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Eu queria que o tempo não fosse uma contagem passando

por   /  27/11/2014  /  9:09

Luiza Potiens

Eu queria que o tempo não fosse uma contagem passando, eu queria que fosse todas as pessoas que amo, juntas, plenamente conscientes da maravilha de nos amarmos uns aos outros. Pelo meio das pessoas que amo, eu queria que o tempo fosse também algumas paisagens, água limpa, o sol, muitos livros, muitos quadros, muitos discos. Mangas, morangos, bananas, chocolates. Pássaros e cachorros pequenos do tamanho de bonecos que podemos embalar no colo.

Notas incompletas sobre assuntos do tempo, por Valter Hugo de Mãe.

A foto é da Luiza Potiens.

[Obrigada, Alessandra Leão, por compartilhar!]

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É importante não otimizar o tempo

por   /  24/11/2014  /  8:08

Can Dagarslani

Tem um preceito zen que diz que precisamos colocar espaço entre uma coisa e outra. Acredito nisso, espaço entre uma coisa e outra. Espaço físico, por exemplo. Desespero desses projetos arquitetônicos que se gabam de tornar minúsculos cubículos “funcionais”. Viver não é agrupar artefatos de modo funcional. Não é fechar a porta que esconde a cama e abrir a que desdobra uma mesa com cinco minúsculos banquinhos quando as visitas chegam. Me parece que uma casa deveria ser qualquer coisa além disso. Uma casa deve ser mais do que uma cova engenhosa para vivos. Espaço temporal, também. Colocar meses entre os acontecimentos. Espaço entre as pessoas parece um bem necessário. Espaço entre o trabalho e o outro trabalho. Entre o trabalho e o lazer. Não sair do trabalho direto para o bar. Colocar qualquer coisa entre duas atividades. Viver também não devia ser otimizar o tempo. É importante não otimizar o tempo. O fato de as coisas caberem não significa que elas deveriam estar lá. Agendas e apartamentos estão aí para provar a diferença.

Entre as coisas, por Juliana Cunha. Leiam o texto completo em > http://julianacunha.com/nonada/espaco

A foto é de Can Dagarslani.

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Falamos e falamos e falamos

por   /  17/02/2014  /  19:19

Conversações, por Ana Martins Marques

Falamos longamente nestas tardes
como num alpendre de palavras
o sol por trás
falamos longamente e sem cuidados
vamos descascando uma a uma nossas frases
e jogando os restos numa bacia cheia d’água
às vezes demoramos no silêncio
enquanto desmanchamos nas mãos
o sexo de uma flor
inventamos opiniões
discordamos por esporte
somos enigmáticos
como biscoitos da sorte
enfiando os pés descalços na terra
enquanto inventamos um passado um para o outro
falamos longamente e sem cuidados
mentimos como namorados
recitamos versos nossos
como se fossem de outros
somos ainda mais cínicos do que somos
debochamos do que mais amamos
falamos e falamos e falamos
enquanto comemos, fumamos e enchemos
de álcool
a distância entre nós.

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A foto é do Jodi Cobb para a National Geographic.

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Um dia só em que nada tivesse acontecido

por   /  10/02/2014  /  19:19

De presente, por Renata Borges

De presente, se eu pudesse, pediria um dia com você, um dia e uma noite. Um dia em que nada tivesse acontecido, um dia inteiro em que a gente não tivesse machucado um ao outro. Um dia ouvindo você rir até perder o fôlego, só mais uma vez. Eu sinto falta da sua risada e de você me abraçando.

Um dia só em que nada tivesse acontecido. Ou um dia só em que eu pudesse ser estúpida e fingir que não entendi que não dá, que chega, uma última vez, só mais uma vez.

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A foto é do Mr. Efes.

