Favoritos

Posts da categoria "amor"

The Waiters e a celebração de 13 anos de música

por   /  19/02/2016  /  13:13

Matt Love - Lulina

Foi em mais uma véspera melancólica de Natal que ouvi “Christmas lights” pela primeira vez. Lulina mandou a música por email, e eu senti um conforto no coração. Ela também contou que havia feito a música com um amigo virtual que morava nos Estados Unidos, o Matt. Música literalmente feita por computador, que legal! Quando ela fez sua primeira turnê internacional, o Matt também estava lá, articulando lugares para os shows, tocando junto. A amizade dos dois já dura treze anos, se transformou na banda The Waiters e, no ano passado, deu cria: um disco indie lo-fi delicioso.

Conversei com o Matt por email querendo saber mais da relação deles. “Não foi há tanto tempo que nos conhecemos, mas em termos de ciberespaço, foi há séculos. As coisas mudaram tanto!” O ano era 2003, e Matt pesquisava nomes de filmes com o título “Plan _ From Outer Space” (cineastas amadores fazem homenagem ao clássico filme B “Plano 9 do Espaço Sideral”). Quando digitou “Plan 13 From Outer Space”, achou um único link, com a frase solta em um texto em português. “Era o blog de uma mulher incrível. Por sorte, os programas de tradução também tinham começado a existir, e descobri que ela dizia que iria escrever uma música chamada ‘Plan 13 From Outer Space’. Pensei: ok, estou procurando filmes, mas posso procurar músicas também.”

Alguns cliques depois, Matt descobriu o email de Lulina e sua fixação pelo número 13, que ele também compartilhava. “Também descobri que uma das bandas preferidas dela era o Beat Happening. Agora sim eu tinha uma conexão pra dividir! O primeiro show do Beat Happening foi de abertura para a Wimps, minha primeira banda, que também fazia seu primeiro show”, lembra. “Escrevi e pedi pra ela me mandar uma cópia da música quando estivesse gravada. Ela respondeu e disse ‘vamos gravar juntos!’. Lulina tem uma maneira maravilhosa de se relacionar com as pessoas por meio da música, e a ideia de conhecer melhor as pessoas fazendo música com elas também é uma prática que adotei.”

Não por acaso, 13 anos depois do primeiro encontro virtual, Matt e Lulina – e Leo Monstro, artista que é parceiro da cantora há anos – lançaram juntos o primeiro disco do The Waiters. A banda surgiu de uma conversa entre Matt e Leo. O norte-americano, que foi funcionário público por mais de duas décadas e deixou o emprego para virar cuidar dos pais em tempo integral, formou com uns amigos uma banda, a Dweebish, mas acabava tocando pouco. Léo, pernambucano radicado em São Paulo, sentia falta de tocar com mais frequência. Surgia, então, o The Waiters, simplesmente porque eles estavam sempre esperando – inclusive a cantora ter tempo pra se juntar.

O disco, encontro entre Olinda, cidade da infância de Lulina, e Olympia, em Washington, onde Matt vive, é um presente pra todos que passamos os últimos anos da adolescência ouvindo maravilhas indies. “É muito lindo poder registrar essa parceria de 13 anos em um disco”, diz Lulina. “Ele é uma grande celebração dessa amizade musical e envolve muitos amigos que se juntaram a nós ao longo desses anos”, completa ela, que em 2010 fez uma turnê pela costa oeste dos EUA, com shows em Seattle, Olympia, Portland, Wenatchee e Anderson Island, e também por Chicago. “O Matt foi o meu baixista nessa turnê, pois o Zé não conseguiu visto. Foi muito especial, imagina assistir Calvin Johnson [do Beat Happening] dançando na minha frente todo empolgado durante o show?”

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Falando em bandas, Matt, 59 anos, cresceu rodeado por discos de vinil e tinha como hábito ir a uma loja com o irmão a cada sábado escolher um título novo. Entre suas influências, estão Bob Dylan, The Clash, Bad Company, Foreigner, Thompson Twins, Talking Heads, B-52s, XTC, Abba. Da época em que era DJ de uma rádio, relembra algumas pérolas: “O Superman”, de Laurie Anderson, e “Singing in the Rain”, do Just Water. “Passo por períodos na vida em que escuto a mesma música repetidas vezes. ‘Love will tear us apart’, do Joy Division, me manteve vivo após o divórcio com minha primeira mulher. Passei por épocas longas em que ouvia ‘My old school’, do Steely Dan, repetidamente. Sem falar em ‘Strawberry Fields forever’.”

Matt já veio ao Brasil seis vezes, sendo a primeira em 2008, e sempre se impressiona com a recepção. “Daniel Belleza me disse que todo mundo que ele conhece conhece Lulina, e eu vi que isso era verdade. Em toda loja, casa de show que eu ia, falavam ‘Matt está numa banda com Lulina!’. ‘Ah, Lulina!’ Foi uma recepção bem calorosa.”

Enquanto se dedica o quanto pode à música, ele faz planos de gravar um segundo disco do Waiters em um intervalo menor de tempo – e de voltar ao Brasil com a mulher, Anne, e a filha, Olivia, em dezembro deste ano. “Fazer música, ao menos desde Dylan, é um processo indefinido e misterioso, no qual você se joga e lida com insegurança.” Ele conta que já esbarrou em vários becos sem saída por ignorar a “maneira certa” de fazer as coisas, mas se deu conta de que tudo isso vira história – ou música. “Venho de uma cidade pequena, quero voltar para uma cidade pequena, mas a cada dois anos vou para algumas das maiores e mais legais cidades do mundo e brindo a todas essas experiências.”

