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Múltipla (x) escolha

por   /  05/12/2013  /  8:08

Múltipla (x) escolha, por Patrícia Chmielewski

Hoje estou (feliz /triste /amargo /puto /histérica /em frangalhos). Voltei de uma viagem (astral /ancestral /cósmica /à padaria /longa /turva) e me dei conta (de novo /pela primeira vez /finalmente /até que enfim) de que (estou vivo /estou morta /quero mais /quero tudo /quero agora /desisti /não sei de nada /nem sei mais /mudei /caguei).

Estou (cansado /cheia /de boa) de (escrever /contar /viver /simular /inventar) histórias de (amor /terror /romance /derrotas /batalhas /sapos /morceguinhos) que não (refletem /significam /mostram /entregam /assumem) nada (a meu respeito /a seu despeito /de verdade /definitivamente /que preste).

Comprei um (relógio de pulso /uma ampulheta /um abajur /um cachorro /um diamante) e passei a cronometrar (meu amor /seu cheiro /minha ausência /um vôo/aquela foda /um soluço/ nossas histórias /aqueles rascunhos) em segundos a menos de (vida /sucesso /permanência /excesso /groselha /gatinhos).

Pelo visto as novas ordens (mundiais/globais/alfabéticas), essa nova lei (tura/ toa /seca /da gravidade /contra o aborto /dos limites de velocidade /da ficha limpa /áurea / gramatical /contra senso /contra tudo) estão nos deixando cada vez mais (/ena /moles /bundões /frígidos /irresponsáveis /pelados /expostos /bandidos /cotocos) e menos dispostos a (enxergar /escolher /experimentar /permitir /causar / pirar /tentar) um caminho (/novo /especial /legítimo /simples /real /bunda-mole /bandido /transtêmico /na contra-mão).

Eu te (/avisei /quis /perguntei /adverti /fodi) sobre as consequências da nossa vida assim tão (/vazia /nua /fútil /intensa /rasa /cusona /covarde /sem jeito /tímida /fragilzinha /boêmia /pequena /intraordinária) e os efeitos (especiais /estufa/ colaterais/ críticos /cínicos /císmicos /mímicos /cardíacos) à longo prazo para aquilo que nos propusemos (ser /ter /meter /fingir /aceitar /contradizer /comprovar /herdar /deixar).

Não me entenda mal, (meu bem /meu amor /mestre /filhinha /babaca /caro amigo /seu merda /xuxu /catatau /meu senhor /merentíssimo /meu D-us).

A questão não é de verdade a visita (breve /mágica /trágica /definitiva /polêmica /iogurte) que nos pegou na curva. Isso foi só (o estopim /a gota d’agua/ o princípio do fim /a catarse /a ponta do iceberg /o fim de tudo /o que me mostrou) e apesar de parecer um discurso (vago /tolo /clichê /panfletário/ hippie /vazio /evasivo /moral /artificial) eu queria muito que você (compreendesse /aceitasse /entendesse /se suicidasse /dançasse lambada /escrevesse um livro /tocasse oboé /sofresse de asma /ganhasse na mega-sena /soprasse um dente de leão / assobiasse a música do caminhão de gás carbonico da camada de ozônio).

Porque não (hay teatro/hay banda /ai ai ai, assim você mata o papai). Infelizmente vou ficar devendo(uma explicação /uma desculpa /o aluguel /aquela grana /um presente /a conta de gás /uma cineminha /dançar coladinho /a última prestação /um beijo na sua boca do estômago). Vou ficar mesmo em débito com (/a história /o texto /a poesia /uma promessa /um continho /uma linda obra /o título perfeito).

Porque a (/virada final /uma voz literária /um caminho a seguir /o próximo ônibus pra lugar nenhum /o resto de nossas vidas /a passagem do tempo /uma epifania /a insustentável leveza do ser /a verdade dentro de mim pra você, você e todos você) deixou de ser (/objetivo /prêmio /foco /busca /conquista /desejo /angústia /queimação /crise de pânico /trânsito /transtorno /transgênero /café amargo e frio no fim do dia na padaria da esquina do meu coração, mosquinhas voando ao redor).

