. sabe quando passa um avião, você pensa numa cor e pede pra quem tá perto dizer uma cor e se for a que você pensou, plin!, seu desejo será realizado em poucas horas, senhora? mais um passatempo sem sentido.

e pra que passatempo se a vida teima em ser o que ela quer e só o que ela quer? parece uma spoiled little brat, sempre a postos para aprontar as maiores confusões com uma turma da pesada. um sossego não cairia mal. um sossego sem desamparo, um sossego de dormir sem querer e acordar meio assustada, com aquele fiapo de baba no travesseiro, ou no braço de alguém.

* a foto é do 14-2-1

entrevista: babe, terror

por   /  06/07/2008  /  23:15

babe, terror mora aqui do lado. mas foi a “new yorker” e o pitchfork que descobriram o cara e falaram coisas do tipo “parece animal collective”, ou, então:

On “Nasa Goodbye” Terror dials up a weird choir, juxtaposing sighs over a booming bass syllable that will give you hope that Danjahandz isn’t the only artist taking cues from Timbaland. Or think low-petrol TV on the Radio stripped of skillful execution but left with all of their wiliest lycan instincts. Terror adds something approximating a verse (sung, presumably, in Portuguese), but the star of the show is the deliberate, wordless tone-drip, an IV of night noises. Whoever, or whatever, “Nasa” is, consider he/she/it appropriately eulogized.

depois de ver dago twittando sobre isso, entrei no myspace, ouvi o som e mandei umas perguntas pra babe, terror, ou melhor, claudio, um cara lacônico que, quando perguntei por que ele escolheu esse nome, me respondeu: “gosto das duas palavras, aí juntei com vírgula”.

* o que é babe, terror? quem é o babe, terror?

babe, terror é uma banda que sou eu, claudio. sou compositor e uso principalmente minha voz e meu computador.

* qual é o tipo de som que você faz?

acho que eu faço algum tipo de psicodelia lo-fi. me disseram que faço pós-lo-fi, que seria quando a música caseira tenta ir para o espaço sideral e se perder. é claro que estou comprando isso.

* você mora em sp? já tocou em algum lugar?

moro em são paulo, em perdizes, quase na pompeía. nunca toquei ao vivo.

–> ele não tem selo, mas prepara um ep que deve ter, no máximo 80 cópias feitas em um esquema caseiro

* quais são suas influências? e aqui pode entrar mais do que bandas…

minhas influências reais são coisas (além música) das quais consigo falar muito mal, precisaria de um belo tempo pra isso. mas o que faço deve nascer de uma raiz que é o amor (prefiro o verbo amar a influenciar) por coisas como beach boys, pop barroco em geral, música negra drônica e suja, música negra extrema em geral, clube da esquina em transe até 1979 e flaming lips.

–> no myspace, dá para ver que ele curte Aaron Copland, Ariel Pink, Tião Carreiro, Beach Boys, Paulinho da Viola, J.S Bach. e que a música que ele faz soa como “Quatro noites da mais vasta claridade nuclear de um apocalipse do qual quem sobrou fomos eu e vc juntos na vila protegida por pinhieros plantados por um jardineiro assustador que ateou fogo nas crianças em 1905. Agora fala bem rápido.”

* e essas fotos? é você ou são referências?

são personagens das músicas. deixaram de ser quem eram, embora tenham trazido, claro, essas cores bonitas de fins de semana memoráveis e intermináveis na década de 80.

cof cof é o caralho

por   /  05/07/2008  /  15:42

se eu fosse atriz, seria joão gilberto. pediria para que pessoas gripadas, com tosse intermitente, se retirassem do local, ou engolissem a vontade até explodir _fora da sala de espetáculo, é claro. na verdade, avisaria na bilheteria: pessoas com problemas de tosse recorrente, assistam à peça por streaming, em um computador mais próximo de você. se, mesmo assim, um gaiato ou outro insistisse, avisaria antes de a peça começar: senhores que abafam a tosse para soltá-la no mínimo intervalo entre os atos, desapareçam daqui. não há concentração que resista a tantos problemas de saúde. não há bons atores que sustentem atenção exclusiva em uma sinfonia de tuberculosos.

* e peter brook não tocou meu coração, mesmo