Lulina celebra a parceria. “O que eu mais admiro nele? A generosidade, o amor que tem pela música e por nós, todos os seus amigos brasileiros, e também a persistência e paciência pra não desistir de continuar compondo e tocando com a gente, mesmo com a distância e o pouco tempo disponível de todos. Ver o Matt no palco é tocante, ele é puro coração ali. É uma felicidade muito grande quando esse grupo está junto, seja compondo, gravando ou fazendo show.” Que venham os próximos encontros.

+ Lulina no Don’t Touch

amor  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  música

#bibliotecadonttouch: Noemi Jaffe

por   /  18/02/2016  /  9:09

Noemi

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Noemi Jaffe, escritora que eu adoro! Estou lendo o livro mais recente dela, “Írisz: as orquídeas” – e nunca deixo de acompanhar seu maravilhoso blog, Quando nada está acontecendo.

Da Companhia das Letras: Noemi nasceu em São Paulo, em 1962. Doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e crítica literária, é autora de “A verdadeira história do alfabeto”, vencedor do prêmio Brasília de Literatura, e “O que os cegos estão sonhando?”, entre outros.

A foto é do Renato Parada.

Hiroshi Senju 1y

Vender sua própria alma… Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa inteira supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. (…) Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar… E a gente, isso sei, às vezes é só feito meninio. (…) Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível.

“Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa [a foto é de Hiroshi Senju]

Katrien-De-Blauwer-Collage-Dress

Ela tinha conhecido a felicidade, uma felicidade rara, uma felicidade intensa, e ela prateava as ondas encrespadas com um puco mais de brilho à medida que a luz do dia se apagava e o azul fugia do mar e ela se envolvia em ondas de puro limão que se curvavam e intumesciam e morriam na praia e o êxtase explodia em seus olhos e ondas de puro prazer corriam pelo solo de sua mente e ela sentia: Basta! Basta! 

“Ao farol”, de Virginia Woolf [a colagem é de Katrien De Blauwer]

Mario Botta 2

Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que – como cabe à realidade – Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos – num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que – segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo – a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: “a assim chamada realidade”. Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia.

“Liquidação”, de Imre Kertesz [a foto é de Mario Botta]

Merit Badge

E é assim como aqueles que nos iluminam são os cegos. Assim é como alguém, sem saber, chega a mostrar-te irrefutavelmente um caminho que, por sua parte, seria incapaz de seguir. A Maga jamais saberá como o seu dedo apontava para a fina moldura que cerca o espelho, até que ponto certos silêncios, certas atenções absurdas, certas corridas de centopéia deslumbrada eram a senha para o meu sólido estar-em-mim-mesmo, que era um estar em nenhuma parte. Enfim, isso da fina moldura… Se queres ser feliz, como dizes/ Não poetiza, Horacio, não poetiza. Visto objetivamente: ela era incapaz de me mostrar qualquer coisa dentro do meu terreno, até mesmo no seu girava desconcertadamente, tateando, apalpando. Um morcego frenético, o desenho da mosca no ar do quarto. De repente, para mim, ali sentado, olhando para ela, um indício, uma suspeita. Sem que ela o soubesse, a razão das suas lágrimas ou a ordem das suas compras ou a sua maneira de fritar qualquer comida eram sinais. Morelli falava de algo assim quando escrevia: “Leitura de Heisenberg até o meio-dia, anotações, fichas. O filho da porteira me traz a correspondência e falamos de um modelo de avião que ele está montando na cozinha de sua casa. Enquanto me conta isto, dá dois saltos sobre o pé esquerdo, três sobre o direito, dois sobre o esquerdo. Pergunto-lhe por que dois e três, e não dois e dois ou três e três. Olha-me surpreendido, não compreende. Sensação de que Heisenberg e eu estamos do outro lado de um território, enquanto o garoto continua a cavalo, com um pé em cada um, sem saber, e que brevemente estará apenas do nosso lado e toda a comunicação terá sido perdida. Comunicação com quê, para quê? Enfim, continuemos a ler; talvez Heisenberg…”

“O Jogo de Amarelinha”, de Julio Cortázar [a foto é de Oli McAvoy]

Ina Jang

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

“A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector [a foto é de Ina Jang]

+++++

Quem já passou pela #bibliotecadonttouch:

Paula Gicovate

Liliane Prata

Emilio Fraia

Maria Clara Drummond

Andando na fé de Clarice Freire

por   /  15/02/2016  /  11:11

@claricefreire

Estudei a vida inteira em um colégio católico, coisa que nunca entendi. Meu irmão estudava em uma escola meio intelectual, meio de esquerda, e eu naquela outra que começou sendo exclusiva para boas moças. Fiz primeira comunhão, crisma, até vi Jesus quando voltava de uma atividade no sítio, aquela parte tão distante da sala de aula. Foi uma alucinação coletiva das crianças da segunda série, tamanha era a repetição das palavras da Bíblia no dia a dia. Adolescente, entendi que a religião católica não era a minha. Preferia ouvir outro Deus, outros deuses. Neil Young, Lou Reed, aquelas músicas que diziam mais de mim do que qualquer parte do evangelho.

