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Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Homem é tudo babaca

por   /  19/11/2018  /  19:19

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São duas da madrugada, estou do outro lado do oceano, e que belo momento para ter uma crise de ansiedade. Gosto de pensar que a criação e a escrita são a minha válvula de escape. Com os pensamentos a milhões por hora, entre fisioterapias, ônibus e caminhos, um grande de um boylixo me vem à cabeça. Chico Bento, essa é a sua fita.

Nesse ano amadureci bastante, mas ainda não o suficiente para não deixar minhas experiências negativas em relacionamentos me afetarem mesmo em momentos bons da minha vida. Ele poderia ter ficado calado, poderia ter sido um caso rápido e gostoso, mas ele preferiu proferir palavras, fazer planos e juras. Eu inocentemente baixei a guarda e me deixei acreditar por achar que ele estava falando a verdade.

Ele não é branco, e isso já foi um ponto a mais no balanço. Mas não é por ser um cara indígena que ele estava imune a ser um boylixo, pelo contrário, isso só mostra que macho é tudo macho mesmo. Nesse momento, eu me encontro num misto de frio, raiva e angústia, e minhas palavras soam mais agressivas, como uma criança que planeja uma vingança boba contra um coleguinha. Mas, como já disse antes, eu não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Quando nos conhecemos, eu não estava nem um pouco a fim de me envolver romanticamente com ninguém. Mas o desejo não tardou muito a aparecer, a atração era mútua e visível para todo e qualquer olho ao nosso redor. Uma atmosfera tímida de paquera foi surgindo, entre olhares distantes, toques e aproximações. Sem nenhum motivo especial, houve uma conexão.

Nesse exato momento, minha vontade é de mandar ele arder no inferno. E estou fazendo isso mentalmente, porque é madrugada e eu não posso gritar ou externar o que sinto. Talvez esse não seja o melhor momento para escrever essa história, mas eu sinto que se não fizer isso agora – entre pausas pra fechar os olhos e me aquecer – eu não vou conseguir dormir.

Eu tomei a iniciativa, como sempre. Sinto que em algum lugar da minha existência eu intimido os caras. Sinto não, tenho certeza, e já ouvi isso de algumas pessoas.

Ao primeiro primeiro passo dado por mim, ele deu um passo adiante. E assim começou uma história que poderia ter existido sem qualquer peso ou traço de lixão se para os homens, não fosse tão tentador colocar a gente num lugar vulnerável.

“Assim eu me apaixono”. Li isso e me contorci até o chão algumas horas antes de rolar o primeiro encontro depois que a paquera já estava encaminhada, quando passamos o fim de semana inteiro trocando mensagens vestidas de vontades e afetos. Tudo falso. Tinha uma falsiane bem na ponta do meu nariz e não fui capaz de reconhecer.

A gente carrega essa culpa, esse sentimento de achar que poderia ter evitado desgaste, que devia ter sido mais esperta que boy que não tem um pingo de responsabilidade pelo que faz, mesmo com quase 40 anos na cara e pai. Novamente, parece que nada, raça, idade, localização espacial, gosto musical, cueca boxer ou samba canção, faz a mínima diferença quando se trata de destratar alguém que teve coragem de se abrir num mundo onde enganar se tornou hábito comum.

Eu me via blindada, queria estar blindada depois de ter passado por uma relação fracassada. Mas com tantas, inúmeras, várias, muitas mesmo, atitudes românticas eu pensei: “né possível que ele tá falando isso tudo da boca pra fora”. Apois te ilude.

Diversas vezes caras ficavam comigo num cantinho, ele não. Isso também adicionou pontos no balanço total. Assumir uma mulher preta é coisa rara, e isso, se somando a outros acontecimentos, me fez criar uma expectativa que ele não teve culhão pra bancar. Filhos? Não sei vocês, mas eu falo de filhos com todos os boys que eu fico (por favor entenda a ironia). “Imagina um filho nosso, meio indígena, meio tu. Mas só se você quiser.” Me abraçou apertado como quem diz “é verdade esse bilete”.

