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no ônibus

por   /  30/11/2010  /  22:03

Por Raquel C., do Não sente ao meu lado > http://naosenteaomeulado.blogspot.com/

bom, aí eu tava lá chorando no ônibus.
não que eu seja descontrolada. nada a ver. sou uma pessoa dinâmica e ligada nas últimas estratégias de otimização de tempo. tô de bobeira no ônibus, como posso aproveitar esses minutos ociosos? dando uma choradinha. que aí eu chego em casa e já passei por essa etapa, posso me matar direto.
enfim, eu tava lá. chorando no ônibus, meio de lado, olhando pra janela. o ônibus cheio, mas não muito, algumas pessoas em pé. aquele calor senegalesco. esbarram na minha cabeça. ok.

esbarram de novo.
de novo de novo de novo.

notei uma certa sincronia e imediatamente pensei: tem alguém batendo com o pau na minha cabeça.
não me perguntem como eu soube. é todo um instinto para coisas inúteis. olhei de ladinho e tcharam! uma pessoa de pau duro estava se aproveitando dos mínimos movimentos do ônibus pra contemplar meus cabelos com uma pirocada.
nesse ponto você suspende todas as atividades e pensa que sua vida é uma piada muito ruim. ou então é de um humor tão sofisticado* que você, por ser tosca, não consegue compreender.
por essas e outras que nem valem ser mencionadas, cheguei em casa e concluí que ainda é 2009. nunca saímos de 2009. 2010 é só um fake desse ano interminável e sem noção.
faz parar.

(*isso significa que trocadilhos envolvendo a expressão “foder com a sua cabeça” não estão permitidos. abracinho.)
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A foto é da Amber Maria Chavez
etc  ·  literatura

antes e depois

por   /  23/11/2010  /  15:28

Antes e depois, por André Laurentino

Já fui melhor. E você também. Eis o charme do passado: tudo era melhor. Até o sofrimento antigo, por estar desbotado, era melhor do que o de agora, que ainda dói e é incômodo na sua exata dimensão. Ontem é a fantasia do hoje.

A seleção de 82, o Flamengo, o Rio de Janeiro de 50, São Paulo há 10 anos, sem tanto trânsito. Tudo era melhor. Não existia a Livraria da Travessa, não existia o smoothie de morango e banana, não existia a capa da The Economist com o Cristo decolando, não existia o iPhone nem o ingresso pela internet. E, ainda assim, antes era melhor. Como pode?

No feriado, visitei minha primeira escola. Academia Santa Gertrudes, bem no alto da Sé de Olinda. Senti o eco frio de um espírito distante, misto de independência, orgulho e pavor. Os azulejos estavam lá, testemunhando pecados e glórias. A cor das janelas, o piso vermelho, a escadaria com sua portinhola dos 7 anões. Tudo estava ali, diante do menino que podia tudo, aos cinco anos de idade.

Aquela época trazia possibilidades, enquanto o agora nos oferece apenas certezas. Aos encantos da promessa, nem a felicidade resiste. Que graça tem a felicidade diante da promessa de felicidade? Antes de toda Copa o Brasil é campeão. Antes do primeiro turno, todo candidato tem chance. Antes da pergunta, toda resposta é “sim”. Mas depois, ao escolher um caminho, o presente abre mão de muitos outros que poderiam ter sido. Esses muitos outros, no entanto, continuam vivos no passado. Em meus dias de Santa Gertrudes, eu podia ser jogador de futebol (grande goleiro), ator de televisão (esse André é engraçado), cantor, escritor de sucesso, acadêmico na Inglaterra. Tudo isso ainda existe na Olinda daqueles dias, daqueles anos, daquela inocência.

Nessa outra, às 11h35 da manhã, se quero me perder e ter dúvidas e beijar mil e cem possibilidades, leio Ferreira Gullar. Ou Vinicius de Moraes. Das palavras deles faço trampolim para lançar-me ao voo passarinho que minhas asas não podem mais. “Não podem, não podem!” É tarde: já podaram. Justo eu, que poderia ter sido melhor e mais infinito do que eles, e os demais poetas. Mas isso era antes. Hoje, quando muito me esforço, consigo ser eu mesmo.