Corta para muitos anos depois, mais precisamente para março de 2015, e estou em um restaurante delicioso na praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, conhecendo in real life Clarice Freire, a escritora que virou fenômeno com seu Pó de Lua, uma série meio poema, meio desenho que arrebata mais de 1,2 milhão de fãs apenas no Facebook, sem contar os 200 mil no Instagram, e que também conquistou o mercado editorial com seu livro de estreia – vendendo mais de 70 mil cópias.

Clarice estudou naquela mesma escola, e pela primeira vez após a alucinação coletiva eu vi alguém com um background parecido com o meu falar tão apaixonada e verdadeiramente sobre a religião católica. Não que a conversa tenha começado por aí, mas sabe aqueles encontros que duram horas e que transcendem, te mostrando alguém encantador? Foi assim. Vou contar pra vocês.

Bienal do Rio

Clarice nasceu em Recife, tem 27 anos e vem de uma família de artistas. O pai sempre escreveu. A mãe pintava com aquarela. A irmã, Sofia, é cantora e compositora – aliás, ela e Clarice já apareceram antes por aqui, cantando em homenagem aos 25 anos de casamento dos pais. O tio, Marcelino Freire, é escritor, professor, descobridor de talentos literários. “Desde cedo eu era levada para peças de teatro, sarau de poesia. Eu pensava que nunca iria escrever. Me comparava e pensava: não tem como.” Mesmo assim, a herança falou mais forte, e, adolescente, ela começou a escrever, bastante influenciada pelo pai e pelo tio. Os rascunhos ficavam em cadernos escondidos em seu quarto.

Começou a estudar publicidade. Em 2010, aos 21 anos, foi morar em Segóvia, na Espanha, e ali, andando pela cidade, vivendo experiências diferentes, viu que a criatividade fluía mais solta. Quando voltou para Recife, conseguiu um estágio em uma agência. “Passava o dia vendendo sabonete, carro. Entre um job e outro, tinha que esvaziar a cabeça. E isso saía em forma de poesia”, lembra. Ao fim do dia, ela amassava aqueles papéis e os jogava no lixo. Um dia, quando chegou no trabalho, Elisa, sua dupla de criação, havia colocado os papéis em cima da mesa, como se fosse um livro, indagando como ela podia jogar aquilo fora. Foi a amiga quem criou um blog para Clarice, que era zero da internet na época. “Eu não queria, foi uma confusão. Ela acabou me convencendo quando disse que era para eu não perder mais as ideias.”

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

O nome surgiu com a lembrança de um professor que havia perguntado se ela sabia porque a Lua era tão bonita. “Ele me disse: ‘Porque mesmo ela sendo só pó, como eu e você, ela consegue refletir a luz de outro, maior que ela. Por isso as nossas noites não são escuras.’ Aquilo me marcou tanto, eu quis ser como a Lua,  até pela noção que tenho de Deus, da vida, das coisas. Foi tão forte que falei: Pó de Lua.” Com o tempo, ela passou a escrever muito no blog, aquilo virou a parte boa do dia, quando ela podia escrever sobre o que importava de verdade. Durante o dia ela continuava escrevendo, jogando os papéis fora, e os colegas iam juntando tudo. Uma outra amiga a presenteou com um Moleskine, e foi aí que ela passou a escrever e desenhar sem jogar o resultado fora.

Em 2011, o blog começou a fazer sucesso espontaneamente, sem nenhuma estratégia. A cada dia, ela se  impressionava com as respostas dos leitores. Quando ganhou um celular que tirava foto, pensou que finalmente conseguiria mostrar como era seu processo. Criou uma fanpage. “O compartilhamento era muito mais rápido por ali, me impressionava. Mas aquilo era o paralelo, eu mantinha meu trabalho.” Quando se formou, passou dois meses em Buenos Aires fazendo um curso de criatividade. Voltou, e o projeto mudou, cresceu. “Comecei a ter menos medo de brincar, ousar, inventar coisas. A gente não tem que ter medo de criar o que quiser, e eu brincava de dar mil significados para as palavras.” Foi quando fez a poesia do palito de fósforo.

fosforo

“Só o fósforo teve 14.000 compartilhamentos. Pensei: o que aconteceu? Por que as pessoas estão assim por causa de um palito de fósforo?”. Ela acabou lembrando de outro motivo para o nome do blog: o filme “Casa de Areia”, em que as personagens de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres moram em dunas e passam a vida imaginando o que tem na Lua. Um dia, a mais nova chega com a notícia de que o homem pisou pela primeira vez na Lua, ao que a outra pergunta o que tinha lá, e ela responde: areia. “A gente fica procurando o extraordinário na Lua, enquanto ele está no ordinário ao nosso redor. Mas a gente não tem olhos para ver porque está olhando pra Lua. Isso foi uma chave sobre o que eu queria escrever.”