É claro que sim, que ofereco, não nego (/uma pousada /uma cama quente /uma rapidinha /um copo d’agua /sexo barato /um selinho de brother /tapinha nas costas /aquela corrigida /um olhar amigo /uma certa cumplicidade /todo amor que houver nessa vida /meus livros /meus discos /moedas /borboletas /minha coleção de postais e mamonas). Mas não pense que será (/original /novo /incrível /especial /da melhor qualidade /inédito /nunca antes visto /putaquepariuquedemais /na pré-estréia /setor vip /passaporte da alegria).

Será apenas mais um (texto /poema /vicio /teco /chupão /gole /cardume /momento /coisinho /tema /tag /sucesso /chavão /moranguinho do nordeste) pra gente esquecer daqui (pra frente /a pouco /a muito /em breve /em seguida /em diante /pro resto do fim de nossas curtas poucas pequeninas vidas).

Só não se (/mente /culpe) Não se (/mântica /quântica) Não, não se (preocupe /avexe /entusiasme /envergonhe) Não amor, não se (/excite /maltrate /antecipe /chateie /incomode /ausente /incomodess).

Porque tudo pode ser. Todos os milhões de combinações de (palavras /histórias /saídas) podem ser.
Mas pra mim em todas elas, em cada uma delas, tem sempre (x) você (x) você (x) você.

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A foto é de Patrícia e Priscila Furtado.

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Música é o remédio

por   /  03/12/2013  /  14:14

“Quando os tempos estão particularmente difíceis, e você está prestes a cair no desespero, algumas das grandes músicas pop podem fornecer conforto verdadeiro para fazê-lo passar pela dor”, diz a descrição do livro “Don’t Eat the Yellow Snow”, de Marcus Kraft.

Simples e tão legal! ♥

Mais em > http://www.marcuskraft.net/portfolio/2012_dont_eat_the_yellow_snow_01.html

 

 