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A foto é daqui

amor  ·  fotografia  ·  literatura

uma mulher

por   /  03/11/2010  /  20:14

O amor é um negócio muito doido. Numa hora a gente ama, na outra, odeia, e no meio tempo sente toda a insegurança do mundo. O escritor húngaro Péter Esterházy traduz perfeitamente os mil estados desse sentimento tão desejado e complicado em seu livro “Uma mulher”, em que ele fala não sobre uma só mulher, e sim sobre 97… Ou sobre uma só, vai saber…

O livro saiu recentemente pela Cosac Naify, com capa feita pela Cia de Foto. Foi minha companhia certa por duas noites seguidas. Então fica a sugestão de leitura! A seguir, uns trechos que selecionei pra vocês =)

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Uma mulher (22)

Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade.

Uma mulher (24)

Há uma mulher. Na verdade ela me ama, mas talvez fosse melhor se também me odiasse, a ligação seria mais forte. Pois seria terrível se num belo dia ela me dispensasse! Se me entregasse uma carta de demissão. Por isso preciso acorrentá-la a mim, seja como for, e bem firme. Se fosse preciso eu a humilharia. Ou ela a mim. Eu me pergunto o que seria melhor. Ela não me dá uma resposta inteligível. Seha como for jogamos bingo juntos.

Uma palavra vale por cem: sei que amar ela me ama, imagino que na mesma medida em que me odeia, mas eu precisaria saber se ela está cheia de mim. Se está nauseada. Se está até a tampa. Se não aguenta mais. Se não estiver – se gosta de mim ou não, se me odeia ou não – tanto faz, tudo segue adiante, vou com ela para a cama, enfio a cabeça no meio das coxas dela, sento com ela na cozinha, bebericamos vinho, assistimos a tevê juntos (domingo à tarde, o Zorro), leio pra ela em voz alta (esquetas humorísticos de Karinthy, mais recentemente trechos de O pato selvagem, de Ibsen), para passear eu não tenho disposição, mas ajudo a educar as crianças, sou uma voz masculina na casa, entrego o dinheiro que ganho, porém, em caso afirmativo, se ela estiver cheia de mim, até a tampa, preciso, imediatamente, tomar providências. Dinheiro e suborno. Imposição insistente: eu em cima dela. (“Se uma brisa me ajudasse, nem uma tempestade me arrancaria de cima dela”). A humilhação e a subserviência já foram discutidas. Seja como for, só importa que ela fique. Nem assim posso cruzar os braços no colo, se esse for o colo dela. Vou acabar me conformando. (É claro que depois das muitas traições não existe mais ela nem eu, apenas a permanência. Mas era isso que eu queria, que ela ficasse, que houvesse permanência.)

Uma mulher (29)

Há uma mulher. Eu a amo. Ela é do tamanho de um armário. De um prédio. De uma montanha. De um búfalo. Se me desse um tapa eu voaria pela janela, mas por que ela faria isso? Decide coisas o tempo todo, telefona, providencia, manda faxes, funda empresas, ou coisa parecida, e tem também algo a ver com os impostos sobre a circulação de mercadorias. Sua cama é a cabine de comando de onde ela dá as ordens. Não usa calcinha. Telefona deitada de barriga pra cima, sobe uma das coxas, com isso a saia desliza, e nessas horas aparece a sombra escura. Sombra, é como a chamo. Quando estou bem-humorado, eu grito: é pela sombra que se respeita a velha árvore! Por exemplo, digo: é aqui que você se esconde, sombra? Ou que enquanto o homem projetar sombras sempre haverá desgraças! A visão me faz sonhar. Ela aperta o telefone com a cabeça contra o ombro para que as mãos fiquem livres, mulher de negócios experiente. Tem o raciocínio rápido, é loira, me ama. Pergunta se eu a amo; enquanto isso, naturalmente, toma notas. O que posso responder? Hein, carinha? Seu vocabulário lembra o de um hooligan os anos sessenta. Eu te desejo, respondo, constrangido. Olha pra mim como quem não entende o que eu disse. Meu pau levanta, explico. Ela se põe numa posição visivelmente expectante. Enquanto você telefona, e na verdade você telefona quase o tempo todo, eu te desejo. Está tudo certo no registro de imóveis?, resmunga no bocal, e para mim faz um gesto para que eu venha, vamos, “me amassa”. Além disso também gosto de conversar com você. Mais, mais. As duas coisas já bastam, não? Desejar e conversar, isso já seria o famoso eu te amo, não? Faz um gesto delicado como um armário na minha direção, e enquanto eu saio pela janela – vejo que vou despencar justamente sobre um congestionamento de trânsito, imagino a situação desagradável – ainda a ouço convencendo alguém a tomar um empréstimo.

