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Posts da categoria "amor"

só ao fechá-la é que se sabe

por   /  07/12/2010  /  18:27

Conselhos do Conselheiro, por João Cabral de Melo Neto
1.
Temer quedas sobremaneira
(não as do abismo, da banheira).
Andar como num chão minado,
que se desmina, passo a passo.
Gestos há muito praticados,
melhor sejam ressoletrados.
2.
A coisa mais familiar
já pode ser o patamar
onde um corredor conhecido,
que se caminha ainda tranquilo,
leva a uma certa camarinha
que ninguém disse o que continha.
3.
Uma porta qualquer que se abre
só ao fechá-la é que se sabe
que não foi afinal a porta
que só abre do lado de fora:
embora como porta se abra
é só de um lado sua bisagra.
4.
De cada cama em que se sobe
se descerás? É que se pode?
E cada cama em que se deita
não será acaso a derradeira,
que tem tudo de cama, quase:
menos a tampa em que fechar-se.
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Ganheio o poema da beloved Yana Parente
A foto é daqui
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456 amigos e uma paralisia

por   /  07/12/2010  /  17:32

Conferência íntima, por Samarone Lima

Me impressiona um pouco quando me convidam para esses avanços da Internet, o compartilhamento de fotos, de labirintos e pandemônios, e vejo que algumas pessoas têm 456 amigos numa tacada só, ou num arquivo, ou num sistema.

Eu ficaria paralisado, sem saber a quem recorrer, no caso de uma aflição, um cansaço, uma deselegância, esses chauvinismos dos dias desafortunados. Olho, louvo a disposição para tanta gente, mas fico lembrando da época em que eu recebia cartas, direcionadas apenas para mim, com o selo pregado, o papel, o carimbo dos Correios etc. As cartas tinham rosto. Era a caligrafia da pessoa, a força de suas mãos. Tenho caixas dessas cartas comigo.

Lembro também de telefonemas do tipo “não estou bem, preciso conversar ainda hoje contigo”, e tudo se providenciava para o encontro, porque o “ainda hoje”, dito por um amigo, é o maior dos mandamentos.

É que sou de uma civilização do papel, dos amigos de carne e osso e de uma dose importante de conversa fiada. O que tem me preocupado mais nesse meu mundo, não é que eu tenha muitos ou poucos amigos. O alarmante mesmo é que estou vendo menos os amigos que ganhei da vida. Há uma certa dispersão de minha parte, que se acomoda gentilmente com minhas viagens, projetos, escritos. Era preciso que a gente tivesse menos obrigações, menos pensamentos lá adiante. Eu queria viver com menos, deixar todo o supérfluo de lado.

Ultimamente, as promessas de cafés se avolumam, os “precisamos nos encontrar” se renovam, e às vezes me lembro do “olá como vai” do Paulinho da Viola, embora o meu sinal esteja aberto para tantas coisas lindas. Outro dia, desmarquei um almoço com um velho amigo e depois pensei que era ridículo não peitar as demandas, fazer da agenda somente um objeto quadrado e relegado, dizendo “espera aí, compadre, que nos vemos daqui a pouco, isso é o mais importante para hoje”.

Há pouco, fui olhar uma coletânea de textos lindos, de pessoas queridas, que me chegaram pelo e-mail ao longo dos últimos anos. Me deu uma saudade, mas atravessoume o sentimento da distância reparável, uma constatação sem dor da dispersão natural. Aconteceu. Algumas pessoas de que gosto muito eu raramente encontro, apesar de queridíssimas, de saber da importância. Outro dia, o velho e bom Lourival Holanda disse que eu era avaro de mim mesmo, e fiquei a pensar sem nostalgia nisso, à beira do Parque 13 de Maio.

Talvez eu esteja somente distraído, introspectivo, nesse dia chuvoso no Recife. Muitas vezes acontece isso. Estou tão distraído, que não vejo o melhor. Talvez nós humanos sejamos um pouco assim, distraídos e dados ao efêmero.

Então escrevo, buscando talvez alguma espécie de redenção.

