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Especial autocuidado, parte 2

por   /  01/12/2018  /  13:13

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Autocuidado vai além de um cabelo bem arrumado, as unhas feitas, terapia toda semana. “É algo rotineiro, que se materializa em um olhar com atenção para o que eu sinto, para a forma como eu vivo, o cuidado em me comunicar com o meu filho, com o externo. Como é que eu falo comigo? Como é que eu olho para mim?”, questiona Manoela Gonçalves (@soul.crioula), ativista e dona do Bistrô Manô, espaço de culinária no Butantã, em SP.
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Para chegar a essa definição, muita coisa aconteceu. Por cinco anos, Manoela manteve o projeto Casa das Crioulas, um espaço de acolhimento para mulheres periféricas. “Virou a chave da minha vida ter acolhido tantas mulheres. Cada dor e cada cura me transformaram na mulher que eu sou hoje”, diz, emocionada. “Entender o que leva uma mulher a agir da forma que age, mulheres que têm discurso machismo, preconceito, a abusada, a que abandonou o filho, a que matou. Mudou completamente o sentido da minha vida trabalhar com as dores das mulheres.”
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Ela achava que lidar diariamente com a dor a deixaria calejada. Estar na linha de frente, no entanto, doeu. “Tinha uma parte minha que tava completamente machucada, se identificava com as dores alheias e não saia desse ciclo de ficar curando ferida. Eu só queria cuidar. Demorou pra eu conseguir espaço pra mim mesma no meio de tanta pressão, carência, dor.” Demorou para ela criar uma linha imaginária em que só entra quem ela permite. “Aí começou um olhar mais amoroso. Sinto que estar em coletivo é muito bom, fortalecedor, mas é muito importante também o resgate da nossa força individual.”
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Hoje ela tem tomado cuidado ao ouvir histórias. “O que me motiva a não desistir é meu filho, é uma força absurda que tenho. Continuo lutando porque eu odeio injustiça, desigualdade, machismo. Mas também acolho e compreendo. O que me motiva é saber que eu tenho força pra inspirar, pra não desistir.”

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@comum.vc é uma plataforma de florescimento para mulheres. Em parceria com o @instamission, estamos fazendo a #jornadadeautocuidado. Já viu?
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Criadora da Comum, @annahaddad vive uma prática constante de #autocuidado. “Consigo às vezes, e às vezes não. Mas sinto que quando compreendemos essa noção mais ampla e profunda de autocuidado, que está estritamente relacionada à autocompaixão, aprendemos que nem sempre vamos conseguir de fato fazer o que entendemos que seria melhor para nós. Às vezes vamos ficar sem tempo, ser engolidas pelo caos, nos deixar sem cuidados básicos, seguir em relações que nos destroem, e precisamos nos acolher nisso também. O que não tem a ver com sermos condescendentes, autoindulgentes, e sim com nos acolhermos nos erros, nas dificuldades, nos nossos limites, ao invés de seguirmos nos culpando e chibatando.”
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O coletivo é fundamental nesse processo. “Faz muito mais sentido quando a gente se desenvolver sem perder a perspectiva do todo: somos mulheres, e nossas questões são muito individuais sim, mas são coletivas, fazem parte de um contexto de opressão sistêmica, que só vai mudar se tivermos consciência dele e nos movimentarmos.”
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Anna ouve histórias de abusos, abortos, relações abusivas, traumas, vícios e compulsões. “O que fica marcado é a resiliência dessas mulheres. A capacidade incrível que nós temos de viver as narrativas mais complicadas e tristes que alguém poderia viver, e conseguir buscar suporte, se abrir e se expor, encontrar caminhos em meio ao caos e atravessar aquela história. É quase heróico.”
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Empatia e compaixão são ingredientes fundamentais para que essas histórias não pesem. “Caroline Bertolino, psicóloga e especialista no tema da autocompaixão, diz muito isso: a medida de compaixão que temos conosco mesmas é a que vamos ter com os outros ao nosso redor. Se cuidamos da gente, provavelmente vamos ter mais energia e equilíbrio interno para cuidar dos outros. Está tudo interligado.”

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Passar a noite em casa lendo um livro, fazer terapia, se exercitar, comer bem, estar rodeada de pessoas que fazem bem, eliminar relações tóxicas e comportamentos nocivos de uma forma racional, por mais difícil que seja, e conseguir sinceridade em todas as relações. São esses os exercícios que @dandarademorais tenta praticar todos os dias. Essa pernambucana é atriz, diretora de cinema e ativista. Na correria, ela busca equilíbrio, pois sabe que, estando bem, consegue ajudar outras mulheres também.

E essas mulheres ela encontra, principalmente, na internet. “Acho que a internet tem um papel muito forte nessa era que estamos vivendo, porque deu voz a muitas pessoas. Essa conexão que a gente faz, todos os dias, por mais rápida que seja, é o que me move. São esses encontros que me estimulam e confirmam que estou defendendo pelos ideais certos. Poder contar com o coletivo é essencial. Tem momentos que realmente preciso de ajuda, digo de alguém pra me dar a mão, conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que está ao meu lado. Na maioria das vezes quando falo sobre saúde mental, as pessoas não sabem o que dizer, mas eu digo e repito que só de estar lá, oferecer o ombro, uma companhia, já é uma forma de cuidado muito boa.”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Encontrar pessoas que a fazem refletir sobre seu lugar privilegiado ajuda na empatia. “Tem uma canção que a gente canta em protestos que é assim: ‘companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sozinha ando bem, mas com você ando melhor’. Se a gente se preocupa e ajuda uma pessoa que está na nossa frente em alguma situação de risco, então eu sinto que estou fazendo minha parte. Acho ótimo que está se pensando mais em #autocuidado, mas acho uma pena ser comercializado, porque a tendência de se mercantilizar é encarecer algo que é tão essencial.”