Não se cansava de falar sobre paixão, ou de dizer que viajaria pra me ver onde eu estivesse. E que mesmo distantes, sempre iria ter um lugar nosso. Assim como aquela velha frase que eu não acredito nunca mais “We’ll always have Paris”, a gente teria a casa na roça pra fugir do mundo, tomar blend de café em caneca livre de poliuretano e ter um lifesytle Chico Bento feat. “Minha Rosinha”. Palavras dele. Juras, promessas e planos não partiram de mim, eu apenas acreditei, e acho que muitas pessoas em meu lugar também acreditariam.

Como de praxe, ele sumiu. “Magicamente”, reapareceu mandando essa mensagem da foto. Mas eu me tornei sagaz, e não deixo mais barato. Eu tava na casa de uma amiga e cheguei a uma conclusão. Enquanto ela gritava lá de dentro do quarto “é isso, amiga. Macho é tudo igual mesmo”, eu gritei da rede onde me balançava “só muda de nuance!”, e a gente riu. É que nem paleta de cores. Não deixe que eles tornem tudo cinza.

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Líricas afetivas: Método para identificar boylixo

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Todas as fotografias confirmam o derretimento implacável do tempo

por   /  25/09/2018  /  13:13

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“Tirar uma fotografia é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa. Precisamente cortando esse momento e congelando-o, todas as fotografias confirmam o derretimento implacável do tempo”.

Susan Sontag em “On photography”. ⠀

#bibliotecadonttouch

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Método para identificar boylixo

por   /  21/09/2018  /  13:13

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Método para identificar boylixo, por Dandara de Morais

Tinha alguma coisa errada. Como é possível que nenhum cara ficou/fica por mais de um mês na minha vida? Isso quando chega a um mês, porque geralmente não passa de 3, 4 vezes “saindo” juntos. Entendendo que a história se repetia sempre,  comecei a notar um padrão de comportamento que se repetia com cada um deles, independente de idade, esquerda, direita, localização espacial. Juntamente com o fato de ter mais amigas negras e saber que elas viviam o mesmo, consegui  (só um pouco)  deixar de me sentir culpada por nenhum deles ficar na minha vida.

As minhas experiências me levaram a catalogar os caras de acordo com as seguintes perguntas:

– Era sempre quando e onde ele queria?

– Ir “ver um filme” na casa dele era o programa de vocês?

– Houve algum tipo de constrangimento da parte dele ao ficar em público?

– Vocês só ficavam “escondidos” ou afastados de amigos/conhecidos?

– Simplesmente parou de te responder? Não te cumprimenta quando te encontra?

Se você respondeu sim a todas essas perguntas, não vou te dar parabéns, e sim um tapinha nas costas pra consolar. Aplicar esse método resultou em mais dedos nas mãos do que boys decentes.

Achamos que os sinais de lixão que captamos são invenção da própria cabeça. “Mas a gente saiu naquele dia prum barzinho”, “Que é isso, tô aqui com você não é?”, “Não te vi naquele dia, tava meio aéreo”. NÃAAAAAAAO! Não é coisa da sua cabeça, amada! Precisamos começar a entender de quem é a culpa. Que não é nossa, claro. São séculos de tratamento dos nossos corpos como meros objetos. Ali que começou a negação de nossa subjetividade e consequentemente a rejeição.

Sim, tristemente menos de 10 caras passam nesse teste quando eu aplico. O mais bizarro é que, ao ser tratada com respeito, carinho e atenção, ele automaticamente ganha pontos. É tanto boylixo, tratando mal. Já perceberam que ao encontrar um cara massa tendemos a dizer “ele me trata tão bem”? Não é bem assim. Tratar uma pessoa bem é o mínimo esperado.

Tinha esse boy, que em uma das perguntas recebeu um não, mas nem por isso eu acho ele menos lixo. A gente se fala, se cumprimenta, ele me respeita e se preocupa comigo. Mas no fundo do seu ser, e dentro das minhas péssimas experiências com boys, eu caracterizo ele como boylixo. Demos match no Tinder (rsrs) há muitos anos. Conversa vai, conversa vem, e nada de sair. Até que um dia ele não respondeu mais, e eu não lembro como, mas anos depois voltamos a conversar.

Ficamos algumas vezes, na casa dele.  As amizades que tínhamos em comum até sabiam que tava rolando algo, mas nunca nos viram juntos.

