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as canções a seu tempo

por   /  09/01/2012  /  10:17

Adorei o texto que a Patricia Palumbo escreveu sobre as canções de ontem e as de hoje!

Ouvido absoluto: as canções a seu tempo, por Patricia Palumbo

No final do ano assistimos na tv Ivete Sangalo ladeada por dois dos maiores ícones vivos da música popular, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Grande parte do repertório da autoria deles com destaque para a belíssima Atrás da Porta, de Chico Buarque, como um dos pontos altos do programa. Ivete saiu-se bem. Cantou bonito, na intenção certa e emocionou platéia e colegas mesmo correndo o risco iminente da comparação com Elis Regina.

O desfile de clássicos acabou suscitando um debate acalorado entre meus amigos e eu sobre a natureza genial dos compositores ali presentes e a novissima geração que estamos vendo surgir. É lugar comum dizer que não se fazem mais canções como aquelas, que a poesia contida na produção contemporânea é rasa se comparada ao lirismo de Drão, Super Homem, Amor Até o Fim, Tá Combinado, Tigresa, pra citar algumas que fizeram parte do especial e indo mais longe o que dizer dos versos de Vinicius de Moraes, de Lupicínio, Cartola e outros mestres.

Bom, meu argumento a favor da canção comtemporânea é simples, toda canção reflete seu tempo, tem contexto histórico e é a partir daí que é possivel fazer juizo de valor. Como comparar a dor de cotovelo de um Antonio Maria que viveu nos anos 50 quando desfazer um casamento era um crime com punição social máxima com a leveza de um jovem como Thiago Pethit que vive num tempo com toda a liberdade de amar quer quiser? Vamos as versos: “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor…”. – Antonio Maria; ou Valsa de Eurídice, de Tom Jobim e Vinicius: “oh, meu amado não parta, não parta de mim, ah, uma ternura que não tem fim…. ”.

Agora, Mapa Mundi, de Thiago Pethit: “me escreva uma carta sem remetente, só o necessario e se está contente, tente lembrar quais eram os planos, se nada mudou com o passar dos anos…e me pergunte o que será do nosso amor…”. Pra ser menos radical na diferença vamos pra Jards Macalé e Wally Salomão com Vapor Barato nos anos 70 quando a liberdade era uma bandeira: “vou descendo por todas as ruas e vou tomar aquele velho navio, eu não preciso de muito dinheiro, graças a deus, e não me importa, honey…”. Voltando algumas décadas vamos lembrar de outro tipo de romance retratado na belissima Último Desejo de Noel Rosa – “Nosso amor que não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar, sem violão…” Pra nossa tristeza, quem é que começa nesses anos 2000 e tanto uma história de amor com retrato e bilhete?

No meio da discussão apareceu uma outra questão bastante comum, onde estão os genios dessa geração? Se temos Chico, Gil, Caetano, Jobim, Noel, o que vem agora? O que virá depois? Continuo com meu determinismo histórico, não precisamos de gênios. Temos excelentes compositores, e até em maior número do que nas geracões anteriores. Com a disseminação da música pela internet, com a facilidade de acesso aos meios de produção, não há 3 ou 4 grandes nomes para a década, mas muitos.

Listo aqui alguns artistas com ótimas letras: o já citado Thiago Pethit, Rodrigo Campos, Tulipa Ruiz, Marcelo Camelo, Lirinha, Ava Rocha, Junio Barreto. Numa época em que casar e descasar é sazonal, o amor é Só Sei Dançar Com Você: “você sacou a minha esquizofrenia e maneirou na condução, toda vez que eu errava você dizia pra eu me soltar porque você me conduzia …” como canta Tulipa.

Os anos 50 foram difíceis pro amor, os 60 e 70 pra liberdade, os 80 uma espécie de compasso de espera, nos anos 90 se consolida a diversidade e agora colhemos os frutos de tudo isso. Tem poesia com profundidade e erudição nos versos de Lirinha mas também uma jovem que dança pra espantar a dor. Tem o fim da solidão de Marcelo Camelo e o amanhecer espantado com os preços da cidade de Ava Rocha. Só que é espalhado, diluido, solto por aí. Não está na televisão.