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Errem sempre que tiverem chance

por   /  31/01/2014  /  9:09

Gostei tanto deste texto do Thiago Barbalho! A foto que escolhi pra ilustrar é do Sly Panda.

olá amigos

gostaria de dar um conselho a vocês

por favor aceitem

(é algo que aprendi & não foi fácil, hein)

gostaria de dar este conselho

só alcançado após as seguintes situações mentais:

(1) me desiludir quanto ao que poderíamos ter feito da nossa capacidade abstrativa & amorosa

(2) me libertar da armadura de medo com que essa desilusão insistia em me vestir

(meu conselho é dado portanto

como um salto de volta pro mundo peladinho da silva

e que respinga com frescor & susto em todo mundo que tá por perto

(não sei vocês, mas eu demorei um tempão pra aceitar o mundo

(na verdade esse mergulho tem sido um exercício sem vista de terminar

(não é fácil admitir que medo é o único deus perene que criamos, concordam?

))))

bom, pessoal, como eu ia dizendo

quero lhes dar este conselho

porque sei que a espécie que somos não pode erguer o próprio corpo do chão sem provocar desastres irreparáveis

(e apesar disso, caramba

quanta pesquisa por aí tentando imaginar como será a nova espécie que um dia supostamente evoluirá da nossa própria inteligência em crise)

amigos desculpem a demora

aqui está o meu conselho

é de coração aceitem:

 

errem sempre que tiverem a chance

abs

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A festa é minha e eu choro se eu quiser

por   /  22/01/2014  /  8:08

Escreveram o livro que traduz com perfeição várias sensações que experimentamos todos os dias ao usar o Instagram, o Facebook, o Twitter e qualquer outra rede que vier a surgir e que nos faça pensar que, quanto mais mostrarmos nossas vidas perfeitas, mais seremos felizes.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é o primeiro livro de Maria Clara Drummond, escritora e jornalista carioca de 27 anos. Em pouco mais de 80 páginas, ela faz uma crônica do que eu tenho chamado de Vazilândia (talvez fosse mais legal traduzir o termo pro inglês: Emptyland. Mais cool, né? Mas não).

Vazilândia é um universo nada obscuro, do qual qualquer um pode fazer parte. É o mundo da aparência e da falsa conexão, onde importa se vestir a partir das mesmas referências, frequentar os mesmos lugares, viajar para destinos badalados, frequentar estréias e vernissages muito cool, postar o seu dia a dia no Instagram, se alimentar de likes, comentários e número de amigos ou seguidores e chegar em casa e se sentir uma merda. Sozinho, oco, perdido, sem saber o que importa de verdade ou o que quer da vida.

No livro, Maria Clara conta a história de Davi, um jovem cineasta carioca que aceita um emprego em publicidade em São Paulo, passa a frequentar as melhores festas, vai a Cannes e se sente completamente sem rumo, usa drogas legalizadas e outras não pra escapar da dureza que é acordar e não saber porque decidiu atuar com tanta destreza em um filme cujo roteiro está completamente desamarrado. Em certo momento, o personagem diz:

Na verdade, o objetivo disso tudo é: beber durante a noite para tentar esquecer a angústia ou ao menos deixá-la em segundo plano. No dia seguinte, dormir muito e só acordar no meio da tarde. Aí só falta metade do dia em consciência, e logo posso voltar a dormir ou beber. Mas não importa. De tudo o que eu faço o objetivo principal sempre é escapar.

Estamos conectados o tempo todo, viajando na nossa própria viagem de que nossa vida editada uma hora vira vida de verdade. Será? E aí vem outro trecho:

Quanto mais você se aproxima de ser um adulto bem-sucedido mais você se afasta da felicidade. E aí, cara, chega num ponto que não tem mais jeito, babou. Você não vai abrir mão das suas regalias. São as festas, são as meninas, os amigos badalados que te querem sempre por perto, é ouvir toda hora você é o máximo! De pessoas que também são consideradas o máximo e ser exaltado primeiro no microcosmo da Incógnito e, logo depois, no Rio de Janeiro todo, e ouvir que pessoas de São Paulo já sabem quem você é e querem estar sempre por perto, é receber uma proposta de trabalho em São Paulo por um salário muito melhor, em um cargo muito melhor e com muito mais oportunidades de ganhar mais e mais dinheiro e conhecer mais e mais gente e assim você vai crescendo seu status e sua suposta felicidade, que na verdade já deixou de ser felicidade há muito tempo, lá na sua primeira conquista, e agora é só um turbilhão de acontecimentos instagramados que vão se multiplicando, porque você sabe que se parar por um minuto você não volta do seu buraco interno jamais.