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A foto é de Anna Kaminska

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Obrigada, João e Emilio, da Cosac, por terem me mandado o livro. Adorei!

amor  ·  fotografia  ·  literatura

o amor não resolve nada

por   /  02/11/2010  /  12:08

O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente.

José Saramago

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A foto é de Lauryn Holmquist

Achei a citação aqui

amor  ·  fotografia  ·  literatura

pontuação

por   /  17/10/2010  /  13:35

Donde se sabe que homem é vírgula; mulher é ponto final, por Xico Sá

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências…

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato…nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar… e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo de Paulo Coelho. Vade retro.

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A foto é de Ashil Hunt

amor  ·  fotografia  ·  literatura

pé na bunda

por   /  13/10/2010  /  8:45

Levar pé na bunda pode ser uma forma de egoísmo, por Eduardo Fernandes

Por volta de 2004, publiquei uma música chamada “Vulgar”. A letra dizia algo assim:

Tentei um dia imaginar o tempo que passamos, mas não dá
Ficou quase tudo nublado, num almoxarifado da memória
Quem é que iria imaginar que a ferida incurável fosse cicatrizar
Depois que tudo se dissolve, aquilo que nos move parece vulgar
Como uma espera sem sentido, parece vulgar

Dois anos antes disso, eu tinha levado um belo pé na bunda. Na época, fiquei mal. Cético, seco… e prolixo. Escrevia, tocava, criava teorias. Essas coisas.

Mas, em 2004, o sentimento era bem outro. Estava atônito ao perceber que, afinal, a ferida havia se curado. E eu mal conseguia me lembrar dela. Precisava fazer um considerável esforço mental para evocar o sofrimento que, antes, parecia automático.

Eu queria criar uma narrativa, encaixar aquela história naquilo que pensava que eu era em 2004. Mas, no fundo, não conseguia evitar a sensação de que bancava um charlatão, extremamente vulgar. Em vez de matar o assunto, eu queria mantê-lo zumbi, criar sentidos, histórias, de tão viciado que eu era em tentar manipular a vida.

Foi aí que percebi algo.

Dar pé na bunda geralmente é mais facilmente associado ao egoísmo: “Não te amo, de alguma forma, quero me livrar de você”. E então as revistas e sites tentam ensinar como ser polido, adequado e evitar conflitos na hora do rompimento.

Mas levar pé na bunda também pode ser algo extremamente egoísta. Porque na maior parte dos casos que eu vivi ou de que ouvi falar, tanto o dispensado quanto o dispensador tentam defender-se um tanto desesperadamente. No fundo, ambos querem garantias de que são pessoas interessantes, resolvidas e que “a rejeição” foi apenas um acidente de percurso.

Mais que isso, queremos saber porquê, como, onde, quando. Onde é que eu errei? Como posso acertar nas próximas vezes? Quais técnicas são infalíveis para evitar o próximo desamor?

O dispensado tende a ser ainda mais calculista. Muitas vezes, quer extrair o máximo de informação possível do dispensador — sem que este perceba, claro. Quer traçar uma teoria para poder olhar no espelho e dizer: “Foi isso. Faz sentido. Agora posso traçar um mapa de como seguir em frente”.

Se você tiver o hábito de escrever, pode ir para a web, fazer textos espertos / ressentidos, tentar utilizar a situação ao seu favor. Juntar uma platéia.

Ainda assim, perde a comunicação com o parceiro. Ele é somente um agente confirmador de narrativas (“tenho autoestima, não tenho, estou velho, preciso mudar, ele me sacaneou etc.”).

O mais espantoso é olhar para trás e ver que as coisas passam e perdem completamente o sentido. Secam.

Se você deixá-las como são, se não tentar fazer de relacionamentos uma espécie de plano de carreira, de estratégia de batalha, tudo se dissolve com uma rapidez incrível. Mesmo que o caminho tenha inúmeras dores e bifurcações. Alucinatórias, oníricas.

O que me leva a reafirmar: tomar pé na bunda pode ser tão egoísta quanto dar pé na bunda. Uma paradoxal tentativa de tentar fechar-se para as incertezas da realidade. Um jeito de ficar congelado nos ismos do ego.

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A foto é de Crimson Apple

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a gente se acostuma

por   /  12/10/2010  /  15:08

Eu sei, mas não devia, por Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

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A foto é de Samuel Bradley

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