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e-mails longos como cartas

por   /  28/02/2012  /  9:05

Cartas, por André Laurentino > http://andrelaurentino.blogspot.com/

Descobri um jeito de encher o saco dos amigos à distância. Escrevo cartas. Não são cartas, mas e-mails longos, do tamanho de cartas. Por enquanto, escolhi poucas vítimas. Duas delas responderam curtamente e só depois de mais e-mails meus cobrando resposta. Eu encho mesmo.

Chega então a questão: o que contar nesses e-mails? Acabo de ler no Facebook (o editor me pede que esclareça aos leitores vindos de Marte: Facebook é uma rede social hospedada na conhecida rede mundial de computadores), acabo de ler ali que um amigo comeu um sanduíche de presunto. Vi a foto. Outro avisa que curtiu o clipe do Michel Teló. E assim chegam notícias de todos a cada passo de suas vidas. Não sobra muito para as cartas.

Acontece que li um livro (o editor pede que esclareça aos leitores mais jovens: livro é um códice. Códice é um Kindle off-line) mas ia dizendo: li um livro com cartas do Otto Lara Resende quando ele vivia na Europa. Deu vontade de ser Otto (já quis ser Oscar Niemeyer, Caetano Veloso, Tom Jobim, Quino, Al Hirschfeld e Alécio de Andrade). Não tendo o talento do Otto, quem sabe poderia ter as cartas. Passei a mandar os e-mails, que chegam rápido e não me obrigam a comprar selos. Contei tudo, e mais um pouco. Por mais trivial que fosse o detalhe, ou mais longo e desfocado que fosse o parêntese, eu não censurava. Carta é carta. Condensei em meus e-mails dez páginas de atualizações de Facebook e suas banalidades, cuidando para não cair em literatices nem fazer pose de sub-mineiro. Mas parei.

Faltou-me também disposição. Ser Otto não é para qualquer um. Ele chegou a ir à embaixada aos sábados só para escrever carta. Outra vez, a filha com febre, querendo dormir, e ele sapateando na máquina de escrever pela noite. Eu, que digito em silêncio, devo uma missiva a um amigo do Rio, como os amigos do Otto deviam a ele.

Mas essa dívida eu pago. Dar conta da vida está mais rápido e fácil, e mais complicado. Há que se atualizar o Twitter, o Instagram, o Facebook, o Linkedin (o editor pede, mas dessa vez mando todos ao Google. Ah, sim: Google é o taxista do seu computador, sabe de tudo). Mando o e-mail ainda hoje. Nem que seja só o P.S.

6 Comentários Deixe seu Comentário

  • natalia • 28.02.2012 @ 21:39 responder

    quando eu era criança tinha o costume de mandar cartas para minhas amigas durante as férias. na epoca existia o telefone, porem a sensação de receber uma carta escrita, com emoções recem lançadas me deixavam emocionada, mesmo que os assuntos fossem sem grande importancia. Para mim, o mais legal era manter viva essa comunicação tão antiga com ar pessoal! parabens pelo texto!

  • na • 29.02.2012 @ 12:23 responder

    a delícia da carta está muito na espera e no momento de rasgar o envelope com cuidado para não rascar o conteúdo.
    cheguei a ter 7 endereços diferentes para enviar cartas todas as semanas. todos amigos de longe, que apesar da existência do ICQ, adoravam escrever com a mão coisas despretensiosas que faziam a vez da demonstração de carinho.
    mas confesso: ainda hoje, acho uma delícia trocar cartinhas ou bilhetes com o namorado e os amigos.

  • carol • 1.03.2012 @ 17:34 responder

    já troquei cartas no papel e hoje em dia troco cartas pela internet.
    lógico que nao tem a delicia de rasgar o envelope, a intimidade da caligrafia do outro. mas tem a praticidade de chegar na hora, nunca extraviar, mandar fotos facilmente, links, filmes e o que mais a internet pode dar.
    mas ainda assim, sao cartas. uma vez por semana pelo menos. e é a coisa mais gostosa do mundo. eu passo uma semana inteira pensando no que vou contar ao outro. em como vou contar.
    e quando entro no meu e mail e vejo que uma nova “correspondencia” chegou a mim. dá aquele friozinho na barriga, aquele sorriso no rosto de nao se aguentar pra ler as noticias que vieram do outro lado do mundo. mas é verdade, nao sao todos que conseguem fazer isso. já tentei com diversos amigos e com alguns mais que amigos também. é preciso escolher a pessoa certa, esse é o segredo.
    seja no papel, seja no email.

  • Vanessa • 8.03.2012 @ 13:09 responder

    Lembro de quando aprendemos a mandar cartas e fiquei tão triste quando não recebi nenhuma na escola e eu havia enviado duas. Mas depois a vida me compensou, com cartas de amigos de cidades diferentes, ou mesmo da mesma cidade, de Estados diferentes. No mínimo interessante. Saudade… Saudade de ver aquele envelopinho cheio de selos, envelopes coloridos, a primeira carta de alguém surpreendendo com as novidades mil dentro dela. Talvez nem era tanto, mas só de saber que a pessoa se deu ao trabalho de te escrever… Era tão boa a sensação. A falta de tempo se tornou escassa essa troca gostosa. Confesso que antes não entendia, achava que tempo era a gente que fazia e que era conversa isso de não ter tempo para escrever, mas hoje entendo que não é bem por aí e muita gente sente falta dessa troca, mas a vida se encarrega de nos dar outras tarefas para colocar no lugar e preencher o vazio que antes ficava o lugar vago das cartas que deixavam de chegar… É sempre muito gostoso abrir um envelope ainda hoje. Muito gostoso!

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