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fratura exposta, por diogo bercito

por   /  26/09/2010  /  21:06

Roubo, por Diogo Bercito

O roubo é uma ação extensa.

Carros podem ser roubados, por exemplo, e é sorte minha que eu não tenha um. Já celulares tive um monte, e vários deles foram embora de bicicleta, na Avenida Paulista.

Minha casa foi uma das primeiras a serem assaltadas no meu bairro, lá na década de 90. Os ladrões, paspalhos, levaram o relógio falso da gaveta de papai e deixaram o verdadeiro para trás, testemunha metálica do furto.

Nem é preciso falar que corações também podem ser roubados de seus donos. Às vezes, nunca são devolvidos. Em outros casos é sequestro duradouro, mas com data de validade, e o que resta é o trauma dos anos de cativeiro.

Já estive lá e voltei para provar que há, sim, vida depois do amor. Foi a Cher quem me perguntou isso, na letra de “Believe”, e lhe respondi em pensamento.

Do que me roubaram, porém, uma das perdas de que mais me ressinto é imaterial. É sentimento de posse sob uma coisa que nem era minha.

Ao fim do primeiro mês de namoro, dei uma frase de presente à minha ex-cara-metade. “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi”, dizia um sedutor Tancredi em “O Leopardo”, livro do italiano Tomasi di Lampedusa. Apaixonado, apresentei-lhe a citação e, assim, de certa maneira fiz dela minha.

Se queremos que as coisas fiquem como estão, é preciso que tudo mude. Eu segui essa frase como um mantra.

Já estamos separados há mais de um ano, e recentemente não resisti e aceitei seu pedido de amizade no Facebook. No mural de recados, li a frase que era minha. Roubada de mim e reapresentada como se fosse espontânea.

A frase que eu, antes, tinha roubado do Lampedusa.

Eu, que tanto quis que as coisas entre nós dois tivessem ficado como estavam.

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A foto é do filme “O Leopardo”

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Fratura Exposta é uma seção colaborativa do Don’t Touch. Então, se você quer escrever sobre as coisas do coração, manda um e-mail pra mim! > dani@donttouchmymoleskine.com

6 Comentários Deixe seu Comentário

  • Carolina • 27.09.2010 @ 16:01 responder

    Diogo, roubei a frase também. Vou levar pros amores, pra vida.

  • Kelly • 27.09.2010 @ 16:31 responder

    Adorei!

  • Anita • 28.09.2010 @ 17:44 responder

    Normalmente nunca comento, mas não resisti. Fui roubada também, tão vergonhosamente roubada que quase fiquei sem nada.

    Agora vejo um pavão “encantando” um projeto de Anita bobinha há anos atrás com AS MINHAS PALAVRAS, com os meus textos, as minha músicas, filmes favoritos, as minhas piadas, eu mesma.
    Babaca.

  • Anita • 28.09.2010 @ 19:29 responder

    Uma vez, emprestei “O Estrangeiro” do Albert Camus pra ele. Ele não gostava de ler, mas o leu. Agora ele tá na comunidade do orkut do Albert Camus.
    Tendo lido só um livro. Não conhecendo mais nenhuma obra. Detestando ler. Pra impressionar menininha.

  • Chico Felitti • 28.09.2010 @ 22:10 responder

    Lágrima gorda, meu

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