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Posts da categoria "casa"

lagarta na banana

por   /  10/04/2013  /  2:24

Lagarta na banana, por Ana Guadalupe

quantas frutas serão por mim analisadas
com atenção em busca de lagartas
até o fim da vida
lembrando aí que esqueci de levar os óculos pro mercado
deve ser por isso também a tontura

cada volta na prateleira
é um zumbido novo nas orelhas
a vontade mista de ficar e ir embora
aprendi recentemente a comprar ovos, brócolis, farinha
ainda não aprendi a levar companhias:

ir ao mercado sem ninguém é mais rápido
não é preciso esperar outra pessoa
hipnotizada olhando temperos ou chinelos
enquanto pães de centeio são por mim esmagados

enquanto finalmente encontro a lagarta que vive na banana
e jogo longe o cacho

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Tirei o gif do Ffffound.

casa  ·  internet  ·  literatura

falo de mulher

por   /  19/03/2013  /  8:41

Ivana Arruda Leite é uma das minhas escritoras preferidas, como vocês sabem (quem não viu a entrevista que fiz com ela, por favor veja! Aqui, ó > http://donttouchmymoleskine.com/cafofo-sessions-4-ivana-arruda-leite/).

Um dia estávamos jantando e conversando. Quando falei que só tinha lido os romances dela, ela virou pra mim e disse: “Então você não me conhece!”.

No dia seguinte, ela deixou quatro livros na portaria do meu prédio. E a cada um que leio, a surpresa é maior.

“Falo de Mulher”, seu livro de estréia, lançado em 2002, é de uma urgência absurda para quem todo mundo que gosta de linhas apaixonadas, exageradas e precisas sobre relações amorosas.

Procurem o livro já! Tenho certeza que vocês vão amar!

Na imagem acima, o conto que abre o livro. Deu pra sentir como é sensacional, né? ♥

do seu pai

por   /  01/03/2013  /  8:46

Do Seu Pai é mais uma delicadeza criada por Pedrinho Fonseca! ♥

Ele é pai de João e Irene, marido de Lua e também é autor da Loja de Histórias, que funciona assim: você envia uma foto que tenha feito, e ele escreve uma história para ela. Vocês imaginam a quantidade de coisa boa e surpreendente que sai de lá?

Em seu novo blog, Pedrinho emociona a gente com cartas escritas para os filhos lerem no futuro. Ele explica:

No dia 29 de janeiro de 2013, pensei em escrever um livro de histórias infantis. O livro, este blog. As histórias aqui, reais. E os infantis são meus filhos, João e Irene (tudo bem, às vezes entro na categoria infantil também). Mas isso já seria um outro blog, uma outra história. Seja bem-vindo. Esse aqui é um blog de pai para filhos. Com todo o amor que tenho dentro e fora de mim.

Acompanhem > http://www.doseupai.com/

amor  ·  fotografia  ·  literatura

ex

por   /  21/02/2013  /  8:25

Ex, por Antonio Prata, na Folha

Marcamos num restaurante perto do trabalho dela, no Itaim –o que me pareceu não só prático, mas tranquilizador: dava ao encontro algo de corriqueiro, prosaico, sem pompa ou circunstância. E por que haveria de ter pompa ou circunstância? Somos apenas ex-namorados, já há muito separados, indo almoçar num dia de semana. Ela pede uma salada e uma Coca Zero; eu, o menu do dia e uma água com gás.

Ficamos juntos por três ou quatro anos, lá pelos 20 e poucos. Fizemos planos, como fazem todos os casais. Escolhemos nomes para os filhos que não tivemos, combinamos viagens nas quais nunca embarcamos: todo um futuro que, por razões que a própria razão desconhece –ou, mais provavelmente, que a memória achou de bom alvitre apagar–, deu com os burros n’água.

“Essa é a Dora, na natação”, ela me diz, estendendo-me o celular. “Vai passando pra direita. Ó, o Francisco no aniversário de um ano. Os dois juntos na escola…” Vejo algumas fotos de seus filhos, até que entra uma dela beijando o marido, num Réveillon. Entrego-lhe o celular, ela o pega de volta, sem pressa. E por que teria pressa? Não há amor nem mágoa entre nós.

