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Posts da categoria "literatura"

atração e repulsão

por   /  03/06/2010  /  20:07

– Se a Jude achava a sinuca vulgar – disse, retomando a conversa -, por que se casou com você?

– Eu tinha dinheiro e influência, e ela ainda podia desdenhar da minha ocupação. O melhor de dois mundos, não é?

– Ela não achava bacana você aparecer na televisão, pelo menos no começo?

– Sim, não tenha dúvida. Mas é engraçado como aquilo que nos atrai numa pessoa é o mesmo que passamos a desprezar nela.

Lionel Shriver em um trecho de “O Mundo Pós-Aniversário”. Depois de ler “Precisamos Falar sobre o Kevin” e esse aí, entendi que ela já é uma das minhas autoras preferidas.

O livro fala sobre um tipo de escolha difícil: pra quem entregar o coração. Irina é casada com Lawrance, e eles têm um amigo jogador de sinuca chamado Ramsey, com quem encontram esporadicamente. Em um certo aniversário de Ramsey, Irina sente vontade de beijá-lo. E o livro se desenrola a partir disso, em duas frentes: uma em que ela segue seu desejo, trai o marido, conhece a paixão, deixa uma vida pra trás e embarca noutra completamente diferente. E outra, em que Irina resolve se manter fiel e lida com as alegrias e frustrações do seu papel.

Quantas vezes a gente invoca o “e se…” para pensar nas escolhas que a gente faz ao longo da vida, né? O livro não deixa margem pra esse tipo de dúvida, porque a partir do beijar ou não beijar Ramsey, a escritora desenvolve as duas possibilidades, de maneira arrebatadora.

A foto é de Paperpilot

a poesia como futebol

por   /  03/06/2010  /  19:14

No “New York Times”, um belo texto sobre a poesia russa de outrora: When Poetry Rocked Russia’s Stadiums

Russians did not fall in love with their poets only because they attended to their country’s political realities, however. Far from it. As Vladimir Nabokov pointed out in his “Lectures on Russian Literature,” “Literature belongs not to the department of general ideas but to the department of specific words and images.” Delight and close observation can have a liberating moral force of their own. Here is a taste of Tsvetaeva’s charming antilove love poem, “I like the fact that you’re not mad about me,” from 1915, translated by Andrey Kneller:

I like the fact that you’re not mad about me,
I like the fact that I’m not mad for you,
And that the globe of planet earth is grounded
And will not drift away beneath our shoes.
I like the fact that I can laugh here loudly,
Not play with words, feel unashamed and loose
And never flush with stifling waves above me
When we brush sleeves, and not need an excuse.

la amorosa x jenifer dos caras

por   /  12/05/2010  /  0:49

João Wainer + Xico Sá + Las Cholitas Lutadoras = o melhor texto e as melhores fotos que vocês verão em muito tempo!

Yolanda, La Amorosa, retoca a maquiagem no capricho de quem vai encontrar o homem da sua vida em uma festa, comprime um lábio no outro para corrigir conscientemente o batom, põe os brincos de ouro, ajeita as cinco camadas entre saia e anáguas, dá um leve toque -um tapinha de nada, quase sem propósito- no chale sobre os ombros, mira de forma sedutora os homens presentes naquele camarim e, poderosa, parte para o ringue ao som de um trilha caliente e romântica.

Os marmanjos que lotam o ginásio da serra de El Alto, a 4.900 metros de altitude, babam, deliram, grunhem selvagens e intraduzíveis onomatopéias. Eles estão nas nuvens, bem perto dos céus, e a testosterona escorre dos cantos das suas bocas nervosas e devoradoras de salteñas, a comida típica boliviana que domina as arquibancadas de circo mambembe.

La Amorosa mal sobe ao ringue, com os homens, comovidos, ainda apertando as duas mãos sobre os corações para reverenciá-la, e eis que surge a temível desafiante Jenifer Dos Caras (duas caras, a falsa e violentíssima), ao som de um tecno maligno dos infernos. Até as crianças, que ficam a correr e se pegar em brincadeiras perversas que imitam o que se passa no ringue, paralisam, estátuas, para ver o que está acontecendo. Jenifer massacra a queridinha do público.Bate sua linda e sedutora face no tablado. Por mais que haja um truque de melodrama mexicano -o grande segredo da luta livre- a desafiante machuca mesmo, vi como aparecem roxas depois em todos os corpos.

