Favoritos

Posts da categoria "amor"

Especial autocuidado, parte 2

por   /  01/12/2018  /  13:13

13

Autocuidado vai além de um cabelo bem arrumado, as unhas feitas, terapia toda semana. “É algo rotineiro, que se materializa em um olhar com atenção para o que eu sinto, para a forma como eu vivo, o cuidado em me comunicar com o meu filho, com o externo. Como é que eu falo comigo? Como é que eu olho para mim?”, questiona Manoela Gonçalves (@soul.crioula), ativista e dona do Bistrô Manô, espaço de culinária no Butantã, em SP.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para chegar a essa definição, muita coisa aconteceu. Por cinco anos, Manoela manteve o projeto Casa das Crioulas, um espaço de acolhimento para mulheres periféricas. “Virou a chave da minha vida ter acolhido tantas mulheres. Cada dor e cada cura me transformaram na mulher que eu sou hoje”, diz, emocionada. “Entender o que leva uma mulher a agir da forma que age, mulheres que têm discurso machismo, preconceito, a abusada, a que abandonou o filho, a que matou. Mudou completamente o sentido da minha vida trabalhar com as dores das mulheres.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela achava que lidar diariamente com a dor a deixaria calejada. Estar na linha de frente, no entanto, doeu. “Tinha uma parte minha que tava completamente machucada, se identificava com as dores alheias e não saia desse ciclo de ficar curando ferida. Eu só queria cuidar. Demorou pra eu conseguir espaço pra mim mesma no meio de tanta pressão, carência, dor.” Demorou para ela criar uma linha imaginária em que só entra quem ela permite. “Aí começou um olhar mais amoroso. Sinto que estar em coletivo é muito bom, fortalecedor, mas é muito importante também o resgate da nossa força individual.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Hoje ela tem tomado cuidado ao ouvir histórias. “O que me motiva a não desistir é meu filho, é uma força absurda que tenho. Continuo lutando porque eu odeio injustiça, desigualdade, machismo. Mas também acolho e compreendo. O que me motiva é saber que eu tenho força pra inspirar, pra não desistir.”

14

11

@comum.vc é uma plataforma de florescimento para mulheres. Em parceria com o @instamission, estamos fazendo a #jornadadeautocuidado. Já viu?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Criadora da Comum, @annahaddad vive uma prática constante de #autocuidado. “Consigo às vezes, e às vezes não. Mas sinto que quando compreendemos essa noção mais ampla e profunda de autocuidado, que está estritamente relacionada à autocompaixão, aprendemos que nem sempre vamos conseguir de fato fazer o que entendemos que seria melhor para nós. Às vezes vamos ficar sem tempo, ser engolidas pelo caos, nos deixar sem cuidados básicos, seguir em relações que nos destroem, e precisamos nos acolher nisso também. O que não tem a ver com sermos condescendentes, autoindulgentes, e sim com nos acolhermos nos erros, nas dificuldades, nos nossos limites, ao invés de seguirmos nos culpando e chibatando.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O coletivo é fundamental nesse processo. “Faz muito mais sentido quando a gente se desenvolver sem perder a perspectiva do todo: somos mulheres, e nossas questões são muito individuais sim, mas são coletivas, fazem parte de um contexto de opressão sistêmica, que só vai mudar se tivermos consciência dele e nos movimentarmos.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Anna ouve histórias de abusos, abortos, relações abusivas, traumas, vícios e compulsões. “O que fica marcado é a resiliência dessas mulheres. A capacidade incrível que nós temos de viver as narrativas mais complicadas e tristes que alguém poderia viver, e conseguir buscar suporte, se abrir e se expor, encontrar caminhos em meio ao caos e atravessar aquela história. É quase heróico.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Empatia e compaixão são ingredientes fundamentais para que essas histórias não pesem. “Caroline Bertolino, psicóloga e especialista no tema da autocompaixão, diz muito isso: a medida de compaixão que temos conosco mesmas é a que vamos ter com os outros ao nosso redor. Se cuidamos da gente, provavelmente vamos ter mais energia e equilíbrio interno para cuidar dos outros. Está tudo interligado.”

12

dandra

Passar a noite em casa lendo um livro, fazer terapia, se exercitar, comer bem, estar rodeada de pessoas que fazem bem, eliminar relações tóxicas e comportamentos nocivos de uma forma racional, por mais difícil que seja, e conseguir sinceridade em todas as relações. São esses os exercícios que @dandarademorais tenta praticar todos os dias. Essa pernambucana é atriz, diretora de cinema e ativista. Na correria, ela busca equilíbrio, pois sabe que, estando bem, consegue ajudar outras mulheres também.

E essas mulheres ela encontra, principalmente, na internet. “Acho que a internet tem um papel muito forte nessa era que estamos vivendo, porque deu voz a muitas pessoas. Essa conexão que a gente faz, todos os dias, por mais rápida que seja, é o que me move. São esses encontros que me estimulam e confirmam que estou defendendo pelos ideais certos. Poder contar com o coletivo é essencial. Tem momentos que realmente preciso de ajuda, digo de alguém pra me dar a mão, conversar e dizer que vai ficar tudo bem, que está ao meu lado. Na maioria das vezes quando falo sobre saúde mental, as pessoas não sabem o que dizer, mas eu digo e repito que só de estar lá, oferecer o ombro, uma companhia, já é uma forma de cuidado muito boa.”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Encontrar pessoas que a fazem refletir sobre seu lugar privilegiado ajuda na empatia. “Tem uma canção que a gente canta em protestos que é assim: ‘companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sozinha ando bem, mas com você ando melhor’. Se a gente se preocupa e ajuda uma pessoa que está na nossa frente em alguma situação de risco, então eu sinto que estou fazendo minha parte. Acho ótimo que está se pensando mais em #autocuidado, mas acho uma pena ser comercializado, porque a tendência de se mercantilizar é encarecer algo que é tão essencial.”