“O amor acaba”, disse Paulo Mendes Campos, em sua crônica mais bonita; só não disse o que fica no lugar. É na esperança, talvez, de entender essa estranha melancolia, esse vazio preenchido por boas lembranças e algumas cicatrizes, que nos encontramos a cada ano ou dois. Marcamos um almoço num dia de semana. Falamos do passado, mas não muito. Falamos do presente, mas não muito. Há uma vontade genuína de se aproximar e o tácito reconhecimento dessa impossibilidade.

Dois velhos amigos, quando se reveem, voltam no ato para o território comum de sua amizade. Reconstroem o pátio da escola, o Centro Acadêmico, o prédio em que moraram –e o adentram. Em três chopes, refez-se o antigo elo. Para os ex-amantes, no entanto, é impossível restabelecer o elo, o elo morreu com o amor, era o amor. O que sobra é feito um cômodo dentro da gente, cheio de móveis e objetos valiosos, porém trancado. Nesses almoços, estamos sempre no corredor, olhando para a porta fechada. Sentimos saudades do que está ali dentro, mas não podemos nem queremos entrar. Como disse um grego que viveu e amou há 2.500 anos: não somos mais aquelas pessoas nem é mais o mesmo aquele rio.

Uma vez vi um filme, não me lembro qual, em que um sujeito declarava: “Se duas pessoas que um dia se amaram não puderem ser amigas, então o mundo é um lugar muito triste”. O mundo é um lugar triste, mas não porque ex-amantes não podem ser amigos: sim porque o passado não pode ser recuperado. Eis a verdade banal que descobrimos, frustrados, ao fim de cada encontro: toda memória é um luto pelo que vamos deixando para trás.

“Café?”. “Não, obrigada, preciso voltar pro trabalho”. “É, eu também tô meio com pressa”. Rachamos a conta, nos beijamos nas bochechas, damos um abracinho demorado e chocho, com a ternura triste dos amores findos e seguimos cada um para o seu lado.

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A foto é de Michael O’Neal.

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não pergunte nada ao amor

por   /  14/02/2013  /  8:33

Amor, por Noemi Jaffe

o amor não está aqui nem está alhures. o amor não tem algo a dizer. não pergunte nada ao amor. não o procure no fundo de nada; ele sempre está na superfície. principalmente não o procure. mas também não espere que se você não o procurar, vai encontrá-lo. não morra de amor. o amor não é uma entidade: não exige respeito nem homenagens. ele não tem autonomia para abater-se sobre quem ele bem quiser, porque ele não é uma coisa em si. ouça. agora mesmo. ele está falando.você escutou? não?

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A foto é do Elea te Dice Hola.

amor  ·  fotografia  ·  literatura

a caçadora de leitores

por   /  05/02/2013  /  8:15

Acordo Fotográfico é um blog que reúne fotos de pessoas lendo seus livros.

A autora explica:

Embora saiba que é um cliché, não posso deixar de dizê-lo: adoro ler. E, recentemente, descobri que fotografar pessoas me dá um enorme prazer. Há já algum tempo que acalento a ideia de sair por aí a retratar aqueles e aquelas com quem me cruzo no dia a dia, enquanto leem. Felizmente, são cada vez mais: nos transportes, nos cafés, nos jardins, em qualquer sala de espera – há cada vez mais gente a ler. Faço este primeiro post na reta final de um ano difícil e não falta quem nos repita, constantemente, que o próximo não será pera doce. Decidi, por isso, avançar com este projeto o quanto antes. Preciso de algo que me motive, que me inspire e que me obrigue a andar de olhos bem abertos. Espero que gostem e que passem por cá volta e meia. 

Acompanhem > http://acordofotografico.blogspot.pt/

(Obrigada por mandar o link, Sabrina Travassos!)