Um dia teve uma festa, e essas amizades estavam presentes, assim como ele. Lembro que ele chegou me deu um abraço (tinham pessoas por perto) e foi pro bar comprar cerveja. Aí comecei a pensar “que estranho, ele nem falou comigo direito” e não muito tempo depois comecei a duvidar da minha intuição. “Não, ele é tão legal! Ele não faria isso,  então fui atrás dele. Tinha algum amigo perto, e eu, com medo de levar um fora, esperei sair. Cheguei perto dele e disse brincalhona “ei, você não falou comigo direito!”, tentando amenizar a situação, porque pra gente ouvir um “isso é coisa da tua cabeça” é um piscar de olhos.

Eu questionei ele, dito e feito. “É coisa da tua cabeça, mulher”. Me deu um beijo sem graça e foi pra galera. E nada de demonstrações de afeto pelo resto da noite. O que pra ele pode ter sido inocente, pra mim foi mais um boy se sentindo constrangido. E eu finalmente entendi isso.

Em algum momento dessa história, combinamos de sair: ir pra casa dele… Mas antes, ele quis conversar, disse que achava melhor morgar por motivos de não lembro muito bem. Mas não faz a menor diferença. Beleza, tchau e benção. Depois ele apareceu namorando com outra pessoa.

Eu até questionei ele sobre as atitudes que teve enquanto a gente tava saindo e ele disse que não tinha nada a ver. Que já teve uma namorada negra, e que a atual também era. Negras de pele mais clara que a minha e cabelos lisos. Aham, Cláudia.

Ele não foi 100% lixo, mas sinto informar que isso não redime ninguém do que aconteceu no passado. E definitivamente não preciso me desculpar ou carregar qualquer peso por achar que nessa relação ele teve um quê de boylixo. Vacilou, boy.

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Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Número 0

por   /  10/09/2018  /  11:11

Número 0, por Dandara de Morais

(A imagem é de @nitimueth)

Eu tinha 16,  ele talvez 18. Na época, eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em uma amarração, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa. Vou chamá-lo de Numero 0. Número 0 era mais alto que eu, lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda adolescente hardcore de Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de usar bermudas do meu irmão, All Star cano médio pintado de tênis e trancinhas no cabelo.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu insegura, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, subir na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho, e foi lá onde rolou o primeiro beijo: perdi o bv. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente super soltos, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa.

Ele sumiu por um ano.

Reapareceu, e não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa. E eu, inocentemente, acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Hoje em dia não sou imune a boylixo, mas sei reconhecer melhor os indícios de frustração e pura treta – e, assim, economizar desgastes maiores.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do ballet também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Tenho fotos surpreendentes dessa época, é muito interessante observar, sou muito nostálgica, posso passar um tempão olhando e catando foto antiga.

Viajei. Ele parou de falar comigo.

Não dava mais sinal de vida, a plaquinha não subia, não respondia mensagem. E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo, ele então nem pensar.

Foi a minha primeira experiência de ser trocada por outra, branca. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhou na minha cara. Disappointed but not surprised né? Já a amiga falou comigo e de uma forma discreta pediu desculpas. Hoje em dia não vejo mais ele, e ela muito raramente ou pelo Instagram. Escrever sobre isso me tira um peso enorme. Respiro bem bem bem fundo e digo a mim mesma: não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos. Taca le pau!

Coluna: Líricas afetivas, por Dandara de Morais

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  20:00

Dandara

O Don’t Touch sempre foi, e é, um blog sobre o amor. Por isso é com muita alegria que compartilho essa novidade com vocês. A partir de hoje, inauguramos a primeira coluna deste blog! Assinada por Dandara de Morais, atriz, bailarina, diretora de cinema e ativista. A cada 15 dias, texto novo dela por aqui.

Líricas Afetivas pra boy lixo – Uma breve explicativa do que me trouxe até aqui

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.” Bell Hooks

Pra início de conversa, confesso aqui que meu primeiro beijo foi quando tinha 16 anos.  O primeiro, e único namorado da vida, quando eu tinha 25. Não tão incomum assim. Sempre falei sobre como me sentia usada pelos caras, um mero objeto, usado e descartado, e ouvindo que a culpa era minha, da boca das pessoas que eu tinha um cariño enorme.

