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Posts da categoria "amor"

nervos muito sensíveis

por   /  08/12/2010  /  0:19

Washington, 5 de outubro de 1953, segunda-feira

Fernando,

Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.

Clarice Lispector, em Correspondências

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A foto é do Buenaventura

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só ao fechá-la é que se sabe

por   /  07/12/2010  /  18:27

Conselhos do Conselheiro, por João Cabral de Melo Neto
1.
Temer quedas sobremaneira
(não as do abismo, da banheira).
Andar como num chão minado,
que se desmina, passo a passo.
Gestos há muito praticados,
melhor sejam ressoletrados.
2.
A coisa mais familiar
já pode ser o patamar
onde um corredor conhecido,
que se caminha ainda tranquilo,
leva a uma certa camarinha
que ninguém disse o que continha.
3.
Uma porta qualquer que se abre
só ao fechá-la é que se sabe
que não foi afinal a porta
que só abre do lado de fora:
embora como porta se abra
é só de um lado sua bisagra.
4.
De cada cama em que se sobe
se descerás? É que se pode?
E cada cama em que se deita
não será acaso a derradeira,
que tem tudo de cama, quase:
menos a tampa em que fechar-se.
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Ganheio o poema da beloved Yana Parente
A foto é daqui
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456 amigos e uma paralisia

por   /  07/12/2010  /  17:32

Conferência íntima, por Samarone Lima

Me impressiona um pouco quando me convidam para esses avanços da Internet, o compartilhamento de fotos, de labirintos e pandemônios, e vejo que algumas pessoas têm 456 amigos numa tacada só, ou num arquivo, ou num sistema.

Eu ficaria paralisado, sem saber a quem recorrer, no caso de uma aflição, um cansaço, uma deselegância, esses chauvinismos dos dias desafortunados. Olho, louvo a disposição para tanta gente, mas fico lembrando da época em que eu recebia cartas, direcionadas apenas para mim, com o selo pregado, o papel, o carimbo dos Correios etc. As cartas tinham rosto. Era a caligrafia da pessoa, a força de suas mãos. Tenho caixas dessas cartas comigo.

Lembro também de telefonemas do tipo “não estou bem, preciso conversar ainda hoje contigo”, e tudo se providenciava para o encontro, porque o “ainda hoje”, dito por um amigo, é o maior dos mandamentos.

É que sou de uma civilização do papel, dos amigos de carne e osso e de uma dose importante de conversa fiada. O que tem me preocupado mais nesse meu mundo, não é que eu tenha muitos ou poucos amigos. O alarmante mesmo é que estou vendo menos os amigos que ganhei da vida. Há uma certa dispersão de minha parte, que se acomoda gentilmente com minhas viagens, projetos, escritos. Era preciso que a gente tivesse menos obrigações, menos pensamentos lá adiante. Eu queria viver com menos, deixar todo o supérfluo de lado.

Ultimamente, as promessas de cafés se avolumam, os “precisamos nos encontrar” se renovam, e às vezes me lembro do “olá como vai” do Paulinho da Viola, embora o meu sinal esteja aberto para tantas coisas lindas. Outro dia, desmarquei um almoço com um velho amigo e depois pensei que era ridículo não peitar as demandas, fazer da agenda somente um objeto quadrado e relegado, dizendo “espera aí, compadre, que nos vemos daqui a pouco, isso é o mais importante para hoje”.

Há pouco, fui olhar uma coletânea de textos lindos, de pessoas queridas, que me chegaram pelo e-mail ao longo dos últimos anos. Me deu uma saudade, mas atravessoume o sentimento da distância reparável, uma constatação sem dor da dispersão natural. Aconteceu. Algumas pessoas de que gosto muito eu raramente encontro, apesar de queridíssimas, de saber da importância. Outro dia, o velho e bom Lourival Holanda disse que eu era avaro de mim mesmo, e fiquei a pensar sem nostalgia nisso, à beira do Parque 13 de Maio.

Talvez eu esteja somente distraído, introspectivo, nesse dia chuvoso no Recife. Muitas vezes acontece isso. Estou tão distraído, que não vejo o melhor. Talvez nós humanos sejamos um pouco assim, distraídos e dados ao efêmero.