“Eu vi que as pessoas estavam procurando dar sentido às coisas, ver poesia na vida, nas coisas insignificantes. Daí surgiu o conceito: Pó de Lua para diminuir a gravidade das coisas. Percebi que eu queria falar com delicadeza da vida. Por mais que eu falasse de temas duros, como pobreza, dor, solidão, angústia, sempre tinham outros mais lúdicos, como saudade, e outros mais bonitos, como amor. Sempre usando delicadeza. E eu via que isso chegava no coração das pessoas. Eu falo muito do coração. Acho que é por isso que tenho um diálogo tão sincero.” Hoje mais de 1,2 milhão de seguidores acompanham sua poesia pelo Facebook. E claro que esse alcance já rendeu muita história, de gente que se transformou ao ler seus escritores, que fez fã clube, viajou longas distâncias só para pegar um autógrafo e dar um abraço.

A convite da editora Intrínseca, o Pó de Lua virou livro, em 2014. “A minha literatura é a junção de várias coisas. Ela é desenho, caligrafia, ilustração. Tem poesia, tem prosa”, define. Ela sabe que o que faz é diferente – e se existem milhões de seguidores, sempre aparecem alguns detratores. “Muita gente tem preconceito, diz que é literatura de Facebook.” Ela contesta: “É literatura, e ela usa da plataforma que quiser para existir. O mundo está em transformação, por que a literatura não?” Para fazer o livro, Clarice escolheu metade das poesias que as pessoas queriam ter nas mãos (aquelas que mais faziam sucesso no Facebook) e fez a outra metade inédita. Viajou pelo Brasil inteiro para divulgar o livro, ouviu centenas de histórias emocionantes, conheceu leitores que a acompanhavam desde o comecinho no blog. “Foi surreal, acho que nunca vou esquecer na minha vida.”

Comunidade dos Viventes 3

Com Gabriel Marquim, da Comunidade dos Viventes

Hoje Clarice é escritora em tempo integral. Quando conversamos, ela preparava o segundo volume do livro do Pó de Lua, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano. Ela também se dedica à Comunidade dos Viventes e ao Projeto Vincular, em Recife. Há oito anos, o amigo Gabriel Marquim chegou para Clarice perguntando qual era o sonho dela. “Falei que era ser publicitária. Ele respondeu: ‘Isso é um projeto muito bonito, mas qual é teu sonho?’ Tentei procurar alguma coisa mais nobre, falei casar. Ele disse que era outro projeto belíssimo. ‘Que meus filhos sejam pessoas muitos boas?’. Outro projeto lindo, cara, mas qual é seu sonho? Eu percebi que não tinha um. Comecei a questionar: o que é um sonho? Por que sonho é diferente de projeto? Aquilo deu um nó na minha cabeça.”

Nas conversas com o amigo, ele perguntava: pelo que você daria a sua vida, pelo que nossa geração seria capaz de dar a vida? “Ele me apresentou ao evangelho, a um Jesus muito diferente que eu estava acostumada a ver, aquele que coloca a mão no seu coração, que cura seus problemas, faz milagre, corre com você em um campo florido vestido de branco. Eu nunca tive paciência pra isso. Naquele momento conheci um homem revolucionário, que fez uma revolução através do amor. E que falou de eternidade, de um amor que não é sentimento, mas amor-decisão. Aquilo me transpassou. Eu vi que o amor-sentimento é frágil, passa, mas o amor-decisão, que é ‘eu decido viver o amor na minha vida, como força e direção’, faz qualquer criatura se sentir honrada, criando um vínculo profundo com tudo.”

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

E foi aí que a Clarice se apaixonou – e é aqui que vocês fazem o link com o começo desse texto. “Comecei a ler o evangelho como quem lê um romance, a conhecer a personalidade daquele homem, aquele amor capaz de ir até o fim, até as últimas consequências pelo outro”, diz ela, que não foi criada em uma família católica. “Minha vida virou de ponta de cabeça. Eu tropecei em Deus, acho que ele me queria muito, por algum motivo que ainda estou descobrindo qual é.” Com Gabriel e mais outros amigos, formou a Comunidade dos Viventes, que reúne voluntários para desenvolver atividades educativas, esportivas, culturais e de saúde. Na prática, eles promovem de oficinas de desenho e capoeira a modelos de casas populares, e ainda articulam doações, conseguem bolsas de estudo etc. “Eu aprendi, principalmente no meio artístico, que ter uma espiritualidade, e ainda mais se dizer católica, é o mesmo que dizer que é alienado. E isso é um baita de um preconceito. Eu tenho pena de quem se fecha para essa beleza”, dispara.

Clarice faz questão de ficar de olhos abertos para a beleza, diariamente. Inspira-se em Adriana Falcão, Clarice Lispector, Cecília Meirelles (paixão antiga), Manoel de Barros. gosta de ver filme, ouvir música, escrever, ficar com o namorado, viajar. E aproveita o silêncio das madrugadas para criar. “Tenho um privilégio muito grande. Isso tudo é o que eu amo na vida, e hoje é o que eu faço pra viver. É muito prazeroso, muitas vezes nem me sinto trabalhando.” Sobre o futuro, não se arrisca. “É muito difícil me ver daqui a dez anos, porque em seis meses minha vida mudou tanto! E eu gosto disso, porque gosto de estar aberta ao que a vida pode me apresentar.” Duas certezas ela divide com a gente: “Eu quero continuar escrevendo e publicando e quero estar com bem menos tempo, porque quero estar cuidando de mais gente.” Amém.