“Mas, você se apega demais”. Era o que eu sempre encontrava como resposta quando eu tentava desabafar, e aquele sentimento de que tinha alguma coisa errada comigo foi crescendo e se instalando com raízes profundas dentro de mim ao longo dos anos. Eu falava sobre a solidão da mulher negra sem nem saber que o que eu sentia/vivia tinha nome, e muitas outras meninas, garotas, mulheres negras passavam pelo mesmo.

Até alguns anos atrás a maioria da minhas amizades eram pessoas brancas. Eu fui a mais feia da escola até uns 14 anos. Minha melhor amiga branca era a mais bonita, namorou e ficou com todos os meninos que eu gostava. Gran amiga! Quando fiquei maiorzinha e comecei a enxergar um pingo de beleza em mim, continuei sendo rejeitada e sem entender porque nenhum boy se interessava em mim. Se eu sou tão bonita, tão legal e engraçada, o que tem de errado comigo que ninguém fica na minha vida?

Muito fácil pensar que realmente o problema é meu, que eu sou exigente, complicada, carente, “fácil” ou qualquer outra palavra que sirva pra jogar a culpa das rejeições em cima de mim. Somente há uns 2, 3 anos, eu comecei a falar e como resposta ouvir “eu também me sinto assim”, porque comecei a fazer mais amigas – que não largo nunca mais – negras. Mulheres maravilhosas, talentosas, inteligentes, criativas, divertidas, fofas, minhas meninas rainhas. Então comecei a perceber que o problema não era comigo de jeito nenhum, que eu não tava louca, exagerando, ou exigindo demais dos outros.

“(…) Muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.”

Eu já fui trocada por mulheres brancas diversas vezes. O cara dizia aquele velho “não quero nada sério” e semanas (ou até dias mesmo) depois aparecia namorando. Já passei por situações do cara não me beijar na frente de amigas y amigos, mas me ligar tarde da noite me chamando pra casa dele (não era pra ver filme). Já fui ignorada, feita de louca, assediada, abusada, enrolada, levada a acreditar por jogos psicológicos que eu estava errada e exagerando. Enfim, é muita história. Eu tinha blogs e diários, escrevi muito durante anos, mas a ansiedade máxima me pegou, e agora sentar pra escrever é algo raro, e difícil de se começar a fazer.

Como até na terapia eu ouvia que o problema era comigo, acho que comecei a confiar mais nas folhas de papel e nas páginas de meus blogs, eu podia falar o que quisesse sem medo de ser incompreendida. Encontrei até pessoas que me entendiam bastante, mas isso não vem ao caso agora. Eu sempre tive vontade de escrever sobre cada boy que me envolvi na vida, alguns não passariam de um parágrafo, outros eu teria que resumir bastante a história. Esse ano finalmente consegui virar autora. Descobri que podem ser crônicas, e é isso que eu vou fazer.

Paralisada por muitos sentimentos ruins durante anos, agora eu consigo finalmente me apropriar das minhas próprias mazelas e então produzir algo de bom com isso. Colocar pra fora, na esperança de que tenha alguma serventia, que esses sentimentos ruins que sempre me acompanharam, as experiências negativas, tão cruéis e destrutivas se transformem em histórias, que sirvam de alguma forma para refletir e entender porque tanto se fala sobre essa solidão e rejeição das mulheres negras.

Sempre que eu escrevo eu penso no que as minhas palavras representam. Podem ser coisas muito íntimas, mas com certeza uma ou duas mulheres já passaram pela mesma situação. Então é por isso que eu falo, até brinco, gosto de dizer que eu aprendi a tirar onda da minha própria cara. Se eu tivesse que escolher um gênero para enquadrar a minha vida seria a tragicomédia. Feliz e triste, rindo mas sofrendo, dou início a uma série de crônicas (nem sei se é esse o nome, mas tudo bem) que meu irmão um dia me disse para escrever.

Enquanto as mulheres brancas lutam pela liberdade sexual, nós negras ainda queremos ser reconhecidas como parceiras, companheiras. Se segura, Berenice, aqui vamos nós.

