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Andando na fé de Clarice Freire

por   /  15/02/2016  /  11:11

@claricefreire

Estudei a vida inteira em um colégio católico, coisa que nunca entendi. Meu irmão estudava em uma escola meio intelectual, meio de esquerda, e eu naquela outra que começou sendo exclusiva para boas moças. Fiz primeira comunhão, crisma, até vi Jesus quando voltava de uma atividade no sítio, aquela parte tão distante da sala de aula. Foi uma alucinação coletiva das crianças da segunda série, tamanha era a repetição das palavras da Bíblia no dia a dia. Adolescente, entendi que a religião católica não era a minha. Preferia ouvir outro Deus, outros deuses. Neil Young, Lou Reed, aquelas músicas que diziam mais de mim do que qualquer parte do evangelho.

Corta para muitos anos depois, mais precisamente para março de 2015, e estou em um restaurante delicioso na praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, conhecendo in real life Clarice Freire, a escritora que virou fenômeno com seu Pó de Lua, uma série meio poema, meio desenho que arrebata mais de 1,2 milhão de fãs apenas no Facebook, sem contar os 200 mil no Instagram, e que também conquistou o mercado editorial com seu livro de estreia – vendendo mais de 70 mil cópias.

Clarice estudou naquela mesma escola, e pela primeira vez após a alucinação coletiva eu vi alguém com um background parecido com o meu falar tão apaixonada e verdadeiramente sobre a religião católica. Não que a conversa tenha começado por aí, mas sabe aqueles encontros que duram horas e que transcendem, te mostrando alguém encantador? Foi assim. Vou contar pra vocês.

Bienal do Rio

Clarice nasceu em Recife, tem 27 anos e vem de uma família de artistas. O pai sempre escreveu. A mãe pintava com aquarela. A irmã, Sofia, é cantora e compositora – aliás, ela e Clarice já apareceram antes por aqui, cantando em homenagem aos 25 anos de casamento dos pais. O tio, Marcelino Freire, é escritor, professor, descobridor de talentos literários. “Desde cedo eu era levada para peças de teatro, sarau de poesia. Eu pensava que nunca iria escrever. Me comparava e pensava: não tem como.” Mesmo assim, a herança falou mais forte, e, adolescente, ela começou a escrever, bastante influenciada pelo pai e pelo tio. Os rascunhos ficavam em cadernos escondidos em seu quarto.

Começou a estudar publicidade. Em 2010, aos 21 anos, foi morar em Segóvia, na Espanha, e ali, andando pela cidade, vivendo experiências diferentes, viu que a criatividade fluía mais solta. Quando voltou para Recife, conseguiu um estágio em uma agência. “Passava o dia vendendo sabonete, carro. Entre um job e outro, tinha que esvaziar a cabeça. E isso saía em forma de poesia”, lembra. Ao fim do dia, ela amassava aqueles papéis e os jogava no lixo. Um dia, quando chegou no trabalho, Elisa, sua dupla de criação, havia colocado os papéis em cima da mesa, como se fosse um livro, indagando como ela podia jogar aquilo fora. Foi a amiga quem criou um blog para Clarice, que era zero da internet na época. “Eu não queria, foi uma confusão. Ela acabou me convencendo quando disse que era para eu não perder mais as ideias.”

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

Com os pais, Wilson Freire e Lúcia Souza. Foto: Américo Nunes

O nome surgiu com a lembrança de um professor que havia perguntado se ela sabia porque a Lua era tão bonita. “Ele me disse: ‘Porque mesmo ela sendo só pó, como eu e você, ela consegue refletir a luz de outro, maior que ela. Por isso as nossas noites não são escuras.’ Aquilo me marcou tanto, eu quis ser como a Lua,  até pela noção que tenho de Deus, da vida, das coisas. Foi tão forte que falei: Pó de Lua.” Com o tempo, ela passou a escrever muito no blog, aquilo virou a parte boa do dia, quando ela podia escrever sobre o que importava de verdade. Durante o dia ela continuava escrevendo, jogando os papéis fora, e os colegas iam juntando tudo. Uma outra amiga a presenteou com um Moleskine, e foi aí que ela passou a escrever e desenhar sem jogar o resultado fora.