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Ontem chegaram as fotos de Ivi que escolhi no saldão. Lindas, lindas! De presente, ela mandou a “Coletânea Antônio Maria de Crônicas – Volume 1”, que li de ontem pra hoje. Adorei encontrar textos tão lindos e resolvi colocar uns por aqui.

Unindo autores estreantes a veteranos, a Coletânea, cujo título homenageia um dos mais relevantes cronistas da literatura brasileira, mostra o que de melhor se tem feito no estilo, passeando pelas páginas dos jornais e postagens dos blogs. Xico Sá, Adelaide Ivánova, Ivan Moraes Filho, Raimundo Carrero, Débora Nascimento, Artur Carvalho, José Mário Rodrigues, Bruno Piffardini, Lulina, Ronaldo Correia de Brito, Vitória Lima, Helder Herik, Theresa Bachmann, Samarone Lima, Ana Quitéria e Homero Fonseca são os cronistas que participam deste primeiro volume da coleção. Durante o lançamento, o público divertiu-se com o recital feito pelo grupo performático Vozes Femininas. O livro será vendido nas livrarias Cultura e Imperatriz, pelo preço de R$15,00.

As ilustrações, como a deste post, são de Cecília Torres > http://flavors.me/zenzi

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oco

por   /  07/12/2010  /  16:03

Oco, por Ivana Arruda Leite

Você lamenta que nada tenha dado certo entre nós, diz que nunca amou ninguém igual, que ainda sente muito minha falta e me imagina ao seu lado até hoje, dividindo o pouco que a vida lhe dá (um filhote de cachorro, um copo de vinho, um cd novo). Besteira lamentar, amor também é buraco e o nosso nasceu com essa vocação. E buraco é bonito também. E vai ficando mais bonito à medida que envelhece, mais bonito e mais fundo. Vista o seu que eu visto o meu.

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A foto é de Emily Chard

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mutações

por   /  05/12/2010  /  21:51

Acredito que é, algumas vezes, menos difícil acordar e sentir que estou sozinha quando realmente estou, do que acordar com alguém e me sentir solitária.

Espero que duas pessoas possam crescer juntas, lado a lado e dar alegria uma à outra. Sem que uma seja esmagada para a outra poder continuar forte.

Talvez amadurecer seja deixar os outros serem.

Permitir a mim mesma ser o que sou.

“Ninguém sacrificará sua honra pelo amor”, diz Helmer. E Nora responde: “Milhões de mulheres fizeram isso”.

Pergunto a Sam Waterston, que faz o papel de Helmer, se ele desistiria de sua profissão por uma mulher, caso, por alguma razão, isso fosse essencial para o prosseguimento da relação. Sam acha que não e me pergunta se eu o faria.

“Sim, é possível”. Penso a respeito disso. “Acho que muitas mulheres fazem isso porque acreditam, profundamente, na importância do amor.”

“Mas você não se atribui um valor maior?”, pergunta Sam.

“É isso que fazemos. Podemos desistir da nossa profissão porque valorizamos o que somos.”

Liv Ullmann, no maravilhoso “Mutações”

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A foto é de Chad Moore

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uma pergunta para marina colasanti

por   /  03/12/2010  /  16:09

Lola Magazine: O amor pode resistir ao desgaste do tempo?

Marina Colasanti: É difícil falar de amor, escrevi um livro inteiro sobre isso e ainda estou aprendendo. O amor na teoria é uma coisa, na prática é outra. Não significa o mesmo para todas as pessoas, não é encontrado no mesmo lugar e da mesma maneira. Os que têm a sorte de encontrá-lo experimentam um sentimento de antiguidade, de reconhecimento, o amor antecede a sua realização. As pessoas amam o amor antes de vivê-lo. Ele não é nunca uma surpresa. Você está numa estação de trem esperando por ele. O problema é que se pode confundir e reconhecer a pessoa errada pára só depois perceber o engano. Mas isso não quer dizer que o amor não exista.