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Para @indominus.rita#autocuidado é uma tentativa diária, feita em baby steps. Ela ainda derrapa na questão trabalho/dinheiro, se pega trocando o dia pela noite, trabalhando 3 dias sem dormir, se alimentando mal, se envolvendo em assuntos que são gatilhos mentais horríveis. “Mas em compensação me permito ter um final de semana sem trabalho, me permito assistir um filme ou uma série no final de um dia de trabalho, se adoeço me permito o descanso, algo que a uns meses atrás eu jamais faria.”
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Rindo, ela conta que desiste o tempo todo, mas sempre acaba retomando as lutas porque acredita e quer mudança, igualdade, justiça. “Não vou deixar de ser negra, mulher, gorda, bissexual, é inaceitável que me tratem como um ser de segunda categoria, é inaceitável que eu me veja como um ser de segunda categoria. Vou brigar até o fim dos meus dias com as ferramentas que eu tiver para que nem eu nem ninguém seja tratado, visto ou se veja como alguém de segunda categoria.”
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Programadora e desenvolvedora, ela tem blog desde o começo da internet. Também já fez gestão de blogs coletivos, nos quais questões como sexualidade e racismo vinham à tona. Era forte e importante e, ao mesmo tempo, pesado. “O coletivo me fragilizou, precisei passar um tempo só pra poder me entender, me curar. Falamos muito sobre cuidarmos umas das outras, mas se não colocamos isso no foco dos nossos debates, a luta acaba passando por cima da gente, é complicado conseguir olhar pra alguém com gentileza quando a gente precisa embrutecer todo dia.”
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Ela traz uma questão importante, sobre o autocuidado como mercadoria. “Nem sempre é possível pagar pelo autocuidado, pra muitas de nós não é o nem sempre, é não podemos pagar mesmo. Mas a gente não precisa pagar pra tirar um tempo pra gente, pra um olhar mais gentil sobre as nossas necessidades.”
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Pra encerrar, cita Audre Lorde. “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é autopreservação, e isso é um ato político.” #jornadadeautocuidado

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Autocuidado é um termo muito amplo e a noção dele é muito subjetiva, aponta a psicóloga @luizacravo. “Não é porque ela é ampla que é superficial ou deixa de ser importante. É algo que tem que tá permeando a nossa vida sempre. Você tem que se escutar pra entender o que é autocuidado pra você.”
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Um entrave para entender como o #autocuidado pode entrar na vida é que compramos essa ideia de que temos que produzir o tempo inteiro. “Acho super útil você ter um dia no qual desacelera, faz o que gosta, olha pra dentro, pro corpo. Mas para o cidadão médio isso não entra no conceito do que é válido. A maior parte das pessoas que se queixam de cansaço, exaustão, falta de energia e motivação são pessoas que de fato acabam desprendendo muita energia seja no trabalho, no cuidado da família, na pós-graduação, nesses lugares que a sociedade vai apontando onde devemos investir. Você sente que está sugado, e está mesmo. Você tá dando tudo o que você tem. Mas não são as únicas coisas a serem olhadas. Há toda a outra parte da vida, toda a potência que fica esquecida.”
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Talvez por isso tanta gente tenha resistência contra terapia e análise, como se fosse algo que só pessoas malucas ou muito problemáticas precisassem. “É difícil entrar em contato com certos conteúdos, às vezes vai por essa via mesmo, de não acreditar que necessidades afetivas e emocionais, ou até sinais que o próprio corpo dá, são importantes o suficiente para serem cuidados.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terapia e análise são indispensáveis para lidar com caos emocional. “Essa coisa de não tenho grana/não posso fazer terapia não existe. Existem lugares que oferecem de graça, preço simbólico, baseado no que você ganha. Quem quer fazer pode fazer. Um profissional não resolve sua vida por você, ele te ajuda a traduzir coisas que talvez seja difícil você por si só dar nome e compreender.”

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Quando a gente fala de mulheres e #autocuidado, precisamos lembrar do óbvio: somos todas muito diferentes. “Depende de você mora no campo ou na cidade, da sua classe social, da sua idade, da sua escolaridade. Você tem uma série de especificidades que vão dar uma perspectiva do que é autocuidado para você. Eu não diria que tem uma diferença entre mulheres brancas e negras. Acho que as diferenças são muitas, a depender de que lugar específico você ocupa nessa sociedade”, diz Bianca Santana (@biancasantanadelua), socióloga.
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Em comum, talvez, esteja essa percepção de exaustão que parece nos acometer. “Isso é uma cama, mas acho que a principal é a desconexão profunda com quem nós somos”, aponta Bianca. “As nossas dores, feridas, histórias são silenciadas. Parece que é uma vida nas aparências, como se a gente não conseguisse se conectar profundamente nem com a gente nem com as outras pessoas.”
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Falando especialmente sobre o Brasil, ela cita uma violência estruturante de um passado colonial e escravista. “A gente não conseguiu transformar, rever, curar. Isso nos leva para lugares de muita superficialidade. Como se abaixo tivesse um lodo, uma lama profunda, difícil. Então a gente fica ali na superfície, mas gasta muita energia manter aquela lama embaixo.” O momento do Brasil reflete negativamente. “Há uma sensação de insegurança e impotência. Pra mim, especialmente, o assassinato da Marielle Franco foi devastador. Tem uma mensagem muito explícita, de que não é para mulheres negras ocuparem determinados lugares.”
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Uma solução? Cuidar de si antes de tentar cuidar do outro. Lembrando sempre que autocuidado não precisa ser mercadoria. “Lembro da minha avó, uma mulher negra, empregada doméstica, pobre, que todo dia aguava as próprias plantas, conversava, tinha uma relação linda com as ervas, fazia ‘lichás’ pra si, pras pessoas ao redor. Não tinha a ver com mercadoria, dinheiro, e sim com saber ancestral. Acessar nossa memória, compartilhar nossos saberes, acessar algo que pertença a todas as pessoas pode ser anticapitalista.”

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Especial autocuidado, parte 1

por   /  30/11/2018  /  13:13

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Há mais de 6 meses comecei a escrever um especial sobre autocuidado. Estava cansada, insatisfeita com várias coisas. Escrevi um desabafo, comecei a conversar com várias mulheres que admiro e que gostam de pensar sobre o tema. Até hoje não publiquei, apesar de estar quase todo pronto e de várias coisas terem mudado, inclusive a falta de energia, que passou a dividir espaço com alegrias. Não rolou porque teve correria, eleições – e também porque quando uma coisa depende só de mim às vezes ela é a última da lista de tarefas (quem se identifica?). Hoje lançamos a #jornadadeautocuidado no @instamission, em parceria com a @comum.vc. E pensei: agora vai!
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A ideia de falar do tema surgiu depois que li um texto que falava de #autocuidado como estratégia política (vou deixar o link nos stories). O artigo publicado pela revista Sur apontava que várias ativistas que trabalham com direitos humanos enfrentam doenças e não se sentem satisfeitas com o tempo que passam com seus companheiros/companheiras e filhos. E aponta um caminho: “Acreditamos que o autocuidado é uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que não é uma ‘moda’, mas uma estratégia política, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.”
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Gostei desse texto porque ele me deu uma noção expandida sobre o tema. Autocuidado é fazer uma massagem ou tomar um banho à luz de velas? Também. Mas é uma estratégia muito particular de cada um, que deve ser descoberta e aprimorada a partir de necessidades individuais. Cuidando da gente, a gente consegue cuidar do outro. E nos fortalecendo assim, quem sabe a gente não consegue passar melhor por esses tempos turbulentos, né? Afinal é sempre bom lembrar: o pessoal é político. Ao longo dos dias vou publicando aqui as entrevistas que fiz, espero que gostem! Vamos juntos falar desse assunto?
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[A foto ganhei da @divanassar]

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@baldin.debora entendeu que, para se comunicar na internet, é preciso aprender a falar de um outro jeito, para que que cada vez mais pessoas entendam a mensagem. O entendimento vem dos vídeos que ela posta em seu canal no YouTube – e dos outros que publicou quando fazia parte de um canal LGBT. Foi a experiência no canal, aliás, que a levou quase a um esgotamento e a rever suas escolhas e rotina.