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Leituras recomendadas:

“Para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis, você tem que negar a sua cor”

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

Dissertação: “A solidão da mulher negra: sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”

Vivendo de Amor

 

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  13:13

Dandara

Líricas afetivas pra boy lixo: Número 0

Eu tinha 16, acho que ele tinha 18. Na época eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em um penteado, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa, tá? Vou chamá-lo de Número 0. Número 0 era mais alto que eu, com lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda de hardcore em Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de umas bandas meio autorais adolescentes da cidade.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu tímida, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Não tinha. Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, dar uma voltinha na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho – e onde rolou o primeiro beijo. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa. Toda boba.

Não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa, e eu inocentemente acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Claro que hoje em dia não sou imune a boy uó, mas sei reconhecer melhor os indícios de pura treta e complicação de vida. Porque as pessoas gostam de complicar tudo, e mentir, e fingir que nada aconteceu.

Feliz 2007!

Noite de ano novo. Encontrei com ele por acaso no Recife Antigo, novamente. Eu não sabia muito bem como agir, porque estava na companhia das minhas primas e temia que elas fossem fofocar alguma coisa pra minha mãe (rsrs), e ali, mais uma vez, ele deu sinais de que não era tão legal assim. A memória do que foi verbalizado não é muito definida, mas tenho marcado na mente a minha expressão de insatisfação questionando ele por não ter feito alguma coisa. E no final cedendo a um abraço. E sentando no colo dele. Mas ele não me levava a sério na frente dos seus amigos.

Eu estava gostando da experiência. Eu, Dandara de quase 17 aninhos, ficando com um cara, bonito e tal… Era difícil de acreditar porque passei minha infância e parte da adolescência sendo xingada de tudo que é nome no colégio, e nenhum menino olhava pra mim. Ele também parecia gostar, até que aconteceram as cenas dos próximos parágrafos.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do balé também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Foi a primeira vez que alguém tocou no meu bumbum, e eu achei isso muito avançado. Que tola.

Viajei. Ele parou de falar comigo. Não dava mais sinal de vida, não respondia mensagem. Não subia mais a plaquinha! E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no Jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo. Ele, então, nem pensar.

Essa foi a primeira rejeição concreta que passei na vida, digo, estar com alguém e ser trocada. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem tinha todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender. Porque é muito fácil você se culpar por tudo, muito mesmo.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhava na minha cara. Não sei porque esse ar de surpresa, Dandara. Já a amiga veio falar comigo, de uma forma discreta assumiu o que tinha feito, mas não entrou em detalhes. Hoje em dia não vejo mais nenhum dos dois, mas escrever sobre isso me tira um peso enorme que carrego há anos.

Respiro fundo, não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Lição aprendida: não sei dizer, só sentir.

“Um coração sem fechadura”, de Silvia Guimarães

por   /  24/05/2018  /  18:00

sil

“As coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”
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Sil (@designdebaunilha) é uma dessas amigas que eu mais marco de ver do que encontro de verdade. Ainda assim, estamos há anos nos acompanhando, frequentando uma festinha de aniversário aqui, um show ali, falando nas DMs. A cada ano que passa eu vejo essa amiga desabrochar, se abrir pro mundo, se entender, colocar na vida e no trabalho o tanto que aprende. É tão bonito!

Um dos episódios que marcaram a vida dela é o assunto desse post aqui. Há 8 anos, Sil deu à luz Matias, seu filho caçula. Matias nasceu com uma cardiopatia congênita. E mudou tudo na vida de sua mãe – e de todos ao seu redor.
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A história dele é contada no livro “Um coração sem fechadura”, que está em processo de financiamento coletivo. A primeira meta já foi atingida, e a ideia agora é dobrar a meta. Vamos ajudar a espalhar essa história preciosa?

www.catarse.me/umcoracaosemfechadura

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Sil, que também faz o Design de Baunilha, conta sobre o livro:

“Passei a vida ouvindo as pessoas dizendo pras mulheres grávidas “não importa se é menina ou menino, o que importa é que tenha saúde”. Em 2010 eu tive um filho que tinha um problema no coração e pensava nessa frase todo dia, perdida, martelando ‘E agora? O que é que importa?’.

Meu primeiro passo foi me vitimizar. Passei por esse passo com força e com vontade. Minha segunda frase favorita nessa época era ‘o que é que eu fiz pra merecer isso?’, e tudo o que eu consegui com ela foi passar um ano sem dormir. E o menino lá, se recuperando, sendo feliz, vivendo, e eu sofrendo porque nada daquilo estava sendo como eu tinha imaginado.