Mais que nunca é com ouvido esperto e curioso que se ouve e se descobre a boa música. Como disse uma vez Arnaldo Antunes, não tem porque termos saudades dos movimentos. O melhor é sempre o que nos emociona e de maneira geral o que mais emociona é o que nos traduz. Cada canção a seu tempo.

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brainstorming não funciona

por   /  17/11/2011  /  12:10

Bem interessante essa matéria do Wall Street Journal > Why brainstorming doesn’t work

We’ve all been there. The boardrooms with flip charts at the front of the room and candy on the table. The all-hands emergency meetings to come up with ideas to fix the latest mess. And of course, the offsites in drab hotel ballrooms that are supposed to somehow spark creativity.

Such efforts at brainstorming are well intended, of course. The problem? They rarely work. While leaders hang onto the idea that bringing together a big group of people will produce truly innovative ideas, it’s rare that actually happens.

Evidence has long shown that getting a group of people to think individually about solutions, and then combining their ideas, can be more productive than getting them to think as a group. Some people are afraid of introducing radical ideas in front of a group and don’t speak up; in other cases, the group is either too small or too big to be effective.

But according to a recently published study, the real problem may be that participants’ get stuck on each others’ ideas. On Monday, the British Psychological Society highlighted a recent study by Nicholas Kohn and Steven Smith, two researchers at the University of Texas at Arlington and Texas A&M University. They asked undergraduate students to contribute ideas for improving Texas A&M, both individually and in collective groups. They shared the ideas on a computer, either in small chat groups or alone, but combined together after the fact. As expected, the “nominal” groups, or those made up of individual ideas that were later pulled together, outperformed the real chat groups, both with the number of ideas and the diversity of them.

Kohn and Smith believed the cause might be due to “cognitive fixation,” or the concept that, when exposed to group members’ ideas, people focused on those and blocked other types of ideas from taking hold. They experimented with this by manipulating the number of ideas participants saw in their chat windows, with some getting a few cues and others getting more. Their hypothesis was right: When exposed to many cues, the undergrads offered up less creative, diverse ideas. The numbers improved when the students were given a five-minute break during the exercise.

As with all such studies, there’s plenty of pretty obvious common sense to this research. But it’s a helpful reminder of how unhelpful it can be when managers dump people in a room together, thinking it will result in creative big ideas. Somehow, a belief in the power of group brainstorming sessions persists, despite evidence that it doesn’t work. Great minds can come up with their own ideas, but sometimes the problem is they think too much alike.

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insalubridade literária

por   /  22/10/2011  /  9:35

Adoro Vanessa Barbara e adoro o blog da Companhia das Letras!

Leiam > Insalubridade literária

Chega o momento em que é preciso sentar e dizer grandes verdades, e aqui vai uma delas: antes de trabalhar como preparadora de originais para a Companhia das Letras, nos longínquos idos de 2004, fui revisora de um site de fofocas de celebridades.

É dessas coisas que fazemos por necessidade — o salário era bom, eu não tinha outra alternativa, queria juntar dinheiro para viajar e, acima de tudo, podia trabalhar em casa e tirar cochilos durante o expediente. Também me era permitido lavar o cabelo na pia enquanto revisava uma notícia qualquer sobre uma atriz que tirou meleca do nariz em horário nobre.

Tudo isso me serviu para fortalecer o espírito diante das adversidades, além de ser um bom exercício de transcendência da concretude existencial — como fazem os prisioneiros de guerra que inventam um outro mundo para poder suportar o verdadeiro. O estômago e a boa-fé literária necessários para lidar com uma notícia absolutamente sem interesse, corrigindo toneladas de erros gramaticais e reescrevendo frases inteiras sem concordância em poucos minutos, “antes que o Gugu carregue a notícia para ler no ar”, tudo isso moldou o meu caráter e me preparou para o glamoroso mundo editorial.

São de minha lavra, é claro, manchetes como “Nicole Kidman é salva por garçom astuto”, “Covinha de Ricky Martin faz sucesso na Alemanha”, “Peças íntimas de Michael Jackson são usadas pela polícia” e “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez”.