Em 2011, o blog começou a fazer sucesso espontaneamente, sem nenhuma estratégia. A cada dia, ela se  impressionava com as respostas dos leitores. Quando ganhou um celular que tirava foto, pensou que finalmente conseguiria mostrar como era seu processo. Criou uma fanpage. “O compartilhamento era muito mais rápido por ali, me impressionava. Mas aquilo era o paralelo, eu mantinha meu trabalho.” Quando se formou, passou dois meses em Buenos Aires fazendo um curso de criatividade. Voltou, e o projeto mudou, cresceu. “Comecei a ter menos medo de brincar, ousar, inventar coisas. A gente não tem que ter medo de criar o que quiser, e eu brincava de dar mil significados para as palavras.” Foi quando fez a poesia do palito de fósforo.

fosforo

“Só o fósforo teve 14.000 compartilhamentos. Pensei: o que aconteceu? Por que as pessoas estão assim por causa de um palito de fósforo?”. Ela acabou lembrando de outro motivo para o nome do blog: o filme “Casa de Areia”, em que as personagens de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres moram em dunas e passam a vida imaginando o que tem na Lua. Um dia, a mais nova chega com a notícia de que o homem pisou pela primeira vez na Lua, ao que a outra pergunta o que tinha lá, e ela responde: areia. “A gente fica procurando o extraordinário na Lua, enquanto ele está no ordinário ao nosso redor. Mas a gente não tem olhos para ver porque está olhando pra Lua. Isso foi uma chave sobre o que eu queria escrever.”

“Eu vi que as pessoas estavam procurando dar sentido às coisas, ver poesia na vida, nas coisas insignificantes. Daí surgiu o conceito: Pó de Lua para diminuir a gravidade das coisas. Percebi que eu queria falar com delicadeza da vida. Por mais que eu falasse de temas duros, como pobreza, dor, solidão, angústia, sempre tinham outros mais lúdicos, como saudade, e outros mais bonitos, como amor. Sempre usando delicadeza. E eu via que isso chegava no coração das pessoas. Eu falo muito do coração. Acho que é por isso que tenho um diálogo tão sincero.” Hoje mais de 1,2 milhão de seguidores acompanham sua poesia pelo Facebook. E claro que esse alcance já rendeu muita história, de gente que se transformou ao ler seus escritores, que fez fã clube, viajou longas distâncias só para pegar um autógrafo e dar um abraço.

A convite da editora Intrínseca, o Pó de Lua virou livro, em 2014. “A minha literatura é a junção de várias coisas. Ela é desenho, caligrafia, ilustração. Tem poesia, tem prosa”, define. Ela sabe que o que faz é diferente – e se existem milhões de seguidores, sempre aparecem alguns detratores. “Muita gente tem preconceito, diz que é literatura de Facebook.” Ela contesta: “É literatura, e ela usa da plataforma que quiser para existir. O mundo está em transformação, por que a literatura não?” Para fazer o livro, Clarice escolheu metade das poesias que as pessoas queriam ter nas mãos (aquelas que mais faziam sucesso no Facebook) e fez a outra metade inédita. Viajou pelo Brasil inteiro para divulgar o livro, ouviu centenas de histórias emocionantes, conheceu leitores que a acompanhavam desde o comecinho no blog. “Foi surreal, acho que nunca vou esquecer na minha vida.”

Comunidade dos Viventes 3

Com Gabriel Marquim, da Comunidade dos Viventes

Hoje Clarice é escritora em tempo integral. Quando conversamos, ela preparava o segundo volume do livro do Pó de Lua, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano. Ela também se dedica à Comunidade dos Viventes e ao Projeto Vincular, em Recife. Há oito anos, o amigo Gabriel Marquim chegou para Clarice perguntando qual era o sonho dela. “Falei que era ser publicitária. Ele respondeu: ‘Isso é um projeto muito bonito, mas qual é teu sonho?’ Tentei procurar alguma coisa mais nobre, falei casar. Ele disse que era outro projeto belíssimo. ‘Que meus filhos sejam pessoas muitos boas?’. Outro projeto lindo, cara, mas qual é seu sonho? Eu percebi que não tinha um. Comecei a questionar: o que é um sonho? Por que sonho é diferente de projeto? Aquilo deu um nó na minha cabeça.”

Nas conversas com o amigo, ele perguntava: pelo que você daria a sua vida, pelo que nossa geração seria capaz de dar a vida? “Ele me apresentou ao evangelho, a um Jesus muito diferente que eu estava acostumada a ver, aquele que coloca a mão no seu coração, que cura seus problemas, faz milagre, corre com você em um campo florido vestido de branco. Eu nunca tive paciência pra isso. Naquele momento conheci um homem revolucionário, que fez uma revolução através do amor. E que falou de eternidade, de um amor que não é sentimento, mas amor-decisão. Aquilo me transpassou. Eu vi que o amor-sentimento é frágil, passa, mas o amor-decisão, que é ‘eu decido viver o amor na minha vida, como força e direção’, faz qualquer criatura se sentir honrada, criando um vínculo profundo com tudo.”