dand

15

Para @indominus.rita#autocuidado é uma tentativa diária, feita em baby steps. Ela ainda derrapa na questão trabalho/dinheiro, se pega trocando o dia pela noite, trabalhando 3 dias sem dormir, se alimentando mal, se envolvendo em assuntos que são gatilhos mentais horríveis. “Mas em compensação me permito ter um final de semana sem trabalho, me permito assistir um filme ou uma série no final de um dia de trabalho, se adoeço me permito o descanso, algo que a uns meses atrás eu jamais faria.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Rindo, ela conta que desiste o tempo todo, mas sempre acaba retomando as lutas porque acredita e quer mudança, igualdade, justiça. “Não vou deixar de ser negra, mulher, gorda, bissexual, é inaceitável que me tratem como um ser de segunda categoria, é inaceitável que eu me veja como um ser de segunda categoria. Vou brigar até o fim dos meus dias com as ferramentas que eu tiver para que nem eu nem ninguém seja tratado, visto ou se veja como alguém de segunda categoria.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Programadora e desenvolvedora, ela tem blog desde o começo da internet. Também já fez gestão de blogs coletivos, nos quais questões como sexualidade e racismo vinham à tona. Era forte e importante e, ao mesmo tempo, pesado. “O coletivo me fragilizou, precisei passar um tempo só pra poder me entender, me curar. Falamos muito sobre cuidarmos umas das outras, mas se não colocamos isso no foco dos nossos debates, a luta acaba passando por cima da gente, é complicado conseguir olhar pra alguém com gentileza quando a gente precisa embrutecer todo dia.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela traz uma questão importante, sobre o autocuidado como mercadoria. “Nem sempre é possível pagar pelo autocuidado, pra muitas de nós não é o nem sempre, é não podemos pagar mesmo. Mas a gente não precisa pagar pra tirar um tempo pra gente, pra um olhar mais gentil sobre as nossas necessidades.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pra encerrar, cita Audre Lorde. “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é autopreservação, e isso é um ato político.” #jornadadeautocuidado

16 17

Autocuidado é um termo muito amplo e a noção dele é muito subjetiva, aponta a psicóloga @luizacravo. “Não é porque ela é ampla que é superficial ou deixa de ser importante. É algo que tem que tá permeando a nossa vida sempre. Você tem que se escutar pra entender o que é autocuidado pra você.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Um entrave para entender como o #autocuidado pode entrar na vida é que compramos essa ideia de que temos que produzir o tempo inteiro. “Acho super útil você ter um dia no qual desacelera, faz o que gosta, olha pra dentro, pro corpo. Mas para o cidadão médio isso não entra no conceito do que é válido. A maior parte das pessoas que se queixam de cansaço, exaustão, falta de energia e motivação são pessoas que de fato acabam desprendendo muita energia seja no trabalho, no cuidado da família, na pós-graduação, nesses lugares que a sociedade vai apontando onde devemos investir. Você sente que está sugado, e está mesmo. Você tá dando tudo o que você tem. Mas não são as únicas coisas a serem olhadas. Há toda a outra parte da vida, toda a potência que fica esquecida.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Talvez por isso tanta gente tenha resistência contra terapia e análise, como se fosse algo que só pessoas malucas ou muito problemáticas precisassem. “É difícil entrar em contato com certos conteúdos, às vezes vai por essa via mesmo, de não acreditar que necessidades afetivas e emocionais, ou até sinais que o próprio corpo dá, são importantes o suficiente para serem cuidados.” ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terapia e análise são indispensáveis para lidar com caos emocional. “Essa coisa de não tenho grana/não posso fazer terapia não existe. Existem lugares que oferecem de graça, preço simbólico, baseado no que você ganha. Quem quer fazer pode fazer. Um profissional não resolve sua vida por você, ele te ajuda a traduzir coisas que talvez seja difícil você por si só dar nome e compreender.”

18 19

Quando a gente fala de mulheres e #autocuidado, precisamos lembrar do óbvio: somos todas muito diferentes. “Depende de você mora no campo ou na cidade, da sua classe social, da sua idade, da sua escolaridade. Você tem uma série de especificidades que vão dar uma perspectiva do que é autocuidado para você. Eu não diria que tem uma diferença entre mulheres brancas e negras. Acho que as diferenças são muitas, a depender de que lugar específico você ocupa nessa sociedade”, diz Bianca Santana (@biancasantanadelua), socióloga.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em comum, talvez, esteja essa percepção de exaustão que parece nos acometer. “Isso é uma cama, mas acho que a principal é a desconexão profunda com quem nós somos”, aponta Bianca. “As nossas dores, feridas, histórias são silenciadas. Parece que é uma vida nas aparências, como se a gente não conseguisse se conectar profundamente nem com a gente nem com as outras pessoas.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Falando especialmente sobre o Brasil, ela cita uma violência estruturante de um passado colonial e escravista. “A gente não conseguiu transformar, rever, curar. Isso nos leva para lugares de muita superficialidade. Como se abaixo tivesse um lodo, uma lama profunda, difícil. Então a gente fica ali na superfície, mas gasta muita energia manter aquela lama embaixo.” O momento do Brasil reflete negativamente. “Há uma sensação de insegurança e impotência. Pra mim, especialmente, o assassinato da Marielle Franco foi devastador. Tem uma mensagem muito explícita, de que não é para mulheres negras ocuparem determinados lugares.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Uma solução? Cuidar de si antes de tentar cuidar do outro. Lembrando sempre que autocuidado não precisa ser mercadoria. “Lembro da minha avó, uma mulher negra, empregada doméstica, pobre, que todo dia aguava as próprias plantas, conversava, tinha uma relação linda com as ervas, fazia ‘lichás’ pra si, pras pessoas ao redor. Não tinha a ver com mercadoria, dinheiro, e sim com saber ancestral. Acessar nossa memória, compartilhar nossos saberes, acessar algo que pertença a todas as pessoas pode ser anticapitalista.”