Minutos antes, elas haviam me confessado: ao contrário da briga dos homens no mesmo gênero, com as mulheres não há amizade, é porrada, sangue. Mulheres. Yolanda reage. O público enlouquece. No duelo, suas coxas se expõem um tanto, algo incomum para uma cholita na sua rotina. Nosso fotógrafo João Wainer está de frente para o crime, pero, respeitoso, muda o foco. Os machos gozam como em um gol no Morumbi ou no Maraca. Agora parecem fêmeas que se pegam na rua em disputa ridícula por um homem, acontece: luta de cabelos, com chutes nos países baixos. Dói só de vê-las.

Leiam a reportagem completa e vejam as maravilhosas fotos no blog do João Wainer: Las Cholitas Luchadoras

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alameda santos

por   /  09/05/2010  /  16:32

“Alameda Santos” é o livro ideal para uma noite de sábado chuvosa em São Paulo. Eu tenho essa coisa de sempre gostar de entender no mapa da minha cabeça as referências de um livro. E Ivana Arruda Leite passeia pela Benedito Calixto, pelo Bexiga, desce a Consolação. Mas o melhor nem é a geografia, mas a forma como ela conta os dramas de uma mulher de 30 e poucos anos, desquitada, com uma filha pra criar e com toda a paixão do mundo para se envolver no que dá e, principalmente, no que não dá certo.

A história é simples: a cada final de ano, entre 1984 e 1992, quando a Globo começa a anunciar sua retrospectiva, a tal mulher faz a sua própria, lembrando o que aconteceu, o que sentiu, o que mudou. Tudo gravado em fita K7. Do tédio como funcionária da Caixa ao prazer de beber cerveja, vodka ou uísque até de manhã, ela vai mostrando como é a vida adulta de verdade, com muito menos floreios que outro tipo de literatura, o cinema e a TV tentam incutir na gente. E ainda sem auto-piedade, mas com força pra buscar a reivenção após cada queda.

Engraçado como um livro pode dizer tanto sobre a vida de um adulto e lembrar tanto a de uma criança. Porque o tempo em que “Alameda Santos” se passa é o da inflação assustadora, que fazia o preço do pão ser diferente de manhã e à noite; o tempo de novelas como “Meu bem, meu mal”, que eu adorava, assim como Gabi, a filha da personagem; da febre que era “Pantanal”, capaz de reunir a família inteira para ver Juma Marruá. Mais pro final, é o tempo da frustração causada por Collor e da estupefação diante do assassinato de Daniela Perez.

O texto de Ivana tem aquela simplicidade que você imagina o quanto custou a ser talhada. O bom é que chega na gente direto assim, como a conversa com uma amiga louca, imprevisível e apaixonada. Um pouco como cada uma de nós.

Portanto, leitura mais que recomendada! Para dar um gostinho, segue um dos muitos trechos que grifei no meu livro:

Aconteceu com ele o mesmo que aconteceu comigo. Duas feras feridas loucas por um cafuné. Quando ele se sentiu amado, se derreteu. Conclusão, ele se apaixonou por mim e eu por ele. Ficamos totalmente relaxados um na presença do outro. Mas ninguém se atreva a chegar perto porque a gente rosna e avança.

A foto da Alameda Santos é de Camilo Pedroso

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o amor silencioso e quieto

por   /  29/04/2010  /  15:29

Prefiro o amor silencioso e quieto:  um sentimento que não foi feito pra todo mundo frequentar.

Casamento é uma tentativa de fortalecer um laço que tem a fragilidade como essência – e aí mora sua magia. Deve-se tomar cuidado com a armadilha de ter que ser para sempre. A obrigação é inimiga do desejo. Ignorar a promessa de eternidade talvez seja um bom começo para quem quer ficar junto o resto da vida.

Para uma relação, levam-se problemas, histórias, medos, frustrações. Mas não é essencial casar-se com a fila de banco que o outro teve que frequentar, nem com a irritação depois de um dia de trabalho. É importante dar colo o tempo todo. Dividimos com o outro as coisas difíceis na intenção de que elas se dissipem, não na de que aumentem de tamanho. Se for somar, que sejam as alegrias.

Cris Guerra, sempre maravilhosa, escreve sobre amor e casamento na revista “Encontro”

A foto que escolhi para acompanhar o texto é de Lauryn Homlquist

E quem mandou a dica foi minha querida amiga Luiza Voll

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precisamos falar sobre o kevin

por   /  19/04/2010  /  22:50


Você adorava saborear o tempo presente e tinha mais consciência que qualquer outra pessoa que eu conheço de que todos seus componentes são fugazes.

Não me dou ao luxo de refletir sobre o quanto receio em ir vê-lo, ou, bem mais improvável, o quanto anseio por isso. Eu apenas vou.