Ops… Parece que foi você que escreveu isso em um daqueles dias em que está mais pra baixo? Também tive essa sensação. E toda vez que sinto isso, penso: não dá pra achar que o problema é o Instagram ou o Facebook, mas sim as conexões de verdade que a gente deixa de fazer com as pessoas, né? E pra falar disso, seria necessário um outro livro – ou um outro post!

Rápido, preciso e atual, “A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser” é um livro que fala sobre a bolha de que muitos de nós fazemos parte de vez em quando. Aproveitei pra conversar com a Maria Clara sobre essas coisas todas.

Qual foi o clique que te deu pra escrever esse livro?

Sempre gostei de escrever, mas nunca ficava satisfeita com nada – e olha que eu sempre escrevi obsessivamente. Quando tentava contos, sentia que ficavam frios e sem alma. Também escrevia algo similar a uma prosa poética, mas, na maioria das vezes, tinha alma em excesso e o resultado era muito melodramático – além de ser muito difícil editar textos tão pessoais. Com a carreira de jornalista engatilhada, o sonho de escrever um romance ficava cada vez mais adormecido.

No dia 1º de janeiro, assim que cheguei em casa da minha festa de réveillon, sentei no computador e escrevi: “Cara. Melhor réveillon da minha vida. Mas, mesmo assim, ano que vem passo em casa, quieto.” Era um desabafo, porque de fato eu passo quase todos meus réveillons em casa, dormindo, e este eu passei em uma superfesta na casa de uma amigo, me divertindo horrores. Mas aí, sem muito planejamento, surgiu esse personagem e todo o círculo de amigos dele e suas respectivas personalidades. Escrevi praticamente o capítulo 1 inteiro neste dia, de uma vez só – mas é lógico que, ao longo dos seis meses que passei me dedicando ao romance, ele foi reescrito inúmeras vezes. O livro foi criado espontaneamente – sua estrutura foi sendo desenvolvida na medida que ele ia sendo escrito, na base de muitos testes.

Da série perguntas carregadas de suposição: como foi escrever uma história baseada na vida de 90% dos seus amigos e conhecidos?

Praticamente nada que existe de factual do livro foi baseado na vida de pessoas que eu conheço, somente alguns detalhes que serviam de inspiração para uma ficção nascer dali. Por exemplo, poucos dias antes do réveillon, fui à Comuna (bar que eu e meus amigos frequentamos no Rio) e, no bar, desabafei para um amigo: Não estou aguentando minha existência. Ele pegou a cerveja dele e disse: Ninguém aqui aguenta, tá todo mundo fingindo. E aí ele foi dançar e eu fiquei olhando aquele grupo de pessoas, aparentemente tão alegres. Fiquei com esse diálogo na cabeça (que reproduzi no livro) e dali surgiram várias cenas e pensamentos para a história. Muitas das reflexões foram baseadas em conversas com amigos sobre nossa geração.

Alguém ficou chateado? Ou a reação mais constante foi do tipo: “uow, é exatamente isso! O que a gente faz agora”?

Não, a reação foi positiva. Alguns disseram que ficaram meio perturbados e envergonhados de se identificarem com o Davi, mas foi uma perturbação boa, uma reflexão.

Como é viver em um mundo em as coisas só existem se forem postadas?

