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Posts da categoria "amor"

uma pergunta para marina colasanti

por   /  03/12/2010  /  16:09

Lola Magazine: O amor pode resistir ao desgaste do tempo?

Marina Colasanti: É difícil falar de amor, escrevi um livro inteiro sobre isso e ainda estou aprendendo. O amor na teoria é uma coisa, na prática é outra. Não significa o mesmo para todas as pessoas, não é encontrado no mesmo lugar e da mesma maneira. Os que têm a sorte de encontrá-lo experimentam um sentimento de antiguidade, de reconhecimento, o amor antecede a sua realização. As pessoas amam o amor antes de vivê-lo. Ele não é nunca uma surpresa. Você está numa estação de trem esperando por ele. O problema é que se pode confundir e reconhecer a pessoa errada pára só depois perceber o engano. Mas isso não quer dizer que o amor não exista.

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A foto é de Eylul Aslan

Quem mandou essa lindeza foi outra lindeza, a Clá

amor  ·  literatura

defesa da alegria

por   /  02/12/2010  /  14:19

Defesa da alegria, por Mario Benedetti

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

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A foto é do Chad Moore

amor  ·  fotografia  ·  literatura

no ônibus

por   /  30/11/2010  /  22:03

Por Raquel C., do Não sente ao meu lado > http://naosenteaomeulado.blogspot.com/

bom, aí eu tava lá chorando no ônibus.
não que eu seja descontrolada. nada a ver. sou uma pessoa dinâmica e ligada nas últimas estratégias de otimização de tempo. tô de bobeira no ônibus, como posso aproveitar esses minutos ociosos? dando uma choradinha. que aí eu chego em casa e já passei por essa etapa, posso me matar direto.
enfim, eu tava lá. chorando no ônibus, meio de lado, olhando pra janela. o ônibus cheio, mas não muito, algumas pessoas em pé. aquele calor senegalesco. esbarram na minha cabeça. ok.

esbarram de novo.
de novo de novo de novo.

notei uma certa sincronia e imediatamente pensei: tem alguém batendo com o pau na minha cabeça.
não me perguntem como eu soube. é todo um instinto para coisas inúteis. olhei de ladinho e tcharam! uma pessoa de pau duro estava se aproveitando dos mínimos movimentos do ônibus pra contemplar meus cabelos com uma pirocada.
nesse ponto você suspende todas as atividades e pensa que sua vida é uma piada muito ruim. ou então é de um humor tão sofisticado* que você, por ser tosca, não consegue compreender.
por essas e outras que nem valem ser mencionadas, cheguei em casa e concluí que ainda é 2009. nunca saímos de 2009. 2010 é só um fake desse ano interminável e sem noção.
faz parar.

(*isso significa que trocadilhos envolvendo a expressão “foder com a sua cabeça” não estão permitidos. abracinho.)
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A foto é da Amber Maria Chavez
etc  ·  literatura

antes e depois

por   /  23/11/2010  /  15:28

Antes e depois, por André Laurentino

Já fui melhor. E você também. Eis o charme do passado: tudo era melhor. Até o sofrimento antigo, por estar desbotado, era melhor do que o de agora, que ainda dói e é incômodo na sua exata dimensão. Ontem é a fantasia do hoje.

A seleção de 82, o Flamengo, o Rio de Janeiro de 50, São Paulo há 10 anos, sem tanto trânsito. Tudo era melhor. Não existia a Livraria da Travessa, não existia o smoothie de morango e banana, não existia a capa da The Economist com o Cristo decolando, não existia o iPhone nem o ingresso pela internet. E, ainda assim, antes era melhor. Como pode?

No feriado, visitei minha primeira escola. Academia Santa Gertrudes, bem no alto da Sé de Olinda. Senti o eco frio de um espírito distante, misto de independência, orgulho e pavor. Os azulejos estavam lá, testemunhando pecados e glórias. A cor das janelas, o piso vermelho, a escadaria com sua portinhola dos 7 anões. Tudo estava ali, diante do menino que podia tudo, aos cinco anos de idade.

Aquela época trazia possibilidades, enquanto o agora nos oferece apenas certezas. Aos encantos da promessa, nem a felicidade resiste. Que graça tem a felicidade diante da promessa de felicidade? Antes de toda Copa o Brasil é campeão. Antes do primeiro turno, todo candidato tem chance. Antes da pergunta, toda resposta é “sim”. Mas depois, ao escolher um caminho, o presente abre mão de muitos outros que poderiam ter sido. Esses muitos outros, no entanto, continuam vivos no passado. Em meus dias de Santa Gertrudes, eu podia ser jogador de futebol (grande goleiro), ator de televisão (esse André é engraçado), cantor, escritor de sucesso, acadêmico na Inglaterra. Tudo isso ainda existe na Olinda daqueles dias, daqueles anos, daquela inocência.

Nessa outra, às 11h35 da manhã, se quero me perder e ter dúvidas e beijar mil e cem possibilidades, leio Ferreira Gullar. Ou Vinicius de Moraes. Das palavras deles faço trampolim para lançar-me ao voo passarinho que minhas asas não podem mais. “Não podem, não podem!” É tarde: já podaram. Justo eu, que poderia ter sido melhor e mais infinito do que eles, e os demais poetas. Mas isso era antes. Hoje, quando muito me esforço, consigo ser eu mesmo.