Quanto à minha despedida dele hoje, pensei em deixar isso de fora. Mas é justamente o que eu gostaria de ocultar de você que talvez eu precise justamente incluir.

Acho que já deu pra perceber por que eu precisava de um café para me animar. Foi necessária uma grande força de vontade para evitar o bar.

Fato que indiscutivelmente me faz voltar àquela noite seminal de maio de 1982, quando minha expectativa de que você fosse entrar pela porta a qualquer momento era bem menos absurda.

Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia.

Gozado como a gente vai escavando o buraco com uma colherinha de chá – uma concessão mínima, um arredondamento insignificante ou uma levíssima reformulação de determinada emoção para outra que seja um tiquinho mais simpática ou lisonjeira. Não me importava o fato em si de me ver privada de uma taça de vinho. Mas, como a lendária viagem que começa com um único passo, eu já tinha embarcado no meu primeiro ressentimento.  Ressentimento banal, é verdade, mas a maioria deles o é. E, por  sua pequenez, me senti obrigada a reprimir. Por falar nisso, essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina.

Porém aquela decisão apressada tomada em maio fora uma ilusão. Eu já havia resolvido bem antes, na verdade no dia em que me apaixonei irrecuperável e irrevogavelmente por esse seu franco sorriso americano, por essa sua fé inabalável em piqueniques.

De lá para cá, aprendi que a tragédia não é uma coisa que deva ser amontoada. Apenas os intocados, os bem alimentados e os contentes poderiam ambicionar o sofrimento, como um paletó de grife. Eu doaria prontamente minha história ao Exército da Salvação, de sorte que alguma outra desmazelada, carente de cor, pudesse gastá-la.

Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a idéia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos-ver.

Mais tarde, você se referiu a essa anedota para mosrar que minhas expectativas eram sempre absurdamente gigantescas; que minha sofreguidão pelo exótico era autodestrutriva porque, assim que eu pinha as mãos no extraordinário, ele passava ao plano do comum e não contava mais.

Não há batalha mais fadada ao fracasso do que a travada com o imaginário.

Saí perdendo, claro, mas quem está desesperado em geral opta pelo alívio de curto prazo, em troca de prejuízos a perder de vista. De modo que vendi meu direito inato por um prato de sopa.

Nada é interessante se você não estiver interessado.

Eu devia ter pensado nisso antes de lhe dar o presente, se bem que é óbvio que evitar relacionamentos por medo da perda é evitar a vida.

Trechos e mais trechos de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, de Lionel Shriver _um dos mais surpreendentes livros que li nos últimos tempos. É um romance epistolar narrado pela mãe de um adolescente quase sem coração que mata colegas de sua escola, nos Estados Unidos. De tirar o fôlego, de fazer com quem você queira voltar para casa só para continuar a ler uma história que te faz passar da pena à revolta e que te deixa com um embrulho no estômago bastante real. E que, como todo bom livro, carrega várias verdades sobre a vida, suas alegrias e seus sofrimentos. Recomendo muito a leitura.

* Os desenhos são de Nura Porat

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a prateleira ideal

por   /  14/04/2010  /  16:30

Queria contratar a Jane Mount para ilustrar toda a organização das minhas estantes! Com os desenhos dela também ficaria fácil saber que livros foram surrupiados, né? Porque é esse o grande pânico das pessoas apegadas aos seus objetos transcendentes que podem ser amados do amor táctil que votamos aos maços de cigarro

Vejam mais: http://www.janemount.com/art/sets/Books/IdealBookshelf15.php

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segredos

por   /  05/04/2010  /  8:06

Dentro de cada coração há um segredo guardado, um segredo que jamais será contado à melhor amiga, nem ao padre nem ao psicanalista. Não que seja algo que deva ser escondido, mas é uma coisa que não poderá, jamais, ser dividida com ninguém: é uma coisa só sua. Pode se tratar de um fato que aconteceu e que seria um escândalo se alguém soubesse, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas dele ninguém vai saber, nunca.
Virou uma mania contar tudo que nos acontece; mas as mais graves, mais sérias, que vêm lá do fundo, essas não se conta a ninguém. A gente pensa que certos pensamentos só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito interessantes, gente que já percorreu o mundo e passou por todas as experiências: ledo engano. Na vida da mais humilde lavadeira da periferia podem ter acontecido coisas que fariam inveja à mais bela e elegante mulher da cidade, que talvez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância nunca perdeu tempo olhando seu próprio coração.

Danuza Leão escreve sobre segredos, na Folha de ontem (para assinantes)

A foto é de Suzy Wimbourne

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