Favoritos

Posts da categoria "#líricasafetivasDTMM"

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Homem é tudo babaca

por   /  19/11/2018  /  19:19

b

São duas da madrugada, estou do outro lado do oceano, e que belo momento para ter uma crise de ansiedade. Gosto de pensar que a criação e a escrita são a minha válvula de escape. Com os pensamentos a milhões por hora, entre fisioterapias, ônibus e caminhos, um grande de um boylixo me vem à cabeça. Chico Bento, essa é a sua fita.

Nesse ano amadureci bastante, mas ainda não o suficiente para não deixar minhas experiências negativas em relacionamentos me afetarem mesmo em momentos bons da minha vida. Ele poderia ter ficado calado, poderia ter sido um caso rápido e gostoso, mas ele preferiu proferir palavras, fazer planos e juras. Eu inocentemente baixei a guarda e me deixei acreditar por achar que ele estava falando a verdade.

Ele não é branco, e isso já foi um ponto a mais no balanço. Mas não é por ser um cara indígena que ele estava imune a ser um boylixo, pelo contrário, isso só mostra que macho é tudo macho mesmo. Nesse momento, eu me encontro num misto de frio, raiva e angústia, e minhas palavras soam mais agressivas, como uma criança que planeja uma vingança boba contra um coleguinha. Mas, como já disse antes, eu não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Quando nos conhecemos, eu não estava nem um pouco a fim de me envolver romanticamente com ninguém. Mas o desejo não tardou muito a aparecer, a atração era mútua e visível para todo e qualquer olho ao nosso redor. Uma atmosfera tímida de paquera foi surgindo, entre olhares distantes, toques e aproximações. Sem nenhum motivo especial, houve uma conexão.

Nesse exato momento, minha vontade é de mandar ele arder no inferno. E estou fazendo isso mentalmente, porque é madrugada e eu não posso gritar ou externar o que sinto. Talvez esse não seja o melhor momento para escrever essa história, mas eu sinto que se não fizer isso agora – entre pausas pra fechar os olhos e me aquecer – eu não vou conseguir dormir.

Eu tomei a iniciativa, como sempre. Sinto que em algum lugar da minha existência eu intimido os caras. Sinto não, tenho certeza, e já ouvi isso de algumas pessoas.

Ao primeiro primeiro passo dado por mim, ele deu um passo adiante. E assim começou uma história que poderia ter existido sem qualquer peso ou traço de lixão se para os homens, não fosse tão tentador colocar a gente num lugar vulnerável.

“Assim eu me apaixono”. Li isso e me contorci até o chão algumas horas antes de rolar o primeiro encontro depois que a paquera já estava encaminhada, quando passamos o fim de semana inteiro trocando mensagens vestidas de vontades e afetos. Tudo falso. Tinha uma falsiane bem na ponta do meu nariz e não fui capaz de reconhecer.

A gente carrega essa culpa, esse sentimento de achar que poderia ter evitado desgaste, que devia ter sido mais esperta que boy que não tem um pingo de responsabilidade pelo que faz, mesmo com quase 40 anos na cara e pai. Novamente, parece que nada, raça, idade, localização espacial, gosto musical, cueca boxer ou samba canção, faz a mínima diferença quando se trata de destratar alguém que teve coragem de se abrir num mundo onde enganar se tornou hábito comum.

Eu me via blindada, queria estar blindada depois de ter passado por uma relação fracassada. Mas com tantas, inúmeras, várias, muitas mesmo, atitudes românticas eu pensei: “né possível que ele tá falando isso tudo da boca pra fora”. Apois te ilude.

Diversas vezes caras ficavam comigo num cantinho, ele não. Isso também adicionou pontos no balanço total. Assumir uma mulher preta é coisa rara, e isso, se somando a outros acontecimentos, me fez criar uma expectativa que ele não teve culhão pra bancar. Filhos? Não sei vocês, mas eu falo de filhos com todos os boys que eu fico (por favor entenda a ironia). “Imagina um filho nosso, meio indígena, meio tu. Mas só se você quiser.” Me abraçou apertado como quem diz “é verdade esse bilete”.