“Escutar relatos de mulheres que viveram suas vidas no armário e tiveram que enterrar sua afetividade, podendo ou muitas vezes não, só sair desse lugar muito à frente na vida, foi especialmente difícil. A nossa sexualidade e afetividade são pilares centrais na formação das nossas identidades. Ser uma mulher que ama mulheres é perigoso sim nesse mundo e não vai deixar de ser tão cedo, mas voltar atrás não é uma opção.”

Enquanto dava um tempo do YouTube, Debora continuou se comunicando pelo Instagram. Começou a fazer exercício regularmente, terapia também, buscou apoio no candomblé, que se tornou um pilar em sua vida. Entendeu que só com equilíbrio na própria vida consegue ajudar outras pessoas. “É difícil ser referência quando tá todo mundo perdido, confuso, sem grana, sem seguridade, sem estrutura. Não tô fora desse grupo. É uma sensação de perda de energia mesmo. Mas com o tempo, entendendo que a prioridade tem que ser ajudar essas mulheres a encontrarem instrumentos que as fortaleçam, sejam ideias ou ferramentas, ficou um pouco mais leve.”

Essa conexão com ela mesma a fez voltar para o YouTube com força total durante as eleições – seus vídeos viralizaram. O papel do coletivo ficou ainda mais forte. “Boa parte das demandas que nos afetam, mulheres, não partem de dentro. As angústias que nos afligem, em grande parte, têm origem externa, com o capitalismo sendo um sistema cuja base é a exploração e sendo estruturado pelo patriarcado, racismo e outros pilares. Lidar com elas coletivamente além de tirar um peso dos nossos ombros e ser elemento de identificação, é uma forma de encontrar novas saídas e acolhimento. Mais cabeças pensando sobre as mesmas coisas.”

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A psicóloga da @gabimoura87 perguntou o que a agrada. “Eu travei. Simplesmente não sabia a resposta”, diz a publicitária. “Eu gosto de várias coisas no universo, mas… O que me agrada? O que me faz feliz? Percebi que passo tanto tempo tentando agradar a todo mundo à minha volta, que não sobra tempo pra única pessoa que está comigo 24h por dia: eu mesma.”

No processo de descobrir o que funciona pra ela, Gabi já se deu conta de que #autocuidado não tem a ver com uma recompensa que a gente se dá de vez em quando. Tem mais a ver com o relacionamento que aprendemos a ter conosco, com nosso corpo, nosso espírito, nossa essência. “Aprender limites, novidades e nos compreender enquanto indivíduos em um mundo maluco e massificado.”

Colocar tudo isso em prática é difícil, ela admite. “Você tem que se policiar pra não se sabotar. Eu ainda estou na tentativa. Às vezes, tenho períodos longos de negligência contra mim mesma, e preciso retomar tudo de novo, do zero. Mais uma vez, é um processo, que precisa ser o mais natural possível, e não uma autoimposição. Senão, vira mais uma pressão na vida, e não é o que precisamos.”

Ela fala no plural porque acredita que a abordagem coletiva em relação ao assunto é fundamental. “Além de sermos seres vivendo em sociedade, nossos problemas nascem de questões coletivas: sociais, familiares, de trabalho, de relacionamentos. São as dinâmicas da nossa vida que moldam nosso jeito de viver, e ignorar isso é um erro. Inclusive porque a sociedade anda bem doente, e a cura não virá individualmente. São coisas diferentes, mas que convergem entre si: você enquanto indivíduo, com necessidades, particularidades, medos, fúrias, desejos, alegrias e excitações muito únicas, e você enquanto parte de um todo, um grupo de pessoas, cada uma com seu universo, mas que juntas formam a sociedade.”

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Na rotina de mãe de duas crianças, publicitária e ativista, @carolpatrocinio se desdobra para encontrar tempo para si. “A gente coloca outras coisas ou pessoas como prioridade. Sendo mãe, então, muitas vezes preciso abrir mão de mim pra cuidar deles. Por outro lado aprendi que se eu não tô bem não tem como eles estarem bem, então é uma equação bem simples. Se eu não cuidar de mim eu não cuido de ninguém.”
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Ao arranjar tempo para se cuidar, ela acaba dividindo suas experiências na internet – e vê na partilha coletiva mais um passo para superarmos fragilidades e obstáculos que colocamos pra nós mesmas. “Olhar pra outras mulheres, aprender com elas, ver como elas lidam com as coisas, tudo isso influencia bastante na maneira como a gente é e como enxergamos as coisas. Estar cercada de outras mulheres, dividir as coisas, compartilhar o que a gente sente faz toda diferença. O primeiro passo do #autocuidado é lembrar que você não tá louca.” Em seu trabalho de militância o acolhimento fica ainda mais palpável. Ele ganha corpo com o Clube do Livro que ela toca na @casa1, centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa. “É um lugar que a gente vai pra ler, discutir e se basear em feminismo, mas a gente tem esse momento de troca, de contar uma pra outra como o livro bateu pra gente, o que fez sentir, lembrar, ali a gente vai compartilhando vivências.”
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“O que me faz não desistir é saber que todos esses esforços, cada texto, conversa, encontro tá realmente transformando a vida de outras mulheres. Cada vez que uma mulher me conta que saiu de um relacionamento ruim, começou a olhar pra ela de outro jeito, que resolveu se cuidar mais, entendeu que não é emagrecer, entrar num padrão de beleza, tudo isso me faz continuar, tomar fôlego, apesar de saber que sempre vai ter gente criticando, falando que não é suficiente. E tudo bem. A gente segue em frente, ignora essas pessoas e ouve as vozes que valem a pena.”