20

amor  ·  ativismo  ·  autocuidado  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  feminismo  ·  instamission  ·  internet

Especial autocuidado, parte 1

por   /  30/11/2018  /  13:13

1

Há mais de 6 meses comecei a escrever um especial sobre autocuidado. Estava cansada, insatisfeita com várias coisas. Escrevi um desabafo, comecei a conversar com várias mulheres que admiro e que gostam de pensar sobre o tema. Até hoje não publiquei, apesar de estar quase todo pronto e de várias coisas terem mudado, inclusive a falta de energia, que passou a dividir espaço com alegrias. Não rolou porque teve correria, eleições – e também porque quando uma coisa depende só de mim às vezes ela é a última da lista de tarefas (quem se identifica?). Hoje lançamos a #jornadadeautocuidado no @instamission, em parceria com a @comum.vc. E pensei: agora vai!
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A ideia de falar do tema surgiu depois que li um texto que falava de #autocuidado como estratégia política (vou deixar o link nos stories). O artigo publicado pela revista Sur apontava que várias ativistas que trabalham com direitos humanos enfrentam doenças e não se sentem satisfeitas com o tempo que passam com seus companheiros/companheiras e filhos. E aponta um caminho: “Acreditamos que o autocuidado é uma abordagem que fortalece a sustentabilidade, a criatividade e o bem-estar de nossos movimentos sociais. Convida-nos a estabelecer um novo relacionamento conosco, com outras pessoas e com a natureza. Sabemos que não é uma ‘moda’, mas uma estratégia política, feminista e transgressiva que nos ajuda a caminhar de maneira amorosa e coletiva nos agitados tempos atuais.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Gostei desse texto porque ele me deu uma noção expandida sobre o tema. Autocuidado é fazer uma massagem ou tomar um banho à luz de velas? Também. Mas é uma estratégia muito particular de cada um, que deve ser descoberta e aprimorada a partir de necessidades individuais. Cuidando da gente, a gente consegue cuidar do outro. E nos fortalecendo assim, quem sabe a gente não consegue passar melhor por esses tempos turbulentos, né? Afinal é sempre bom lembrar: o pessoal é político. Ao longo dos dias vou publicando aqui as entrevistas que fiz, espero que gostem! Vamos juntos falar desse assunto?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
[A foto ganhei da @divanassar]

2 3

@baldin.debora entendeu que, para se comunicar na internet, é preciso aprender a falar de um outro jeito, para que que cada vez mais pessoas entendam a mensagem. O entendimento vem dos vídeos que ela posta em seu canal no YouTube – e dos outros que publicou quando fazia parte de um canal LGBT. Foi a experiência no canal, aliás, que a levou quase a um esgotamento e a rever suas escolhas e rotina.

“Escutar relatos de mulheres que viveram suas vidas no armário e tiveram que enterrar sua afetividade, podendo ou muitas vezes não, só sair desse lugar muito à frente na vida, foi especialmente difícil. A nossa sexualidade e afetividade são pilares centrais na formação das nossas identidades. Ser uma mulher que ama mulheres é perigoso sim nesse mundo e não vai deixar de ser tão cedo, mas voltar atrás não é uma opção.”

Enquanto dava um tempo do YouTube, Debora continuou se comunicando pelo Instagram. Começou a fazer exercício regularmente, terapia também, buscou apoio no candomblé, que se tornou um pilar em sua vida. Entendeu que só com equilíbrio na própria vida consegue ajudar outras pessoas. “É difícil ser referência quando tá todo mundo perdido, confuso, sem grana, sem seguridade, sem estrutura. Não tô fora desse grupo. É uma sensação de perda de energia mesmo. Mas com o tempo, entendendo que a prioridade tem que ser ajudar essas mulheres a encontrarem instrumentos que as fortaleçam, sejam ideias ou ferramentas, ficou um pouco mais leve.”

Essa conexão com ela mesma a fez voltar para o YouTube com força total durante as eleições – seus vídeos viralizaram. O papel do coletivo ficou ainda mais forte. “Boa parte das demandas que nos afetam, mulheres, não partem de dentro. As angústias que nos afligem, em grande parte, têm origem externa, com o capitalismo sendo um sistema cuja base é a exploração e sendo estruturado pelo patriarcado, racismo e outros pilares. Lidar com elas coletivamente além de tirar um peso dos nossos ombros e ser elemento de identificação, é uma forma de encontrar novas saídas e acolhimento. Mais cabeças pensando sobre as mesmas coisas.”

4 5

A psicóloga da @gabimoura87 perguntou o que a agrada. “Eu travei. Simplesmente não sabia a resposta”, diz a publicitária. “Eu gosto de várias coisas no universo, mas… O que me agrada? O que me faz feliz? Percebi que passo tanto tempo tentando agradar a todo mundo à minha volta, que não sobra tempo pra única pessoa que está comigo 24h por dia: eu mesma.”