Não se cansava de falar sobre paixão, ou de dizer que viajaria pra me ver onde eu estivesse. E que mesmo distantes, sempre iria ter um lugar nosso. Assim como aquela velha frase que eu não acredito nunca mais “We’ll always have Paris”, a gente teria a casa na roça pra fugir do mundo, tomar blend de café em caneca livre de poliuretano e ter um lifesytle Chico Bento feat. “Minha Rosinha”. Palavras dele. Juras, promessas e planos não partiram de mim, eu apenas acreditei, e acho que muitas pessoas em meu lugar também acreditariam.

Como de praxe, ele sumiu. “Magicamente”, reapareceu mandando essa mensagem da foto. Mas eu me tornei sagaz, e não deixo mais barato. Eu tava na casa de uma amiga e cheguei a uma conclusão. Enquanto ela gritava lá de dentro do quarto “é isso, amiga. Macho é tudo igual mesmo”, eu gritei da rede onde me balançava “só muda de nuance!”, e a gente riu. É que nem paleta de cores. Não deixe que eles tornem tudo cinza.

Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Método para identificar boylixo

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Método para identificar boylixo

por   /  21/09/2018  /  13:13

Dandara1

Método para identificar boylixo, por Dandara de Morais

Tinha alguma coisa errada. Como é possível que nenhum cara ficou/fica por mais de um mês na minha vida? Isso quando chega a um mês, porque geralmente não passa de 3, 4 vezes “saindo” juntos. Entendendo que a história se repetia sempre,  comecei a notar um padrão de comportamento que se repetia com cada um deles, independente de idade, esquerda, direita, localização espacial. Juntamente com o fato de ter mais amigas negras e saber que elas viviam o mesmo, consegui  (só um pouco)  deixar de me sentir culpada por nenhum deles ficar na minha vida.

As minhas experiências me levaram a catalogar os caras de acordo com as seguintes perguntas:

– Era sempre quando e onde ele queria?

– Ir “ver um filme” na casa dele era o programa de vocês?

– Houve algum tipo de constrangimento da parte dele ao ficar em público?

– Vocês só ficavam “escondidos” ou afastados de amigos/conhecidos?

– Simplesmente parou de te responder? Não te cumprimenta quando te encontra?

Se você respondeu sim a todas essas perguntas, não vou te dar parabéns, e sim um tapinha nas costas pra consolar. Aplicar esse método resultou em mais dedos nas mãos do que boys decentes.

Achamos que os sinais de lixão que captamos são invenção da própria cabeça. “Mas a gente saiu naquele dia prum barzinho”, “Que é isso, tô aqui com você não é?”, “Não te vi naquele dia, tava meio aéreo”. NÃAAAAAAAO! Não é coisa da sua cabeça, amada! Precisamos começar a entender de quem é a culpa. Que não é nossa, claro. São séculos de tratamento dos nossos corpos como meros objetos. Ali que começou a negação de nossa subjetividade e consequentemente a rejeição.

Sim, tristemente menos de 10 caras passam nesse teste quando eu aplico. O mais bizarro é que, ao ser tratada com respeito, carinho e atenção, ele automaticamente ganha pontos. É tanto boylixo, tratando mal. Já perceberam que ao encontrar um cara massa tendemos a dizer “ele me trata tão bem”? Não é bem assim. Tratar uma pessoa bem é o mínimo esperado.

Tinha esse boy, que em uma das perguntas recebeu um não, mas nem por isso eu acho ele menos lixo. A gente se fala, se cumprimenta, ele me respeita e se preocupa comigo. Mas no fundo do seu ser, e dentro das minhas péssimas experiências com boys, eu caracterizo ele como boylixo. Demos match no Tinder (rsrs) há muitos anos. Conversa vai, conversa vem, e nada de sair. Até que um dia ele não respondeu mais, e eu não lembro como, mas anos depois voltamos a conversar.

Ficamos algumas vezes, na casa dele.  As amizades que tínhamos em comum até sabiam que tava rolando algo, mas nunca nos viram juntos.

