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Posts da categoria "amor"

o amor silencioso e quieto

por   /  29/04/2010  /  15:29

Prefiro o amor silencioso e quieto:  um sentimento que não foi feito pra todo mundo frequentar.

Casamento é uma tentativa de fortalecer um laço que tem a fragilidade como essência – e aí mora sua magia. Deve-se tomar cuidado com a armadilha de ter que ser para sempre. A obrigação é inimiga do desejo. Ignorar a promessa de eternidade talvez seja um bom começo para quem quer ficar junto o resto da vida.

Para uma relação, levam-se problemas, histórias, medos, frustrações. Mas não é essencial casar-se com a fila de banco que o outro teve que frequentar, nem com a irritação depois de um dia de trabalho. É importante dar colo o tempo todo. Dividimos com o outro as coisas difíceis na intenção de que elas se dissipem, não na de que aumentem de tamanho. Se for somar, que sejam as alegrias.

Cris Guerra, sempre maravilhosa, escreve sobre amor e casamento na revista “Encontro”

A foto que escolhi para acompanhar o texto é de Lauryn Homlquist

E quem mandou a dica foi minha querida amiga Luiza Voll

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precisamos falar sobre o kevin

por   /  19/04/2010  /  22:50


Você adorava saborear o tempo presente e tinha mais consciência que qualquer outra pessoa que eu conheço de que todos seus componentes são fugazes.

Não me dou ao luxo de refletir sobre o quanto receio em ir vê-lo, ou, bem mais improvável, o quanto anseio por isso. Eu apenas vou.

Quanto à minha despedida dele hoje, pensei em deixar isso de fora. Mas é justamente o que eu gostaria de ocultar de você que talvez eu precise justamente incluir.

Acho que já deu pra perceber por que eu precisava de um café para me animar. Foi necessária uma grande força de vontade para evitar o bar.

Fato que indiscutivelmente me faz voltar àquela noite seminal de maio de 1982, quando minha expectativa de que você fosse entrar pela porta a qualquer momento era bem menos absurda.

Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia.

Gozado como a gente vai escavando o buraco com uma colherinha de chá – uma concessão mínima, um arredondamento insignificante ou uma levíssima reformulação de determinada emoção para outra que seja um tiquinho mais simpática ou lisonjeira. Não me importava o fato em si de me ver privada de uma taça de vinho. Mas, como a lendária viagem que começa com um único passo, eu já tinha embarcado no meu primeiro ressentimento.  Ressentimento banal, é verdade, mas a maioria deles o é. E, por  sua pequenez, me senti obrigada a reprimir. Por falar nisso, essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina.

Porém aquela decisão apressada tomada em maio fora uma ilusão. Eu já havia resolvido bem antes, na verdade no dia em que me apaixonei irrecuperável e irrevogavelmente por esse seu franco sorriso americano, por essa sua fé inabalável em piqueniques.

De lá para cá, aprendi que a tragédia não é uma coisa que deva ser amontoada. Apenas os intocados, os bem alimentados e os contentes poderiam ambicionar o sofrimento, como um paletó de grife. Eu doaria prontamente minha história ao Exército da Salvação, de sorte que alguma outra desmazelada, carente de cor, pudesse gastá-la.

Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a idéia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos-ver.

Mais tarde, você se referiu a essa anedota para mosrar que minhas expectativas eram sempre absurdamente gigantescas; que minha sofreguidão pelo exótico era autodestrutriva porque, assim que eu pinha as mãos no extraordinário, ele passava ao plano do comum e não contava mais.

Não há batalha mais fadada ao fracasso do que a travada com o imaginário.

Saí perdendo, claro, mas quem está desesperado em geral opta pelo alívio de curto prazo, em troca de prejuízos a perder de vista. De modo que vendi meu direito inato por um prato de sopa.

Nada é interessante se você não estiver interessado.

Eu devia ter pensado nisso antes de lhe dar o presente, se bem que é óbvio que evitar relacionamentos por medo da perda é evitar a vida.