Sobre a polêmica manchete “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional”, confesso que devo ter enriquecido a narrativa com uma declaração do próprio assim traduzida: “Meus dedões, acho-os desproporcionais”. Na entrevista, o cantor revela toda a sua insegurança podal a uma apresentadora cada vez mais constrangida, numa cena que infelizmente só se passou na minha cabeça. Na sequência, Iglesias questiona a proporção áurea do corpo humano, conforme concepção difundida pelos gregos, indagando à plateia se os seus pés deveriam ter mesmo um terço do tamanho do antebraço menos dois.

Outras notícias não passavam daquilo a que se propunham nos títulos, como “Léo Áquilla faz alongamento nos cabelos”, e, portanto, eu apelava para os advérbios, mesóclises, sujeitos ocultos e adjuntos adnominais, na tênue esperança de que o leitor pudesse ao menos sair dali com a vaga impressão de ter lido alguma coisa escrita pelo Olavo Bilac.

Mas não aguentei muitos meses, pois precisaria de um bônus adicional de insalubridade, redução das horas semanais de labuta e férias trimestrais em praias desertas para poder resetar o cérebro depois de tamanha exposição ao maligno. No campo das sequelas de trabalho, além da chamada Lesão por Tortura Repetitiva, sofro até hoje de estresse pós-traumático de Páscoa, que foi quando as celebridades de todas as novelas, peças globais e reality shows deram entrevistas dizendo com quem iam passar o feriado, quantos chocolates iriam deglutir e o número exato de coelhinhos alvos que pretendiam oferecer para a imolação em um sacrifício pagão patrocinado pelo site.

Também me lembro de acompanhar toda a primeira infância da princesa Sasha, o surto filantrópico dos assessores de imprensa da Karina Bacchi e de acordar todos os dias com uma “pérola de otimismo” para revisar — pensando, evidentemente, em como são felizes os que não nasceram.

Pouco antes de pedir demissão por esgotamento mental, fiz questão de redigir minha própria notícia de despedida com base num release qualquer. Ficou assim:

* * * * *

Moscas gigantes roem celebridades em coquetel de lançamento

Na última sexta-feira, dia 19, personalidades globais reuniram-se para abrilhantar o coquetel de lançamento do longa-metragem Desta vez não será ridículo, estrelado por grandes artistas do cinema tupiniquim. Estiveram presentes os novos-ricos Fifi Guimarães, Otavinho “Dudu” Mascarenhas, Carol Ann Figueiredo e Posêidon (novo nome de Patti Vasconcellos, segundo aconselhamento do numerologista/quiroprata da família).

Na festa, famosos e emergentes divertiram-se a valer na maior piscina de bolinhas da América Latina e garantiram que, desta vez, não será ridículo. “Não será ridículo”, declarou Fifi, ofuscando os fotógrafos com seu mais recente branqueamento dental. O destaque do evento ficou para a pequena Apnéia, filha de Regininha Ula-Ula e Otavinho “Dudu” Mascarenhas (ou Juju Marcondes, ou ambos). A adocicada criança dançou ao som do hit “Intestino grosso” e lançou uma torta-merengue de limão na testa do autor da novela E eu com isso, para delírio dos fãs. Outro momento de comoção e espiritualidade ocorreu quando a modelo-atriz-jornalista-e-escritora Tata Lombardi engoliu uma bolinha e teve de ser socorrida às pressas pelo galã Neco Astolf III, que interpreta um paramédico na novela das oito.

Quando o final da festa já se aproximava e o sr. Palhares, da manutenção, começava a empilhar cadeiras e varrer o pé das celebridades, os atores tiveram uma grande ideia — decidiram se abraçar e cantar, em uníssono, o hino da Guiné-Bissau. Os jornalistas se alvoroçaram e choraram copiosamente, acotovelando-se com afeto. Na saída, todos ganharam lembrancinhas de marzipã confeccionadas pela estilista-top-produtora-atriz-e-acompanhante-de-idosos Alicinha Gomide, que vestia um modelito superdecotado nas cores verde, verde-musgo e verde-calção.

Só então as celebridades foram brutalmente atacadas por um enxame de moscas mutantes, pegajosas e autolimpantes — que só queriam a garantia de que não fosse, mais uma vez, ridículo.

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faça uma coisa de cada vez e seja múltiplo

por   /  13/10/2011  /  18:39

Sabe quando você faz uma matéria e sonha se tornar personagem dela no futuro? Pois foi isso que aconteceu comigo quando estava apurando a matéria de capa da Galileu deste mês. Junto a Priscilla Santos e Érica Kokay, fui descobrir esse mundo dos “monotaskers”, pessoas que conseguem fazer uma coisa só de cada vez _e acabam sendo mais produtivas e mais felizes.