Um dia teve uma festa, e essas amizades estavam presentes, assim como ele. Lembro que ele chegou me deu um abraço (tinham pessoas por perto) e foi pro bar comprar cerveja. Aí comecei a pensar “que estranho, ele nem falou comigo direito” e não muito tempo depois comecei a duvidar da minha intuição. “Não, ele é tão legal! Ele não faria isso,  então fui atrás dele. Tinha algum amigo perto, e eu, com medo de levar um fora, esperei sair. Cheguei perto dele e disse brincalhona “ei, você não falou comigo direito!”, tentando amenizar a situação, porque pra gente ouvir um “isso é coisa da tua cabeça” é um piscar de olhos.

Eu questionei ele, dito e feito. “É coisa da tua cabeça, mulher”. Me deu um beijo sem graça e foi pra galera. E nada de demonstrações de afeto pelo resto da noite. O que pra ele pode ter sido inocente, pra mim foi mais um boy se sentindo constrangido. E eu finalmente entendi isso.

Em algum momento dessa história, combinamos de sair: ir pra casa dele… Mas antes, ele quis conversar, disse que achava melhor morgar por motivos de não lembro muito bem. Mas não faz a menor diferença. Beleza, tchau e benção. Depois ele apareceu namorando com outra pessoa.

Eu até questionei ele sobre as atitudes que teve enquanto a gente tava saindo e ele disse que não tinha nada a ver. Que já teve uma namorada negra, e que a atual também era. Negras de pele mais clara que a minha e cabelos lisos. Aham, Cláudia.

Ele não foi 100% lixo, mas sinto informar que isso não redime ninguém do que aconteceu no passado. E definitivamente não preciso me desculpar ou carregar qualquer peso por achar que nessa relação ele teve um quê de boylixo. Vacilou, boy.

Dandara2

Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Número 0

por   /  10/09/2018  /  11:11

Número 0, por Dandara de Morais

(A imagem é de @nitimueth)

Eu tinha 16,  ele talvez 18. Na época, eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em uma amarração, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa. Vou chamá-lo de Numero 0. Número 0 era mais alto que eu, lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda adolescente hardcore de Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de usar bermudas do meu irmão, All Star cano médio pintado de tênis e trancinhas no cabelo.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu insegura, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, subir na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho, e foi lá onde rolou o primeiro beijo: perdi o bv. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente super soltos, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa.

Ele sumiu por um ano.

Reapareceu, e não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa. E eu, inocentemente, acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Hoje em dia não sou imune a boylixo, mas sei reconhecer melhor os indícios de frustração e pura treta – e, assim, economizar desgastes maiores.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do ballet também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Tenho fotos surpreendentes dessa época, é muito interessante observar, sou muito nostálgica, posso passar um tempão olhando e catando foto antiga.

Viajei. Ele parou de falar comigo.

Não dava mais sinal de vida, a plaquinha não subia, não respondia mensagem. E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo, ele então nem pensar.

Foi a minha primeira experiência de ser trocada por outra, branca. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhou na minha cara. Disappointed but not surprised né? Já a amiga falou comigo e de uma forma discreta pediu desculpas. Hoje em dia não vejo mais ele, e ela muito raramente ou pelo Instagram. Escrever sobre isso me tira um peso enorme. Respiro bem bem bem fundo e digo a mim mesma: não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos. Taca le pau!

Coluna: Líricas afetivas, por Dandara de Morais

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  20:00

Dandara

O Don’t Touch sempre foi, e é, um blog sobre o amor. Por isso é com muita alegria que compartilho essa novidade com vocês. A partir de hoje, inauguramos a primeira coluna deste blog! Assinada por Dandara de Morais, atriz, bailarina, diretora de cinema e ativista. A cada 15 dias, texto novo dela por aqui.

Líricas Afetivas pra boy lixo – Uma breve explicativa do que me trouxe até aqui

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.” Bell Hooks

Pra início de conversa, confesso aqui que meu primeiro beijo foi quando tinha 16 anos.  O primeiro, e único namorado da vida, quando eu tinha 25. Não tão incomum assim. Sempre falei sobre como me sentia usada pelos caras, um mero objeto, usado e descartado, e ouvindo que a culpa era minha, da boca das pessoas que eu tinha um cariño enorme.

“Mas, você se apega demais”. Era o que eu sempre encontrava como resposta quando eu tentava desabafar, e aquele sentimento de que tinha alguma coisa errada comigo foi crescendo e se instalando com raízes profundas dentro de mim ao longo dos anos. Eu falava sobre a solidão da mulher negra sem nem saber que o que eu sentia/vivia tinha nome, e muitas outras meninas, garotas, mulheres negras passavam pelo mesmo.