No processo de descobrir o que funciona pra ela, Gabi já se deu conta de que #autocuidado não tem a ver com uma recompensa que a gente se dá de vez em quando. Tem mais a ver com o relacionamento que aprendemos a ter conosco, com nosso corpo, nosso espírito, nossa essência. “Aprender limites, novidades e nos compreender enquanto indivíduos em um mundo maluco e massificado.”

Colocar tudo isso em prática é difícil, ela admite. “Você tem que se policiar pra não se sabotar. Eu ainda estou na tentativa. Às vezes, tenho períodos longos de negligência contra mim mesma, e preciso retomar tudo de novo, do zero. Mais uma vez, é um processo, que precisa ser o mais natural possível, e não uma autoimposição. Senão, vira mais uma pressão na vida, e não é o que precisamos.”

Ela fala no plural porque acredita que a abordagem coletiva em relação ao assunto é fundamental. “Além de sermos seres vivendo em sociedade, nossos problemas nascem de questões coletivas: sociais, familiares, de trabalho, de relacionamentos. São as dinâmicas da nossa vida que moldam nosso jeito de viver, e ignorar isso é um erro. Inclusive porque a sociedade anda bem doente, e a cura não virá individualmente. São coisas diferentes, mas que convergem entre si: você enquanto indivíduo, com necessidades, particularidades, medos, fúrias, desejos, alegrias e excitações muito únicas, e você enquanto parte de um todo, um grupo de pessoas, cada uma com seu universo, mas que juntas formam a sociedade.”

6

7

Na rotina de mãe de duas crianças, publicitária e ativista, @carolpatrocinio se desdobra para encontrar tempo para si. “A gente coloca outras coisas ou pessoas como prioridade. Sendo mãe, então, muitas vezes preciso abrir mão de mim pra cuidar deles. Por outro lado aprendi que se eu não tô bem não tem como eles estarem bem, então é uma equação bem simples. Se eu não cuidar de mim eu não cuido de ninguém.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ao arranjar tempo para se cuidar, ela acaba dividindo suas experiências na internet – e vê na partilha coletiva mais um passo para superarmos fragilidades e obstáculos que colocamos pra nós mesmas. “Olhar pra outras mulheres, aprender com elas, ver como elas lidam com as coisas, tudo isso influencia bastante na maneira como a gente é e como enxergamos as coisas. Estar cercada de outras mulheres, dividir as coisas, compartilhar o que a gente sente faz toda diferença. O primeiro passo do #autocuidado é lembrar que você não tá louca.” Em seu trabalho de militância o acolhimento fica ainda mais palpável. Ele ganha corpo com o Clube do Livro que ela toca na @casa1, centro de acolhimento para LGBTs que foram expulsos de casa. “É um lugar que a gente vai pra ler, discutir e se basear em feminismo, mas a gente tem esse momento de troca, de contar uma pra outra como o livro bateu pra gente, o que fez sentir, lembrar, ali a gente vai compartilhando vivências.”
⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“O que me faz não desistir é saber que todos esses esforços, cada texto, conversa, encontro tá realmente transformando a vida de outras mulheres. Cada vez que uma mulher me conta que saiu de um relacionamento ruim, começou a olhar pra ela de outro jeito, que resolveu se cuidar mais, entendeu que não é emagrecer, entrar num padrão de beleza, tudo isso me faz continuar, tomar fôlego, apesar de saber que sempre vai ter gente criticando, falando que não é suficiente. E tudo bem. A gente segue em frente, ignora essas pessoas e ouve as vozes que valem a pena.”

8 9

Sendo mulher e negra, @joanagmendes não descansa. “Como o racismo é um luto que nunca cicatriza, a consequência é que eu nunca estou tranquila emocionalmente, pois cada história pode ser um gatilho para algo que eu achei ter esquecido”, diz a publicitária. “A consequência pode vir em ansiedade, dificuldade para me concentrar, afastamento emocional das pessoas ao meu redor e cansaço constantes, além de levar para casa problemas que não são particularmente meus.”

Joana criou com mais três amigos a @idanimoconsultoria, uma consultoria negra, feminista e LGBT que atende o público em geral e as agências. Agências onde, inclusive, é difícil encontrar pessoas negras. Reflexo do racismo estrutural que o Brasil vive e nem sempre admite. “Em uma palestra na Campus Party, uma menina falou que ela não alisava o cabelo neste trabalho, mas talvez não pudesse deixar de alisar em um próximo trabalho, e eu vi que essa é uma realidade que não me aflige, mas aflige muitas mulheres negras que são submetidas a padrões de beleza que machucam física e psicologicamente para estar inseridas de dentro de um mercado de trabalho opressor e racista.”

O que não a faz desistir? “Eu sou uma mulher negra, nortista e LGBT, se eu parar de lutar, penso que estou desistindo de estar ao lado do meu povo e de pessoas parecidas comigo. Além disso, estou em lugar de privilégio, por ser classe média, então, eu enxergo esse privilégio uma chance para falar e dar voz a mulheres que não falariam.” E ainda acrescenta que acolher nossas fragilidades individual e coletivamente é fundamental na construção de uma sociedade acolhedora e mais justa.

10

amor  ·  ativismo  ·  autocuidado  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  feminismo  ·  instamission  ·  internet

“Canibal Vegetariano”, de Gabriel Pardal

por   /  25/07/2017  /  15:15

Foto 20-07-17 11 04 04

Toda vez que surge no feed um post do @canibal.vegetariano o Instagram fica melhor, mais inteligente, ácido, provocativo. Em meio a tanto conteúdo genérico, igual, o perfil traz humor e sagacidade. Seu autor é o Gabriel Pardal, artista visual, ator e agora também pai do Tomás Zazu.