No site da Galileu dá pra ler um trecho da matéria, que copio abaixo. Aproveitem pra comprar a revista na banca ou no iPad!

Você começa a escrever um e-mail de trabalho, mas é interrompido pelo toque do celular. Atende à ligação e, quando desliga, vê avisos de mensagens na telinha. Abre uma delas mas, antes mesmo de responder, algum colega chama você para terminar aquela conversa que começaram de manhã… E assim você vai, pulando de uma tarefa para outra. Ao final do dia, o desconforto de ter começado muitas coisas, concluído algumas e produzido bem menos do que gostaria. Vem a angústia de que sobrou muita coisa para o dia seguinte — e pouco tempo para aproveitar a vida.

Esse comportamento, comum no multitasking, estilo dos que desempenham várias tarefas ao mesmo tempo, começa aos poucos a ceder espaço a um estilo oposto: o monotasking. Ou seja: concentrar em uma coisa de cada vez com a intenção de fazer tudo bem feito, de preferência passando algum tempo longe das distrações da internet. “É uma contra-tendência, uma antítese ao excesso de informação e estímulos que vivemos”, diz Linda Stone. Para essa ex-executiva da Apple e Microsoft e uma das maiores estudiosas de atenção humana hoje, estamos deixando a era da Atenção Parcial Contínua (CPA, em inglês), em que prestamos um pouco de atenção a várias coisas o tempo inteiro, para entrar na era do unifoco, em que de fato nos concentraremos nos que estamos fazendo no momento. “Tudo que é escasso se torna valioso. A nova escassez é ter tempo para pensar e se concentrar”, afirma Henry Manson, chefe de pesquisa da agência de tendências de consumo Trendwatching, uma das maiores do mundo. “Vivemos uma aceleração do tempo: tudo tem que ser rápido, imediato. Mas não se pode ter inovação sem períodos de reflexão e preguiça”, diz a filósofa Olgária Matos, professora da USP.

O analista de sistemas Fabiano Morais, 40 anos, de Brasília, é um representante dessa tendência. Fabiano é obrigado a passar horas e horas à frente do computador por conta de seu trabalho — ele desenvolve sistemas para a web. E entende bem o significado da palavra dispersão: “É aquela fissura de saber se alguém te mencionou no Twitter ou fez um post novo no Facebook”. Como empreendia seus próprios projetos e trabalhava de casa, o empresário não sabia mais o que era horário de expediente, final de semana ou feriados. Mas reagiu a essa falta de limites, e criou espaço para folgas e diversão. “Quis comandar o ritmo da minha vida”, diz. Um exemplo: Fabiano passou a fechar o e-mail e sites tentadores enquanto executa uma tarefa. Virou adepto da yoga e de meditação para aumentar seu foco no presente.

Quando percebeu que os resultados eram positivos, acabou criando um projeto próprio em torno do tema: o Moov, um serviço na web que permite compartilhar listas de tarefas, contatos e histórico de relacionamento entre uma equipe. Fabiano coordena ainda 15 pessoas em uma empresa de tecnologia da informação e aplica em grupo os benefícios do que aprendeu. “As noites e finais de semana, agora, se transformaram em tempo livre ao lado da família.”

Mais em > http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI269848-17773,00-FACA+UMA+COISA+DE+CADA+VEZ+E+SEJA+MULTIPLO+TRECHO.html

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nova york, 2011

por   /  06/10/2011  /  21:50

E Nova York hoje é quase a mesma coisa, com a diferença de que, motivada por todos os protestos globais dos últimos meses, uma galera acampou em Wall Street e parece que só sai de lá quando alguma coisa mudar efetivamente.

Acho lindo esse tempo de esperança e mudança!