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Sendo mulher e negra, @joanagmendes não descansa. “Como o racismo é um luto que nunca cicatriza, a consequência é que eu nunca estou tranquila emocionalmente, pois cada história pode ser um gatilho para algo que eu achei ter esquecido”, diz a publicitária. “A consequência pode vir em ansiedade, dificuldade para me concentrar, afastamento emocional das pessoas ao meu redor e cansaço constantes, além de levar para casa problemas que não são particularmente meus.”

Joana criou com mais três amigos a @idanimoconsultoria, uma consultoria negra, feminista e LGBT que atende o público em geral e as agências. Agências onde, inclusive, é difícil encontrar pessoas negras. Reflexo do racismo estrutural que o Brasil vive e nem sempre admite. “Em uma palestra na Campus Party, uma menina falou que ela não alisava o cabelo neste trabalho, mas talvez não pudesse deixar de alisar em um próximo trabalho, e eu vi que essa é uma realidade que não me aflige, mas aflige muitas mulheres negras que são submetidas a padrões de beleza que machucam física e psicologicamente para estar inseridas de dentro de um mercado de trabalho opressor e racista.”

O que não a faz desistir? “Eu sou uma mulher negra, nortista e LGBT, se eu parar de lutar, penso que estou desistindo de estar ao lado do meu povo e de pessoas parecidas comigo. Além disso, estou em lugar de privilégio, por ser classe média, então, eu enxergo esse privilégio uma chance para falar e dar voz a mulheres que não falariam.” E ainda acrescenta que acolher nossas fragilidades individual e coletivamente é fundamental na construção de uma sociedade acolhedora e mais justa.

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Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Homem é tudo babaca

por   /  19/11/2018  /  19:19

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São duas da madrugada, estou do outro lado do oceano, e que belo momento para ter uma crise de ansiedade. Gosto de pensar que a criação e a escrita são a minha válvula de escape. Com os pensamentos a milhões por hora, entre fisioterapias, ônibus e caminhos, um grande de um boylixo me vem à cabeça. Chico Bento, essa é a sua fita.

Nesse ano amadureci bastante, mas ainda não o suficiente para não deixar minhas experiências negativas em relacionamentos me afetarem mesmo em momentos bons da minha vida. Ele poderia ter ficado calado, poderia ter sido um caso rápido e gostoso, mas ele preferiu proferir palavras, fazer planos e juras. Eu inocentemente baixei a guarda e me deixei acreditar por achar que ele estava falando a verdade.

Ele não é branco, e isso já foi um ponto a mais no balanço. Mas não é por ser um cara indígena que ele estava imune a ser um boylixo, pelo contrário, isso só mostra que macho é tudo macho mesmo. Nesse momento, eu me encontro num misto de frio, raiva e angústia, e minhas palavras soam mais agressivas, como uma criança que planeja uma vingança boba contra um coleguinha. Mas, como já disse antes, eu não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Quando nos conhecemos, eu não estava nem um pouco a fim de me envolver romanticamente com ninguém. Mas o desejo não tardou muito a aparecer, a atração era mútua e visível para todo e qualquer olho ao nosso redor. Uma atmosfera tímida de paquera foi surgindo, entre olhares distantes, toques e aproximações. Sem nenhum motivo especial, houve uma conexão.

Nesse exato momento, minha vontade é de mandar ele arder no inferno. E estou fazendo isso mentalmente, porque é madrugada e eu não posso gritar ou externar o que sinto. Talvez esse não seja o melhor momento para escrever essa história, mas eu sinto que se não fizer isso agora – entre pausas pra fechar os olhos e me aquecer – eu não vou conseguir dormir.

Eu tomei a iniciativa, como sempre. Sinto que em algum lugar da minha existência eu intimido os caras. Sinto não, tenho certeza, e já ouvi isso de algumas pessoas.

Ao primeiro primeiro passo dado por mim, ele deu um passo adiante. E assim começou uma história que poderia ter existido sem qualquer peso ou traço de lixão se para os homens, não fosse tão tentador colocar a gente num lugar vulnerável.

“Assim eu me apaixono”. Li isso e me contorci até o chão algumas horas antes de rolar o primeiro encontro depois que a paquera já estava encaminhada, quando passamos o fim de semana inteiro trocando mensagens vestidas de vontades e afetos. Tudo falso. Tinha uma falsiane bem na ponta do meu nariz e não fui capaz de reconhecer.

A gente carrega essa culpa, esse sentimento de achar que poderia ter evitado desgaste, que devia ter sido mais esperta que boy que não tem um pingo de responsabilidade pelo que faz, mesmo com quase 40 anos na cara e pai. Novamente, parece que nada, raça, idade, localização espacial, gosto musical, cueca boxer ou samba canção, faz a mínima diferença quando se trata de destratar alguém que teve coragem de se abrir num mundo onde enganar se tornou hábito comum.

Eu me via blindada, queria estar blindada depois de ter passado por uma relação fracassada. Mas com tantas, inúmeras, várias, muitas mesmo, atitudes românticas eu pensei: “né possível que ele tá falando isso tudo da boca pra fora”. Apois te ilude.

Diversas vezes caras ficavam comigo num cantinho, ele não. Isso também adicionou pontos no balanço total. Assumir uma mulher preta é coisa rara, e isso, se somando a outros acontecimentos, me fez criar uma expectativa que ele não teve culhão pra bancar. Filhos? Não sei vocês, mas eu falo de filhos com todos os boys que eu fico (por favor entenda a ironia). “Imagina um filho nosso, meio indígena, meio tu. Mas só se você quiser.” Me abraçou apertado como quem diz “é verdade esse bilete”.

Não se cansava de falar sobre paixão, ou de dizer que viajaria pra me ver onde eu estivesse. E que mesmo distantes, sempre iria ter um lugar nosso. Assim como aquela velha frase que eu não acredito nunca mais “We’ll always have Paris”, a gente teria a casa na roça pra fugir do mundo, tomar blend de café em caneca livre de poliuretano e ter um lifesytle Chico Bento feat. “Minha Rosinha”. Palavras dele. Juras, promessas e planos não partiram de mim, eu apenas acreditei, e acho que muitas pessoas em meu lugar também acreditariam.

Como de praxe, ele sumiu. “Magicamente”, reapareceu mandando essa mensagem da foto. Mas eu me tornei sagaz, e não deixo mais barato. Eu tava na casa de uma amiga e cheguei a uma conclusão. Enquanto ela gritava lá de dentro do quarto “é isso, amiga. Macho é tudo igual mesmo”, eu gritei da rede onde me balançava “só muda de nuance!”, e a gente riu. É que nem paleta de cores. Não deixe que eles tornem tudo cinza.