Por ocasião do lançamento do livro “Canibal Vegetariano”, no fim do ano passado, conversamos um pouco. Só agora (desculpa, Pardal!) publico. Espero que gostem.

– Quando e de onde surgiu o Canibal Vegetariano?

Sempre gostei de quadrinhos, cartuns, mangás, e, principalmente, sempre fui fascinado por tirinhas de jornal e revista, pela característica em ser simples, rápida e ao mesmo tempo dizer um monte de coisa. Há um tempo atrás eu tentei fazer umas tirinhas com personagens e tal, mas meu desenho não me agradava, eu achava feio. Então pensei: “e se eu fizer as tirinhas, mas sem os desenhos, só com o texto?”  Como eu gosto de fazer o que eu não sei fazer, é isso o que me instiga, é assim que desperto a liberdade imprescindível no processo criativo, fui fazendo e percebendo que a palavra escrita no papel já era por si só um desenho. Desenhar com palavras. Daí fica essa coisa meio confusa, as pessoas não sabem se é texto ou desenho e para confundir ainda mais eu respondo que “estou escrevendo uns desenhos”. Tenho sempre comigo um caderno e uma caneta. Escrevo ou faço anotações durante o dia inteiro em qualquer lugar. Eu gosto da simplicidade do processo. Desenho em cadernos, em folhas soltas, com canetas baratas, tiro uma foto e posto na internet. A literatura é a forma de expressão artística que eu mais gosto, justamente pela força da sua simplicidade, e por isso também gosto de considerar o Canibal Vegetariano literatura.
 
Por isso também que… Quando a editora Rocco me convidou para lançar um livro com alguns dos desenhos que eu já havia publicado no instagram e outros inéditos, topei na hora. Achei que ficaria bonito ver os desenhos que faço nos cadernos e publico na web voltar para o papel novamente.

Foto 20-07-17 11 02 16
Foto 20-07-17 11 03 53
 – Adoro quando você fala de internet. A gente meio que perdeu a mão com tanta conexão?

Eu aprendi muito na internet, lendo, vendo filmes, trocando ideias nas comunidades, e também é o meio ambiente onde realizo meus trabalhos, é onde existe e funciona o Canibal Vegetariano, O Leitor, o ORNITORRINCO, etc. Considero ter uma relação saudável com o meio digital, não fico neurótico em responder às pessoas ou fazer um determinado números de postagens, respondo quando posso e posto quando quero. A internet é para mim fonte de conhecimento e espaço para minhas atividades, mas isso aconteceu quando aprendi a usar a ferramenta, a selecionar as fontes e montar minha rede de informações. Eu sou um viajante. Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.Considero isso importante porque estamos saturados de informação. Diariamente recebemos novidades de milhares de fontes diferentes e para não ficar perdido é preciso escolher o que merece a nossa atenção. Assim como a gente deve escolher o que quer comer, diferenciar o que é porcaria do que é saudável, a gente também deve saber como alimentar a mente. O que merece a nossa atenção e o que é descartável.

O grande lance da internet é que podemos escolher o que queremos ler, ver, assistir. Mas será que estamos mesmo sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil ou continuamos presos nas manchetes, nas grandes corporações e nas listas dos mais lidos? A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos, sendo que o Facebook é a principal fonte de informação deles. Eles acham que a internet é o Facebook. Pensar assim é o mesmo que achar que o mundo acaba no quintal de casa.

O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Eu entro pouco no Facebook e nunca leio a timeline porque não encontro nada que realmente me interesse, que me faça aprender mais. Para mim o Facebook é a nova TV, onde a maior parte do seu conteúdo é mais do mesmo, mais do mesmo, mais do mesmo.

Foto 20-07-17 11 01 14 Foto 20-07-17 11 05 06
– Você é escritor, ator, diretor. Conta um pouco como você começou, o que já fez, o que tá fazendo e o que mais planeja?

Comecei há 32 anos atrás… Aquela frase “Levei minha vida toda para pintar este quadro”, quem foi que disse? Clarice? Luis Fernando Veríssimo? Silvio Santos? Não importa, é uma frase batida mas é verdade. Porque a vida toda está incluída nos estranhos caminhos da criação. Publiquei uns livros, faço teatro e cinema, desenho, mas para mim tudo vem do mesmo lugar. O que importa para mim como artista é a substância da obra, que pode ser chamada de ideia, conteúdo, mensagem, etc. Então tanto faz se é um texto, uma peça, um desenho, uma entrevista; o que me interessa não é o formato, é a questão. Além disso, o que aprendo no processo criativo como ator coloco no processo para escrever e vice-versa. Na prática acabei desenvolvendo um jeito próprio de fazer os trabalhos que eu faço. Vou fazer esses desenhos, mas não sou desenhista, e daí? O estilo do artista está justamente nas suas limitações.

No momento estou fazendo uma peça de teatro chamada “As Palavras e As Coisas”, com texto e direção do Pedro Brício. O filme “Tropykaos”, dirigido pelo Daniel Lisboa, vai estrear em 2017 nos cinemas. Os desenhos do Canibal Vegetariano eu continuo fazendo todos os dias e postando no Instagram e no Facebook. E estou terminando de escrever uma narrativa longa, que é provavelmente o meu projeto mais pessoal e a coisa mais importante que já fiz. Esse é o melhor exemplo para o que eu estava falando, porque estou escrevendo há dois anos mas conto sobre algo que aconteceu comigo há nove anos atrás. É daqueles trabalhos que a gente coloca tanto da gente que quando você me pergunta “o que mais planeja?” eu só penso que depois disso nunca mais vou fazer nada. Pode ser mentira, mas sentir isso é um jeito de entender que estou no caminho certo. Pelo menos pra mim.