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caixa preta

por   /  25/01/2013  /  8:54

 

Caixa preta, de Jennifer Egan (publicado na Ilustríssima)

1. As pessoas raramente são como você espera que elas sejam, mesmo quando você já as viu por foto.

Os primeiros 30 segundos na presença de alguém são os mais importantes.

Se você tem problemas para observar e aparecer, concentre-se em aparecer.

Ingredientes necessários para aparecer com sucesso: risadas; pernas nuas; timidez.

O objetivo é ser ao mesmo tempo irresistível e invisível.

Quando você consegue, os olhos dele perdem certa nitidez.

2. Alguns homens poderosos realmente chamam suas gatinhas de “gata”.

Apesar da fama que têm, gatinhas compartilham um profundo sentimento de camaradagem.

Se o seu Macho Designado é altamente temido, as gatinhas da festa em que você se infiltrou para conhecê-lo serão especialmente gentis.

Gentileza é uma coisa boa, mesmo que seja baseada numa falsa noção a respeito de sua identidade e propósito.

3. Posar de gatinha significa não ler o que você gostaria de ler numa praia de seixos no sul da França.

Tomar sol com a pele nua pode ser tão nutritivo quanto comida.

Mesmo um homem poderoso pode ficar um pouco envergonhado quando tira a roupa e fica de sunga pela primeira vez.

É tecnicamente impossível para um homem ficar melhor de sunga do que de calção de banho.

Se você ama alguém de pele escura, a pele clara parece desprovida de vitalidade.

4. Quando você sabe que alguém é violento e cruel, enxergará uma violência cruel nos gestos mais básicos dessa pessoa, como sua braçada.

Seu Macho Designado perguntar “o que você está fazendo?” em meio a ondas revoltas após segui-la mar adentro pode ou não indicar suspeita.

Você responder “nadando” pode ou não ser interpretado como sarcasmo.

“Vamos nadar juntos até aquelas pedras?” pode ou não ser uma pergunta.

“Tudo isso?” pode, se perguntado no tom correto, soar ingênuo.

“Lá a gente vai ter privacidade” pode soar inesperadamente sinistro.

5. Trinta metros de Mediterrâneo azul-escuro proporcionam tempo suficiente para uma lição mental.

Em momentos assim, pode ser útil relembrar explicitamente seu treinamento:

“Vocês vão se infiltrar na vida de criminosos.

“Vocês vão estar em perigo constante.

“Algumas de vocês não vão sobreviver, mas as que sobreviverem se tornarão heroínas.

“Algumas de vocês irão salvar vidas e até mesmo mudar o curso da história.

“Exigimos de vocês uma combinação impossível de características: escrúpulos de aço e o desejo de violá-los;

“Amor incondicional pelo seu país e uma vontade de se associar a indivíduos que estão trabalhando ativamente para destruí-lo;

“Instintos e intuição de especialistas e a mente limpa e o frescor próprios de principiantes.

“Todas vocês vão executar este serviço apenas uma vez, depois da qual retornarão a suas vidas.

“Não podemos prometer que suas vidas estarão exatamente iguais quando vocês voltarem para elas.”

6. Entusiasmo e flexibilidade podem se manifestar mesmo na forma como você se ergue do mar e sobe em rochas calcárias amarelas.

“Você nada muito rápido”, proferido por um homem que ainda está debaixo d’água, pode não ser um elogio.

Rir às vezes é melhor do que responder.

“Você é uma garota adorável” pode ter um sentido muito direto.

Ou seja: “Eu quero comer você agora.”

“E então? O que acha?” sugere uma preferência por respostas diretas a risadas.

“Ok” deve ser pronunciado com bastante ênfase para compensar a palidez denunciadora.

“Você não parece muito convencida disso” indica ênfase insuficiente.

“Não sei” só é aceitável quando seguido, timidamente, de um “Você vai ter que me convencer”.

Jogar a cabeça para trás e fechar os olhos lhe permite parecer pronta para o sexo ao mesmo tempo em que esconde a repulsa.