Para acomapanhar:

Occupy Wall St. > https://www.facebook.com/OccupyWallSt?ref=ts

We are the 99 percent > http://wearethe99percent.tumblr.com/

As  fotos deste post são do Street Art Utopia > http://www.streetartutopia.com/?p=4334

E, pra ouvir, o reggae da ocupação, enviado por Carol Almeida:

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sem medo de ser clarice lispector

por   /  04/10/2011  /  15:00

Ótimo texto de Isabelle Barros no excelente Suplemento Pernambuco > http://www.suplementope.com.br/

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Sem medo algum de ser Clarice Lispector, por Isabelle Barros

Praça Maciel Pinheiro, Boa Vista, centro do Recife. Lugar onde Clarice Lispector (1920-1977) passou alguns dos anos mais importantes de sua infância e a fez afirmar, em entrevista próxima à sua morte: “O Recife está todo em mim”. Para evocar a memória da moradora ilustre, o lugar abriga uma das 12 estátuas de concreto que integram o Circuito da Poesia, homenagem feita a artistas que tiveram Pernambuco como parte integrante de sua vida e obra. Esta é uma imprecisão histórica, pois a escritora jamais publicou poemas.

A Clarice de cimento está sentada, com a máquina de escrever no colo. Tem como vizinhança os trapos da lendária Juraci, moradora de rua conhecida como a Rainha do Real. Dizem os taxistas da região que, de vez em quando, ônibus escolares e turísticos fazem uma rápida parada para tirar fotos da escultura antes de seguirem viagem. A atenção atraída pela homenagem é medida por outra variável, distante do mundo literário. “Não tem aquele abajur vermelho ali, ao lado da estátua? Sempre roubam”, alertam os flanelinhas.

Era sábado de liquidação nas lojas de móveis dos arredores. No meio do burburinho, uma família de classe média fazia imagens de todos os ângulos da praça. Quem empunhava a câmera era uma mulher, de aproximadamente 40 anos, que fazia parte de um clube de fotografia chamado Amantes da Zona Norte. Pergunto se ela estaria lá também para ver a antiga casa da escritora. Ela, a princípio, nega, mas se apressa a dizer que adora a obra de Clarice e vai, sim, tirar fotos do sobrado de número 387. “Ela é muito do nosso dia-a-dia, não é?”. A frase tamborila nos ouvidos. Não deixa de ser irônico ouvir isso a respeito de uma escritora conhecida por seus saltos metafísicos, com trechos de tons epifânicos procurando tatear um espaço além da linguagem.

Mais do que qualquer outro autor da língua portuguesa, Clarice virou um fenômeno pop, ao mesmo tempo em que se transformou em uma espécie de panaceia intelectual. Sua obra, dedicada ao espanto do estar no mundo, passou a ser considerada como prova de bom gosto em presentes de aniversário ou usada em epígrafes ao final de e-mails. “Em vida, ela era admirada principalmente por intelectuais e artistas. Próximo à sua morte, também atraiu os leitores da classe media carioca que a conheceram por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil. Ela chega tão ao âmago das pessoas que nos vemos refletidos nela como em poucos escritores – até diria em nenhum escritor – que conheço. “Clarice escreveu: ‘Eu sou vós mesmos’. Então, eu diria: as pessoas esperam tudo dela. E, hoje, ela se tornou realmente um objeto de culto”, avalia o escritor e autor da biografia Clarice, Benjamin Moser.

CLARICE, A ELEITA

A profundidade e amplidão de sua literatura, junto à sua figura misteriosa, propensa a mitificações, a tornaram uma tábula rasa, sobre a qual nenhuma interpretação parece ser suficientemente absurda. Quem a lê e se deixa envolver por sua prosa quer tomá-la para si, o que acontece até hoje com intelectuais, estudantes, celebridades. Pilhas de livros tentaram compreendê-la, ligá-la ao feminismo, ao judaísmo e até ao zen-budismo. As hipóteses para decodificar esse estado de coisas são variadas. “Ela não era banal. Ucraniana, falava iídiche e teve uma vida de peripécias. Belíssima, tinha mesmo tudo para se transformar em ícone. As pessoas se identificam porque a sensibilidade dela está em um ponto entre a mulher e o homem. Ainda não há quem possa ocupar o seu lugar”, avalia a poetisa e professora de Letras da UFPE, Lucila Nogueira.