Até alguns anos atrás a maioria da minhas amizades eram pessoas brancas. Eu fui a mais feia da escola até uns 14 anos. Minha melhor amiga branca era a mais bonita, namorou e ficou com todos os meninos que eu gostava. Gran amiga! Quando fiquei maiorzinha e comecei a enxergar um pingo de beleza em mim, continuei sendo rejeitada e sem entender porque nenhum boy se interessava em mim. Se eu sou tão bonita, tão legal e engraçada, o que tem de errado comigo que ninguém fica na minha vida?

Muito fácil pensar que realmente o problema é meu, que eu sou exigente, complicada, carente, “fácil” ou qualquer outra palavra que sirva pra jogar a culpa das rejeições em cima de mim. Somente há uns 2, 3 anos, eu comecei a falar e como resposta ouvir “eu também me sinto assim”, porque comecei a fazer mais amigas – que não largo nunca mais – negras. Mulheres maravilhosas, talentosas, inteligentes, criativas, divertidas, fofas, minhas meninas rainhas. Então comecei a perceber que o problema não era comigo de jeito nenhum, que eu não tava louca, exagerando, ou exigindo demais dos outros.

“(…) Muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.”

Eu já fui trocada por mulheres brancas diversas vezes. O cara dizia aquele velho “não quero nada sério” e semanas (ou até dias mesmo) depois aparecia namorando. Já passei por situações do cara não me beijar na frente de amigas y amigos, mas me ligar tarde da noite me chamando pra casa dele (não era pra ver filme). Já fui ignorada, feita de louca, assediada, abusada, enrolada, levada a acreditar por jogos psicológicos que eu estava errada e exagerando. Enfim, é muita história. Eu tinha blogs e diários, escrevi muito durante anos, mas a ansiedade máxima me pegou, e agora sentar pra escrever é algo raro, e difícil de se começar a fazer.

Como até na terapia eu ouvia que o problema era comigo, acho que comecei a confiar mais nas folhas de papel e nas páginas de meus blogs, eu podia falar o que quisesse sem medo de ser incompreendida. Encontrei até pessoas que me entendiam bastante, mas isso não vem ao caso agora. Eu sempre tive vontade de escrever sobre cada boy que me envolvi na vida, alguns não passariam de um parágrafo, outros eu teria que resumir bastante a história. Esse ano finalmente consegui virar autora. Descobri que podem ser crônicas, e é isso que eu vou fazer.

Paralisada por muitos sentimentos ruins durante anos, agora eu consigo finalmente me apropriar das minhas próprias mazelas e então produzir algo de bom com isso. Colocar pra fora, na esperança de que tenha alguma serventia, que esses sentimentos ruins que sempre me acompanharam, as experiências negativas, tão cruéis e destrutivas se transformem em histórias, que sirvam de alguma forma para refletir e entender porque tanto se fala sobre essa solidão e rejeição das mulheres negras.

Sempre que eu escrevo eu penso no que as minhas palavras representam. Podem ser coisas muito íntimas, mas com certeza uma ou duas mulheres já passaram pela mesma situação. Então é por isso que eu falo, até brinco, gosto de dizer que eu aprendi a tirar onda da minha própria cara. Se eu tivesse que escolher um gênero para enquadrar a minha vida seria a tragicomédia. Feliz e triste, rindo mas sofrendo, dou início a uma série de crônicas (nem sei se é esse o nome, mas tudo bem) que meu irmão um dia me disse para escrever.

Enquanto as mulheres brancas lutam pela liberdade sexual, nós negras ainda queremos ser reconhecidas como parceiras, companheiras. Se segura, Berenice, aqui vamos nós.

—–

Leituras recomendadas:

“Para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis, você tem que negar a sua cor”

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

Dissertação: “A solidão da mulher negra: sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”

Vivendo de Amor

 

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  13:13

Dandara

Líricas afetivas pra boy lixo: Número 0

Eu tinha 16, acho que ele tinha 18. Na época eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em um penteado, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa, tá? Vou chamá-lo de Número 0. Número 0 era mais alto que eu, com lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda de hardcore em Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de umas bandas meio autorais adolescentes da cidade.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu tímida, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Não tinha. Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, dar uma voltinha na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho – e onde rolou o primeiro beijo. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa. Toda boba.