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A foto é daqui

amor  ·  fotografia  ·  literatura

uma mulher

por   /  03/11/2010  /  20:14

O amor é um negócio muito doido. Numa hora a gente ama, na outra, odeia, e no meio tempo sente toda a insegurança do mundo. O escritor húngaro Péter Esterházy traduz perfeitamente os mil estados desse sentimento tão desejado e complicado em seu livro “Uma mulher”, em que ele fala não sobre uma só mulher, e sim sobre 97… Ou sobre uma só, vai saber…

O livro saiu recentemente pela Cosac Naify, com capa feita pela Cia de Foto. Foi minha companhia certa por duas noites seguidas. Então fica a sugestão de leitura! A seguir, uns trechos que selecionei pra vocês =)

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Uma mulher (22)

Há uma mulher. Sente por mim o que eu sinto por ela, me odeia, me ama. Quando ela me odeia eu a amo, quando ela me ama, eu a odeio. Não existe outra possibilidade.

Uma mulher (24)

Há uma mulher. Na verdade ela me ama, mas talvez fosse melhor se também me odiasse, a ligação seria mais forte. Pois seria terrível se num belo dia ela me dispensasse! Se me entregasse uma carta de demissão. Por isso preciso acorrentá-la a mim, seja como for, e bem firme. Se fosse preciso eu a humilharia. Ou ela a mim. Eu me pergunto o que seria melhor. Ela não me dá uma resposta inteligível. Seha como for jogamos bingo juntos.

Uma palavra vale por cem: sei que amar ela me ama, imagino que na mesma medida em que me odeia, mas eu precisaria saber se ela está cheia de mim. Se está nauseada. Se está até a tampa. Se não aguenta mais. Se não estiver – se gosta de mim ou não, se me odeia ou não – tanto faz, tudo segue adiante, vou com ela para a cama, enfio a cabeça no meio das coxas dela, sento com ela na cozinha, bebericamos vinho, assistimos a tevê juntos (domingo à tarde, o Zorro), leio pra ela em voz alta (esquetas humorísticos de Karinthy, mais recentemente trechos de O pato selvagem, de Ibsen), para passear eu não tenho disposição, mas ajudo a educar as crianças, sou uma voz masculina na casa, entrego o dinheiro que ganho, porém, em caso afirmativo, se ela estiver cheia de mim, até a tampa, preciso, imediatamente, tomar providências. Dinheiro e suborno. Imposição insistente: eu em cima dela. (“Se uma brisa me ajudasse, nem uma tempestade me arrancaria de cima dela”). A humilhação e a subserviência já foram discutidas. Seja como for, só importa que ela fique. Nem assim posso cruzar os braços no colo, se esse for o colo dela. Vou acabar me conformando. (É claro que depois das muitas traições não existe mais ela nem eu, apenas a permanência. Mas era isso que eu queria, que ela ficasse, que houvesse permanência.)

Uma mulher (29)

Há uma mulher. Eu a amo. Ela é do tamanho de um armário. De um prédio. De uma montanha. De um búfalo. Se me desse um tapa eu voaria pela janela, mas por que ela faria isso? Decide coisas o tempo todo, telefona, providencia, manda faxes, funda empresas, ou coisa parecida, e tem também algo a ver com os impostos sobre a circulação de mercadorias. Sua cama é a cabine de comando de onde ela dá as ordens. Não usa calcinha. Telefona deitada de barriga pra cima, sobe uma das coxas, com isso a saia desliza, e nessas horas aparece a sombra escura. Sombra, é como a chamo. Quando estou bem-humorado, eu grito: é pela sombra que se respeita a velha árvore! Por exemplo, digo: é aqui que você se esconde, sombra? Ou que enquanto o homem projetar sombras sempre haverá desgraças! A visão me faz sonhar. Ela aperta o telefone com a cabeça contra o ombro para que as mãos fiquem livres, mulher de negócios experiente. Tem o raciocínio rápido, é loira, me ama. Pergunta se eu a amo; enquanto isso, naturalmente, toma notas. O que posso responder? Hein, carinha? Seu vocabulário lembra o de um hooligan os anos sessenta. Eu te desejo, respondo, constrangido. Olha pra mim como quem não entende o que eu disse. Meu pau levanta, explico. Ela se põe numa posição visivelmente expectante. Enquanto você telefona, e na verdade você telefona quase o tempo todo, eu te desejo. Está tudo certo no registro de imóveis?, resmunga no bocal, e para mim faz um gesto para que eu venha, vamos, “me amassa”. Além disso também gosto de conversar com você. Mais, mais. As duas coisas já bastam, não? Desejar e conversar, isso já seria o famoso eu te amo, não? Faz um gesto delicado como um armário na minha direção, e enquanto eu saio pela janela – vejo que vou despencar justamente sobre um congestionamento de trânsito, imagino a situação desagradável – ainda a ouço convencendo alguém a tomar um empréstimo.

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A foto é de Anna Kaminska

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Obrigada, João e Emilio, da Cosac, por terem me mandado o livro. Adorei!

amor  ·  fotografia  ·  literatura

o amor não resolve nada

por   /  02/11/2010  /  12:08

O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente.

José Saramago

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A foto é de Lauryn Holmquist

Achei a citação aqui

amor  ·  fotografia  ·  literatura

pontuação

por   /  17/10/2010  /  13:35

Donde se sabe que homem é vírgula; mulher é ponto final, por Xico Sá

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências…

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem no Crato…nem na Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.

E vamos ficando por aqui, pois já derrapei na curva da auto-ajuda como uma Kombi velha na Serra do Mar… e já já descambarei,  eu me conheço, para o mundo de Paulo Coelho. Vade retro.

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A foto é de Ashil Hunt

amor  ·  fotografia  ·  literatura