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Posts da categoria "fotografia"

palavras e cacarejos

por   /  06/09/2012  /  0:26

Michel Laub escreve no blog da Companhia das Letras cobre como a internet melhorou a média dos textos.

Para quem cresceu na cultura televisiva dos anos 80, é visível que a internet melhorou a média dos textos. A simples prática de redigir com frequência tornou mais eficiente a comunicação. Compare as manifestações de sua timeline com uma dessas cartas de sindicato ou avisos de condomínio que chegam pelo correio, como um museu em papel de termos e formas que não existem mais: ninguém abaixo de certa idade, com o mínimo acesso à informação e que não trabalhe no STF escreve daquele jeito. Para a elite letrada, a afetação bacharelesca morreu com o modernismo do século 20. Entre um público mais amplo, com a interação virtual do 21.

Aproveitando facilidades como os corretores automáticos, a mudança também acabou com o conceito de texto bom ou ruim baseado apenas em ortografia e gramática. Ou seja, aquilo que no passado se chamava “saber escrever”. Num paralelo com a ficção, o hábito das mensagens por email, dos posts e das conversas digitais cumpre o papel dos antigos primeiros anos de um escritor, durante os quais ele saía de um nível rudimentar de prosa — despindo-se das travas e do exibicionismo típicos dessa fase — para um grau mínimo de clareza na hora de dizer o que gostaria. Mas esse é só um passo inicial. Levar a tarefa adiante com particularidade, graça e inteligência, ou com o oposto consciente disso, é outra história.

Num texto de 2010, arrisquei previsões sobre como a internet mudaria (ou não) a ficção. As coisas andam rápido, e foi o tempo de relativizar alguns dos meus próprios argumentos. Não o principal deles: a necessidade de uma linguagem autônoma, que se diferencie da torrente de vozes nas redes sociais, o cacarejo teimoso e exaustivo que torna tudo uniforme e irrelevante — expressões raras que viram clichês em dois dias, a originalidade que nasce morta pela replicação imediata e sem crédito, o infinito de opiniões que se anulam umas às outras por excesso, o barateamento de atributos como a ironia (cada vez mais sinalizada e óbvia) e o cinismo (em geral ignorante e falso).

Leiam o texto completo > http://www.blogdacompanhia.com.br/2012/08/palavras-e-cacarejos/

terminando com a moda

por   /  04/09/2012  /  8:18

Terminando com a moda é um ótimo texto de Jana Rosa, publicado no Petiscos.