7. Estar sozinha com um homem violento e cruel, cercada de água, pode fazer a praia parecer muito distante.

Talvez, nesse instante, você sinta solidariedade pelas gatinhas visíveis lá longe, em seus biquínis coloridos.

Talvez entenda, nesse instante, por que não está sendo paga para este trabalho.

O serviço voluntário é a mais alta forma de patriotismo.

Lembre-se de que você não está sendo paga quando ele sair da água e se mover em sua direção.

Lembre-se de que você não está sendo paga quando ele levar você para trás de uma pedra e colocá-la em seu colo.

A Técnica da Dissociação é como um paraquedas: você precisa puxar a corda na hora certa.

Se puxar rápido demais, você pode dificultar sua habilidade de agir em momentos cruciais;

Se demorar muito, você vai mergulhar fundo demais na ação para conseguir se libertar.

Você vai se sentir tentada a puxar a corda quando ele a envolver com braços cuja força musculosa lembra, vagamente, os do seu marido.

Você vai se sentir tentada quando o sentir se mexendo contra o seu corpo embaixo de você.

Você vai se sentir tentada quando o cheiro dele a envolver: metálico feito uma mão quente segurando moedas de um centavo.

A ordem “relaxe” sugere que seu desconforto é palpável.

“Ninguém pode nos ver” sugere que seu desconforto foi interpretado como medo de se expor em público.

“Relaxe, relaxe”, proferido em tons rítmicos e roucos, sugere que seu desconforto está sendo mal recebido.

8. Inicie a Técnica da Dissociação apenas quando a violação física for iminente.

Feche os olhos e inicie uma contagem regressiva a partir do número dez.

A cada número, imagine que você está saindo de seu corpo e movendo-se lentamente para longe dele.

No oito, você deve estar pairando logo acima de sua pele.

No cinco, você deve estar flutuando a mais ou menos meio metro do corpo, sentindo só uma vaga ansiedade sobre o que vai acontecer a ele.

No três, você deve estar se sentindo inteiramente desconectada de seu eu físico.

No dois, seu corpo deve ser capaz de agir e reagir sem a sua participação.

No um, sua mente deve estar tão livre que você não toma conhecimento do que acontece lá embaixo.

Nuvens brancas girando e se enroscando.

Um céu azul tão profundo quanto o mar.

O som de ondas batendo contra as pedras já existia milênios antes das criaturas que podem ouvi-lo.

Feridas e arranhões em pedra narram uma violência da qual a própria terra há muito tempo se esqueceu.

Sua mente vai se juntar ao seu corpo quando for seguro.

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amigas para sempre

por   /  16/01/2013  /  1:50

Mais um texto lindo, lindo da Renata, que faz o Tantos Clichês! ♥

Eu acho bonitinho ver um casal de velhinhos de mãos dadas. OK, até acho.

Mas tem uma coisa que eu acho mais bonitinha ainda: um grupinho de senhorinhas amigas.

Um amizade que durou tanto tempo porque nunca deixou de existir. Não tá ali só por costume, não tá ali por medo de não achar coisa melhor, não tá ali pra não ter que dividir o patrimônio, não tá ali enquanto os filhos não crescem, não tá ali porque é feio ficar sozinha.

Tá ali porque existe.

Elas chegam no restaurante, sentam e dão opinião uma no pedido da outra. Todas de cabelo curto e penteado, porque são daquele tempo em que ainda se penteava o cabelo pra sair de casa. Quando chegar a minha vez de ser parte de um grupo de senhorinhas amigas, vou estar de cabelo despenteado, como estive a vida toda, imagino. Casaquinho no ombro, relógio pequeno de pulseira fina. Anel em um dedo de cada mão e só. Umas de cabelo branco, outras quase loiras.

Tomam chopp, tomam vinho, uma delas não pode beber por causa do remédio de pressão. Mas só um copinho não faz mal.

Há quantas décadas elas são amigas? E ainda se arrumam pra ver uma a outra, fazer um programa só delas.

Porque quiseram, com uma escolha atrás da outra. Como eu acho que todo amor deve ser.

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A foto é daqui.
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