Trechos e mais trechos de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, de Lionel Shriver _um dos mais surpreendentes livros que li nos últimos tempos. É um romance epistolar narrado pela mãe de um adolescente quase sem coração que mata colegas de sua escola, nos Estados Unidos. De tirar o fôlego, de fazer com quem você queira voltar para casa só para continuar a ler uma história que te faz passar da pena à revolta e que te deixa com um embrulho no estômago bastante real. E que, como todo bom livro, carrega várias verdades sobre a vida, suas alegrias e seus sofrimentos. Recomendo muito a leitura.

* Os desenhos são de Nura Porat

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a prateleira ideal

por   /  14/04/2010  /  16:30

Queria contratar a Jane Mount para ilustrar toda a organização das minhas estantes! Com os desenhos dela também ficaria fácil saber que livros foram surrupiados, né? Porque é esse o grande pânico das pessoas apegadas aos seus objetos transcendentes que podem ser amados do amor táctil que votamos aos maços de cigarro

Vejam mais: http://www.janemount.com/art/sets/Books/IdealBookshelf15.php

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segredos

por   /  05/04/2010  /  8:06

Dentro de cada coração há um segredo guardado, um segredo que jamais será contado à melhor amiga, nem ao padre nem ao psicanalista. Não que seja algo que deva ser escondido, mas é uma coisa que não poderá, jamais, ser dividida com ninguém: é uma coisa só sua. Pode se tratar de um fato que aconteceu e que seria um escândalo se alguém soubesse, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas dele ninguém vai saber, nunca.
Virou uma mania contar tudo que nos acontece; mas as mais graves, mais sérias, que vêm lá do fundo, essas não se conta a ninguém. A gente pensa que certos pensamentos só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito interessantes, gente que já percorreu o mundo e passou por todas as experiências: ledo engano. Na vida da mais humilde lavadeira da periferia podem ter acontecido coisas que fariam inveja à mais bela e elegante mulher da cidade, que talvez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância nunca perdeu tempo olhando seu próprio coração.

Danuza Leão escreve sobre segredos, na Folha de ontem (para assinantes)

A foto é de Suzy Wimbourne

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quase

por   /  02/04/2010  /  20:28

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Para os erros há perdão;
para os fracassos, chance;
para os amores impossíveis, tempo…
( Sarah Westphal )

Escrito por Marília; encontrei no Dias e Horas

A foto é de Meagan

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uma das tantas ciladas do amor

por   /  10/03/2010  /  2:20

Na realidade, era muito pouco o que sabia Fermina Daza daquele pretendente taciturno que aparecera em sua vida feito uma andorinha de inverno, e de quem não saberia sequer o nome se não fosse a assinatura da carta. Apurara desde então que era filho sem pai de uma solteira laboriosa e séria, mas marcada sem remédio pelo estigma de fogo de um único mau passo juvenil. Descobrira que não era mensageiro do telégrafo, como supunha, e sim assistente bem qualificado e de futuro promissor, e achou que levara o telegrama a seu pai apenas como um pretexto para vê-la. Essa suposição a comoveu. Também sabia que era um dos músicos do coro, e embora nunca tivesse ousado levantar a vista para comprová-lo durante a missa, um domingo teve a revelação de que enquanto os outros instrumentos tocavam para todos o violino tocava só para ela. Não era o tipo de homem que tivesse escolhido. Seus óculos de menino enjeitado, sua postura clerical, seus recursos misteriosos haviam suscitado nela uma curiosidade difícil de resistir, mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra das tantas ciladas do amor.

Gabriel García Márquez, em “O Amor nos Tempos do Cólera”

A foto é de Charlie Engman: http://www.flickr.com/photos/37127597@N08/

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as relações…

por   /  09/03/2010  /  1:45

– No hay nada para contar – repuse secamente-. He pasado quince días en la Costa Azul con alguien que me gustaba. Por diversos motivos, la historia no pasa de aquí.

¿ Es casado? – inquirió finamente.

– No. Sordo-mudo. Ahora, es preciso que deshaga mi maleta.

Françoise Sagan, em “Una Cierta Sonrisa”

A foto é de Melanie Rodriguez: http://www.flickr.com/photos/melanierodriguez/

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