Acho que a chave para essa pergunta esta no parágrafo de conclusão do livro: inveja de nós mesmos. Aparentemente todos nós vivemos uma vida incrível, somos bonitos (todo mundo é lindo no selfie), inteligentes, frequentamos festas e exposições. Mas, no fundo, sabemos que não somos tão ~ legais ~ assim e daí vem a crise. Creio que a obrigatoriedade do sucesso que sempre existiu na sociedade norte-americana tenha se globalizado com as redes sociais, a ponto de virar pecado fracassar. Procuramos aparentar sucesso e felicidade, mais do que ser – e quando passamos a vida olhando para fora ao invés de olhar para dentro fica mais e mais difícil alcançar o que seria a felicidade.

Desaprendemos a falar a real uns para os outros em troca dessa exaltação de que somos o máximo o tempo inteiro?

Quando temos amizades verdadeiras, como as de infância, existe esse momento de falar A REAL. No entanto, muitas vezes essas amizades ocupam menos espaço na nossa vida, dando lugar a amizades do trabalho ou que sejam de alguma forma importante para o networking.Em cidades mais cosmopolitas, como São Paulo, isso acontece com frequência: tem uma frase da Tina Brown, que foi editora da Vanity Fair e da New Yorker, que simboliza bem esse espírito: “You don’t make friends, you make contacts”.  No Rio de Janeiro, que é uma cidade bem provinciana, é menos comum. Você encontra seus amigos de infância no Baixo Gávea: um surfista que ainda mora com a mãe, um CEO milionário, um artista hypado… E tá tudo certo.

É difícil para quem cresceu tendo tudo e podendo tudo lidar com frustração?

Sim, com certeza. Isso já foi bem explorado por vários artigos que tentam dissecar os chamados Millennials. Especificamente no Brasil, a minha geração foi criada em um momento econômico bom, o que torna as suas expectativas ainda mais irreais – isso somado à felicidade dos outros mostrada em redes sociais e revistas de lifestyle torna a combinação ainda mais explosiva. Uma frustração normal da vida toma ares de fracasso que só você passa – os outros estão lá, felizes e bem sucedidos.

Depois de escrever o livro, você pensou em tomar uma decisão “drástica”, do tipo ficar longe de redes sociais?

Amo Facebook. Gosto de discutir sobre política e outros temas relevantes com uma gama imensa de pessoas que eu normalmente não conversaria e que tem pontos interessantes a acrescentar – aprendo a partir dos links que os outros postam, sites e assuntos que eu não teria acesso de outra forma. A linguagem de internet é descontraída, mesmo quando o assunto é sério. Isso me agrada. Normalmente, não perco meu tempo vendo vídeos virais, nem tenho muita paciência para humor de internet – de vez em quando surgem uns ótimos e é bom, mas a maioria acho sem graça. Em geral, uso o Facebook como plataforma para fóruns de discussão sobre assuntos variados.

Odeio Instagram. Perdi meu iPhone e tive que ficar dois meses sem o aplicativo e foi ótimo. Me senti bem mais leve. Instagram é superficial e desperta o pior das pessoas: inveja, competitividade, narcisismo. Atualmente uso pouco essa rede social e pretendo usar cada vez menos.

O Instagram não te trouxe nada de bom?

Acho que não. Por vezes acho divertido (estou viajando e estou gostando de tirar fotos e deixá-las mais bonitas), mas tendo a relacionar o Instagram com ansiedade. Ansiedade de se mostrar feliz, de ter a sensação de ser querida, e é uma sensação falsa, porque likes não contabilizam amor. Já ouvi alguém dizer: “acho que ela não é muito querida, ela não tem muitos likes”. Outro dia, falava com uma amiga sobre como me senti mais leve quando estava sem Instagram e ela disse: “mas aí as pessoas podem esquecer que você existe, é ruim para o marketing pessoal” – ela disse isso a sério e creio que muita gente pensa assim.

Às vezes o Instagram pode ser útil para se começar um primeiro contato com alguém que você admira, pois cria-se uma conexão de forma mais leve que no Facebook, onde normalmente você precisa conhecer a pessoa para virar amigo. Dessa forma, fico feliz de ter algum tipo de relação com essas pessoas que não conheço, mas admiro o trabalho (principalmente se essas pessoas me seguirem também), mas como o instagram não permite muitas interações por texto (onde me saio melhor – sou meio ruim com imagens e isso deve influenciar minha implicância com o aplicativo) normalmente esse tipo de contato permanece superficial, na base de likes. Então, sou meio indiferente em relação às benesses do Instagram.