Não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa, e eu inocentemente acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Claro que hoje em dia não sou imune a boy uó, mas sei reconhecer melhor os indícios de pura treta e complicação de vida. Porque as pessoas gostam de complicar tudo, e mentir, e fingir que nada aconteceu.

Feliz 2007!

Noite de ano novo. Encontrei com ele por acaso no Recife Antigo, novamente. Eu não sabia muito bem como agir, porque estava na companhia das minhas primas e temia que elas fossem fofocar alguma coisa pra minha mãe (rsrs), e ali, mais uma vez, ele deu sinais de que não era tão legal assim. A memória do que foi verbalizado não é muito definida, mas tenho marcado na mente a minha expressão de insatisfação questionando ele por não ter feito alguma coisa. E no final cedendo a um abraço. E sentando no colo dele. Mas ele não me levava a sério na frente dos seus amigos.

Eu estava gostando da experiência. Eu, Dandara de quase 17 aninhos, ficando com um cara, bonito e tal… Era difícil de acreditar porque passei minha infância e parte da adolescência sendo xingada de tudo que é nome no colégio, e nenhum menino olhava pra mim. Ele também parecia gostar, até que aconteceram as cenas dos próximos parágrafos.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do balé também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Foi a primeira vez que alguém tocou no meu bumbum, e eu achei isso muito avançado. Que tola.

Viajei. Ele parou de falar comigo. Não dava mais sinal de vida, não respondia mensagem. Não subia mais a plaquinha! E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no Jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo. Ele, então, nem pensar.

Essa foi a primeira rejeição concreta que passei na vida, digo, estar com alguém e ser trocada. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem tinha todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender. Porque é muito fácil você se culpar por tudo, muito mesmo.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhava na minha cara. Não sei porque esse ar de surpresa, Dandara. Já a amiga veio falar comigo, de uma forma discreta assumiu o que tinha feito, mas não entrou em detalhes. Hoje em dia não vejo mais nenhum dos dois, mas escrever sobre isso me tira um peso enorme que carrego há anos.

Respiro fundo, não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Lição aprendida: não sei dizer, só sentir.

“Transformo o que não aceito”, diz Cris Pagnoncelli em seus letterings

por   /  09/08/2018  /  8:08

Cris 6

Quando trabalho e vida se misturam e se materializam em ilustrações, designs e letterings. Assim é o trabalho de Cris Pagnoncelli, que vocês conhecem mais na entrevista a seguir!

Acompanhem > @crispagnoncelli

Cris Pagnocelli 3

Sou designer, artista visual e profissional independente desde 2010. Me formei em design gráfico em Curitiba, e depois de 4 anos atuando em agências de design e publicidade, naquela correria insana, senti que havia perdido o que havia de mais original e prazeroso do processo: as técnicas manuais. Em 2009, armei uma fuga (talvez de mim mesma, talvez do que me prendia) e mudei para Barcelona, onde cursei uma pós em ‘Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual’, mas acredito que não só o curso, e sim a vivência em outro país, foi o que me permitiu redescobrir outras coisas sobre mim. Sinto que nessa fase meu trabalho teve uma grande mudança não só visual, mas de propósito mesmo. Eu queria ter prazer e me enxergar no que eu tava fazendo / criando / colocando no mundo. Na época eu estava com 24 anos. E os anos seguintes foram de muita busca. Experimentei técnicas novas, estudei coisas diferentes, me conheci melhor. Não digo que foi fácil – talvez os anos mais difíceis da minha vida, mas sem dúvida, o autoconhecimento foi essencial pra estar na fase que me encontro hoje: um pouco mais em paz com tudo o que faço e feliz de colocar minha voz no mundo, talvez por isso eu tenha encontrado no lettering um caminho que gosto de explorar em várias mídias e formatos. Eu gosto de desenhar coisas novas, de me desafiar, de estar sempre me reinventando.