Então escrevo, buscando talvez alguma espécie de redenção.

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Ontem chegaram as fotos de Ivi que escolhi no saldão. Lindas, lindas! De presente, ela mandou a “Coletânea Antônio Maria de Crônicas – Volume 1”, que li de ontem pra hoje. Adorei encontrar textos tão lindos e resolvi colocar uns por aqui.

Unindo autores estreantes a veteranos, a Coletânea, cujo título homenageia um dos mais relevantes cronistas da literatura brasileira, mostra o que de melhor se tem feito no estilo, passeando pelas páginas dos jornais e postagens dos blogs. Xico Sá, Adelaide Ivánova, Ivan Moraes Filho, Raimundo Carrero, Débora Nascimento, Artur Carvalho, José Mário Rodrigues, Bruno Piffardini, Lulina, Ronaldo Correia de Brito, Vitória Lima, Helder Herik, Theresa Bachmann, Samarone Lima, Ana Quitéria e Homero Fonseca são os cronistas que participam deste primeiro volume da coleção. Durante o lançamento, o público divertiu-se com o recital feito pelo grupo performático Vozes Femininas. O livro será vendido nas livrarias Cultura e Imperatriz, pelo preço de R$15,00.

As ilustrações, como a deste post, são de Cecília Torres > http://flavors.me/zenzi

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oco

por   /  07/12/2010  /  16:03

Oco, por Ivana Arruda Leite

Você lamenta que nada tenha dado certo entre nós, diz que nunca amou ninguém igual, que ainda sente muito minha falta e me imagina ao seu lado até hoje, dividindo o pouco que a vida lhe dá (um filhote de cachorro, um copo de vinho, um cd novo). Besteira lamentar, amor também é buraco e o nosso nasceu com essa vocação. E buraco é bonito também. E vai ficando mais bonito à medida que envelhece, mais bonito e mais fundo. Vista o seu que eu visto o meu.

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A foto é de Emily Chard

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mutações

por   /  05/12/2010  /  21:51

Acredito que é, algumas vezes, menos difícil acordar e sentir que estou sozinha quando realmente estou, do que acordar com alguém e me sentir solitária.

Espero que duas pessoas possam crescer juntas, lado a lado e dar alegria uma à outra. Sem que uma seja esmagada para a outra poder continuar forte.

Talvez amadurecer seja deixar os outros serem.

Permitir a mim mesma ser o que sou.

“Ninguém sacrificará sua honra pelo amor”, diz Helmer. E Nora responde: “Milhões de mulheres fizeram isso”.

Pergunto a Sam Waterston, que faz o papel de Helmer, se ele desistiria de sua profissão por uma mulher, caso, por alguma razão, isso fosse essencial para o prosseguimento da relação. Sam acha que não e me pergunta se eu o faria.

“Sim, é possível”. Penso a respeito disso. “Acho que muitas mulheres fazem isso porque acreditam, profundamente, na importância do amor.”

“Mas você não se atribui um valor maior?”, pergunta Sam.

“É isso que fazemos. Podemos desistir da nossa profissão porque valorizamos o que somos.”

Liv Ullmann, no maravilhoso “Mutações”

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A foto é de Chad Moore

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uma pergunta para marina colasanti

por   /  03/12/2010  /  16:09

Lola Magazine: O amor pode resistir ao desgaste do tempo?

Marina Colasanti: É difícil falar de amor, escrevi um livro inteiro sobre isso e ainda estou aprendendo. O amor na teoria é uma coisa, na prática é outra. Não significa o mesmo para todas as pessoas, não é encontrado no mesmo lugar e da mesma maneira. Os que têm a sorte de encontrá-lo experimentam um sentimento de antiguidade, de reconhecimento, o amor antecede a sua realização. As pessoas amam o amor antes de vivê-lo. Ele não é nunca uma surpresa. Você está numa estação de trem esperando por ele. O problema é que se pode confundir e reconhecer a pessoa errada pára só depois perceber o engano. Mas isso não quer dizer que o amor não exista.

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A foto é de Eylul Aslan

Quem mandou essa lindeza foi outra lindeza, a Clá

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defesa da alegria

por   /  02/12/2010  /  14:19

Defesa da alegria, por Mario Benedetti

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

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A foto é do Chad Moore

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