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

Clarice e a irmã, Sofia, no festival Coquetel Molotov

E foi aí que a Clarice se apaixonou – e é aqui que vocês fazem o link com o começo desse texto. “Comecei a ler o evangelho como quem lê um romance, a conhecer a personalidade daquele homem, aquele amor capaz de ir até o fim, até as últimas consequências pelo outro”, diz ela, que não foi criada em uma família católica. “Minha vida virou de ponta de cabeça. Eu tropecei em Deus, acho que ele me queria muito, por algum motivo que ainda estou descobrindo qual é.” Com Gabriel e mais outros amigos, formou a Comunidade dos Viventes, que reúne voluntários para desenvolver atividades educativas, esportivas, culturais e de saúde. Na prática, eles promovem de oficinas de desenho e capoeira a modelos de casas populares, e ainda articulam doações, conseguem bolsas de estudo etc. “Eu aprendi, principalmente no meio artístico, que ter uma espiritualidade, e ainda mais se dizer católica, é o mesmo que dizer que é alienado. E isso é um baita de um preconceito. Eu tenho pena de quem se fecha para essa beleza”, dispara.

Clarice faz questão de ficar de olhos abertos para a beleza, diariamente. Inspira-se em Adriana Falcão, Clarice Lispector, Cecília Meirelles (paixão antiga), Manoel de Barros. gosta de ver filme, ouvir música, escrever, ficar com o namorado, viajar. E aproveita o silêncio das madrugadas para criar. “Tenho um privilégio muito grande. Isso tudo é o que eu amo na vida, e hoje é o que eu faço pra viver. É muito prazeroso, muitas vezes nem me sinto trabalhando.” Sobre o futuro, não se arrisca. “É muito difícil me ver daqui a dez anos, porque em seis meses minha vida mudou tanto! E eu gosto disso, porque gosto de estar aberta ao que a vida pode me apresentar.” Duas certezas ela divide com a gente: “Eu quero continuar escrevendo e publicando e quero estar com bem menos tempo, porque quero estar cuidando de mais gente.” Amém.

TEDx Recife

Leia a carta de Clarice para o Minha Carta de Amorwww.instagram.com/p/0NpMd4MDEp

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#bibliotecadonttouch: Paula Gicovate

por   /  30/10/2015  /  15:00

Paula Gicovate por Jorge Bispo

A convidada da semana na #bibliotecadonttouch é a Paula Gicovate!

Ela nasceu em Campos dos Goytacazes em 1985 e mora no Rio de Janeiro desde 2004. Cursou Letras na Puc-Rio. Publicou dois livros de contos – “Sobre (o) Tudo que Transborda” e “D4” e, em 2014, lançou seu primeiro romance, “Este é Um Livro Sobre Amor” (Editora Guarda-chuva). Criou com três amigos o programa “Só Garotas” para o Multishow. Além de livros e roteiros, também escreve cartas de amor.

A foto é do Jorge Bispo.

Valter Hugo Mãe

“O Paraíso São Os Outros”, de Valter Hugo Mãe.

“Ganhei este livro de presente de aniversário no ano passado. É amor recente, mas este trecho mexe um tanto comigo”, diz ela.

Ana Cristina César

Mocidade independent , poema do livro “A teus pés”, de Ana Cristina César.

“Quem me conhece sabe da minha obsessão por Ana Cristina César, mas este poema é o mais especial. Tinha acabado de me mudar para o Rio, primeira semana da faculdade de letras. Numa tarde resolvi conhecer a biblioteca da PUC, peguei uns livros e entre eles estava ‘A Teus Pés’, da Ana Cristina, que tinha sido aluna de letras lá também. Abri o texto em uma página aleatória. Era esta. Nunca mais eu fui a mesma.”

Junot Diaz

“Junot Diaz é outro amor recente. Primeiro li ‘A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao’, que foi meu livro preferido do ano passado, e este ano eu peguei ‘É Assim que Você a Perde’, um livro de relatos sobre amor, perdas e traições. Este trecho – que está até marcado no meu livro, é tão bonito e tão triste. Como a vida é. Como os amores podem ser.”

Cortazar 2 Cortazar

“Instruções para chorar”, de Julio Cortázar.

Murakami Murkami1

“Kafka à beira-mar”, de Haruki Murakami.

“Transcrevi esta parte e andei com ela durante muito tempo na carteira. De vez em quando abria, lia, e ficava tudo bem de novo. ‘Kafka à Beira-Mar’ é um dos meus livros preferidos do Murakami, e este trecho é um soco na cara de beleza e lucidez.”