Leia as colunas anteriores:

Líricas afetivas: Método para identificar boylixo

Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Método para identificar boylixo

por   /  21/09/2018  /  13:13

Dandara1

Método para identificar boylixo, por Dandara de Morais

Tinha alguma coisa errada. Como é possível que nenhum cara ficou/fica por mais de um mês na minha vida? Isso quando chega a um mês, porque geralmente não passa de 3, 4 vezes “saindo” juntos. Entendendo que a história se repetia sempre,  comecei a notar um padrão de comportamento que se repetia com cada um deles, independente de idade, esquerda, direita, localização espacial. Juntamente com o fato de ter mais amigas negras e saber que elas viviam o mesmo, consegui  (só um pouco)  deixar de me sentir culpada por nenhum deles ficar na minha vida.

As minhas experiências me levaram a catalogar os caras de acordo com as seguintes perguntas:

– Era sempre quando e onde ele queria?

– Ir “ver um filme” na casa dele era o programa de vocês?

– Houve algum tipo de constrangimento da parte dele ao ficar em público?

– Vocês só ficavam “escondidos” ou afastados de amigos/conhecidos?

– Simplesmente parou de te responder? Não te cumprimenta quando te encontra?

Se você respondeu sim a todas essas perguntas, não vou te dar parabéns, e sim um tapinha nas costas pra consolar. Aplicar esse método resultou em mais dedos nas mãos do que boys decentes.

Achamos que os sinais de lixão que captamos são invenção da própria cabeça. “Mas a gente saiu naquele dia prum barzinho”, “Que é isso, tô aqui com você não é?”, “Não te vi naquele dia, tava meio aéreo”. NÃAAAAAAAO! Não é coisa da sua cabeça, amada! Precisamos começar a entender de quem é a culpa. Que não é nossa, claro. São séculos de tratamento dos nossos corpos como meros objetos. Ali que começou a negação de nossa subjetividade e consequentemente a rejeição.

Sim, tristemente menos de 10 caras passam nesse teste quando eu aplico. O mais bizarro é que, ao ser tratada com respeito, carinho e atenção, ele automaticamente ganha pontos. É tanto boylixo, tratando mal. Já perceberam que ao encontrar um cara massa tendemos a dizer “ele me trata tão bem”? Não é bem assim. Tratar uma pessoa bem é o mínimo esperado.

Tinha esse boy, que em uma das perguntas recebeu um não, mas nem por isso eu acho ele menos lixo. A gente se fala, se cumprimenta, ele me respeita e se preocupa comigo. Mas no fundo do seu ser, e dentro das minhas péssimas experiências com boys, eu caracterizo ele como boylixo. Demos match no Tinder (rsrs) há muitos anos. Conversa vai, conversa vem, e nada de sair. Até que um dia ele não respondeu mais, e eu não lembro como, mas anos depois voltamos a conversar.

Ficamos algumas vezes, na casa dele.  As amizades que tínhamos em comum até sabiam que tava rolando algo, mas nunca nos viram juntos.

Um dia teve uma festa, e essas amizades estavam presentes, assim como ele. Lembro que ele chegou me deu um abraço (tinham pessoas por perto) e foi pro bar comprar cerveja. Aí comecei a pensar “que estranho, ele nem falou comigo direito” e não muito tempo depois comecei a duvidar da minha intuição. “Não, ele é tão legal! Ele não faria isso,  então fui atrás dele. Tinha algum amigo perto, e eu, com medo de levar um fora, esperei sair. Cheguei perto dele e disse brincalhona “ei, você não falou comigo direito!”, tentando amenizar a situação, porque pra gente ouvir um “isso é coisa da tua cabeça” é um piscar de olhos.

Eu questionei ele, dito e feito. “É coisa da tua cabeça, mulher”. Me deu um beijo sem graça e foi pra galera. E nada de demonstrações de afeto pelo resto da noite. O que pra ele pode ter sido inocente, pra mim foi mais um boy se sentindo constrangido. E eu finalmente entendi isso.

Em algum momento dessa história, combinamos de sair: ir pra casa dele… Mas antes, ele quis conversar, disse que achava melhor morgar por motivos de não lembro muito bem. Mas não faz a menor diferença. Beleza, tchau e benção. Depois ele apareceu namorando com outra pessoa.

Eu até questionei ele sobre as atitudes que teve enquanto a gente tava saindo e ele disse que não tinha nada a ver. Que já teve uma namorada negra, e que a atual também era. Negras de pele mais clara que a minha e cabelos lisos. Aham, Cláudia.

Ele não foi 100% lixo, mas sinto informar que isso não redime ninguém do que aconteceu no passado. E definitivamente não preciso me desculpar ou carregar qualquer peso por achar que nessa relação ele teve um quê de boylixo. Vacilou, boy.

Dandara2

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Líricas afetivas: Número 0

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: Número 0

por   /  10/09/2018  /  11:11

Número 0, por Dandara de Morais

(A imagem é de @nitimueth)

Eu tinha 16,  ele talvez 18. Na época, eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em uma amarração, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa. Vou chamá-lo de Numero 0. Número 0 era mais alto que eu, lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda adolescente hardcore de Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de usar bermudas do meu irmão, All Star cano médio pintado de tênis e trancinhas no cabelo.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu insegura, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, subir na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho, e foi lá onde rolou o primeiro beijo: perdi o bv. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente super soltos, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa.

Ele sumiu por um ano.

Reapareceu, e não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa. E eu, inocentemente, acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Hoje em dia não sou imune a boylixo, mas sei reconhecer melhor os indícios de frustração e pura treta – e, assim, economizar desgastes maiores.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do ballet também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Tenho fotos surpreendentes dessa época, é muito interessante observar, sou muito nostálgica, posso passar um tempão olhando e catando foto antiga.

Viajei. Ele parou de falar comigo.

Não dava mais sinal de vida, a plaquinha não subia, não respondia mensagem. E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo, ele então nem pensar.

Foi a minha primeira experiência de ser trocada por outra, branca. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhou na minha cara. Disappointed but not surprised né? Já a amiga falou comigo e de uma forma discreta pediu desculpas. Hoje em dia não vejo mais ele, e ela muito raramente ou pelo Instagram. Escrever sobre isso me tira um peso enorme. Respiro bem bem bem fundo e digo a mim mesma: não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos. Taca le pau!