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Saudade da mão

por   /  02/12/2013  /  8:08

Saudade da mão, por Keli Freitas – no Ornitorrinco

Penso na frase ostentada como uma maravilhosa qualidade na embalagem de maçãs da Turma da Mônica: SELECIONADO E EMBALADO SEM CONTATO MANUAL. Saudade da mão. Penso que o primeiro Panetone que vi no mercado esse ano deve ter sido em Outubro ainda. Setembro, saudade. Penso nos preços do Hortifruti que agora ficam numas plaquinhas digitais assustadoras e não mais em papeizinhos comuns situados na base das prateleiras. Saudade dos papeizinhos comuns na base. Penso na última vez que terei comido uma maçã com realmente gosto de maçã. Tento pensar na última vez em que tenha visto uma maçã feia na vida. Saudade das maçãs feias. Penso nos 5 segundos que o Youtube me rouba várias vezes por dia até que eu possa PULAR O ANÚNCIO da Gisele Bündchen vestida de noiva em 300 poses diferentes, da Gisele Bündchen me aconselhando a usar Oral–B 3D White, da Gisele Bündchen sendo mais feliz que qualquer um de nós em todo tipo de ocasião e cenário e penso em todas as janelinhas VOE COPA AIRLINES que me perseguem em todo lugar porque uma vez pesquisei um preço de passagem na CopaAirlines. Saudade de não ser perseguida por ter procurado uma vez a CopaAirlines. Penso que lindo seria um boicote nacional a todos os produtos que nos roubam 5 segundos até nos concederem a graça de poder PULAR O ANÚNCIO quando na verdade eles sabem que o que queremos ver é outra coisa. Saudade de ver outra coisa. Saudade dos meus 5 segundos. Penso em quantas casas no campo poderíamos comprar por ano só com os centavos de troco que o taxista resolve não dar. Saudade de dar na cara de um taxista. Penso que eu gostaria que o primeiro da lista do boicote nacional imaginário fosse o macarrão Barilla, segundo o qual, com ele, todo dia é domingo. Saudade do macarrão Renata. Penso em quando o telefone da minha casa era 457-1153. Penso em como foi esquisito quando entrou um 2 na frente do 457-1153. Penso no novo 9 que entrou no número dos nossos celulares e penso que eu não consigo falar meu número com o novo 9 porque o novo 9 não cabe na musiquinha habitual de uma pessoa humana falar o seu número de celular, e eu ainda sou uma pessoa humana, e ainda não me acostumei com o novo 9 nem fui capaz de criar uma nova musiquinha que inclua mais um 9 em seu enredo. Penso que logo logo já vou ter uma nova musiquinha acostumada com o novo 9 e vou falar meu número com o novo 9 como se ele sempre estivesse estado ali. Penso no dia em que nossos celulares terão 12 dígitos. Penso, quando isso acontecer, se vou continuar sabendo meu próprio telefone de cor. Penso em quantos telefones de amigos eu ainda sei de cor. Penso em mim num futuro não tão distante, acordando cedo e abrindo o jornal e lendo o obituário da última pessoa viva a saber de cor o telefone de todos os seus amigos, assim como um dia li o obituário da última sobrevivente do Titanic, que, a propósito, viveu seus últimos anos sustentada por Kate Winslet e do Leonardo DiCaprio. Saudade da Kate Winslet. Saudade de ser um violino no Titanic. Penso no termo de responsabilidade que minha amiga grávida teve que assinar para entrar num avião, se comprometendo a pagar alimentação e hospedagem aos outros 247 passageiros do vôo caso a gravidez prejudicasse de alguma maneira a pontualidade da Cia Aérea. Saudade de poder ficar grávida sem ter que alimentar e hospedar outras 247 pessoas também. Penso no novo aplicativo engraçadinho que constrói frases que você diria caso você dissesse. ”What would I say?” Saudade de say the things that I would. Penso no novo aplicativo da linha Fuck-finder que me foi demonstrado ontem: quando você Like a pessoa e a pessoa Like você, dá MATCH. Saudade de quando Like dá mete. Penso no profundo mau gosto das máscaras de Amarildo (!) (?) distribuídas no show de Caetano Veloso e Marisa Monte quarta passada no Circo Voador. Saudade daquilo que é feito com tempo. Penso na nossa gradual perda de sensibilidade na vida. Penso em quantas coisas com as quais lidamos todos os dias ainda podem ser tocadas com a mão. Saudade das coisas que tocávamos com a mão. Saudade da mão.

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A foto é do Cassoday Harder.

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os ombros suportam o mundo

por   /  15/10/2013  /  21:53

Carlos Drummond de Andrade em Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

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A foto é do Ren-Hang.

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a fila anda?

por   /  01/10/2013  /  16:10

Fila, por Noemi Jaffe

se tem uma frase horrível, é essa “a fila anda”, como quando alguém critica uma pessoa lenta, um namoro que não atinge o índice esperado de produtividade, coisas assim. a fila não anda, não. e nem deve andar. ela pára, ela empaca, ela nem existe. não tem fila nos relacionamentos, no trabalho, nos encontros. só tem no banco, no cinema, no sus e ela é ruim.

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A foto é da Mafalda Silva.

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às vezes

por   /  23/09/2013  /  8:08

Às vezes, por Renata, do Tantos Clichês

Uma vez um namorado resolveu terminar comigo no meio da madrugada. Os dois prontos pra dormir. Eu tava pronta pra dormir, com certeza. Pronta pra levar um pé na bunda eu garanto que não estava.

Daí ele terminou comigo no meio da madrugada. E chorouchorouchorou. E eu choreichoreichorei.

Eu quis ser legal. Abracei, falei “que isso, garotão. a gente pode ser amigo. imagina, a gente já viveu tanta coisa. vai ficar tudo bem, eu não tô zangada.”

Depois de duas horas que passei consolando a pessoa que chorava de soluçar, eu também chorando, ele disse “deixa pra lá, eu estava errado. te amo, não quero terminar. vamos dormir.”

Terminamos dois anos depois, por e-mail.

Faz tanto tempo, já contei essa história tantas vezes que já não sei mais qual é a história. Às vezes a gente só entende o presente quando ele já é passado. Às vezes a gente nunca entende porque a história muda sem que a gente perceba.

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A foto é da Jessica Levin.

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