Para o crítico literário e escritor José Castello, sua morte deu curso a um processo involuntário e, ao mesmo tempo, relativamente comum a quem se destaca como artista: o de santificação. “Quando Clarice estava viva, muita gente dizia que ela era uma mulher desequilibrada, difícil, intratável até. Que escrevia uma literatura ilegível, que não passava de um transe. O que não tem relação alguma com sua grandeza como escritora. Ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa em todos os tempos, mas não foi uma mulher perfeita. Ao contrário, acentuou sempre sua humanidade e sua imperfeição. Sua literatura, em vez de explicar, abre um rombo. Ela nos deixa diante da fragilidade absoluta do existir”.

Outra razão apontada pelo interesse despertado por essa brasileira nascida na Ucrânia é a divulgação consistente de seus livros ao longo das últimas décadas. Atualmente, a editora Rocco é a única dona dos direitos de publicação de seu material, o que facilita as reedições. “É preciso lembrar uma coisa: a obra de Clarice Lispector sempre teve repercussão significativa. Ela mesma declarou ter recebido muitas cartas e telefonemas dos leitores. O investimento em publicações após sua morte, as inúmeras adaptações de sua obra para o teatro e o cinema e a organização de exposições também ajudaram a mantê-la em evidência”, sentencia a pesquisadora Teresa Montero, autora da biografia Eu sou uma Pergunta, lançada em 1999, e organizadora de seis dessas edições póstumas. “A ampliação dos meios de comunicação também tornaram possível uma circulação mais rápida de seus livros”, emenda.

O resultado disso é uma constante renovação dos leitores, o que a reveste de uma característica adicional. “Ela é muito lida por adolescentes entre 15 e 20 anos, mas continua sendo procurada após essa fase da vida, ao contrário de outros criadores. Quem cai de amores, vai lê-la sempre, o que não ocorre com outros autores de romances de formação”, observa o professor de Letras da UFPE, Anco Márcio. “É como se o escritor criasse uma ambiência, um modo de estar no mundo talvez almejado pelo leitor. A literatura revela o mundo e Clarice tinha essa consciência”.

CLARICE E A INTERNET

A internet opera um papel especial – e ambíguo – com relação ao legado da autora de A hora da estrela. Frases retiradas de contexto se tornaram aforismos a serem pinçados de sites, onde disputam espaço com anúncios de compras coletivas e de encontros amorosos. Trechos das obras se multiplicam em redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook, vocalizando os mais diversos estados de espírito para pessoas as mais surpreendentes.

Um exemplo curioso é o da autointitulada atriz, apresentadora e empresária Ângela Bismarchi. Conhecida por suas apresentações no Carnaval carioca e pelas especulações sobre quantas vezes já passou por cirurgias plásticas, ela citou a escritora em seu perfil no Twitter. “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”. Perguntei se ela já havia lido algum livro de Clarice Lispector, mas não houve resposta. “Acho que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo. É uma carência das pessoas. Vivemos numa época muito impessoal. E essa obra tão singular é dada a frases lapidares, então é possível fragmentar sua obra dessa forma”, diz Lucila.

No dia 1º de setembro, foram colocados mais alguns tijolos no muro de admiração construído em torno da imagem da escritora. A partir de uma coluna do jornal O Globo, espalhou-se o boato de que a atriz Meryl Streep viveria Clarice no cinema. A “barriga” repercutiu nos meios de comunicação do país inteiro e entrou nos trending topics do Twitter, com reações variando entre a histeria (“Seria a glória!”) e o enfado (“Já pode dar block nesse filme?”). Difícil foi ficar indiferente. “Acho que devemos colocar isso como mais um exemplo da ‘lenda de Clarice Lispector’. Só fiquei sabendo pelo filho dela, que viu essa história no jornal e teve de passar dias e dias desmentindo. Acho fascinante ver como sua obra tem se expandido depois de sua morte, como se ela ainda escrevesse”, pontua Moser.

É fácil encontrar quem se disponha a espalhar pílulas de Clarice em 140 caracteres. Pululam no Twitter perfis como @FrasesdeClarice, @C_Lispector, @clariclispector e afins. O mais popular deles, @clalispector, tem pouco mais de 159 mil seguidores e foi criado por Lucas Freire, designer, escritor em formação e mantenedor do blog Conversa oca. “As frases que eu posto tem, em média, mais de 500 retweets. As que contêm as palavras ‘amor’ ou ‘paixão’ são sempre as mais populares, mas não acho isso bom. A maioria das pessoas não separa um minuto para prestar atenção, tentar captar o que aquilo representa. Parece inacreditável, mas muita gente quer entrar em contato com a Clarice Lispector em pessoa, e não comigo. Há até quem responda ‘eu te amo’. Tenho de relembrar várias vezes aos seguidores da minha conta que ela morreu há mais de 30 anos, e quem tuíta sou eu, um leitor”.