Coluna: Líricas afetivas, por Dandara de Morais

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  20:00

Dandara

O Don’t Touch sempre foi, e é, um blog sobre o amor. Por isso é com muita alegria que compartilho essa novidade com vocês. A partir de hoje, inauguramos a primeira coluna deste blog! Assinada por Dandara de Morais, atriz, bailarina, diretora de cinema e ativista. A cada 15 dias, texto novo dela por aqui.

Líricas Afetivas pra boy lixo – Uma breve explicativa do que me trouxe até aqui

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso.” Bell Hooks

Pra início de conversa, confesso aqui que meu primeiro beijo foi quando tinha 16 anos.  O primeiro, e único namorado da vida, quando eu tinha 25. Não tão incomum assim. Sempre falei sobre como me sentia usada pelos caras, um mero objeto, usado e descartado, e ouvindo que a culpa era minha, da boca das pessoas que eu tinha um cariño enorme.

“Mas, você se apega demais”. Era o que eu sempre encontrava como resposta quando eu tentava desabafar, e aquele sentimento de que tinha alguma coisa errada comigo foi crescendo e se instalando com raízes profundas dentro de mim ao longo dos anos. Eu falava sobre a solidão da mulher negra sem nem saber que o que eu sentia/vivia tinha nome, e muitas outras meninas, garotas, mulheres negras passavam pelo mesmo.

Até alguns anos atrás a maioria da minhas amizades eram pessoas brancas. Eu fui a mais feia da escola até uns 14 anos. Minha melhor amiga branca era a mais bonita, namorou e ficou com todos os meninos que eu gostava. Gran amiga! Quando fiquei maiorzinha e comecei a enxergar um pingo de beleza em mim, continuei sendo rejeitada e sem entender porque nenhum boy se interessava em mim. Se eu sou tão bonita, tão legal e engraçada, o que tem de errado comigo que ninguém fica na minha vida?

Muito fácil pensar que realmente o problema é meu, que eu sou exigente, complicada, carente, “fácil” ou qualquer outra palavra que sirva pra jogar a culpa das rejeições em cima de mim. Somente há uns 2, 3 anos, eu comecei a falar e como resposta ouvir “eu também me sinto assim”, porque comecei a fazer mais amigas – que não largo nunca mais – negras. Mulheres maravilhosas, talentosas, inteligentes, criativas, divertidas, fofas, minhas meninas rainhas. Então comecei a perceber que o problema não era comigo de jeito nenhum, que eu não tava louca, exagerando, ou exigindo demais dos outros.

“(…) Muitos negros passaram a acreditar que a capacidade de se conter emoções era uma característica positiva. No decorrer dos anos, a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser considerada como sinal de uma personalidade forte. Mostrar os sentimentos era uma bobagem.”

Eu já fui trocada por mulheres brancas diversas vezes. O cara dizia aquele velho “não quero nada sério” e semanas (ou até dias mesmo) depois aparecia namorando. Já passei por situações do cara não me beijar na frente de amigas y amigos, mas me ligar tarde da noite me chamando pra casa dele (não era pra ver filme). Já fui ignorada, feita de louca, assediada, abusada, enrolada, levada a acreditar por jogos psicológicos que eu estava errada e exagerando. Enfim, é muita história. Eu tinha blogs e diários, escrevi muito durante anos, mas a ansiedade máxima me pegou, e agora sentar pra escrever é algo raro, e difícil de se começar a fazer.

Como até na terapia eu ouvia que o problema era comigo, acho que comecei a confiar mais nas folhas de papel e nas páginas de meus blogs, eu podia falar o que quisesse sem medo de ser incompreendida. Encontrei até pessoas que me entendiam bastante, mas isso não vem ao caso agora. Eu sempre tive vontade de escrever sobre cada boy que me envolvi na vida, alguns não passariam de um parágrafo, outros eu teria que resumir bastante a história. Esse ano finalmente consegui virar autora. Descobri que podem ser crônicas, e é isso que eu vou fazer.

Paralisada por muitos sentimentos ruins durante anos, agora eu consigo finalmente me apropriar das minhas próprias mazelas e então produzir algo de bom com isso. Colocar pra fora, na esperança de que tenha alguma serventia, que esses sentimentos ruins que sempre me acompanharam, as experiências negativas, tão cruéis e destrutivas se transformem em histórias, que sirvam de alguma forma para refletir e entender porque tanto se fala sobre essa solidão e rejeição das mulheres negras.

Sempre que eu escrevo eu penso no que as minhas palavras representam. Podem ser coisas muito íntimas, mas com certeza uma ou duas mulheres já passaram pela mesma situação. Então é por isso que eu falo, até brinco, gosto de dizer que eu aprendi a tirar onda da minha própria cara. Se eu tivesse que escolher um gênero para enquadrar a minha vida seria a tragicomédia. Feliz e triste, rindo mas sofrendo, dou início a uma série de crônicas (nem sei se é esse o nome, mas tudo bem) que meu irmão um dia me disse para escrever.

Enquanto as mulheres brancas lutam pela liberdade sexual, nós negras ainda queremos ser reconhecidas como parceiras, companheiras. Se segura, Berenice, aqui vamos nós.

—–

Leituras recomendadas:

“Para você não romper o silêncio e manter as relações saudáveis, você tem que negar a sua cor”

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

Dissertação: “A solidão da mulher negra: sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo”

“A mulher negra não é vista como um sujeito para ser amado”

Vivendo de Amor

 

Líricas afetivas, por Dandara de Morais: estreia da coluna

por   /  23/08/2018  /  13:13

Dandara

Líricas afetivas pra boy lixo: Número 0

Eu tinha 16, acho que ele tinha 18. Na época eu ainda não usava meu cabelo natural, fazia das tranças uma forma de escudo, de me sentir bonita enquanto o resto do mundo me chamava de feia. E foi num dia desses, me sentindo a mais feia das criaturas, com todo o poder do meu afro contido em um penteado, que esse boy olhou pra mim.

Vamos dar um nome pra ele, pra facilitar essa nossa conversa, tá? Vou chamá-lo de Número 0. Número 0 era mais alto que eu, com lábios bonitos, aspirante a físico e vocalista em uma banda de hardcore em Recife. Aqui estamos em 2006, e antes de ser essa que eu sou hoje em dia, eu gostava de umas bandas meio autorais adolescentes da cidade.

Uma bela noite depois de um festival de música na escola que eu estudava, Número 0 se chegou em mim. Eu tímida, usando uma blusinha rosa de alça e calça jeans, não entendi muito bem o que tava acontecendo. Aquele boy, que era o gatão da época, olhando pra mim? Não, tem alguma coisa errada aí.