Na TV com Simone de Beauvoir

por   /  28/10/2015  /  15:00

simone

Já experimentou deixar de lado o feed do Face por uma manhã para aproveitar os vídeos longos do YouTube? Fiz isso essa semana e, entre outras coisas, assisti a uma entrevista da Simone de Beauvoir para a TV francesa, em 1975.

A feminist, whether she calls herself leftist or not, is a leftist by definition. She is struggling for total equality, for the right to be as important, as relevant, as any man. Therefore, embodied in her revolt for sexual equality is the demand for class equality. In a society where the male can be the mother, where, say, to push the argument on values so it becomes clear, the so-called “female intuition” is as important as the “male’s knowledge” – to use today’s absurd language – where to be gentle or soft is better than to be hard and tough, in other words, in a society where each person’s experiences are equivalent to any other, you have automatically set up equality, which means economic and political equality and much more. Thus, the sex struggle embodies the class struggle, but the class struggle does not embody the sex struggle. Feminists are, therefore, genuine leftists. In fact, they are to the left of what we now traditionally call the political left.

A while ago we were talking about how the MLF has helped women gain sisterhood. affection for each other, and so on. That might have created the impression that I think women are now better off. They’re not. The struggle is just beginning, and in the early phases it makes life much harder. Because of the publicity the word “liberation” is on the tip of the tongue of every male, whether aware of sexual oppression of women or not. The general attitude of males now is that “well, since you’re liberated. Let’s go to bed.” In other words, men are now much more aggressive, vulgar, violent. In my youth we could stroll down Montparnasse or sit in cafés without being molested. Oh, we got smiles, winks, stares, and so on. But now it’s impossible for a woman to sit alone in a café reading a book. And if she’s firm about being left alone when the males accost her, their parting remark is most often salope [bitch] or putain [whore]. There’s much much more rape now. In general, male aggressiveness and hostility has become so common that no woman feels at ease in this town, and from what I hear in any town in America. Unless, of course, women stay at home. And that’s what lies behind this male aggressiveness: the threat which, in male eyes, women’s liberation represents has brought out their insecurity, hence their anger resulting that they now tend to behave as if only women who stay at home are “clean” while the others are easy marks. When women turn out not to be such easy marks, the men become personally challenged, so to speak. Their one idea is to “get” the woman.

Vejam também!

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Escutar é se arriscar

por   /  14/10/2015  /  12:12

Silêncio

As pessoas não escutam porque escutar é se arriscar. É se abrir para a possibilidade do espanto. Escancarar-se para o mundo do outro – e também para o outro de si mesmo. Escutar de verdade é se entregar. É esvaziar-se para se deixar preencher pelo mundo do outro. E vice-versa. Nesta troca, aprendemos, nos transformamos, exercemos esse ato purificador da reinvenção constante. E, o melhor de tudo, alcançamos o outro. Acredite: não há nada mais extraordinário do que alcançar um outro ser humano. Se conseguirmos essa proeza em uma vida, já terá valido a pena.

Por que as pessoas falam tanto?

Mais um texto maravilhoso da Eliane Brum. A foto a @luizavoll tirou especialmente pra mim, em uma loja na Itália <3

 

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#bibliotecadonttouch por Liliane Prata

por   /  07/10/2015  /  10:10

Lili

A #bibliotecadonttouch desta semana é da Liliane Prata (@liliprata)!

Ela é jornalista e escritora. Autora de oito livros, entre juvenis e adultos (o mais recente é “Eu odeio te amar”), posta crônicas e vídeos no seu lilianeprata.com.br (adoro os vídeos dela, aliás!) e é editora da revista Claudia.

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“A redoma de vidro”, de Sylvia Plath

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“Plataforma”, de Michel Houllebecq

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“A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector

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“Bonsai”, de Alejandro Zambra

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Trecho de crônica da Martha Medeiros

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“Capitães de Areia”, de Jorge Amado

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A imbecilidade organizada com a internet

por   /  07/10/2015  /  9:09

marias, javier

A internet tem coisas maravilhosas, mas há algo que é novidade: pela primeira vez a imbecilidade está organizada. Sempre houve imbecilidade; imbecis iam ao bar, tornavam públicas as suas imbecilidades, mas é agora que se organizam, com grande capacidade de contágio. E há um problema agregado: as pessoas se intimidam diante de internautas exaltados e se desculpam sem motivos. E as pessoas sofrem represálias. É truculência. E não há melhor forma de a truculência triunfar do que se intimidando e se amedrontando.