TEDx Recife

Leia a carta de Clarice para o Minha Carta de Amorwww.instagram.com/p/0NpMd4MDEp

amor  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  literatura  ·  vida

No brilho do Carnaval

por   /  04/02/2016  /  14:03

image

Não sei vocês, mas eu só penso em Carnaval! Convidei a Vânia Goy, amiga querida, musa do make, editora de beleza da Cosmopolitan e do Belezinha, pra compartilhar com a gente algumas maquiagens incríveis para a folia.

Pra começar:

. David Bowie

The one and only, David Bowie e seus looks já eram lenda antes mesmo da sua morte, em janeiro deste ano. Claro, adoro Ziggy Stardust e o raio clássico cruzando o seu rosto, e também coleciono imagens de editoriais de moda e desfiles que homenagearam outros makes marcantes do cantor. Entre eles: o clique de Brian Adams para a Vogue alemã e Kate Moss na capa da Vogue Paris, ambas de 2012; e o desfile irresistível de verão 2013 de Jean Paul Gaultier — dá vontade de usar sombra azul na hora!

. Kate Moss

Essa é do time que sabe se divertir até o sol raiar. E eu amo o look que ela preparou para comemorar 34 anos, em 2008: vestido cheio de estrelas, cabelo cacheado bem 70’s, e uma estrela dourada meio em um dos olhos!

. Galliano para a Dior

Pense em sombra colorida, batom, glitter, postiços, strass e paetê. Pois era isso que tinha na mala da (gênia) Pat MacGrath, uma das maiores maquiadoras do mundo. Ela fazia verdadeiros bordados no rosto das modelos que desfilavam as coleções de John Galliano, quando o estilista estava no comando da Dior.

. Falando em Pat MacGrath

Nem só de colaborações malucas com John Galliano ela vive. Adoro os makes recentes feitos para as passarelas da Louis Vuitton (acho uma coisa meio Hans Donner!) e Martin Margiela (surrealista!). De estrelas, cabelo cacheado bem 70s e uma estrela dourada meio em um dos olhos!

. Frida Gustavson na Vogue UK

Esse editorial de beleza é uma das minhas referências frequentes quando quero fazer algo dramático e leve, feminino. Não dá para resisitir às estrelas brilhantes! As fotos de Lachlan Baile foram publicadas na Vogue inglesa em 2010.

. Malgosia Bela na Self Service

As fotos do Mario Sorrenti são uma loucura completa. Mas eu não canso de ver o rosto da modelo Malgosia Bela co-ber-to de glitter prateado.

—Para fazer em casa—

Gloss transparente e cola de cílios postiços são o segredo para manter as partículas de brilho no lugar. Técnicas testadas e aprovadas em dezenas de horas de carnaval, sol e suor.

. Rockstars da Daquared2

Lápis preto, gloss transparente e glitter da papelaria dão conta do recado. Vale usar produtos à prova d’água para não ficar completamente borrada.

. Gatinhas da Chanel

Para quem gosta de ficar sempre na estica e tem habilidade no trato com o delineador: passe a cola de cílios postiços com um pincel fino, como se você fosse fazer o seu delineador preto favorito, e deposite glitter por cima com a ajuda de um pincel chato. Sucesso absoluto, nunca sai do lugar.

. Minimalistas de Giambattista Valli

Coisa linda essa marcação sobre a pálpebra que vi no último desfile do estilista Giambattista Valli. O segredo é fazer o desenho com a ajuda de um lápis colorido, cobrir com cola de cílios e glitter — para iniciados.

amor  ·  arte  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  moda

#galeriadonttouch: Adelaide Ivánova

por   /  07/12/2015  /  17:00

alessandra

Quais são as fotos preferidas dos fotógrafos? Adelaide Ivánova responde para a #galeriadonttouch!

Adelaide Ivánova é uma escritora, poeta, jornalista e fotógrafa brasileira, nascida no Recife, Pernambuco, em 1982. Lançou os livros “autotomy (…)” (São Paulo: Pingado-Prés, 2014), “Polaróides” (Recife: Cesárea, 2014) e em fevereiro lança “O bom animal” (Lisboa: Douda Correria, no prelo). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais, como i-D (UK), Colors (Itália), The Huffington Post (EUA), Der Greif (Alemanha), Vogue Brasil e Vogue RG (Brasil), Ojo de Pez (Espanha) e Vision (China), entre outras. Faz parte das coleções do DKW Museum (Alemanha) e do Museu de Belas Artes da Bretanha (França). Vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha.

Escolher uma foto de um/a autor/a, dentre todas as suas outras, esvazia a própria foto de sentido. Por outro lado, pensar que uma foto só funciona no contexto de uma série também reduz o que essa foto pode comunicar. Que dilema. Fiquei nessa encruzilhada entre escolher fotos preferidas e escolher fotos de projetos que marcaram minha formação fotográfica (e, com o perdão da pieguice, minha formação humana), mas elas tinham que “sobreviver” sozinhas e isso não é fácil. Então fiquei com a segunda opção, por não me sentir confortável com a primeira. Essa lista não é a pequena lista dos melhores trabalhos do mundo, é apenas um lembrete dos trabalhos mais importantes na minha formação. Claro, todo recorte traz também limitações e aponta exatamente para as falhas de quem fez a seleção. E a minha falha nesse caso é: ela é composta quase que exclusivamente de mulheres norte-americanas brancas – e exclui artistas que mais tarde se tornaram referências fundamentais para mim, como Thabiso Segkala (África do Sul, 1981-2014), Rena Effendi (Azerbaijão, 1977), Zanele Muholi (África do Sul, 1972), Ute Mahler (Alemanha, 1949), Barbara Wagner (Brasil, 1980), Roger Ballen (EUA/África do Sul, 1950) e Inge Morath (Áustria, 1923).