Entre os sites de divulgação feitos por admiradores, o mais acessado é o blog Clarice Lispector, alimentado pela historiadora e poetisa Keidy Costa, de Natal. A página tem mais de 500 mil pageviews e uma média de 1300 visitas diárias. A ideia é reunir tudo o que Clarice escreveu para uso pessoal. “O conteúdo reflete a minha disponibilidade de tempo, o livro que leio no momento e a necessidade de levar ao conhecimento público um trecho de uma obra que deixo de citar por muito tempo”. Embora acredite que gostar de Clarice se tornou moda, ela não acredita que a obra dela se torne “gasta” algum dia. “Sempre há alguém querendo se libertar por meio de seus escritos. O importante é as pessoas desenvolverem o hábito de lê-la, seja algumas frases ou a obra inteira”.

A escritora dispõe de outros indicadores de popularidade mais controversos, como a profusão de escritos atribuídos a ela cuja autenticidade é duvidosa. Para verificar isso, basta digitar “Clarice Lispector poemas” em qualquer site de busca. Um dos links tem como resultado os versos “Não te amo mais / Estarei mentindo dizendo que / Ainda te quero como sempre quis”, com a indicação de leitura na ordem inversa. Não é preciso ler mais para descartar a suposição de autoria. “Uma das maiores deferências que se pode fazer a um escritor é colocar o nome dele em algo feito por outros. É como se o apropriador dissesse: eu não mostro minha cara, mas digo tudo o que tenho para dizer por meio desse artista”, observa Anco.

NÃO ESTOU LÁ
Em certos casos, a atenção dispensada à obra de Clarice chega às raias da falsidade ideológica, como ilustra uma experiência vivida por Moser. “Alguém no Pará tentou me vender uma segunda edição autografada de
A hora da estrela. Achei muito interessante, pois a primeira foi publicada semanas antes da morte de Clarice. Tenho um desses raríssimos livros autografados. Mas, para mim, a segunda edição seria mais rara ainda, pois não sabia de nenhuma reimpressão feita antes de sua morte”. Para se garantir, o biógrafo pediu uma foto da dedicatória e da página de copyright. “Lá, havia o seguinte: ‘Lispector, Clarice, 1925-1977 … José Olympio, 1978.’. Ela estava autografando livros depois de sua morte! Por um lado, essa fraude é muito séria, ainda que malfeita, mas é possível ver esse caso como uma perversa homenagem”.

A ânsia em ver Clarice mesmo onde ela não existe levou até a pendengas judiciais. Em 1997, o empresário e escritor Edson Marques diz ter escrito o poema Mude, atribuído posteriormente a autores tão díspares quanto Pedro Bial, Paulo Coelho, Cecília Meireles e também à caçula da família Lispector. “O que pode ter levado as pessoas a supor que meu poema é ‘de Clarice’, imagino, é que ambos escrevemos bem. E que ambos, cada um a seu modo, somos existencialistas. Os temas dela são o amor e a liberdade, a solidão e o nada. E as pessoas geralmente gostam disso. Vistos de bem perto, nossos estilos não se parecem, mas, no fundo, sinto-me altamente lisonjeado por ser ‘confundido’ com ela”.

Mas, em 2001, quando os versos foram declamados no comercial de uma montadora, o autor entrou com uma ação contra o filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, que supostamente teria vendido os direitos à agência de publicidade que detinha a conta da multinacional. A ação está em segunda instância. Na primeira, o ganho de causa foi de Edson. “A maioria dos leitores de Clarice não acredita que sou eu o autor, mesmo depois de ter publicado o registro na Biblioteca Nacional. Seus fãs se recusam a supor que tal poema não seja dela”. Mesmo que a escritora tivesse, algum dia, escrito poemas, a leitura rápida de dois versos não deixa margem a especulações estilísticas. “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. / Só o que está morto não muda”.