Leiam > http://juliapetit.com.br/colunas/jana-rosa/terminando-com-a-moda/

• A gente precisa conversar, já faz um tempo que eu tô adiando esse papo…
• Mas precisava ser nesse lugar tosco?
• Não fala assim desse bar, você sabe que é meu preferido, e só não gosta porque ele nunca tem clientes modernos e não sai nas revistas…
• Não gosto porque tá sempre cheio de pessoas feias e mal vestidas. Bom, vamos ao que interessa que tenho uma reunião às 18h, porque você me chamou aqui?
• Acho que você já sabe mais ou menos… é que… sei lá, eu mudei, tô muito diferente, não tá mais rolando pra mim.
• Eu sei, percebi que você ta ridícula usando mochila e sapatinho boneca de bico quadrado…
• Não seja cruel, por favor, já é muito difícil isso tudo. Não quero brigar com você, só acho que nós seguimos caminhos diferentes, não temos mais muito a ver. Acho melhor a gente dar um tempo.
• Não existe tempo, você sabe. Quer terminar comigo, termina logo.
• Não é isso. Não é terminar. É que acho que acabou o amor, você entende? Sei lá, peguei um pouco de bode, não me sinto mais a mesma de antes, acho que a gente não tem mais nada a ver.
• Isso é fase, você sempre fala isso e depois volta.
• Não, não é fase. Digo, não quero cortar relações com você, você foi tão boa pra mim. E como eu te amei, nossa, não tenho palavras pra verbalizar o quanto. Mas aquele amor já era, eu acho que preciso conhecer outras pessoas, não me sinto bem ao seu lado faz algum tempo.
• E vai fazer o que da vida sem mim? Vai voltar pro interior? Vai usar bolsa combinando com o sapato? Vai ser uma ninguém na semana de desfiles? Esquecida por todos, nunca mais vai ganhar um lançamento de esmalte?
• Talvez…
• Você é ridícula, nunca vai deixar de me amar. Isso é birrinha porque não te dei nada da Miu Miu.
• Não é.
• Ninguém termina comigo, sou eu que me canso das pessoas, começo a achá-las cafonas, datadas, gordas, desinteressantes. Sou eu quem descarto gente que me ama o tempo todo, tendências que eu mesma crio, roupas feias que digo que são bonitas por aí, as vezes em seis meses, as vezes em alguns anos. Me enjôo mesmo, não to nem ai, você é abusada demais de achar que vai me dar o pé.
• Não é o pé, é algo muito cordial, vamos ficar longe por um tempo, não tá mais rolando. É justamente isso que não gosto mais em você, como você trata tudo como um copo plástico. Eu não quero fazer parte disso, acho que sou apegada. É… sou apegada sim, eu ainda gosto de vestido de manga comprida de paetê!
• Que horror!!!
• E eu só sei andar em dois sapatos de salto, não quero mais mentir pras pessoas que não sinto dor no pé.
• Nossa, que loser!
• Pra falar a verdade, também nem tenho dinheiro pra arcar com suas extravagâncias, nunca comprei nada caro, tudo que eu tenho mais chique eu ganhei de presente, e… nem sei como dizer isso… mas pago aluguel e só consegui viajar pra fora porque parcelei a passagem em dez vezes e vou fazer uma parada no Canadá.
• Meu Deus, você é uma farsa!
• Farsa não, eu só não sou o que você esperava que eu fosse. Eu tentei, mas era tudo roupa emprestada, aquele smoking branco que usei naquele jantar, sabe, tive que devolver. E antes que você ouça da boca de outra pessoa, preciso te contar, odeio Paris.
• Não! Isso já não posso aceitar!
• E nunca fiz babyliss no salão.
• E arruma o cabelo como?
• Saio com ele molhado na rua…
• Meu Deus!
• Mas tem uma coisa que você precisa saber… odeio renda, acho que você passou dos limites! Ninguém aguenta mais, as pessoas riem de você pelas costas porque você não para com essa mania.
• O que? É só o que me faltava! Já chega! Você é péssima! Sou eu quem quer terminar com você agora, nunca mais apareça na minha frente. E se ousar, te coloco no standing pra ver desfile em pé. Se me encontrar na rua, atravesse sem me cumprimentar. Adeus!
• Não, calmaí! Não vai embora assim! E tudo que vivemos? Ei, não podemos ser amigas? Ei! Volta aqui!

Ai meu Deus… que imatura…

(Obrigada por compartilhar, Luiza Voll!)

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atrás da porta, por mawá

por   /  20/08/2012  /  10:13

Atrás da porta, por Marina Wajnsztejn, para a Confeitaria Mag

O amor anda comedido. Parece uma coisa que todo mundo procura, em algum lugar do armário, mas tem vergonha de vestir no dia a dia. O amor parece algo que só os seus avós viveram e que talvez não tenha espaço para os dias de hoje. Os dias mais corridos e esbaforidos que a humanidade já viveu.

Mas será mesmo que é o dia a dia que não permite o amor?

Nessa tal geração de possibilidades perde-se a perspectiva do erro. Qualquer busca parece alcançável, uma espécie de “síndrome do Google”. Estamos cercados de acertos e de vontades substituídas. Não deu pra fazer o plano A? Plano B é melhor. E se plano B não
funcionar, plano C está aí. E vamos pulando de galho em galho sem passar pelo processo do sofrer. Sentir a dor virou coisa do passado. Aquele mesmo passado dos seus avós.