Não tinha. Um tempo depois a gente começou a conversar no finado MSN. Marcamos de sair pro Recife Antigo, dar uma voltinha na Torre Malakoff, ver a vista. O passeio seguiu até a Livraria Cultura, onde tava rolando um showzinho – e onde rolou o primeiro beijo. Eu, tão envergonhada, no auge dos meus cabelos com permanente, fiquei sem querer beijá-lo outra vez. Ele não acreditou quando eu disse que era a primeira vez e ficou rindo. Eu fiquei séria, e rindo, e séria, e rindo. Finalmente ele acreditou. Levei o boné que ele usou na cabeça a tarde toda comigo pra casa. Toda boba.

Não demorou muito pra os primeiros sinais de lixão aparecerem. Fiz uma festa de aniversário feat. despedida de Recife – obviamente ele não apareceu. Falou depois comigo dando uma desculpa horrorosa, e eu inocentemente acreditei. Como é bom olhar pro passado e perceber que a gente amadureceu, não é mesmo? Claro que hoje em dia não sou imune a boy uó, mas sei reconhecer melhor os indícios de pura treta e complicação de vida. Porque as pessoas gostam de complicar tudo, e mentir, e fingir que nada aconteceu.

Feliz 2007!

Noite de ano novo. Encontrei com ele por acaso no Recife Antigo, novamente. Eu não sabia muito bem como agir, porque estava na companhia das minhas primas e temia que elas fossem fofocar alguma coisa pra minha mãe (rsrs), e ali, mais uma vez, ele deu sinais de que não era tão legal assim. A memória do que foi verbalizado não é muito definida, mas tenho marcado na mente a minha expressão de insatisfação questionando ele por não ter feito alguma coisa. E no final cedendo a um abraço. E sentando no colo dele. Mas ele não me levava a sério na frente dos seus amigos.

Eu estava gostando da experiência. Eu, Dandara de quase 17 aninhos, ficando com um cara, bonito e tal… Era difícil de acreditar porque passei minha infância e parte da adolescência sendo xingada de tudo que é nome no colégio, e nenhum menino olhava pra mim. Ele também parecia gostar, até que aconteceram as cenas dos próximos parágrafos.

Eu ia viajar e chamei ele pra passar na minha casa, minhas amigas do balé também iam passar lá, pra comer pizza, cantar, dançar e me dar um beijo antes de eu viajar pro interior do Piauí. Minhas amigas eram todas brancas. Foi uma noite agradável. Foi a primeira vez que alguém tocou no meu bumbum, e eu achei isso muito avançado. Que tola.

Viajei. Ele parou de falar comigo. Não dava mais sinal de vida, não respondia mensagem. Não subia mais a plaquinha! E eu me perguntava o que tinha de errado. Será que ele sofreu um acidente? O computador pifou? Ele tá doente? A cabeça já virava no Jiraya e arrumava mil e uma possibilidades, quando na verdade o que tinha acontecido era bem simples: ele começou a namorar com uma das minhas amigas brancas que tinha conhecido lá em casa. Sim. Quando eu voltei de viagem ela não falava mais comigo. Ele, então, nem pensar.

Essa foi a primeira rejeição concreta que passei na vida, digo, estar com alguém e ser trocada. Demorou muito, muito tempo pra entender que a culpa não era minha, que eu não era chata, nem tinha todos os defeitos que fui colocando em mim ao longo dos anos na tentativa de entender. Porque é muito fácil você se culpar por tudo, muito mesmo.

Esse cara nunca mais falou comigo na vida. Vi ele em vários lugares, e ele nem olhava na minha cara. Não sei porque esse ar de surpresa, Dandara. Já a amiga veio falar comigo, de uma forma discreta assumiu o que tinha feito, mas não entrou em detalhes. Hoje em dia não vejo mais nenhum dos dois, mas escrever sobre isso me tira um peso enorme que carrego há anos.

Respiro fundo, não vou mais me desculpar pelos meus sentimentos.

Lição aprendida: não sei dizer, só sentir.

“Transformo o que não aceito”, diz Cris Pagnoncelli em seus letterings

por   /  09/08/2018  /  8:08

Cris 6

Quando trabalho e vida se misturam e se materializam em ilustrações, designs e letterings. Assim é o trabalho de Cris Pagnoncelli, que vocês conhecem mais na entrevista a seguir!

Acompanhem > @crispagnoncelli

Cris Pagnocelli 3

Sou designer, artista visual e profissional independente desde 2010. Me formei em design gráfico em Curitiba, e depois de 4 anos atuando em agências de design e publicidade, naquela correria insana, senti que havia perdido o que havia de mais original e prazeroso do processo: as técnicas manuais. Em 2009, armei uma fuga (talvez de mim mesma, talvez do que me prendia) e mudei para Barcelona, onde cursei uma pós em ‘Ilustração Criativa e Técnicas de Comunicação Visual’, mas acredito que não só o curso, e sim a vivência em outro país, foi o que me permitiu redescobrir outras coisas sobre mim. Sinto que nessa fase meu trabalho teve uma grande mudança não só visual, mas de propósito mesmo. Eu queria ter prazer e me enxergar no que eu tava fazendo / criando / colocando no mundo. Na época eu estava com 24 anos. E os anos seguintes foram de muita busca. Experimentei técnicas novas, estudei coisas diferentes, me conheci melhor. Não digo que foi fácil – talvez os anos mais difíceis da minha vida, mas sem dúvida, o autoconhecimento foi essencial pra estar na fase que me encontro hoje: um pouco mais em paz com tudo o que faço e feliz de colocar minha voz no mundo, talvez por isso eu tenha encontrado no lettering um caminho que gosto de explorar em várias mídias e formatos. Eu gosto de desenhar coisas novas, de me desafiar, de estar sempre me reinventando.

Cris Pagnocelli 1

A arte é a forma mais sincera da nossa liberdade de expressão e coragem. Escolher abordar um tema nas nossas criações exige que a gente se posicione, acredite em algo e defenda até o fim (ou pelo menos, até ser convencido do contrário). Sou muito aberta a novas ideias e estou sempre buscando o equilíbrio das coisas à minha volta. Acredito que através das minhas ilustrações, designs e letterings eu posso comunicar e principalmente transformar aquilo que não aceito. Sei que não posso mudar tudo, mas até o momento que eu puder, vou utilizar a arte e o design como um veículo de informação das pautas que acredito.