Pra começar, com a foto acima:

Alessandra Sanguinetti (EUA, 1968). Alessandra me devolveu o prazer de fazer fotos bonitas. Não dá pra fazer isso sempre, com todo tema, mas às vezes é importante poder ser leve. Os temas dela não são sempre conflituosos, mas nem por isso pouco complexos. E ela usa lindamente o formato 6×6. Essa foto é da série “The adventures of Guille and Belinda”.

chauncey

Chauncey Hare (EUA, 1934), do livro “Protest photographs”. O livro já começa com o seguinte aviso, em letras garrafais: “DEDICADO PARA TODOS OS TRABALHADORES – Essas fotografias foram feitas por Chauncey Hare para protestar e alertar contra a crescente dominação da classe trabalhadora, por parte das multinacionais e seus donos e administradores, membros da elite”. Outro exemplo de projeto fotográfico que contém alto nível de engajamento pessoal. Por conta do contato com os fotografados, Chauncey acabou abandonando a fotografia (antes, tinha abandonado um cargo de alto engenheiro na indústria automobilística para virar fotógrafo), doou todo seu acervo para a Universidade da Califórnia para se dedicar à militância e virar terapeuta de trabalhadores. O que eu mais gosto dessa foto é o teor Diane-Arbus dela, de mostrar algo spooky dentro da normalidade, algo que você não sabe exatamente porque, mas incomoda.

cindy

Cindy Sherman (EUA, 1954). O que me atrai no trabalho de Cindy é a coerência e exatidão da pesquisa dela, ao longo de todos esses anos, em relação à representação do feminino; por isso escolhi essa foto, que é da série Untitled Film Stills.

gerda

Gerda Taro (Alemanha, 1910-1937). Fotógrafa de guerra que morreu durante a Guerra Civil Espanhola, aos 26 anos. Ela tinha um nível de engajamento pessoal com a luta anti-fascista que ia além do seu trabalho de fotógrafa. O Partido Comunista francês bancou seu funeral, com grandes honrarias. Eu gosto da elegância e da ousadia dela, de encenar fotografias num contexto super conservador, que é o da fotografia documental e de guerra. Só tenho uma coisa a dizer: que foto!

mimi certa 

Mimi Chakarova (Bulgária, não sei quando ela nasceu, arrisco anos 70) – “The price of sex” é uma documentação sobre tráfico de mulheres na Moldávia. O que me marcou e ainda me comove, toda vez que re-olho essa série, é a profundidade e empatia com a qual Mimi abordou o tema – quase como militância (o projeto virou depois um documentário), sem perder de vista nem as pessoas que ela entrevistou/fotografou, nem a si própria enquanto autora. Eu gosto particularmente de que todas as fotos são tortas, desfocadas, mal enquadradas , granuladas, escuras ou super expostas – tudo “errado”, tudo que meus professores de fotografia teriam um treco ao ver. Mas é um trabalho e uma história que você não esquece nunca mais. Escolhi a foto mais “errada” de todas.

nan

Nan Goldin (EUA, 1953). “The ballad of sexual dependency” fez 40 anos esse ano e continua fresco, imbatível, insuperável. Se sexo não for política, e não for suficiente para uma pesquisa da vida inteira, eu já não sei mais de nada. Ninguém fez isso nem foi tão fundo como Nan Goldin, e é uma perda de tempo tentar fazer projetos sobre o assunto da mesma maneira como ela fez. Escolhi essa foto, que é a capa do livro homônimo, porque sim.

robert

Robert Mapplethorpe (EUA, 1946-1989). Outro artista importante pela exatidão da sua pesquisa em relação à gênero, representação de gênero e sexualidade. Esse é um dos seus auto-retratos.

Já passaram pela #galeriadonttouch:

Toni Pires

Cassiana der Haroutiounian

Filipe Redondo

Daigo Oliva

Ilana Lichtenstein

#galeriadonttouch: Toni Pires

por   /  02/12/2015  /  9:00

12179193_1014972708525014_1733453402_n

Quais são as fotos preferidas dos fotógrafos? Toni Pires responde para a #galeriadonttouch!

Toni é fotojornalista e atuou nos principais veículos no Brasil. Foi editor de fotografia na Folha de S.Paulo e atualmente vive em Beijing fotografando para o Los Angeles Times e desenvolvendo projeto autoral no interior da China. Ele diz:

As fotografias que mais gosto embaralharam minha mente. Vem e vão e as troco no pensamento de acordo com o meu café da manhã. O humor e o desejo fazem as memórias revirarem e o gostar se transformar. E, assim, me inspiro em fotógrafos que despertam em mim uma onda de emoções, são invasores de minh’alma, os vejo como olhos mágicos que explodem em luz, transgressão e forma. Aqui, transito com nomes da história e jovens profissionais que me fazem acreditar que existem pessoas especiais, capazes de captar o mais íntimo dos sentimentos… Neste caleidoscópio de oito olhares me entrego ao infinito sonhar de imagens.