O que a internet te trouxe de mais assustador até hoje?

Acho a internet ótima, o problema é alguns tipos de rede social que fazem com que seja muito tentador se comparar com os outros a partir de critérios aleatórios como likes, seguidores etc. Isso torna as pessoas mais narcisistas, autoconscientes, competitivas e invejosas. Mas nada que um pouco mais de terapia e introspecção não resolva. Qualquer problema do mundo moderno (tanto oriundo das redes sociais ou os que eu trato no livro) pode ser resolvido com uma boa dose de introspecção, silêncio, autoanálise, leitura. Menos selfie, mais Freud e Jung – as pessoas podem até começar a ler sobre esses dois pensadores em um texto de internet para então migrar para um livro.

E de mais surpreendente?

Acho internet ótima para relações pessoais, é mais fácil você se aproximar de pessoas com quem você tenha afinidades. Você tem a chance de ler sobre assuntos que normalmente não leria – eu não tinha o menor interesse sobre feminismo até minha timeline ser inundada por posts dessa espécie e só a partir daí que comecei a pesquisar sobre o assunto. Tem mil ensaios interessantes disponíveis na web. É lógico que um artigo de internet pode ser insuficiente comparado a texto mais extenso que você encontra em um livro, mas é um bom ponto de partida para você começar a desenvolver uma espécie de curadoria intelectual (ex: não me interesso sobre fenomenologia, mas descobri que amo semiótica e vou me aprofundar no assunto).

Quem você quer que te leia? Vale fazer uma citação genérica do tipo “jovens de 30 anos que moram em São Paulo” ou nominal: “aquele cara que tem a família perfeita no Instagram”.

Imagino que meu livro seja mais atraente para jovens (de qualquer canto do mundo), entre 20 e 35 anos, mas nada impede que um adulto de 55 anos leia e se identifique com o Davi.

“A Festa é Minha e Eu Choro Se Eu Quiser”, de Maria Clara Drummond

Editora Guarda-Chuva

Mais em > https://www.facebook.com/pages/A-festa-%C3%A9-minha-e-eu-choro-se-eu-quiser/1387164904851450

Crédito das imagens: divulgação + Pinterest + Pinterest

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Um pouco de silêncio

por   /  14/01/2014  /  8:08

Ótimo texto que ecoa uma conversa recorrente pra mim nos últimos meses. A imagem tirei daqui.

Um pouco de silêncio, por Michel Laub

Para um cronista de meio século atrás, digamos, o maior temor era a falta de assunto. Hoje é o contrário.

Desde o surgimento da internet, é difícil ler um texto como “A Boa Manhã”, de Rubem Braga, que identifica a felicidade com a ausência do que dizer. Em qual dia de 2013, ano em que houve o julgamento do mensalão, os protestos de junho, o intérprete falso no funeral de Mandela e a glória do rei do camarote, foi possível resistir à compulsão de se expressar?

Não que o mundo seja mais movimentado hoje. O que aumentou foram os veículos para que corram versões dos fatos. O modernismo errou ao decretar a morte da narrativa. Idem quem segue falando da morte da ficção. Pois o que mais há agora são narrativas ficcionais: o tipo de relato sobre nós mesmos, mediado pela idealização –tudo falso, portanto– que fazemos de nossa inteligência, cultura, humor e experiência social.

O pior pecado de um colunista é ser previsível. Caio nele com frequência, como o leitor deve perceber, mas tento fugir do figurino tradicional dos que agem assim: blocos monolíticos de opinião, que alinham qualquer controvérsia –do casamento gay ao modelo de exploração do campo de Libra– segundo um sistema que parece coerente.