Cris Pagnocelli 1

A arte é a forma mais sincera da nossa liberdade de expressão e coragem. Escolher abordar um tema nas nossas criações exige que a gente se posicione, acredite em algo e defenda até o fim (ou pelo menos, até ser convencido do contrário). Sou muito aberta a novas ideias e estou sempre buscando o equilíbrio das coisas à minha volta. Acredito que através das minhas ilustrações, designs e letterings eu posso comunicar e principalmente transformar aquilo que não aceito. Sei que não posso mudar tudo, mas até o momento que eu puder, vou utilizar a arte e o design como um veículo de informação das pautas que acredito.

Cris Pagnocelli 2

Nos últimos anos coloquei muito da minha vivência pessoal em meu trabalho. Foi algo muito natural. Ao pedalar na rua, e perceber a falta de respeito e espaço com os ciclistas, passei a defender e falar mais sobre bicicleta. Ao perceber o quanto me calei e aceitei coisas que antes pensava serem normais no mundo de agência, entendi que poderia ir ainda mais além sendo independente e traçando meu próprio caminho. E sempre falei sobre isso. Acho que as pessoas se identificam. Trabalhar sozinha nunca foi fácil, mas encontrei belas parcerias no meio do caminho e isso com certeza foi o que me fortaleceu. E acredito que essa coragem de falar sobre o que eu queria falar, de me abrir, de compartilhar, ensinar e aprender com outras pessoas autônomas me trouxeram ainda mais visibilidade. Em tempos de tanta individualidade, acho bem importante bater nessa tecla de que sozinhos a gente não chega tão longe quanto estando lado a lado com quem nos inspira e fortalece.

Cris 5

Nunca foi fácil ser mulher em qualquer meio. E o meio da comunicação é bastante machista e predominantemente masculino. Sempre trabalhei e convivi com muitos homens. Mas talvez por ter minha mãe como referência eu nunca me senti inferior ou incapaz sendo minoria. Eu cresci acreditando que eu poderia ser o que eu quisesse. E minha mãe sempre foi uma grande líder. Uma vez ouvi de um superior que eu nunca seria uma (líder), pois era emotiva demais, chorava fácil (e choro até hoje). Guardei isso e toda vez que lembro dessa frase, tenho a certeza de que me tornei a mulher que eu já sabia que queria ser, que não necessariamente queria ser líder de alguém mas que saberia e gostaria de liderar. E sigo nesse processo. Construindo espaços de fala, lutando ao lado de outras mulheres e homens que admiro, resistindo. Para que um dia todas nós tenhamos a mesma força e auto estima dos homens. A gente não foi criada pra se impor, pra liderar (muito pelo contrário), mas a mudança está acontecendo e somos parte dela.

#galeriadonttouch  ·  #minasdonttouch  ·  arte  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  feminismo

Sirlanney e seus ótimos quadrinhos feministas

por   /  06/07/2018  /  8:00

2015_10

A Sirlanney faz aquele tipo de quadrinho que você lê e se identifica na hora. Ela fala de pensar em mandar uma mensagem de amor a cada 5 minutos, de ser stalker, de trabalhar sob pressão, de destruir o patriarcado. Suas histórias são ácidas e certeiras, e é muito legal acompanhar seu perfil no Instagram. (Aliás, obrigada, @instadage, pela indicação!)

Na entrevista abaixo vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que nasceu no interior do Ceará em 1984 e publica seus textos e desenhos na internet, em zines e revistas há 15 anos.

Mais > @sirlanney + www.sirlanney.com

2016_58

– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu adorava desenhar quando era criança, como todo mundo, mas não parei de deseenhar quando cresci. Era algo que sempre me deixava satisfeita… Ver que eu podia fazer minha própria interpretação do mundo no papel. Mas o que eu amo fazer é contar histórias, escrever mesmo. Ilustração é só uma parte do que eu faço, porque o que eu acho que faço mais é contar histórias através dos desenhos. Então eu estudei artes plásticas, aprendi diferentes técnicas, li os grandes mestres e os nem tão grandes assim… E continuo estudando todos os dias, é um trabalho sem fim.

2015_21
– O que a arte representa na sua vida?