Quantas vezes você realmente errou nos últimos anos? Quais foram esses erros? Ao menos foram úteis? Muita gente guarda o erro no armário, ao lado do amor. E essa dupla dinâmica fica lá, sobrevivendo, nos encarando dia a dia enquanto nos vestimos. Aí fechamos a porta do armário, saímos de casa e só resta ao amor e ao erro curtir o clima de naftalina. Isso sim
é injustiça.

Da próxima vez que for se vestir, dê uma chance aos que estão atrás da porta. Pegue um punhadinho do amor e coloque no bolso direito. Depois pegue um punhadinho do erro e coloque no bolso esquerdo. Você vai ver que, durante o dia, como quem não quer nada, vai acabar colocando a mão no bolso.

Se a gente já fica feliz quando encontra dinheiro num bolso perdido, imagine encontrar o amor.

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A foto é do Big Happy Funhouse

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A Confeitaria Mag é uma revista independente sobre literatura, comportamento, artes e cultura, feita pelas queridas Fabiane Secches e Flávia Stefani Resende e formada por um coletivo de autores de lugares, formações e interesses diversos, mas com um denominador em comum: o amor pela comunicação, especialmente a escrita.

Vamos acompanhar? > http://confeitariamag.com/

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horrível letra de mão

por   /  02/08/2012  /  8:15

Horrível letra de mão, por Ana Guadalupe

quanto mais feia for a sua letra de mão
mais comoção devo sentir

em especial com as menores e mais redondas
deitadas como pedestre atropelado e deixado nas linhas
conhecidas como ‘letra do atrasado na escola’
ou ‘caligrafia de quem já nasceu com as teclas’
alguém que talvez precise usar régua pra alinhar as coisas
que talvez precise de ajuda e recuperação
que talvez precise de mim
talvez precise de mim

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A foto é de Traysaun Cooley-Dennis

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aceite tudo que a vida te der

por   /  06/07/2012  /  11:16

A Letícia Novaes, do Letuce, leu a biografia de Frida Kahlo e separou um trecho de uma carta de 1939 que Diego Rivera mandou pra ela. Achei tão lindo que roubei pra colocar aqui  ♥

3 de dezembro

Mi niñita chiquitita:

(…)
Estou feliz com a comissão do seu retrato pro Museu de Arte Moderna: será magnífico, você entrando lá pra sua primeira exposição. Será a culminação do seu sucesso em Nova York. Cuspa em suas mãozinhas e crie algo que vai superar tudo que estiver por perto e fazer da Fridita o Grande Dragão [la mera dientona] (…)
Não seja boba; não quero que por minha causa você perca a oportunidade de ir para Paris. ACEITE TUDO QUE A VIDA TE DER, O QUE QUER QUE SEJA, DESDE QUE SEJA INTERESSANTE E TE DÊ ALGUM PRAZER. Quando a pessoa fica velha, ela sabe o que é ter perdido o que lhe foi oferecido quando ela ainda não sabia o suficiente pra aceitar. Se você realmente quer me agradar, saiba que nada pode me dar prazer maior do que saber que você tem as coisas. E você, minha chiquita, merece tudo. 
(…) Não os culpo por gostarem de Frida, porque eu também gosto dela, mais do que qualquer outra coisa. (…)

Tu principal sapo-rana, Diego.

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esquecimento

por   /  21/06/2012  /  11:45

Esquecimento, por Noemi Jaffe _do Quando Nada Está Acontecendo

quanto mais vivo, escrevo, leio e pesquiso, mais tenho a sensação de que aquilo que se esquece é mais importante, para o indivíduo e para a coletividade, do que aquilo que se lembra. quando o que se esqueceu ressurge, por esforço mnemônico, por documentos buscados ou casualmente surgidos, por atos falhos ou por acaso simplesmente, revela-se mais sobre o presente do que tudo aquilo que dizemos, ou que nos esforçamos por lembrar.a psicanálise já tinha dito isso e explica o fenômeno com termos como recalque e repressão. mas, para além (ou aquém) disso, no plano linguístico e existencial, sinto (mais do que penso) que a memória é um depositário de esquecimentos, mais do que de lembranças. e que é no que se esquece que estão os cadinhos estalactíticos da poesia.

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A foto é de Lina Scheynius

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