Só parece: muita gente defende a liberação das drogas e é a favor de restrições policialescas para o tabaco. Parte dos que condenam o aborto baseados no princípio de proteção à vida apoiam a pena de morte. Parte dos que advogam a separação entre religião e Estado no Ocidente se enchem de tolerância multiculturalista ao analisar teocracias. O paradoxo não impede, claro, que se aponte o dedo para a desonestidade, agressividade e ignorância dos adversários.

(Para não deixar dúvida: sou a favor do casamento gay e da adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo. A favor da separação entre Estado e religião sempre. A favor do tratamento de drogas e aborto como questões de saúde pública, e não de polícia. Contra a propaganda de cigarro e a pena de morte. Nada tenho a dizer sobre o campo de Libra.)

O segundo pior pecado de um colunista é se apaixonar pela própria retórica. Como a frase melhora quando tiramos dela as adversativas, não é mesmo? Tudo fica mais irônico e viril. O ritmo do parágrafo anterior, que já não é lá muito harmonioso, ficaria pior se eu incluísse a construção “não acho, todavia, que religiosos são obscurantistas por definição”.

Ou “no debate do aborto, estou mais do lado pragmático –que tenta evitar mortes de mães em partos sem cuidados e desestruturação familiar por gravidezes não desejadas– que no de princípios, pois tenho dificuldade em lidar com o ‘conceito político’ de vida”.

Ou “no das drogas, ao contrário, penso mais na liberdade de cada um usar o que quiser, fazendo mal a si mesmo inclusive, que nas consequências. Tenho dúvidas se o consumo diminuiria com uma flexibilização da lei. E se o crime organizado não mudaria apenas de droga ou de ramo, caso perdesse os atuais lucros com a maconha”.

Ocorre que é nas adversativas que pode estar a precisão. O estilo piora, mas é difícil pensar sobre um tema sem ao menos testar –com a empatia que estiver ao alcance– a viabilidade lógica e moral do argumento contrário.

Algumas coisas são inegociáveis, claro, mas nem toda ponderação é sinônimo de relativismo covarde. Assim como nem toda omissão. Pierre Bayard escreveu um ensaio divertido chamado “Como Falar dos Livros que Não Lemos” (Objetiva).

Gostaria que alguém escrevesse um com a tese oposta: como resistir em falar dos livros que lemos, dos filmes que vimos, do que aparece na TV ou do que comemos no almoço, e do trânsito e da poluição e da péssima qualidade dos serviços na cidade e assim por diante.

Seria um bom final para este longo 2013: um pouco de vazio e tédio em vez do fetiche do registro e do movimento. Uma paisagem à beira da praia sem o filtro de um aplicativo. Nenhuma hashtag comentando o desempenho sexual de ninguém. A experiência fora do alcance do relato, a vida que não precisa ser classificada e explicada nos limites –sempre mais estreitos– da linguagem.

Um pouco de silêncio, portanto.

Feliz Natal. Feliz Ano-Novo. E boas férias para mim (deve dar para perceber que estou precisando).

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Isso sim é amizade

por   /  13/01/2014  /  10:10

Amizade, por Noemi Jaffe

por outro lado, esse “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, é bem careta. cativar é tornar cativo, aprisionar. é a definição clássica, grega mesmo, de paixão – uma doença que aprisiona o sujeito. daí que cativar não tem nada a ver com amizade, que é, por natureza, livre. assim sendo, sugiro: “tu te tornas temporariamente irresponsável por aquilo que libertas”. isso sim é amizade.

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A foto é da Olivia Bee.

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As melhores leituras de 2013

por   /  19/12/2013  /  15:15

A Confeitaria perguntou aos seus autores quais foram seus livros preferidos de 2013. ♥

Os meus foram: This Is How You Lose Her, de Junot Díaz. O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe. Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos. You and I, do Ryan McGinley. Divórcio, de Ricardo Lísias. Todos Nós Adorávamos Caubóis, de Carol Bensimon.

E os seus, quais foram?

Vejam a lista completa e inspirem-se! > http://confeitariamag.com/fabianesecches/as-melhores-leituras-de-2013/