A arte é o ponto central da minha vida, é o que eu escolhi fazer agora e no futuro. Mas antes já era o que embalava meu coração frágil, desde que eu posso lembrar. A arte sempre foi o que eu podia me agarrar enquanto buscava o sentido da vida.

2016_24
– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Geralmente é o que mais me incomoda. Aquele assunto que tá mal resolvido para mim ou para o mundo. Patriarcado, política, direita, esquerda, capitalismo, ego, altruismo, nova era, minha falta de habilidade com o Excel… Qualquer coisa que fique martelando na minha cabeça! Aí eu preciso parir um quadrinho para arrancar isso de mim.

2016_35
– Como é ser mulher no seu meio?

Já foi pior, mas ainda é chato. Não posso negar o salto que demos nos últimos anos no sentido de sermos consideradas, sermos lidas e termos obrigado a sociedade enxergar que somos top. Mas sempre que pego uma revista ou qualquer publicação sobre quadrinhos ou ilustração e vejo lá o clube do bolinha, ainda firme e forte, reviro os olhos.

Sy

2016_59 2017_36

2017_60

2017_61

2017_65

#galeriadonttouch  ·  #minasdonttouch  ·  amor  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  feminismo

Por que não se fala da história de amor de Marielle?

por   /  17/03/2018  /  14:59

Captura de Tela 2018-03-17 às 12.38.56

Desde que soube da execução da Marielle, entrei em um looping de ler tudo, em todos os lugares. E de pensar em sua companheira. Que não teve sua dor estampada no jornal. A dor de uma mulher lésbica não sai no jornal.

Conversas com amigos e 2 posts me fizeram atentar pra essa questão. “Esse processo (…) reflete a lesbofobia presente nas relações sociais e na forma como nos percebem como abjeções, como vidas que não importam e que não têm o direito sequer de serem reconhecidas como legítimas e, portanto, podemos também ser apagadas, exterminadas. Ademais, ninguém fala da dor da sua companheira Mônica, ela não é ouvida, mas silenciada. É como se os nossos relacionamentos fossem nada, nossas dores fossem nada, o nosso amor fosse nada”, escreveu Simone Brandão Souza.

Imagina perder a mulher da sua vida em uma execução que mudou o Brasil e ninguém te citar? Ah, isso desvia o foco? Falar do amor de Marielle não desvia o foco. É mais uma violência. Não falar do amor de Marielle diminui inclusive a luta que a própria travava. Ela defendia a visibilidade lésbica – tema que lhe motivou a apresentar um projeto de lei na Câmara do Rio.

Por que não se fala da sexualidade de Marielle, se ela estava estampada nos posts, aos quais qualquer um facilmente tem acesso? Entrei no Instagram dela na quarta, quando o número era de 7.000 seguidores. Hoje, são mais de 70.000. Ninguém viu ali a matéria pronta? “A história de amor de Marielle em 10 fotos do Instagram”?. Faço por aqui mesmo.

“Muita gente ainda não entende que negar o nosso amor passa uma mensagem de que não somos tão dignas. Que a dor da companheira dela não é legítima como de outra esposa. Invisibilizar quem a gente é dói. Não reconhecer que existia uma amor tão real ali, como qualquer outro, é mais uma violência”, me diz uma amiga querida.

Mulher, negra, mãe, periférica, lésbica ou bissexual, quinta vereadora mais votada do Rio, socióloga, mestre em administração, defensora dos direitos humanos. Marielle é tudo isso. Marielle é um mundo inteiro. E a gente não pode nunca deixar de falar de amor. Toda forma de amor.

#mariellepresente

amor  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  feminismo

Jemima Kirke e a honestidade da vida real

por   /  10/08/2017  /  9:09

Jemima Kirke, a Jessa do seriado “Girls”, em uma entrevista tão honesta para o StyleLikeU. O projeto convida mulheres a se despirem em frente a uma câmera – e quando elas fazem isso é tão menos sobre a roupa e tão mais sobre mostrar de verdade, olhando pra dentro, pra toda vulnerabilidade que todas nós carregamos. Fiquei encantada.

“Uma das razões pelas quais fui contratada para o ‘Girls’ era a minha personalidade – e algum tipo de brilho que eles queriam. Não era uma habilidade que eu tinha. Isso me fez me sentir uma merda, e também inflou meu ego.”