E então eu escrevi um livro. Que é um livro pra criança, mas é um livro pra adulto também. Ele fala sobre medo, fala sobre como a gente quer controlar o incontrolável. Fala sobre encontrar dentro da gente a sabedoria de quem já veio pra esse mundo com um passinho na frente, entendendo que fechando o coração pra vida a gente não vai muito longe não.

E o que eu mais quero agora é que esse livro exista, é que essa história chegue nas pessoas. É mostrar que tudo bem ser diferente. Que as coisas difíceis da vida vêm pra fazer a gente melhor, não pra acabar com a gente.”

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“Amora”, de Natalia Borges Polesso

por   /  17/05/2018  /  20:20

amora

Nunca tinha lido um livro 100% lésbico, até passar o domingo na companhia de “Amora”, de Natalia Borges Polesso (@tia_brigida). Mais uma vez me vem à cabeça aquela palavra tão importante e que já é quase lugar comum (tomara mesmo que se torne): representatividade. Das inúmeras histórias de amor que você passou a vida vendo, lendo, ouvindo, quantas são protagonizadas por duas mulheres?
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A literatura nos expande. E, tantas vezes, nos mostra que somos mais parecidos do que antagônicos. Afinal, nos apaixonamos, levamos pé na bunda, nos metemos em confusão, celebramos acordar todo dia ao lado da mesma pessoa, casamos, travamos DRs, às vezes separamos e começamos tudo outra vez. Tem tudo isso no livro, que é sobre amor e descoberta e, por isso, interessa a qualquer um que goste dos temas. De diferente ele tem camadas de silenciamento e preconceito. Duras e doloridas, sempre, mas que bom vê-las visíveis na literatura, né?
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#bibliotecadonttouch
#minasdonttouch

“Estúpida, eu?”, de Camila Coutinho

por   /  12/05/2018  /  20:20

camila

Acabei de ler “Estúpida, eu?”, livro de estréia da @camilacoutinho. De um fôlego só, em 2 horas de uma tarde de sexta em que eu, como todo dia, queria ser produtiva, fazer mais, cumprir a lista de tarefas… Até que resolvi fazer o que queria: ler um livro escrito por uma blogueira que acompanho desde o começo, uma daquelas pessoas por quem você até tem mixed feelings (pois não fala exatamente dos temas que você diz pra si mesma que tem mais interesse) ao mesmo tempo em que vibra por, tamanho o carisma.
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Entre os vários insights que tive, divido um com vocês: ando cansada de julgar tanto tudo e todos. A gente escreve “blogueira” ou “blogueirinha” já colocando o trabalho em um patamar inferior. Eu tenho blog há dez anos, e ele me trouxe tanto. De amigo a crush, até uma sócia! Sou pura hashtag gratidão pelo que a internet me deu e dá.
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Faz um tempo, no entanto, que essa internet me angustia na mesma proporção em que me alegra. Questiono demais, observo demais, julgo demais. Tô o tempo todo medindo e analisando a quantidade insana de material que chega aos meus olhos a cada vez que abro o Instagram. Ler esse livro me reconectou com uma Dani adolescente que pediu uma assinatura da Caras, ganhou e passou a acumular um repertório inacreditável sobre celebridades e subcelebridades. Tem uma parte de mim que gosta desse assunto, e tá tudo bem, que bom que somos múltiplos, né?
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Tenho gostado demais de ouvir o outro, e essa leitura foi ótima. Mostrou como uma ideia simples se tornou um negócio poderoso, que por trás do sucesso existe uma mulher de 30 anos que está sempre dando o próximo passo, se reinventando, fazendo networking, entendendo concorrência como estímulo.
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Nessa era de feed perfeito e discurso supercoerente, me perco. Poderia postar todo dia, dividir coisas que leio, penso, vejo, sinto. Mas não. Por que? Porque o texto desse post aqui tá cheio de mas e gerúndio, “não pode”. Porque quem vai querer ler? É muita chatice e pouca ação. Enquanto me dividido entre angústia e paralisação, a vida acontece, o tempo passa… Fiquei com vontade de parar com isso. Quem sabe, né?
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#ainternetqueagentequer
#bibliotecadonttouch
#estupidaeu