Sobre a foto que abre o post: Chien-Chi Chang um taiwanês que faz parte do quadro dos mestres da Magnum Photos e retrata entre outras partes do mundo, a Ásia, com um olhar despido de clichês e atrevido para os padrões da região.

12177788_1014972695191682_593096242_n

Minha inspiração maior, Dan Weiner, um fotojornalista americano que soube retratar pessoas, lugares e situações com elegante parcimônia e maestria.

12179812_1014972701858348_601957631_n

Elena Sariñena, a espanhola de delicadeza máxima para retratar o universo feminino com elegância e sensualidade, sem escorregar em clichês.

12179841_1014972688525016_178481369_n (1)

Jacksparrow Apinchai foi o responsável por me levar aos campos de arroz do sudeste Chinês, depois que vi seu trabalho sobre as terraças de arroz na Ásia.

12179910_1014972691858349_840995611_n

Como minha escola é o fotojornalismo, James Nachtwey me perturba a mente com seus personagens e suas histórias.

12180194_1014972711858347_1895714466_n

A alemã Eva Creel me encanta com seu olhar submerso nas águas e me inspira sempre que a água aparece em minhas retinas.

12182228_1014972705191681_1120837727_n

Na era do selfie, ninguém menos que a fotógrafa disfarçada de babá, Vivian Dorothy Maier, me inspira e se apresenta como a mais crítica no momento “auto-selfie narciso” que vivemos.

12188399_1014972698525015_1202460532_n

O clássico e metódico construtor de imagens, Christian Coigny, me ensina sempre que o domínio da técnica é fundamental, mesmo que seja para desconstrui-la.

Já passaram pela #galeriadonttouch:

Cassiana der Haroutiounian

Filipe Redondo

Daigo Oliva

Ilana Lichtenstein

Calendário Pirelli 2016

por   /  30/11/2015  /  17:00

Pirelli Calendar 2016 - November - PATTI SMITH

A cantora Patti Smith, a tenista Serena Williams e a atriz Amy Schumer são algumas das estrelas do Calendário Pirelli 2016. Elas foram fotografadas por Annie Leibovitz. Girl power é isso aí!

Pirelli Calendar 2016 - April - SERENA WILLIAMS PirelliPirelli Calendar 2016 - December - AMY SCHUMER

Abaixo, os vídeos dos bastidores:

#bibliotecadonttouch: Paula Gicovate

por   /  30/10/2015  /  15:00

Paula Gicovate por Jorge Bispo

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Paula Gicovate!

Ela nasceu em Campos dos Goytacazes em 1985 e mora no Rio de Janeiro desde 2004. Cursou Letras na Puc-Rio. Publicou dois livros de contos – “Sobre (o) Tudo que Transborda” e “D4” e, em 2014, lançou seu primeiro romance, “Este é Um Livro Sobre Amor” (Editora Guarda-chuva). Criou com três amigos o programa “Só Garotas” para o Multishow. Além de livros e roteiros, também escreve cartas de amor.

A foto é do Jorge Bispo.

Valter Hugo Mãe

“O Paraíso São Os Outros”, de Valter Hugo Mãe.

“Ganhei este livro de presente de aniversário no ano passado. É amor recente, mas este trecho mexe um tanto comigo”, diz ela.

Ana Cristina César

Mocidade independent , poema do livro “A teus pés”, de Ana Cristina César.

“Quem me conhece sabe da minha obsessão por Ana Cristina César, mas este poema é o mais especial. Tinha acabado de me mudar para o Rio, primeira semana da faculdade de letras. Numa tarde resolvi conhecer a biblioteca da PUC, peguei uns livros e entre eles estava ‘A Teus Pés’, da Ana Cristina, que tinha sido aluna de letras lá também. Abri o texto em uma página aleatória. Era esta. Nunca mais eu fui a mesma.”

Junot Diaz

“Junot Diaz é outro amor recente. Primeiro li ‘A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao’, que foi meu livro preferido do ano passado, e este ano eu peguei ‘É Assim que Você a Perde’, um livro de relatos sobre amor, perdas e traições. Este trecho – que está até marcado no meu livro, é tão bonito e tão triste. Como a vida é. Como os amores podem ser.”

Cortazar 2 Cortazar

“Instruções para chorar”, de Julio Cortázar.

Murakami Murkami1

“Kafka à beira-mar”, de Haruki Murakami.

“Transcrevi esta parte e andei com ela durante muito tempo na carteira. De vez em quando abria, lia, e ficava tudo bem de novo. ‘Kafka à Beira-Mar’ é um dos meus livros preferidos do Murakami, e este trecho é um soco na cara de beleza e lucidez.”

#portfoliodonttouch: A fotografia sentimental de Juliana Rocha

por   /  30/10/2015  /  11:00

12 (2)

Juliana Rocha trocou Fortaleza pelo Rio de Janeiro para fazer jornalismo. Ainda na faculdade, se deu conta de que palavras não seriam suficientes para contar tudo o que ela queria. Encantou-se pela fotografia. Quando decidiu fazer fotos de sua Copacabana Sentimental para o Instagram, viu o número de seguidores ultrapassar os 20.000. A série também virou livro.