Foto 20-07-17 11 02 44
Canibal Vegetariano no instagram: instagram.com/canibal.vegetariano
arte  ·  entrevistas  ·  especial don't touch  ·  internet

Radiooooo e a trilha sonora da volta ao mundo

por   /  26/04/2016  /  8:08

rdio2

O Radiooooo é a melhor invenção da internet nos últimos tempos. Trata-se de uma plataforma que oferece um extenso catálogo musical que pode ser acessado a partir de três premissas: localização geográfica, tempo e mood. Você escolhe um país, a década e se quer que o som seja lento, rápido ou esquisito, e o site oferece uma música correspondente.

Traduzindo, dá pra dar a volta ao mundo a partir da música de cada lugar, de cada época. Um lugar perfeito pra quem quer descobrir música a partir de pesquisa, e não necessariamente de um algoritmo. Já pensou em ouvir música iraniana dos anos 1950? O que será que tocava na Tanzânia em 1970? E no Brasil em 1910? Na Berlim dos anos 1980? Sério, é uma viagem no tempo sensacional!

A ideia surgiu quando Benjamin Moreau, artista e DJ francês, estava dirigindo pela Riviera Francesa, ligou o rádio e acabou saindo da sua bolha de felicidade quando ouviu um sucesso comercial genérico. Mas o momento trouxe uma ideia: “E se você pudesse organizar música a partir do tempo e do espaço, e não com base em gênero ou algoritmos complexos? E se em vez de fazer buscas por artistas e músicas organizados em ordem alfabética você puder explorá-los histórica e geograficamente?”

Ele levou a ideia para o amigo Raphaël Hamburger, produtor musical e dono de uma vasta coleção de discos. Eles batizaram o site de Radiooooo – as cinco letras repetidas representam os cinco continentes e de todos eles dá para ouvir música. Em 2013 eles recorreram a crowdfunding e colocaram o site no ar. Para fazer a coleção, contam com nerds de música altamente especializados. Hoje empregam curadores que passam horas pesquisando.

“Os curadores se certificam que os arquivos têm alta fidelidade e julgam se a música combina ou não com a estética do Radiooooo, que é difícil de definir”, disse Moreau à “New Yorker”. “A música é selecionada com base no que sentimos quando começamos a ouvi-la. [Prestamos atenção na] habilidade da canção de nos tocar instantaneamente, de uma maneira completamente subjetiva. Eu diria que até de uma maneira ingênua. Nós não estamos tentando aplicar um critério etno-musical. Mantemos os verdadeiros tesouros musicais.”

Preparem-se para passar horas da vida aqui > www.radiooooo.com + www.instagram.com/radiooooo_com

rdio1rdio3 rdio4 rdio5 rdio6

(via Larissa Ribeiro e New Yorker)

amor  ·  internet  ·  música

Do seu pai, o livro

por   /  13/04/2016  /  17:17

Do seu pai

Uma vez perguntei ao Pedrinho e à Lua Fonseca se eles não tinham medo de expor a vida na internet – em seus perfis no Instagram e também nos blogs Do Seu Pai e No drama mom, eles falam sobre ser pai e mãe e mostram o dia a dia de João, Irene e Teresa, seus filhos. Eles me deram uma resposta tão autêntica que só pude concordar. Falaram que compartilham porque a cada post se conectam com gente de verdade – e muitos desses contatos são transformadores.

Se vocês olharem os comentários dos perfis , vão perceber rapidamente essa potência. É a internet sendo um lugar especial, de construção, aprendizado, de todo mundo junto compartilhando alegrias e angústias.

Agora o Do Seu Pai está prestes a virar livro. A campanha de crowdfunding está no Catarse, e você pode apoiar com a quantia que quiser. Já garanti o meu! ♡

Mais em > www.catarse.me/doseupai

Abaixo, o convite do Pedrinho.

João, Irene e Teresa:

escrevo como quem engoliu uma brasa e tem no estômago um queimor de medo. A azia desconfortável da incerteza. Não sei se vai dar certo, mas preciso contar-lhes que estou fazendo uma tentativa muito importante, desde que comecei a rascunhar essas cartas aqui para vocês, no blog. Hoje, filhos, começo a pedir a ajuda de gente que vez por outra passa aqui – para ler e ver o que se passa na nossa família – para transformar este blog num livro. Gente que ora aqui, ora ali se reconhece em algum gesto nosso, alguma palavra nossa. O medo de não dar certo está bem aqui, no estômago. Mas nos braços, pernas, cabeça, peito, em todas as outras partes, tenho em mim o que este vídeo aí embaixo foi buscar: coragem. Amor, filhos, é quando o coração da gente bate no peito do outro e, ainda assim, estamos vivos. Para isso, para amar, é preciso coragem. Pois aqui estou: medroso e corajoso. Estou vivo, apesar de sentir meu coração batendo em cada pessoa que pode ajudar a realizar este livro – e sonho.

Do seu pai,
Pedro.

amor  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  vida  ·  vídeo

#vitrinedonttouch: 100 lugares para dançar

por   /  26/02/2016  /  9:09

100_1

100 lugares para dançar é uma cartografia dançada de cidades imaginadas, sonhadas e esquecidas. Quem nos conta é Marina Guzzo, uma das dançarinas do projeto. Ao lado de Vinícius Terra, ela explorou cidades como Santos, São Paulo e Rio de Janeiro, criando 100 minivídeos que podem ser vistos em 100lugaresparadancar.org.