Cris Pagnocelli 2

Nos últimos anos coloquei muito da minha vivência pessoal em meu trabalho. Foi algo muito natural. Ao pedalar na rua, e perceber a falta de respeito e espaço com os ciclistas, passei a defender e falar mais sobre bicicleta. Ao perceber o quanto me calei e aceitei coisas que antes pensava serem normais no mundo de agência, entendi que poderia ir ainda mais além sendo independente e traçando meu próprio caminho. E sempre falei sobre isso. Acho que as pessoas se identificam. Trabalhar sozinha nunca foi fácil, mas encontrei belas parcerias no meio do caminho e isso com certeza foi o que me fortaleceu. E acredito que essa coragem de falar sobre o que eu queria falar, de me abrir, de compartilhar, ensinar e aprender com outras pessoas autônomas me trouxeram ainda mais visibilidade. Em tempos de tanta individualidade, acho bem importante bater nessa tecla de que sozinhos a gente não chega tão longe quanto estando lado a lado com quem nos inspira e fortalece.

Cris 5

Nunca foi fácil ser mulher em qualquer meio. E o meio da comunicação é bastante machista e predominantemente masculino. Sempre trabalhei e convivi com muitos homens. Mas talvez por ter minha mãe como referência eu nunca me senti inferior ou incapaz sendo minoria. Eu cresci acreditando que eu poderia ser o que eu quisesse. E minha mãe sempre foi uma grande líder. Uma vez ouvi de um superior que eu nunca seria uma (líder), pois era emotiva demais, chorava fácil (e choro até hoje). Guardei isso e toda vez que lembro dessa frase, tenho a certeza de que me tornei a mulher que eu já sabia que queria ser, que não necessariamente queria ser líder de alguém mas que saberia e gostaria de liderar. E sigo nesse processo. Construindo espaços de fala, lutando ao lado de outras mulheres e homens que admiro, resistindo. Para que um dia todas nós tenhamos a mesma força e auto estima dos homens. A gente não foi criada pra se impor, pra liderar (muito pelo contrário), mas a mudança está acontecendo e somos parte dela.

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Sirlanney e seus ótimos quadrinhos feministas

por   /  06/07/2018  /  8:00

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A Sirlanney faz aquele tipo de quadrinho que você lê e se identifica na hora. Ela fala de pensar em mandar uma mensagem de amor a cada 5 minutos, de ser stalker, de trabalhar sob pressão, de destruir o patriarcado. Suas histórias são ácidas e certeiras, e é muito legal acompanhar seu perfil no Instagram. (Aliás, obrigada, @instadage, pela indicação!)

Na entrevista abaixo vamos conhecer um pouco mais dessa mulher que nasceu no interior do Ceará em 1984 e publica seus textos e desenhos na internet, em zines e revistas há 15 anos.

Mais > @sirlanney + www.sirlanney.com

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– Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Eu adorava desenhar quando era criança, como todo mundo, mas não parei de deseenhar quando cresci. Era algo que sempre me deixava satisfeita… Ver que eu podia fazer minha própria interpretação do mundo no papel. Mas o que eu amo fazer é contar histórias, escrever mesmo. Ilustração é só uma parte do que eu faço, porque o que eu acho que faço mais é contar histórias através dos desenhos. Então eu estudei artes plásticas, aprendi diferentes técnicas, li os grandes mestres e os nem tão grandes assim… E continuo estudando todos os dias, é um trabalho sem fim.

2015_21
– O que a arte representa na sua vida?

A arte é o ponto central da minha vida, é o que eu escolhi fazer agora e no futuro. Mas antes já era o que embalava meu coração frágil, desde que eu posso lembrar. A arte sempre foi o que eu podia me agarrar enquanto buscava o sentido da vida.

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– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Geralmente é o que mais me incomoda. Aquele assunto que tá mal resolvido para mim ou para o mundo. Patriarcado, política, direita, esquerda, capitalismo, ego, altruismo, nova era, minha falta de habilidade com o Excel… Qualquer coisa que fique martelando na minha cabeça! Aí eu preciso parir um quadrinho para arrancar isso de mim.

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– Como é ser mulher no seu meio?

Já foi pior, mas ainda é chato. Não posso negar o salto que demos nos últimos anos no sentido de sermos consideradas, sermos lidas e termos obrigado a sociedade enxergar que somos top. Mas sempre que pego uma revista ou qualquer publicação sobre quadrinhos ou ilustração e vejo lá o clube do bolinha, ainda firme e forte, reviro os olhos.

Sy

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Por que não se fala da história de amor de Marielle?

por   /  17/03/2018  /  14:59

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Desde que soube da execução da Marielle, entrei em um looping de ler tudo, em todos os lugares. E de pensar em sua companheira. Que não teve sua dor estampada no jornal. A dor de uma mulher lésbica não sai no jornal.

Conversas com amigos e 2 posts me fizeram atentar pra essa questão. “Esse processo (…) reflete a lesbofobia presente nas relações sociais e na forma como nos percebem como abjeções, como vidas que não importam e que não têm o direito sequer de serem reconhecidas como legítimas e, portanto, podemos também ser apagadas, exterminadas. Ademais, ninguém fala da dor da sua companheira Mônica, ela não é ouvida, mas silenciada. É como se os nossos relacionamentos fossem nada, nossas dores fossem nada, o nosso amor fosse nada”, escreveu Simone Brandão Souza.

Imagina perder a mulher da sua vida em uma execução que mudou o Brasil e ninguém te citar? Ah, isso desvia o foco? Falar do amor de Marielle não desvia o foco. É mais uma violência. Não falar do amor de Marielle diminui inclusive a luta que a própria travava. Ela defendia a visibilidade lésbica – tema que lhe motivou a apresentar um projeto de lei na Câmara do Rio.

Por que não se fala da sexualidade de Marielle, se ela estava estampada nos posts, aos quais qualquer um facilmente tem acesso? Entrei no Instagram dela na quarta, quando o número era de 7.000 seguidores. Hoje, são mais de 70.000. Ninguém viu ali a matéria pronta? “A história de amor de Marielle em 10 fotos do Instagram”?. Faço por aqui mesmo.

“Muita gente ainda não entende que negar o nosso amor passa uma mensagem de que não somos tão dignas. Que a dor da companheira dela não é legítima como de outra esposa. Invisibilizar quem a gente é dói. Não reconhecer que existia uma amor tão real ali, como qualquer outro, é mais uma violência”, me diz uma amiga querida.

Mulher, negra, mãe, periférica, lésbica ou bissexual, quinta vereadora mais votada do Rio, socióloga, mestre em administração, defensora dos direitos humanos. Marielle é tudo isso. Marielle é um mundo inteiro. E a gente não pode nunca deixar de falar de amor. Toda forma de amor.

#mariellepresente

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