Agora, ela investiga o nu e todas as suas possibilidades. Quando junta o novo tema ao antigo, cria cenas idílicas, que nos fazem imaginar histórias para seus personagens. Sua vontade é envolver gente na mágica desse negócio que é fotografar. “É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo”, diz ela em entrevista ao Don’t Touch.

Na entrevista abaixo, ela conta como começou a se expressar pela fotografia, como é seu processo criativo e muito mais.

Para acompanhar o trabalho dela > www.instagram.com/rochajuliana

30

Eu entendo a fotografia como um buraco negro, rs. Pra mim, a mágica na fotografia é esse poder de se descolar do espaço e do tempo, é como criar uma nova realidade, um novo universo. Aí eu acho que vou me afundando nessa vontade de mostrar/descolar esses universos escondidos, de contar histórias misteriosas, de falar sobre a existência, sobre o medo, sobre as coisas que a gente não fala. Tem uma coisa de introspecção e delicadeza, de feminino e força, não sei. Provavelmente quem vê as fotos tem um olhar muito diferente.

3710

Eu adoro sair com a câmera por ai e poder fotografar o que me aparecer pela frente, se eu quiser. Mas às vezes algumas ideias pipocam na minha cabecinha e eu começo a pensar esteticamente em projetos e depois vou entendendo o que aquelas ideias significam e o que eu tô querendo dizer com aquilo. Parece um processo meio trocado, mas minha imaginação tem existência própria e ela supera todas as minhas intenções teóricas. Então sei lá, eu sigo obedecendo.

img005 cópia20x30

Acho que eu me apaixonei pela ideia de poder dizer alguma coisa através de um clique. Não parece – eu acho –, mas eu sou muito tímida com minhas investidas artísticas, então acho que eu embuti na fotografia uma vontade reprimida de ser escritora. Aí eu sinto que tô sempre querendo contar uma história quando eu penso numa foto, mas eu realmente não me importo que a história seja clara, quanto mais misteriosa e inacabada, melhor.

20x30 - cs 20x30 - onda

E tem uma mágica nesse negócio de fotografar, vai envolvendo a gente. É como se as fotos estivessem prontas, boiando em alguma outra dimensão, esperando que alguém apareça no momento exato pra trazê-las pro nosso mundo visível. Parece papo de maluco, mas às vezes eu sinto um magnetismo numa cena e eu fotografo como se tudo tivesse muito orquestrado… Nada pode ser mais apaixonante do que isso, sentir essa dança do universo.

20x30 - pedra 20x30 - sc

Sou de Fortaleza e foi lá que eu vivi até os 18. Mudei pro Rio pra fazer faculdade, cursei jornalismo na UFRJ. Mas no meio disso eu entendi que escrever sobre a realidade não daria conta dos meus anseios criativos, ai comecei a fotografar… No meio disso eu conheci o RIOetc,  no Carnaval de 2010 e é onde eu trabalho desde então. Hoje sou sócia e editora. E foi lá que eu aprendi quase tudo, como ser cara de pau pra pedir foto, transformar uma cena corriqueira da cidade em algo singular, pensar em enquadramentos e associar a cidade com as pessoas na velocidade da luz.

26x40 - folha (2) 26x40 - folha

Mas o RIOetc também não deu conta de meus anseios criativos, e aí eu comecei a fotografar a praia onde eu corria, com o objetivo de fazer uma série engraçadinha no Insta. Assim nasceu o Copacabana Sentimental, que virou um livro no fim do ano passado. Mas nasceu também uma vontade de extrair poesia dos momentos ‘perdidos’ dos nossos dias, dos momentos em que nós mergulhamos no ambiente e formamos um quadro maior, extrapolando nossos corpos… Sabe? Nasceu uma vontade de sempre estar contando uma história, ou de pelo menos estar sugerindo uma história. Hoje eu sinto que se eu parar de fazer isso, eu vou parar de amar o que eu faço. Nesse ano eu comecei a fotografar em filme e já consegui fazer uma pequena exposição com alguns estudos de nu. Foi no Complex Esquina 111 e eu chamei de ‘Beira’. Eu tô completamente apaixonada pelo mistério e pelo processo de voltar pro analógico e pretendo ser fiel.

26x40 - rosto 26x40  30x50

Eu adoraria que minhas fotos tivessem o poder acender qualquer chaminha nas pessoas, fazê-las mergulhar um pouco em si próprias, sentir alguma coisa, evocar alguma memória… Tenho medo de entrar na categoria ‘do que é bonito’, prefiro que o significado supere a estética, ou melhor, que a estética engrandeça o significado. Quando eu tava fografando a praia de Copacabana, essa era uma missão bem difícil, e as pessoas entendiam como foto de paisagem, mas nunca foi isso. Hoje, que eu fotografo coisas estranhas e uns nus estranhos, ficou mais claro, hahaha!

33x5030x50 mar

Vejam todos os posts da série:

Paulo Fehlauer e a fotografia guiada por sensações + #retratosanônimostakeover por @fehlauer

A noite sem filtros de Luara Calvi Anic + #retratosanônimostakeover por @luaracalvianic

Corpo em desclocamento na fotografia de Patricia Araújo + #retratosanônimostakeover por @patiaraujo

A busca pela pureza na fotografia de Bruna Valença + #retratosanônimostakeover por @brunavalenca

O mundo dos sonhos de Cassiana Der Haroutiounian