Eles explicam:

Trata-se de um estudo de improvisação, no qual a superfície do corpo – feita das roupas, das cores e dos cabelos – contornam a dança que é concebida no instante da sua execução. É do encontro com as pessoas, prédios, muros, barcos, containers, bares, escadas, águas, ruínas e sonhos que essa dança desvenda a cidade. São detalhes, informações, experiências, memórias e civilidades que comunicam  a sensação de morar/dançar em  Santos, em seus não-lugares, cheios de danças instantâneas e efêmeras. Lugares onde o corpo (des)especula, vira um espectro, sorve, sucumbe e se dissolve entre a memória do futuro e o risco do passado. Como artistas encontramos a possibilidade de dar visibilidade a contradição da falta de espaços e possibilidades culturais da cidade, em oposição à pujança econômica e especulativa do mercado. Talvez porque somos estrangeiros, talvez porque ainda há muito que conhecer, talvez porque a dança tem espaços impensáveis. Vamos atrás deles, com a câmera e o corpo na mão. A

Marina completa: Eu me apaixonei por Santos. Mas não foi logo de cara. Foi uma paixão construída aos poucos, devagar.  Cheguei como estrangeira, com o olhar de viajante aprendido ao longo da vida. Foram vários encontros, espaçados, desapercebidos, estranhos. Mas quando encontrei o porto pela primeira vez, senti os ventos do mundo. E como foi bonito perceber, de repente, que eu estava apaixonada, e que tudo já não era como antes. Mudou o jeito de chegar na cidade, de trabalhar aqui, de viver, de desejar estar mais perto, de entender e olhar as pessoas. Mudou o jeito que eu penso e faço arte. Mudou também o jeito que eu falo ou escrevo sobre arte. E principalmente para que serve a arte.

Para mim, a arte serve para inventar coisas que não existem, para pensar diferente, para sentir diferente. Em cidades que são, ao mesmo tempo lindas e horríveis. Cheias de ilusões e ruínas (dessas mesmas ilusões). Dançar nesses 100 lugares, para tantas pessoas, com as pessoas, me fez ser menos estrangeira, mais humana. A paixão ajuda a mudança acontecer. Embora seja um trabalho sobre lugares, foram nas relações humanas os espaços de maior crescimento. Trabalhei com gente que eu amo, que admiro, que respeito. Como é difícil misturar amor e trabalho. Não devia ser fácil? Mas foi difícil… E muito lindo. Porque juntar gente diferente, interessante, de opinião, com potência e orquestrar tudo isso num período de tempo curto não é tarefa simples. Eu faria tudo de novo, se fosse me dada a chance. Porque a paixão não nos deixa escolhas. Destrói e constrói tudo em seu páthos e faz a vida ter mais sentido.

O projeto é de 2011 e, desde então, saiu de Santos, ganhou São Paulo, Rio e até Frankfurt, em 2013, quando foi encenado na Feira do Livro.

Na internet, sempre atemporal, a gente se perde por horas assistindo aos vídeos. Divirtam-se! > 100lugaresparadancar.org

100_2 100_3 100_4 100_5 100_6

#vitrinedonttouch  ·  arte  ·  fotografia  ·  internet

The Waiters e a celebração de 13 anos de música

por   /  19/02/2016  /  13:13

Matt Love - Lulina

Foi em mais uma véspera melancólica de Natal que ouvi “Christmas lights” pela primeira vez. Lulina mandou a música por email, e eu senti um conforto no coração. Ela também contou que havia feito a música com um amigo virtual que morava nos Estados Unidos, o Matt. Música literalmente feita por computador, que legal! Quando ela fez sua primeira turnê internacional, o Matt também estava lá, articulando lugares para os shows, tocando junto. A amizade dos dois já dura treze anos, se transformou na banda The Waiters e, no ano passado, deu cria: um disco indie lo-fi delicioso.

Conversei com o Matt por email querendo saber mais da relação deles. “Não foi há tanto tempo que nos conhecemos, mas em termos de ciberespaço, foi há séculos. As coisas mudaram tanto!” O ano era 2003, e Matt pesquisava nomes de filmes com o título “Plan _ From Outer Space” (cineastas amadores fazem homenagem ao clássico filme B “Plano 9 do Espaço Sideral”). Quando digitou “Plan 13 From Outer Space”, achou um único link, com a frase solta em um texto em português. “Era o blog de uma mulher incrível. Por sorte, os programas de tradução também tinham começado a existir, e descobri que ela dizia que iria escrever uma música chamada ‘Plan 13 From Outer Space’. Pensei: ok, estou procurando filmes, mas posso procurar músicas também.”

Alguns cliques depois, Matt descobriu o email de Lulina e sua fixação pelo número 13, que ele também compartilhava. “Também descobri que uma das bandas preferidas dela era o Beat Happening. Agora sim eu tinha uma conexão pra dividir! O primeiro show do Beat Happening foi de abertura para a Wimps, minha primeira banda, que também fazia seu primeiro show”, lembra. “Escrevi e pedi pra ela me mandar uma cópia da música quando estivesse gravada. Ela respondeu e disse ‘vamos gravar juntos!’. Lulina tem uma maneira maravilhosa de se relacionar com as pessoas por meio da música, e a ideia de conhecer melhor as pessoas fazendo música com elas também é uma prática que adotei.”