CLARICE E A HISTERIA

Se os livros de Clarice pedem a renúncia à ideia de um cotidiano plácido para dar lugar à intensidade da experiência humana, o efeito que sua obra causa em seus leitores dá margem a reações exaltadas. É famoso o episódio no qual a cantora Maria Bethânia, contrariando sua postura reservada, se curvou diante de Clarice e exclamou “minha deusa!”, para desgosto da escritora. Outro exemplo é um comentário retirado da postagem de uma entrevista de Clarice Lispector no YouTube. “Não se gosta de Clarice como se gosta de abacaxi! Você não gosta de Clarice, você ama Clarice! Você não entende Clarice, você sente Clarice!”. Doze pessoas “curtiram” essa observação no site. “Vivemos uma era de tecnologia avançada, mas nosso fascínio pelos mitos se parece com o dos homens primitivos. Muitos adotam Clarice como Grande Mãe, outros a odeiam como uma bruxa doida. As duas posições conduzem à mesma cegueira diante de Clarice e de sua obra. A propósito, a literatura dela fala justamente disso. É uma questão de lê-la com atenção, sem idealização”, reflete Castello.

Tanta paparicação de seus leitores também dá margem a reações de desagrado, embora Clarice esteja em uma situação próxima da unanimidade. “Vejo certa irritação na área de Letras, pois ela é uma das escritoras mais lidas e, ao mesmo tempo, faz parte de uma vanguarda. Ainda vivemos em um país muito machista, e pessoas de visão conservadora talvez se chateiem com seus textos”, opina Lucila. Segundo a poetisa, é surpreendente que ela seja bem aceita em um país como o Brasil, onde a expressão mais adotada é o realismo, situação muito diferente do resto da América Latina. “Basta ver qual é o maior escritor brasileiro vivo: Rubem Fonseca. Clarice, por sua vez, não pode ser chamada de realista”.

Não à toa, quem se identifica com a autora se dá o nome de “clariciano” ou “clariciana”, como se fosse membro de um universo à parte, uma comunidade secreta. Para Castello, Clarice é vítima de muitos preconceitos. Eles começam não com seus inimigos, mas com seus admiradores. “Alguns a leem como uma filósofa, outros como uma bruxa, outros ainda como um mestre. Ou seja: congelam suas ideias, transformam-nas em ‘lições’, reduzem-na a meia dúzia de chavões. Mas transformá-la em mestre das grandes respostas é recusá-la, é não ler o que ela escreveu”.

Muitas vezes, essa leitura redutora ou incompleta não é privilégio duvidoso de neófitos ou desavisados. “A impressão geral é de que ninguém entende o que ela de fato escreveu, exceto os textos mais elementares, como Laços de família. A paixão segundo G.H e Água viva já são outra história. Durante uma das minhas aulas, perguntei a meus alunos sobre o que esse último livro tratava e ninguém soube responder”, recorda Lucila.

Castello argumenta que Clarice foi um gênio e eles são, quase sempre, reduzidos a imagens grandiosas e fixas. E que a literatura dela não foi feita para jogos de espíritos de intelectuais, ou divertimentos para beiras de piscinas e salas de espera de aviões. “Isso mata seu pensamento e a mata pela segunda vez. Ela coloca-nos diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e ‘sem solução’. Mas as pessoas, em geral, não suportam isso, então a transformam numa autora de frases do ‘bem viver’ e assumem o papel de seguidores. Formam-se comunidades, séquitos, clubes. Ela odiaria tudo isso”.

Dona de uma obra que devassa o íntimo do leitor, como se o atravessasse, Clarice paira acima da vida e da morte para seus leitores, para o bem e para o mal. Uma pista sobre o que Clarice realmente pensaria de toda a atenção em torno de si após sua morte estaria em seus textos, como nas palavras escritas em Um sopro de vida (Pulsações), da fase final de sua carreira. “Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro da vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acabará bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fieis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso, então, descansar”.

Isabelle Barros é jornalista e mestranda em Comunicação Social

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tricô na revista sãopaulo

por   /  14/08/2011  /  18:00

A edição de hoje da revista sãopaulo mostra a nova moda da cidade: fazer tricô. A capa ficou linda, né?  O conteúdo também! =)

Leiam a reportagem > http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/

E vejam o vídeo feito pela TV Folha > http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/958305-fazer-trico-e-a-nova-mania-em-sao-paulo.shtml