Quando perguntada se tem alguma insegurança em que ainda está trabalhando, ela fala: maternidade. “Para muitas pessoas parecia que estava tudo certo na minha vida. A culpa me atingiu no segundo momento em que ela saiu de mim. Eu era sua mãe. ‘Meu deus, o que acabei de fazer? Eles vão me dar um bebê’. (…) Eu não estava pronta para ficar em casa todas as noites. E não tinha paciência porque ainda era muito autocentrada.”

amor  ·  feminismo  ·  vida  ·  vídeo

Deixa Ela em Paz

por   /  07/09/2016  /  10:10

deixa-ela-em-paz-0

O Deixa Ela Em Paz (@deixaelaempaz) é um projeto de intervenção urbana e ativismo digital. Criado por Joana Pires e Manuela Galindo, tem como objetivo discutir o empoderamento de mulheres, enquanto se fortalece, também, como um espaço de formação. Para isso, colocou no ar uma campanha de crowdfunding. A gente pode contribuir com qualquer valor, basta acessar www.benfeitoria.com/deixaelaempaz.

Conversei com Joana sobre o projeto. “Fico pensando aqui em como responder tuas perguntas enquanto o meu juízo tá quase completamente dominado pelos últimos dias no Brasil e tudo o que isso significa e ainda vai significar para a gente, sabe? O Deixa Ela Em Paz é também uma parte desse processo, uma das outras partes, a parte de uma resistência feminina em meio a um mar bravio e duro, que afoga a gente caldo atrás de caldo no ressurgimento de uma onda conservadora na nossa história. E a gente sabe como não é fácil ficar submersa em meio a isso tudo, tentando encher o pulmão de ar. Mas como mar não tem cabelo (adoro essa expressão), o respiro vem das boias que a gente mesmo vai tentando ‘artesanar’. O Deixa Ela Em Paz como intervenção urbana surge assim, da necessidade de falar com mulheres sobre as realidades que dividimos no dia a dia, da minuciosa realidade de violência que todas vivemos e que pode ser vista no relacionamento silenciosamente abusivo, na discriminação salarial, na tentativa de silenciamento da nossa voz no ambiente de trabalho, na violência urbana, na agressão dentro de casa.”

deixa-ela-em-paz-3

“Quando eu e Manuela começamos, buscamos falar com essas mulheres de forma simples e direta, como falávamos uma para a outra, criando espaço para reflexões que pudessem vir a se potencializar mesmo depois que as mulheres deixassem de ter contato direto com o nosso discurso. O primeiro passo era intervir uma pela outra, no espaço da cidade, demandar a paz da outra, num ato de solidariedade, empatia e força mútua. Saímos, primeiro no Rio de Janeiro, onde fizemos a primeira colagem e depois no Recife, com um grupo maior de amigas. Mas a impressão é de que o projeto começou com muito mais gente, porque foi da repercussão e da resposta que a gente recebeu que ele veio a se tornar uma ação continuada e um coletivo”, diz Joana,

“De lá pra cá, o aprendizado tem sido constante, principalmente no sentido de enxergar outras pessoas nas nossas ações. A partir do projeto tenho acesso a outras mulheres, às dimensões complexas do que outras mulheres vivem e que eu não vivo, e o que vivemos em comum. O que surgiu como uma intervenção urbana se tornou ativismo digital e se tornou espaço de formação, através do qual buscamos ajudar no empoderamento de outras mulheres, ao mesmo tempo em que aprofundamos nossas próprias lutas. Nosso grande desejo é poder nos dedicar exclusivamente a isso, ao projeto, a esses temas que nos tocam e tocam as vidas de tantas outras. Fazer mais e falar com cada vez mais pessoas. E fazer isso através da arte é a complementação de tudo. As mulheres estão cada vez mais articuladas, mais firmes na disputa pelos direitos que elas têm e precisam exercer. Esse momento que muitos identificam como uma nova onda do feminismo é a evidência disso. Precisamos abrir espaço para o nosso discurso, para a nossa representatividade e nossa articulação em rede tem sido um instrumento para alcançar essas demandas.”

Acompanhem > facebook.com/deixaelaempaz

deixa-ela-em-paz-2

amor  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  feminismo  ·  fotografia