Não por acaso, 13 anos depois do primeiro encontro virtual, Matt e Lulina – e Leo Monstro, artista que é parceiro da cantora há anos – lançaram juntos o primeiro disco do The Waiters. A banda surgiu de uma conversa entre Matt e Leo. O norte-americano, que foi funcionário público por mais de duas décadas e deixou o emprego para virar cuidar dos pais em tempo integral, formou com uns amigos uma banda, a Dweebish, mas acabava tocando pouco. Léo, pernambucano radicado em São Paulo, sentia falta de tocar com mais frequência. Surgia, então, o The Waiters, simplesmente porque eles estavam sempre esperando – inclusive a cantora ter tempo pra se juntar.

O disco, encontro entre Olinda, cidade da infância de Lulina, e Olympia, em Washington, onde Matt vive, é um presente pra todos que passamos os últimos anos da adolescência ouvindo maravilhas indies. “É muito lindo poder registrar essa parceria de 13 anos em um disco”, diz Lulina. “Ele é uma grande celebração dessa amizade musical e envolve muitos amigos que se juntaram a nós ao longo desses anos”, completa ela, que em 2010 fez uma turnê pela costa oeste dos EUA, com shows em Seattle, Olympia, Portland, Wenatchee e Anderson Island, e também por Chicago. “O Matt foi o meu baixista nessa turnê, pois o Zé não conseguiu visto. Foi muito especial, imagina assistir Calvin Johnson [do Beat Happening] dançando na minha frente todo empolgado durante o show?”

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Matt (à dir.) com a banda Wimps, em Seattle, 1984

Falando em bandas, Matt, 59 anos, cresceu rodeado por discos de vinil e tinha como hábito ir a uma loja com o irmão a cada sábado escolher um título novo. Entre suas influências, estão Bob Dylan, The Clash, Bad Company, Foreigner, Thompson Twins, Talking Heads, B-52s, XTC, Abba. Da época em que era DJ de uma rádio, relembra algumas pérolas: “O Superman”, de Laurie Anderson, e “Singing in the Rain”, do Just Water. “Passo por períodos na vida em que escuto a mesma música repetidas vezes. ‘Love will tear us apart’, do Joy Division, me manteve vivo após o divórcio com minha primeira mulher. Passei por épocas longas em que ouvia ‘My old school’, do Steely Dan, repetidamente. Sem falar em ‘Strawberry Fields forever’.”

Matt já veio ao Brasil seis vezes, sendo a primeira em 2008, e sempre se impressiona com a recepção. “Daniel Belleza me disse que todo mundo que ele conhece conhece Lulina, e eu vi que isso era verdade. Em toda loja, casa de show que eu ia, falavam ‘Matt está numa banda com Lulina!’. ‘Ah, Lulina!’ Foi uma recepção bem calorosa.”

Enquanto se dedica o quanto pode à música, ele faz planos de gravar um segundo disco do Waiters em um intervalo menor de tempo – e de voltar ao Brasil com a mulher, Anne, e a filha, Olivia, em dezembro deste ano. “Fazer música, ao menos desde Dylan, é um processo indefinido e misterioso, no qual você se joga e lida com insegurança.” Ele conta que já esbarrou em vários becos sem saída por ignorar a “maneira certa” de fazer as coisas, mas se deu conta de que tudo isso vira história – ou música. “Venho de uma cidade pequena, quero voltar para uma cidade pequena, mas a cada dois anos vou para algumas das maiores e mais legais cidades do mundo e brindo a todas essas experiências.”

Lulina celebra a parceria. “O que eu mais admiro nele? A generosidade, o amor que tem pela música e por nós, todos os seus amigos brasileiros, e também a persistência e paciência pra não desistir de continuar compondo e tocando com a gente, mesmo com a distância e o pouco tempo disponível de todos. Ver o Matt no palco é tocante, ele é puro coração ali. É uma felicidade muito grande quando esse grupo está junto, seja compondo, gravando ou fazendo show.” Que venham os próximos encontros.

+ Lulina no Don’t Touch

amor  ·  entrevistas  ·  escreve escreve  ·  especial don't touch  ·  fotografia  ·  internet  ·  música

O que fazer quando uma ideia dá errado – ou chega ao fim

por   /  01/12/2015  /  18:05

comomatar

Vocês viram o especial de conteúdo que fizemos recentemente na Contente? Como matar um projeto.

Falar do que deu errado é um assunto que rende tanto que começamos a entrevistar algumas pessoas que admiramos para criarmos a versão YouTube do especial. O primeiro convidado é o Facundo Guerra, empresário argentino radicado no Brasil. Com seu trabalho, ele muda a rotina de São Paulo, seja com seu recente Mirante 9 de Julho, seja com o Cine Joia. Na trajetória de sucesso, ele não esconde os momentos em que tudo deu errado. Vejam abaixo.

E leiam! > www.comomatarumprojeto.com.br

contente  ·  especial don't touch  ·  internet  ·  trabalho

O machismo disfarcado naquela piadinha do whatsapp

por   /  28/10/2015  /  11:00

girls-serie

Já contei pra vocês que tenho uma coluna no portal MdeMulher? \o/

Meu texto mais recente é um relato de uma situação péssima que aconteceu enquanto eu fazia um curso. Escrever foi difícil, mas acabou servindo para várias coisas: primeiro, para desabafar, colocar pra fora o que ficou preso na garganta; segundo, pra descobrir centenas de pessoas que se identificaram com a situação e que não aguentam mais; terceiro, pra me dar certeza de que o silêncio nunca mais vai ser uma opção.

Espero que vocês gostem!

Para ler > O machismo disfarçado naquela piadinha do Whatsapp