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A foto é de Eylul Aslan

Quem mandou essa lindeza foi outra lindeza, a Clá

amor  ·  literatura

defesa da alegria

por   /  02/12/2010  /  14:19

Defesa da alegria, por Mario Benedetti

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

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A foto é do Chad Moore

amor  ·  fotografia  ·  literatura

no ônibus

por   /  30/11/2010  /  22:03

Por Raquel C., do Não sente ao meu lado > http://naosenteaomeulado.blogspot.com/

bom, aí eu tava lá chorando no ônibus.
não que eu seja descontrolada. nada a ver. sou uma pessoa dinâmica e ligada nas últimas estratégias de otimização de tempo. tô de bobeira no ônibus, como posso aproveitar esses minutos ociosos? dando uma choradinha. que aí eu chego em casa e já passei por essa etapa, posso me matar direto.
enfim, eu tava lá. chorando no ônibus, meio de lado, olhando pra janela. o ônibus cheio, mas não muito, algumas pessoas em pé. aquele calor senegalesco. esbarram na minha cabeça. ok.

esbarram de novo.
de novo de novo de novo.

notei uma certa sincronia e imediatamente pensei: tem alguém batendo com o pau na minha cabeça.
não me perguntem como eu soube. é todo um instinto para coisas inúteis. olhei de ladinho e tcharam! uma pessoa de pau duro estava se aproveitando dos mínimos movimentos do ônibus pra contemplar meus cabelos com uma pirocada.
nesse ponto você suspende todas as atividades e pensa que sua vida é uma piada muito ruim. ou então é de um humor tão sofisticado* que você, por ser tosca, não consegue compreender.
por essas e outras que nem valem ser mencionadas, cheguei em casa e concluí que ainda é 2009. nunca saímos de 2009. 2010 é só um fake desse ano interminável e sem noção.
faz parar.

(*isso significa que trocadilhos envolvendo a expressão “foder com a sua cabeça” não estão permitidos. abracinho.)
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A foto é da Amber Maria Chavez
etc  ·  literatura

antes e depois

por   /  23/11/2010  /  15:28

Antes e depois, por André Laurentino

Já fui melhor. E você também. Eis o charme do passado: tudo era melhor. Até o sofrimento antigo, por estar desbotado, era melhor do que o de agora, que ainda dói e é incômodo na sua exata dimensão. Ontem é a fantasia do hoje.

A seleção de 82, o Flamengo, o Rio de Janeiro de 50, São Paulo há 10 anos, sem tanto trânsito. Tudo era melhor. Não existia a Livraria da Travessa, não existia o smoothie de morango e banana, não existia a capa da The Economist com o Cristo decolando, não existia o iPhone nem o ingresso pela internet. E, ainda assim, antes era melhor. Como pode?

No feriado, visitei minha primeira escola. Academia Santa Gertrudes, bem no alto da Sé de Olinda. Senti o eco frio de um espírito distante, misto de independência, orgulho e pavor. Os azulejos estavam lá, testemunhando pecados e glórias. A cor das janelas, o piso vermelho, a escadaria com sua portinhola dos 7 anões. Tudo estava ali, diante do menino que podia tudo, aos cinco anos de idade.

Aquela época trazia possibilidades, enquanto o agora nos oferece apenas certezas. Aos encantos da promessa, nem a felicidade resiste. Que graça tem a felicidade diante da promessa de felicidade? Antes de toda Copa o Brasil é campeão. Antes do primeiro turno, todo candidato tem chance. Antes da pergunta, toda resposta é “sim”. Mas depois, ao escolher um caminho, o presente abre mão de muitos outros que poderiam ter sido. Esses muitos outros, no entanto, continuam vivos no passado. Em meus dias de Santa Gertrudes, eu podia ser jogador de futebol (grande goleiro), ator de televisão (esse André é engraçado), cantor, escritor de sucesso, acadêmico na Inglaterra. Tudo isso ainda existe na Olinda daqueles dias, daqueles anos, daquela inocência.

Nessa outra, às 11h35 da manhã, se quero me perder e ter dúvidas e beijar mil e cem possibilidades, leio Ferreira Gullar. Ou Vinicius de Moraes. Das palavras deles faço trampolim para lançar-me ao voo passarinho que minhas asas não podem mais. “Não podem, não podem!” É tarde: já podaram. Justo eu, que poderia ter sido melhor e mais infinito do que eles, e os demais poetas. Mas isso era antes. Hoje, quando muito me esforço, consigo ser eu mesmo.

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A foto é daqui

amor  ·  fotografia  ·  literatura