Javiér Marias, autor espanhol que eu adoro, em entrevista ao El País

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É debaixo deste silêncio que acontece o estouro

por   /  06/10/2015  /  19:19

Cassiana

Está tarde, por enquanto está tarde, faz tanto tempo desde a última vez que fomos até à entrada do rochedo, mais tempo ainda desde que mergulhámos na enseada e nos deparámos com o coral, com o brilho, com a coloração perfeita que fazia lembrar a transumância. Tenho pensado na palavra transumância. Tenho pensado muito naquele excerto do diário de Pavese que fala dos mitos e da atenção, dos símbolos, dos nomes. Nalgum momento, ele diz qualquer coisa como: estamos convencidos de que uma grande revelação só poderá sair da teimosa insistência numa mesma dificuldade. E também: sabemos que o modo mais seguro — e mais rápido — de nos espantarmos é fitarmos impávidos sempre o mesmo objeto. Segundo Cesare Pavese, é pela atenção e pela repetição que acontece o estouro do milagre. Ainda acredito em milagres.

Notas para um século surpreendente, texto da Matilde Campilho.

A foto é da Cassiana Der Haroutiounian.

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A vida muda num instante

por   /  06/10/2015  /  9:09

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Ao escrever sobre a vida sem John, ela alcançou uma síntese perfeita da catástrofe humana: “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. (…)

O que fazer quando você é a que resta? Se você é uma escritora, escreve. Agarra-se às palavras na tentativa de compreender o impossível, agarra-se para não afundar. Agarra-se porque é preciso enfrentar as lembranças, sempre fragmentadas, e com elas construir uma memória que faça algum sentido na paisagem devastada que agora é você. Com 1 metro e 56 centímetros e meio de altura e a silhueta de quem poderá ser levada embora na primeira brisa, Joan Didion é uma escritora feroz. Examina a si mesma sem autopiedade ou pieguice e entrega-se ao leitor com todas as suas marcas. A grandeza de seu texto está na capacidade de entrelaçar a tragédia às pequenas delicadezas do cotidiano. Como ao perceber que, por muito tempo, escrevera vendo as roupas de Quintana secar ao sol.

As lembranças espreitam Joan atrás de cada porta, dentro de cada gaveta. Ela levanta a tampa da caixa de joias forrada de cetim e encontra lá dentes de leite. Abre a porta do guarda-roupa e vê três velhas capas de chuva de John, uma jaqueta de camurça dada a Quintana pela mãe de seu primeiro namorado e um bolero de angorá, há muito comido pelas traças, que sua mãe ganhara de seu pai depois da Segunda Guerra Mundial. Ela abre caixas e acha convites para casamentos de gente que há muito se separou, cartões de agradecimento de funerais de pessoas cujo rosto esqueceu. “Em teoria, essas lembranças servem para trazer de volta o momento”, escreve. “Na prática, servem apenas para demonstrar quão inadequadamente apreciei o momento quando ele aconteceu.”

Texto A mulher que restou, de Eliane Brum, sobre a escritora Joan Didion, que perdeu o marido e a filha em um intervalo de poucos meses.

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#bibliotecadonttouch por Mariano Marovatto

por   /  07/09/2015  /  11:00

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A semana na #bibliotecadonttouch vai ser do Mariano Marovatto (@marovatto)!

Cantor, compositor e escritor carioca. Entre suas produções mais recentes estão o disco “Praia” (Maravilha 8, 2013) e os livros: “As Duas” (Megamíni, 2014), “As Quatro Estações” (Cobogó, 2015) e “Casa” (7Letras, 2015). Atualiza regularmente o site www.marovatto.org

MM - Susan sontag, entrevista para a Rolling Stone

“A coisa mais terrível seria sentir que concordo com as coisas que já disse e escrevi – isso me tornaria ainda mais desconfortável, pois significaria que parei de pensar.” Susan Sontag no livro de entrevista para a Rolling Stone.

MM - Victor Heringer, Glória

“A ausência de Natália havia deixado um buraco em sua vida, que ele poderia tapar quando e como quisesse.” Victor Heringer em “Glória”

MM Ismar Tirelli Neto, Os Ilhados

“Os ilhados”, de Ismar Tirelli Neto

MM John Cage, Lecture on Nothing

“Lecture of nothing”, de John Cage

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Carta a D.

por   /  04/09/2015  /  10:00

Amores Anônimos

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais de quarenta e cinco quilos e continuas bela, graciosa, desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Primeiro parágrafo matador de “Carta a D.”, de André Gorz.

A foto é de @marimguimaraes para o @amoresanonimos.

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